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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Emissão #59 - 23 Fevereiro 2008

A 59ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 23 de Fevereiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 27 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (15 e 19 de Março) nos horários atrás indicados.

Um programa especial onde se destaca a entrevista exclusiva a Mari Boine, realizada a 15 de Fevereiro no Teatro Municipal da Guarda, a propósito do regresso a Portugal da cantora norueguesa.


"Höyhensarjan Maailmamestari", Tuomari Nurmio & Alamaailman Vasarat (Finlândia) - progressive folk, punk, rock
Tuomari Nurmio e os Alamaailman Vasarat inauguram a emissão com “Höyhensarjan Maailmamestari”, tema do álbum conjunto “Kinaporin Kalifaatti”, editado em 2005. Tuomari Nurmio, nome artístico de Hannu Juhani Nurmio, nasceu em Helsínquia e é um dos mais originais cantautores finlandeses. Da música country e dos blues, às reminescências de Tom Waits, são impressões ora românticas, ora humorísticas, que Tuomari (“juíz”, em finlandês, alcunha adoptada desde que este se formou em Direito) combina com expressões peculiares, metáforas e vernáculo quanto baste. Depois do duo de guitarra e bateria com Markku Hillilä, surge agora a colaboração com os Alamaailman Vasarat (Martelos do Submundo) numa mistura que combina melodia, harmonia e ritmo. Criados em 1997 também em Helsínquia por dois membros do grupo de rock progressivo Höyry-Kone - o percussionista Teemu Hänninen e o guitarrista Jarno Sarkula, que então comprou um saxofone soprano -, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda – a que se juntam Miikka Huttunen, Marko Manninen, Tuukka Helminen e Erno Haukkala - apresenta-se como uma combinação de world music ficcional oriunda do seu próprio continente imaginário, a Vasaraasia, com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma folk progressiva situada algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone, clarinete e saxofone soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). Ritmos acelerados e frenéticos a provarem que no rock não são necessárias guitarras eléctricas.

"Kounoun", Kaouding Cissoko (Senegal) - kora music, mandingo
O senegalês Kaouding Cissoko regressa ao programa com "Kounoun", tema extraído do seu único disco a solo, editado em 1999. Em “Kora Revolution”, trabalho lírico e introspectivo produzido pelo baixista Ira Coleman, o virtuoso da kora (espécie de harpa de 23 cordas da África Ocidental, cuja caixa de ressonância é uma cabaça) mistura este instrumento e a tradição mandingo com a sofisticada pop senegalesa dos Daande Lenol (banda do conhecido Baaba Maal, a que se juntou em 1991) e outros géneros africanos. Uma sonoridade que havia já sido cruzada com o flamenco por Toumani Diabaté, com o jazz pelo Kora Jazz Trio, ou ainda com o rock por Ba Cissoko. O resultado é uma folk onde se destacam as harmonias vocais femininas e uma secção rítmica complexa construída a partir das sonoridades do djembé, da tama (tocado com um pau, o “tambor falante” deve o nome ao seu timbre variável), do sabar (tambor tradicional senegalês), do balafon (instrumento sul-africano, percussor do xilofone, cuja ressonância se deve a um conjunto de cabaças), da guitarra, da flauta ou do baixo. Falecido em 2003, vítima de tuberculose, Kaouding Cissoko, fazia parte de uma grande família de tocadores de kora. Por diversas vezes que tocou com os Afro-Celt Sound System ou com músicos como Salif Keita, Nusrat Fateh Ali Khan, Michael Brook, Mansour Seck ou Ernest Ranglim - estes dois últimos convidados especiais neste trabalho familiar onde participaram ainda o pai de Cissoko, as suas sobrinhas Mamy e Sokhna e a irmã Binta.

