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sexta-feira, 16 de maio de 2008

Emissão #65 - 17 Maio 2008

A 65ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 17 de Maio, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 21 de Maio, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (7 e 11 de Junho) nos horários atrás indicados.

Um programa especial, onde se destaca a entrevista exclusiva aos Ventos da Líria, quinteto instrumental que liga os ares celtas aos ventos da folk europeia.

"Karavaani Kulkee", Tuomari Nurmio & Alamaailman Vasarat (Finlândia) - progressive folk, punk, rock
Tuomari Nurmio & Alaimaailman Vasarat a abrirem de novo mais uma emissão, desta feita com “Karavaani Kulkee”, tema do álbum conjunto “Kinaporin Kalifaatti”, editado em 2005. Tuomari Nurmio, nome artístico de Hannu Juhani Nurmio, nasceu em Helsínquia e é um dos mais originais cantautores finlandeses. Da música country e dos blues, às reminescências de Tom Waits, são impressões ora românticas, ora humorísticas, que Tuomari (“juíz”, em finlandês, alcunha adoptada desde que este se formou em Direito) combina com expressões peculiares, metáforas e vernáculo quanto baste. Depois do duo de guitarra e bateria com Markku Hillilä, surge agora a colaboração com os Alamaailman Vasarat (Martelos do Submundo) numa mistura que combina melodia, harmonia e ritmo. Criados em 1997 também em Helsínquia por dois membros do grupo de rock progressivo Höyry-Kone - o percussionista Teemu Hänninen e o guitarrista Jarno Sarkula, que então comprou um saxofone soprano -, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda – a que se juntam Miikka Huttunen, Marko Manninen, Tuukka Helminen e Erno Haukkala - apresenta-se como uma combinação de world music ficcional oriunda do seu próprio continente imaginário, a Vasaraasia, com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma folk progressiva situada algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone, clarinete e saxofone soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). Ritmos acelerados e frenéticos a provarem que no rock não são necessárias guitarras eléctricas.

"Prima Donna", Ricardo Lemvo (RD Congo) - salsa, rumba, soukous, afropop
As músicas do mundo prosseguem com Ricardo Lemvo e o tema "Prima Donna", um híbrido festivo extraído do seu quinto e último álbum “Isabela”, lançado em 2007 e baptizado com o nome da própria filha. Trabalho onde o músico, que começou por tocar em bandas de rhythm & blues, prossegue com a habitual mistura de géneros afro-americanos como a salsa cubana, o soukous ou a rumba congolesa, a que se juntam ainda incursões pelo universo do merengue, do boogaloo ou do tango. Um álbum que conta com as participações do guitarrista congolês Papa Noël, do violinista cubano Alfredo de la Fé, dos vocalistas Maria de Barros, Janan Guzey, Wuta Mayi, Nyboma, El Niño Jesús e do rapper Qbanito. Nascido no antigo Zaire, mas de ascendência angolana, Ricardo Lemvo passou toda a sua infância em Kinshasa, hoje capital da República Democrática do Congo. Foi ali que ele se deixou inspirar pelos ritmos e melodias da rumba congolesa e do soukous, fruto da influência da música cubana nas décadas de 1950 e 1960 naquele país. Aos 15 anos, Lemvo mudava-se para Los Angeles, nos Estados Unidos, onde, influenciado pelo vibrante ambiente da salsa, acabaria por trocar o curso de Direito pela música. Depois de ter sido vocalista em várias bandas, em 1990 este fundava os Makina Loca, uma dezena de músicos que combinam a rumba congolesa com o cubano son montuno, ligando as raízes africanas e os sons afro-portugueses aos da diáspora latina. Ricardo Lemvo canta em inglês, francês, castelhano, português, turco, suaíli, lingala e quicongo, uma panóplia de línguas associadas a temas que através do ritmo e da dança celebram a vida, e que, entre outros, são tocados por músicos como o colombiano Joe Arroyo e a cubana Orquestra Reve.

