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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A operação Mar Verde, à luz das mais recentes investigações.



         

          Como observa o investigador José Matos, a Operação Mar Verde, desencadeada em novembro de 1970 por um contingente das Forças Armadas Portuguesas e um agrupamento de oposicionistas do regime de Sékou Touré, foi das mais ousadas levadas a cabo durante toda a guerra colonial. Resta dizer que trouxe terríveis consequências para o Governo de Marcello Caetano, marcou o isolamento diplomático português ao seu nível mais baixo. Há significativa literatura sobre esta operação, inclusivamente José Matos e o investigador Mário Matos e Lemos já se tinham debruçado sobre o assunto. As limitações para investigar são muitas, mas foi possível juntar mais documentação e trazer novas informações a público. A obra intitula-se Ataque Secreto, Operação Mar Verde em Conacri, Guerra e Paz 2025.

As peripécias da operação são por demais conhecidas. Uma força naval portuguesa, em 22 de novembro de 1970, cercou a capital da República da Guiné. De acordo com o plano operacional elaborado por Alpoim Calvão, usou-se a escuridão da noite e desembarcaram vários grupos de tropas especiais em pontos estratégicos da cidade.

Calvão propusera esta operação inicialmente com objetivos mais modestos, foram crescendo depois os objetivos. E da libertação dos prisioneiros portugueses e do afundamento das embarcações do PAIGC, passou a sonhar-se com um golpe de Estado que derrubasse Sékou Touré, de modo que o novo Governo, amigável com o Estado Novo, levasse ao afastamento do PAIGC naquele país, que lhe dava um apoio fundamental. A operação contou com o apoio total de Spínola, Caetano aprovou-a, ministros do seu Governo mostraram radical oposição. José Matos levanta interrogações de peso que hoje nos fazem pensar no que houve de leviano e temerário, faltou uma verdadeira medição dos prós e contras: seria praticamente impossível não associar Portugal ao golpe, até porque havia a possibilidade de capturar Amílcar Cabral (dividem-se os investigadores se não se pretendia acima de tudo a sua liquidação física) o que deixaria Spínola com um problema em mãos; questiona se o aureolado comandante-chefe ficaria mesmo numa situação vantajosa para negociar com o líder dos nacionalistas uma saída pacífica para a guerra de guerrilhas, ou a guerrilha continuaria a lutar; o que seria se houvesse a perda de apoio na Guiné Conacri com a mudança de regime e a captura (ou morte?) de Amílcar, esta mudança levaria a guerrilha a desistir da luta?; e por quanto tempo seria possível manter um Governo desta oposição a Sékou Touré, um Governo do Front de Libération Nationale de la Guinée sem uma intervenção externa ou contra as forças do PAIGC e de Cuba que estavam no país?

São questões cruciais e a historiografia existente passa-lhe ao lado. Inequivocamente, Spínola perdera a ilusão de quebrar a espinha ao PAIGC, depois dos dramáticos acontecimentos de abril passado, com o massacre de uma equipa de negociadores no chão Manjaco. Perdera-se qualquer paridade no armamento, o PAIGC tinha um conjunto significativo de bases territoriais e com controlo administrativo, escolas e hospitais, o projeto de Armazéns do Povo estava em marcha. O Governador e comandante-chefe deste maio de 1968, imprimiu uma nova estratégia, recebeu fundos chorudos, constituiu a sua própria equipa, estabeleceu um plano de abandono de destacamentos, anunciou uma política dominada “Por uma Guiné melhor”, nesse mesmo ano de 1970 apareceram Congressos do Povo destinados a conquistar o apoio das comunidades tribais. Sempre que se desloca a Lisboa e participa nas reuniões do Conselho Superior de Defesa Nacional, fala categoricamente no agravamento da situação, pede mais meios humanos e materiais. Logo na exposição que faz ao Conselho em 8 de novembro de 1968, ficou escrito em ata que “O senhor Governador da Guiné voltou a salientar que é imperativamente necessário evitar que o inimigo atinja a fase de implantação militar em todo o território da Guiné, sob pena de a nossa soberania ficar irremediavelmente perdida”.

Não deixa de ser curiosa a comparação da correspondência de Schulz e de Spínola a pedir meios aéreos mais suscetíveis de fazer recuar a presença dos grupos do PAIGC dentro do território, só em abril de 1974 é que as negociações para a aquisição de aviões Mirage pareciam bem encaminhadas. Acresce que o PAIGC já podia contar com a ajuda cubana e apoio humanitário da Suécia. A presença do PAIGC na República da Guiné era por demais evidente. É então que descobre que havia um movimento de dissidentes da Guiné-Conacri dispostos a derrubar Sékou Touré, foi assim que nasceu a convergência com Alpoim Calvão, este idealizara somente a libertação dos prisioneiros portugueses e o afundamento dos meios navais inimigos.

José Matos faz-nos uma resenha dos antecedentes da Mar Verde, da evolução dos objetivos para a operação, cedo se começou a verificar que a oposição a Sékou Touré tinha imensas fragilidades; os grupos hostis foram sendo recolhidos em vários países e comprou-se armamento soviético sigilosamente na Bulgária; irá comprovar-se que o envolvimento da PIDE não garantiu informações rigorosas quanto à situação e localização de entidades e objetivos; também se esclarece  neste historial do José Matos que havia contactos com os opositores de Sékou Touré desde 1966, os oposicionistas durante muito tempo limitavam-se a pedir uma contribuição financeira e fornecimento de material bélico.

Estamos agora em plena invasão de Conacri, descrevem-se os meios em prémios, as dúvidas suscitadas logo na ilha de Soga, Spínola discursa aos comandos africanos antes da partida e desencadeia-se o assalto, conhecemos já os contornos essenciais de tudo quanto se passou, os meios aéreos da República da Guiné não estavam em Conacri, não encontraram o ditador, Cabral estava ausente de Conacri, falhou a ocupação da emissora, o tenente Januário dos comandos africanos desertou com vinte homens, houve afundamento de meios navais, libertaram-se os prisioneiros portugueses, sofremos baixas ainda que modestas. Ficou comprovado que os meios militares da República da Guiné estavam numa completa desorganização.

Segue-se a tempestade internacional: a condenação na ONU, a URSS oferece os seus préstimos navais, o que irá inquietar a NATO. Em definitivo, Spínola fica convencido da inviabilidade de uma solução militar e irá argumentar nesses termos na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que se realizou em 7 de maio de 1971, consta na documentação:

“Devemos excluir, de uma vez para sempre, a veleidade de ganharmos militarmente a guerra que enfrentamos, a qual só poderia ser ganha no campo das armas face a uma viragem imprevisível na presente conjuntura mundial. O problema só poderá resolver-se no campo político e quero crer que tal solução ainda se apresenta viável.”

O resto da história já a sabemos: desentendimento entre Marcelo Caetano e Spínola; caminha-se para a exaustão dos meios; o PAIGC recebe mísseis e armamento que lhe permite operar em termos de guerra convencional; a legislação de Sá Viana Rebelo incendeia os ânimos, aos poucos irá constituir-se o Movimentos dos Capitães. Tudo culmina no 25 de abril.