"Pimpin' For The Muse", Tuatara (EUA) - funk, jazz, rock, lounge
Os Tuatara trazem-nos “Pimpin' For The Muse”, tema extraído do seu terceiro álbum “Cinematique”, editado em 2001. Um trabalho instrumental com contornos cinematográficos, onde são reunidas várias jam sessions em que a banda, aqui alargada aos onze elementos, utiliza instrumentos exóticos como o didgeridoo, os tambores de aço, as percussões africanas, o bandolim e o alaúde. Sons étnicos que rapidamente ganham ritmo e percussão, e que resultam da mistura de referências que vão da música asiática ou libanesa à folk ocidental, com o rock, o bebop, o jazz, o funk ou o lounge. Entretanto, os Tuatara têm vindo a cruzar a instrumentação exótica com as misturas electrónicas de vários DJ's. Este colectivo de compositores norte-americanos, criado em 1997 em Seattle, começou por ser um projecto de amigos com vista à composição de bandas-sonoras para cinema e televisão, mas rapidamente deu lugar a um novo grupo. Pela formação, de que hoje fazem parte Peter Buck e Scott McCaughey, Joe Cripps, Craig Flory, Barrett Martin e Elizabeth Pupo-Walker, passaram ao longo dos anos elementos dos R.E.M., The Minus 5, Critters Buggin, Screaming Trees, Luna ou Los Lobos. A título de curiosidade, registe-se que a tuatara - nome que em maori significa "dorso espinhoso" - é um réptil da Nova Zelândia, praticamente extinto, e que pouco mudou nos últimos 220 milhões de anos.

"Sukkar", Wafir (Sudão) - afropop, soukous, sephardic
A viagem continua com Wafir e “Sukkar” (Açúcar), tema retirado do álbum “Nilo Azul”, rio a que o multinstrumentista dedica o seu primeiro disco a solo, lançado em 2002. Um tributo aos seus conterrâneos sudaneses, em particular à voz açucarada e aos sorrisos de mel deste povo, onde colaboram Mariem Hassan, Nayim Alal, Iain Ballamy, Josete Ordoñez, Pedro Esparza, Vicente Molino, Ivo e Nasco Hristov, Sebatián Rubio, Salah Sabbagh, entre outros músicos. Wafir S. Gibril explora então a tradição oral do seu país numa viagem pelo longo braço de água em que se condensam séculos de civilização. Improvisos e ritmos complexos árabes, à mistura com harmonias de jazz e melodias celtas, flamencas e búlgaras, os quais têm por base instrumentos como os bongos sudaneses (possuem três tambores em vez de dois), o saz (alaúde mediterrânico), o rabab (cordofone de arco afegão), a viola, o bendir, o pandeiro ou as krakebs (espécie de grandes castanholas metálicas, base rítmica do gnawa). O virtuoso do violino ou do oud (alaúde árabe), que hoje vive em Madrid, começou por tocar acordeão nos Abdul Aziz Almubarak, Mohammad Al Amin e Abdul Karm Al Kably, formando mais tarde o grupo Kambala. Membro dos Radio Tarifa e do ensemble madrilenho La Banda Negra, ao longo da sua carreira Wafir tem vindo a compor temas para filmes como o conhecido “Finisterra”. Da longa lista de colaborações com outros artistas fazem parte a sua irmã Rasha ou nomes como Eduardo Paniagua, Hevia, La Musgaña, Joaquín Ruíz, Djanbutu Thiossane e Amistades Peligrosas.

