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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Emissão #50 - 20 Outubro 2007

A 50ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 20 de Outubro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 24 de Outubro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (10 e 14 de Novembro) nos horários atrás indicados.

"Dança dos Camafeus", Diabo a Sete (Portugal) - folk
Os Diabo a Sete a abrirem a emissão com a “Dança dos Camafeus”, um dos temas vulcânicos que fazem parte da “Parainfernália”, álbum de estreia do grupo, lançado este ano, e onde é convidado o músico Hugo Natal da Luz. Surgidos em Coimbra em 2003, os Diabo a Sete dizem ser uma espécie de cozido à portuguesa, embora com menos couves e mais enchidos. Das adaptações do cancioneiro nacional aos originais de inspiração popular, eles procuram reinventar a música tradicional portuguesa tomando como referência principal formações como o GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) e a Brigada Victor Jara. Caminhos escaldantes que depois se alargam a recantos acústicos endiabrados como o rock, o reggae, a música celta ou as danças europeias. Com percursos diferentes mas um gosto comum pela música étnica do seu país, Pedro Damasceno, Celso Bento, Eduardo Murta, Julieta Silva, Luísa Correia e Miguel Cardina misturam os sons da sanfona, da concertina, da flauta, da gaita-de-foles, do bandolim, do cavaquinho e da guitarra com os da bateria, das percussões e do baixo eléctrico. Um cruzamento entre o passado, o presente e o futuro, onde se reinventam ritmos, melodias e instrumentos de outros tempos. No dia 27 de Outubro, os Diabo a Sete vão estar na Mostra de Música Tradicional de Moreda de Aller, nas Astúrias (Espanha), e entre 19 e 25 de Novembro no Festival Juvenil Europeu de Ankara, na Turquia.

"Senamou",
Angélique Kidjo (Benim) - afropop, afrobeat
As músicas do mundo prosseguem com Angélique Kidjo, que nos traz "Senamou" (É o Amor), tema extraído do disco “Djin Djin” (Apreciem o Dia), trabalho optimista que anuncia uma nova vida para África. Angélique Kidjo é natural da povoação costeira de Cotonou, no Benim. Dada a situação política do país, foi muito cedo que rumou até Paris e mais tarde até Nova Iorque, cidade onde hoje reside. Angélique, que canta em francês e inglês, mas também nas línguas nativas do Benim, Nigéria ou Togo, usa a voz e a música como ferramentas de diálogo entre nações. Embaixadora da UNICEF e fundadora do grupo de apoio a seropositivos Batonga, esta aposta na educação das mulheres africanas. As músicas, grande parte inspiradas nas suas missões humanitárias, falam do nascimento, do amor, da alienação e da esperança. Se nos discos anteriores Angélique Kidjo fundia géneros ocidentais – jazz, funk, blues, electrónica – com sons e ritmos africanos, neste trabalho, gravado em Nova Iorque e lançado este ano, a cantora e compositora regressa às origens, dando destaque à diversidade rítmica do seu país e da África Ocidental. Um casamento de culturas em que para além dos percussionistas Crespin Kpitiki e Benoit Avihoue (membros da Benin Gangbé Brass Band), do baterista americano Poogle Bell, do teclista Amp Fiddler, do multinstrumentista Lary Campbell, do baixista senegalês Habib Faye, dos guitarristas Lionel Loueke, Romero Lubambo e João Mota, e do mestre da kora Mamadou Diabaté, conta com convidados de luxo como Alicia Keys, Peter Gabriel, Josh Groban, Ziggy Marley, Carlos Santana, Amadou & Mariam, Joss Stone e Branford Marsalis.

