Mostrar mensagens com a etiqueta Hedningarna. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hedningarna. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Emissão #69 - 12 Julho 2008

A 69ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 12 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 16 de Julho, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (2 e 6 de Agosto) nos horários atrás indicados.

"American Wedding", Gogol Bordello (EUA) - gypsy punk, rock
Os Gogol Bordello inauguram mais uma emissão, desta feita com “American Wedding”, tema onde eles descrevem um casamento americano algo infeliz, onde não há vodka nem arenque marinado. Música retirada do álbum “Super Taranta!”, quarto trabalho do grupo, editado em 2007. Tal como o escritor Nikolai Gogol introduziu a cultura ucraniana na sociedade russa, os Gogol Bordello procuram levar os sons ciganos para a música anglo-saxónica. Surgido em 1998 com o nome de Hutz & The Béla Bartóks, este colectivo de emigrantes oriundos da Ucrânia, Rússia, Israel ou Etiópia, criou o cabaret gypsy punk, amálgama burlesca que eles dizem ser uma espécie de rock n’roll cigano. Tudo começou com o interesse do ucraniano Eugene Hütz pela contracultura musical do ocidente, de Jimi Hendrix aos Sonic Youth, paixão que o fez deixar Kiev e viajar pela Polónia, Hungria, Áustria e Itália. Em 1993, o jovem instalou-se em Nova Iorque, onde começou por remisturar os sons da música cigana dos Balcãs e da Europa de Leste com a dub e o raï argelino. Ritmos frenéticos e festivos a que hoje, com os Gogol Bordello – de que fazem também parte Eliot Ferguson, Oren Kaplan, Sergey Ryabtsev, Yuri Lemeshev, Pamela Racine, Elizabeth Sun e Thomas Gobena -, se juntam o rockabilly ou o ska. O resultado é um punk-rock incendiário, feito da ligação entre violino, acordeão, guitarras acústica e eléctrica, baixo e bateria. Em palco, fala-se de política, religião e sexo, sempre com humor e muita dança à mistura. No currículo, a banda conta com as participações no filme “Everything Is Iluminated” (2005), de Liv Schreiber, e em “Filth & Wisdom” (2008), de Madonna, bem como no projecto J.U.F., em conjunto com os Balkan Beat Box. Se a 10 de Julho não conseguiu ver os Gogol Bordello no Optimus Alive Festival de Lisboa (o concerto foi transmitido em directo pela SIC Radical), em alternativa pode fazê-lo em Agosto nas localidades espanholas de Gijón, nas Astúrias (dia 12), e Vilagarcía de Arousa, na Galiza (dia 14).

"Pasapeanas", Biella Nuei (Espanha) - spanish folk
A viagem pelas músicas do mundo continua com os Biella Nuei e "Pasapeanas", tema extraído do álbum “Sol d’Iberno”, lançado em 2006. Melodia bailada em Gallur, na província de Saragoça, durante a procissão de Santo António de Pádua e de São Pedro. Parte de um trabalho produzido por Juan Alberto Arteche, e que encerra a triologia iniciada com “Las Aves Y Las Flores” (1994) e “Solombra” (1998), abrindo portas a uma fase mais criativa e menos etnocêntrica no percurso deste grupo fundado por Luís Miguel Bajén na década de 1980. Álbum optimista e alegre, onde os Biella Nuei se abrem às percussões das culturas andaluza ou latina, e que conta com a participação de músicos como Eliseo Parra ou La Ronda de Boltaña. Nos primeiros anos, o septeto centrou-se no estudo e divulgação da tradição oral aragonesa, no desenvolvimento de repertório próprio e no fabrico de instrumentos como a gaita de boto, o saltério, o pífaro ou a dulzaina. Hoje permanece a variedade de instrumentos, melodias e ritmos tradicionais religiosos ou pagãos daquela região (jotas, pasacalles, tarantainas ou passeíllos), mas a free folk da banda, mestiçagem étnica sempre ligada aos movimentos sociais (entre eles os neorurais), cruza-se com outras culturas, deixando-se influenciar, entre outros géneros, pelos blues, pela rumba, pela choutiça ou pela soul cubana. Nas suas peregrinações sonoras, os Biella Nuei, que em palco se apresentam ainda com uma formação mais pequena - os Bufacalibos -, têm vindo a tocar com Carlos Núñez, Cristina Pato, Chico Sánchez Ferlosio, Kepa Junkera, Mauricio Martinotti, The Oysterband ou os Gwendal.

"Aguas Vertientes", La Musgaña (Espanha) - spanish folk
No seu regresso ao programa, os La Musgaña trazem-nos “Aguas Vertientes”, tema que faz parte do álbum “Temas Profanos”, editado em 2003. O sexto disco do grupo conta com as colaborações de Carmen Paris, Joaquín Díaz, David Mayoral e Pablo Martín. Em 1986, Enrique Almendros, até então intérprete de música celta, José María Climent e Rafael Martín decidiram formar um grupo centrado na tradição musical da meseta castelhana. Ainda nesse ano, juntaram-se-lhes o flautista Jaime Muñoz e o baixista Carlos Beceiro, únicos elementos que hoje permanecem no quinteto composto ainda por Diego Galaz, Jorge Arribas e Sebastián Rubio. Das melodias de dança às canções de amor, passando pela música para casamentos, os La Musgaña apresentam-nos uma ampla visão musical de uma zona marcada pela herança europeia, africana e mediterrânica. Por entre os temas evocativos destacam-se os ofertórios religiosos, as charradas, ajechaos e charros de Salamanca e Zamora, os bailes corridos de Ávila, os pindongos de Cáceres e as danças, aires e canções de León ou Burgos, ou as jotas, rogativas, dianas e villancicos de Madrid, Segovia e Valladolid. Uma celebração da música tradicional espanhola, à mistura com influências ciganas, mouriscas e celtas, em que os ritmos hipnóticos se constroem com toda uma gama de instrumentos tradicionais (gaita charra, gaita sanabresa, flauta, tamboril, cistro ou sanfona), étnicos (cajón, tar, krakeb, pandeiro iraniano, derbouka, bouzouki, req, sabar, tinajas, bendir ou marímbula) e modernos (clarinete, acordeão diatónico, saxofone soprano, baixo ou violino).

