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terça-feira, 27 de março de 2007

Emissão #40 - 31 Março 2007

A 40ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 31 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 4 de Abril, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (21 e 25 de Abril) nos horários atrás indicados.

"Mesk Elil", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi

A abrir a emissão, Souad Massic com “Mesk Elil” (Madressilva), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que desde 1999 vive exilada em França, recusa-se a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tendo enveredado pelo raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste trabalho. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto, Souad Massi reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a infância na Argélia e que por essa razão baptizaria o seu terceiro trabalho. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"Freestyle Folk", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
As músicas do mundo prosseguem com os sevilhanos Rarefolk e o tema “Freestyle Folk”, retirado do álbum “Natural Fractals”, lançado em 2006. Quarto e último trabalho dos pioneiros, precisamente, do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da música electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial do violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e em que começaram a ter uma formação estável.

"Tbilisi", Kepa Junkera (Espanha) - basque folk
Kepa Junkera regressa ao programa com “Tbilisi” (capital da Geórgia), tema extraído do seu último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais intimista e elaborado, o músico leva-nos numa viagem por algumas das cidades e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali, Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck, Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses Júlio Pereira e Dulce Pontes.

"Sarama", Amadou & Mariam (Mali) - afropop blues
A jornada continua agora com a dupla Amadou & Mariam, que nos traz o tema “Sarama” (A Charmosa), retirado do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara), editado em 2002. Um afropop blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. Naquela que é a mais roqueira pop africana, não faltam as habituais alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.

"Enoralehu", Gigi (Etiópia) - world fusion, afrofunk
Viagem até à Etiópia com Gigi e o tema “Enoralehu”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Borman", Akli D (Argélia) - chaâbi, mbalax, folk, blues, rock
Segue-se Akli D com “Borman”, tema integrante do seu segundo álbum “Ma Yela” (Se Houvesse), editado em 2006. Um trabalho rico em misturas étnicas, onde se fala de paz, fraternidade e amor. Se no primeiro disco o compositor argelino enfatizava as suas raízes culturais e reivindicações políticas, neste alarga o espectro musical, abrindo-se ao mundo. Poético, político e tradicional, Akli Dehlis combina o chaâbi do norte de África com as tradições folk da região rural de Kabylie, misturando-os com canções americanas de intervenção, com os blues do Mississippi ou com o mbalax, a moderna pop senegalesa. Akli D nasceu em Kerouan, pequena cidade da Cabília, região montanhosa do norte da Argélia. Ele é um amazigh, o povo pré-islâmico que durante séculos habitou a costa sul mediterrânica desde o Egipto ao Atlântico, e que foi alvo de repressão armada ao exigir o reconhecimento oficial das línguas berberes naquele país. Exilado em Paris a partir da década de 80, tornou-se um músico de rua e do metro, acabando por experimentar géneros musicais como os blues, o rock, o reggae ou a folk. Mais tarde, Akli D muda-se para São Francisco, chegando a viver algum tempo na Irlanda. Pelo meio, acompanhou o duo feminino El Djazira e formou o grupo Les Rebeuhs des Bois, o qual tocava nos cafés e clubes de Paris. Foi num destes espaços em que ocorriam encontros musicais espontâneos levados a cabo pelas comunidades árabes e africanas que Akli D conheceu Manu Chao, produtor deste seu último trabalho.

"Kifache Rah", Rachid Taha (Argélia) - chaâbi, raï, rock, punk, techno

Rachid Taha traz-nos “Kifache Rah” (Como Passou Perto), tema retirado do álbum “Diwan 2”, lançado no ano passado. Um regresso às origens, oito anos depois da primeira série, com arranjos e interpretações de temas magrebinos e árabes, numa homenagem às baladas e canções de músicos da sua infância como Blaoui Houari, estrela argelina da década de 1950, ou Mohamed Mazouni. São clássicos actualizados num álbum gravado em Londres, Paris e Cairo e de novo produzido por Steve Hillage, onde têm destaque instrumentos tradicionais como a gasba (espécie de flauta magrebina) ou o guellal (pequeno tambor). Rachid Taha nasceu na cidade costeira de Oran, na Argélia, mas emigrou muito cedo com a família para França. Alsácia e Vosges foram os primeiros destinos do músico hoje residente em Paris, cidade onde começou a sua carreira a solo. Em 1981, enquanto vivia em Lyon, Rachid Taha conheceu Mohammed e Moktar Amini. Foi então que os três, juntamente com Djamel Dif e Eric Vaquer, formaram a banda de rock “Carte de Séjour” (“autorização de residência”). Um nome nada inocente, que faz referência à crescente movimentação dos descendentes dos imigrantes argelinos, que na época começavam a reclamar por um maior espaço de intervenção na sociedade francesa. Popular e polémico, Rachid Taha mistura o rock urbano com a música tradicional do oriente, cantando em árabe. Nas suas influências destacam-se sobretudo o chaâbi e o raï, géneros que cruzou não só com sons africanos e europeus, mas também com o rock, o punk ou o techno. Rachid Taha não deixa ninguém indiferente, já que ao longo de mais de duas décadas se tem batido pela defesa da democracia e da tolerância e pela luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, sem esquecer a guerra contra a pobreza, o medo e os fundamentalismos árabes.

"Décollage", Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) - electro-tango

A fechar o programa, despedimo-nos com os Bajofondo Tango Club e o tema “Décollage”, retirado do álbum “Supervielle”, lançado em 2004. A Argentina e o Uruguai estão separados pelo Rio de la Plata mas unidos pela melancolia e nostalgia do tango. Produtores, músicos e cantores dos dois países decidiram então juntar-se para misturar o tango com diversos estilos electrónicos, recuperando o espírito da música rioplatense entre as décadas de 30 e 60. O projecto, criado em 2001 pelos produtores Juan Campodónico e Gustavo Santaolalla, recorre ao trip hop, ao house, ao chill out ou ao drum & bass, ritmos electrónicos que acabaram por reinventar o tango, transformando-o num drama dançável. Dos Bajofondo Tango Club fazem ainda parte Martín Ferrés, Verónica Loza, Javier Casalla e Gabriel Casacuberta. À formação ao vivo juntam-se também Luciano Supervielle, Jorge Drexler, Juan Blas Caballero, Didi Gutman, Adrian Laies, Emilio Kauderer, Cristobal Repetto, Diego Vainer e Adriana Varela.

