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terça-feira, 15 de abril de 2025

São Cristóvão pela Europa (306).

 

 

 

 

Kappeln é uma cidade portuária do Norte da Alemanha. Talvez devido à importância dos seus marinheiros, o seu brasão é dedicado ao nosso Santo. O Santo é ladeado por três arenques de cada lado.

 



 

 A farmácia Dehnthoftem tem, na sua fachada, um baixo-relevo de São Cristóvão:

 



A principal igreja local é dedicada a São Nicolau e foi reconstruida no estilo barroco no final do Século XVIII. No interior, uma estátua de madeira representa o nosso Santo.

 


 

Curiosamente o catavento da igreja é uma imagem de São Cristóvão. Só o meu amigo Vítor seria capaz de descobrir isto!... E lamento informar, mas não subi ao campanário para tirar as fotos… Excepção à regra.





Na zona pedestre da Cidade uma fonte mostra um mosaico da autoria da ceramista Debora Stock onde São Cristóvão surge em grande plano:

 



Flensburg é uma das cidades portuárias desta zona do Báltico. Teve um papel importante na História da II Guerra Mundial.

Adolf Hitler morre em 30 de Abril de 1945 nos escombros de Berlim. No seu testamento designa inesperadamente como seu sucessor como Presidente do III Reich o Almirante Karl Dönitz (1891-1980), em detrimento de Göring e de Himmler que advogavam uma paz separada a Ocidente.

O Almirante distinguira-se por defender consistentemente durante a guerra a importância do submarino como arma letal. Assumiu em 1943 o comando da Marinha de Guerra.

A 2 de Maio de 1945 o governo alemão instalou-se em Flensburg na Base Naval de Mürvik, na Escola de Desporto da Academia Naval Alemã.

Aí funcionou até 23 de Maio quando o último Governo do Reich foi aprisionado pelas tropas britânicas.

O edifício existe e ainda exibe a águia imperial. A suástica foi obviamente retirada.

 


Junto ao porto uma estátua de um São Cristóvão “laico” sem Menino Jesus e suportando um navio no seu ombro.

É em bronze, mede três metros e meio e é da autoria do escultor alemão Carl Lindner.

 


                                            Fotografias de 3 de Fevereiro de 2025.

                                                                             José Liberato




quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Emocionante o talento deste contador de histórias da Alemanha em escombros, a reerguer-se.


 


 

O livro intitula-se A Hora dos Lobos, A Vida dos Alemães no Rescaldo do III Reich, Publicações Dom Quixote, 2023, o seu autor, Harald Jähner, é um consumado desenhador de águas-fortes, acaba de cair Berlim, chegou a hora dos alemães conhecerem as maiores privações e situações traumáticas, violações, assassinatos, roubos, fome; impõem-se estratégias de limpeza dos escombros, e no meio daquele cataclismo aparece um turismo, há quem ande por ali a fotografar, abrem-se caminhos, no meio de tanto desaire os vencidos procuram novas formas de mobilidade; dá-se uma migração avassaladora, há prisioneiros errantes, despatriados, libertam-se trabalhadores forçados, os alemães veem-se confrontados dentro de um mosaico de povos em que a raça ariana passou a ser um mito; e naquele descalabro, sobretudo os mais novos procuram divertir-se, ter lazeres, no meio de uma vida tão áspera, onde praticamente tudo falta; regressaram os militares vencidos, descobrem que as suas mulheres tiveram uma vida duríssima, descobriram uma outra dimensão da sua emancipação, haverá um caudal de divórcios, muita prostituição com os vencedores; o mercado negro irá prosperar, uma lógica das senhas de racionamento que põe gente rica, gente remediada e gente pobre no mesmo plano de igualdade, e vai acontecer algo de inédito, aquele mercado negro funcionará como uma escola de cidadania; aos poucos, os alemães não ser postos perante o grande desafio da recuperação, a reforma monetária em muito contribuiu; ainda não chegámos à guerra fria, os aliados ocidentais põem uma reeducação que apague o nazismo e molde a mente alemã para os valores democráticos; quem veio de Moscovo traz outros planos, vai germinar a formação de duas Alemanhas; esta é a saga da geração Carocha (Carocha era o termo usado para falar do modelo popular do Volkswagen). É esta a sumula da narrativa espantosa, escrita com imensa sensibilidade, uma lição para qualquer europeu sobre quanto custam estes horrores da guerra, agora que vivemos uma nas fronteiras da Europa, e profundamente destruidora.

A saga desta geração Carocha e dos dois estados alemães, como observa Harald Jänher no posfácio tem aspetos muito relevantes. “O facto de, apesar da recusa generalizada em lidar com o passado e apesar do regresso em massa das elites nacionais-socialistas aos seus altos cargos, ambos os estados alemães se terem conseguido purificar do nacional-socialismo é um milagre muito maior que o dito milagre económico.” E, mais adiante: “Um fator que contribuiu de forma crucial para o desfecho feliz da história do pós-guerra foi a força da retoma económica. Permitiu acomodar 12 milhões de expatriados, 10 milhões de soldados desmobilizados e, pelo menos, o mesmo número de desalojados em virtude dos bombardeamos em instalações provisórias algures, às quais seria prematura chamar pátria.” Os alemães, durante gerações, também tiveram que enfrentar a acusação de culpa coletiva. Durante décadas, o país evitou de forma sustentada ter de lidar com os milhões de assassinatos – até aos processos de Auschwitz, que duraram entre 1963 e 1968.  Ter de ver os filhos transformados em acusadores arrogantes, embora muitas vezes desesperados, foi uma das consequências tardias da repressão que os alemães exerceram sobre si mesmo, após 1945.