"Ya Rayah", Rachid Taha (Argélia) - chaâbi, raï, rock, punk, techno
A jornada continua com Rachid Taha e "Ya Rayah", original do argelino Dahamane El Harrachi sobre a alienação dos emigrantes, extraído do álbum “Diwan”, lançado em 1998. São arranjos e interpretações de temas magrebinos e árabes, numa homenagem às melodias e canções de músicos da sua infância como Blaoui Houari, estrela argelina da década de 1950, ou Mohamed Mazouni. Clássicos actualizados num trabalho produzido por Steve Hillage. Rachid Taha nasceu na cidade costeira de Oran, na Argélia, mas desde muito cedo que emigrou com a família para França. Alsácia e Vosges foram os primeiros destinos do músico e compositor residente em Paris, cidade onde começou a sua carreira a solo. Em 1981, enquanto vivia em Lyon, Rachid Taha conheceu Mohammed e Moktar Amini. Foi então que os três, juntamente com Djamel Dif e Eric Vaquer, formaram a banda de rock “Carte de Séjour” (“autorização de residência”), nome que se refere à crescente movimentação dos descendentes dos imigrantes argelinos, que na época começavam a reclamar por um maior espaço de intervenção na sociedade francesa. Popular e polémico, Rachid Taha mistura o rock urbano com a música tradicional do Oriente, cantando em árabe. Nas suas influências destacam-se o chaâbi e o raï, géneros que cruzou não só com sons africanos e europeus, mas também com o punk ou o techno. Rachid Taha não deixa ninguém indiferente, já que ao longo de mais de duas décadas se tem batido pela defesa da democracia e da tolerância e pela luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, sem esquecer a guerra contra a pobreza, o medo e os fundamentalismos árabes.

"Bèlomi Bènna", Mahmoud Ahmed (Etiópia) - eskeusta, afropop, ethiopian jazz
No seu regresso ao programa, Mahmoud Ahmed apresenta-nos “Bèlomi Bènna”, melancólica canção de amor retirada do álbum “Éthiopiques 7 – Erè Mèla Mèla”, editado em 1999. Um tema com duas partes ("Erè Mèla Mèla" e "Mètché Nèw"), originalmente lançado em 1975, e que integra uma colectânea retrospectiva sobre a obra de diversos cantores e instrumentistas da música popular e tradicional da Etiópia e Eritreia, entre eles Alemayehu Eshete, Asnaketch Worku, Mulatu Astatke e Tilahun Gessesse. Nascido em Adis Abeba, onde ainda vive, Mahmoud Ahmed é um cantor de origem gurage, etnia do sudoeste da capital etíope, conhecida pelas suas danças tradicionais exuberantes. O músico, um dos mais conhecidos representantes do jazz daquele país, estreou-se nos anos 60 no Arizona Club, cantando com a banda do capitão Girma Hadgue. Mais tarde, integrou a banda da Guarda Imperial de Haile Selassie, tendo vindo a colaborar com formações como Roha Band, Musicians Titesh, Dahlack Band ou Idan Raichel Project. Com uma voz multitímbrica, Mahmoud Ahmed é o rei da eskeusta (“êxtase”), género que cruza os ritmos complexos e repetitivos da música tradicional amárica com a pop, o free jazz, a soul, o funk, o rhythm & blues ou a dub. Uma mistura de sabor indiano, acompanhada quase sempre por sons ora eléctricos, ora acústicos, onde é possível encontrar instrumentos como o krar (cordofone de cinco ou seis corda, semelhante à lira, característico da Eritreia e da Etiópia), a guitarra e o bandolim. São canções de amor cujas letras escondem desabafos políticos, imagem de uma carreira feita de persistência quanto baste. Grande parte da extensa discografia do músico foi gravada durante os anos 70, uma actividade interrompida com a repressão política de Mengistu e dos governos seguintes. Há três décadas que a lenda viva da Etiópia não edita um disco de originais, e há quase vinte que não compõe. Contudo, e ainda que pouco conhecido no ocidente, Mahmoud Ahmed e a sua banda tocam ocasionalmente junto dos seus compatriotas exilados na Europa e nos Estados Unidos.

"Johda Mua", Sanna Kurki-Suonio (Finlândia) - finnish folk
Na sua estreia no programa, Sanna Kurki-Suonio traz-nos “Johda Mua” (Leva-me), tema extraído do álbum “Musta” (“negro”, em finlandês, mas também abreviatura de minusta, o que significa "de mim"), seu primeiro trabalho a solo, lançado em 1998. Disco onde a cantora e compositora finlandesa, tocadora de kantele (versão finlandesa do zither, da família da cítara), recupera a tradição vocal do seu país e daquele instrumento, explorando técnicas e estilos modernos e cruzando instrumentação acústica (acordeão, guitarra acústica, guitarra baixo, violoncelo, trompete e percussões) e electrónica (teclados). Produzido por Martyn Ware, produtor de artistas como Tina Turner e Chaka Khan, este álbum reúne as participações de Eicca Toppinen, Pekka Tegelman, Tapio Aaltonen, Seppo Kantonen e Otto Donner. Nascida em 1966, Sanna Kurki-Suonio, que se serve da música para expressar o que não pode ser dito verbalmente, aprendeu a cantar antes de pronunciar as primeiras palavras. Fundadora dos Loituma, quarteto finlandês que combina a tradição vocal daquele país com o kantele, durante quase uma década Sanna acompanhou os suecos Hedningarna, tocando com a banda por todo o mundo e participando em três dos seus trabalhos – “Kaksi” (1992), “Trä” (1994) e “Karelia Visa” (1999). Seguiu-se uma digressão nos Estados Unidos e Europa com o sueco Magnus Stinnerbom, o concerto de celebração dos 150 anos do Kalevala, o épico finlandês, ao lado do baixista Aki Ville Yrjänä, e a participação em trabalhos de músicos noruegueses e finlandeses como Ismo Alanko, Pekka Lehti, Hannu Saha, Transjoik, Frode Fjellheim ou Tellu Turkka. Entretanto, à discografia de Sanna Kurki-Suonio somam-se mais dois discos - “Kainuu” (2004) e “Huria” (2007) –, desta feita com a também tocadora de kantele Riitta Huttunen. Enquanto que o primeiro recupera canções e hinos tradicionais finlandeses da região de Kainuu, o segundo explora a folk da Carélia e apresenta melodias originais, contando com a participação adicional do multinstrumentista Jari Lappalainen.