Jorge Costa

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Emissão #34 - 6 Janeiro 2007

A 34ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 6 de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 8 de Janeiro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (27 e 29 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Natural Fractals", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os sevilhanos Rarefolk a inaugurarem a emissão com o tema “Natural Fractals”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2006. Quarto e último trabalho dos pioneiros do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial do violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e começaram a ter uma formação estável.

"Ataun", Kepa Junkera
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com Kepa Junkera que nos traz “Ataun”, tema retirado do seu último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais intimista e elaborado, Kepa Junkera leva-nos numa viagem por algumas das cidades e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali, Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck, Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses Júlio Pereira e Dulce Pontes.

"Homer's Reel", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
Os escoceses Capercaillie de novo no programa, desta feita com o tema “Homer's Reel”, extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Semena-Wrock", Gigi
(Etiópia) - world fusion, afrofunk
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Semena-Wrock”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Le Pays Va Mal", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
Tiken Jah Fakoly trouxe-nos o tema "Le Pays Va Mal", extraído do álbum “Françafrique”, gravado em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as colaborações de Anthony B, U-Roy e Yaniss Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no norte da Costa do Marfim, Guiné-Conacri, Mali e Burkina-Faso.

"Shubra", Natacha Atlas
(Bélgica) - ethno pop, electro, chaâbi
A jornada musical prossegue com Natacha Atlas, que nos apresenta o tema “Shubra”, retirado do álbum “Ayeshteni” (Tu Dás-me Vida), editado em 2001. Trabalho produzido e gravado na cidade do Cairo, no Egipto, e em que também participou o anglo-indiano Nitin Sawhney. A diva do ethno pop mistura as sonoridades tradicionais do Médio Oriente e do norte de África com a pop e a música electrónica. São sons onde não falta a influência do clássico chaâbi mas, como ela própria diz, menos entediante e mais mal comportado. Dona de uma voz poderosa e sedutora, Natacha Atlas cria um sinuoso e hipnótico canto, acompanhado por batidas trip hop e incursões pelo house ou o drum ‘n’ bass. A maior parte do seu repertório é interpretado em árabe, mas ela também canta em inglês, francês e castelhano. Filha de mãe inglesa e pai egípcio, Natacha Atlas nasceu na capital belga, mas as suas raízes estendem-se ainda à Palestina e a Marrocos. Até aos oito anos, ela viveu no bairro muçulmano de Bruxelas, altura em que a sua mãe, depois de se ter divorciado, decidiu mudar-se com os filhos para Northampton, na Inglaterra. A partir dos dezasseis anos, Natacha começa a envolver-se em pequenos projectos musicais e a viajar pela Turquia e Grécia, países onde trabalharia como dançarina do ventre. No início dos anos 90 integra como solista os Transglobal Underground, grupo inglês pioneiro em fundir elementos da música tradicional árabe, africana e hindu com elementos da música electrónica, ocupando o lugar de vocalista e dançarina. Da sua carreira faz também parte a passagem pelos Invaders of the Earth, grupo de Jah Wobble. Em 2001, Natacha Atlas foi nomeada pelas Nações Unidas Embaixadora para a Boa Vontade no âmbito da Conferência Internacional contra o Racismo. O público brasileiro e português certamente se lembrará da sua participação num capítulo da novela da Globo "O Clone", em que a cantora se interpreta a si mesma, cantando e dançando.

"Khalouni", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
De regresso ao programa, Souad Massi apresenta-nos “Khalouni" (Deixa-me), uma mistura ibérica e norte-africana onde se evocam as raízes do raï e onde a jovem canta lado a lado com Rabah Kaifa. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado em 2005. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"Tuva Rock",
Yat-Kha (Rússia) - tuva rock, punk-folk
A fechar o programa, despedimo-nos com os Yat-Kha, que nos trazem o tema "Amdy Bayp", extraído do álbum "Tuva Rock", editado em 2005. Esta banda originária da república russa de Tuva (região situada a sudoeste da Sibéria) foi fundada em Moscovo em 1991 pelo vocalista e guitarrista Albert Kuvezin e pelo compositor electrónico russo Ivan Sokolovsky. Farto de cantar temas xamânicos em grupos típicos como os Huun-Huur-Tu, Kuvezin decidiu então juntar a música moderna do Ocidente com a tradicional do seu país. O duo adoptou o nome de Yat-Kha (lê-se iát-rá), em alusão a uma espécie de pequena cítara da Ásia central semelhante à guzheng chinesa. Aos instrumentos tradicionais juntam-se então as guitarras eléctricas, os instrumentos electrónicos e outros inventados pelo grupo. Com a energia do rock, a banda rejuvenesceu uma das mais extraordinárias tradições vocais do mundo, criando distorções e dissonâncias que se aproximam do punk e do metal. As melodias e ritmos são acompanhados pelas três vocalizações básicas do canto polifónico da Tuva: o khoomei, o kargyraa e o sygyt. Técnica outrora muito utilizada pelos povos da Ásia central para imitar os sons da natureza, e em que uma única voz consegue emitir várias notas em simultâneo.

Jorge Costa

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Emissão #24 - 2 Setembro 2006

A 24ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 2 de Setembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 4 de Setembro, entre as 19 e as 20 horas.

