Mostrar mensagens com a etiqueta Rarefolk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rarefolk. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Emissão #56 - 12 Janeiro 2008

A 56ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 12 de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 16 de Janeiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (2 e 6 de Fevereiro) nos horários atrás indicados.

"Last Wish Of The Bride", J.U.F. (EUA) - gypsy punk, dub
Os Jewish Ukranian Freundschaft (J.U.F.) a abrirem mais uma emissão com “Last Wish Of The Bride”, tema retirado do álbum de estreia da formação “Gogol Bordello vs. Tamir Muskat”, editado em 2004. No início da década de 1990, o ucraniano Eugene Hütz rumou até Nova Iorque, onde começou por explorar como DJ num bar búlgaro, a Mehanata (“pequena taberna”), os sons dos Balcãs. Somadas as remisturas de Hütz ao gypsy punk dos Gogol Bordello (de que é vocalista) e a alguns convidados, o resultado foi a criação em 2002 do projecto J.U.F., nome inspirado na banda de punk industrial alemã D.A.F. (Deutsch Amerikanische Freudschaft). Para além da israelita Victoria Hanna, do baixista Itamar Ziegler, das vocalistas Shlomi e Andra Ursuta e do teclista Fran Avni, a banda é formada por membros dos Gogol Bordello – o teclista, percussionista e produtor israelita Tamir Muskat, o guitarista Oren Kaplan, o violinista Sergey Rjabtzev e o acordionista Yuri Lemshev – e dos Balkan Beat Box – de novo Tamir Muskat e o saxofonista Ori Kaplan. Nesta amizade judaico-ucraniana, eles cruzam os ritmos frenéticos e o ambiente festivo da música cigana da Europa de Leste com uma amálgama de sons globais, criando um punk-rock incendiário e universal. Combinação onde também entram a dub e o reggae jamaicanos, o raï argelino, o flamenco, a bhangra indiana ou a música electrónica.

"La Mocita", La Musgaña (Espanha) - spanish folk

As músicas do mundo prosseguem com os La Musgaña e "La Mocita", parte integrante do álbum “Temas Profanos”, lançado em 2003. O sexto disco do grupo conta com as colaborações de Carmen Paris, Joaquín Díaz, David Mayoral e Pablo Martín. Em 1986, Enrique Almendros, até então intérprete de música celta, José María Climent e Rafael Martín decidiram formar um grupo centrado na tradição musical da meseta castelhana. Ainda nesse ano, juntaram-se-lhes o flautista Jaime Muñoz e o baixista Carlos Beceiro, únicos elementos que hoje permanecem no quinteto composto ainda por Diego Galaz, Jorge Arribas e Sebastián Rubio. Das melodias de dança às canções de amor, passando pela música para casamentos, os La Musgaña apresentam-nos uma ampla visão musical de uma zona marcada pela herança europeia, africana e mediterrânica. Por entre os temas evocativos destacam-se os ofertórios religiosos, as charradas, ajechaos e charros de Salamanca e Zamora, os bailes corridos de Ávila, os pindongos de Cáceres e as danças, aires e canções de León ou Burgos, ou as jotas, rogativas, dianas e villancicos de Madrid, Segovia e Valladolid. Uma celebração da música tradicional espanhola, à mistura com influências ciganas, mouriscas e celtas, em que os ritmos hipnóticos se constroem com toda uma gama de instrumentos tradicionais (gaita charra, gaita sanabresa, flauta, tamboril, cistro ou sanfona), étnicos (cajón, tar, krakebs, pandeiro iraniano, derbouka, bouzouki, req, sabar, tinajas, bendir ou marímbula) e modernos (clarinete, acordeão diatónico, saxofone soprano, baixo ou violino).

"Romanescu", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os sevilhanos Rarefolk regressam de novo ao programa com “Romanescu”, tema retirado do álbum “Natural Fractals”, editado em 2006. Quarto e último trabalho dos pioneiros do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da música electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Diversidade sonora que lhes tem permitido partilhar os palcos com músicos prestigiados como os Capercaillie, Shooglenifty, Wolfstones, Luar na Lubre, Berrogüeto, Hevia, Fanfarre Ciocărlia, Kalima, Tomatito, O’Funkillo, Narco, La Cabra Mecânica ou Enemigos. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial do violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e em que começaram a ter uma formação estável.

"Alamino", Koezy (Madagáscar) - salegy
A jornada continua com as Koezy e o tema "Alamino", extraído do álbum “Ma Liberté”, lançado em 2002. Estas cinco jovens pertencem ao povo Sakalava, no nordeste do Madagáscar. Rodeado pelo Índico e situado na quarta maior ilha do planeta, este país possui uma enorme diversidade étnica – nada mais nada menos que dezoito grupos diferentes – mas também uma riqueza histórica assinalável, visto que por aqui passaram árabes, persas, chineses, indianos, portugueses, franceses e ingleses. Espalhados pelas seis províncias - Antananarivo, Fianarantsoa, Tolagniaro, Mahajanga, Toamasina e Antseranana - convivem então estilos como astsapiky, kalon, ny fahiny ou salegy. Porta-vozes deste último género, as Koezy são um dos grupos responsáveis pela modernização da música tradicional da sua região, mas não esquecem as antigas composições. Uma zona marcada pelas canções tradicionais, recheadas de provérbios e acompanhadas por instrumentos de sopro e pela cadência grave de um tambor. No entanto, a expressão sonora de Sakalava que acabou por se estender a todo o território do Madagáscar teve origem nas sessões de transe subconsciente tromba. Um ritual em que os antepassados são invocados com cantos reforçados por uma melodia no acordeão e pelo ritmo do bater de mãos da assistência.

"Fantani", Amadou & Mariam (Mali) - bambara blues, afro pop
A dupla Amadou & Mariam traz-nos “Fantani”, tema retirado do seu terceiro álbum “Tje Ni Mousso” (Homem e Mulher), editado em 1999. Um blues eléctrico, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências inesperadas como o cavaquinho de Pedro Soares. Naquela que é a mais roqueira pop africana, não faltam as habituais alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na música e na vida. Amadou & Mariam prestam então homenagem à música tradicional maliana, revestindo-a de sons ocidentais. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma de recordarem não só as suas raízes mandingo, mas também as ligações do Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.