"Skåne", Hedningarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Seguem-se os Hedningarna com “Skåne”, tema que faz parte do álbum “Hippjokk”, editado em 1997. Trabalho onde o ressurgido ensemble musical, agora já sem o canto yoik/juoiggus das finlandesas Sanna Kurki-Suonio e Anita Lehtola, tem por convidados o joiker finlândes Wimme Saari, o guitarrista norueguês Knut Reiersrud, Johan Liljemak, Ola Bäckström e Ulf Ivarsson. Das incursões pelo mundo do rock à pop e ao techno, os Hedningarna (em sueco, hedning significa "pagão") misturam sonoridades contemporâneas com elementos da música tradicional nórdica. Temas que a banda, formada em 1987 e da qual hoje fazem parte Anders Skate Norudde, Hållbus Totte Mattsson, Christian Svensson e Magnus Stinnerbom, reinterpreta de forma livre e inventiva, juntando-lhe ainda percussões acústicas e electrónicas. Para isso, servem-se de antigos instrumentos de vários países do norte da Europa, e não só, como a moraharpa (versão medieval da nyckelharpa, harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas), a stråkharpa (lira nórdica de arco), o lagbordun, o hummel (cordofone sueco, da família da cítara e semelhante ao norueguês langeleik), a mandora (cordofone da família do alaúde), o oud (alaúde árabe), a sanfona, a guitarra barroca, a flauta transversal, o violino, a gaita sueca, o acordeão, o didgeridoo e o pandeiro.

"Seeing Hands", Dengue Fever (EUA) - khmer rock, cambodian folk, pop
A viagem chega ao fim com os Dengue Fever, que nos trazem “Seeing Hands”, tema extraído do álbum “Venus On Earth”, lançado este ano. Terceiro trabalho do grupo californiano, feito dos habituais covers de khmer rock (entre os artistas revisitados destacam-se Sinn Sisamouth ou Ros Sereysothea), mas a que agora se juntam os originais e as canções em inglês. Formados pelos irmãos Ethan e Zac Holtzman, os Dengue Fever surgiram em 2001. A inspiração sonora veio de uma viagem feita quatro anos antes ao Cambodja, altura em que um amigo de ambos contraiu a doença tropical que acabaria por baptizar o grupo, encabeçado pela cambodjana Chhom Nimol, e a que se juntam Senon Williams, David Ralicke e Paul Smith. Aqui a única febre é mesmo a da pop e do rock que dominou as rádios e as jukeboxes do Cambodja nos anos 60, sons influenciados pelo rock americano e pelas primeiras bandas de garagem do vizinho Vietname. São versões renovadas do surf e do garage rock psicadélicos, sempre acompanhadas pela guitarra e guitarra baixo, saxofone, órgão electrónico e percussões. Ritmos que o sexteto de Los Angeles cruza com amostras das bandas sonoras de Bollywood, a soul, o funk e o jazz etíopes, o rhythm & blues americano ou a folk cambodjana. O resultado é uma mistura de sons locais com rock de todo o planeta. Retrato patente aliás no documentário “Sleepwalking Through the Mekong”, fruto da primeira visita da banda ao Cambodja, em 2005, numa digressão bem ao estilo dos pioneiros do rock naquele país asiático. Em Agosto, os Dengue Fever vão estar em Portugal, primeiro no Festival Internacional de Música de Viana do Castelo (dia 15) e depois no Festival de Músicas do Mar, na Póvoa do Varzim (dias 21 e 29).

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Emissão #66 - 31 Maio 2008

A 66ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 31 de Maio, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 4 de Junho, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (21 e 25 de Junho) nos horários atrás indicados.

"Sun", Kroke (Polónia) - klezmer, jazz fusion, folk
Os Kroke a abrirem de novo mais uma emissão, desta feita com “Sun”, tema retirado do seu quinto álbum “Ten Pieces To Save The World”, lançado em 2003. Trabalho onde a banda acredita poder salvar o mundo através da música, e em que são convidados os músicos Jacek Królik e
Sławomir Berny. Os Kroke nasceram em 1992 em Kazimierz, o bairro judaico da capital polaca. Em iídiche, idioma germânico falado em comunidades judaicas de todo o mundo e que utiliza o alfabeto hebraico moderno, Kroke significa precisamente Cracóvia, cidade que até ao início da década de 1940, nas vésperas do holocausto, foi um dos mais importantes centros da vida cultural judaica. O grupo é formado pelo contrabaixista Tomasz Lato, pelo violinista e pianista Tomasz Kukurba e pelo acordeonista Jerzy Bawoł, colegas da Academia de Música de Cracóvia, a que mais tarde se juntaria o percusionista Tomasz Grochot. Ainda que não sejam judeus, eles procuram redescobrir e reinventar as tradições musicais dos seus antepassados, tendo vindo a colaborar com artistas de renome como Van Morrison, Ravi Shankar, Natacha Atlas ou os Klezmatics. Nas suas composições e arranjos próprios, os Kroke servem-se sobretudo de escalas do klezmer – do hebraico kley (instrumento) e zemer (cantar, interpretar música) –, a música tradicional instrumental dos judeus de Leste, característica das bodas ou celebrações e enriquecida ao longo dos séculos com sons e ritmos de outras paragens. Junta-se-lhe a música sefardita, combinada com a experiência da clássica e com os improvisos da música cigana ou oriental. O resultado é uma sonoridade ora melancólica, ora festiva, mas sempre com um toque assumidamente contemporâneo.