Uma edição em que mais uma vez se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas árabes e orientais que até agora passaram neste programa. Eis a listagem:

"Mahli [Remix]", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï

Lemen, Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi

"Leiley [Transglobal Underground Remix]", Dania (Líbano) - arabic music

"Ne Me Jugez Pas [Volodia Remix]", Sawt el Atlas (Marrocos) - raï funk


"Mani", Cheba Fadela & Cheb Sahraoui (Argélia) - raï-pop

"L'Histoire", Cheb Tarik (Argélia) - raï hip hop, reggae

"N'Kodo", Djamel Laroussi (Argélia) - rap, raï


"Paisa", Manak-E (Reino Unido) - bhangra, punjabi music

"Rail Gaddi", Four For a Kind (Reino Unido) - bhangra

"Red Sun", Anoushka Shankar (Índia) - indian music

"Jumpin'Jack Flash", Ananda Shankar (Índia) - indian funk, chill-out

"Shiva's Daughter", Arling & Cameron (Holanda) - pop, drum'n'bass, bossa nova

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Emissão #21 - 12 Agosto 2006

A 21ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 12 de Agosto, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 14 de Agosto, entre as 19 e as 20 horas.

Uma edição em que se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor dos melhores temas do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Jani El Hob", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music

"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi

"We Were Gonna", Dengue Fever (Cambodja, EUA) - khmer rock, cambodian folk, pop

"Nafiya", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music

"La Realité", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues

"Domingo Ferreiro", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk

"Galicia", Urban Trad (Bélgica) - techno folk

"Kamppi", Maria Kalaniemi & Aldargaz (Finlândia) - finnish folk, jazz, rock, pop

"Tuulilta Tuleva", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock

"Pena", Šaban Bajramović (Sérvia) - gypsy music

"Listopad", Haydamaky (Ucrânia) - carpathian ska, ukranian dub machine, hutzul punk

"Venus Nabalera", Mau Mau (Itália) - folk-rock, latin rock

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Emissão #19 - 29 Julho 2006

A 19ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 29 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 31 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Vihma",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
As Värttinä, que mais logo (sábado) vão estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, a abrirem a emissão com “Vihma” (Granizo), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1998. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. Alguns temas deste sétimo disco das Värttinä incluem também cantos da república russa de Tuva. O grupo, que nasceu em Raakkylaa, é hoje formado pelas vozes enérgicas e harmónicas de Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida e o mesmo vigor e calor vocal de sempre.

"O Fim da Picada",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que esta semana também estiveram no Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “O Fim da Picada”, tema extraído do seu último trabalho “Sátiro”, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo fado. São convidados Mafalda Arnauth, que canta um poema de Florbela Espanca, e o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se para isso nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares.

"Montañés",
Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os Rarefolk trazem-nos o tema “Montañés”, extraído de “Unimaverse” (um jogo de palavras entre os conceitos de unidade e universo), terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, onde a banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. Os Rarefolk começaram por fazer folk num estilo puro, mas pouco a pouco foram renovando não só a banda mas também a sua visão, fundindo influências do norte da Europa e do norte de África e submergindo-se num novo universo de estilos e ritmos. Depois de se terem dado a conhecer como Os Carallos na exposição mundial de Sevilha, em 1992, uma editora recém-criada oferece-se para editar o seu primeiro disco. Mais tarde criavam a “Fusión Art”, gravando eles próprios e de forma artesanal o álbum “Unimaverse”. Um trabalho ousado e experimental em que recuperam muita da frescura e simplicidade inicial. Nele participam a violinista escocesa Michelle McGregor e o percursionista senegalês Sidi Samb – este último responsável pelas letras do grupo, interpretadas em castelhano, francês e wolof (dialecto do Senegal) –, e músicos como DJ Abogado del Diablo (Narco), Andreas Lutz (O’Funkillo) e a senegalesa Fátuo Diou.

"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
Segue-se Souad Massi com “Ilham” (Inspiração), tema onde esta evoca as suas raízes berberes e a música tuaregue. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado no ano passado. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"N'Ta Goudami", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
A argelina Cheikha Rimitti (falecida no passado mês de Maio, aos 83 anos) com o tema “N’Ta Goudami”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina.

"M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
A jornada prossegue com Cheik Lô e o tema “N’Jariñu Garab” (A Árvore). Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina-Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), editado em 1999, Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.

"Nafiya", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
Atrás Mory Kanté, um dos mais conhecidos cantores e multi-instrumentistas africanos. Ele trouxe-nos “Nafiya” (Pessoas Más), um tema sarcástico contra a falta de entreajuda entre o povo africano, extraído do álbum “Sabou” (Causa). Um trabalho lançado em 2004 e que mistura sons contemporâneos e tradicionais, fundindo melodias griot e batidas funk. Sem abandonar a guitarra acústica e o estilo eléctrico, Mory Kanté regressa às suas raízes guienenses com um álbum acústico dominado por instrumentos tradicionais africanos como a kora (espécie de harpa) e o balafon (espécie de xilofone africano), quase sempre tocados por ele. Ao fazê-lo, segue o exemplo de Youssou N’Dour e Salif Keita que, para fazerem álbuns mais tradicionais, abandonaram estilos orientados para a pop. Neste trabalho, o músico é acompanhado por coros femininos, onde se apresentam vozes como Mariamagbe Mama Keita, e por um painel de luxo de instrumentistas como o flautista africano Babagalle Kante. Natural da Guiné-Conacri e herdeiro da tradição dos griots, Mory Kanté tornou-se conhecido ao juntar-se na década de 70 à Rail Band, de Bamako, no Mali, grupo cujo som combinava o funk e a música tradicional. O estrelato viria nos anos 80 quando o músico se mudou para Paris. Em 1987, com a edição em França do seu terceiro álbum, o funk mandingo de Kanté triunfava finalmente. Graças à música “Yéké Yéké”, ele foi o primeiro artista africano a vender um milhão de singles. Para além de música, actualmente Mory Kanté é também embaixador das Nações Unidas na luta contra a fome.