"Habina", Rachid Taha (Argélia) - chaâbi, raï, rock, punk, techno
Segue-se Rachid Taha com “Habina” (Nós Amamos), tema retirado do álbum "Diwan", editado em 1998. São arranjos e interpretações de temas magrebinos e árabes, numa homenagem às melodias e canções de músicos da sua infância como Blaoui Houari, estrela argelina da década de 1950, ou Mohamed Mazouni. Clássicos actualizados num trabalho produzido por Steve Hillage. Rachid Taha nasceu na cidade costeira de Oran, na Argélia, mas desde muito cedo que emigrou com a família para França. Alsácia e Vosges foram os primeiros destinos do músico e compositor residente em Paris, cidade onde começou a sua carreira a solo. Em 1981, enquanto vivia em Lyon, Rachid Taha conheceu Mohammed e Moktar Amini. Foi então que os três, juntamente com Djamel Dif e Eric Vaquer, formaram a banda de rock “Carte de Séjour” (“autorização de residência”), nome que se refere à crescente movimentação dos descendentes dos imigrantes argelinos, que na época começavam a reclamar por um maior espaço de intervenção na sociedade francesa. Popular e polémico, Rachid Taha mistura o rock urbano com a música tradicional do Oriente, cantando em árabe. Nas suas influências destacam-se o chaâbi e o raï, géneros que cruzou não só com sons africanos e europeus, mas também com o punk ou o techno. Rachid Taha não deixa ninguém indiferente, já que ao longo de mais de duas décadas se tem batido pela defesa da democracia e da tolerância e pela luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, sem esquecer a guerra contra a pobreza, o medo e os fundamentalismos árabes.

"Rumba Califa", Cheb Balowski (Espanha) - pachanga, raï, gnawa, rock
Os catalães Cheb Balowski trazem-nos “Rumba Califa”, tema extraído do álbum "Potiner", lançado em 2003. Segundo trabalho do grupo, produzido por Stephane Carteaux, e em que participam os americanos Kultur Shock, os franceses Radio Bemba, o basco Iñigo Muguruza e os catalães La Carrau. A designação da banda resulta da junção dos termos Cheb ("o jovem", em árabe), complemento habitual nos nomes dos cantores de raï argelinos, e Balowski (em polaco, o verbo balować significa "divertir-se bailando"), apelido do emigrante de Leste interpretado por Alexei Sayle na série de televisão inglesa “The Young Ones”. Formados em 2000 em Barcelona, depois de uma infância comum no bairro de Raval, os Cheb Balowski integram uma dezena de músicos - eles são Yacine Belahcene Benet, Isabel Vinardell Fleck, Marc Llobera Escorsa, Santi Eizaguirre Anglada, Jordi Marfà Vives, Daniel Pitarch Fernández, Jordi Ferrer Savall e Arnau Oliveres Künzi, Jordí Herreros e Sisu Coromina. Cantando em castelhano, catalão, francês e árabe, eles cruzam a música catalã e a cultura mediterrânica com a energia do raï, do gnawa, do reggae e do rock. Um ambiente festivo, que vai do flamenco e da pachanga aos ritmos balcânicos, árabes, africanos e mediterrânicos, assente na sonoridade de violinos, saxofones, trompetes, piano, bateria, acordeão, guitarra, baixo e todo o tipo de percussões.

"Ya Yo No", Andrea Echeverri (Colômbia) - latin rock, colombian folk, country
Despedimo-nos com a colombiana Andrea Echeverri e o tema “Ya Yo No”, extraído do primeiro álbum a solo da vocalista e guitarrista dos Atercipelados, assinado com o seu nome e lançado em 2005. Depois de uma década à frente da banda que mistura o rock alternativo latino com a folk colombiana, Andrea seguiu outros caminhos. Durante a sua gravidez e após o parto, Andrea compôs então uma série de melodias que celebram a magia da maternidade ou o amor ao seu marido e à sua filha Milagros. O resultado é um trabalho que cruza os sons latinos, o rock, a música country e electrónica e o africano highlife com a subtileza da voz de Andrea Echeverri. O disco, gravado em Bogotá, sua cidade natal, por outro membro da banda, o baixista Héctor Buitrago, e misturado por Thom Russo, foi nomeado em 2006 para os Grammys na categoria de Melhor Álbum Latino de Rock Alternativo. Andrea Echeverri colaborou com bandas como Soda Stereo,contando com participações na banda sonora de "La Mujer de mi Hermano", do peruano Jaime Bayly, e no filme "¿Quién dice que es fácil?", do realizador argentino Juan Taratuto.

Jorge Costa

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Emissão #45 - 23 Junho 2007

A 45ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 23 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 27 de Junho, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (14 e 18 de Julho) nos horários atrás indicados.

Um programa especial onde se destaca a entrevista exlusiva aos Uxu Kalhus, realizada a 12 de Junho em Proença-a-Nova, nas festas daquele concelho.


"Psycoceltic", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os sevilhanos Rarefolk inauguram a emissão com “Psycoceltic”, tema retirado do álbum “Natural Fractals”, lançado no ano passado. Quarto e último trabalho dos pioneiros, precisamente, do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da música electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial do violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e em que começaram a ter uma formação estável.

"Pasodoble do Azulejo", Uxu Kalhus (Portugal) - trad-folk-rock, folk fusion
As músicas do mundo prosseguem com o “Passodoble do Azulejo”, tema extraído de “A Revolta dos Badalos”, trabalho de estreia dos Uxu Kalhus, editado em 2006, e onde, para além das chocalhadas endiabradas deste quinteto (Celina Piedade, Paulo Pereira, Eddy Cabral, Luís Salgado e To Zé), formado em 2000, se podem ouvir as vozes de Joana Negrão, Rui Vaz, Pedro Mestre e António Tavares e o cavaquinho de Luís Peixoto. Uma fusão radical de sons e melodias onde a regra é não haverem regras. A revolta faz-se então pela subversão do folclore e pela reinvenção das músicas e danças tradicionais portuguesas e europeias, à mistura com géneros (jazz, rock, ska, funk, drum & bass, hip-hop ou música klezmer) e ritmos de todo o mundo: dos brasileiros (maracatú, embolada ou samba), africanos, árabes e orientais, aos medievais e barrocos. O público é então convidado a bailar ao som de viras, chotiças, modinhas, corridinhos e regadinhos, e de danças israelitas, sérvias ou austríacas, que se cruzam com mazurcas, valsas, polcas ou marchas. Universo sonoro que é alimentado por instrumentos como a flauta, o acordeão, a rauschpfeife (aerofone medieval de palheta dupla), as guitarras eléctrica e acústica, o baixo ou o metalfone. Nas percussões, acrescem a bateria, o bouzouki, a darabuka, o djembé, o bombo, o pandeiro, o didgeridoo, o dunun (família de tambores graves africanos, formada pelo kenkeni, sangban e doundounba), o davul (tambor duplo turco, conhecido nos Balcãs por tapan), a caixa, bem como o repenique e o surdo (tambores comuns no samba). Soma-se-lhes o caxixi, idiofone africano formado por um cesto de palha trançada em forma de campânula e com sementes no interior. A 29 Junho, os Uxu Kalhus vão estar no Festival MED de Loulé; a 21 de Julho em Portel; a 31 Julho e 2 e 5 Agosto no Festival Andanças, em São Pedro do Sul. Em Agosto estarão ainda nas Caldas da Rainha (dia 4), Tavira (dia 7), Seia (dia 18) e em Burgos, no Danzas Sin Fronteras (dias 21 e 22).