"Tarantainas De La Casa Sin Pared", Biella Nuei (Espanha) - spanish folk
As músicas do mundo prosseguem com os Biella Nuei e o tema "Tarantainas De La Casa Sin Pared", uma referência amigável a todos os que viam a música tradicional aragonesa como algo ultrapassado, extraída do disco “Sol D’Iberno”, editado em 2006. Trabalho produzido por Juan Alberto Arteche, e que encerra a triologia iniciada com “Las Aves Y Las Flores” (1994) e “Solombra” (1998), abrindo portas a uma fase mais criativa e menos etnocêntrica no percurso deste grupo fundado por Luís Miguel Bajén na década de 1980. Álbum optimista e alegre, onde os Biella Nuei se abrem às percussões das culturas andaluza ou latina, e que conta com a participação de músicos como Eliseo Parra ou La Ronda de Boltaña. Nos primeiros anos, o septeto centrou-se no estudo e divulgação da tradição oral aragonesa, no desenvolvimento de repertório próprio e no fabrico de instrumentos como a gaita de boto, o saltério, o pífaro ou a dulzaina. Hoje permanece a variedade de instrumentos, melodias e ritmos tradicionais populares daquela região (jotas, pasacalles, tarantainas ou passeíllos), mas a free folk da banda, mestiçagem étnica sempre ligada aos movimentos sociais (entre eles os neorurais), cruza-se com outras culturas, deixando-se influenciar, entre outros géneros, pelos blues, pela rumba, pela choutiça ou pela soul cubana. Nas suas peregrinações sonoras, os Biella Nuei, que em palco se apresentam ainda com uma formação mais pequena - os Bufacalibos -, têm vindo a tocar com Carlos Núñez, Cristina Pato, Chico Sánchez Ferlosio, Kepa Junkera, Mauricio Martinotti, The Oysterband ou os Gwendal.

"Galego Guajiro", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk, folk-rock
Os Luar na Lubre de regresso ao programa, desta feita com “Galego Guajiro” (guajiro é o termo com que em Cuba são conhecidos os camponeses), tema retirado do álbum “Saudade”, lançado em 2006. Um medley composto por um punto cubano e por uma alborada e uma pandeirada galegas, numa alusão aos milhares de emigrantes galegos que a Cuba foram buscar a sua academia, a bandeira e o hino. Com uma dezena de trabalhos editados, estes embaixadores da folk celta contemporânea defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem no entanto fecharem portas às influências externas. No seu penúltimo álbum, o grupo da Corunha aposta na música proveniente da América do Sul. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho, os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há cerca de três anos, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Um disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas.

"Umuntu Ngumuntu", Mahlathini & The Mahotella Queens (África do Sul) - mbaqanga, mgqashiyo, afropop
A jornada continua com Mahlathini & The Mahotella Queens e “Umuntu Ngumuntu”, tema extraído do álbum “Umuntu”, editado em 1999. A expressão recorda um conceito zulu que diz que uma pessoa só o é porque se relaciona com os outros. Falecido nesse mesmo ano, Simon ‘Mahlathini’ Nkabinde foi o mais célebre cantor do mgqashiyo, variante muito própria da mbaqanga. Uma versão sul-africana do jazz, fruto da combinação de um estilo vocal profundo e das tradições rurais zulu com instrumentos ocidentais, mas que a influência da pop, soul e disco esgotou, tendo sido substituída na década de 1980 pelo bubblegum. Conhecido não só na África do Sul, mas também no Zimbabué e no Botswana, o “leão do Soweto” (SOuth-WEst TOwnship, em alusão aos subúrbios de Joanesburgo) começou a cantar nos anos 50, sobretudo ao lado das Dark City Sisters. Mais tarde, juntou-se à Makgona Tsohle Band, liderada pelo guitarrista Marks Mankwane, falecido em 1998, e pelo baixista Joseph Makwela, que nas suas jam sessions em Pretória inventaram a mbaqanga ao combinarem o marabi e o kwela com o rhythm & blues. O produtor do grupo foi buscar não só a voz alta e grave de Simon Nkabinde, mas também as danças inventivas das cinco Mahotella Queens (Hilda Tloubatla, Nobesuthu Mbadu, Mildred Mangxola, Juliet Mazamisa e Ethel Mngomezulu). Juntos, com a sua saltitante versão da mbaqanga, eles eram o leão e as raínhas do mgqashiyo. Artistas famosos que tocaram e gravaram juntos desde 1964, numa experiência que, apesar de algumas interrupções pelo meio, se prolongou durante três décadas.

"Djeli", Ba Cissoko (Guiné-Bissau) - kora music
Os Ba Cissoko apresentam-nos "Djeli", tema retirado do seu álbum de estreia “Sabolan”, produzido pelo músico Tao Ravao e lançado em 2003. Estes quatro jovens de ascendência griot - os conhecidos contadores de histórias que imemorialmente percorrem a savana africana para transmitirem ao povo a sua história - são naturais da Guiné-Conacri, mas vivem actualmente na cidade francesa de Marselha, tendo vindo a tocar em inúmeros espectáculos e festivais. A banda, criada em 1999, foi buscar o nome ao seu vocalista principal, o músico Ba Cissoko, neto do também mestre da kora M'Bady Kouyaté. Numa carreira comparada aos primeiros anos de Mory Kanté, o repertório da banda abrange músicas da era de ouro da cultura mandingo e canções em sussu ou peulh, palete que é colorida com congas, djembés ou cabaças e sons urbanos recheados de groove. Ao baixista Kourou Kouyate e ao percussionista Ibrahima Bah junta-se ainda Sekou Kouyaté. Devido à natureza da sua kora eléctrica, este último consegue fazer com que o instrumento produza um som de tal forma distinto, garantindo assim a alcunha de Jimi Hendrix africano, em alusão aos riffs de guitarra do célebre cantor e compositor norte-americano.

"Sepän Poika", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk, suomirock
As Värttinä de novo no programa, agora com “Sepän Poika” (O Filho do Ferreiro), tema retirado do álbum “Iki” (termo que a banda define como sendo “o sopro principal e eterno”), lançado em 2003, no vigésimo aniversário do grupo. Um trabalho que marca o regresso da banda finlandesa às grandes melodias, numa mistura de pop e rock ocidental com a folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos.