"Galicia", Urban Trad (Bélgica) -
techno folk
Entretanto seguimos pelos caminhos da folk urbana com os belgas Urban Trad, que nos trazem o tema “Galicia”, extraído do álbum “Kerua”, editado em 2003. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do século XXI.

"Se Escaparon",
Bombon (Hunduras) - ragamuffin, son, funk
O programa encerra com o tema "Se Escaparon", uma história de rebelião juvenil que fala de raparigas que fogem de casa às escondidas e são surpreendidas na pista de dança pelo pai, que pensava que elas estavam a dormir. A narrativa musical pertence aos hondurenhos Bombon, radicados em Miami e que criam um estilo musical moderno, feito da mistura de ragamuffin jamaicano, son cubano e funk. A crescente influência da música latina a nível internacional tem contribuído para que esta se desenvolva fora do seu território geográfico natural. Um interesse explicado pelos ritmos e melodias apelativas, embora actualmente a sua fluência sonora cada vez mais se deva à sucessiva mistura com o universo da dança e com estilos urbanos contemporâneos afro-americanos. E ainda que a música latina vá retendo elementos da tradição, esta está em constante mudança e evolução. Uma equação onde entram, entre outros, o funk, o hip-hop, a soul, o rhythm & blues ou o rock, mas onde o resultado continua a ser sempre a fórmula perfeita para um ambiente de “fiesta”.

Jorge Costa

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Emissão #11 - 3 Junho 2006

A 11ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 3 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 5 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

Nesta edição estreamos a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas primeiras dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor da melhor música do mundo que passou no MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Riena (Anathema)", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock

"Olla Meu Irmau", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk

"Jota da Gheada", Berrogüetto (Espanha) - celtic music

"Gmbader", Kween Kahina (França, Argélia) - ragga-chaoui-oriental

Kelle Magni, Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax

"Amassakoul 'N' Ténéré", Tinariwen (Mali) - touareg music

"Madan", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo

Lemen, Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi

"Mani", Cheba Fadela & Cheb Sahraoui (Argélia) - raï-pop

"Belibik", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï

"Paisa", Manak-E (Reino Unido) - bhangra, punjabi music

"Bul Bul Zaman", Edil Husainov (Casaquistão) - kazakh music/folk-rock

"Su Dilluru", Mario Rivera & Tenores Di Orosei (Itália) - folktronica

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

sábado, 13 de maio de 2006

Emissão #8 - 13 Maio 2006

A oitava emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 13 de Maio, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 15 de Maio, entre as 19 e as 20 horas.

" Citty of Walls",
Paul Mounsey (Escócia) - folktrónica
O escocês Paul Mounsey traz-nos o tema que serve de título ao álbum “City of Walls”, um dos quatro trabalhos que o músico editou enquanto esteve a viver no Brasil. O nome da faixa baseou-se no livro “Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo”, de Teresa Caldeira, obra onde a escritora reflecte sobre o estado da sociedade e da democracia brasileiras. Paul Mousey pega então em amostras da música tradicional escocesa, brasileira e nativa americana, combinando-as com o som da guitarra, dos teclados, da gaita de foles e das flautas, adicionando-lhes ainda uma amostra de precursão japonesa e de sonoridades electrónicas.

"Navicularia", Berrogüetto (Espanha) - celtic music
Este grupo galego traz-nos o tema que dá nome ao seu primeiro álbum “Navicularia”, editado em 1996. Este trabalho, em que os Berrogüetto trabalharam lado a lado com músicos como o arménio Jivan Gasparian, o sueco Markus Svensson ou o húngaro Kalman Balogh, foi aclamado pela crítica e ganhou vários prémios internacionais. Os “sete magníficos” dizem ser uma fábrica de ideias em que a música se funde com outras artes na busca de elementos sonoros inovadores.

"Kamoukie", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo
Exímio guitarrista, Salif Keita iniciou a sua carreira nos anos 60 na Rail Band e nos Ambassadeurs. Um longo percurso que teve como pontos altos a passagem por Abdijan, Nova Iorque e Paris. Mas foram precisos trinta e cinco anos até que Salif Keita pudesse gravar um álbum no seu país, o Mali. No álbum “M’Bemba” (Antepassado), este conta com a colaboração de músicos como Mama Sissoko na luth ngoni, ou Toumani Diabaté na kora, duas guitarras tradicionais do Mali. Um trabalho onde Salif Keita invoca a memória do seu glorioso antecessor, o imperador Soundiata Keita, fundador do império Mandingue no século XII. Neste disco, Salif Keita regressa à música tradicional mandingo, cruzando sonoridades como o rock, a soul, a chanson française ou os ritmos afro-cubanos, influências acústicas com que o músico inaugurou o conceito de afro-pop.

"Amassakoul 'N' Ténéré",
Tinariwen (Mali) - touareg music, rock, blues
Este grupo traz-n
os um tema extraído do álbum “Amassakoul” (viajante), editado em 2004 e que pudemos conhecer na emissão anterior. O nascimento dos Tinariwen no final dos anos 70, o primeiro a surgir das areias do deserto do Saara, está ligado à vida errante dos tuaregues, povo nómada descendente dos berberes do norte de África. A música destes artistas, que vagueiam entre a Argélia, o Mali, o Níger e a Líbia, apela ao despertar político das consciências e aborda os problemas do exílio e da repressão. Os Taghreft Tinariwen (o grupo dos desertos) transformaram-se numa lenda viva, isto porque no início dos anos 90 Ibrahim e Keddu, dois dos seus elementos, integravam o grupo de gerrilheiros que atacou um posto militar em Menaka, na fronteira entre o Mali e o Níger, abrindo um novo conflito entre as tropas governamentais do Mali e os separatistas tuaregues do norte. A música deste povo, transposta para a modernidade neste álbum gravado em Bamako, é acompanhada pelo tindé – instrumento de percussão tocado por mulheres –, pela flauta t’zamârt e pela guitarra eléctrica. Na sonoridade rítmica e harmónica dos Tinariwen está também presente a asoüf, solidão característica da poesia cantada pelos tuaregues que, tal como os blues, demonstra um sentimento de desamparo universal.