"Sunnu Gal", Terrakota (Portugal) - afrobeat, reggae, gnawa
Os Terrakota trazem-nos o tema “Sunnu Gal”, retirado do álbum “Oba Train”, terceiro e último da banda portuguesa, lançado em Maio deste ano. O comboio da vida é uma nova mestiçagem sonora onde se apela ao entendimento entre povos, celebrando as músicas do mundo num ambiente de festa. Criados em 1999, os Terrakota empreenderam então uma viagem pela África Ocidental. Na bagagem trouxeram ideias e instrumentos acústicos cujo som viriam a misturar com o poder dos instrumentos eléctricos. Aos três elementos do grupo juntaram-se depois mais quatro músicos e a actual vocalista, os quais viriam a assimilar géneros como o reggae e o gnawa. Depois de três anos de concertos, digressões em Portugal e na Europa, e viagens por Marrocos, Mauritânea, Mali, Burkina-Faso e Brasil, onde recolheram inspiração, os Terrakota juntam agora toda essa energia musical num trabalho que abrange várias geografias (Jamaica, Caraíbas, Cuba ou Brasil), sonoridades (árabes, flamencas ou indianas) e línguas (português, yoruba, wolof, francês, inglês ou castelhano). No seu último disco, uma fusão sem confusão, destacam-se as participações de Ikonoklasta e Conductor, ambos pertencentes ao angolano Conjunto Ngonguenha/Buraka Som Sistema, e do jamaicano U-Roy. A 14 de Julho, os Terrakota vão estar no Festival Serra da Estrela, em Valhelhas (Guarda).

"Château Rouge", Emmanuel Santarromana (França) e Hadja Kouyaté (Guiné-Conacri) - electro, afropop, mandingo
A jornada continua com Emmanuel Santarromana e Hadja Kouyaté, que nos trazem “Château Rouge”, tema extraído do álbum “Métropolitan”, editado em 2003. Antes de enveredar por uma carreira a solo, Emmanuel Santarromana foi percussionista em alguns dos maiores clubes europeus, lado a lado com nomes como o DJ Mandrax, Laurent Garnier ou Charles Schillings. Em 1998 enveredava finalmente por uma carreira como compositor. Neste seu primeiro álbum de originais, o DJ francês apresenta uma Paris multicultural, servindo cada estação de metro como pretexto para explorar as diferentes facetas musicais daquela cidade. Uma visão sofisticada, melódica e impressionista da capital francesa, cheia de cores, emoções e sons. O ambiente urbano mistura-se então com ritmos ciganos, africanos ou árabes, amostras de jazz, pop, hip-hop e música electrónica. Nesta mestiçagem destaca-se a voz quente e fervorosa de Hadja Kouyaté, uma das dez figuras femininas que participaram no projecto também ele electrónico de Frederic Galliano "African Divas". Hadja Kouyaté nasceu no sul da Guiné-Conari, na região de Gueckédou. Familiar de Manfila Kanté e Ousmane Kouyaté, grandes guitarristas guineenses, e de ascendência griot, a jovem começou a cantar aos cinco anos, viajando de povoação em povoação para participar em baptismos ou casamentos. Mais tarde avançaria por uma carreira a solo, seguindo a tradição musical mandingue. Hoje reparte o seu tempo entre França e a Guiné-Conacri, país onde acompanha o grupo "Les Guinéens".

"Maleele", Etran Finatawa (Níger) - wodaabe and touareg music

Seguem-se os Etran Finatawa com “Maleele”, tema extraído do álbum “Introducing Etran Finatawa”, editado no ano passado. Em 2004, seis músicos wodaabes e quatro tuaregues, unidos pelo gosto pela música e pelo desejo de paz entre todas as etnias que vivem ou viajam pelo rio Níger, juntaram-se e formaram este grupo. Os tuaregues e os wodaabe são dois dos grupos étnicos nómadas que vivem na savana do Sahel, no sul do Sáara. Durante milhares de anos, a região foi um ponto de passagem entre os árabes do norte de África e as culturas subsarianas. Enquanto que os wodaabe, de etnia fulani, são conhecidos pelos seus rebanhos e gado, os tuaregues, berberes que falam tamashek, são famosos criadores de camelos. Mesmo tendo culturas e línguas muito distintas, os elementos dos Etran Finatawa (As Estrelas da Tradição) ultrapassaram as fronteiras étnicas e o racismo, trabalhando juntos para construírem um futuro melhor para os seus povos. Eles fundaram o seu estilo, combinando instrumentos tradicionais e canções polifónicas com arranjos modernos e guitarras eléctricas. O resultado é um álbum marcado por uma mistura única entre o blues, o rock e o funk.


"Matadjem Yinmixan", Tinariwen (Mali) - touareg music, rock, blues
Viagem agora até ao deserto com os Tinariwen e o tema “Matadjem Yinmixan” (“Porquê todo este ódio entre vocês?”), retirado do álbum “Aman Iman” (Água é Vida), gravado em Bamako e lançado em Fevereiro deste ano. Uma melodia onde se faz um apelo às tribos tuaregues para que deixem de lado as rivalidades. Este clã apareceu em 1982 na Líbia num campo de acolhimento de rebeldes tuaregues (povo nómada descendente dos berberes do norte de África e que vagueia entre a Argélia, o Mali, o Níger e a Líbia), tocando para a comunidade de exilados naquele país e na Argélia. Três jovens encarnam a Ishumaren, a música dos ishumar desempregados, uma geração que sonha com a liberdade e a auto-determinação. São sobretudo melodias tradicionais, inspiradas nas guitarras do norte do Mali ou nos alaúdes (ngoni para os songhai, teherdent para os tuaregues) dos griots, e canções nostálgicas que apelam ao despertar político das consciências e à rebelião da alma. Em 1990, dois elementos dos Taghreft Tinariwen (literalmente, os "reconstrutores dos desertos") integraram o grupo de guerrilheiros separatistas que atacou um posto militar em Menaka, na fronteira com o Níger, inaugurando um novo conflito com o governo do Mali. Seis anos depois, quando a paz chegou finalmente ao sul do Sáara, voltaram-se apenas para a música do seu povo, em geral acompanhada pelo tindé (instrumento de percussão tocado por mulheres) ou pela flauta t’zamârt. Na sonoridade rítmica e harmónica dos Tinariwen, percussores dos blues do deserto, estão presentes também a guitarra eléctrica e a asoüf, solidão característica da poesia tuaregue que, tal como os blues, incorpora um sentimento de desamparo universal. A 29 de Junho, eles vão estar no Festival Mediterrâneo de Loulé, a 5 de Julho no Africa Festival de Lisboa e a 6 de Julho em Évora.