"Dabbaax", Youssou N'Dour (Senegal) - mbalax, afropop
Youssou N’Dour de regresso ao programa, desta feita com “Dabbaax”, tema retirado do álbum “Rokku Mi Rokka” (Apanhar e Levar), editado em 2007. Trabalho onde o mais famoso cantor senegalês se aproxima dos cantos religiosos sufi, das percussões dos griots e dos sons do norte do Senegal, num apelo à paz, tolerância e valorização do continente africano. No final dos anos 70, o autor, intérprete e músico, que aprendeu a cantar com a mãe, formava com o cantor El Hadj Faye os L'Etoile de Dakar, e em 1981 os Le Super Étoile de Dakar. Cruzando os ritmos sincopados do mbalax senegalês com a pop internacional, numa fusão que inclui o jazz, a soul e arranjos afro-cubanos, o “rouxinol de Dakar” depressa cativou o público ocidental sem no entanto abdicar das suas raízes, conquistando o estatuto de embaixador da música africana. Nos seus temas em wolof e inglês, Youssou N’Dour retrata o mundo da pobreza, da emigração ou os valores culturais africanos. Um dos mais conhecidos a nível global é “Seven Seconds”, gravado com Neneh Cherry. Através da música, Youssou N'Dour pretende quebrar o silêncio das crianças que sofrem e abraçar as causas humanitárias. Da fundação com o seu nome aos concertos em benefício da Amnistia Internacional, o embaixador da boa vontade para as Nações Unidas e para a UNICEF tem por isso mesmo colaborado com músicos como Peter Gabriel, Axelle Red, Sting, Alan Stivell, Bran Van 3000, Wyclef Jean, Paul Simon, Bruce Springsteen, Tracy Chapman, Branford Marsalis, Ryuichi Sakamoto ou o camaronês Manu Dibango.

"Ach Adani", Rachid Taha (Argélia) - chaâbi, raï, rock, punk, techno
A jornada continua com Rachid Taha e “Ach Adani”, parte integrante do álbum “Diwan”, lançado em 1998. São arranjos e interpretações de temas magrebinos e árabes, numa homenagem às melodias e canções de músicos da sua infância como Blaoui Houari, estrela argelina da década de 1950, ou Mohamed Mazouni. Clássicos actualizados num trabalho produzido por Steve Hillage. Rachid Taha nasceu na cidade costeira de Oran, na Argélia, mas desde muito cedo que emigrou com a família para França. Alsácia e Vosges foram os primeiros destinos do músico e compositor residente em Paris, cidade onde começou a sua carreira a solo. Em 1981, enquanto vivia em Lyon, Rachid Taha conheceu Mohammed e Moktar Amini. Foi então que os três, juntamente com Djamel Dif e Eric Vaquer, formaram a banda de rock “Carte de Séjour” (“autorização de residência”), nome que se refere à crescente movimentação dos descendentes dos imigrantes argelinos, que na época começavam a reclamar por um maior espaço de intervenção na sociedade francesa. Popular e polémico, Rachid Taha mistura o rock urbano com a música tradicional do Oriente, cantando em árabe. Nas suas influências destacam-se o chaâbi e o raï, géneros que cruzou não só com sons africanos e europeus, mas também com o punk ou o techno. Rachid Taha não deixa ninguém indiferente, já que ao longo de mais de duas décadas se tem batido pela defesa da democracia e da tolerância e pela luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, sem esquecer a guerra contra a pobreza, o medo e os fundamentalismos árabes.

"Bèlaya Bèlaya", Mahmoud Ahmed (Etiópia) - eskeusta, afropop, ethiopian jazz
Mahmoud Ahmed estreia-se no programa com “Bèlaya Bèlaya”, tema extraído do álbum “Éthiopiques 19 - Alèmyé”, editado em 2005. Parte de uma colectânea retrospectiva sobre a obra de diversos cantores e instrumentistas da música popular e tradicional da Etiópia e Eritreia, entre eles Alemayehu Eshete, Asnaketch Worku, Mulatu Astatke e Tilahun Gessesse. Nascido em Adis Abeba, onde ainda vive, Mahmoud Ahmed é um cantor de origem gurage, etnia do sudoeste da capital etíope, conhecida pelas suas danças tradicionais exuberantes. O músico estreou-se nos anos 60 no Arizona Club, cantando com a banda do capitão Girma Hadgue. Mais tarde, integrou a banda da Guarda Imperial de Haile Selassie, tendo vindo a colaborar com formações como Roha Band, Musicians Titesh, Dahlack Band ou Idan Raichel Project. Com uma voz multitímbrica, Mahmoud Ahmed é o rei da eskeusta (“êxtase”), género que cruza os ritmos complexos e repetitivos da música tradicional amárica com a pop, o free jazz, a soul, o funk, o rhythm & blues ou a dub. Uma mistura de sabor indiano, acompanhada quase sempre por sons ora eléctricos, ora acústicos, onde é possível encontrar instrumentos como o krar (cordofone de cinco ou seis corda, semelhante à lira, característico da Eritreia e da Etiópia), a guitarra e o bandolim. São canções de amor cujas letras escondem desabafos políticos, imagem de uma carreira feita de persistência quanto baste. Grande parte da extensa discografia do músico foi gravada durante os anos 70, uma actividade interrompida com a repressão política de Mengistu e dos governos seguintes. Há três décadas que a lenda viva da Etiópia não edita um disco de originais, e há quase vinte que não compõe. Contudo, e ainda que pouco conhecido no ocidente, Mahmoud Ahmed e a sua banda tocam ocasionalmente junto dos seus compatriotas exilados na Europa e nos Estados Unidos.

