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quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Emissão #33 - 23 Dezembro 2006

A 33ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, um programa especial que conta com entrevistas exclusivas aos Comcordas e Mu, bandas que em Outubro estiveram no Festival Entrelaços, em Castelo Branco, é difundida no sábado, 23 de Dezembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), e vai de novo para o ar na segunda-feira, 25 de Dezembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (13 e 15 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Devoiche Belo, Tsurveno/Povdigni Si Milo Libe/Vasilke, Mlada Nevesto", Angelite (Bulgária)
- bulgarian folk
As vozes búlgaras das Angelite estreiam esta emissão especial com três canções de amor – “Devoiche Belo, Tsurveno”, “Povdigni Si Milo Libe” e “Vasilke, Mlada Nevesto” –, um medley que faz parte do álbum “Balkan Passions”, editado em 2001. À semelhança dos restantes países dos Balcãs, a Bulgária é um território habitado por turcos, ciganos, macedónios, judeus, arménios e romenos, grupos étnicos que ao longo do tempo foram moldando a música desta região. Prova dessa convivência cultural é a lista de músicos que participam neste trabalho: Orchestre Pirin, da Bulgária; Okay Temiz e Sezen Aksu, da Turquia; Fanfare Ciocărlia, da Roménia; e Maria Farantouri, da Grécia. Fundadas em 1952, as Angelite são um grupo de canto vocal composto por duas dezenas de mulheres, e que combina elementos tradicionais da folk búlgara com intervalos microtonais e a justaposição de escalas. São melodias seculares que fazem alusão a elementos da vida diária, incorporando muitas das vezes participações instrumentais e arranjos de compositores clássicos contemporâneos. Dirigido pelo compositor búlgaro Georgy Petkov, o coro colaborou, entre outros, com o saxofonista Jan Gabarek e com o Moscow Arts Trio. O canto vocal é uma importante tradição búlgara, particularmente no Natal, em que se destacam as melodias sacras ortodoxas, outrora cantadas apenas pelos homens, ou os cânticos alusivos à quadra. Um estilo único, de grande riqueza melódica e rítmica, possível graças a um desenvolvido controlo da respiração, e que terá surgido no Médio Oriente na era pré-cristã.

"Rumba Para Susi", Susana Seivane
(Espanha) - galician folk, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Susana Seivane, que nos traz “Rumba Para Susi”, um tema tradicional que aqui se apresenta numa versão adaptada para gaita e pequena orquestra. Esta gaiteira é neta de Xosé Manuel Seivane, um dos mais conceituados artesãos galegos. Diz a tradição que a madeira de buxo ou buxeiro, utilizada na construção das gaitas de foles galegas, deve ficar mais de cem anos à espera de um artesão que lhe consiga descobrir a alma e transformá-la no instrumento musical. O buxo com que os Seivane fazem gaitas desde 1939 serviu precisamente de inspiração para o nome deste disco "Alma de Buxo". No seu segundo álbum, editado em 2002, a jovem segue a tradição musical da Galiza com várias xotas, muiñeiras, marchas e outras composições típicas daquela região, adicionando-lhes no entanto a bateria, o baixo e algumas amostras de música pop. E não é de espantar a sua mestria no manejo da gaita-de-foles, até porque começou a tocar este instrumento aos quatro anos. Neste álbum, Susana Seivane é acompanhada pela sua banda e por músicos como o ex-Milladoiro Rodrígo Romani, Kepa Junkera, Uxía Senlle, Guadi Galego dos Berrogüetto ou Uxía Pedreira dos Chouteira. Um trabalho em que esta presta homenagem aos gaiteiros da sua terra, como é o caso de Pepe Vaamonde e do próprio avô, que gravou duas composições do seu repertório. São duas gerações reunidas num só disco.

"Pandeirada do Che", Luar Na Lubre
(Espanha) - celtic folk
Regresso à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trouxeram-nos o tema “Pandeirada do Che”, extraído do álbum “Saudade”, editado este ano. Uma música recheada de alusões a Che Guevara, e onde Celso Emilio Ferreiro toca o pandeiro lado a lado com os viguenses Xulio Formoso e Farruco Sesto. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Está assim consolidada a intenção do grupo em sublinhar a influência portuguesa para melhor definir a sua identidade galega, neste Portugal além-Minho. Um disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas.