José Matos dá-nos novamente prova das suas capacidades de rigor e assegura-nos uma leitura bastante emotiva.


                                                                                    Mário Beja Santos 

 



sábado, 11 de outubro de 2025

Uma breve história do Ultramar como jamais se escreveu.

  




          A obra intitula-se A Mais Breve História do Ultramar, trabalho do investigador David Moreira, com prefácio do Presidente da República, Ideias de Ler/Porto Editora, 2025. O autor escolheu um tempo preciso, tem como percurso histórico as balizas da Conferência de Berlim e a descolonização, acrescendo um capítulo sobre o 25 de abril, as independências em África e em Timor-Leste. Correm-se riscos, e bem temerários, de ensaiar em menos de 300 páginas, e necessariamente com um olhar diferenciado de trabalhos já publicados, o espartilhar um período histórico tão tumultuoso, com menos 150 anos. Acresce que nos fica a dúvida se deve arrancar a análise histórica com a dita Conferência de Berlim, indiscutivelmente marco miliário definidor da configuração do Terceiro Império, sem dar ao leitor, não especializado, uma síntese do pano de fundo, isto é, todo aquele século XIX em Portugal foi um arrastar de traumas, dos quais a independência do Brasil teve um poder avassalador. No século XVII, a dinastia dos Bragança teve de lançar mãos à obra para juntar os pedaços imperiais da União Ibérica, os inimigos dos Habsburgos aproveitaram-se para ocupar posições outrora portuguesas em vários continentes; procurou-se consolidar os territórios sobrantes em África, no Oriente, no Brasil (esta a parcela tida como a joia da Coroa) e a partir de 1822, com guerra civil pela frente, um país empobrecido foi engendrando um quadro ideológico que se materializou no sonho africano. É o que me parece que David Moreira devia ter esclarecido em termos preambulares.

          Ele entra diretamente na partilha de África, nas novas cobiças de alemães, franceses e britânicos, as tentativas de consolidar posições através de expedições ditas científicas e campanhas de ocupação militar, até se chegar ao episódio glorioso de fazer capitular Gungunhana, o Leão de Gaza. Observa o investigador corretamente que “A impressão de superioridade militar e tecnológica dos portugueses neste período pode ser apontada como um dos fatores a que se cometessem erros crassos no futuro. Logo em 1904, o exército sofreu uma autêntica derrocada no sul de Angola às mãos dos guerreiros Cuamatos. A subestimação dos desafios da ação militar em África durou mesmo até ao tempo da República, com repercussões catastróficas para Portugal.”

Chegados à I República, prosseguiram as negligências, lembra o autor que entre o Ministério da Marinha e o novo Ministério das Colónias, a pasta dedicada às províncias ultramarinas passou pela mão de 13 ministros diferentes no período de seis anos, os territórios não mapeados, faltavam as redes de estradas e os caminhos de ferro, as comunicações dependiam da navegação britânica. Em 1913, os governos britânicos e alemães chegaram a planear uma partilha amigável de Angola e Moçambique, houve protestos dos franceses e a seguir começou a I Guerra Mundial, irão surgir graves problemas militares em Angola e Moçambique. Os militares não perdoaram as ineficiências das elites republicanas. “Não por acaso, algumas das grandes figuras do fim da República haviam visto a questão moçambicana de perto. Esta lista vai de Gomes da Costa, que inspecionou as tropas após a rendição, ao seu genro Massano de Amorim, governador de Moçambique durante a fase mais crítica da guerra. Já Alves Roçadas, um dos pontas de lança da revolta contra o republicanismo, havia testemunhado e protagonizado uma desgraça na frente angolana.” Começam a surgir no pós-guerra relatórios sobre as condições laborais em Moçambique e Angola, dizem-se verdades como punhos, bem se pretendeu negar categoricamente as acusações.

Com a ditadura e o Estado Novo vão ser redesenhadas as leis da administração colonial, segue-se o Ato Colonial de 1930, ali se codifica a natureza da ocupação portuguesa desses territórios: “É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas.” Estamos numa época em que os países coloniais lançam mão de exposições e feiras, assim vai nascer a Exposição Colonial do Porto em 1934, que decorreu no Jardim e Palácio de Cristal, trouxeram-se membros das colónias, não faltaram indianos encantadores de serpentes, nem macaenses a retratar uma casa de chá e guineenses de peito ao léu. O ativista da exposição, Capitão Henrique Galvão criou o famoso mapa em que sob a Europa aparecem as colónias portuguesas e onde se diz que Portugal não é um país pequeno.

Finda a II Guerra Mundial, era de todos sabido que os norte-americanos iriam apoiar as descolonizações, a independência da Índia, os acontecimentos na China com a chegada dos comunistas ao poder, deixaram sinais inquietantes ao nosso pensamento colonial. Os estudantes das colónias irão encontrar-se na Casa dos Estudantes do Império, por lá passarão, entre outros, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Joaquim Chissano e Pedro Pires. Galvão, em 1945, desembarca no Lobito, continua encantado pelo sonho de Portugal pluricontinental, mas o seu relatório sobre o trabalho dos indígenas nas colónias, em 1947, provoca o pandemónio, a imagem que pintava era desoladora e dirá mesmo, sobre o trabalho forçado, que a situação era pelo menos tão desumana como era no tempo da completa escravatura. Salazar tenta atrelar-se ao mundo ocidental político, Portugal entra na ONU e na NATO, mas acontece que anos depois os novos países africanos vão deter a maioria do voto a questão indiana irá agravar-se e ter o seu desfecho em 1961. Haverá explosões nesta ou naquela colónia, mas as notícias serão proibidas, caso do massacre em Batepá, na Província de São Tomé e Príncipe, em 1953, a sublevação de Viqueque, em Timor, em 1958, e os acontecimentos do Pidjiquiti, em 1959. O regime procede a uma metamorfose, deixámos de ter um Império Colonial, passámos a ter o Ultramar.

Dá-se o despertar do pan-africanismo, a par das superpotências surge o Movimento dos Não Alinhados, ganham notoriedade mundial depois da conferência de Bandungue, tudo mudara: Nasser decidira a nacionalização do Canal do Suez, Fidel Castro ganha uma guerrilha e pôs fim a um regime militar despótico, a África do Norte mostra-se recetiva à independência de todos os povos africanos. E o autor desfia o corolário dos acontecimentos a partir dos tumultos angolanos, em 1961, vê os EUA a apoiar Holden Roberto, o presidente Kennedy vai se ruma dor de cabeça para Salazar, crescem os contingentes para Angola, o ditador vê-se obrigado a uma iniciativa reformadora, esta vai ser liderada por Adriano Moreira, aboliu o estatuto de indígenas, desencadeia um processo de grande renovação da legislação ultramarina. A luta armada eclode na Guiné e depois em Moçambique. Cabral passara bastante tempo a planear a estrutura do movimento que juntasse o máximo possível de etnias guineenses, enquanto se aliciavam jovens no interior da Guiné para se juntarem ao PAIGC em Conacri, obtiveram-se apoios da China e da União Soviética e da Checoslováquia para formar a armar os guerrilheiros, da ideologia cuidada de Cabral. Dele diz David Moreira: “Político exímio, montou uma complexa teia de alianças que ainda hoje, mais de cinquenta anos volvidos, se continua a desvendar e da qual fizeram parte países asiáticos, europeus, americanos e, claro, africanos.”