"Roda Cozida", Ventos da Líria (Portugal) - celtic, irish folk, fusion
Os Ventos da Líria trazem-nos “Roda Cozida”, um dos temas que deverá integrar o seu primeiro álbum de originais, ainda sem data prevista de lançamento. Para já, o grupo conta com o trabalho promocional “Às Voltas”, editado em 2007 e feito de melodias de autor e de temas tradicionais celtas. Repartido entre Alcains e Castelo Branco, o jovem quinteto liga os ares celtas ibéricos aos ventos da folk irlandesa, fusão festiva inspirada em nomes de referência como Kepa Junkera e Luar na Lubre, ou em bandas lendárias como os Dubliners e os The Chieftains. Ambientes musicais onde entram também os tangos provocadores de Astor Piazolla e as melodias vulcânicas de Emir Kusturica. A aventura furtuita arrancou em 2001, acabando por dar lugar à formação de que hoje fazem parte Rui Barata, Susana Ribeiro, Gonçalo Rafael, António Preto e Mané Silva. Ao diálogo ritmado entre o acordeão e o violino juntam-se a viola baixo, a guitarra, a bandola ou a bateria. Energia sonora que serve de estímulo aos Ventos da Líria. Tudo para que, inspirados pelos ares da Serra da Gardunha, estes continuem de olho nos ventos musicais que sopram dos quatro cantos do globo. A 23 e 24 de Maio o grupo ruma até Vila Viçosa e Torres Novas, respectivamente. Mais adiante, a 18 de Julho, segue-se o concerto em Penamacor. Finalmente, em Setembro, os Ventos da Líria vão estar nas Sarnadas de Ródão (dia 7) e em Castelo Branco (dia 19).

"Iman", Andrea Echeverri (Colômbia) - latin rock, colombian folk, country
Despedimo-nos com a colombiana Andrea Echeverri e o tema “Íman”, extraído do primeiro álbum a solo da vocalista e guitarrista dos Atercipelados, assinado com o seu nome e lançado em 2005. Depois de uma década à frente da banda que mistura o rock alternativo latino com a folk colombiana, Andrea seguiu outros caminhos. Durante a sua gravidez e após o parto, Andrea compôs então uma série de melodias que celebram a magia da maternidade ou o amor ao seu marido e à sua filha Milagros. O resultado é um trabalho que cruza os sons latinos, o rock, a música country e electrónica e o africano highlife com a subtileza da voz de Andrea Echeverri. O disco, gravado em Bogotá, sua cidade natal, por outro membro da banda, o baixista Héctor Buitrago, e misturado por Thom Russo, foi nomeado em 2006 para os Grammys na categoria de Melhor Álbum Latino de Rock Alternativo. Andrea Echeverri colaborou com bandas como Soda Stereo, contando com participações na banda sonora de "La Mujer de mi Hermano", do peruano Jaime Bayly, e no filme "¿Quién dice que es fácil?", do realizador argentino Juan Taratuto.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Emissão #61 - 22 Março 2008 - 2ºaniversário

A 61ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 22 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 26 de Março, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (12 e 16 de Abril) nos horários atrás indicados.

No
segundo aniversário do programa, que desde Março de 2006 tem procurado divulgar alguma da melhor música étnica produzida em todo o globo, sobretudo a que se funde com géneros mais actuais e urbanos, destaca-se a rubrica Caixa de Ritmos, uma emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez edições do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Höyhensarjan Maailmamestari", Tuomari Nurmio & Alamaailman Vasarat (Finlândia) - progressive folk, punk, rock

"Kabir Kouba",
Claire Pelletier (Canadá) - celtic music

"Boy In The Boat ",
Lúnasa (Irlanda) - celtic

"Manta", Saba (Somália) - afropop

"Gimme Shelter", Angélique Kidjo (Benim) - afropop, afrobeat

"Desde Cuba Hasta Afghanistan", Bakú (Porto Rico) - salsa, flamenco, pop, rock

"Mirant Les Notícies", Cheb Balowski (Espanha) - pachanga, raï, gnawa, rock

"Bulgarian Chicks", Balkan Beat Box (Israel) - gypsy-punk, contemporary folk

"Munt", Boom Pam (Israel) - world fusion, surf rock

"Nadie Te Tira", Ozomatli (EUA) - salsa, cumbia, latin rock

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Emissão #59 - 23 Fevereiro 2008

A 59ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 23 de Fevereiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 27 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (15 e 19 de Março) nos horários atrás indicados.

Um programa especial onde se destaca a entrevista exclusiva a Mari Boine, realizada a 15 de Fevereiro no Teatro Municipal da Guarda, a propósito do regresso a Portugal da cantora norueguesa.