"Papirosn", Nina Stiller (Polónia) -
jewish music
O programa chega ao fim com Nina Stiller e o tema “Papirosn” (Cigarros), retirado do álbum editado em 2006 e baptizado com o nome desta cantora, actriz e dançarina polaca. Um projecto discográfico onde se juntam dois mundos muito diferentes: a tradição cultural judaica e a moderna música electrónica. Trabalho que por isso mesmo se destina a toda a comunidade mundial e não apenas aos aficionados das sonoridades com raízes hebraicas. Nina Stiller tem ganho vários galardões no seu país, onde se inclui o primeiro prémio da Polish Competition of Jewish, atribuído em 1999. Servindo-se de um repertório que integra canções judaicas, populares e religiosas, a cantora apresenta-se agora ao mundo com uma música dinâmica, fresca e expressiva.

Jorge Costa

terça-feira, 27 de março de 2007

Emissão #40 - 31 Março 2007

A 40ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 31 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 4 de Abril, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (21 e 25 de Abril) nos horários atrás indicados.

"Mesk Elil", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi

A abrir a emissão, Souad Massic com “Mesk Elil” (Madressilva), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que desde 1999 vive exilada em França, recusa-se a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tendo enveredado pelo raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste trabalho. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto, Souad Massi reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a infância na Argélia e que por essa razão baptizaria o seu terceiro trabalho. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"Freestyle Folk", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
As músicas do mundo prosseguem com os sevilhanos Rarefolk e o tema “Freestyle Folk”, retirado do álbum “Natural Fractals”, lançado em 2006. Quarto e último trabalho dos pioneiros, precisamente, do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da música electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial do violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e em que começaram a ter uma formação estável.

"Tbilisi", Kepa Junkera (Espanha) - basque folk
Kepa Junkera regressa ao programa com “Tbilisi” (capital da Geórgia), tema extraído do seu último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais intimista e elaborado, o músico leva-nos numa viagem por algumas das cidades e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali, Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck, Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses Júlio Pereira e Dulce Pontes.

"Sarama", Amadou & Mariam (Mali) - afropop blues
A jornada continua agora com a dupla Amadou & Mariam, que nos traz o tema “Sarama” (A Charmosa), retirado do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara), editado em 2002. Um afropop blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. Naquela que é a mais roqueira pop africana, não faltam as habituais alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.

"Enoralehu", Gigi (Etiópia) - world fusion, afrofunk
Viagem até à Etiópia com Gigi e o tema “Enoralehu”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Borman", Akli D (Argélia) - chaâbi, mbalax, folk, blues, rock
Segue-se Akli D com “Borman”, tema integrante do seu segundo álbum “Ma Yela” (Se Houvesse), editado em 2006. Um trabalho rico em misturas étnicas, onde se fala de paz, fraternidade e amor. Se no primeiro disco o compositor argelino enfatizava as suas raízes culturais e reivindicações políticas, neste alarga o espectro musical, abrindo-se ao mundo. Poético, político e tradicional, Akli Dehlis combina o chaâbi do norte de África com as tradições folk da região rural de Kabylie, misturando-os com canções americanas de intervenção, com os blues do Mississippi ou com o mbalax, a moderna pop senegalesa. Akli D nasceu em Kerouan, pequena cidade da Cabília, região montanhosa do norte da Argélia. Ele é um amazigh, o povo pré-islâmico que durante séculos habitou a costa sul mediterrânica desde o Egipto ao Atlântico, e que foi alvo de repressão armada ao exigir o reconhecimento oficial das línguas berberes naquele país. Exilado em Paris a partir da década de 80, tornou-se um músico de rua e do metro, acabando por experimentar géneros musicais como os blues, o rock, o reggae ou a folk. Mais tarde, Akli D muda-se para São Francisco, chegando a viver algum tempo na Irlanda. Pelo meio, acompanhou o duo feminino El Djazira e formou o grupo Les Rebeuhs des Bois, o qual tocava nos cafés e clubes de Paris. Foi num destes espaços em que ocorriam encontros musicais espontâneos levados a cabo pelas comunidades árabes e africanas que Akli D conheceu Manu Chao, produtor deste seu último trabalho.

"Kifache Rah", Rachid Taha (Argélia) - chaâbi, raï, rock, punk, techno

Rachid Taha traz-nos “Kifache Rah” (Como Passou Perto), tema retirado do álbum “Diwan 2”, lançado no ano passado. Um regresso às origens, oito anos depois da primeira série, com arranjos e interpretações de temas magrebinos e árabes, numa homenagem às baladas e canções de músicos da sua infância como Blaoui Houari, estrela argelina da década de 1950, ou Mohamed Mazouni. São clássicos actualizados num álbum gravado em Londres, Paris e Cairo e de novo produzido por Steve Hillage, onde têm destaque instrumentos tradicionais como a gasba (espécie de flauta magrebina) ou o guellal (pequeno tambor). Rachid Taha nasceu na cidade costeira de Oran, na Argélia, mas emigrou muito cedo com a família para França. Alsácia e Vosges foram os primeiros destinos do músico hoje residente em Paris, cidade onde começou a sua carreira a solo. Em 1981, enquanto vivia em Lyon, Rachid Taha conheceu Mohammed e Moktar Amini. Foi então que os três, juntamente com Djamel Dif e Eric Vaquer, formaram a banda de rock “Carte de Séjour” (“autorização de residência”). Um nome nada inocente, que faz referência à crescente movimentação dos descendentes dos imigrantes argelinos, que na época começavam a reclamar por um maior espaço de intervenção na sociedade francesa. Popular e polémico, Rachid Taha mistura o rock urbano com a música tradicional do oriente, cantando em árabe. Nas suas influências destacam-se sobretudo o chaâbi e o raï, géneros que cruzou não só com sons africanos e europeus, mas também com o rock, o punk ou o techno. Rachid Taha não deixa ninguém indiferente, já que ao longo de mais de duas décadas se tem batido pela defesa da democracia e da tolerância e pela luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, sem esquecer a guerra contra a pobreza, o medo e os fundamentalismos árabes.