 Dá-nos um quadro da evolução da FRELIMO em Moçambique, Marcelo Caetano substitui Salazar, o resto conhecemos todos mais ou menos com uma certa clareza: Spínola na Guiné, levou consigo um projeto que se revelou assustador para Cabral: a Guiné para os guinéus, isto quando o líder do PAIGC falava na Unidade Guiné Cabo Verde, algo com que, no fundo, os guineenses jamais estavam de acordo, os cabo-verdianos tinham sido os representantes do colonialismo e não escondiam um desprezo até de índole racial aos guineenses. A FRELIMO foi crescendo a sua influência, em dado momento, estamos já em janeiro de 1974, o ímpeto guerrilheiro atingiu metade de Moçambique, e assim como o PAIGC recebeu mísseis terra-ar, o mesmo aconteceu com a guerrilha moçambicana.

Desde 1973 que os militares do quadro permanente estão em desavença com o Governo, não gostaram da criação de um quadro especial para oficiais, lentamente irão melhorando a sua organização e irão formar o MFA. O livro de Spínola Portugal e o Futuro não deixa qualquer ilusão a Marcelo Caetano, e depois da sublevação malograda das Caldas da Rainha o regime chegou ao fim no dia 25 de abril de 1974. O processo de descolonização não ficará concluído nesse ano, haverá ainda o Acordo do Alvor, que falhou, Angola conhecerá a guerra civil a partir de 1995 e haverá igualmente a tragédia timorense. E assim David Moreira conclui a sua obra:

“Em 25 anos, Portugal passou de pária internacional a bastião do multilateralismo e defensor da democracia. Sem paralelo entre as ex-potências coloniais, num prazo minúsculo de tempo, em simultâneo a todas as suas batalhas internas, Portugal, de forma praticamente unânime, renunciou ao colonialismo.

Numa caminhada por vezes difícil, e com os retrocessos típicos dos choques com a realidade, Portugal começou a ajustar as contas com o seu passado, em particular com as páginas de Batepá e Wiriyamu. E assim foi criando uma sociedade onde se normaliza falar do Tarrafal, em que se publica a poesia Portinho Neto, em que se celebra a beleza e a história de Goa, em que se recorda Amílcar Cabral e onde a Fundação Calouste Gulbenkian restaura o Forte de São João Baptista de Ajudá.”

É uma narrativa que constitui indiscutivelmente um olhar original para uma brevíssima história do Ultramar.


                                                                    Mário Beja Santos




sexta-feira, 30 de maio de 2025

A desdita dos comandos africanos da Guiné na labiríntica historiografia pós-colonial.

 

 



Para me licenciar em História, aprendi que esta é a ciência do Homem no tempo, tempo que tem um antes, um durante e um depois, o investigador compulsa a documentação, pode socorrer-se de depoimentos escritos ou orais, em caso algum pode encobrir provas ou manejá-las de modo que a sua narrativa esteja em plena concordância com as acusações que comportam os recados que aparentam corresponder à clara certidão da verdade.

Os fuzilamentos dos comandos guineenses que combateram do lado português continuam a ser matéria fraturante, pasto de trabalhos que no fundo pretendem demonstrar como a nossa descolonização foi caótica, praticou injustiças, deixou um estendal de misérias. Sofia da Palma Rodrigues doutorou-se sobre este tema, ouviu velhos antigos combatentes, responsabiliza as autoridades portuguesas que acompanharam o prescrito pelo Acordo de Argel, e as subsequentes de desleixo criminoso, abandonaram, afinal, à mercê dos rancores do PAIGC homens que tinham sido valorosos a combater pela soberania portuguesa. É uma crítica acintosa, um uso atrabiliário da bibliografia e de diferentes fontes documentais, assim se escreve Por ti, Portugal, eu juro! A história dos comandos africanos da Guiné, por Sofia da Palma Rodrigues, Edições Tinta-da-China, 2024.

De acordo com o que se escreveu nos volumes dedicados à Guiné na Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África, publicados pelo Estado-Maior do Exército, em 1969, o governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, António de Spínola, concebeu uma força especial de comandos e fuzileiros, que deu origem a três companhias de comandos e duas de fuzileiros, as primeiras vieram a agrupar-se no chamado Batalhão dos Comandos Africanos. Fez-se uma seleção por recrutamento voluntário de gente que veio dos pelotões de caçadores nativos, das forças das milícias, sobretudo. Está comprovado que as autoridades do PAIGC, o presidente Luís Cabral e os políticos do seu círculo, foram inteiramente responsáveis pelos crimes perpetrados após a independência, perseguindo, prendendo, torturando e fuzilando elementos dessas forças especiais, tanto dos comandos como dos fuzileiros, e mentindo descaradamente, forjando intentonas ou dizendo nada saber sobre estes fuzilamentos. Nos diferentes livros que escreveu, nas entrevistas que deu, Luís Cabral negou sempre conhecimento dessas matanças. Só que os seus colaboradores têm vindo a escrever que as coisas não se passaram assim. Veja-se o que disse Manecas Santos num livro também publicado em 2024 intitulado Uma biografia da luta, Rosa de Porcelana Editora, página 113:

“Pouco tempo após a independência, talvez por volta de 1976, Luís Cabral foi passar férias à Suécia. No regresso, fez uma paragem em Lisboa. Tinha boas relações com Ramalho Eanes que o convidou para um jantar. Durante a conversa, Eanes falou-lhe de um conjunto de militares, antigos efetivos do exército colonial, que ainda estavam detidos na Guiné. Fez-lhe um pedido: que fossem devolvidos a Portugal, mediante a sua garantia pessoal de que não se envolveriam em qualquer intriga posterior contra o PAIGC ou o Estado da Guiné-Bissau.

Luís concordou. Assim que chegou a Bissau, convocou o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Umaru Djaló; Nino Vieira ministro do Interior; e António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado. Informou-os sobre o acordo feito com Eanes e solicitou que providenciassem os documentos de viagem necessários para o regresso a Portugal dos militares em questão.

Foi então que Buscardini, com toda a desfaçatez, informou o presidente que os soldados que tinha prometido devolver já tinham sido executados. Ou seja, Buscardini tinha tomado individualmente uma decisão que punha em causa a palavra do chefe de Estado perante um homólogo; e tinha cometido uma violência contra os prisioneiros que teria sido impensável para o PAIGC, mesmo durante as hostilidades da luta armada.”

Esta é a versão de Manecas Santos, acontece que Luís Cabral, por mais uma vez, falou em tribunais e em tentativas de complô feitas pelos comandos, teria sido a justiça a decidir o seu fuzilamento. Como se sabe, não há uma só prova de qualquer envolvimento de comandos e fuzileiros em complôs e sabe-se que os fuzilamentos se prolongaram até finais de 1977.