"Höyhensarjan Maailmamestari", Tuomari Nurmio & Alamaailman Vasarat (Finlândia) - progressive folk, punk, rock
Tuomari Nurmio e os Alamaailman Vasarat inauguram a emissão com “Höyhensarjan Maailmamestari”, tema do álbum conjunto “Kinaporin Kalifaatti”, editado em 2005. Tuomari Nurmio, nome artístico de Hannu Juhani Nurmio, nasceu em Helsínquia e é um dos mais originais cantautores finlandeses. Da música country e dos blues, às reminescências de Tom Waits, são impressões ora românticas, ora humorísticas, que Tuomari (“juíz”, em finlandês, alcunha adoptada desde que este se formou em Direito) combina com expressões peculiares, metáforas e vernáculo quanto baste. Depois do duo de guitarra e bateria com Markku Hillilä, surge agora a colaboração com os Alamaailman Vasarat (Martelos do Submundo) numa mistura que combina melodia, harmonia e ritmo. Criados em 1997 também em Helsínquia por dois membros do grupo de rock progressivo Höyry-Kone - o percussionista Teemu Hänninen e o guitarrista Jarno Sarkula, que então comprou um saxofone soprano -, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda – a que se juntam Miikka Huttunen, Marko Manninen, Tuukka Helminen e Erno Haukkala - apresenta-se como uma combinação de world music ficcional oriunda do seu próprio continente imaginário, a Vasaraasia, com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma folk progressiva situada algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone, clarinete e saxofone soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). Ritmos acelerados e frenéticos a provarem que no rock não são necessárias guitarras eléctricas.

"Kounoun", Kaouding Cissoko (Senegal) - kora music, mandingo
O senegalês Kaouding Cissoko regressa ao programa com "Kounoun", tema extraído do seu único disco a solo, editado em 1999. Em “Kora Revolution”, trabalho lírico e introspectivo produzido pelo baixista Ira Coleman, o virtuoso da kora (espécie de harpa de 23 cordas da África Ocidental, cuja caixa de ressonância é uma cabaça) mistura este instrumento e a tradição mandingo com a sofisticada pop senegalesa dos Daande Lenol (banda do conhecido Baaba Maal, a que se juntou em 1991) e outros géneros africanos. Uma sonoridade que havia já sido cruzada com o flamenco por Toumani Diabaté, com o jazz pelo Kora Jazz Trio, ou ainda com o rock por Ba Cissoko. O resultado é uma folk onde se destacam as harmonias vocais femininas e uma secção rítmica complexa construída a partir das sonoridades do djembé, da tama (tocado com um pau, o “tambor falante” deve o nome ao seu timbre variável), do sabar (tambor tradicional senegalês), do balafon (instrumento sul-africano, percussor do xilofone, cuja ressonância se deve a um conjunto de cabaças), da guitarra, da flauta ou do baixo. Falecido em 2003, vítima de tuberculose, Kaouding Cissoko, fazia parte de uma grande família de tocadores de kora. Por diversas vezes que tocou com os Afro-Celt Sound System ou com músicos como Salif Keita, Nusrat Fateh Ali Khan, Michael Brook, Mansour Seck ou Ernest Ranglim - estes dois últimos convidados especiais neste trabalho familiar onde participaram ainda o pai de Cissoko, as suas sobrinhas Mamy e Sokhna e a irmã Binta.

"Pimpin' For The Muse", Tuatara (EUA) - funk, jazz, rock, lounge
Os Tuatara trazem-nos “Pimpin' For The Muse”, tema extraído do seu terceiro álbum “Cinematique”, editado em 2001. Um trabalho instrumental com contornos cinematográficos, onde são reunidas várias jam sessions em que a banda, aqui alargada aos onze elementos, utiliza instrumentos exóticos como o didgeridoo, os tambores de aço, as percussões africanas, o bandolim e o alaúde. Sons étnicos que rapidamente ganham ritmo e percussão, e que resultam da mistura de referências que vão da música asiática ou libanesa à folk ocidental, com o rock, o bebop, o jazz, o funk ou o lounge. Entretanto, os Tuatara têm vindo a cruzar a instrumentação exótica com as misturas electrónicas de vários DJ's. Este colectivo de compositores norte-americanos, criado em 1997 em Seattle, começou por ser um projecto de amigos com vista à composição de bandas-sonoras para cinema e televisão, mas rapidamente deu lugar a um novo grupo. Pela formação, de que hoje fazem parte Peter Buck e Scott McCaughey, Joe Cripps, Craig Flory, Barrett Martin e Elizabeth Pupo-Walker, passaram ao longo dos anos elementos dos R.E.M., The Minus 5, Critters Buggin, Screaming Trees, Luna ou Los Lobos. A título de curiosidade, registe-se que a tuatara - nome que em maori significa "dorso espinhoso" - é um réptil da Nova Zelândia, praticamente extinto, e que pouco mudou nos últimos 220 milhões de anos.