"Kassa", Sekouba Bambino Diabaté (Guiné-Conacri) - mande music, afrobeat, afrozouk
Sekouba Diabaté traz-nos “Kassa”, tema extraído do disco do mesmo nome, lançado em 1997. A voz de ouro da Guiné apresenta-nos um repertório enraizado no folclore tradicional maninka, mas que neste trabalho se mistura com o rock, a soul, os ritmos latinos e a pop africana. Um álbum que conta com as participações de Djanka Diabaté, Kandia Kouyate, Baba Sissiko e Diely Conde, e de outros músicos da Guiné, Mali, Camarões, Cabo Verde e França. O cantautor e multi-instrumentista cruza instrumentos como o balafon (instrumento sul-africano, percursor do xilofone, cuja ressonância se deve a um conjunto de cabaças), a kora (harpa de 23 cordas, cuja caixa de ressonância é uma cabaça) e o ngoni (um alaúde ancestral, predecessor do banjo) com a flauta, o violino, o acordeão, o baixo ou a guitarra eléctrica. Sekouba “Bambino” Diabaté nasceu em Siguiri, junto à fronteira com o Mali. Ele é um descendente de griots (ou djeli, palavra que em mandinga significa “sangue”), uma casta de poetas e trovadores da África Ocidental. Aos 12 anos, o presidente da Guiné Sekou Touré, que o ouvira numa banda, convidou-o a integrar a Bembeya Jazz National, um dos grupos subsidiados pelo governo, recebendo então, devido à sua idade, o apelido de Bambino. Extinta a formação, Sekouba torna-se o líder do colectivo afro-latino Africando, avançando depois para uma carreira a solo. Hoje, com a sua orquestra, a Bouré Band, este faz uma ponte entre a África tradicional e contemporânea.

"Maïna Raï", Les Boukakes (França) - raï n'rock, afrobeat, reggae

A jornada continua com os Les Boukakes, que nos trazem o tema "Maïna Raï", retirado do seu primeiro álbum "Makach Mouch’Kil" (Não Há Problema), editado em 2001. Este septeto masculino, nascido no exílio em 1998, é liderado pelo cantor argelino Bachir Mokhtare, incluindo músicos tunisinos e franceses. Os Boukakes foram buscar o nome à contracção de dois típicos insultos racistas: bougnoule (nome outrora dado aos africanos e magrebinos) e macaque (macaco). Uma reacção às referências menos abonatórias que costumavam receber quando se estrearam nas ruas. Sem fazerem comentários políticos ostensivos nas suas canções, os Les Boukakes apelam deliberadamente à resistência ao status quo e à ignorância generalizada. Letras que são combinadas com melodias orientais e instrumentos diversos como o karkabou/qarqabou (grandes castanholas metálicas marroquinas), a derbouka (instrumento de percussão magrebino), o bendir (outro instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), o duf (espécie de pandeireta), a tabla, o banjo, a guitarra ou o baixo. O raï argelino ou o gnawa marroquino misturam-se então com géneros ocidentais como o rock, o groove e a música electrónica. Ao passar para os bares e festivais, o seu raï n'rock celebrizou-se, surgindo lado a lado com músicos e bandas como os Zebda, The Wailers, Manu Chao, Natacha Atlas, Taraf De Haïdouks, Cheikha Rimitti ou Rachi Taha.

"Il Rail Wa Hamad", Ilham Al Madfai (Iraque) - arabian folk, world fusion
Ilham Al Madfai regressa ao programa com “Il Rail Wa Hamad”, tema extraído do álbum “Live at Hard Rock Cafe (Beirut)”, gravado ao vivo no Líbano e editado em 2000. O “Beatle de Bagdad” é um dos mais conhecidos cantautores iraquianos, tendo revolucionado o folclore árabe. Com uma vida repartida por cidades como Bagdad, Abu Dabi ou Amman, durante vários anos Ilham Al Madfai hipotecou a sua carreira, isto porque os músicos iraquianos eram obrigados a escolher entre as orações de Saddam ou a prisão e a tortura. Guitarrista de coração, nos anos de 1960 Ilham formou os Twisters, pioneiros do rock'n'roll no Médio Oriente e primeira banda iraquiana a usar instrumentos modernos. O resultado foi uma guerra aberta contra os media e os puristas da música árabe, escandalizados com a introdução da guitarra eléctrica, da bateria, do baixo e do piano. Anos mais tarde, Ilham Al Madfai foi estudar arquitectura para o Reino Unido, passando os serões a tocar no Baghdad Cafe, o que chamaria a atenção de músicos como Paul McCartney, Donovan ou George Fame. De regresso a Bagdad, forma a 13½, uma banda que ousou misturar o folclore iraquiano com o flamenco e o taarab. A experiência agradou ao público mais jovem, e Ilham acabou por se transformar no mais popular músico iraquiano da década de 70. Depois de anos em viagem pelo estrangeiro, em 1990 o músico estreava a Firqat Ilham (A Banda do Ilham), abrindo assim a música árabe aos os ritmos, melodias e instrumentos da música do mundo. Hoje, para além das composições e arranjos próprios, Ilham apresenta canções escritas por famosos poetas árabes como Nizar Qabbani, Bedr Shakir Al-Sayab, Ilyya Abu Maadhi, Abul Qasim Al-Shabi ou Abdel Wahab Al-Bayati.