"Omas Ludvig", Hedningarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Seguem-se os Hedningarna, que nos trazem o tema “Omas Ludvig”, extraído do álbum “Kaksi!” (em finlandês, a palavra quer dizer “dois”). Neste trabalho, editado em 1992, as vocalistas finlandesas Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto juntam-se ao grupo de pioneiros na renovação da folk sueca. Das incursões pelo mundo do rock à pop e ao techno, os Hedningarna (em sueco, hedning significa "pagão") misturam sonoridades contemporâneas com elementos da música tradicional nórdica. Temas que a banda, formada em 1987 e da qual hoje fazem parte Anders Skate Norudde, Hållbus Totte Mattsson, Christian Svensson e Magnus Stinnerbom, reinterpreta de forma livre e inventiva, juntando-lhe ainda percussões acústicas e electrónicas. Para isso, servem-se de antigos instrumentos de vários países do norte da Europa, e não só, como a moraharpa (versão medieval da nyckelharpa, harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas), a stråkharpa (lira nórdica de arco), o lagbordun, o hummel (cordofone sueco, da família da cítara e semelhante ao norueguês langeleik), a mandora (cordofone da família do alaúde), o oud (alaúde árabe), a sanfona, a guitarra barroca, a flauta transversal, o violino, a gaita sueca, o acordeão, o didgeridoo e o pandeiro.

"Benedito", Afroreggae (Brasil) & Manu Chao (França) - afro-reggae, samba, hip-hop
Despedimonos com os brasileiros Afroreggae e com o francês Manu Chao, que nos trazem o tema “Benedito”, extraído do álbum “Favela Uprising”, editado em 2007. A banda de dez elementos, que transformou a música num movimento cultural não violento, funde géneros que vão do reggae ao samba, soul ou hip-hop. Neste tema, à voz de Anderson Sá junta-se a de Manu Chao, conhecido de formações como os Mano Negra e os Radio Bemba Sound System. O resultado é um som recheado de contornos politicos, mas com todo o espírito festivo urbano. Parte mais visível do Grupo Cultural Afro Reggae, organização não governamental que desde 1993 trabalha com as comunidades pobres das favelas do Rio de Janeiro, e que através da música, percussão ou dança procura resgatar os jovens do mundo da droga. O projecto começou por ser um jornal sobre as rasta dancing’s, as festas que o grupo realizava junto da população afro-brasileira do bairro carioca de Vigário Geral. Hoje o antigo Núcleo Comunitario de Cultura desenvolve iniciativas não só no Brasil mas também no estrangeiro, história que é contada no filme “Favela Rising”, realizado em 2005 por Matt Mochary e Jeff Zimbalist.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Emissão #58 - 9 Fevereiro 2008

A 58ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 9 de Fevereiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 13 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (1 e 5 de Março) nos horários atrás indicados.

"Colonie", Red Cardell (França) - folk-rock
Os Red Cardell a abrirem mais uma emissão com “Colonie”, tema retirado do álbum “Sans Fard”, sétimo trabalho do grupo, editado em 2003. Originários da cidade francesa de Quimper, eles são uma das mais conhecidas bandas tradicionais da Bretanha. O grupo, formado em 1992 e de que hoje fazem parte Jean-Pierre Riou, Jean-Michel Moal e Manu Masko, começou por tocar em bares. Surgidos no movimento do rock bretão, e à margem da nova vaga celta, os Red Cardell decidiram então fundir as danças e os cantos tradicionais da Bretanha com ritmos da Europa de Leste, da América do Sul ou do norte de África. Uma viagem em que géneros como a folk berbere e ucraniana, o tango, o reggae, a dub, o funk ou o java se juntam com influências diversas que vão do punk-rock anglo-saxónico ao rap e ao techno. Geografias sonoras à mistura com textos poéticos em inglês e francês, os quais abordam temas recorrentes no blues, na chanson française ou no gwerz (canto bretão a capella onde se aborda o quotidiano). Um ambiente festivo multi-étnico que tem por base instrumental o acordeão, a bombarda bretã, a flauta, as guitarras acústica e eléctrica, a bateria ou os sintetizadores.

"Areias de Sal", Júlio Pereira (Portugal) - folk, acoustic, fusion
As músicas do mundo prosseguem com Júlio Pereira e "Areias de Sal", tema que integra o seu último álbum “Geografias”, lançado em 2007. Um conjunto de inéditos instrumentais baseados em memórias de viagens e experimentações sonoras, resultado da combinação entre bandolim, guitarra portuguesa, viola braguesa, bouzouki e sintetizadores. Depois de muitos anos ligado ao cavaquinho, Júlio Pereira volta-se agora para outro cordofone pequeno, o bandolim, instrumento que o acompanha desde a infância. São sons tradicionais portugueses à mistura com ritmos africanos e orientais, num trabalho que conta com as vozes de Sara Tavares, Isabel Dias (grupo minhoto Raízes) e Marisa Pinto (Donna Maria), bem como Miguel Veras na viola acústica e guitarra e Bernardo Couto na guitarra portuguesa. Júlio Pereira estreou-se no rock com grupos como os Petrus Castrus e os Xarhanga. Da inovação musical dos anos 60/70, à revitalização dos instrumentos tradicionais, a partir dos anos 80/90 Júlio Pereira associou-os a soluções acústicas contemporâneas. Ao longo de mais de três décadas de carreira, o multi-instrumentista, compositor e produtor tem colaborado com músicos como Carlos do Carmo, Amélia Muge, Pedro Burmester, Eugénia Melo e Castro, Zeca e João Afonso, José Mário Branco, Jorge Palma, Janita Salomé ou Fausto, bem como os The Chieftains, Pete Seeger, Kepa Junkera, Xosé Manuel Budiño, Uxia ou Na Lúa.