"Décollage", Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) - electro-tango

A fechar o programa, despedimo-nos com os Bajofondo Tango Club e o tema “Décollage”, retirado do álbum “Supervielle”, lançado em 2004. A Argentina e o Uruguai estão separados pelo Rio de la Plata mas unidos pela melancolia e nostalgia do tango. Produtores, músicos e cantores dos dois países decidiram então juntar-se para misturar o tango com diversos estilos electrónicos, recuperando o espírito da música rioplatense entre as décadas de 30 e 60. O projecto, criado em 2001 pelos produtores Juan Campodónico e Gustavo Santaolalla, recorre ao trip hop, ao house, ao chill out ou ao drum & bass, ritmos electrónicos que acabaram por reinventar o tango, transformando-o num drama dançável. Dos Bajofondo Tango Club fazem ainda parte Martín Ferrés, Verónica Loza, Javier Casalla e Gabriel Casacuberta. À formação ao vivo juntam-se também Luciano Supervielle, Jorge Drexler, Juan Blas Caballero, Didi Gutman, Adrian Laies, Emilio Kauderer, Cristobal Repetto, Diego Vainer e Adriana Varela.

Jorge Costa

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Emissão #34 - 6 Janeiro 2007

A 34ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 6 de Janeiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 8 de Janeiro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (27 e 29 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Natural Fractals", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os sevilhanos Rarefolk a inaugurarem a emissão com o tema “Natural Fractals”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2006. Quarto e último trabalho dos pioneiros do freestyle folk, uma mistura criativa de sons e ritmos folclóricos de todo o mundo com o universo do rock, do funk e da electrónica. O resultado é um raro estilo folk, carregado de energia, em que se fundem influências da música africana, celta, oriental e do próprio jazz. Neste disco, os Rarefolk regressam à sua formação original – Ruben Diez, "Mangu" Díaz, Marcos Munné, Pedro Silva, Fernando Reina e Oscar "Mufas" Valero –, contando com a participação especial do violinista Elo Sánchez (dos andaluzes Sila Na Gig) e do saxofonista Nacho Gil (Caponata Argamacho Trio). Desta feita, eles apresentam-nos uma mistura de instrumentos acústicos com sequências de dança, enveredando por géneros como a breakbeat ou o jungle. Bem para trás fica 1992, ano em que os Rarefolk se deram a conhecer na exposição mundial de Sevilha como Os Carallos e começaram a ter uma formação estável.

"Ataun", Kepa Junkera
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com Kepa Junkera que nos traz “Ataun”, tema retirado do seu último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais intimista e elaborado, Kepa Junkera leva-nos numa viagem por algumas das cidades e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali, Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck, Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses Júlio Pereira e Dulce Pontes.

"Homer's Reel", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
Os escoceses Capercaillie de novo no programa, desta feita com o tema “Homer's Reel”, extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Semena-Wrock", Gigi
(Etiópia) - world fusion, afrofunk
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Semena-Wrock”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Le Pays Va Mal", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
Tiken Jah Fakoly trouxe-nos o tema "Le Pays Va Mal", extraído do álbum “Françafrique”, gravado em Kingston, na Jamaica, e editado em 2002. Trabalho em que se destacam as colaborações de Anthony B, U-Roy e Yaniss Odua, e onde o rebelde tranquilo recupera títulos antigos, reflectindo sobre a situação sócio-política do seu país. Figura de proa do reggae do oeste africano, Tiken Jah Fakoly faz uma ponte com a Jamaica e mergulha na tradição mandingo, sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Obrigado a viver entre o Mali e a França, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem naquele continente. Fakoly canta em francês, inglês e dioula, a língua da sua etnia, falada no norte da Costa do Marfim, Guiné-Conacri, Mali e Burkina-Faso.

"Shubra", Natacha Atlas
(Bélgica) - ethno pop, electro, chaâbi
A jornada musical prossegue com Natacha Atlas, que nos apresenta o tema “Shubra”, retirado do álbum “Ayeshteni” (Tu Dás-me Vida), editado em 2001. Trabalho produzido e gravado na cidade do Cairo, no Egipto, e em que também participou o anglo-indiano Nitin Sawhney. A diva do ethno pop mistura as sonoridades tradicionais do Médio Oriente e do norte de África com a pop e a música electrónica. São sons onde não falta a influência do clássico chaâbi mas, como ela própria diz, menos entediante e mais mal comportado. Dona de uma voz poderosa e sedutora, Natacha Atlas cria um sinuoso e hipnótico canto, acompanhado por batidas trip hop e incursões pelo house ou o drum ‘n’ bass. A maior parte do seu repertório é interpretado em árabe, mas ela também canta em inglês, francês e castelhano. Filha de mãe inglesa e pai egípcio, Natacha Atlas nasceu na capital belga, mas as suas raízes estendem-se ainda à Palestina e a Marrocos. Até aos oito anos, ela viveu no bairro muçulmano de Bruxelas, altura em que a sua mãe, depois de se ter divorciado, decidiu mudar-se com os filhos para Northampton, na Inglaterra. A partir dos dezasseis anos, Natacha começa a envolver-se em pequenos projectos musicais e a viajar pela Turquia e Grécia, países onde trabalharia como dançarina do ventre. No início dos anos 90 integra como solista os Transglobal Underground, grupo inglês pioneiro em fundir elementos da música tradicional árabe, africana e hindu com elementos da música electrónica, ocupando o lugar de vocalista e dançarina. Da sua carreira faz também parte a passagem pelos Invaders of the Earth, grupo de Jah Wobble. Em 2001, Natacha Atlas foi nomeada pelas Nações Unidas Embaixadora para a Boa Vontade no âmbito da Conferência Internacional contra o Racismo. O público brasileiro e português certamente se lembrará da sua participação num capítulo da novela da Globo "O Clone", em que a cantora se interpreta a si mesma, cantando e dançando.