Esta ilustre doutora diz abertamente ao que vem: “Este livro foca-se na recolha de testemunhos que põem em causa as narrativas oficiais que tanto Portugal como a Guiné-Bissau escolheram contar sobre si, e sobre os relatos de pessoas que foram cuspidas para fora de ambos os projetos políticos.” Por outras palavras, os historiadores, na plenitude andam a mentir. Por vezes diz coisas sem qualquer fundamento, como dizer que o PAIGC dominava já mais de metade do território quando Spínola se viu obrigado a apostar nos militares africanos e a dar-lhe funções de maior importância no Exército. É facto que Spínola apostou fortíssimo nestes comandos, eles foram utilizados para as operações mais arrojadas, fizeram muitas vezes vacilar os guerrilheiros do PAIGC e as populações por ele dominadas. Chegaram a ser cruciais em momentos em que se previa a hecatombe, como no cerco a Guidaje, em que os comandos entraram no Senegal e puseram o PAIGC em pânico, em Cumbamori.

Se esta historiografia pós-colonial servisse para pôr esta situação em pratos limpos, ouvir-se-iam aqueles que estiveram a pôr em execução o Acordo de Argel. A senhora doutora nunca refere as conversações travadas pelo brigadeiro graduado Carlos Fabião com os oficiais e sargentos dos comandos e dos fuzileiros, Fabião já faleceu, mas deixou depoimento do que fez e como fez. Nem uma palavra. O PAIGC aceitou incorporar todas as forças militares que combatiam do lado português, não cumpriram. Naquele vendaval de acusações que a doutora faz ao comportamento das autoridades portuguesas, não há nem uma palavra sobre a atmosfera que se viveu em Portugal, particularmente a partir do 11 de março, em que os spinolistas entraram em debandada. Era igualmente compreensível que na análise da situação concreta que se vivia nas conversações entre as autoridades portuguesas e as do PAIGC, estas apelassem à desmobilização das forças especiais, temiam que com a saída dos portugueses se gerassem focos de guerra civil. Valia a pena que a doutora tivesse procurado a documentação desta época nos arquivos da Defesa Nacional e não se limitasse a dizer que Glória Alves, o 2º comandante do Batalhão de Comandos afirmara que os guineenses tinham retirado o seu nome da lista que fora proposta por Fabião para virem para Portugal, fala também em Florindo Morais, mas diz que estes dois responsáveis não eram capazes de garantir como o processo aconteceu e recorre-se de interrogações: “Foram mesmo todos os que tinham o nome na lista a desistir? Houve alguém a precipitar esta decisão? O que terá levado estes militares a deixarem de querer ir para Portugal?” Será isto maneira de fazer historiografia? Andou a fazer entrevistas aos comandos africanos e esta questão não era importante?

Chegámos por fim ao mau da festa, Almeida Santos, que escreveu e promulgou o Decreto-Lei n.º 308-A/75, de 24 de junho, que previa que só conservariam a nacionalidade os cidadãos portugueses nascidos em África que tivessem pais, avós ou bisavós com linhagem europeia goesa. Nem uma palavra para a avalanche de retornados que começavam a afluir, nenhum partido político ao tempo contestou a necessidade desta legislação e, como é sabido, daí por diante, nenhum governo alterou a essência deste princípio da nacionalidade. É facto que se devia ter a seu tempo agido em nome do artigo 25º do anexo do Acordo de Argel, mas, como também é sabido, é assunto face ao qual nenhuma governação quis tratar por via diplomática pelas autoridades da República da Guiné-Bissau, a partir da Resolução do Conselho de Ministros nº18/83 em que se definiu que o pagamento das pensões seria transferido para o Estado da Guiné-Bissau, em troca Portugal perdoaria uma dívida de juros vencida no valor de 200 milhões de escudos. O que será que a senhora doutora queria, que cortássemos relações com a Guiné-Bissau por não cumprir com o estipulado?

Fuzilamento de comandos guineenses matéria fraturante? Sim, enquanto faltar historiografia que busque com rigor o tratamento das fontes e trate com a devida prudência as lacunas e omissões da História oral. Livro que não convence.

 

                                                                                     Mário Beja Santos


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Obra de referência sobre os últimos anos do colonialismo português.

 



 


 

Publicado em novembro de 2024, pela Bertrand, Crepúsculo do Império, Portugal e as guerras de descolonização, coordenado por Pedro Aires Oliveira e João Vieira Borges, este volume de quase oitocentas páginas, que reúne a colaboração de mais de três dezenas de autores, destina-se a familiarizar o público com algumas das investigações mais inovadoras acerca das guerras coloniais de Portugal. Beneficia, naturalmente de avanços historiográficos facilitados pela abertura dos arquivos portugueses. “Instituições como o Arquivo Histórico Militar e o Arquivo da Defesa Nacional têm recebido, nos últimos anos, significativas incorporações, e funcionam segundo normas que, em geral, se alinham com as políticas de acesso arquivístico mais abertas no plano internacional. Como a história das guerras coloniais não se cinge apenas à sua dimensão militar e operacional, outros arquivos têm sido procurados pelos investigadores, com destaque para os acervos depositados nos Arquivos Nacionais Torre do Tombo e nos Arquivos Histórico-Diplomático e Histórico-Ultramarino. A isto teremos também de acrescentar toda uma pletora de arquivos internacionais, que tanto inclui os antigos aliados ocidentais de Portugal como os de vários ex-satélites da URSS que a partir de 1990 adotaram regras mais abertas no tocante aos acervos dos seus serviços diplomáticos e de inteligência (como a República Checa), ou a constelação de países do agora chamado Sul Global que desempenharam papel de relevo na solidariedade e apoio aos movimentos independentistas das colónias portuguesas”.

Vejamos, em síntese, a estrutura da obra. A primeira parte intitula-se “Enquadramento”, aqui se procura estabelecer um quando contextual das guerras coloniais portuguesas em termos políticos, estratégicos e militares; a segunda parte denomina-se “Economia e Sociedade”, aqui explora-se a dimensão económica das guerras e os seus impactos sociais; a terceira parte obedece ao mote “Mobilização, Luta e Propaganda”, procura familiarizar os leitores com diversos aspetos da conduta do conflito, numa visão que procura conciliar uma abordagem analítica e algum sentido cronológico; “Dor e Sofrimento” é a quarta parte, aqui se enunciam os aspetos mais dolorosos do conflito, aqueles que resultam das baixas em operações militares, atrocidades, situações de cativeiro. A quinta e última parte é “Fim do Império”, são duas sínteses sobre as vicissitudes deste processo, primeiro na metrópole e em África, e depois nos territórios onde o nível de empenhamento militar português foi comparativamente menor do que em África, mas nem por isso menos gerador de consequências dramáticas, basta recordar Timor.

Sendo totalmente inviável alargar comentários a todos os diferentes comentários, vejamos, a título meramente ilustrativo o modo como os investigadores abordaram certos temas:

“Insistir na tese da vitória traída pode ser politicamente conveniente ainda hoje, mas é insistir em não querer perceber que uma guerrilha não ter por objetivo uma vitória convencional. Ela aposta na atrição prolongada da vontade de combater de um inimigo à partida muito mais forte. As guerrilhas independentistas sabiam não ser realista, nem tiveram como objetivo marchar sobre Lisboa, Paris ou Londres, pois não precisavam disso para atingir o seu objetivo estratégico: transformar o colonialismo num ativo tóxico na política internacional e demasiado custoso em vidas e despesas para ser viável a prazo na política interna das potências colonizadoras.”