"Surbajo", Etran Finatawa (Níger) - wodaabe and touareg music
Continuando nesta travessia musical pelo deserto, avançamos agora até ao Níger com os Etran Finatawa, e um tema extraído do álbum “Introducing Etran Finatawa”, editado este ano. Em 2004, seis músicos wodaabes e quatro tuaregues juntaram-se e formaram este grupo. Os tuaregues e os wodaabe são dois dos grupos étnicos nómadas que vivem na savana do Sahel, no sul do Sáara. Durante milhares de anos, aquela região foi um ponto de passagem entre os árabes do norte de África e as culturas sub-sarianas. Enquanto que os wodaabe são conhecidos pelos seus rebanhos e gado, os tuaregues são famosos criadores de camelos. E apesar das suas culturas e línguas serem muito distintas, os Etram Finatawa (As estrelas da tradição) ultrapassaram as fronteiras étnicas e o racismo, trabalhando juntos para construírem um futuro melhor para os seus povos. Eles fundaram o seu estilo, combinando instrumentos tradicionais e canções polifónicas com arranjos modernos e guitarras eléctricas. O resultado é um álbum de rara e poderosa beleza, que demonstra como nas suas culturas a música continua a ser um meio terapêutico. Entretanto, a banda tornou-se famosa no Níger e foi convidada para participar em festivais no Mali e em Marrocos, tendo no ano passado feito uma tournée pela Holanda, Alemanha e Suiça.

"Belibik", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï
Este tema é um extra extraído do álbum “Deb”, editado em 2003. Considerada a Tracy Chapman do Magreb, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Desde 1999 que a jovem vive em França. Com a sua guitarra, Souad Massi acompanhou o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.


"Bebe Yaourt", Kekele (RD Congo) - soukous, congolese rumba
Os Kekele trazem-nos um tema extraído do álbum “Congo Life”, editado em 2003. Este grupo de veteranos, liderado pelo guitarrista Papa Noel Nono Nedule, é formado por Syran Mbenza, Nyboma e Wuta Mayi, os quais nos anos 80 fizeram parte dos Les Quatre Étoiles, pioneiros do soukous. Juntam-se a eles Bumba Massa and Loko Massengo, intérpretes em várias bandas congoloesas e performers a solo, bem como o guitarrista Rigo Star e o produtor François Bréant. Os Kekele recriam a rumba congolesa dos anos 60, 70 e 80 com tecnologia moderna, dando uma aparência totalmente acústica ao som eléctrico do soukous dos anos 80 e 90. São sons bem ao estilo da cubana charanga, das orquestras de cordas da Martínica e do barroco europeu, que se encaixam nas delicadas e deliciosas melodias congoloesas.

"La Iguana", Lila Downs (México) - cumbia, ranchera, bolero
Lila Downs trouxe-nos um tema extraído do álbum “Tree of Life”, editado em 1999. A cantora nasceu nas montanhas de Sierra Madre, no sul do México, e passou a sua adolescência em Los Angeles, nos Estados Unidos. Começou por cantar canções mariachi aos oito anos de idade, e ainda pensou ser cantora de ópera, o que é fácil de perceber na sua voz. Ainda chegou a estudar voz e antropologia na universidade, mas abandonou tudo quando decidiu “juntar-se ao mundo”. Foi já nos anos 90, quando lhe pediram para traduzir documentos relacionados com as mortes de pessoas que tinham tentado atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, que Lila Downs decidiu escrever canções que contassem as suas histórias. Este album inclui várias músicas em náhuatl, zapotec e mixtec – três das mais de 60 línguas indígenas faladas no México –, abarcando o seu reportório também o castelhano e o inglês. Os temas da sua banda abrangem a cumbia e a ranchera mexicana, a valsa, o bolero e composições originais que se aventuram no mundo do rap, jazz e do reggae. Mais recentemente, Lila Downs estreou-se no mundo do cinema. Ela interpreta algumas das suas canções no filme “Frida”, de Salma Hayek, o qual retrata a vida da pintora mexicana Frida Kahlo.

"Quérome salvar", Xosé Manuel Budiño (Espanha) e Lilian Vieira (Brasil) - folk, celtic music
Xosé Manuel Budiño apresenta-nos o seu terceiro álbum “Zume de Terra”, editado em 2004, precisamente o primeiro em que o gaiteiro galego assume integralmente todo o trabalho de composição, arranjo musical, produção e gravação. Um disco de originais, feito com sumo de terra e mel de tradição, onde Budiño tem também como convidados especiais os escoceses Capercaillie e Michael McGoldrick e a portuguesa Sara Tavares. Neste tema, o gaiteiro conta com a participação da brasileira Lilian Vieira, vocalista dos Zuco 103, banda que mistura house com maracatu, drum'n'bass com samba, entre outros ritmos brasileiros e electrónicos, e da qual fazem parte ainda o baterista holandês Stefan Kruger e o teclista alemão Stefan Schmid.