Este livro é comovente e emocionante, permitam-me que registe alguns parágrafos que considero esplendentes, elucidativos:

“As pessoas estavam constantemente de pé, na rua, à espera de saber notícias. Os correios não funcionavam, o telefone também não, por isso a comunicação tinha de ser feita de pé. No caos carregado de medo dos meses que se sucederam à guerra, as notícias eram um bem essencial à vida- Informações sobre vivos e desaparecidos, sobre onde arranjar o quê ou qualquer coisa que se quisesse saber estavam reservadas a quem se fizesse à estrada. A situação era incerta, as rotas de fornecimento haviam sido cortadas. Deixar mensagens sobre o paradeiro de alguém e dar um sinal de vida era, por isso, de importância elementar. As pessoas estavam famintas de pistas, de novidades, deambulavam de visita em visita para contar e para escutar. Até mesmo para arranjar artigos de primeira necessidade no mercado negro era necessário percorrer caminhos inconcebivelmente longos por várias partes da cidade.”

“O momento de regresso a casa era ansiado por muitos. Nas salas de estar, os homens que combatiam na frente foram substituídos por fotografias. As crianças eram instadas a olhar regularmente para as fotografias, para que mantivessem a ideia do pai, nem que fosse na imaginação. A fotografia do pai ocupava o seu lugar no aparador como se de um altar se tratasse. Ele estaria algures na Rússia ou no Egito; em casa, as mães procuravam a suposta localização no atlas e apontavam-na com um dedo para mostrar às crianças. Tão distante do dia a dia. tornou-se uma figura que prometia uma vida melhor, a qual chegaria com o fim da guerra. Com o regresso do marido, pressuponha-se o fim para a solidão, para a sobrecarga constante que era criar os filhos sempre sozinhas e em condições extremas.”

“A solidez estava fora de moda. Tudo tinha de ser fácil de arrumar e mudar de sítio. Até os candeeiros de pé com quebra-luzes cónicos obedeciam ao mandamento da flexibilidade; os quebra-luzes assentes em braços articulados de metal móveis permitiam adaptar constantemente a intensidade da iluminação. O ideal desta nova leveza devia-se em parta também à pura necessidade: nas exíguas condições provisórias, eram amiúde necessário mudar a disposição dos móveis e aconchegá-los. Já não havia espaço para o acarinhado estilo colossal, o que agora se vendia eram móveis que se pudessem dobrar e empilhar. Isto permitia acomodar quatro pessoas em três divisões e ainda transformar o quarto de dormir em escritório.

Este modo de viver descomplicado agradava a ricos e a pobres. As delicadas e dispendiosas estantes da Knoll International renunciaram totalmente aos apoios laterais, o que lhes conferia leveza. As escrivaninhas tinham pernas finas de aço, nas quais as gavetas pareciam flutuar. Um mundo de sumptuosidade e móveis pesados em carvalho como que se esfumara e as pessoas agora queriam respirar ar puro com uma estética despreocupada.”

“Qualquer região que fosse capturada pelos Aliados era subitamente dominada pela paz. Os soldados invasores mal poderiam crer no que viam: estes alemães, que pouco tempo antes haviam combatido com uma raiva cega, mesmo já tendo perdida toda e qualquer esperança de saírem vitoriosos, assim que capitulavam, revelavam ser os cordeirinhos mais mansos do rebanho. Parecia que o fanatismo se desprendia deles como uma pele.”

De leitura obrigatória, um sério aviso sobre o que é reconstruir uma sociedade a partir do caos. 


                                                                            Mário Beja Santos


terça-feira, 21 de novembro de 2023

França em Julgamento: O Caso do Marechal Pétain.

 


 

Editado pela Penguin, em 2023, o magnífico livro, France on Trial The Case of Marshal Pétain, de 480 páginas, do historiador inglês Julian Jackson é uma obra imprescindível para todos os que se interessam pela política, pela história, pelo direito e pela justiça nas suas intersecções mais profundas.

Abençoado pelo maior historiador de Vichy, Robert Paxton, que o qualifica como um atraente livro, escrito com mestria, trata-se, de facto, de um relato muito completo e enquadrado, de ritmo absolutamente magistral, do julgamento de Philippe Pétain, em 1945, pelas acusações de traição e colaboração com a Alemanha nazi.



Pétain nasceu em 1856 de uma modesta família de camponeses perto de Calais e viu o exército como um caminho para o progresso, formando-se na prestigiada academia de Saint-Cyr. A maior parte da sua carreira militar foi “respeitável, mas normal”, nunca ultrapassando o posto de coronel. A Primeira Guerra Mundial proporcionou-lhe a oportunidade perfeita para demonstrar as suas excepcionais capacidades organizacionais e o seu temperamento como comandante.

A sua defesa de Verdun em 1916, vista pelos franceses como a batalha definidora da Primeira Guerra Mundial, e a sua afinidade com os soldados elevaram-no a herói militar e a uma popularidade notável. Agraciado com o título de Marechal, por serviço excepcional na guerra, era o único Marechal de França vivo em 1945.

A sua elevada estatura, os seus penetrantes olhos azuis, os cabelos brancos como a neve e o seu célebre “semblante de mármore” criaram uma aura em seu redor e granjearam-no a um estatuto mítico.

Após a humilhante derrota militar de 1940, Pétain tornou-se chefe do Estado francês sediado na desocupada Vichy e o seu regime foi reconhecido como um governo legítimo pelos EUA, pela União Soviética e pelo Vaticano, entre outros.

Desprezando os políticos tradicionais, Pétain tentou remodelar a França à sua própria imagem, modificando os slogans republicanos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade para Trabalho, Família e Pátria.

O general Charles de Gaulle, um antigo “filho amado do Marechal” que ergueu a bandeira da França Livre em Londres, foi denunciado pelo regime de Vichy por traição e condenado à morte à revelia.

Assim, com a vitória dos aliados, o destino de Pétain tornou-se um problema a resolver, sobretudo, depois do seu regresso a França, indesejado por de Gaulle, mas a que o Marechal não se escusou.

Dessa forma, o maior herói francês da Primeira Guerra Mundial, o vencedor de Verdun, começou a ser julgado no Palácio da Justiça de Paris, a 23 de Julho de 1945 e terminou, com apreciável celeridade, a 15 de Agosto enquanto a guerra ainda lavrava no oriente (coincidindo o seu fim com o fim do julgamento).