"Gross", Balkan Beat Box (Israel) - gypsy-punk, contemporary folk
Seguem-se os Balkan Beat Box com “Gross”, tema extraído do seu álbum de estreia, baptizado com o nome do grupo e editado em 2005. Para além da participação nesta música dos israelitas Boom Pam, o trabalho conta ainda com as colaborações das Bulgarian Chicks (Valda Tomova e Kristin Espeland), Victoria Hanna, Shushan, Hassan Ben Jaffar, Har-El Shachal e Tomer Yosef. Os Balkan Beat Box misturam de forma enérgica e ousada melodias folk do norte de África, Israel, Balcãs, Mediterrâneo, Europa de Leste e Médio Oriente com letras bizarras, hip-hop e batidas electrónicas. A banda, que chega a ter 15 músicos – um terço deles oriundos da Europa – é formada pelos israelitas Tamir Muskat e Ori Kaplan, que têm trabalhado com músicos e compositores da Turquia, Israel, Palestina, Marrocos, Bulgária e Espanha. A filosofia dos Balkan Beat Box é a de acabar com as fronteiras políticas na música, fazendo folk de forma contemporânea. Tudo começou em Israel, onde assimilaram os standards folk, do klezmer às melodias búlgaras, passando pelos ritmos árabes. No final dos anos 80, Ori e Tamir partem para Nova Iorque, onde descobrem o gypsy-punk e acabam por misturar as suas raízes mediterrânicas com outras culturas.

"Abre Kako So Pijeja", Esma Redzepova (Macedónia) - gypsy music
Segue-se Esma Redzepova, que nos traz “Abre Kako So Pijeja”, tema retirado do álbum “Čhaje Šhukarije”, lançado em 2001. Trabalho produzido pelo trompetista klezmer Frank London, e que juntou músicos de todo o mundo. Esma nasceu em 1943 numa pequena povoação perto de Skopje, a capital da Macedónia, precisamente a cidade onde Emir Kusturica rodou “O Tempo dos Ciganos”. Na escola, aos 14 anos, a cantautora foi convidada a cantar num concurso da Radio Skopje. Concerto onde conquistou o primeiro lugar e a atenção do músico e futuro marido Stevo Teodosievski. Esma começa então uma tournée com o seu ensemble musical. Num festival no norte da Índia é baptizada como “Rainha dos Ciganos”, alcançando a partir daí grande popularidade. As suas canções, semelhantes às melodias típicas dos Balcãs, são a expressão musical do seu amor pela Macedónia. Uma voz vibrante a que se juntam o violino, o clarinete e o acordeão, sem esquecer as influências da Índia, Pérsia e Espanha, num ambiente alegre e sensual. A diva dos Balcãs tem actuado nos palcos mais importantes do mundo, sendo hoje a grande embaixadora da cultura cigana da Macedónia. Até agora já foram mais de oito mil concertos e 500 canções, o que inclui 108 singles, 20 álbuns e 6 filmes. Nomeada por duas vezes para o prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho humanitário, ela e o seu falecido marido adoptaram 47 dos rapazes órfãos que encontraram nas suas viagens, treinando-os para serem músicos.

"Cocoon", Flëur (Ucrânia) - rock, gothic folk
A emissão chega ao fim com os Flëur e o tema “Cocoon”, extraído do álbum “Siyanie” (Brilho de Luz), editado em 2004. Neste seu terceiro trabalho, a banda originária da cidade ucraniana de Odessa apresenta-nos uma folk combinada com a pop russa. São melodias ora melancólicas, ora líricas, onde se dá a conhecer o seu universo simultaneamente sombrio e luminoso, divertido e triste, onírico e enérgico. A emoção e a sensibilidade estão presentes nas vozes de Olga Pulatova (a apaixonada) e Elena Voynarovskaya (a sonhadora). As composições desta dupla falam de sonhos e esperanças, sobrepondo-se às instrumentações do piano, das guitarras acústica e eléctrica, do violino, da bateria, do baixo, do violoncelo, da flauta e do digeridoo. O grupo fica completo com os músicos Ekaterina Kotelnikova, Alexey Tkachevsky, Vitaly Didyk, Alexandra Didyk, Anastasia Kuzmina e Alla Luzhetskaya, todos eles formados na academia Nacional de Música de Odessa. São sons intemporais numa visão contemporânea da música tradicional europeia.

