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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Olhares...


Perco-me num olhar vazio onde os pensamentos se afogam num mar sem fim.

Pintura de Manuel Amado, Cadeira sobre Terraço

terça-feira, 4 de agosto de 2020

“Os Sete Pilares da Sabedoria”, de T.E. Lawrence. Há uns versos no fim.

“Não a luz que se extinguiu para nós, nem as acções que passaram,
Nem os dias de outrora,
Nem as tristezas não tristes, nem o rosto mais justo
De enaltecimento perfeito”

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Viva a cultura

A Sesta, de Almada Negreiros, 1939

Cultura e Civilização

Uma mesa cheia de feijões.
O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.
O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.
Se em vez da mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalizar cada uma delas.
O primeiro gesto, o de reunir, aunar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo da CIVILIZAÇÃO.
O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da CULTURA.
É mais difícil a passagem da civilização para a cultura do que a formação de civilização.
A civilização é um fenómeno colectivo.
A cultura é um fenómeno individual.
Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura.

Almada Negreiros, in "Ensaios"


sexta-feira, 22 de maio de 2020

dou-vos um verso ...

Tu
a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice , Pedro, Lembrando Inês
Vincent Van Gogh
Vaso japonês com rosas e anémonas, 1890

sexta-feira, 24 de abril de 2020


Duas sombras têm acompanhado a minha vida e estão aqui a meu lado... Minha mãe gastou-se a sonhar, só nervos e paixão; viu cair por terra todos os seus sonhos - e teimou em sonhar, atrevendo-se contra todo o universo! A realidade temerosa afastou-a sempre de si. Venceu-a. Deu-nos vida a todos. Alimentou'nos do mesmo sonho que a devorou até final, sem medo da morte, como se a morte fosse a continuação natural da vida. Foi dela que herdei a sensibilidade e o amor pelas árvores, pela água, e dela herdei também o sonho...
...
Raul Brandão, Memorias

Pintura de Joaquim Reis

terça-feira, 21 de abril de 2020

" «Amigo» é a solidão derrotada "

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço ùtil, um tempo fértil,
»Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, Poesias Completas

Pintura de Felix Vallotton

terça-feira, 14 de abril de 2020

Hoje dou-vos um verso



Foi contigo que aprendi a amar
desordenadamente.

Eduardo Pitta (Foi contigo que aprendi a cidade )

Aguarela de Carl Larsson

domingo, 12 de abril de 2020

Esta noite sonhei com Vincent ...

VIncent  Van Goh, 1890
Vai  alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Alberto Caeiro

Hoje, nada é igual . Nem as frésias ou goivos perfumam a minha casa. 
Recorro a Vincent . Ele gostaria ...

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Entre uma rapariga e outra ....


Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tigela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
Wislawa Szymborska, “Vermeer” (retirado de “Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011)
Fonte, Jornal Expresso

sábado, 28 de março de 2020

sábado, 14 de março de 2020

Bom recolhimento ...





Gosto de me passear pelas obras de Kasimir Malevich, construtivista russo (Kiev1877 - S: Petersburg 1935).

Estes rostos "sem alma", pois esta espelha-se nos olhos, faz-me lembrar o momento que atravessamos que nos priva do olhar das pessoas que amamos.
Assim terá que ser.
Bom recolhimento ... Afinal há tanta coisa que se pode fazer por casa .

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Nem tudo o vento levou . . .

Excerto de crónica de Manuel Loff, no Público de hoje



MAL: "Estancamos diante do mal. E para mim é bem verdade que me sinto um pouco como esse Santo Agostinho que, antes da sua conversão ao Cristianismo, dizia: 'Procurava donde vinha o mal e não saía nunca dele'. Mas é também verdade que eu sei, como outros, o que é preciso fazer, se não para diminuir o mal, pelo menos a forma de o não aumentar." ("Atuais") 

Albert Camus
Pipper Smoker , de Paul Cézanne, 1900

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Surrealismo no seu melhor....



                                   Obras de Dorothea Tanning, 1910 - 2012

Sobre a mulher e a artista, aqui.

sábado, 1 de fevereiro de 2020




Dois dias seguidos de escuridão e nevoeiro como não via e sentia há muito.
Sou levada a procurar Turner, o pintor da luz.


 Bom fim de semana a quem passa. A vosso jeito.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Casas, que las hay las hay,,,


                                                 Pinturas de Hunderwasser , pintor austríaco, 1928-2000 

"Vivemos um período alegadamente próspero. Sublinho o “alegadamente”: um casal jovem de classe média alta (repito: alta) não consegue comprar ou alugar uma casa no Porto ou Lisboa para iniciar a sua vida".


Excerto da crónica de Daniel de Oliveira, Expresso Diário

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Dia De Reis ....

"
Pedro Lima
Pedro Lima
Editor-adjunto de Economia
Dia de Reis e Senhores – e também de festa

Hoje é dia de Reis, fim oficial das festividades de Natal, celebração que assinala a visita dos três reis magos ao Menino Jesus. E é também dia de festa pois o Expresso celebra mais um aniversário – mas já lá vamos.

Os dias que vivemos não nos deixam motivos para grandes celebrações. Os ‘reis e senhores’ deste planeta persistem em jogos de guerra, que muitas vezes não resultam em nada mais do que algumas ‘excitações momentâneas’ – mas, já nos mostrou a História, também podem acabar mal para a Humanidade. É o que se passa mais uma vez na martirizada região do Médio Oriente."

In. Expresso Curto

Pintura de  Gentil Fabriano, pintor gótico italiano´, 1370-1427

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Gosto do número que se segue, 2020



RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Boas Festas a quem passa . Natal a vosso jeito...

Natal, e não Dezembro


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal'
Pintura de Cláudia Costa, "O Improvável recreio dos Ícones"