"La Caverne", Claire Pelletier (Canadá) - celtic music
Claire Pelletier de novo no programa, desta feita com “La Caverne”, uma composição que nos remete para a conhecida alegoria de Platão. O tema faz parte do álbum “En Concert Au St-Denis”, gravado ao vivo em Outubro de 2002 no teatro Saint-Denis, em Montreal, no Canadá. Desde muito pequena que a rapariga da voz azul-marinho, baptizada de Claire La Sirène (A Sereia) se deixou fascinar pelos contos, lendas e canções tradicionais do Quebeque, província onde 80 por cento da população é de descendência francesa. Aos 24 anos, a jovem trocava o curso de oceanografia pela música, surgindo inicialmente ao lado do grupo Tracadièche. Depois de ter dado a conhecer “Galileo” no Quebeque e na Europa francófona, neste álbum Claire Pelletier, o músico e seu marido Pierre Duchesne e o compositor Marc Chabot misturam as músicas dos álbuns “Murmures d'Histoire” (1996) e “Galileo” (2000), ligando a inspiração medieval, a alma céltica, as melodias tradicionais e as lendas da antiguidade. Um espectáculo em que o duo harmónico combina o piano, o violino, a viola e o contrabaixo com sons electrónicos. Como a vela de um barco, a voz envolvente e suave de Claire Pelletier iça-se, estica-se e apoia-se sobre o vento.

"Bajjan", Youssou N'Dour (Senegal) - mbalax, afropop
A jornada continua com Youssou N'Dour e o tema “Bajjan”, retirado do álbum “Rokku Mi Rokka” (Apanhar e Levar), editado em 2007. Trabalho onde o mais famoso cantor senegalês se aproxima dos cantos religiosos sufi, das percussões dos griots e dos sons do norte do Senegal, num apelo à paz, tolerância e valorização do continente africano. No final dos anos 70, o autor, intérprete e músico, que aprendeu a cantar com a mãe, formava com o cantor El Hadj Faye os L'Etoile de Dakar, e em 1981 os Le Super Étoile de Dakar. Cruzando os ritmos sincopados do mbalax senegalês com a pop internacional, numa fusão que inclui o jazz, a soul e arranjos afro-cubanos, o “rouxinol de Dakar” depressa cativou o público ocidental sem no entanto abdicar das suas raízes, conquistando o estatuto de embaixador da música africana. Nos seus temas em wolof e inglês, Youssou N’Dour retrata o mundo da pobreza, da emigração ou os valores culturais africanos. Um dos mais conhecidos a nível global é “Seven Seconds”, gravado com Neneh Cherry. Através da música, Youssou N'Dour pretende quebrar o silêncio das crianças que sofrem e abraçar as causas humanitárias. Da fundação com o seu nome aos concertos em benefício da Amnistia Internacional, o embaixador da boa vontade para as Nações Unidas e para a UNICEF tem por isso mesmo colaborado com músicos como Peter Gabriel, Axelle Red, Sting, Alan Stivell, Bran Van 3000, Wyclef Jean, Paul Simon, Bruce Springsteen, Tracy Chapman, Branford Marsalis, Ryuichi Sakamoto ou o camaronês Manu Dibango.

"Ndongoy Daara", Orchestra Baobab (Senegal) - afropop, afrobeat, salsa
A Orchestra Baobab estreia-se no programa com "Ndongoy Daara", um protesto contra a corrupção escrito por Laye Mboup, músico cuja sonoridade inspirou os primeiros êxitos da banda. A música faz parte do disco “Specialist In All Styles”, gravado em Londres e lançado em 2002. Primeiro álbum da Orchestra Baobab depois de duas décadas de inactividade, produzido por Youssou N'Dour e Nick Gold, e onde são convidados Ibrahim Ferrer (dos Buena Vista Social Club) e Thio M'Baye. Recorde-se que o grupo se dissolveu em 1987, depois de o percussivo mbalax se ter tornado mais popular do que a sua melódica pop senegalesa. Neste trabalho, a Orchestra Baobab, que a 24 de Julho vai estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, recupera o espírito de fusão que a celebrizou. Surgidos em Dakar em 1970 na inauguração do Baobab Club, a banda, cujo nome se refere à majestosa árvore da savana, foi formada em grande parte por veteranos da Star Band. Balla Sidibe, Rudy Gomis, Ndiouga Dieng, Assane Mboup, Medoune Diallo, Barthélemy Attisso, Issa Cissoko, Thierno Koite, Latfi Ben Geloune, Charlie N'Diaye e Mountaga Koite misturam sons tradicionais da África Ocidental com a música cubana e caribenha (son, pachanga, salsa ou bolero) e com a pop ocidental. As melodias crioulas portuguesas, do Togo e Marrocos, a rumba congolesa ou o high life ganês são então adaptados às influências wolof da cultura griot do norte do Senegal, às harmonias mandinga da região de Casamance e às percussões do sul do país.

"Domschottis", Garmarna (Suécia) - folk-rock
Os suecos Garmarna regressam ao programa com “Domschottis”, tema extraído do álbum “Vittrad” ("Withered", em inglês), lançado em 1994. A banda surgiu quatro anos antes, depois de três jovens suecos de Sundsvall - Gotte Ringqvist, Stefan Brisland-Ferner e Rickard Westman – terem ficado impressionados com a componente musical de uma representação do clássico ”Hamlet“, de Shakespeare. Inspirados pela velha música sueca, estes começaram então a procurar antigas melodias e instrumentos. O grupo, a que hoje se junta Emma Härdelin, canta velhas lendas da música tradicional do seu país, falando de bruxas más, madrastas tenebrosas e de princesas indefesas. Convém explicar que na mitologia sueca os Garmarna eram os cães que guardavam a porta do inferno. Uma imagem metafórica que se transpõe facilmente para os cenários sonoros criados por este quinteto, que oscila entre as estéticas anglo-saxónicas e os ambientes da música tradicional sueca. No entanto, os Garmarna não fazem questão de perpetuar tradições. O que eles procuram é antes um som único, influenciado pelo rock, e que misture a instrumentação antiga - das harpas e violinos às sanfonas e guitarras - com sequenciadores, amostras de batidas e sons distorcidos.