"Ahma", Maria Kalaniemi (Finlândia) - finnish folk, jazz, rock, pop
Maria Kalaniemi traz-nos um tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1999. Esta maestrina do acordeão começou a tocar aos oito anos. Aos 19, depois de gravar um álbum de temas da música tradicional filandesa, junta-se ao programa de música folk da Academia Sibelius, em Helsínquia, onde, para além do acordeão, estuda violino, bandolim, composição e arranjo. No mesmo ano, Maria Kalaniemi apoia a formação do ensemble acústico Niekku, cuja síntese entre a folk e a contemporaneidade os levou para a linha da frente da nova folk filandesa. Já em 1995 funda os Aldargaz, um sexteto de músicos da mesma academia. Adepta da improvisação, Maria Kalaniemi é também membro do colectivo internacional de acordeonistas Accordion Tribe, do grupo de música sueco-filandesa Ramunder e da orquestra de tango UNTO. O seu reportório vai da música clássica às raízes da folk dance filandesa, passando pelo jazz, rock e pop. No tema “Ahma”, o acordeão de Kalaniemi, instrumento que ela diz ser em simultâneo dinâmico e dinamite, junta-se à guitarra acústica, ao bandolim, ao violino, ao piano, e ainda à trompete, ao trombone e ao saxofone.

"Marcelle et Chrysostome",
Claire Pelletier (Canadá) - celtic music
O tema é extraído do álbum que a canadiana Claire Pelletier gravou ao vivo em Outubro de 2002 no teatro Saint-Denis, em Montreal, no Canadá. Desde muito pequena que a rapariga da voz azul-marinho, baptizada de Claire La Sirène (a sereia) se deixou fascinar pelos contos, lendas e canções tradicionais do Quebeque, província onde 80 por cento da população é de descendência francesa. Aos 24 anos, a jovem trocava o curso de oceanografia pela música, surgindo inicialmente ao lado do grupo Tracadièche. Depois de ter dado a conhecer “Galileo” no Quebeque e na Europa francófona, neste álbum Claire Pelletier, o músico e seu marido Pierre Duchesne e o compositor Marc Chabot misturam as músicas dos álbuns “Murmures d'Histoire” (1996) e “Galileo” (2000), ligando a inspiração medieval, a alma céltica, as melodias tradicionais e as lendas da antiguidade. Um espectáculo em que o duo harmónico combina o piano, o violino, a viola e o contrabaixo com sons électrónicos. Como a vela de um barco, a voz envolvente e suave de Claire Pelletier (ou melhor, de Claire La Sirène) iça-se, estica-se e apoia-se sobre o vento.

Jorge Costa

sábado, 15 de abril de 2006

Emissão #4 - 16 Abril 2006

ÚLTIMA HORA: Esta semana, devido a alterações extraordinárias na programação da Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), o MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO não poderá ser emitido ao sábado. Desta feita, a quarta emissão do programa irá para o ar no domingo, 16 de Abril, no horário habitual, entre as 17 e as 18 horas, repetindo na segunda-feira, 17 de Abril, entre as 19 e as 20 horas.

Estes são os novos temas difundidos neste programa:

" Gan Ionndrainn (From E to F)",
Paul Mounsey (Escócia) - folktrónica
O escocês Paul Mounsey traz-nos um tema extraído do álbum “City of Walls”, um dos quatro trabalhos que o músico editou enquanto esteve a viver no Brasil. O nome da faixa que serve de mote ao seu último disco baseou-se no livro “Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo”, de Teresa Caldeira, obra onde a escritora reflecte sobre o estado da sociedade e da democracia brasileiras. Paul Mousey pega então em amostras da música tradicional escocesa, brasileira e nativa americana, combinando-as com o som da guitarra, dos teclados, da gaita de foles e das flautas, adicionando-lhes ainda uma amostra de precursão japonesa e de sonoridades electrónicas. E apesar da sua ousadia em lidar com um espectro tão vasto de sons, culturas e instrumentos, Paul Mounsey consegue criar um universo musical único e impressionante.

"I Won't Forget My Roots Manensa Asli (Miwawa)", Souad Massi (Argélia) e Daby Touré (Mauritânia) - argelian folk, chaâbi, raï
Considerada a Tracy Chapman do Magreb, Souad Massi cruza os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente. Neste tema, extraído do álbum “Mesk Elil”, editado no ano passado, a jovem surge lado a lado com Daby Touré, músico natural da Mauritânia. Na sua infância, Daby Touré divertia-se com os amigos a tocar caixas metálicas ou velhos bidões, altura em que aprenderá a tocar guitarra às escondidas do pai e se deixa impregnar pelas culturas Soninke, Toucouleur e Wolof. Em 1989, os dois mudam-se para França, onde os irmãos de Daby o convidam a juntar-se aos Touré Kunda, grupo liderado pelo pai. Desmarcando-se da música dançável do clã familiar, que mistura o jazz e as influências africanas, Daby Touré envereda por outros caminhos. O músico volta-se agora para as melodias puras e sonoridades novas, cantando em soniké, wolof ou pular. Uma forma de retratar a vida do seu povo e do mundo.

Lemen,
Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi
Cheb Khaled traz-nos o tema “Lemen”, extraído do seu sétimo e último álbum “Ya Rayi”. Neste trabalho, totalmente em árabe e o primeiro no espaço de quatro anos, Khaled surge com uma orquestração bem ao estilo pop de sucessos anteriores como “Didi”, repetindo o universo festivo e combinando as raízes do raï com o chaâbi, o folclore argelino de cariz mais político e social. O álbum apresenta ainda uma mistura de grooves à americana com ritmos orientais, juntando outros ambientes sonoros como a música árabe-andaluza, o jazz, a bossa nova e o zouk.

Kelle Magni,
Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
O tema foi extraído do álbum “Lamp Fall”, editado em 2005. Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, com quem gravou o primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil.

"Rodopiou",
Nazaré Pereira (Brasil) - carimbó, forró, capoeira, maracatu
Nazaré Pereira, que nos trouxe um tema extraído do álbum “Brasil Forró”, editado em 2001, canta os sons do norte e nordeste brasileiro, levando-nos pelos caminhos do forró, carimbo, xaxado, xote, arrasta-pé, frevo, coco, maracatu ou da capoeira. Nesta região, as músicas destacam-se pela sua simplicidade e pela influência de tradições portuguesas e de lendas indígenas locais misturadas com precursões africanas. Os temas da cantora e actriz, que canta também músicas de grandes autores do nordeste brasileiro, descrevem a floresta, a vida e as lendas do Xapuri do Amazonas, sua aldeia natal.