"Vinavata", Mu
(Portugal) - folk
Os portuenses Mu, uma jovem banda folk cuja alegria não deixa ninguém indiferente, com “Vinavata”, um dos temas gravados em Espanha no Festival Danzas Sin Fronteras, e que faz parte do seu primeiro álbum “Mundanças”, editado no ano passado. O título deste trabalho, em que também participam os Dazkarieh, mais não é do que um trocadilho de palavras que descreve na perfeição o mundo em mutação e recheado de dança em que os Mu estão mergulhados. Eles nasceram no Porto em 2003 e foram procurar inspiração nas culturas europeias e nos instrumentos de todo o mundo. Os ritmos e vozes tradicionais servem então de referência a este grupo que reinventa sobretudo danças balcânicas e eslavas, mas em cuja palete sonora não faltam também os sons ciganos, bretões, irlandeses ou mesmo africanos. Uma banda jovial, de estilo "roufenho, nómada e circense", conforme já lhes chamaram, que tem feito sucesso em festivais como o Andanças, em S. Pedro do Sul, o Intercéltico de Sendim, ou o Danzas sin Fronteras, em Espanha. Na sua quarta formação, os Mu integram os músicos Hugo Osga, Nuno Encarnação, Diana Azevedo, Sophie Kaliasz, Sérgio Calisto e Sara Barbosa.

"Diamantta Spaillit", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
Avançamos agora até ao norte da Europa com a norueguesa Mari Boine Persen, que nos traz o tema “Diamantta Spaillit” (Rena de Diamantes), extraído do álbum “Iddjagieđas” (Na Mão da Noite), lançado em Abril deste ano. Com mais de vinte anos de carreira, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, povo que habita a chamada Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, o rock e mesmo a música electrónica. São sons mais entoados que cantados, onde se evoca a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Kokko", Värttinä
(Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
A viagem prossegue com as Värttinä e o tema “Kokko”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1996. De regresso ao programa, a mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa trouxe-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica, naquele que foi o primeiro trabalho onde o grupo tentou juntar a música tradicional com sons modernos. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de sempre.


"Ma Betty Boop À Moi", Opa Tsupa (França) - jazz manouche
A fechar o programa, despedimo-nos com os Opa Tsupa, que nos trazem o tema "Ma Betty Boop À Moi", extraído do álbum "Bastringue", editado este ano. Este quinteto acústico de jazz manouche, nascido em 2000, mistura o som de Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas de jazz de todos os tempos, com o gypsy swing, a musette, o rock, o funk, a bossa nova e a chanson française. O seu repertório é composto por criações originais, inspiradas em géneros como o swing dos anos 30, a música judaica e as músicas tradicionais ciganas, e em artistas tão diversos como Jacques Higelin, Paris Combo ou Latcho Drom. Para isso, os Opa Tsupa utilizam diversos instrumentos acústicos de corda – bandolim, contrabaixo, violino, guitarra, banjo, oukoulélé – aliando o swing e o humor a uma sonoridade que se aproxima à da dos Bratsch, dos Primitifs du Futur ou dos Sansévérino.


Jorge Costa

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Entrelaços: o reduto da música tradicional

Na sua sétima edição, o Entrelaços é um dos poucos redutos regulares de música do mundo na Beira Interior. O fraco orçamento levou a que este ano a aposta se limitasse aos grupos portugueses e à tradicional prata da casa. Memos assim, houve revelações: os CoMcORdAs, trio de cordas de Alcains que funde o swing com o jazz e a música cigana, e os bem dispostos Mu, banda folk inspirada nas culturas europeias e nos instrumentos de todo o mundo.


A música e a dança dos Mu animaram o Entrelaços
(imagem: Jorge Costa/Multipistas)

De regresso do Cine-Teatro Avenida, o Entrelaços – Festival Internacional de Música Tradicional de Castelo Branco continua a ser um dos poucos redutos regulares de música do mundo na Beira Interior. De resto, na região quase só há a recordar a tímida mas ousada experiência do Ethnicu, o Festival Internacional de Música Étnica da Beira Interior, então integrado na semana académica da Covilhã, e que entre 1999 e 2003 varreu vários quadrantes das músicas do mundo, englobando ainda a exibição de documentários bem como a realização de ateliês e exposições sobre a música tradicional. No entanto, nem tudo são reminiscências. Este ano surgiu no Sabugal o Festival de Música Tradicional do Alto-Côa, sinal de que na Beira Interior existe gente com vontade de apostar na área.

O orçamento disponível não permitiu grandes voos à organização do Entrelaços, que este ano se ficou pelos grupos portugueses e pela já habitual prata da casa. Mesmo assim, houve lugar a duas revelações: os CoMcORdAs, trio de cordas de Alcains que funde o swing com o jazz e a música cigana, e os sempre bem dispostos Mu, banda de folk que se inspirou nas culturas europeias e nos instrumentos de todo o mundo.