"Mirant Les Notícies", Cheb Balowski (Espanha) - pachanga, raï, gnawa, rock
Seguem-se
os catalães Cheb Balowski com “Mirant Les Notícies”, tema que faz parte do álbum “Plou Plom” (Musiqueta Que Enamora), editado em 2005. Terceiro trabalho do grupo, produzido por Stephane Carteaux (baixista dos Color Humano), e em que participam alguns elementos dos americanos Kultur Shock e dos franceses Radio Bemba. A designação da banda resulta da junção dos termos Cheb ("o jovem", em árabe), complemento habitual nos nomes dos cantores de raï argelinos, e Balowski (em polaco, o verbo balować significa "divertir-se bailando"), apelido do emigrante de Leste interpretado por Alexei Sayle na série de televisão inglesa “The Young Ones”. Formados em 2000 em Barcelona, depois de uma infância comum no bairro de Raval, os Cheb Balowski integram uma dezena de músicos - eles são Yacine Belahcene Benet, Isabel Vinardell Fleck, Marc Llobera Escorsa, Santi Eizaguirre Anglada, Jordi Marfà Vives, Daniel Pitarch Fernández, Jordi Ferrer Savall e Arnau Oliveres Künzi, Jordí Herreros e Sisu Coromina. Cantando em castelhano, catalão, francês e árabe, eles cruzam a música catalã e a cultura mediterrânica com a energia do raï, do gnawa, do reggae e do rock. Um ambiente festivo, que vai do flamenco e da pachanga aos ritmos balcânicos, árabes, africanos e mediterrânicos, assente na sonoridade de violinos, saxofones, trompetes, piano, bateria, acordeão, guitarra, baixo e todo o tipo de percussões.

"Liegga Gokčas Sis", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
A norueguesa Mari Boine Persen destaca-se nesta emissão com o tema “Liegga Gokčas Sis” (Num Manto de Calor), extraído do álbum “Eight Seasons”, lançado em 2003. Disco com arranjos que se concentram nos ambientes electrónicos, produzido por Bugge Wesseltoft, e onde colaboram, entre outros, os músicos Jah Wobble, Bill Laswell, Jan Garbarek e Juan Carlos Quispe. Nascida em Gámehisnjárga, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, os habitantes da Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica, assente numa escala pentatónica, da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo, as batidas e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, a pop, o rock e mesmo a música electrónica. Acompanhados pela flauta, saxofone, guitarra baixo e bateria, são sons vocalizados, e por isso mesmo mais entoados que cantados, onde se evocam a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Pitt Bull de Bologna", Chalart58 (Espanha) - reggae, jungle, hip-hop
Despedimo-nos com “Pitt Bull de Bologna”, tema retirado do primeiro disco a solo de Chalart58 “Recording”, editado em 2007. Trabalho misturado e produzido num estúdio móvel pelo próprio baterista e percussionista de Barcelona, membro dos La Kinky Beat, e que no currículo conta ainda com a participação em projectos como os Radio Bemba, Jaleo Real ou Fermin Muguruza - Euskal Herria Jamaica Clash. Dos encontros casuais que durante dois anos Chalart58 teve com muitos amigos resultou um conjunto de temas instrumentais e riddims (ritmos da música jamaicana), inspirados em géneros que vão do reggae e do funk ao hip-hop, e cuja base instrumental é encabeçada pela tríade eléctrica das guitarras, baixos e teclados. Sendo cada tema interpretado por um vocalista diferente, o leque de colaborações neste álbum é bastante alargado, destacando-se a presença de cantores e músicos como Matahary e Willy Fuego (La Kinky Beat), Rude (Barrio Beat), Hernan “Lucky” (Mamamilotas), Sito (Jaleo Real), Marco Fonktana (Aerolineas Subterraneas), David Bourguignon (Radio Bemba), Rubio (Nour), Arecio Smith (Asstrio), Marcel El Lipi (Ranking Soldiers), Sorkun, Dreadga ou os Bad Sound System.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Emissão #37 - 17 Fevereiro 2007

A 37ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 17 de Fevereiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 21 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (10 e 14 de Março) nos horários atrás indicados.