"Khalouni", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
De regresso ao programa, Souad Massi apresenta-nos “Khalouni" (Deixa-me), uma mistura ibérica e norte-africana onde se evocam as raízes do raï e onde a jovem canta lado a lado com Rabah Kaifa. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado em 2005. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"Tuva Rock",
Yat-Kha (Rússia) - tuva rock, punk-folk
A fechar o programa, despedimo-nos com os Yat-Kha, que nos trazem o tema "Amdy Bayp", extraído do álbum "Tuva Rock", editado em 2005. Esta banda originária da república russa de Tuva (região situada a sudoeste da Sibéria) foi fundada em Moscovo em 1991 pelo vocalista e guitarrista Albert Kuvezin e pelo compositor electrónico russo Ivan Sokolovsky. Farto de cantar temas xamânicos em grupos típicos como os Huun-Huur-Tu, Kuvezin decidiu então juntar a música moderna do Ocidente com a tradicional do seu país. O duo adoptou o nome de Yat-Kha (lê-se iát-rá), em alusão a uma espécie de pequena cítara da Ásia central semelhante à guzheng chinesa. Aos instrumentos tradicionais juntam-se então as guitarras eléctricas, os instrumentos electrónicos e outros inventados pelo grupo. Com a energia do rock, a banda rejuvenesceu uma das mais extraordinárias tradições vocais do mundo, criando distorções e dissonâncias que se aproximam do punk e do metal. As melodias e ritmos são acompanhados pelas três vocalizações básicas do canto polifónico da Tuva: o khoomei, o kargyraa e o sygyt. Técnica outrora muito utilizada pelos povos da Ásia central para imitar os sons da natureza, e em que uma única voz consegue emitir várias notas em simultâneo.

Jorge Costa

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Emissão #19 - 29 Julho 2006

A 19ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 29 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 31 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Vihma",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
As Värttinä, que mais logo (sábado) vão estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, a abrirem a emissão com “Vihma” (Granizo), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1998. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. Alguns temas deste sétimo disco das Värttinä incluem também cantos da república russa de Tuva. O grupo, que nasceu em Raakkylaa, é hoje formado pelas vozes enérgicas e harmónicas de Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida e o mesmo vigor e calor vocal de sempre.

"O Fim da Picada",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que esta semana também estiveram no Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “O Fim da Picada”, tema extraído do seu último trabalho “Sátiro”, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo fado. São convidados Mafalda Arnauth, que canta um poema de Florbela Espanca, e o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se para isso nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares.

"Montañés",
Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os Rarefolk trazem-nos o tema “Montañés”, extraído de “Unimaverse” (um jogo de palavras entre os conceitos de unidade e universo), terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, onde a banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. Os Rarefolk começaram por fazer folk num estilo puro, mas pouco a pouco foram renovando não só a banda mas também a sua visão, fundindo influências do norte da Europa e do norte de África e submergindo-se num novo universo de estilos e ritmos. Depois de se terem dado a conhecer como Os Carallos na exposição mundial de Sevilha, em 1992, uma editora recém-criada oferece-se para editar o seu primeiro disco. Mais tarde criavam a “Fusión Art”, gravando eles próprios e de forma artesanal o álbum “Unimaverse”. Um trabalho ousado e experimental em que recuperam muita da frescura e simplicidade inicial. Nele participam a violinista escocesa Michelle McGregor e o percursionista senegalês Sidi Samb – este último responsável pelas letras do grupo, interpretadas em castelhano, francês e wolof (dialecto do Senegal) –, e músicos como DJ Abogado del Diablo (Narco), Andreas Lutz (O’Funkillo) e a senegalesa Fátuo Diou.

"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
Segue-se Souad Massi com “Ilham” (Inspiração), tema onde esta evoca as suas raízes berberes e a música tuaregue. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado no ano passado. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"N'Ta Goudami", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
A argelina Cheikha Rimitti (falecida no passado mês de Maio, aos 83 anos) com o tema “N’Ta Goudami”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina.

"M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
A jornada prossegue com Cheik Lô e o tema “N’Jariñu Garab” (A Árvore). Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina-Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), editado em 1999, Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.

"Nafiya", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
Atrás Mory Kanté, um dos mais conhecidos cantores e multi-instrumentistas africanos. Ele trouxe-nos “Nafiya” (Pessoas Más), um tema sarcástico contra a falta de entreajuda entre o povo africano, extraído do álbum “Sabou” (Causa). Um trabalho lançado em 2004 e que mistura sons contemporâneos e tradicionais, fundindo melodias griot e batidas funk. Sem abandonar a guitarra acústica e o estilo eléctrico, Mory Kanté regressa às suas raízes guienenses com um álbum acústico dominado por instrumentos tradicionais africanos como a kora (espécie de harpa) e o balafon (espécie de xilofone africano), quase sempre tocados por ele. Ao fazê-lo, segue o exemplo de Youssou N’Dour e Salif Keita que, para fazerem álbuns mais tradicionais, abandonaram estilos orientados para a pop. Neste trabalho, o músico é acompanhado por coros femininos, onde se apresentam vozes como Mariamagbe Mama Keita, e por um painel de luxo de instrumentistas como o flautista africano Babagalle Kante. Natural da Guiné-Conacri e herdeiro da tradição dos griots, Mory Kanté tornou-se conhecido ao juntar-se na década de 70 à Rail Band, de Bamako, no Mali, grupo cujo som combinava o funk e a música tradicional. O estrelato viria nos anos 80 quando o músico se mudou para Paris. Em 1987, com a edição em França do seu terceiro álbum, o funk mandingo de Kanté triunfava finalmente. Graças à música “Yéké Yéké”, ele foi o primeiro artista africano a vender um milhão de singles. Para além de música, actualmente Mory Kanté é também embaixador das Nações Unidas na luta contra a fome.

"Galicia", Urban Trad (Bélgica) -
techno folk
Entretanto seguimos pelos caminhos da folk urbana com os belgas Urban Trad, que nos trazem o tema “Galicia”, extraído do álbum “Kerua”, editado em 2003. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do século XXI.

"Se Escaparon",
Bombon (Hunduras) - ragamuffin, son, funk
O programa encerra com o tema "Se Escaparon", uma história de rebelião juvenil que fala de raparigas que fogem de casa às escondidas e são surpreendidas na pista de dança pelo pai, que pensava que elas estavam a dormir. A narrativa musical pertence aos hondurenhos Bombon, radicados em Miami e que criam um estilo musical moderno, feito da mistura de ragamuffin jamaicano, son cubano e funk. A crescente influência da música latina a nível internacional tem contribuído para que esta se desenvolva fora do seu território geográfico natural. Um interesse explicado pelos ritmos e melodias apelativas, embora actualmente a sua fluência sonora cada vez mais se deva à sucessiva mistura com o universo da dança e com estilos urbanos contemporâneos afro-americanos. E ainda que a música latina vá retendo elementos da tradição, esta está em constante mudança e evolução. Uma equação onde entram, entre outros, o funk, o hip-hop, a soul, o rhythm & blues ou o rock, mas onde o resultado continua a ser sempre a fórmula perfeita para um ambiente de “fiesta”.