"Night Of The Living Mambo",
Mamborama, (Cuba, EUA) - mambo
Os Mamborama, que nos trouxeram o tema “Night Of The Living Mambo”, extraído do álbum do mesmo nome, são um grupo de músicos norte-americanos e cubanos que mistura ritmos modernos cubanos com jazz e influências do rithm & blues. Liderados pelo pianista Bill Wolfer, a sua música baseia-se no son cubano e na descargas, aproximando-se de estilos como o songo e a timba. Aperfeiçoado pelas bandas de dança, o mambo remonta às raízes religiosas afro-cubanas, sendo o nome originário de cultos religiosos congoleses. A palavra provém do dialecto cubano Nañigo, aparecendo na frase “Abrecuto y guiri mambo” (o que quer dizer "Abre os teus olhos e escuta"), usada na abertura dos concursos musicais em Cuba. Altamente influenciado pelas big bands, jazz e dance halls nova-iorquinos, o universo dançante do mambo tem geralmente por protagonistas um conjunto cubano, incluindo um ensemble de voz, trompete e secções de ritmo, as quais se incluem um baixo, uma conga e um pequeno tambor.

Lubenica,
Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra (Bósnia Herzegovina) - gypsy technorock
Emir Kusturica e a The No Smoking Orchestra apresentaram-nos um tema extraído do álbum “Unza Unza Time”. Nascido em Sarajevo, hoje capital da Bósnia Herzegovina, Emir Kusturica pertence a uma família bósnia muçulmana, mas de origem eslava ortodoxa. Tal como a maioria dos jugoslavos, o seu pai trocou a fé pelo comunismo. Emir, por seu lado, trocou o comunismo pelo cinema, sendo hoje mundialmente conhecido pelas curtas e longas-metragens que realizou. Em 1986, Emir Kusturica junta-se à Zabranjeno Pusenje, uma banda polémica e censurada pelas autoridades jugoslavas. Em 1994, durante o conflito no país, junta-se ao grupo o jovem Stribor, filho de Emir Kusturica. É então que o grupo se fragmenta em dois: um que mantém o nome original, e outro que adopta a designação inglesa: The No Smoking Orchestra.

Dona Tresa,
Galandum Galundaina (Portugal) - celtic folk
Os mirandeses Galandum Galundaina, que estão a celebrar o seu décimo aniversário, têm apostado na recolha e divulgação do património musical, das danças e da língua das terras de Miranda, em Trás-os-Montes. Os elementos do grupo, que nasceram nesta zona, trazem-nos melodias tradicionais, enriquecidas com timbres, ritmos e harmonias de instrumentos como a gaita-de-foles mirandesa, a flauta pastoril, a sanfona, a caixa de guerra, as conchas de Santiago ou as castanholas. Os Galandum Galundaina, que já colaboraram com músicos como o espanhol Paco Díez ou o gaiteiro escocês Malcom MacMillan, trouxeram-nos um tema extraído do álbum “Modas I Anzonas”, uma música que refere as modas vindas do continente americano para onde muitos transmontanos partiram no início do século XX em busca de uma vida melhor. Nesta faixa surgem em uníssono a gaita mirandesa e a gaita escocesa.


Uah Lúa (Folla Do Visgo), Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
Os galegos Luar Na Lubre, naturais da Corunha, trazem-nos um tema extraído do seu penúltimo álbum “Hai Un Paraíso”, editado em 2004. Este grupo de música celta, com vinte anos de carreira e nove trabalhos editados, mudou por completo o panorama da música tradicional da Galiza. Isto porque defendem com unhas e dentes a cultura, tradição e música galegas, sem no entanto deixarem de assumir e integrar no seu processo criativo as influências externas, enquadradas pela fraternidade inter-céltica. Os Luar Na Lubre são uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, dando a conhecer uma música que não pretende ser eterna, antes contemporânea.


Es Yamal, Yamal (Espanha) - hip-hop, ethnic
Com o tema extraído do seu primeiro álbum “Y El Cielo Por Encontrar”, editado em 2003, o poeta urbano Yamal traz-nos rimas frescas, sinceras e pessoais, que falam de amor, da família e do meio social. Estas surgem envoltas no universo lírico do hip-hop da capital espanhola, meio que o MC e produtor conheceu aos 12 anos, mas integram algumas surpresas como sons mediterrânicos, árabes e jamaicanos. Um ajuste perfeito entre as palavras e a música, a qual convida a dançar e ao mesmo tempo revela melancolia e tristeza, algo muito próprio das influências de Yamal.

Jorge Costa

terça-feira, 21 de março de 2006

Emissão #2 - 25 Março 2006

A segunda emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO , difundida no sábado, 25 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 27 de Março, entre as 19 e as 20 horas.

Estes são os novos temas difundidos no programa:

"Mahli [Remix]", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï
Considerada a Tracy Chapman do Magreb, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado no ano passado. Desde 1999 que a jovem vive em França, mas numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome à música que serve de mote ao seu terceiro álbum.
Com a sua guitarra, Souad Massi acompanhou o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente. Souad Massi passou por Portugal em 2004, estando neste momento em tournée pela Europa para apresentar este trabalho, entretanto premiado este ano como melhor álbum de música do mundo nos “Les Victoires de la Musique”.

"Mani", Cheba Fadela & Cheb Sahraoui (Argélia) - raï-pop
O raï nasceu na cidade portuária de Oran e é o mais popular género musical da Argélia. No final da década de 70 o movimento ganhava novos contornos sonoros com o surgimento do pop-raï, contrastando com o raï tradicional dos cheikhs. A ex-dupla argelina Cheba Fadela e Cheb Sahraoui são duas das mais conhecidas estrelas desta nova geração de cantores que atribuiu a si própria o antenome de “cheb” ou “chabe”, o que quer dizer “o novo”.