"Billy's Birl", Paul Mounsey (Escócia) - folktrónica
O compositor e produtor escocês Paul Mounsey inaugura a emissão com o tema “Billy’s Birl”, extraído do álbum “City of Walls”, editado em 2003. Trabalho maioritariamente de originais e adaptações próprias, e um dos quatro que o músico lançou durante os 15 anos em que viveu no Brasil. Escutar uma música tradicional escocesa, particularmente cantada em gaélico, era sempre um martírio para Paul Mounsey, visto este não entender aquele idioma. No entanto, um dia o apelo dos sons do outro lado do Atlântico foi mais forte. Paul Mounsey acabaria então por fundir ritmos da pop e influências latinas do Brasil, seu país adoptivo, com os sons tradicionais da Escócia. O produtor pega então em amostras da música tradicional escocesa, brasileira e nativa americana, combinando-as com o som da guitarra, dos teclados, da gaita-de-foles e das flautas, e adicionando-lhes percussões do Japão e da América do Sul bem como sonoridades electrónicas. Ao lidar com um espectro tão vasto de sons, culturas e instrumentos, Paul Mounsey consegue criar um universo musical único e impressionante, a que se juntam ainda as vozes de Flora MacNeil, Mary Jane Lamond, Anna Murray, Mairi MacInnes e Oumayma El-Khalil. Ao longo da sua carreira, o compositor tem trabalhado sobretudo em publicidade e televisão, compondo para diversos realizadores e trabalhando lado a lado com músicos como Michael Nyman, Etta James, Chico Buarque, Jimmy Cliff, António Carlos Jobim ou o grupo de percussão baiano Olodum.

"The Sound of Sleat/The Fear/Dans Plinn", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
As músicas do mundo prosseguem com os Capercaillie, uma presença já habitual no programa, que nos trazem agora o medley “The Sound of Sleat/The Fear/Dans Plinn”, extraído do álbum “Choice Language”. Um reel (o mais comum e rápido tipo de melodia celta), onde se destacam os loops modernos e tranquilizantes. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a sua própria avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Tickelled",
Kíla (Irlanda) - celtic music, world fusion
Os irlandeses Kíla apresentam-nos “Tickelled”, tema extraído do álbum “Mind The Gap”, editado em 1995. Um disco que vai para além dos ritmos tradicionais como o reel e a jig, e onde grande parte dos temas são composições próprias escritas em irlandês. A banda, criada em Dublin em 1987, ousou aventurar-se em novos territórios sem no entanto deixar de preservar o essencial da sua identidade e de homenagear os seus antepassados. Ao fundirem ritmos e melodias tradicionais irlandesas e do sul da Europa com sonoridades provenientes de outras paragens, os Kíla conquistaram um lugar próprio no panorama cultural anglo-saxónico, revigorando assim as tradições musicais do seu país e criando um som contemporâneo distinto onde o rock também tem lugar. Para o conseguirem, eles servem-se de um conjunto eclético de instrumentos, não muito para além dos habitualmente presentes na música celta – a gaita-de-foles, o violino, a guitarra, o bandolim, o bouzouki, a harmónica e a flauta –, mas também de outras referências que vão dos coros do Médio Oriente aos sons africanos. Uma espiral em que dão novas direcções e territórios a uma música ancestral, e no entanto enérgica, a qual parece vir não do passado mas antes de uma Irlanda imaginária. A combinação de ritmos e instrumentos étnicos como o bodhrán ou a darabuka, permitiu aos Kíla conquistarem muitos fãs fora da tradicional comunidade folk irlandesa.