“Ponto determinante foi a incapacidade de o poder político transmitir às suas Forças Armadas o que pretendia delas, isto é, o que considerava uma vitória e qual o seu objetivo. Esta incapacidade está plasmada nas cartas de comando entregues pelo Governo aos generais quando os nomeava comandantes-chefes. São todas elas idênticas e do tipo de ordens gerais: manter a ordem no território, colaborar com as autoridades civis e assegurar a relação pacífica entre os habitantes. Com esta latitude de objetivos cada general deduziu a sua missão. E daí cada um ter agido de acordo com a sua análise.

A perda da vontade de combater é uma das condições para o fim de uma guerra. Os capitães preferiram derrubar o regime, antes que o regime fizesse dele os bodes expiatórios da sua incapacidade, como acontecera na Índia. Preferiram defender o seu povo antes que o regime levasse o povo à exaustão.

O 25 de Abril de 1974 também resulta do sentimento de desconfiança dos militares relativamente ao poder político da ditadura do Estado Novo e dos seus dirigentes.”

No ensaio dedicado à estratégia e liderança do Conselho Superior de Defesa Nacional, abordando-se a situação na Guiné no período que vai de novembro de 1969 a maio de 1973, escreve-se:

“A situação na Guiné era a mais crítica. Na reunião de maio de 1971, Spínola deixou claro não ser possível vencer militarmente, levantando forte oposição dos ministros da Defesa e do Ultramar, que preconizavam a possível solução política teria de ter uma vitória no campo militar. Para Spínola, a solução ultrapassava largamente a possibilidade de uma vitória militar, e apenas no quadro de uma plataforma diplomática e política era possível encontrar uma solução de fundo para a Guiné. Qualquer solução que fosse orientada para a vitória militar tinha apenas como consequência e exaustão de recursos humanos, materiais e financeiros. Sem demonstrar aberta concordância com Spínola, Caetano considerava que o esforço financeiro suportado era muito elevado e não tinha a certeza de que a economia do país pudesse continuar a suportá-lo por muito mais tempo.”

Abordando a condição em que ficaram os combatentes africanos que tinham sido leais a Portugal, vejamos o que se escreve sobre a Guiné:

“O elevado número de guineenses ao serviço de Portugal, a sua reconhecida destreza militar, e a própria notoriedade alcançada por muitos deles num território com aquelas dimensões, tornava o PAIGC particularmente receoso quanto à desmobilização daqueles elementos. O seu desarmamento começou a ser feito a partir de 19 de agosto, imediatamente após o acordo de independência, sob a supervisão do brigadeiro Carlos Fabião. Esse processo deveria ter lugar contra o pagamento de seis meses de salário e uma guia de marcha que habilitaria os antigos combatentes a apresentarem-se ao serviço nas Forças Armadas do Novo Estado, a partir de janeiro de 1975. A possibilidade de os militares guineenses das Forças Armadas portuguesas, na qualidade de cidadãos da República da Guiné-Bissau, serem elegíveis para o pagamento de pensões de sangue, invalidez e reforma por parte do Estado português estava previsto no Acordo de Argel, mas nos anos seguintes nenhum programa completo para concretizar essa promessa seria implementado. A queda em desgraça do setor spinolista da Revolução, na sequência dos acontecimentos do 11 de março de 1975 em Lisboa, trouxe graves consequências para estes elementos, particularmente para os que se tinham distinguido em unidades de operações especiais. Os serviços de segurança do novo Estado, organizados por elementos formados na URSS, RDA e Checoslováquia, terão sido instrumentais na identificação e eliminação de vários ex-comandos. Dados revelados em 1980, mencionam 53 fuzilamentos ocorridos em 1965, mas as matanças conheceriam um novo pico em 1978, a propósito de rumores que apontavam para o envolvimento de antigos elementos do Exército colonial num alegado golpe de Estado liderado por Malam Sanhá, um ex-comando.”

Livro essencial, portanto.

 

                                                        Mário Beja Santos


quinta-feira, 3 de abril de 2025

Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História.

 



 

Tirando o acervo documental, felizmente e em grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário, restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere ao período da luta armada como nos tempos posteriores. Há uma primeira obra de Aristides Pereira, para a qual concorreu Leopoldo Amado, uma segunda também deste alto dirigente entrevistado pelo jornalista José Vicente Lopes, desta feita mais disponível e quebrando sigilos do passado; há o testemunho de Luís Cabral sobre a obra do irmão, a par do seu percurso dentro do PAIGC, biografia e hagiografia; temos igualmente testemunhos de dirigentes ou quadros do PAIGC de origem cabo-verdiana ou guineense, mas o cabal esclarecimento que comportam é diminuto, alguns deles  têm até a particularidade de serem de pura vanglória ou procurarem trazer justificação às tragédias de governação a partir de 1974 (das quais eles não têm qualquer responsabilidade).

O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde, contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso do Estado. Temos, pois, Manecas Santos na primeira pessoa, em jeito de prólogo fala da sua chegada à Guiné em 1968, como fez a tarimba, com quem combateu e aonde, em 1971 passa a ser comandante de um corpo de Exército e no ano seguinte, tendo voltado de treinos em antiaéreos na Crimeia, irá assumir o comando militar na frente norte.

Fala-nos do Mindelo, da família e do meio; concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por Amílcar Cabral. “Cabral cuidava pessoalmente da formação de todas as unidades do Exército. Era ele quem escolhia o comandante, o segundo oficial e organizava toda a estrutura. Apesar da sua baixa estatura, emanava autoridade, e quando era necessário impor-se, fazia-o sem titubear. No entanto, possuía uma natureza afável e um trato agradável. Mantinha uma relação de extrema proximidade com os soldados, chamando cada um pelo nome e visitando frequentemente as bases para verificar o andamento das operações.” Menciona o recrutamento dos guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do território já estavam sob a administração do PAIGC.

Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir. O doutor Carlos Lopes, a quem devemos estudos de alto significado, escreveu que na Operação Tridente o PAIGC tinha abatido 500 militares portugueses; o historiador português Rui Ramos veio dizer que em 1970 o PAIGC tinha sido sustido, já não tinha bases na Guiné, vinha do exterior, flagelava e retirava – pergunta-se como é que é possível uma tirada destas quando possuímos a história das campanhas da Guiné que demonstram inequivocamente que nesse ano de 1970 íamos aos mesmo santuários em que PAIGC estava instalado há anos, e com pouco sucesso.