O evento arrancou a 14 de Outubro com a Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sôr e com a música irlandesa, galega e portuguesa dos Lumen. A luz fez-se uma semana depois, a 21 de Outubro, com a subida ao palco dos CoMcORdAs e dos portuenses Mu. A encerrar o festival, a 28 de Outubro, estiveram a Orquestra Típica Albicastrense e a música popular dos Musicalbi, estes últimos anfitriões do certame.


No entender de Carlos Salvado, o festival é uma aposta ganha
(imagem: Jorge Costa/Multipistas)

Carlos Salvado, da organização, reconhece as alterações feitas ao formato original do festival, uma ponte de criação de laços de amizade, inaugurada em 2000. No entanto, e apesar da programação ter de seguir à risca a linha permitida pelo orçamento, este acredita que o festival encontrou a sua identidade e o seu público. “A qualidade dos grupos é notória e tem vindo a subir”, explica o porta-voz dos Musicalbi. “Felizmente que temos tido cada vez mais a adesão do público”.

Dar a conhecer a música do planeta é o objectivo deste festival. "Queremos mostrar às pessoas um pouco da cultura musical que se faz no mundo. Se pudermos fazer isso com grupos portugueses, fica-nos mais barato”, confessa Carlos Salvado. “Logicamente que gostaríamos de ter aqui músicos dos mais variados sítios, mas felizmente que em Portugal vamos tendo grupos que representam muito bem este género, só que ainda são totalmente desconhecidos pelo público".

O evento começou por se posicionar no âmbito da música tradicional, mas quer abrir as portas a novas tendências, em particular àquelas onde a folk se mistura com outras paragens sonoras. “O Entrelaços começa a ter uma abertura tão grande no mercado nacional, que já são os próprios grupos que fazem questão de vir tocar a este festival”, refere o mesmo responsável, que em 2007 espera que os apoios institucionais – o da autarquia e o da junta de freguesia – se mantenham. O desafio, esse é o mesmo: o de melhorar a qualidade do evento para que este continue por muitos anos.


Os discípulos de Django Reinhardt
Os
CoMcORdAs, que como o próprio nome indica se trata de uma formação de cordas, são o mais recente rebento dos Ventos da Líria, um grupo de música celta irlandesa de Alcains. O nome não podia ser mais apropriado, visto que os três músicos que o integram tocam duas guitarras e um baixo.

Gil Duarte (guitarra ritmo), António Preto (guitarra solo) e Gonçalo Rafael (baixo acústico), que já faziam parte da primeira banda, fundem então o swing com o jazz e a música cigana e levam-nos numa viagem acústica pelo reportório de Django Reinhardt, pioneiro do jazz manouche, género que nas décadas de 1930 e 1940 introduziu a guitarra e a música cigana no jazz e nas big bands europeias. “Começámos a brincar com um CD manouche, que achámos muito giro, e vimos que poderíamos fazer um grupo diferente, porque é um estilo de música pouco usual”, refere Gil Duarte.


Gil Duarte acredita que o grupo está no bom caminho
(imagem: Jorge Costa/Multipistas)

Inicialmente, a ideia do grupo era a de participar apenas com três ou quatro temas num ciclo anual de cinema em Alcains, mas o rumo depressa se alterou. “Fomo-nos entusiasmando e arranjando mais temas”, conta o guitarrista. “Em pouco mais de um mês conseguimos arranjar os doze temas que estreámos nesse dia".

Os CoMcORdAs estrearam-se em Julho do ano passado, mas entretanto já estiveram no Outonalidades, da associação D'Orpheu, em Évora, e no festival Etnias, no Contagiarte, no Porto. Um sinal claro da boa aceitação do grupo, que entretanto tem vindo a expandir as suas actuações. “Em Castelo Branco, por exemplo, estamos a ser solicitados para tocar nos bares, e é bom termos os dois grupos diferentes, podermos ir com um e no outro dia com o outro”, acrescenta Gil Duarte. “Cremos que estamos no bom caminho e que temos um público, tanto nos Ventos da Líria, como nos Comcordas, ao qual agradam os nossos espectáculos”.

A amadurecerem ainda o seu novo formato musical, os CoMcORdAs não querem acelerar as coisas e preferem antes cimentar ainda mais a formação. Para já, na calha está a intenção de introduzirem outro tipo de instrumentos no grupo, mais ao nível da percussão.