"Niane Bagne Na", Kaouding Cissoko (Senegal) - kora music, mandingo
Segue-se o senegalês Kaouding Cissoko com “Niane Bagne Na”, tema extraído do seu único trabalho a solo, editado em 1999. Em “Kora Revolution”, o virtuoso da kora (espécie de harpa de 23 cordas da África Ocidental, cuja caixa de ressonância é uma cabaça) mistura este instrumento e a tradição mandingo com a sofisticada pop senegalesa de Baaba Maal e outros géneros africanos. Uma sonoridade que entretanto havia já sido cruzada com o flamenco por Toumani Diabaté, com o jazz pelo Kora Jazz Trio ou ainda com o rock pelas mãos de Ba Cissoko. O resultado é uma folk onde se evidenciam as harmonias vocais femininas e uma secção rítmica complexa construída a partir das sonoridades do djembe, da tama (tocado com um pau, o “tambor falante” deve o nome ao seu timbre variável), do sabar (tambor tradicional senegalês), do balafon (instrumento sul-africano, percussor do xilofone, cuja ressonância se deve a um conjunto de cabaças), da guitarra, da flauta ou do baixo. Falecido em 2003, vítima de tuberculose, Kaouding Cissoko pertencia a uma grande família de tocadores da kora. O seu estilo, marcadamente lírico, predominava sobre a técnica. Ele tocou muitas vezes com músicos como Salif Keita, Nusrat Fateh Ali Khan, Michael Brook, Mansour Seck ou Ernest Ranglim - estes dois últimos foram mesmo convidados especiais neste trabalho. Para além disso, foi membro dos Daande Lenol, a banda de Baba Maal, e um dos fundadores dos Afro-Celt Sound System.

"Akanamandl' Usathana", Nothembi (África do Sul) - ndebele, afropop
Avançamos agora até à África do Sul com o tema “Akanamandl' Usathana”, retirado do álbum do mesmo nome, editado em 2001. Conhecida mundialmente como a rainha da música ndebele, Peki Emelia Nothembi Mkhwebane é natural de Carolina, localidade situada em Mpumalanga, perto da Suazilândia. Nascida numa família de aficionados pela música e órfã desde os cinco anos, ela não foi à escola porque os seus avós tinham poucos recursos. Mas depressa a música colmatou essa falha na sua vida: a avó ensinou-a a tocar flauta, a irmã a tocar isikumero e o tio a tocar uma guitarra construída apenas com uma lata de óleo. O amor pela cultura do seu povo levou Nothembi a fundar o grupo Izelamani ZakoNomazlyana, que começou por tocar em casamentos e eventos culturais. Ela comprou então um teclado e uma guitarra para compor, acabando por gravar as suas próprias canções num gravador de cassetes. No entanto, o problema era encontrar uma editora que se interessasse pelo seu trabalho, visto que Nothembi não sabia nem ler nem escrever - razão pela qual assinava o seu nome apenas com um “x”. Dada a sua iliteracia, acabou por ser enganada pelas companhias discográficas, que se aproveitavam dela. Um problema do passado, porque entretanto Nothembi conseguiu alcançar o sucesso a nível mundial e pôde finalmente frequentar a escola. Esta verdadeira estrela de rock, que também já passou por Portugal, alimenta agora a esperança de concluir os seus estudos e de vir um dia a receber uma certificação na área da música.

"Rani M'Hayer", Rachid Taha (Argélia) - chaâbi, raï, rock, punk, techno

Rachid Taha traz-nos “Rani M’Hayer” (Estou tão Atormentado), tema extraído do álbum “Diwan 2”, lançado em Outubro de 2006. Um regresso às origens, oito anos depois da primeira série, com arranjos e interpretações de temas magrebinos e árabes, numa homenagem às baladas e canções de músicos da sua infância como Blaoui Houari, estrela argelina da década de 1950, ou Mohamed Mazouni. São clássicos actualizados num álbum gravado em Londres, Paris e Cairo e de novo produzido por Steve Hillage, onde têm destaque instrumentos tradicionais como a gasba (espécie de flauta magrebina) ou o guellal (pequeno tambor). Rachid Taha nasceu na cidade costeira de Oran, na Argélia, mas emigrou muito cedo com a família para França. Alsácia e Vosges foram os primeiros destinos do músico hoje residente em Paris, cidade onde começou a sua carreira a solo. Em 1981, enquanto vivia em Lyon, Rachid Taha conheceu Mohammed e Moktar Amini. Foi então que os três, juntamente com Djamel Dif e Eric Vaquer, formaram a banda de rock “Carte de Séjour” (“autorização de residência”). Um nome nada inocente, que faz referência à crescente movimentação dos descendentes dos imigrantes argelinos, que na época começavam a reclamar por um maior espaço de intervenção na sociedade francesa. Popular e polémico, Rachid Taha mistura o rock urbano com a música tradicional do oriente, cantando em árabe. Nas suas influências destacam-se sobretudo o chaâbi e o raï, géneros que cruzou não só com sons africanos e europeus, mas também com o rock, o punk ou o techno. Rachid Taha não deixa ninguém indiferente, já que ao longo de mais de duas décadas se tem batido pela defesa da democracia e da tolerância e pela luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, sem esquecer a guerra contra a pobreza, o medo e os fundamentalismos árabes.