Inevitavelmente, falará da operação de cerco a Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá: “Sofremos baixas absolutamente negligenciadas: cinco feridos e nenhum homem morto. O exército colonial sofreu baixas pesadas. O adversário deixou 16 cadáveres em campo, todos de comandos africanos.” Desse-se Manecas Santos ao cuidado de investigar o que sabemos sobre tal operação, teria ido ao Arquivo da Defesa Nacional, onde existe um registo das transmissões portuguesas que interferiram nas transmissões de Cumbamory para Conacri, onde se diz abertamente que as forças do PAIGC tiveram um número de mortos superior a 60…

Quanto ao assassinato de Cabral, é contido, não fala nem na PIDE nem em Spínola, dirá que foi praticado por ilustres desconhecidos, está certamente esquecido que o embaixador de Cuba em Conacri, Oscar Oramas, chegou pouco depois ao local do crime, e escreveu mais tarde que viu Osvaldo Vieira, entre outros, a esconder-se atrás da vegetação; acontece que esses ilustres desconhecidos ameaçaram todo o grupo cabo-verdiano de morte, deram-lhes ordem de prisão, enquanto se dirigiam para Sékou Turé. Acontece que não existe nenhum documento que comprove qualquer propósito de Spínola ou da PIDE para induzir tal assassinato. Mas convém deixar sempre no ar de que o complô tinha o braço longo de Spínola e dos seus infiltrados.

Reconheça-se a importância do seu depoimento na época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da sua atividade como ministro e quantos aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC, dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral Terá concordado, convocou altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta. A história seguramente estará na desmemória de Manecas, haverá fuzilamentos, que estão devidamente registados até dezembro de 1977, e há que perguntar como é que é possível um chefe de segurança andar a praticar matanças sem o presidente saber. Nino Vieira será uma rábula parecida depois de 14 de novembro de 1980, manda abrir as valas de gente executada, ele que era primeiro-ministro, também não sabia…

Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante. 


                                                        Mário Beja Santos




quinta-feira, 4 de abril de 2024

Porventura o testemunho mais eloquente sobre a guerra colonial e o depois.

 


Porventura o testemunho mais eloquente sobre a guerra colonial e o depois,

Palma de ouro para a literatura nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril

 

 

Carlos de Matos Gomes, escritor que usa o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, autor do mais importante romance da literatura da guerra colonial, inverte as regras do jogo, nada de equidistâncias, vem-nos confidenciar o que naquela guerra colonial onde ele percorreu Angola, Moçambique e Guiné perdera todo e qualquer sentido, daí ter participado, desde a primeira hora, na formação do núcleo do MFA na Guiné, aquele que, na manhã do dia 26 de abril, com a representatividade de todos os ramos das Forças Armadas, depôs o então comandante-chefe, o primeiro sinal que foi dado no território para abertura de conversações com os insurgentes que já tinham declarado unilateralmente a independência; desvela a sua intimidade, interroga-se sobre as causas que o tinham conformado, aos 24 anos, no posto de capitão comandante de uma companhia de tropas especiais, a fazer aquela guerra, onde se sentia literalmente o intruso, e onde descobrira, que o colonialismo estava vivo e bem operante; combate ao lado de rodesianos, descobrirá depois do 25 de Abril que há um acordo secreto entre o Estado Novo e as forças do Apartheid…

É uma dobadoira de confidências de um combatente valoroso, condecorado com duas cruzes de guerra, que nos vai envolver com o mundo da sua infância, como chegará à academia militar, os sonhos que guarda. A Guiné é crucial, para ela se ofereceu voluntariamente, acabará como autoridade no Batalhão dos Comandos Africanos, assiste a uma etapa superior da africanização da guerra, considera que Spínola foi até onde a sua natureza lhe permitiu, um general destemido que descobriu que não havia nenhuma solução militar para um conflito onde os nacionalistas tinham um pé firme no território, eram beligerantes e ao nível do combate no terreno possuíam melhor armamento, isto até 1973, aí as coisas mudaram de figura. Matos Gomes acompanha de 1972 a 1974 a trepidação do conflito, recorda os acontecimentos subsequentes ao assassínio de Amílcar Cabral e ao conjunto de operações de maio de 1973, haverá um quartel totalmente cercado no Norte da Guiné, Guidage, pôs-se em movimento uma operação de nome Ametista Real para aliviar a pressão, que teve sucesso. “O Batalhão de Comandos Africanos sofreu 10 mortos, 22 feridos graves e 3 desaparecidos. Entre os feridos, o capitão Folques, que conseguimos trazer. E provocou 67 mortos, entre os quais, segundo refere uma informação obtida da República do Senegal, uma médica e um cirurgião cubanos e quatro mauritanos.”

E há outros dados significativos: “Durante o mês de maio de 1973, as forças portuguesas sofreram 63 mortos, 269 feridos e um prisioneiro; o PAIGC realizou 166 ataques, ocupou uma base militar, sede de um comando operacional, Guileje, efetuou 36 emboscadas, 12 ataques contra aeronaves e um contra embarcações, implantando 105 minas, das quais 66 foram acionadas por militares portugueses.” O descontentamento militar está em fermentação. Costa Gomes e Spínola acordam em junho em trocar espaço por tempo, ninguém tem ilusões de que tudo se vai agravar, é preciso encolher o dispositivo militar. “A situação aconselhava ao retraimento do dispositivo militar português, que deveria ficar com todas as unidades aquém da linha geral rio Cacheu-Farim-Fajonquito-Paunca-Nova Lamego- Aldeia Formosa-Catió, para evitar o aniquilamento das guarnições de fronteira. Esta solução de último recurso tem sido apresentada como prova de que, no seu regresso a Lisboa, Costa Gomes considerou a situação da Guiné como controlável e o território defensável; no entanto, ela é a clara admissão de que as forças portuguesas abdicavam da posse de boa parte do território da Guiné e das suas populações para se concentrarem no reduto central. A soberania portuguesa seria assim apenas formal, militar e politicamente indefensável. O Governo português sujeitava as Forças Armadas a uma situação humilhante e o país a uma situação de vexame internacional.”

Dá-nos a sua versão do nascimento do MFA, descreve a Guiné nos primeiros meses de 1974, o que foi o 26 de abril em Bissau e em toda a Guiné, o memorialista desembarca em Lisboa em junho de 1974, tem o PREC à sua espera, tudo contado com algumas pitadas de humor, a relação forte que estabeleceu com Jaime Neves, o encaminhamento para o 25 de novembro, não é dúbio nem se mostra atarantado, aderiu à esquerda revolucionária, não guarda mágoas nem pôs em salmoura quaisquer traumas, desfia as suas considerações sobre o processo político, dizendo-se solista da sua própria orquestra. É chamado ao Conselho Superior de Disciplina do Exército, entra como réu, sai absolvido. “Existia um MFA ao qual eu já não pertencia, um país que seguia o seu novo rumo e eu via-me no rasto da espuma que ele deixava.” Deixa gravado que acreditou no poder popular e que numa hora de descaminho que ele se afastou.

A firmeza das suas ideias compagina-se com a firmeza de como escreve, não descura a aprendizagem do dever e da solidariedade. “A história da minha geração fez-se ao redor da fogueira da guerra. O dilema da minha geração incluía sempre a minha decisão sobre a guerra. A guerra surgia como um fenómeno que atingiu Portugal porque ocorrera uma tempestade no mundo. Como as invasões francesas, ou a peste bubónica. Portugal defendeu-se da intempérie. Neste caso, Salazar não conseguiu preservar Portugal das turbulências históricas, como conseguira na Segunda Guerra Mundial, e a sua costela de camponês levou-o a defender à sacholada o que entendia ser a sua propriedade. Esta era ainda, nos anos 90, a narrativa sobre a guerra. A dificuldade em a desmontar era tanta que essa guerra nem tinha designação, além da antiga “Guerra do Ultramar – um conceito, o do Ultramar, que tanto fora utilizado pelos liberais como pelo Estado Novo, que a partir de 1951 alterara a designação de colónias para províncias ultramarinas”.