Jorge Costa

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Emissão #44 - 9 Junho 2007

A 44ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 9 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 13 de Junho, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (30 de Junho e 4 de Julho) nos horários atrás indicados.

"Alone At My Wedding", Buscemi (Bélgica) vs. Koçani Orkestar (Macedónia) - gypsy brass band, folktronica

A abrir a emissão, a Koçani Orkestar com “Alone At My Wedding”, uma remistura do DJ Buscemi extraída da colectânea “Electric Gypsyland 2”, editada em 2006. Uma série de reinterpretações de músicos europeus, turcos e africanos em que o ponto de partida é a música cigana. Originária da cidade macedónia do mesmo nome, a Koçani Orkestar é uma das mais conhecidas fanfarras ciganas daquele país. Liderada pelo trompetista Naat Veliov e com um repertório simultaneamente tradicional e contemporâneo, a Koçani Orkestar mistura o som das duvaçki orkestar com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias ciganas dos Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, bem ao estilo da romska orientalna musika (música cigana oriental), encabeçada por quatro tubas e acompanhada pelo saxofone, pela trompete, pelo clarinete e pelo acordeão. Ritmos que chamaram a atenção do produtor belga Dirk Swartenbroekx. Mais conhecido por Buscemi, desde 1996 que este tem vindo a gravar temas para bandas como os Beach Boys, Suba, Madredeus ou Calexico. Entretanto criou a Squadra Bossa, um formato que combina DJ set’s com instrumentos ao vivo, dando um ar latino à música de dança.

"Tatihou", Kepa Junkera (Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com Kepa Junkera, que nos traz “Tatihou”, tema retirado do seu último álbum “Hiri” (cidade), lançado no ano passado. Primeira etapa da viagem sonora por alguns dos lugares por onde o músico passou, e que desta feita nos leva até uma ilha da Normandia, em França. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco mais conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Kepa Junkera desenvolveu a sua carreira internacional com John Kirkpatrick e Riccardo Tessi no projecto Trans-Europe Diatonique. Neste disco, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, o percussionista Glen Velez, o brasileiro Marcus Suzano, o pianista Alain Bonnin, ou músicos bascos como Ibon Koteron, Etxak e Alos Quartet. Destacam-se ainda Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, o galego Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra.

"Gizon Pipartzaleak", Alboka (Espanha) - basque folk
Os Alboka regressam ao programa com “Gizon Pipartzaleak”, tema extraído do álbum “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), editado em 2004. Quarto trabalho do grupo que, para além das danças e melodias populares retiradas dos cancioneiros bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade na folk basca, mais habituada a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo, formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês Alan Griffin, foi criado em 1994 juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade, parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa. Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun (tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza irlandesa.

"Chauffeurs", Amadou & Mariam (Mali) - afropop blues
A jornada continua com a dupla Amadou & Mariam, que nos traz o tema “Chauffeurs”, extraído do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara), editado em 2002. Um afropop blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. Naquela que é a mais roqueira pop africana, não faltam as habituais alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na profissão e na vida. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.

"Famou", Sekouba Bambino (Guiné-Conacri) - mande music, afrobeat, afrozouk
Sekouba Bambino traz-nos “Famou” (Eu Compreendo), parte integrante do álbum “Sinikan” (Mundo Preconceituoso), lançado em 2002. Acompanhado por um coro feminino, neste tema o cantautor e multi-instrumentista pede a todas as mulheres do mundo que sejam fortes e que não dêem atenção a boatos. Uma celebração musical, produzida por Ibrahima Sylla, e em que se apela à paz e à tolerância. Neste seu terceiro trabalho, a voz de ouro da Guiné cruza então instrumentos como o balafon (instrumento sul-africano, percursor do xilofone, cuja ressonância se deve a um conjunto de cabaças), a kora (harpa de 23 cordas, cuja caixa de ressonância é uma cabaça) e o ngoni (um alaúde ancestral, predecessor do banjo) com a flauta, o violino, o acordeão, o baixo ou a guitarra eléctrica. Sekouba “Bambino” Diabaté nasceu em Siguiri, junto à fronteira com o Mali. Ele é um descendente de griots (ou djeli, palavra que em mandinga significa “sangue”), uma casta de poetas e trovadores da África Ocidental. Aos 12 anos, o presidente da Guiné Sekou Touré, que o ouvira numa banda, convidou-o a integrar a Bembeya Jazz National, um dos grupos subsidiados pelo governo, recebendo então, devido à sua idade, o apelido de Bambino. Extinta a formação, Sekouba torna-se o líder do colectivo afro-latino Africando, avançando depois para uma carreira a solo. Hoje, com a sua orquestra, a Bouré Band, este faz uma ponte entre a África tradicional e contemporânea.