Jorge Costa

sábado, 18 de março de 2006

Emissão #1 - 18 Março 2006

Na estreia do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, para além da apresentação do formato musical e de alguns temas em primeira-mão, destacou-se uma entrevista exclusiva para rádio realizada a Rão Kyao, que em Fevereiro regressou a Castelo Branco para o primeiro concerto do ano na capital da Beira Baixa. Um espectáculo que antecedeu os que em breve o músico irá realizar em Angola e nos Estados Unidos. Em palco, Rão Kyao fez-se então acompanhar por Renato Júnior (acordeão/sintetizadores) e Ruca Rebordão (percussões). Ausentes estiveram António Pinto (guitarras), André Sousa Machado (bateria) e a sonoridade inconfundível do cajón, instrumento de percussão formado por uma caixa de madeira.

O programa, emitido em directo no sábado, 18 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 20 de Março, entre as 19 e as 20 horas.

Estes são os temas difundidos na primeira emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Norwegian Mood", Groupa
(Suécia) - swedish folk
Este tema foi extraído do álbum "Fjalar", editado em 2002. O grupo mistura novas dimensões musicais com sonoridades electrónicas, e desde a sua criação em 1980 que tem estado na vanguarda da moderna folk sueca. Nos Groupa encontramos uma imagem das tradições do passado, os caprichos do presente e as possibilidades do futuro.

Sambala",
Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Em “Unimaverse”, o terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, editado em 2001, a banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. O tema “Sambala” é uma amostra perfeita deste novo movimento folk.

"Mama", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
Tema extraído do álbum “Sabou”, lançado em 2004 por Mory Kanté, um dos mais conhecidos músicos africanos da actualidade. Natural da Guiné-Conacri, o músico tornou-se inicialmente conhecido ao juntar-se na década de 70 à Rail Band, cujo som combinava funk e música tradicional. O estrelato viria nos anos 80 quando Kanté se mudou para Paris. Para além de músico, hoje Mory Kanté é embaixador das Nações Unidas na luta contra a fome.

"Paisa", Manak-E (Reino Unido) - bhangra, punjabi music
Tudo terá começado como uma dança folclórica que nasceu no norte da Índia. Mais tarde, o fenómeno britânico-asiático assimilou instrumentos ocidentais como a guitarra eléctrica, o baixo ou os teclados, transformando a bhangra numa forma energética e popular de música de dança. Uma das referências deste ambiente sonoro é o vocalista Manak-E, que neste tema extraído do álbum do mesmo nome envereda pelos caminhos do rock.

"Riena (Anathema)",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
Nova incursão até ao norte da Europa, desta feita com os Värttinä, a mais conhecida banda da folk finlandesa, com um tema extraído do álbum “Miero”, editado este ano. Com mais de vinte anos de carreira, os Värttinä são conhecidos por terem inventado um estilo baseado nas raízes rúnicas e carélicas, nos cantos femininos de várias tribos ocidentais e na poesia antiga. Da imagem do grupo fazem parte a instrumentação acústica tradicional e contemporânea, os ritmos complexos, bem como as composições e os arranjos originais. Uma palete sonora que tem vindo a crescer. Neste seu último álbum, o grupo explora melodias ciganas e a música klezmer, entre outras, deixando para trás os arranjos pop.

A primeira adaptação mundial ao palco de "O Senhor dos Anéis" arranca esta semana em Toronto, no Canadá. A versão teatral da saga épica de Tolkien integra música composta pelos Värttinä e pelo compositor indiano A.R. Rahman. Trata-se de uma das maiores produções de sempre de teatro musical, cujo orçamento ronda 27 milhões de dólares canadianos, e cujo elenco integra mais de 60 actores e músicos. A produção irá estrear em Londres em 2007 e mais tarde em Nova Iorque.

"The Drunken Piper: Primrose Lasses/Far Am Mi Fhin/Father John Angus Rankin",
Natalie MacMaster (Canadá) - celtic music/traditional folk
Na ilha de Cape Breton, na Nova Escócia (Canadá), metade da população é de origem escocesa, e uma das maiores estrelas da província é Natalie MacMaster, que toca rabeca desde os nove anos, tendo começado a sua carreira na adolescência. Desde então já tocou com diversos talentos internacionais como The Chieftains, Alison Krauss, Paul Simon, Carlos Santana e Luciano Pavarotti. Um tema extraído do álbum “No Boundaries”, e onde as raízes celtas dos dois lados do Altântico se cruzam.

"Bossa Nova, Né?", Luiz Macedo (Brasil) - MPB
“Bossa Nova, Né?”, é a pergunta que Luiz Macedo nos faz neste tema extraído do álbum “Bossa Electromagnética”. O conhecido produtor e guitarrista de São Paulo foi um dos pioneiros da música electrónica brasileira, a qual se desenvolveu sobretudo na década de 90, misturando ritmos brasileiros com estilos como o hip-hop, o drum’n’bass e o techno, tal como aconteceu na década de 50 com a bossa nova a misturar o samba com o jazz americano e mais tarde, já na década de 60, com o movimento da tropicália a absorver a pop da época.

"Su Dilluru",
Mario Rivera & Tenores Di Orosei (Itália) - folktronica
Os desenvolvimentos tecnológicos também fizeram com que muitos artistas tradicionais italianos pegassem nos seus sons e os misturassem com batidas e ritmos electrónicos. É esse o caso de Mario Rivera, membro do grupo siciliano Agricantus, que aqui surge com um tema extraído do álbum “Roots’n’bass”, o seu primeiro trabalho a solo, editado em 2001. Um trabalho onde o baixista demonstra a sua habilidade em misturar sons do passado e do futuro em novas composições e remixes originais. Neste tema, a parte vocal está a cargo do canto polifónico do grupo sardenho Tenores di Orosei, exemplo perfeito da forma como os ritmos electrónicos podem ser conjugados com sons tradicionais.

"Msimu Kwa Msimu",
X Plastaz (Tanzânia) - massai hip-hop/african rap
O grupo faz rap em swahili, kihaya e maa, a língua dos Maasai, misturando elementos tradicionais da cultura africana com o hip-pop. O tema foi extraído do seu primeiro lançamento internacional, editado em 2004.




ENTREVISTA A RÃO KYAO
Há mais de vinte anos, o instrumentista lisboeta fez-se ao mundo para se reencontrar com as origens de Portugal e descobrir novos caminhos para uma musicalidade marcada pelo contacto com diversos povos. Depois da música tradicional indiana, Rão Kyao cruzou-se com outros universos sonoros: do jazz ao fado, passando pela música cigana e pelo flamenco, até à música chinesa, árabe e brasileira. Uma carreira caracterizada pela procura e achamento de diferentes culturas e pela sempre persistente vontade de ligar o Oriente ao Ocidente.