 A acusação a Pétain defrontou-se com o clássico problema de não existir propriamente uma incriminação à medida dos seus actos. Com a criatividade habitual dos juristas foi burilado o conceito de indignidade nacional que acarretava a uma espécie de morte cívica e acusado pelo crime de traição durante a Segunda Guerra Mundial, considerando a colaboração com a Alemanha nazi incluída no artigo 75 do Código Penal.



Para o julgamento foi criada a Haute Cour de Justice o que levantou, igualmente, problemas de composição uma vez que o corpo jurídico tinha, na sua grande maioria, estado ao serviço de Vichy (embora, no seu decurso, com resistências diversas à sua política judiciária). Para presidir ao julgamento era competente, por inerência, o primeiro presidente da Cour de Cassation que, após sete recusas, ficou a cargo de Perre Mongibeaux, tido como calmo, prudente e pouco dado ao trabalho e que tinha prestado, como todos os outros, o juramento de lealdade a Pétain em 1941, mas que no dia da Libertação surgiu no Palácio da Justiça envergando a tricolor da resistência.

 Aos três juízes togados juntavam-se doze jurados que tinham de ter participado na resistência e doze parlamentares contrários a Pétain. A imparcialidade deste conjunto suscitava dúvidas até aos próprios resistentes tendo um desabafado “estou feliz por participar no julgamento, mas não quero participar num assassinato”. O processo penal que comporta sempre riscos para o poder como contrapartida do poder de legitimação da justiça comportava indubitavelmente, neste caso, menos riscos que o habitual.

No primeiro dia do seu julgamento, Pétain, de 89 anos, leu uma declaração, integralmente transcrita no livro, escrita pelo seu brilhante advogado Jacques Isorni (o mais novo da equipa de defesa, mas o que mais se destacou) onde começou por negar legitimidade à Haute Cour para o seu julgamento referindo que “pela sua composição não representa o povo francês” e que se dirigia “apenas ao povo”. Acrescentou ter herdado uma “situação catastrófica que não foi criada por mim” e que o armistício foi um “acto necessário de salvação nacional” e que “todos os dias, com uma espada na garganta, combati contra os pedidos do inimigo”. Lançou uma incisiva farpa, da sua autoria, mencionando que “o facto de já não estar no exercício do poder significa que alguns esqueceram o que escreveram e disseram” e que pretendeu “preservar uma França que sofria, mas estava viva. O que teria sido ganho libertando uma França em ruínas, uma França de cemitérios?”. E terminou, em grande estilo, entregando-se a Deus e à posteridade, oferecendo-se às mãos do seu País.

 A declaração de Pétain defendia a teoria da espada (de Gaulle) e do escudo (Pétain) e como observa Jackson, estava repleta de meias verdades e evasões, ignorando o seu papel no ataque a judeus, maçons e comunistas e na prisão de antigos líderes políticos, muitos dos quais estavam no tribunal. 

Durante o resto do julgamento, Pétain permaneceu, quase totalmente, em silêncio, recusando-se a ser interrogado e cochilando, ocasionalmente, por causa do calor sufocante que se fazia sentir.

No total, 63 testemunhas prestaram depoimento num tribunal muito pequeno para o extraordinário interesse que despertava. Incluíam a nata do sistema francês: um antigo presidente da república, cinco antigos primeiros-ministros, generais, diplomatas e funcionários públicos e até um príncipe Bourbon. Como reconheceu o juiz no início do julgamento, o arguido despertou os sentimentos mais contraditórios, uma “espécie de amor” entre os seus apoiantes e uma “hostilidade extremamente violenta” entre os seus adversários e numa tirada premonitória considerou que “a história julgará um dia os juízes e julgará, certamente, a atmosfera na qual este julgamento vai ser conduzido”.

Em France on Trial o historiador Julian Jackson transporta-nos para um julgamento maior do que o próprio Pétain, envolvendo toda a França e as feridas da ocupação nazi.

A verdade é que o maior crime do regime de Vichy, as leis raciais do regime que autorizavam a polícia francesa a internar judeus e depois a entregá-los aos alemães para serem deportados para as câmaras de gás, nenhuma menção teve no julgamento e nenhuma testemunha judaica testemunhou em tribunal (“queríamos falar, mas ninguém nos ouvia” disse Simone Veil). O célebre aperto de mão entre Pétain e Hitler, ocorrido a 24 de Outubro de 1941, na zona ocupada, foi mais discutido na sua intensidade e envolvência que o destino dos judeus…

Cumprindo um dever pesado, mas rigoroso a acusação pediu a pena de morte de Pétain e nas suas alegações finais, Jacques Isorni (celebrizado numa foto em que aparece como um arcanjo por trás de Pétain) contrapôs a ideia que Pétain estava, de facto, a expiar uma culpa colectiva, se Pétain era culpado, a França também era: “o armistício foi acolhido com uma enorme sensação de alívio que talvez não fosse heroica…foi bem recebido porque acabava a batalha” e “se devemos ouvir os que foram perseguidos, também devemos ouvir os que foram protegidos”.

No entanto, o júri considerou Pétain culpado das acusações proferidas contra ele e condenou Pétain à morte (aparentemente por 14 votos a favor e 13 contra, onde se incluíam os três juízes togados) e com o voto, extremamente raro, de que a sentença de morte não fosse executada.

 Mais tarde, De Gaulle manteve essa recomendação e Pétain passou o resto da vida preso na Île d'Yeu, na costa da Bretanha, onde morreu em 1951.




O livro de Jackson mostra como os ecos do julgamento de Pétain se repercutiram na política francesa até hoje e os seus apoiantes, especialmente entre a extrema direita francesa, continuaram a retratá-lo como uma figura quase semelhante a Cristo, que se sacrificou pela sua nação.

As sondagens que, de forma continuada, desde os anos 80, revelam que 60 por cento da população defende o armistício e os pouco mais de vinte por cento que condenam completamente Pétain são números que dão que pensar.

Serão os franceses filhos de quarenta milhões de Pétainistas ou filhos da resistência? Fica sempre à reflexão a poderosa frase de Talleyrand segundo a qual a traição é apenas uma questão de datas e, talvez, de vencedores e vencidos.