"D Achu Ayen", Akli D (Argélia) - chaâbi, mbalax, folk, blues, rock
A viagem prossegue com Akli D e o tema “D Achu Ayen”, parte integrante do seu segundo álbum “Ma Yela” (Se Houvesse), editado em 2006. Um trabalho rico em misturas étnicas, onde se fala de paz, fraternidade e amor. Se no primeiro disco o compositor argelino enfatizava as suas raízes culturais e reivindicações políticas, neste alarga o espectro musical, abrindo-se ao mundo. Poético, político e tradicional, Akli Dehlis combina o chaâbi do norte de África com as tradições folk da região rural de Kabylie, misturando-os com canções americanas de intervenção, com os blues do Mississippi ou com o mbalax, a moderna pop senegalesa. Akli D nasceu em Kerouan, pequena cidade da Cabília, região montanhosa do norte da Argélia. Ele é um amazigh, o povo pré-islâmico que durante séculos habitou a costa sul mediterrânica desde o Egipto ao Atlântico, e que foi alvo de repressão armada ao exigir o reconhecimento oficial das línguas berberes naquele país. Exilado em Paris a partir da década de 80, tornou-se um músico de rua e do metro, acabando por experimentar géneros musicais como os blues, o rock, o reggae ou a folk. Mais tarde, Akli D muda-se para São Francisco, chegando a viver algum tempo na Irlanda. Pelo meio, acompanhou o duo feminino El Djazira e formou o grupo Les Rebeuhs des Bois, o qual tocava nos cafés e clubes de Paris. Foi num destes espaços em que ocorriam encontros musicais espontâneos levados a cabo pelas comunidades árabes e africanas que Akli D conheceu Manu Chao, produtor deste seu último trabalho.

"Aitma", Tartit (Saara Ocidental) - touareg music, rock, blues

Seguem-se os pioneiros do blues do deserto com "Aitma", tema extraído do álbum "Ichichila", lançado em 2000. Pertencentes à imensa família berbere, os tuaregues são um dos poucos matriarcados existentes no norte de África, região tendencialmente muçulmana. Conquistada a independência pela maioria das nações africanas da zona, este povo nómada acabou dividido em países como a Argélia, a Líbia, o Níger, o Mali e o Burkina-Faso. Com uma história repleta de conflitos com o governo maliano, dadas as sucessivas revoltas pela defesa do seu modo de vida, muitos tuaregues escaparam para campos de refugiados. Foi num deles, em 1995, que nasceram os Tartit (“União”), uma banda formada por cinco mulheres e quatro homens oriundos da região de Timbuktu, no Mali. Sentadas, as mulheres cantam, ululam, batem palmas e percutem o tindé (género de tambor), melodias hipnóticas de amor e saudade que são acompanhadas de forma minimalista pelos homens. Cobertos por panos de azul índigo, estes tocam instrumentos de corda acústicos como o imzad (violino tuaregue de uma corda, formado por meia cabaça e crinas de cavalo), o tehardent (espécie de alaúde de três cordas) ou o guimbri (baixo acústico arcaico de três cordas), e eléctricos como a guitarra e o baixo. Uma ponte entre o gnawa e os blues de Ali Farka Touré, numa música que evoca a imensidão do deserto do Saara e que poderá ser escutada ao vivo a 26 de Julho, data em que os Tartit vão estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines.