Rão Kyao prefere a emoção e a espiritualidade, relegando para segundo plano a inovação estética. E não se considera um musicólogo. Antes procura dar uma nova expressão à musicalidade portuguesa, universo que diz ser injustamente preterido pela cada vez mais influente cultura anglo-saxónica. Do saxofone à flauta de bambu, seu instrumento de eleição e imagem de marca, o músico preza a tradição mas também a originalidade, que o têm acompanhado durante mais de duas décadas, tempo suficiente para editar dezassete discos. Quanto ao próximo trabalho, para já apenas estão reunidos alguns temas.


O músico esteve mais uma vez na cidade
(foto: Jorge Costa/Multipistas)

MULTIPISTAS: O que o levou a tentar redescobrir as raízes da música portuguesa no Oriente e a ter esse caminho como principal referência ao longo da sua carreira?

RÃO KYAO:
O contacto com essa música fez-me repensar acerca da minha maneira de tocar e de me expressar. Foi também o olhar para as origens da música portuguesa e ver de onde vem esta maneira de se lamentar e de se cantar a alegria. Fascinou-me tentar perceber porque é que temos esta maneira típica de nos expressarmos, algo que não nasceu aqui e que foi fruto de várias confluências musicais. Então compreendi que Portugal foi ocupado por um povo com uma grande musicalidade, que marcou muito a nossa música: os árabes. Depois também percebi que os portugueses andaram pelo mundo inteiro e têm uma enorme capacidade de integração. Aliás, somos conhecidos por isso. E quando uma pessoa se integra com facilidade, deixa muita coisa aos outros e traz muita coisa também. Tudo isto e a influência que a música oriental teve na nossa música fizeram-me debruçar sobre ela.

Estamos a falar não só da música oriental, mas também da música cigana, andaluz, nordestina e inclusive do jazz. Ou seja, precisou de sair de Portugal para descobrir as origens da música portuguesa, o que parece paradoxal.

É tão contraditório como dizer que para evoluir é preciso olhar para trás. Temos de ver as nossas raízes para podermos ir para a frente, compreender onde está enraizada a nossa expressão para podermos arranjar novos caminhos. Parece uma contradição, mas não é.

Volvidos dezassete discos, acha que já conseguiu elaborar um mapa claro acerca das origens da música portuguesa?

Eu não sou um historiador da música portuguesa. Faço-o por uma necessidade musical e estética. Uma coisa que é muito importante para mim é o facto de podermos tocar no estrangeiro e apresentarmos uma musicalidade que tem a ver com as nossas origens. Mas interessa-me que quem me escute perceba que se trata de uma visão muito própria sobre a música portuguesa. Quero que a minha música tenha qualquer coisa de típico, mas que ao mesmo tempo seja original e saia de mim.

Foi essa vontade de inovar e de ser diferente que o levou a trocar o saxofone pela flauta de bambu?

Eu sempre toquei os dois instrumentos. A flauta sempre me acompanhou desde o meu primeiro disco, só que a partir de certa altura decidi envolver-me abertamente com a flauta de bambu. É um instrumento difícil, muito parecido com a voz, mas que tem uma flexibilidade muito grande. E como gosto de explorar ao máximo um instrumento, estudei mais abertamente todas as possibilidades da flauta de bambu, que é agora é o meu instrumento de eleição.

O fascínio pela cultura indiana levou-o a passar vários meses em Bombaim. O que é que o marcou mais: os vestígios da cultura portuguesa ou o país em si?

É uma sensação muito estranha, mas quando vamos a Goa estamos em casa. Ali encontra-se uma verdadeira fusão entre Portugal e a Índia. Quando vim de lá fiz um disco que reflectia a minha experiência na Índia musical, a que chamei precisamente «Goa», embora este não seja um disco de música goesa. É um sítio onde os portugueses e os indianos se encontraram e geraram um país fascinante onde se sente Portugal em todo o lado, mas que ao mesmo tempo é um Portugal indiano. Isto e o estudo que lá tive com o Ragu Nachet, um grande flautista da música indiana, foram coisas muito importantes para mim. Essa experiência ajudou-me muito a interiorizar ainda mais a flauta de bambu e a perceber como é que a música tem a ver com a nossa espiritualidade e com o nosso quotidiano.

Utiliza ritmos e sons que tem vindo a recolher em todo o mundo, mas nunca desaparecem as referências a Portugal. Neste último trabalho, «Porto Alto», regressa às origens geográficas, ao fado e ao folclore nacional. Pegando na letra de «Fado Nascente», dizer que “tem andado em busca dos antepassados da canção da nossa gente” pode ser uma forma de resumir a sua carreira?

(risos) Isso é uma letra interessante do José Pires, o marido da Deolinda Bernardo [fadista que participa também no álbum «Fado Virado a Nascente»]. É algo que gosto de fazer, mas não sou um tipo muito metódico. São coisas que compreendo intuitivamente e procuro mostrar, mas sempre tentando renovar essa expressão e encontrar formas novas de a apresentar. A nossa música tem uma riqueza muito grande, um canto e ritmos muito profundos, interessantes e variados. E está a ser muito preterida com a influência das grandes potências, que são potências económicas mas não musicais. Musicalmente, nós somos ocupados completamente pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, mas nem de longe é essa a música do mundo. Há muita música que é proveniente de países economicamente muito menores, mas que não conseguem alertar as pessoas para a riqueza que há nela. E nós também somos vítimas disso. Portugal não tem poder para se manifestar aos seus e lá fora. Esquecemo-nos da nossa própria música porque ela não nos é mostrada como deveria ser.

Já veio tocar várias vezes à Beira Baixa. Sente que a riqueza e a diversidade etno-musicológica desta região, à qual o maestro Lopes Graça chamava o alfobre da música popular, também está a ser esquecida?

A música da Beira Baixa é de uma riqueza extraordinária. Tenho já tocado e arranjado muitos temas que estão ligados a esta região, mas claro que, por vezes, em ambientes musicais que dêem para isso.

Discografia Rão Kyão:
▪ Porto Alto (2004)
▪ Fado Virado a Nascente (2001)
▪ Junção (1999)
▪ Navegantes (1998)
▪ Viva o Fado (1996)
▪ Águas Livres (1994)
▪ Delírios Ibéricos (1992)
▪ Viagens na Minha Terra (1989)
▪ Danças de Rua (1987)
▪ Oásis (1986)
▪ Estrada da Luz (1984)
▪ Macau o Amanhecer (1984)
▪ Fado Bailado (1983)
▪ Ritual (1982)
▪ Goa (1979)
▪ Bambu (1977)
▪ Malpertuis (1976)

Jorge Costa