A extraordinária tessitura deste livro, no cruzamento da sempre conturbada relação entre a política e a justiça, levanta poderosas questões morais que quase todos os vulgares cidadãos franceses foram forçados a enfrentar durante quatro anos de Vichy e que permanecem actuais: o que esperar dos funcionários perante um regime destes: a submissão ou a demissão? A obrigação de obedecer à lei é absoluta? Neutralidade significa colaboração? Qual deve ser o veredicto de uma geração que julga a precedente sem demonstrar, ela própria, o seu heroísmo? 

O livro de Julian Jackson não pretende, nas suas palavras, reabrir o julgamento para tentar provar que Pétain foi tratado muito duramente ou pouco duramente, mas comprova a perspectiva de François Mauriac, atento observador deste evento, quando referiu “para todos, o que quer que aconteça, para os seus admiradores, para os seus adversários, Pétain vai continuar a ser uma figura trágica, apanhado entre a traição e o sacrifício…um julgamento como este nunca acaba e nunca vai ter fim”.   

 

                                                                                            Luís Eloy Azevedo





quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Terra Sangrenta, a Europa entre Hitler e Estaline.








Não li nada de tão importante este ano como esta aparatosa e original análise histórica

 


 

É uma edição revista e atualizada com um novo epílogo, trata-se de uma narrativa que não nos dará descanso até à última página, uma viagem que começa nas fomes estalinistas e nos faz palmilhar até às marchas da morte de 1945, iremos percorrer em sufoco terras de fronteira que constituíram a questão nevrálgica das obsessões ideológicas de Estaline e de Hitler, Polónia e Ucrânia, Bielorrússia e Estados Bálticos, seremos confrontados com dezenas de milhões de civis que foram mortos à fome, espancados, gaseados e assassinados por autoridades e forças militares de diferente ordem, tanto da URSS como da Alemanha nazi. Até muito recentemente, a historiografia que investiga e explica os acontecimentos entre a ascensão dos poderes ditatoriais de Estaline e Hitler catalogava as monstruosidades deste período falando do Gulag, do Grande Terror, do paranoico antissemitismo nazi e do Holocausto. Ora, os campos de morte na Europa neste amplo espaço a que o historiador Timothy Snyder designar por terra sangrenta revela aproximações aterradoras que são uma lição utilíssima para ajudar a compreender alguns dos mais inquietantes conflitos do nosso tempo. Terra Sangrenta, a Europa entre Hitler e Estaline, Publicações Dom Quixote, outubro de 2023, é uma narrativa que nos faz abalar a compreensão que tínhamos do terror estalinista, da demência racial de Hitler, dos seus propósitos expansionistas, e como são chocantes analogias de duas estratégias imperiais. Esta soberba investigação de Timothy Snyder, aclamada e reconhecida como obra de consagração de um dos maiores historiadores do nosso tempo, é profundamente incómoda para algumas mantras instaladas, quase mitologias, o genocídio judaico circunscrito a um processo de matança em grande escala e centrado em Auschwitz; a Grande Guerra Pátria, uma façanha de heroísmo desmedido centrado na abnegação russa. Acontece que a história envolvente é muitíssimo mais complicada e o martírio dessas dezenas de milhões de civis revelam que a hecatombe teve mais dimensões.

É, pois, uma investigação crucial que não nos dará tréguas, tem o poder de nos fazer alterar pontos de vista quanto a rótulos simplistas sobre tiranias, massacres, destruição de países, ódios raciais – uma História confecionada por vencedores e que conseguiu sobreviver durante a pós a Guerra Fria. É uma análise profundamente incómoda, veja-se logo esta apreciação feita no prefácio: “O assassínio em massa na Europa é normalmente associado ao Holocausto e o Holocausto a um rápido massacre industrial. A imagem é demasiado simples e limpa. Nos locais onde foram cometidos os massacres, tanto pelos alemães como pelos soviéticos, os métodos de homicídio eram bastante primitivos. Dos 14 milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos das guerras sangrentas entre 1933 e 1945, mais de metade morreu por lhe ter sido negado o acesso a alimentos. Os europeus privaram deliberadamente de alimentos outros europeus em números horripilantes em meados do século XX. As duas maiores ações de assassínio em massa, depois do Holocausto – as fomes dirigidas por Estaline no início dos anos de 1930 e a privação de alimentos que Hitler impôs sobre os prisioneiros de guerra soviéticos no início dos anos 1940 –, envolveram este método de homicídio. À privação de alimentos seguiu-se o fuzilamento e, depois, o gaseamento. No Grande Terror de Estaline, em 1937-1938, foram fuzilados quase 700 mil cidadãos soviéticos. Os cerca de 200 mil polacos mortos pelos alemães e pelos soviéticos durante a sua ocupação conjunta na Polónia foram fuzilados. Os judeus mortos no Holocausto tanto podiam ser gaseados como fuzilados.” E o autor conclui, ainda no prefácio: “Este estudo une os regimes nazi e soviético, une a história judaica e europeia, e uni as histórias nacionais. Descreve as vítimas e os perpetradores. Aborda as ideologias e os planos, bem como os sistemas e as sociedades. Esta é uma história das pessoas mortas pelas políticas dos líderes distantes. As terras natais das vítimas estendem-se entre Berlim e Moscovo; transformaram-se em terras sangrentas depois da subida ao poder de Hitler e Estaline.”