"Mile Chemins", Dikès (Argélia) - flamenco, gypsy music, chanson française

Segue-se o francês Dikès com o tema “Mile Chemins”, extraído do álbum “Mon Côté Punk” (O Meu Lado Punk), lançado em 2005 pelo grupo do mesmo nome. Um colectivo de artistas do qual fazem também parte Loïc Lantoine, Mourad Musset, Karim Arab, Fathi Oulhaci, Jean-Michel Martin, Hélène Avice, Loraine Ritmanic e Boris Moncombe, e que se inspira precisamente nos mil e um caminhos percorridos por cada um dos seus membros. Ambiente festivo, feito de canções livres e textos incisivos, e que inclui instrumentos com o sousafone (uma espécie de tuba, precisamente o maior dos instrumentos de sopro) o címbalo ou a flauta. Yahia Dikès nasceu em Khemis Miliana, na Argélia. Aos 11 anos parte clandestinamente para a Suiça, deambulando pela Alemanha, Espanha e França. A viagem interrompe-se em Paris, onde Dikès descobre a chanson française, assimilando o estilo de Georges Brassens, Léo Ferré ou Jacques Brel. Com uma voz de timbre quente, este viajante poético criou uma sonoridade mestiça onde o blues e o flamenco se cruzam com melodias ciganas e orientais. Uma mistura das culturas do mediterrâneo, assente em instrumentos como o violino, o acordeão, a guitarra ou a flauta de pã. As letras em árabe e francês, inspiradas em autores como Stéphane Cadé, Bernard Dimey, Allain Leprest, Jean-Marc Le Bihan, Michel Robakowski ou Florent Vintrigner, falam sobre a tolerância e o respeito, testemunhando uma vida marcada pela errância e pelos reencontros.

"Čhaje Šhukarije", Esma Redzepova (Macedónia) -gypsy music

Esma Redzepova traz-nos “Čhaje Šhukarije”, tema retirado do álbum do mesmo nome, editado em 2001. Trabalho produzido pelo trompetista klezmer Frank London, e que juntou músicos de todo o mundo. Esma nasceu em 1943 numa pequena povoação perto de Skopje, a capital da Macedónia, precisamente a cidade onde Emir Kusturica rodou “O Tempo dos Ciganos”. Na escola, aos 14 anos, a cantautora foi convidada a cantar num concurso da Radio Skopje. Concerto onde conquistou o primeiro lugar e a atenção do músico e futuro marido Stevo Teodosievski. Esma começa então uma tournée com o seu ensemble musical. Num festival no norte da Índia é baptizada como “Rainha dos Ciganos”, alcançando a partir daí grande popularidade. As suas canções, semelhantes às melodias típicas dos Balcãs, são a expressão musical do seu amor pela Macedónia. Uma voz vibrante a que se juntam o violino, o clarinete e o acordeão, sem esquecer as influências da Índia, Pérsia e Espanha, num ambiente alegre e sensual. A diva dos Balcãs tem actuado nos palcos mais importantes do mundo, sendo hoje a grande embaixadora da cultura cigana da Macedónia. Até agora já foram mais de oito mil concertos e 500 canções, o que inclui 108 singles, 20 álbuns e 6 filmes. Nomeada por duas vezes para o prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho humanitário, ela e o seu falecido marido adoptaram 47 dos rapazes órfãos que encontraram nas suas viagens, treinando-os para serem músicos. Em 2006, “Čaje Šukarije”, o seu tema mais conhecido de sempre, foi integrado à revelia na banda sonora do famoso “Borat”, dando origem a um processo judicial contra os produtores do filme.

"The Charleston", Desbundixie (Portugal) - dixieland

Os Desbundixie encerram o programa com o tema “The Charleston, um clássico retirado do álbum “Kick’n Blow”, disco de estreia do grupo, editado em Abril deste ano. César Cardoso, Daniel Marques, Flávio Cardoso, João Maneta, Miguel Sousa, Pedro Santos e Ricardo Carreira tentam reviver o tradicional dixieland, estilo criado pelos escravos negros americanos que misturavam sons e ritmos de forma vibrante. Surgia assim a primeira forma conhecida de jazz, adoptada na década de 1920 por mestres do género como Louis Armstrong, Bix Beiderbeck ou Kid Ory e presença constante nos clubes de dança. Em Setembro de 2000, sete amigos de Leiria, servindo-se da experiência acumulada nas bandas filarmónicas, decidiram então pegar na instrumentação primitiva do jazz (trompete, clarinete, trombone, tuba e banjo), acrescentando-lhe o saxofone, a bateria e um toque pessoal. O resultado é uma música igualmente alegre e enérgica, com sabor a Nova Orleães, e que nos convida a mexer o pé. Em Junho, os Desbundixie vão estar nas Caldas da Rainha (dia 15), Pombal (dia 16), Rio Maior (dia 22) e Leiria (dia 23), regressando a esta última a 28 de Julho e 4 de Agosto.

Jorge Costa