VÍDEO...↓
Entrevista CoMcORdAs + tema ao vivo “Les Nababe”


Folk roufenha Made in Porto
Os portuenses
Mu são uma jovem banda folk cuja alegria não deixa ninguém indiferente. Criados em 2003, eles inspiraram-se nas culturas europeias e nos instrumentos de todo o mundo. “Estamos abertos a todo o planeta, mas o nosso ponto de partida é a Europa”, refere Hugo Osga, dos Mu. Os ritmos e vozes tradicionais servem então de referência a este grupo que procura reinventar sobretudo danças balcânicas e eslavas – “muito graças à nossa acordeonista Sophie, que viveu algum tempo na Roménia”, explica o jovem – mas em cuja palete sonora não faltam também os sons ciganos, bretões, irlandeses ou mesmo africanos. ”Os instrumentos é que lhe vão dar uma nova roupagem musical, que depois ao ouvinte pode parecer mais árabe ou asiático”.


Hugo Osga, dos Mu, reclama por uma maior divulgação musical
(imagem: Jorge Costa/Multipistas)

Os Mu nasceram num bar numa jam session surgida a partir do ‘diálogo’ casual entre o didgeridoo de Hugo Osga e a tabla de Nuno Encarnação. ”A primeira vez que tocámos juntos nem nos conhecíamos”, lembra o multi-instrumentista do grupo. “Havia um DJ que punha música e nós improvisávamos. Fizemos uma brincadeira chamada World Beat Sessions, e às terças-feiras lá estávamos”. Surge então o nome da banda que, de acordo com Hugo Osga, se refere a “um caracter chinês que representa um portão, e quando este é atravessado, não se sabe bem onde está o lado de dentro e o lado de fora”. Entretanto, os dois músicos começaram a tocar noutros bares e sítios, até que novos elementos integram a formação.

Surgem então outros caminhos sonoros, que irão influenciar as composições dos Mu. Uma banda jovial, de estilo “roufenho, nómada e circense", conforme já lhes chamaram, e que tem feito sucesso em festivais como o Andanças, em S. Pedro do Sul, o Intercéltico de Sendim, ou o Danzas sin Fronteras, em Espanha. “Se cá dentro não tiveres nada para dar, de que serve um instrumento e a música?”, questiona-se Hugo Osga, lembrando o convívio que se vive dentro do grupo. Já na sua quarta formação, este integra ainda os músicos Diana Azevedo, Sophie Kalisz, Sérgio Calisto e Sara Barbosa, contando ainda com a colaboração da acordeonista Dulce Cruz. “É uma alegria brutal tocarmos juntos”, conclui o músico portuense, que para trás deixou sonoridades mais contemporâneas. “Eu fui baterista imensos anos, e há aqui malta que tocou guitarra eléctrica, mas para a expressão musical que queremos transmitir, estes são os instrumentos ideais”.

Como referências musicais para o seu projecto, os Mu citam os nomes dos Gaiteiros de Lisboa (“um dos grandes projectos de música tradicional portuguesa”, diz Hugo Osga), Dazkarieh (“apesar das muitas transformações que têm tido ao longo da carreira, continuam actualíssimos”) e os Uxu Kalhos (que no seu entender “têm uma abordagem radical à música tradicional portuguesa”). Entre as influências assumidas constam ainda a Fanfare Ciocărlia, os Hedningarna, os L’Ham de Foc, La Musgaña, Taraf de Haïdouks e os portugueses Galandum Galundaina. Em 2005 surgia finalmente o primeiro álbum do grupo: “Mundanças”. O título deste trabalho, em que também participam os Dazkarieh, mais não é do que um trocadilho de palavras que descreve na perfeição o mundo em mutação e recheado de alegria e dança em que os Mu estão mergulhados.

No entanto, nem tudo são rosas. “Em Portugal, há uma carência brutal na divulgação”, avisa o jovem, lamentando a fraca expressão da música do mundo nos meios de comunicação portugueses. “Para saber o que se está a passar, tenho de estar atento à Internet. Não há um programa na televisão, só o Top Mais. E o Blitz, jornal que até tinha alguma coisa, transformou-se numa revista e não sai nada acerca da world music, confessa Hugo Osga. Mas as coisas estão a mudar, e são cada vez mais os grupos de folk e os eventos dedicados ao género. “Hoje em dia há imensos festivais e isso contribui muito para a formação de públicos”, acrescenta o jovem, dando como exemplos o Festival de Músicas do Mundo de Sines, o Andanças (“que é um pouco o berço dos Mu”) ou o Intercéltico de Sendim. No entanto, este apela a um aumento da dinâmica e dos curiosos e interessados por esta área. “Enquanto músico folk e divulgador da música tradicional gostava que houvesse muito mais gente, porque é na world music que está a raiz da nossa existência”.

VÍDEO...↓
Entrevista Mu + tema ao vivo “Nupcial Croata”

Jorge Costa







Os CoMcORdAs foram a grande surpresa do Entrelaços
(imagens: Jorge Costa/Multipistas)











A folk descontraída e animada dos Mu conquistou o público

(imagens: Jorge Costa/Multpistas)