A introdução dá-nos o enquadramento da Europa do pós-Guerra e o sonho alentado por Hitler e Estaline, as suas visões imperiais, cobiçavam as mesmas terras. Teremos acesso às fomes soviéticas, a matança dos bodes expiatórios, sobretudo depois dos desastres da coletivização das terras, a criação do dogma do “socialismo num só país”, os julgamentos de pseudo-traidores, dos chamados desviacionistas, a liquidação dos polacos soviéticos; a constituição da Europa de Molotov-Ribbentrop, a destruição da Polónia e as execuções alemãs e soviéticas, a Alemanha nazi expandia-se, os soviéticos também não só na Polónia mas aumentando as repúblicas ucraniana e bielorussa para o Ocidente; é estarrecedor o quadro destas matanças, desde simples prisioneiros de guerra aos intelectuais de lealdade duvidosa; e assim chegamos ao apocalipse da invasão alemã em terras soviéticas, e o esforço deliberado do invasor em matar pela fome, desde Leninegrado à Ucrânia; é neste território ocupado que Hitler e os seus sequazes montam a solução final da questão judaica, da Bielorrússia à Polónia, da Lituânia à Ucrânia, os judeus convergem para guetos e campos de concentração; e assistimos às fábricas de morte nazis, isto enquanto a partir de 1943 a URSS contra-ataca e inverte-se o sentido da guerra, haverá uma sublevação em Varsóvia, sufocada com toda a brutalidade, no ano seguinte o gueto será rasado; descrevem-se as limpezas étnicas, as alemãs e as soviéticas, cresce o êxodo das populações, as deportações; seremos confrontados com antissemitismo estalinista, aliás, antes de morrer, em 1953, Estaline urdira mais uma conspiração, desta vez envolvendo médicos judeus, tudo isto numa época em que a URSS implanta estados comunistas na Europa de Leste e Estaline decide purgas de camaradas que lhe foram fiéis.

Não querendo privar mais o leitor destas muitas centenas de páginas empolgantes, escritas com uma mestria inatacável, pretendo só chamar a atenção para derradeiras observações do autor de tão extraordinária investigação:

“Os sistemas nazi e estalinista devem ser comparados, não tanto para compreender um ou o outro, mas para compreender os nossos tempos e nos compreendermos a nós mesmos”; “A imagem dos campos de concentração alemães como o pior elemento do nacional-socialismo é uma ilusão, uma miragem escura sob um deserto desconhecido. O destino dos seus prisioneiros era muito semelhante ao dos detidos do Gulag, na União Soviética, entre 1941 e 1943”;” Auschwitz foi, de facto, um importante local do Holocausto: cerca de 1/6 dos judeus assassinados morreu ali. Mas, ainda que a fábrica de morte de Auschwitz tivesse sido o último complexo de morte em funcionamento, não corresponde ao expoente máximo da tecnologia da morte: os pelotões de fuzilamento, mais eficientes, matavam mais depressa, os locais de privação de alimentos e Treblinka matava mais depressa.”

A historiografia tem vindo a fugir à investigação de dados tão complexos. E o autor despede-se com uma advertência: “Não precisamos de leis da memória. Não precisamos da História para que as pessoas possam retirar dela lições individuais. Precisamos da História, sim, para nos tornarmos pessoas. Os tabus criam tribos e a ignorância cria gangues. Só a História individualiza ao fornecer o tema comum a partir do qual se pode dar início à razão ética individual.”

De leitura obrigatória.


                                                                                                    Mário Beja Santos





quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Um documento estarrecedor: Churchill publico e privado, 1940, Londres em chamas

  



O título soa um tanto romanesco para um período que oscilou entre o dramatismo e a cavalgada apocalítica da guerra, aquele determinante ano de 1940 em que Winston Churchill se pôs à frente dos destinos da Grã-Bretanha e levantou o moral do seu povo, cumpria-se o seu vaticínio de sangue, suor e lágrimas; mas o que há de completamente inédito nesta poderosa investigação que em certos momentos assume o perfil de um guião de série televisiva, vamos ver o "Velho Leão” no seu círculo político mais privado, irão assomar personalidades desconcertantes, acompanharemos a vida privada do primeiro dos resistentes, as consecutivas manobras de um político habilidosíssimo que vai atraindo o presidente Roosevelt para o combate às tiranias europeias. É um documento de leitura obrigatória: O Esplendor e a Infâmia, por Erik Larson, Publicações Dom Quixote, 2022.

Maio-junho de 1940, a França caminha para a capitulação, as forças alemãs parecem imparáveis, invadiram a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo, utilizando blindados, bombardeiros de mergulho e tropas paraquedistas, com efeitos avassaladores, os contingentes franceses esboroam-se, a força expedicionária britânica corre risco de ficar aprisionado. É neste clima que o rei Jorge VI dá posse a Churchill como primeiro-ministro. E logo ficamos a saber que a vida do primeiro-ministro não é nada fácil, tem um filho que é esbanjador, infiel e truculento, e uma filha rebelde. Entramos ao mesmo tempo no tal círculo privado de Churchill, o seu gabinete pessoal, o secretário particular, Colville, que anda embeiçado por uma menina de alta roda, sempre a esgueirar-se. Os EUA são manifestamente hostis a que se entre na guerra, preferem o isolacionismo, as relações de Churchill com o embaixador Kennedy são péssimas; o chefe do seu gabinete militar é o major-general Hastings Ismay, será outra presença permanente no grupo dos fiéis de Churchill. Churchill envia um telegrama secreto a Roosevelt, dá-lhe a saber que o Reino Unido resistirá com todas as suas forças, mas não é de excluir um Europa completamente subjugada e nazificada, pede-lhe apoio, logo o financeiro, toda a correspondência subsequente alargará o leque de pedidos, inclusivamente no campo militar. O primeiro-ministro dá primeira prioridade à produção aeronáutica, a Luftwaffe é considerada muitíssimo superior à RAF, numa escolha genial nomeia Lorde Beaverbrook ministro da produção aeronáutica, vai iniciar-se uma estranhíssima relação entre dois colossos, é uma delícia acompanhá-la neste livro, será este homem o grande impulsionador da construção de uma frota aérea se revelará temível e capaz de suster as vagas de bombardeamentos até que Hitler decrete a invasão da União Soviética, tudo será alterado, independentemente do Reino Unido sofrer ataques submarinos que provocam perdas catastróficas de alimentos e armamento.

Erik Larson gera uma teia de interligações que nos permite aferir o plano perpetrado por Göring para pôr de joelhos o Reino Unido, na sombra Hess, o considerado vice de Hitler, começa a maquinar uma tentativa de acordo, no seu delírio viajará até à Escócia, será detido até ser julgado em Nuremberga.