É caloroso na amizade e despede-se de nós com um parágrafo esplendente:

“Num tempo de obediências e corrupções, num tempo de sombras e homens sombrios, num tempo de funcionários, de gente que não dá ponto sem nó, que nunca faz o que deve sem perguntar o que ganha com isso, eles, os meus, pertencem a uma casta de seres humanos que nos servem de matriz. Sementes raras, que por vezes dão frutos ásperos, mas apaixonantes.”

Tenho dúvidas que possa surgir um testemunho mais vigoroso sobre o arco histórico e o dilema de uma geração, a que também pertenço.


                                                                                           Mário Beja Santos









 


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Uma pedra preciosa da literatura luso-guineense.






Uma pedra preciosa da literatura luso-guineense:

Amadu Dafé consagra-se como grande escritor




A obra intitula-se A Cidade Que Tudo Devorou, por Amadu Dafé, Nimba Edições, 2022. O escritor já dera sinais de uma intensa singularidade com outro livro de denúncia, Ussu de Bissau, a revelação do tráfico sexual e de escravatura juvenil, a pretexto de educação religiosa num país estrangeiro. Agora, tem como cenário devastador a cidade de Bissau, mune-se de uma escrita onde sobressai um crioulo aprimorado, uma arquitetura literária onde se intercalam processos de realismo mágico onde avultam irans, poilões, florestas sagradas, fantasmagorias, a par de episódios de extrema violência, onde é plausível assassinar um presidente da República, um ministro, um deputado poeta, intermediários da droga, altas patentes das Forças Armadas.

A que se deve este título? O investigador António Duarte Silva refere num dos seus trabalhos como Amílcar Cabral temia que após a independência a elite dirigente do PAIGC cedesse aos confortos da cidade, seria uma devoradora dos sonhos da luta, como aconteceu, assenhorearam-se das casas, locupletaram-se com dinheiros, quiseram carros topo de gama, esqueceram o interior, engendraram o desgoverno onde falta a eletricidade, o ensino, a saúde, o património cai aos bocados e jamais se perde a tentação do golpismo ou a fossanguice.

Nesta atmosfera de desastre, pespontam figuras que irão marcar, no futuro, o que de melhor há na literatura luso-guineense: Sprança, N’sunha/Sónya, António Tabaco, Almirante, Kanserá Só, Lante Ndan Kdutar, movem-se entre o misticismo, atmosferas premonitórias, nomes míticos que permanecerão indecifráveis, como General Anónimo. Somos arrastados para uma sociedade de expedientes onde o herói é carteirista e marinheiro, observa golpes de Estado e atraído a ciladas. Há pais ausentes que lembram o fantasma de Hamlet ou tomam a forma de um gato, há amores intensos que acabam num tiroteio que mata um ou outro. E o leitor que se prepare para cenários de horror como aquela guerra civil, assim descrita: “A guerra tinha eclodido no princípio da época da chuva que cessara, depois de alguns anos, no fim da época da chuva. Foi preciso esperar por mais seis meses para outras águas virem lavar o sangue e purificar o chão. O sangue derramado decorria pelas valetas das cidades atingidas, como rios galgando do nascente para os mares. Os corpos mortos, putrificando-se nas ruas que os projéteis esburacaram, alimentavam, que-farte, os jagudis, os corvos e as moscas. As casas destruídas pelos canhões abrigavam cães e gatos abandonados.” Amadu Dafé não só faz interferir magistralmente o crioulo como manobra com agilidade frases marcantes. Um exemplo: “Há três coisas que não voltam atrás: a bala, a palavra e a oportunidade.” Ele participará nessa guerra civil e dá-nos o quadro horrível do que aconteceu no quartel de Mansoa: “Quando as tropas da junta militar invadiram aquele quarte, não fizeram reféns, nem presos de guerra. Os corpos mortos dos chamados aguentas, crianças e jovens guineenses lutaram ao lado dos militares estrangeiros, vindos do Senegal e da Guiné-Conacri, para a junta governamental, foram largados nas ruas para os jagudis, os cães, gatos e corvos se alimentarem. A cidade tresandava a sangue podre e a almas desabrigadas.” Apaixona-se por Sán’nan, tudo parece que está a correr bem, um superior leva-o para um golpe de Estado, escapam o presidente da República e a mulher, muito nos vai contar a figura nº 1 do regime, enquanto os papagaios vociferam palavrões. Presidente e mulher serão assassinados no dia à queima-roupa e somos transportados para um festim de animismo, iremos ouvir falar na filha do fantasma, carga metafórica não falta a esta figura, ela própria tem sangue luso-guineense, assistirá a cumes de violência mas dirá sempre que a esperança nunca morre, virá de Lisboa, tem dotes premonitórios também, quer o destino pela mão do escritor que Sprança andará a seu lado até o termo desta narrativa feita de ferocidade na cidade que tudo devorou.

Torcendo e retorcendo, e de tal distorção poder deixar tudo claro, é dom da batuta deste escritor que nos embaraça com histórias que à primeira vista têm pouco princípio, meio e indiscritível fim, que nos revela, pondo-nos numa ampla vitrina, uma cidade de Bissau escalavrada, dominada pela menoridade política e as oligarquias da droga. Quando necessário, somos fulminados pelas atmosferas mágicas, conversas fantasiosas, passeatas pelo tempo colonial, imprevistamente há revelações de paternidade, informações sobre os santuários da droga, acabamos envolvidos em golpes mafiosos, há muita aventura e a ação é tanto bestial como violenta, e até se contam histórias do passado como os fuzilamentos daqueles militares que tinham servido debaixo da bandeira portuguesa.

Questiono se esta obra não é um retábulo cercado de figuras que privilegiam o monólogo e o solilóquio, dando unidade à trama, clarificando toda a dimensão do Estado falhado, a todo o momento este esplêndido romance mostra-nos a Guiné-Bissau nua e crua. Um exemplo: “A ausência do Estado e da sua função de segurança e garante do bem-estar económico e social deixava os guineenses entregues à lei da selva e à diarreia em que consiste o crime organizado. O país dispõe de oitenta e oito ilhas e ilhéus, das quais apenas vinte e uma são habitadas e o resto servia para a instalação de bases para a produção e o armazenamento de drogas, pistas forjadas para a aterragem de avionetas. Mais de metade das ilhas e ilhéus eram propriedades dos muitos falsos empresários do país. Na opinião do mundo, as ilhas eram apenas usadas para o armazenamento e a distribuição da cocaína oriunda da América do Sul. Todos os anos, eram apreendidas nos portos dos países europeus mais de cem toneladas de cocaína exportadas da Guiné. Os ganhos eram astronómicos para os quartéis, mas era todo o país quem pagava pela fatura. A paixão dos europeus pela cocaína condenava, assim, a Guiné-Bissau e o seu povo a uma vida de miséria e de terror, tornando-a prisioneira da sua própria indignidade. Em paralelo, a Europa investia milhares de euros no combate ao tráfico das drogas, financiando o Estado guineense a adquirir equipamentos e a formar homens para uma guerra impossível de vencer. Os fundos acabavam por servir aos mesmo de sempre: políticos pertencentes às mesmas redes de narcotráfico, que encontravam assim uma maneira rentável de recuperar as perdas pelas drogas apreendidas nos portos do velho continente.”