"Höglorfen", Hendingarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Seguem-se os Hedningarna com “Höglorfen”, tema retirado do álbum “Hippjokk”, editado em 1997. Trabalho onde o ressurgido ensemble musical, agora já sem o canto yoik/juoiggus das finlandesas Sanna Kurki-Suonio e Anita Lehtola, tem por convidados o finlândes Wimme Saari, o norueguês Knut Reiersrud, bem como Johan Liljemak, Ola Bäckström e Ulf Ivarsson. Das incursões pelo mundo do rock à pop e ao techno, os Hedningarna (em sueco, “hedning” significa "pagão") misturam sonoridades contemporâneas com elementos da música tradicional nórdica. Temas que a banda, formada em 1987 e da qual hoje fazem parte Anders Skate Norudde, Hållbus Totte Mattsson, Christian Svensson e Magnus Stinnerbom, reinterpreta de forma livre e inventiva, juntando-lhe ainda percussões acústicas e electrónicas. Para isso, servem-se de antigos instrumentos de vários países do norte da Europa, e não só, como a moraharpa (versão medieval da nyckelharpa, harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas), a stråkharpa (lira nórdica de arco), o lagbordun, o hummel (cordofone sueco, da família da cítara e semelhante ao norueguês langeleik), a mandora (cordofone da família do alaúde), o oud (alaúde árabe), a sanfona, a guitarra barroca, a flauta transversal, o violino, a gaita sueca, o acordeão, o didgeridoo e o pandeiro.
"El Capitán", The Cuban Cowboys (EUA) - spanglish indie rock, son, montuno
Despedimo-nos com “El Capitán” dos The Cuban Cowboys, tema retirado do seu álbum de estreia “Cuban Candles”, editado em 2007. Uma canção onde o grupo fala sobre um marinheiro mulherengo sempre ausente de casa, com filhos em todo o lado, e uma vida recheada de degradação e violência. Trabalho que é uma amálgama de influências culturais, cruzadas com histórias sobre o exílio cubano, a imigração dos pais para os Estados Unidos, as expectativas e os sonhos desfeitos ou ainda sobre a reconciliação destes jovens com as duas culturas a que pertencem. À voz de Jorge “Hialeah” Navarro juntam-se então a guitarra de Luca “iLL Postino” Benedetti, o baixo de Angeline “Diamante En Bruto” Saris e as percussões de Andy “Chulito Del Fuego” Sanesi. O resultado é um cruzamento dos cubanos son e montuno, géneros tradicionais a que os The Cuban Cowboys adicionam uma mistura explosiva feita de punk e rock latino. Formados em Brooklyn em 2000 e extremamente populares nos clubes de Nova Iorque e São Francisco, eles consideram-se a maior banda de surf rock cubano, definição adequada à sua mescla algo absurda, mas sempre bem disposta, de ritmadas melodias em “espanglês”. Sons que os próprios The Cuban Cowboys situam algures entre as coordenadas musicais dos Buena Vista Social Club, dos The Pixies, de Ricky Ricardo ou de Tom Waits.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Emissão #54 - 15 Dezembro 2007

A 54ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 15 de Dezembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 19 de Dezembro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (5 e 9 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

Um programa especial onde se destaca a entrevista exclusiva aos Barbatuques, realizada a 3 de Dezembro no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, na estreia em Portugal do grupo brasileiro.


"Vuoi Vuoi Mu", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
A norueguesa Mari Boine Persen inaugura a emissão com o tema “Vuoi Vuoi Mu”, extraído do álbum “Iddjagieđas” (Na Mão da Noite), lançado em 2006. Para além dos músicos Svein Schultz, Georg Buljo, Ole Jørn Myklebust, Peter Baden, Juan Carlos Zamata Quispe, Gunnar Augland, Sanjally Jobarteh, Malika Makouf Rasmussen, Sibusisiwe Ncube e Ross Reaver, neste disco colaboram também Terje Rypdal, Anitta Suikkari, Marry Sarre e Kenneth Ekornes. Nascida em Gámehisnjárga, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, os habitantes da Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica, assente numa escala pentatónica, da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo, as batidas e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, a pop, o rock e mesmo a música electrónica. São sons mais entoados que cantados, onde se evocam a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Yapheli'Mali Yami", Busi Mhlongo (África do Sul) - afro pop, maskanda, mbaqanda

Busi Mhlongo traz-nos " Yapheli'Mali Yami" (Acabou-se-me o Dinheiro), tema retirado do álbum "Urbanzulu", editado em 2000. Disco em que colaboraram vários músicos, entre eles, dois da banda Phuzekhemisi, que com ela compuseram este álbum simultaneamente africano e ocidental. A diva do afro pop foi a primeira mulher a internacionalizar a maskanda, género tradicional zulu que expressa a alegria e o lamento presentes na moderna vida da urbana África do Sul, e outrora característico dos trabalhadores e migrantes rurais. No entanto, Busi Mhlongo percorre outros estilos sul-africanos, fundindo-os com o jazz, o funk, o rock, o gospel, o rap e o reggae, e usando coros e instrumentos não tradicionais. Ao longo da sua carreira, actuou com alguns dos melhores nomes do jazz e estrelas da mbaqanga (género vocal, desenvolvido a partir de um estilo negro urbano, em que se destacam as vozes graves masculinas, e que se transformou no mqashiyo, um popular género de dança). Impedida de regressar à África do Sul, o que só aconteceria nos anos 90, Busi Mhlongo passou vários anos em Portugal, cantando temas populares e canções africanas em casinos. Durante o exílio, ela viveu ainda em Londres, no Canadá e em Amesterdão, cidade onde trabalhou com músicos africanos e desenvolveu o seu estilo único. Não é por acaso que, nas suas letras, Busi Mhlongo fala da necessária reconciliação entre sul-africanos com diferentes aspirações políticas.