A um ritmo que impede o leitor de fazer pausas, iremos assistir à retirada de Dunquerque, ao aparecimento de cientistas que trarão uma enorme mais-valia ao conhecimento das tecnologias da Luftwaffe; a queda da França irá arrostar situações de uma enorme intensidade dramática, como a decisão de bombardear a frota francesa em Mers-el-Kébir, porto argelino; há os fins de semana em Chequers, repousantes para Churchill mas aonde podemos assistir a uma vida familiar heteróclita. É justamente relevado o desempenho de Lorde Beaverbrook, sempre a dizer que se metia e Churchill sempre a acalmá-lo, há os amores infelizes de Colville e os preparativos para um possível invasão alemã, Hitler ainda não decidira desencadear a operação Leão Marinho, preferia um acordo de paz, sempre recusado por Churchill e vai começar a dinâmica dos bombardeamentos, eles acentuam-se a partir de agosto, terão o seu ponto alto em novembro, já se intimidara Londres, Coventry será fustigada brutalmente, torna-se no símbolo da destruição pela barbárie, como Erik Larson escreverá: “As incendiárias salpicaram os telhados e terrenos da famosa Catedral St. Michael, a primeira das quais caiu por volta das oito da noite. Uma caiu no telhado, que era feito de chumbo. O fogo derreteu o metal, fazendo-o pingar no interior da madeira e pegando-lhe fogo. A equipa de bombeiros não pôde fazer mais do que ficar a ver. A conduta de água tinha sido destruída por uma bomba. À medida que o fogo avançava e começava a consumir o coro, as capelas e as pesadas vigas de madeira do telhado, alguns funcionários da igreja correram lá para dentro para resgatar tudo o que conseguiam. O prior da catedral escreveu que todo o interior estava transformado numa massa fervilhante de chamas e de pilhas de vigas e madeiras flamejantes, envoltas e encimadas por um denso fumo cor de bronze.” E o autor faz-nos estremecer com cenas de horror, cães com membros humanos na boca, corpos decapitados, torços carbonizados. Prosseguem as escaramuças entre o primeiro-ministro e o seu ministro hipersensível, Churchill chega a atingir grandes níveis de epistolografia, do género: “Não tem o direito, no auge de uma guerra como esta, de me onerar com os seus fardos. Ninguém sabe melhor do que você quanto dependo de si para conselho e conforto. Não deve esquecer, perante pequenas contrariedades, a vasta escala de acontecimentos e o palco bem iluminado da história em que nos encontramos”.

Há magníficas descrições como um jantar Glasgow, Churchill bem adoentado ao lado de Hopkins, o representante que Roosevelt nomeara para apurar a situação da Grã-Bretanha, Churchill pergunta-lhe o que é que ele irá dizer ao presidente e Hopkins recitou uma passagem bíblica do Livro de Rute: “Aonde fores irei; onde ficares ficarei; o teu povo será o meu povo; e o teu Deus será o meu Deus”. Churchill chorou. Empolgante é a descrição da viagem de Averell Harriman, enviado especial de Roosevelt junto de Churchill, haverá mesmo uma passagem por Lisboa em que o político comprará um saco de tangerinas para oferecer a Clementine, esta ficará deslumbrada. E não se pode perder a viagem de Churchill aos Estados Unidos, ficou na Casa Branca, à hora da deita Churchill foi para o seu quarto e conversa animadamente com o seu colaborador Thompson, batem à porta, é Roosevelt na sua cadeira de rodas. Churchill está nu e diz ao presidente, não tenho nada a esconder. “Churchill prosseguiu, atirando uma toalha sobre o ombro, e durante a hora seguinte conversou com Roosevelt, enquanto andava pelo quarto nu, a beber a sua bebida, de vez em quando voltando a encher o copo do presidente. O inspetor Thompson irá escrever que Churchill não teria sequer pestanejado se a Sra. Roosevelt também tivesse entrado no quarto.”

É inspiradora esta obra, neste nosso tempo, ao vermos a resiliência de Churchill, temos aqui a esperança e o exemplo da resistência quando os tiranos nos batem à porta.

De leitura obrigatória, pois.


 Mário Beja Santos





sexta-feira, 8 de abril de 2022

A Mãe de Brejnev (2ª parte) (publicado em 24/2/2014 - reposição)

 

 
 






Prosseguindo o périplo pela Mão da Pátria (ou Mãe de Brejnev), pedia apenas que vissem o vídeo acima. Dura só 46 segundos e dá uma ideia muito aproximada da estátua de que estamos a falar – e até que ponto, já lá iremos, tudo isto nos pode ajudar a compreender o que nestes meses, dias e horas está a ocorrer na Ucrânia. No momento em que escrevo estas linhas, não se duvide, está a jogar-se ali o futuro da Europa, por muitas e muitas décadas. Quem não quiser ver o vídeo, tem aqui uma galeria de imagens do local onde se situa a Mãe da Pátria, o Complexo Memorial da Grande Guerra Patriótica. Em alternativa, vai infra uma selecção inquestionavelmente excessiva da estátua, concebida no início dos anos setenta por Yevgeny Vuchetich mas só inaugurada em 9 de Maio de 1981, sob a presença tutelar do secretário-geral do PCUS, Leonid Brejnev. Começamos com umas imagens dos planos de edificação, da autoria do arquitecto Vasyl Borodai, para nos fixarmos depois na escultura, que merece ser bem vista. É irreal de gigantesca.
 
