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domingo, 21 de fevereiro de 2016

"a Escrita"... bom domingo

A Dúvida, a Solidão, logo... a Escrita

Na vida, chega um momento - e penso que ele é fatal - ao qual não é possível escapar, em que tudo é posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a criança. A criança nunca é posta em dúvida. E essa dúvida cresce à sua volta. Essa dúvida, está só, é a da solidão. Nasce dela, da solidão. Podemos já nomear a palavra. Creio que há muita gente que não poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa razão que nem todos os homens são escritores. Sim. Essa é a diferença. Essa é a verdade. Mais nada. A dúvida é escrever. É, portanto, também, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. É algo que sempre se soube. 
Creio também que sem esta dúvida primeira do gesto em direcção à escrita não existe solidão. Nunca ninguém escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, ou fazer música também, e jogar ténis, mas escrever, não. Nunca. 
Marguerite Duras, in "Escrever" 
Desenho de Maria Helena Vieira da Silva, 1949

segunda-feira, 3 de março de 2014

« A RAPARIGA FRANCESA», Hiroshima Meu Amor

RETRATO DA FRANCESA

Tem trinta e dois anos.
É mais sedutora do que bela.
Poder-se-ia chamar-lhe, de certa maneira «The Look» («O Olhar»). Nela, tudo «passa pelo olhar», desde a palavra ao movimento.
Este olhar está esquecido de si próprio. Esta mulher olha por
sua conta. O seu olhar não consagra o seu comportamento, ultrapassa-o sempre .

Sem dúvida que, no amor, todas as mulheres têm os olhos belos, mas, a esta em particular, o amor lança-a na desordem da alma (escolha voluntariamente stendhaliana do termo) um pouco antes do que ás outras. Porque ela está mais « apaixonada pelo próprio amor» do que as outras mulheres.
Sabe que se não morre de amor. Durante a sua vida teve uma esplêndida ocasião para morrer de amor. Ela não morreu em Nevers. Depois, e até hoje, em Hiroshima, onde encontra este japonês, arrasta consigo, dentro de si, a »melancolia» de quem viu adiada a única oportunidade de decidir o seu próprio destino.
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 Excerto de apêndice do livro escrito por Duras para Alain Resnais, HIROSHIMA MEU AMOR, QUETZAL EDITORES, 1987