"Sukkar", Wafir (Sudão) - afropop, soukous, sephardic
A viagem continua com Wafir e “Sukkar” (Açúcar), tema retirado do álbum “Nilo Azul”, rio a que o multinstrumentista dedica o seu primeiro disco a solo, lançado em 2002. Um tributo aos seus conterrâneos sudaneses, em particular à voz açucarada e aos sorrisos de mel deste povo, onde colaboram Mariem Hassan, Nayim Alal, Iain Ballamy, Josete Ordoñez, Pedro Esparza, Vicente Molino, Ivo e Nasco Hristov, Sebatián Rubio, Salah Sabbagh, entre outros músicos. Wafir S. Gibril explora então a tradição oral do seu país numa viagem pelo longo braço de água em que se condensam séculos de civilização. Improvisos e ritmos complexos árabes, à mistura com harmonias de jazz e melodias celtas, flamencas e búlgaras, os quais têm por base instrumentos como os bongos sudaneses (possuem três tambores em vez de dois), o saz (alaúde mediterrânico), o rabab (cordofone de arco afegão), a viola, o bendir, o pandeiro ou as krakebs (espécie de grandes castanholas metálicas, base rítmica do gnawa). O virtuoso do violino ou do oud (alaúde árabe), que hoje vive em Madrid, começou por tocar acordeão nos Abdul Aziz Almubarak, Mohammad Al Amin e Abdul Karm Al Kably, formando mais tarde o grupo Kambala. Membro dos Radio Tarifa e do ensemble madrilenho La Banda Negra, ao longo da sua carreira Wafir tem vindo a compor temas para filmes como o conhecido “Finisterra”. Da longa lista de colaborações com outros artistas fazem parte a sua irmã Rasha ou nomes como Eduardo Paniagua, Hevia, La Musgaña, Joaquín Ruíz, Djanbutu Thiossane e Amistades Peligrosas.

"Mirant Les Notícies", Cheb Balowski (Espanha) - pachanga, raï, gnawa, rock
Seguem-se
os catalães Cheb Balowski com “Mirant Les Notícies”, tema que faz parte do álbum “Plou Plom” (Musiqueta Que Enamora), editado em 2005. Terceiro trabalho do grupo, produzido por Stephane Carteaux (baixista dos Color Humano), e em que participam alguns elementos dos americanos Kultur Shock e dos franceses Radio Bemba. A designação da banda resulta da junção dos termos Cheb ("o jovem", em árabe), complemento habitual nos nomes dos cantores de raï argelinos, e Balowski (em polaco, o verbo balować significa "divertir-se bailando"), apelido do emigrante de Leste interpretado por Alexei Sayle na série de televisão inglesa “The Young Ones”. Formados em 2000 em Barcelona, depois de uma infância comum no bairro de Raval, os Cheb Balowski integram uma dezena de músicos - eles são Yacine Belahcene Benet, Isabel Vinardell Fleck, Marc Llobera Escorsa, Santi Eizaguirre Anglada, Jordi Marfà Vives, Daniel Pitarch Fernández, Jordi Ferrer Savall e Arnau Oliveres Künzi, Jordí Herreros e Sisu Coromina. Cantando em castelhano, catalão, francês e árabe, eles cruzam a música catalã e a cultura mediterrânica com a energia do raï, do gnawa, do reggae e do rock. Um ambiente festivo, que vai do flamenco e da pachanga aos ritmos balcânicos, árabes, africanos e mediterrânicos, assente na sonoridade de violinos, saxofones, trompetes, piano, bateria, acordeão, guitarra, baixo e todo o tipo de percussões.

"Liegga Gokčas Sis", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
A norueguesa Mari Boine Persen destaca-se nesta emissão com o tema “Liegga Gokčas Sis” (Num Manto de Calor), extraído do álbum “Eight Seasons”, lançado em 2003. Disco com arranjos que se concentram nos ambientes electrónicos, produzido por Bugge Wesseltoft, e onde colaboram, entre outros, os músicos Jah Wobble, Bill Laswell, Jan Garbarek e Juan Carlos Quispe. Nascida em Gámehisnjárga, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, os habitantes da Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica, assente numa escala pentatónica, da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo, as batidas e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, a pop, o rock e mesmo a música electrónica. Acompanhados pela flauta, saxofone, guitarra baixo e bateria, são sons vocalizados, e por isso mesmo mais entoados que cantados, onde se evocam a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Pitt Bull de Bologna", Chalart58 (Espanha) - reggae, jungle, hip-hop
Despedimo-nos com “Pitt Bull de Bologna”, tema retirado do primeiro disco a solo de Chalart58 “Recording”, editado em 2007. Trabalho misturado e produzido num estúdio móvel pelo próprio baterista e percussionista de Barcelona, membro dos La Kinky Beat, e que no currículo conta ainda com a participação em projectos como os Radio Bemba, Jaleo Real ou Fermin Muguruza - Euskal Herria Jamaica Clash. Dos encontros casuais que durante dois anos Chalart58 teve com muitos amigos resultou um conjunto de temas instrumentais e riddims (ritmos da música jamaicana), inspirados em géneros que vão do reggae e do funk ao hip-hop, e cuja base instrumental é encabeçada pela tríade eléctrica das guitarras, baixos e teclados. Sendo cada tema interpretado por um vocalista diferente, o leque de colaborações neste álbum é bastante alargado, destacando-se a presença de cantores e músicos como Matahary e Willy Fuego (La Kinky Beat), Rude (Barrio Beat), Hernan “Lucky” (Mamamilotas), Sito (Jaleo Real), Marco Fonktana (Aerolineas Subterraneas), David Bourguignon (Radio Bemba), Rubio (Nour), Arecio Smith (Asstrio), Marcel El Lipi (Ranking Soldiers), Sorkun, Dreadga ou os Bad Sound System.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Emissão #20 - 5 Agosto 2006