"Dil Na Lagay",
Faakhir (Paquistão) - mantra
O Paquistão bem se pode orgulhar das suas ricas e variadas tradições musicais. Para além do qawwali, o antigo canto místico islâmico sufi popularizado por Nusrat Fateh Ali Khan e que é de longe o mais popular, o país é geralmente conhecido pelas ghazal, as célebres rimas românticas em Urdu celebrizadas por vozes que recriam essas canções clássicas. O cinema e a música pop têm um papel igualmente relevante na moderna música paquistanesa. O músico Faakhir trouxe-nos uma canção patriótica que combina o tradicional ritmo e a melodia Punjabi com instrumentos ocidentais modernos. O sucesso alcançado depois do lançamento deste seu primeiro álbum a solo “Aatish” comprova o êxito da rica mistura entre a folk e a pop paquistanesas.

"Min Skog (My Grove)", Hedningarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Ao longo dos anos 90, os Hedningarna estiveram na linha da frente
no que toca à renovação da folk sueca. Outro dos feitos dos quatro elementos deste grupo, formado em 1987 e que até agora editou seis álbuns mais um compilatório, foi o de terem chegado às 150 mil cópias vendidas. O álbum Trä, lançado em 1994, continua a ser um dos que maior sucesso alcançou, como o comprova a força sonora deste tema, traduzido por “O Meu Bosque”.

"Fukko Bushi",
Soul Flower Mononoke Summit (Japão) - japanese traditional music
O conjunto formou-se em 1995, o ano em que um tremor de terra atingiu Kobe, a cidade onde vivem os elementos do Soul Flower Mononoke Summit, e toda a zona envolvente. Queixando-se da falta de apoio do governo nipónico, meteram mãos à obra e criaram a “The Soul Flower Earthquake Foundation” para ajudarem os desalojados a reconstruírem as suas casas. Só no primeiro ano fizeram cerca de 50 espectáculos voluntários. Como não tinham electricidade para tocar instrumentos electrónicos, escolheram instrumentos tradicionais como o okinawa sanshin, o chingdon (um tambor militar japonês), o changgo (instrumento de percussão coreano) e o acordeão. Entretanto foram adicionando melodias tradicionais e populares japonesas ao seu reportório, tendo já editado dois álbuns. A título de curiosidade, os Soul Flower Mononoke Summit foram a única banda asiática presente em 2002 na cerimónia de independência de Timor-Leste.

"Kamti",
Hadag Nahash (Israel) - israeli hip-pop
Israel é um país pequeno, com menos de seis milhões de habitantes. No entanto, a população do estado judaico integra mais de uma centena de nacionalidades. Uma diversidade étnica que também se reflecte na música israelita, a qual combina as influências europeias com a folk árabe e palestiniana e com os enérgicos ritmos do Iémen e do norte de África.
Os Hadag Nahash (“serpente de peixe”) trazem-nos um tema extraído do álbum Lazooz. As suas músicas lidam com temas como o cada vez menor apoio aos cidadãos e a crescente desigualdade social, tocando nos pontos mais sensíveis da sociedade israelita com palavras de ordem como “Gente forte faz a paz”, “Sem árabes não há terror”, ou mesmo expressões que jogam com os números: “Um é o número de países que existem entre o rio Jordão e o mar, dois é o número de países que um dia hão-de existir, três anos e quatro meses é o tempo que tenho de passar no exército...”. O nome do grupo é também um trocadilho em hebreu. Isto porque em Israel os recém encartados são obrigados a usar um autocolante no vidro traseiro com a inscrição "Nahag Chadash" ("novo condutor"), palavras que utilizaram para construir o anagrama onde foram buscar o nome. Muitas das letras dos HaDag Nachash referem-se a citações ou slogans políticos que aparecem em Israel precisamente nos autocolantes dos automóveis. A paródia e a ironia estão presentes quanto baste nos quatro álbuns já editados, onde os sete elementos do grupo misturam a pop ocidental com a música étnica, criando um som único que se situa entre o hip-hop e a world music.

"Az Ghami Tu", Nobovar & Shams Group (Tajiquistão) - tajik rap
Nobovar Chanorov é o líder dos Shams, músicos provenientes da região montanhosa de Badakhshan, no Tajiquistão, situada junto à fronteira com o Afeganistão. Sedeados em Dushanbe, Nobovar e este ensemble de seis elementos, um dos grupos pop mais activos deste país, têm como reportório a música tradicional espiritual da região de Pamir. Neste tema contam com a participação do DJ Shaitan (a tradução é precisamente “Satanás”), apresentando-nos o rap ao estilo Tajik, influenciado por uma melodia folk de Pamir.


"Bul Bul Zaman", Edil Husainov (Casaquistão) - kazakh music/folk-rock
Continuamos na Ásia Central, mas avançamos até ao Kazaquistão, outra das ex-repúblicas soviéticas que conquistou a independência em 1991. Edil Husainov, um talentoso tocador de instrumentos tradicionais do Kazaquistão, traz-nos uma música original da Mongólia onde surgem a harpa judaica, a ocarina, a flauta do Kazaquistão e a cítara, acompanhados pela guitarra, teclado, percussão e baixo.

"Andesy Moramora", Koezy (Madagáscar) - salegy
As Koesy, cinco jovens do povo Sakalava, no norte do Madagáscar, trouxeram-nos um tema extraído do álbum “Madagáscar Generation 2004”. Este país, situado na quarta maior ilha do planeta, possui uma enorme diversidade étnica – nada mais nada menos que dezoito grupos étnicos diferentes – mas também uma riqueza histórica assinalável, visto que por aqui passaram árabes, persas, chineses, indianos, portugueses, franceses e ingleses.

Jorge Costa