"Salam", Akli D
(Argélia) - chaâbi, mbalax, folk, blues, rock
Segue-se Akli D, que nos apresenta o tema “Salam”, extraído do seu segundo álbum “Ma Yela” (Se Houvesse), lançado no ano passado. Um trabalho rico em misturas étnicas, onde se fala de paz, fraternidade e amor. Se no primeiro disco o compositor argelino enfatizava as suas raízes culturais e reivindicações políticas, neste alarga o espectro musical, abrindo-se ao mundo. Poético, político e tradicional, Akli Dehlis combina o chaâbi do norte de África com as tradições folk da região rural de Kabylie, misturando-os com canções americanas de intervenção, com os blues do Mississippi ou com o mbalax, a moderna pop senegalesa. Akli D nasceu em Kerouan, pequena cidade da Cabília, região montanhosa do norte da Argélia. Ele é um amazigh, o povo pré-islâmico que durante séculos habitou a costa sul mediterrânica desde o Egipto ao Atlântico, e que foi alvo de repressão armada ao exigir o reconhecimento oficial das línguas berberes naquele país. Exilado em Paris a partir da década de 80, tornou-se um músico de rua e do metro, acabando por experimentar géneros musicais como os blues, o rock, o reggae ou a folk. Mais tarde, Akli D muda-se para São Francisco, chegando a viver algum tempo na Irlanda. Pelo meio, acompanhou o duo feminino El Djazira e formou o grupo Les Rebeuhs des Bois, o qual tocava nos cafés e clubes de Paris. Foi num destes espaços em que ocorriam encontros musicais espontâneos levados a cabo pelas comunidades árabes e africanas que Akli D conheceu Manu Chao, produtor deste seu último trabalho.

"Forma",
Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) e Luciano Supervielle (França) - electro-tango
Despedimo-nos com o Bajofondo Tango Club e o álbum do mesmo nome, editado em 2003. A Argentina e o Uruguai estão separados pelo Rio de la Plata mas unidos pela melancolia e nostalgia do tango. Produtores, músicos e cantores dos dois países decidiram então juntar-se para misturar o tango com diversos estilos electrónicos, recuperando o espírito da música rioplatense entre as décadas de 30 e 60. O projecto, criado em 2001 pelos produtores Juan Campodónico e Gustavo Santaolalla, recorre ao trip hop, ao house, ao chill out ou ao drum & bass, ritmos electrónicos que acabaram por reinventar o tango, transformando-o num drama dançável. Dos Bajofondo Tango Club fazem ainda parte Martín Ferrés, Verónica Loza, Javier Casalla e Gabriel Casacuberta. À formação ao vivo juntam-se também Jorge Drexler, Juan Blas Caballero, Didi Gutman, Adrian Laies, Emilio Kauderer, Cristobal Repetto, Diego Vainer e Adriana Varela. Outro dos elementos deste grupo, o compositor, pianista e DJ francês Luciano Supervielle, que começou a sua carreira no Uruguay com o grupo de hip-hop Platano Macho, encerra então o programa com o tema “Forma”.

Jorge Costa