"Manta", Saba (Somália) - afropop
Saba regressa ao programa com o tema "Manta" (Hoje), extraído do álbum “Jidka”, lançado este ano. Nascida em Mogadíscio, capital da Somália, durante o regime repressivo do general Muhammad Siyad Barre, Saba é filha de pai italiano e de mãe etíope. Com os italianos permanentemente sob suspeita e o conflito com a Etiópia na região de Ogaden, a família foi então obrigada a exilar-se em Itália. Neste seu trabalho de estreia, a cantora cruza a cultura africana com a europeia. Saba mistura então guitarras acústicas, koras e djembés com batidas tradicionais africanas e percussão contemporânea, recordando canções de infância e temas compostos com a própria mãe (recorde-se que ela começou por cantar e dançar com a irmã para entreter os vizinhos, em Addis Abeba). A jovem, que tem trabalhado com autores somalianos como Cristina Ubax Alì Farah e Igiaba Scego, serve-se do dialecto somali de Xamar Weuyne, onde abundam as palavras em inglês e italiano, herança dos tempos coloniais. Nesta aproximação entre culturas, ela conta com as participações do guitarrista e percussionista camaronês Tatè Nsongan, do griot senegalês Lao Kouyatè e da voz de Felix Moungara, do Gabão.

"Korppi", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock

A viagem continua com as Värttinä, que nos trazem o tema “Korppi”, retirado do álbum “Kokko”, editado em 1996. A mais conhecida banda do folclore contemporâneo finlandês traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica, naquele que foi o primeiro trabalho onde o grupo tentou juntar a música tradicional com sons modernos. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de sempre.

"Metsän Tyttö", Hedningarna (Suécia) - swedish folk, ethno-punk
Seguem-se
os Hedningarna com “Metsän Tyttö” (A Rapariga da Floresta), tema extraído do álbum “Karelia Visa” (Canções da Carélia), lançado em 1999. Depois das incursões pelo mundo do rock, da pop e do techno, os Hedningarna (Os Pagãos), pioneiros na renovação da folk sueca, regressam à música tradicional nórdica. Juntam-se-lhes de novo as vocalistas finlandesas Sanna Kurki-Suonio e Anita Lehtola, parte do agora sexteto que integra ainda Anders Skate Norudde, Björn Tollin, Hållbus Totte Mattsson e Ulf "Rockis" Ivarsson, e que conta com as colaborações de Johan Liljemark e Wimme Saari. No segundo álbum em que o grupo explora as raízes fino-úgricas da Carélia, homenagem à herança cultural deixada naquela região maioritariamente ocupada pela Rússia, os Hedningarna apresentam canções medievais que remetem para antigas lendas finlandesas, enraizadas no Kalevala (epopeia nacional daquele país, compilada por Elias Lönnrot). Letras e melodias que a banda, formada em 1987, reinterpreta de forma livre e inventiva, criando uma sonoridade etérea capaz de suportar a magia e o arcaísmo dos cantos rúnicos, sem contudo abdicar de influências modernas. Para isso, servem-se de instrumentos de vários países do norte da Europa como o violino, a moraharpa (versão medieval da nyckelharpa, harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas), a stråkharpa (lira nórdica de arco), o lagbordun, o hummel (cordofone sueco, da família da cítara e semelhante ao norueguês langeleik), a mandora (cordofone da família do alaúde), o alaúde, o oud (alaúde árabe), a sanfona, a flauta, a gaita sueca, o acordeão, o didgeridoo e o pandeiro.

Baianá", Barbatuques (Brasil) – body music, a'cappella, experimental
Os Barbatuques apresentam-nos agora “Baianá”, tema retirado do álbum “O Seguinte é Esse”, editado em 2005. No seu último trabalho, produzido por Fernando Barba, André Hosoi e Bruno Buarque, o grupo adiciona novas técnicas e paisagens sonoras ao universo da música corporal. Um retiro musical realizado em Botucatu, no interior de São Paulo, e novos arranjos e composições gravados em estúdio, fruto da aproximação a sonoridades regionais e contemporâneas, servem de base a este disco onde eles exploram em maior profundidade os aspectos melódicos, harmónicos, percussivos e fonéticos da voz. Partindo do “barbatuquear” minimalista e do improviso colectivo, este núcleo de percussionistas e pedagogos explora os inúmeros sons produzidos pelo corpo. As palmas, as batidas, os estalos, os assobios ou os vácuos são então combinados com instrumentos como o berimbau, a flauta ou a guitarra, na produção de ritmos, melodias, danças e cantos inspirados na cultura popular brasileira e que se cruzam com o sapateado do coco, as palmas do flamenco, os harmónicos vocais do Oriente, a percussão vocal cubana ou os sons fonéticos africanos. Uma experimentação global em diálogo com géneros contemporâneos como a dub, a beat box ou a electrónica. Estéticas que ampliam a gama de timbres orgânicos desta “orquestra de roda” que convida o público a explorar também as sonoridades tribais produzidas pelo “sintetizador humano”, fonte ilimitada de sons.

"Papa U Mama", Fufü-Ai (Espanha) - rock, french pop
Despedimo-nos com os catalães Fufü-Ai e o tema “Papa U Mama”, extraído do seu segundo álbum “For Ever”, gravado no verão de 2007. Trabalho onde a pop sensual e ingénua do primeiro disco “Petite Fleur”, lançado no ano anterior, se alarga ao reggae, à bossa nova, ao rock e ao punk. Propostas mestiças que partem do ambiente multicultural do El Raval, o conhecido bairro da Ciutat Vella de Barcelona, num french touch que fica completo com letras em francês, castelhano ou inglês. Em 2004, a vocalista Anouk Chauvet (Color Humano) reencontrou-se com o guitarrista e produtor Tomas Arroyos "Tomasin" (Les Casse-Pieds, La Kinky Beat, Mano Negra, Color Humano, Dusminguet), numa primeira versão acústica de Fufü-Ai, formação a que hoje se juntam a teclista Laia (Brazuca Matraca), o baixista Fernando "dinky" e o baterista Óscar. O projecto da capital catalã conta ainda com as colaborações pontuais de músicos como Yacine (Nour), Miryam ‘Matahary’ (La Kinky Beat), Joan Garriga (La Troba Kung-Fu), Sandro (Macaco), Stefarmo ou Baba (Black Baudelaire).

Jorge Costa