melancia
em mil novecentos e sessenta eu tinha oito anos de idade,
os dias áridos e longos nunca chegavam ao fim e eu trazia
aqui dentro mil revoltas sem razões aparentes, motivos de
surras corretivas e constantes do meu pai, devido pirraças
e malcriações, maldades com plantas e bichos e por bater
nos meus irmãos menores, tipos de coisas das quais não
tenho nenhum orgulho;
então quando aprendi a xingar meu pai de corno, viado e
filho da puta, as surras viraram espancamentos medonhos,
de criar bichos e de se ficar mijado no chão;
em mil novecentos e sessenta meu pai trabalhava noite e
dia de meieiro nas terras incertas de um espanhol chamado
périco garcia que tinha uma filha chamada dulcinéia, em
lucélia na alta paulista, onde eu maldizia o tempo por não
passar, quando ouviu falar que melancia tinha rendido
lucro seguro e fácil na safra passada, grana abundante que
muita gente que vivia atolada na penúria tinha lavado a
égua com essa espécie de lavoura e andava posando de
bacana, inclusive diziam, desfilando pra cima e pra baixo
de trator da massey & fergusson e caminhonete zero bala;
meio mordido pela mosca branca da possibilidade de um
ganho fácil mas com um pé na frente e outro atrás, como
qualquer bom japinha, meu pai reservou naquele ano ao
lado dos tradicionais cultivos de feijão, milho e algodão,
de quiabo, abóbora e amendoim, um áspero e inútil trecho
de terra, um oitavo de alqueire se tanto, para experimentar
uns pés de melancia coquinho, como se arriscasse uns
trocos na milhar e centena do primeiro ao quinto e ainda
cercasse com um duque de dezenas, por via das dúvidas,
e me fez encarregado de cuidar da plantação rastejante;
até hoje é um milagre misterioso para mim, os pés de
melancia terem vingado e se espalhado verdejantes no
meio daquelas pedras e tocos ressequidos mas a verdade
é que um dia elas surgiram e cresceram do mesmo jeito
e tamanho, dezenas delas, irmãs gêmeas de tão iguais,
com exceção de uma, a maior, mais exuberante e mais
cobiçada fruta que eu tinha visto na minha vida de dias
infelizes e demorados, onde eu ficava torcendo o tempo
todo para que ela madurasse urgentemente;
naqueles dias lentos e exasperantes, enquanto eu ajeitava
com carinho as melancias com os cabos para cima como
meu pai ensinara para que crescessem uniformes e eu o
observava com afeto e orgulho de filho, todos os dias eu
perguntava a ele se a minha melancia já estava no ponto
e todos os dias ele respondia que ainda não, que estava
verde ainda, que tenha paciência, akira, mas um dia não
aguentei mais a curiosidade e a gula e com um canivete
afiado talhei a bitela de cima a baixo e a coitada ainda
estava branca por dentro, as sementes nem tinham se
formado e eu levei a mais injusta das surras na hora da
janta daquele dia, por desobediência ou talvez porque
meu pai estava puto da vida devido o preço da melancia
que tinha caído no mercado;
então na noite de humilhação e revolta fugi correndo para
o meio das plantações e cego de dor e raiva, com minhas
mãos sedentas de vingança arranquei um monte de pés de
melancia que no dia seguinte estavam mortos e murchos e
quando ri do desespero do meu pai tentando replantar no
chão duro e seco, as raízes sem vida, não deu outra e aí
sim, levei a mais feroz e definitiva surra da minha vida, de
soco,de pau, de pontapé, de cinta e do que ele tivesse na
mão e mais ele me batia, mais eu o xingava de viado filho
da puta;
dois dias depois, como eu não falasse, não comesse, não
me mexesse, não bebesse e nem xingasse, não chorasse,
mijasse ou cagasse, meu pai me examinou, nem tive força
para fugir, e percebeu que meu braço estava quebrado e
com um tranco o colocou no lugar e improvisou uma tala
de madeira para colar a fratura e minha mãe passou iodo,
álcool e mercúrio nos meus hematomas e então eu virei
um menino calado que nunca mais sorriu e de repente os
dias começaram a passar tão rapidamente que eu não
conseguia mais acompanhar.
Akira Yamasaki
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23 novembro, 2018
05 abril, 2016
quiabo 1
meu pai me acordava
às três da madrugada
naquele tempo eu tinha
nove anos de idade
para a cata de quiabo
no quiabeiro de um alqueire
tristeza de um alqueire
desgosto de um alqueire
um alqueire de dor
meu pai me acordava
de segunda a segunda
e fizesse frio, calor ou chuva
fizesse sono brutal e cansaço
se não levantasse
do colchão de palha
de espiga de milho
às três da madrugada
a cinta cantava sem dó
o quê? não vai acordar?
no quiabeiro de um alqueire
tirania de um alqueire
um alqueire de furor
meu pai me acordava
com um balaio de taquara
pesando um alqueire
nos meus ombros feridos
nas alças de corda do picuá
meu pai me acordava
com a baba feroz do quiabo
que vazava luvas de amianto
e carcomia minhas mãos
feito cola corrosiva
faquinha de catar quiabo
tão afiada que até faiscava
a face branca quando a lua
varava as nuvens lá no céu
faquinha amolada
na pedra silenciosa
do medo e do rancor
um alqueire de faquinhas
para cortar as mãos odiadas
do meu pai odiado
às três da madrugada
quando eu tinha
nove anos de idade
Akira Yamasaki
meu pai me acordava
às três da madrugada
naquele tempo eu tinha
nove anos de idade
para a cata de quiabo
no quiabeiro de um alqueire
tristeza de um alqueire
desgosto de um alqueire
um alqueire de dor
meu pai me acordava
de segunda a segunda
e fizesse frio, calor ou chuva
fizesse sono brutal e cansaço
se não levantasse
do colchão de palha
de espiga de milho
às três da madrugada
a cinta cantava sem dó
o quê? não vai acordar?
no quiabeiro de um alqueire
tirania de um alqueire
um alqueire de furor
meu pai me acordava
com um balaio de taquara
pesando um alqueire
nos meus ombros feridos
nas alças de corda do picuá
meu pai me acordava
com a baba feroz do quiabo
que vazava luvas de amianto
e carcomia minhas mãos
feito cola corrosiva
faquinha de catar quiabo
tão afiada que até faiscava
a face branca quando a lua
varava as nuvens lá no céu
faquinha amolada
na pedra silenciosa
do medo e do rancor
um alqueire de faquinhas
para cortar as mãos odiadas
do meu pai odiado
às três da madrugada
quando eu tinha
nove anos de idade
Akira Yamasaki
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