 


 
 
 
 



 
 

 
 

O que impressiona e surpreende é que, no desenho, pouco parece ter mudado relativamente à estatuária monumental clássica do realismo soviético, da década de trinta. Em quarenta anos, naquilo que parece ser uma metáfora do regime que serviam, nada evoluiu ou mudou na concepção daquelas figuras tão majestosas e serenas. A estátua de Vuchetich em Berlim, do soldado com uma criança ao colo, foi inaugurada em 1949. Mas, na substância, a traça permanece a mesma nesta Mãe da Pátria, que foi oficialmente aberta ao público em 1981. Existem dois elevadores acessíveis ao público, que levarão os turistas até a uma plataforma situada ao nível de 36 metros. Mas é possível ir mais acima. Do alto, contempla-se Kiev e os seus arredores, a curva do Dniepre. E para quem diz que tudo aquilo, à semelhança de outra obra de Vuchetich, A Mãe-Pátria Chama!, em Volgogrado, pode estar na iminência de ruir, a página oficial do Complexo da Guerra Patriótica é peremptória, garantindo que a estátua é constantemente monitorizada e perfeitamente segura. Curiosamente, o nome de Vuchetich não é citado a propósito da estátua, só se fala de Borodai. Porquê? Resposta aparentemente fácil: porque era ucraniano, nascido em Dnipropetrovsk em 1917, membro da Academia de Artes da Ucrânia, herói da Grande Guerra Patriótica, secretário da Sociedade Artística da Ucrânia, galardoado com o Prémio Lenine. Simplesmente, Vuchetich também era ucraniano (e, por sinal, também de Dnipropetrovsk, à semelhança da recentissimamente reabilitada Yuliya Tymoshenko). A página oficial do Complexo de Guerra Patriótica alude fugazmente ao  nome de Vuchetich quando fala da planificação geral do monumento. Mas a paternidade da estátua é atribuída a Borodai. Vejamos a matriarca a partir dos céus, com fotografias e um vídeo a terminar a excursão:
 




 

 
 
 
 
 
 

Num breve parêntesis sobre a Ucrânia, que está na ordem do dia, devemos recordar que, até há pouco, Kiev possuía um dos MacDonald’s  mais frequentados do mundo: junto à estação de comboios, era o terceiro MacDonald’s mais visitado em todo o planeta, atendendo cerca de dois milhões de pedidos por ano. Para quem gosta destes números, lembre-se também que os ucranianos são dos povos que mais bebem álcool em toda a Terra , ficando apenas atrás dos moldavos, dos russos, dos húngaros e dos checos. Nos processos-crime, a taxa de condenações situa-se também em valores elevados (90%), bastante acima da média europeia, com uns tolerantes 30 a 40%. Quando formalmente se libertou da tutela soviética, existiam na Ucrânia quase 20 milhões de porcos. O número reduziu-se significativamente, e, apesar da fama, um ucraniano consome hoje, em média, 18 quilos de carne de porco por ano, três vezes menos do que um alemão. 
Quanto à estátua Mãe da Pátria, seria de esperar que existissem milhares de recriações e pastiches, mas encontrei pouca coisa, apenas uns postais e as habituais medalhas comemorativas. Existe, todavia, uma escultura que segue de perto a Mãe de Brejnev. Chama-se Sabre de Luz, foi feita em 1992-1994 por Hartmut Skerbisch (1945-2009) e está situada junto ao edifício da Ópera de Graz, na Áustria. É uma obra muito desenxabida, na minha modesta opinião.   
 
 
 



Hartmut Skerbisch, Lichtschwert («Sabre de Luz»)
 


Além de uma performance algo apatetada de um grupo de rapazolas, que fez desaparecer e reaparecer a estátua ao jeito de David Copperfield, em Março de 2011 algumas activistas do Grupo Femen decidiram manifestar-se no seu habitual modo provocatório:


 

 

Parece existir, portanto, alguma indefinição quanto à autoria da estátua. A Wikipedia e outras fontes atribuem-na a Vuchetich. A página oficial do Complexo de Guerra Patriótica pende sem duvidar para o nome de Vasyl Borodai. Aliás, se virmos este vídeo, de onde consta a já insuportável comparação fanfarrona com a Estátua da Liberdade, parece ser essa a versão oficial. Mais ainda: em alguns locais, como aqui, e sobretudo no site de Borodai, reclama-se para este, sem pestanejar, a criação da Mãe da Pátria, chegado-se a exibir o modelo e muitos pormenores da edificação. Ora, isso é natural, uma vez que os trabalhos de construção só se iniciaram após a morte de Vuchetich. Mas, a ser verdade que a estátua foi concebida por Borodai, cai por terra a ideia de que o autor da famosa e esmagadora A Mãe Pátria Chama!, de Volgogrado, é o mesmo de  A Mãe da Pátria, de Kiev. 
 
 





 
 
 
 

Da autoria de Borodai é, indubitavelmente, a estátua aos fundadores de Kiev, que fica nas imediações do Memorial à Grande Guerra Patriótica.

Ladya, assim se chama o monumento. Erguido à glória dos quatro irmãos que, segundo a lenda, fundaram Kiev: Kiy, Sckek e Koriv, juntamente com a sua irmã Lybid. O mito fundador da capital da Ucrânia pode ser lido em vários lugares, como este.
 

 
Vasyl Borodai, Ladya



Os ucranianos têm tal afecto por esta lenda que, em Kiev, possuem duas estátuas que a evocam. A mais recente, na Praça da Independência, situa-se no preciso local onde tanta gente foi morta nos últimos dias.



A estátua dos Fundadores de Kiev, na Praça da Independência,
nos confrontos dos últimos dias

 
Outra, a original, nas imediações da Mãe-Pátria, foi concebida por Vasyl  Borodai, com arquitectura de Nikolay Feshenko. A estátua foi feita algo às pressas, a tempo de ser o ponto alto das comemorações dos 1.500 anos de Kiev, em 1982. De início, pensou-se em algo muito grandioso, talvez mesmo em colocar os founding brothers no cimo de um pedestal de 100 metros de altura. Na altura da verdade, foi-se para um orçamento mais modesto e razoável – e, ainda assim, a estátua foi inaugurada com numerosas imperfeições, com destaque para as figuras serem em cobre e não em bronze, como desejava Borodai. Há uma história comovente em torno desta escultura: a figura feminina, Lybid, foi inspirada na filha do escultor, Galina, também ela artista – pintora –, falecida prematuramente. Borodai homenageou a sua filha figurando-a como Lybid. Numa noite de Fevereiro de 2010, justamente por serem em cobre e terem ganho verdete, as figuras não resistiram ao frio gelado. Apenas uma das estátuas permaneceu intacta: a de Lybid.

 
Vasyl Borodai (1917-2010)
 
Vasyl e Lybid (ou Galina)


A inauguração, em 1982

 
 
Iniciaram-se de imediato os trabalhos de reparação, mas Vasily, na altura com 94 anos, não resistiu. Morreria 55 dias depois do desastre, devastado pela culpa, sem ter podido ver a reinauguração da sua obra, ocorrida em Maio desse ano.
 