A 20ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, um especial dedicado à edição deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines, é difundida no sábado, 5 de Agosto, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), indo de novo para o ar na segunda-feira, 7 de Agosto, entre as 19 e as 20 horas.

"Momelukki & Mosto Leski",
Alamaailman Vasarat (Finlândia) - chamber-rock, ethnic brass punk, kosher-kebab jazz
Os filandeses Alamaailman Vasarat (o nome significa Martelos do Submundo) a abrirem a emissão com os ritmos acelerados e frenéticos de “Momelukki & Mosto Leski”, tema extraído do álbum “Vasaraasia”, editado em 2000. Eles, que foram uma das presenças mais vibrantes no Festival de Músicas do Mundo de Sines, incendiaram a noite na Avenida da Praia com uma mistura de estilos, sempre com criatividade e um bom jogo entre melodia, harmonia e rítmo. Criados em 1997 em Helsínquia a partir do núcleo do grupo de rock progressivo Höyry-Kone, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda apresenta-se como uma combinação de world music ficcional com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma sonoridade caracterizável algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone e sax soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). E ritmos acelerados e frenéticos como este “Mamelukki & Musta Leski” provam que no rock não são precisas guitarras eléctricas.

"Breizh Positive", Jac
ques Pellen & Celtic Procession (França) - jazz rock, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Jacques Pellen, um dos melhores guitarristas bretões e um talentoso músico de jazz, e o colectivo Celtic Procession. Eles trazem-nos o tema “Breizh Positive”, extraído do álbum “Celtic Procession Live – Les Tombées de la Nuit”. Um trabalho gravado em Rennes por doze músicos a propósito do décimo aniversário daquela big band de geometria variável, criada em 1988. Um colectivo que reúne uma dezena de músicos tradicionais bretões e de jazz com a mesma paixão de Jacques Pellen pelo improviso. Com referências tão diferentes quanto o pianista de jazz Keith Jarrett, o compositor clássico Schönberg ou o o guitarrista bretão Dan Ar Braz, eles tentam misturar o jazz com temas e instrumentações de inspiração celta bretã, adicionando-lhes mesmo o rock e sons africanos. O cantor e clarinetista Erik Marchand, o
violinista Jacky Molard ou o baterista argelino Karim Ziad são alguns dos músicos que aceitaram o desafio de acompanhar Jacques Pellen na edição deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines.

"Nangbar", Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion
Neste Festival de Músicas do Mundo de Sines, mudamos de palco e vamos até Porto Covo para escutar os portugueses Dazkarieh. Eles trouxeram-nos o tema “Nangbar”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2004. Conhecidos por navegarem entre os sons da Irlanda, Índia, África, Andes, Espanha e Balcãs, os Dazkarieh propõem-nos uma viagem pela diversidade musical do planeta. Um projecto genuinamente português que, à semelhança deste festival, procura a sua alma sonora nas culturas mais díspares. A formação dos instrumentistas dos Dazkarieh vai da música tradicional, experimental e erudita ao rock, o que contribui para o enriquecimento do processo criativo do grupo. Quanto à instrumentação, eles servem-se, entre outros, do bouzouki e da flauta transversal, da nyckelharpa (harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas) e do cavaquinho, da gaita transmontana e do bandolim. Formados em 1999 por Filipe Duarte, José Oliveira e Vasco Ribeiro Casais, os Dazkarieh começaram por ser conotados com o som celta e a folk gótica. Posteriormente, devido à fusão de materiais musicais tão diferenciados, e já assumidamente ligados à chamada world music, o grupo integrou então cinco novos elementos, passando a conceber canções em língua portuguesa. Recorde-se que até então o “dazkariano” era a base linguística de todas as suas músicas.