A reparação da estátua, 2010
 
Quanto à disputa da paternidade da Mãe Pátria, é questão secundária. Dizem alguns, e talvez com razão, que Borodai concretizou aquilo que tinha sido idealizado pelo génio de Vuchetich. Assim, é possível chegar a acordo, alcançar a paz. Para mais, a aconselhar a harmonia, lembre-se que o local onde fica a tão amada Ladya, de gosto algo duvidoso, é um dos cenários por excelência das fotos casamenteiras dos habitantes de Kiev.
 
 
Borodai é ainda o autor de uma das muitas estátuas do poeta e artista Taras Shevtchenko, o autor da antologia poética Zobzar, o bardo nacional. Considerado o fundador da moderna literatura ucraniana, foi mais do que isso: foi ele que teve o sonho da Ucrânia que hoje, a esta hora, luta pela liberdade. Shevtchenko foi escravo, ou servo, quando criança. Em vida, foi poeta e pintor, figura maior do nacionalismo ucraniano. Quando morreu, foi sepultado em São Petersburgo, mas, por seu expresso desejo, os restos mortais seriam trasladados para os arredores de Kaniv, na sua Ucrânia natal. Não por acaso, as comunidades ucranianas espalhadas pelo mundo continuam a erguer-lhe estátuas por toda a parte. A de Nova Iorque, por sinal das mais esquálidas, é da autoria de Borodai.
É difícil dizer se a maior obra de Borodai é a severa Mãe da Pátria ou a delicada Ladya. Em tamanho, a primeira ganha, sem dúvida. No afecto do povo, vence a segunda. Uma evoca a destruição da guerra, outra o acto de criar uma cidade. Os noivos de Kiev preferem Ladya. E, ao contrário do que parece suceder com A Mãe da Pátria, existem reproduções por todo o lado:
 
 

 
Ladya não é, no entanto, a estátua de Kiev que melhor exprime o triunfo do amor sobre tudo o resto. Termino com história pequenina, falando de uma estátua de Kiev de que poucos falam. Nada tem de belicista; e, na sua simplicidade, é superior a todas as mitologias e ideologias. Esmaga por completo a esmagadora Mãe de Brejenev e tudo quanto lhe está associado, ontem como hoje: a cólera e a guerra, a avidez da terra, aquilo de que é feita a História.   
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Há mais de setenta anos, num campo de concentração, Luigi Pedutto conheceu Mokryna Yurzuk. Ele era italiano, prisioneiro de guerra. Ela era ucraniana, e tinha sido condenada a uma pena de trabalhos forçados, esta ali detida com uma filha pequena, nascida no campo nazi perto da aleia de Sankt Pölten, na  Áustria. Ela trazia-lhe comida, ele costurava sapatos e vestidos para a impressionar. Tinham ambos vinte anos. Apaixonaram-se, como acontece aos melhores mamíferos. Nos tempos de repouso, caminhavam juntos, de mãos dadas, no mais puro dos silêncios: nenhum entendia o que o outro dizia. Quando o campo foi libertado, em 1945, Mokryna foi levada de volta para a Ucrânia. Luigi quis ir atrás dela, mas impediram-no (aqui, aqui, aqui, aqui).
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Passaram anos, passaram décadas, casaram ambos, enviuvaram, legando ao futuro diversos  filhos e netos. Luigi ligou-se à finança, Mokryna trabalhou numa exploração agrícola colectiva na Ucrânia. Dois países, dois destinos: um no capital, outro no colectivismo. Graças a um programa de televisão, reuniram-se em Moscovo, em 2004. Abraçaram-se ao fim de décadas, como talvez nunca o tivessem feito.  
 
 
Luigi e Mokryna, o reencontro em 2004

Kiev, Maio de 2013
 

 
 No ano passado, em Maio, foi erigida uma estátua em Kiev em sua homenagem. Num local romântico, numa ponte do Parque Khreschatyi, onde os pares de namorados fazem entre si juras de amor eterno. Muitas vezes, incumpridas. Neste caso, a jura durou sete décadas. Ela encontrava-se demasiado debilitada para poder viajar, mas os seus familiares disseram que estava feliz por o seu amor servir de exemplo a outros casais. A neta afirmou que a avó lhe contara, vezes sem conta, aquele amor de guerra, mas jamais imaginaria que voltaria a reencontrar o rapaz italiano, que é um hoje um homem feito.
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Com 90 anos, vestido em uniforme de gala do exército italiano, Luigi Pedutto falou na cerimónia, comoveu-se. Lágrimas de quem esperou. «Quando tinha nove anos», afirmou, «o meu professor disse-me uma vez: lembra-te que, por tudo o que de mau passares na vida, serás recompensado». «Sinto que fui recompensado por tudo aquilo que passei».
 
Luigi Pedutto, Kiev, Maio de 2013
 
 
Durante 62 anos, Luigi esperou por ela, guardando uma pequena fotografia e uma medalha com uma mecha do seu cabelo. Um dia, decidiu escrever uma carta para um programa de televisão na Rússia, na esperança de a localizar. Vivia numa pequena aldeia na região de Dnipropetrovsk. Exactamente: a terra natal de Timoshenko e dos dois escultores que ergueram A Mãe da Pátria. Depois de se reencontrarem, pediu-a em casamento. «Quando a pedi em casamento, ela riu-se», diz Pedutto. Mas a senhora já visitou a sua terra natal, Castel San Lorenzo, em Salerno, de que foi feita cidadã honorária. Luigi viaja por vezes até à Ucrânia, levando-lhe azeite e queijo parmesão para preparar spaghetti. Falam num estranho dialecto, que mistura ucraniano, italiano e russo. Pensam um dia visitar juntos a estátua que, em Kiev, imortalizou o seu amor de décadas.   
 
 
 
 Há um movimento na América de que só se aproveita o nome: True Love Waits.  Luigi Pedutto ainda não perdeu a esperança de que, um dia destes, Mokryna Yurzuk aceite casar com ele.
 
 
António Araújo