"Fairground", Ivo Papasov & his Wedding Band (Bulgária) - wedding band music
Para já, seguem-se o búlgaro Ivo Papasov e a sua Wedding Band. Eles trazem-nos o tema “Fairground”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2004. O rei da frenética e festiva stambolovo (a chamada música cigana de casamentos) encerrou, junto à praia, o festival de Sines. Nascido na fronteira da Bulgária com a Grécia e a Turquia, Papasov cresceu numa família cigana onde o clarinete é tocado há gerações. Em 1974 forma a Trakija Band, a qual se tornaria a melhor e mais solicitada orquestra de casamentos da região. Ao misturar a folk búlgara e dos Balcãs com elementos contemporâneos, Papasov criou um género a que se chamaria de wedding band music. Mas os problemas com a ditadura levam-no à prisão nos anos 80, o que atraiu a atenção internacional e fez crescer a sua popularidade. Considerado um dos maiores clarinetistas do mundo, Ivo Papasov é também um grande criador de jazz. Em homenagem ao seu talento, os búlgaros chamam-no de Aga (mestre). Papasov toca com a sua mulher, a cantora Maria Karafizieva, e com outros cinco músicos, que em palco surgem com instrumentos como a guitarra, o acordeão, a kaval (flauta tradicional da Bulgária) ou a gadulka (espécie de viola de arco búlgara). Uma mistura exuberante de sons e melodias com improvisações de jazz numa visão contemporânea das danças tradicionais da folk búlgara.

"Tcherno", Vaguement La Jungle (França) - klezmer, gypsy music, jazz, rock'n'roll
Atrás os franceses Vaguement La Jungle com “Tcherno”, tema extraído do seu segundo e último trabalho “Aie Aie Aie”, editado em 2003. Mesmo a propósito, eles são um grupo orientado para a animação de festivais, criando concertos cheios de energia e bom humor onde a festa e a interacção com o público são parte essencial do espectáculo. Nas suas performances, os Vaguement La Jungle misturam música e teatro de rua. Com o seu cocktail fusionista, este quarteto propõe-nos um universo sonoro selvagem e estimulante. Um caldeirão mestiço onde borbulham a música cigana, árabe e judaica, o jazz e o rock‘n’roll, e que é servido com muita improvisação, espírito cáustico e letras libertárias. Uma aventura a escutar também com os olhos, já que a sua música arrasa fronteiras e cada concerto é um verdadeiro remédio contra o marasmo. Os Vaguement La Jungle conheceram-se nas ruas de Nantes e estão juntos desde 2000. Eles fazem parte da nova vaga de artistas franceses que representam as várias comunidades estrangeiras existentes em França e que lutam por uma integração na indústria musical francófona.

"Ya Fama", Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra (Mali) - kora music, mbalax
A jornada prossegue com Toumani Diabaté e a Symmetric Orchestra, uma das presenças mais marcantes na última edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “Ya Fama”, tema extraído do álbum “Boulevard de l’Indépendance”, editado este ano. Segundo a tradição mandinga, chama-se Diabaté ao griot do seu séquito que pela primeira vez toca kora, espécie de harpa africana em que a caixa de ressonância é uma cabaça. Hoje os Diabaté continuam no topo da aristocracia da harpa de 21 cordas e Toumani é o seu expoente máximo. Este começou a tocar kora aos cinco anos de idade e desenvolveu sozinho a sua técnica. Desde o final dos anos 80 que o mestre maliano tem procurado abrir uma nova janela para este instrumento. Foi o que aconteceu com o britânico Danny Thompson, os espanhóis Ketama, os norte-americanos Taj Mahal e Roswell Judd, que lhe permitiram explorar territórios desconhecidos que vão da folk britânica ao flamenco, blues e jazz. Toumani Diabaté tem colaborado com artistas de todo o mundo, mas foi com o conterrâneo Ali Farka Touré que gravou o disco “In the Heart of the Moon”, premiado no ano passado com um Grammy. Desde 1992 que tem o apoio da Symmetric Orchestra, formada por músicos de países do antigo império mandinga (Mali, Burkina, Guiné-Conacri ou Senegal) e que une a a música tradicional com guitarras eléctricas, bateria e teclados, interpretando repertório que vai da música de kora da Gambia, passando pelo mbalax senegalês e pelos ritmos dançáveis de influência latino-americana.

"Mosquito Song", Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria) - afrobeat
Atrás o saxofonista nigeriano Seun Anikulapo Kuti, filho mais novo de Fela Kuti, a figura régia da afrobeat, com o tema “Mosquito Song”, gravado ao vivo este ano em Dakar, no Senegal, no “Africa Live: The Roll Back Malária Concert”. Aos 9 anos, Seun já cantava coros nos concertos de Fela, tendo vivido junto do pai os últimos da vida dele, absorvendo tudo quanto este lhe ensinava. Depois da morte de Fela em 1997, Seun Kuti foi naturalmente aceite como sucessor na liderança da Egypt 80, a última banda do pai, e começa a assumir a renovação do legado. Com uma voz cada vez mais própria, ele mantém no entanto viva a mais original encarnação da afrobeat, usando uma sólida secção de baixo e o groove incomparável das vozes e percurssões africanas. Um etno-funk circular e hipnótico, com muito jazz à mistura. Seun lidera com tremenda energia a sua banda em palco, tocando reportório do pai e as suas próprias composições. Mantendo o tom político e social nas letras, refinando-se no saxofone e enriquecendo a afrobeat com outras músicas da sua formação, como o hip-hop, Seun é o mesmo dínamo em palco. Magia semelhante viveu-se no castelo de Sines na semana passada num concerto que, para além da orquestra Egypt 80, contou ainda com o baterista Tony Allen, companheiro de Fella Kuti na invenção da afrobeat, uma combinação de
ritmos africanos, funk e jazz que colocou a Nigéria no mapa musical do século XX.

"Dimokransa", Mayra Andrade (Cabo Verde) - morna, funaná, coladera, batuque
Entretanto seguimos até Cabo-Verde com “Dimokransa”, de Mayra Andrade, um dos temas incluídos no álbum “Navega”, seu disco de estreia a solo, editado este ano. Um trabalho gravado de forma expontânea, com poucos arranjos pré-definidos, mas que levou tempo a amadurecer e atravessou diferentes mares. A mais jovem diva da música cabo-verdiana nasceu em Cuba e viveu em Cabo Verde, no Senegal, em Angola e na Alemanha. No entanto, foi em França, país onde hoje reside, que Mayra encontrou os seus ouvintes mais entusiasmados, um dos quais Charles Aznavour, que no ano passado a convidou para cantar com ele um dueto. Uma colaboração que cimentou o perfume de uma voz crioula quente e com grande sentido cénico no território da língua francesa. Mayra Andrade interpreta com destreza, sentido pop e maturidade todos os estilos clássicos da música do arquipélago, da morna ao funaná, da coladera ao batuque, mas a sua abordagem é a de uma nativa da ilha de Santiago, alegre e com fortes afinidades com a música negra do Brasil.

"Toada Velha Cansada",
Cordel do Fogo Encantado (Brasil) - forró, axe, rock
Os brasileiros Cordel do Fogo Encantado, uma das maiores surpresas deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines, trazem-nos um tema do álbum do mesmo nome, extraído do primeiro trabalho discográfico da banda. Em 1997 um grupo fazia nascer o Cordel do Fogo Encantado. Dois anos depois, a peça teatral transforma-se num espectáculo musical. O jovem quinteto pernambucano fala então de histórias de reis e dragões, de santos e bandidos, do princípio e do fim do mundo. Um projecto que reinventa várias tradições musicais e narrativas do sertão nordestino brasileiro – dos cantadores aos emboladores, passando pelos repentistas e autores de cordéis, folhetos de histórias vendidos nas feiras, – trazendo a sua força mitológica para o século XXI. A música dos Cordel de Fogo Encantado, um dos mais premiados projectos da nova música brasileira, parte de Pernambuco para se fundir noutras latitudes, destacando-se a pujança percurssiva, com o forró e o axe em fúria constante. A essa fusão juntam-se tradições índias, o folclore e a força demolidora dos tambores de culto africano, a par do rock, das texturas do violão e do carisma do poeta e vocalista psicadélico Lira Pães, claramente influenciado pelas cantigas de escárnio e maldizer.

"Galandún",
Eliseo Parra (Espanha) - folk-rock, rap, hip-hop
O programa encerra com Eliseo Parra, um dos maiores conhecedores e reinventores do folclore espanhol e outra das revelações do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Ele traz-nos agora o tema “Galandún”, extraído do álbum “De Ayer Mañana”, editado no ano passado. Uma expressão coloquial castelhana dá o título ao mais recente disco deste músico, resumindo na perfeição a sua identidade musical. Trabalho que integra uma ampla variedade de música tradicional espanhola, acrescentando-lhe estilos modernos como o rap, o hip-pop ou o chill out. Fazendo conviver como poucos o ontem e o amanhã, Eliseo Parra é hoje um dos mais estimulantes músicos de raiz tradicional da Europa. Iniciando-se como músico de rock, de jazz e até como membro de várias orquestras de salsa, ele começou em 1983 a investigar as músicas tradicionais das “tribos hispânicas”, registando as suas recolhas em vários discos e livros. Eliseo Parra acredita que a única forma de fazer com que o folclore sobreviva é retirá-lo do ambiente fechado dos museus e levá-lo para o palco. No seu repertório, onde dominam os ritmos de dança, as velhas músicas das Espanhas tornam-se sons do presente e do futuro. É esse folclore pujante e lúdico que se ouviu no encerramento em Porto Covo do programa de concertos do Festival de Musicas do Mundo de Sines. Uma fonte inesgotável de recursos que é apenas um ponto de partida para outras viagens musicais.

Jorge Costa