Haverá execuções, gente importante tomba, andam perseguidos e perseguidores à procura de algo a que chamam “produto”. Tudo acabará num caos, Sónya e Sprança vão para Bissilanka, tudo parece culminar num encontro luso-guineense. E vamos sonhar que a esperança nunca morre. Leitura imperdível, temos aqui um grande escritor da lusofonia.


Mário Beja Santos

 






terça-feira, 22 de março de 2022

Marcelino da Mata, o operacional valoroso, entre o mito e as investigações às três pancadas.


 

 

É a narrativa mais recente sobre o mais condecorado militar português, intitula-se O Fenómeno Marcelino da Mata, o Herói, o Vilão e a História, por Nuno Gonçalo Poças, Casa das Letras, 2022. Vindo na sequência de outras narrativas, e depois da controvérsia que acompanhou o desaparecimento do herói, era expectável uma investigação em contexto inovador, com questões pertinentes, abordagens facultadas por contemporâneos e camaradas operacionais do falecido herói, enfim, um trabalho que saísse da pura ruminação e do copy-paste. Nuno Poças promete e não cumpre. Diz ter como móbil do seu trabalho: “Parti para este livro para tentar perceber quem era o homem por detrás do debate, e também para compreender quem nele teria mais razões. Mas rapidamente constatei que aquilo que era mesmo importante, na minha modesta e frágil opinião, não foi discutido. Marcelino tinha em si, no seu percurso, tudo aquilo que nos devia ter (guerra em ditadura e processo revolucionário) não devem ser olhados, em democracia, como se olha para um passado recente já construído em período democrático”. E quando se despedir do leitor, o autor voltará à tónica de que é necessária uma perspetiva de apaziguamento feito refletir e procurara acomodar todas as sensibilidades, num quadro de moderação e concórdia, relativamente a um passado recente que não deixa – ou não devia deixar – muita gente orgulhosa. Esse passado é por natureza controverso, na medida em que se trata, essencialmente, de dois períodos e moderação, de que há muitas contradições e confrontos na historiografia da Guerra Colonial, é indispensável a busca do justo equilíbrio, ele diz que foi o que tentou fazer, concluindo que Marcelino carregava em si o peso das contradições de um passado comum a tantos portugueses ainda vivos. E finaliza com uma quase boutade: “Nestas contradições andará, como quase sempre, a verdade possível”.

O autor passa como cão por vinha vindimada em ouvir opinião ou comentários sobre as diferentes entrevistas dadas por Marcelino. Apresenta a Guiné de um modo grotesco, incorreto: “O território da Guiné, descoberto pelos portugueses em 1446. Depois de povoado por meio de Cabo Verde, ocupado por holandeses, povoado por portugueses, abandonado, colonizado por ingleses, foi finalmente constituído como colónia portuguesa em 1879, depois da união de Bissau e Cacheu. Só em 1951 seria criada a Província Ultramarina da Guiné”. Brada aos céus!

Apresenta-nos Marcelino e procura contextualizar em que meio, o que escreve é mais do que consabido, vem em todos os relatos anteriores, mesmo aquela névoa de quem da sua família foi assassinado pelo PAIGC, o pai, a mãe, a irmã ou a mulher. Como a diacronia não é a principal preocupação de Nuno Poças, logo sobre a vingança em quadro psicanalítico de Marcelina temos o comentário de Manuel dos Santos, o Manecas, comandante do PAIGC, dizendo, em 2015, que o Marcelino da Mata era uma vergonha para o exército português. Mas o autor dá como demonstrado que a vingança e o sentimento de pertença à comunidade portuguesa marcaram a atuação de Marcelino.

Nada de novo nos traz no seu relato sobre os primórdios da guerra da Guiné, daqui parte para a apresentação de Amílcar Cabral e a criação do PAIGC, também não há elementos novos e assim chegamos ao quadro de atuação de Marcelino, já ganhara notoriedade quando participa na Operação Tridente, assim chegamos a 1986 e Marcelino fará parte de um grupo que ganhou fama, Os Roncos, combate ao lado de um outro bravo, Cherno Sissé, este também altamente condecorado, e que teve uma triste sina em Portugal. É aqui que Nuno Poças traz um contraditório face a uma bravata de Marcelino que afirmava uma operação de libertação de prisioneiros da CCaç 1546, coisa que nunca aconteceu, bravata e pura mentira. E o autor observa: “Parece evidente que se foram inventando episódios acerca de Marcelino da Mata, e existem testemunhos que afiançam que várias dessas invenções tinham origem no próprio, mas o certo é que, indiferente à mitomania, a lenda crescia durante a guerra à medida que as medalhas e os louvores se sucediam e confirmavam todas as qualidades militares de Marcelino. E o PAIGC, por sua vez, ganhava a Marcelino da Mata um receio e uma raiva crescentes”. E, mais adiante: “Retratado como um herói pelo regime que o condecorava, era também visto como um sanguinário e criminoso de guerra pelo lado oposto, graças a episódios ocorridos no mato, factos de real selvajaria dos quais quem não conhece a guerra terá sempre uma distância inevitável”. Parece um comentário do Conselheiro Acácio.

Como a diacronia não é o forte de Nuno Poças, voltamos à Operação Tridente e passamos rapidamente para a Operação Mar Verde, e depois a Operação Ametista Real, também nada de novo, seguramente para justificar a presença e os atos de bravura de Marcelino. Nuno Poças vai repetir frases que se encontram em dezenas de livros sobre o período da governação Schulz, que tinha apostado exclusivamente numa estratégia militar de recuperação das áreas ocupadas pela guerrilha do PAIGC, mas sem produzir grandes resultados, que recebeu mais efetivos militares, aumentou os bombardeamentos e as operações por tropas helitransportadas; mas, coitado, chegara com a saúde fragilizada e uma visão burocratizada da guerrilha, acabou demitido (aqui não é o Marcelino a disparatar, é o autor). E chega Spínola, intensifica a africanização da guerra, etc. e tal, chega o 25 de abril, dias antes Marcelino acidentado é transferido para Lisboa, e aqui fica. Anos depois, numa entrevista Marcelino virá dizer que só a tropa guineense chegava para controlar a Guiné. “Podia ter-se negociado com o PAIGC para formar um exército no qual eles se integrassem: porque nós éramos um exército formado e com largos anos de guerra, e eles era guerrilheiros sem formação militar e sem quadros – portanto, eles deviam integrar-se nesse exército e não nós no deles”. Fica bem claro neste comentário a visão irrealista de Marcelino da Mata face ao processo descolonizador, tal como ele aconteceu.

Nada se esclarece quanto às razões que levaram à detenção de Marcelino da Mata em 1975, foi espancado no RALIS, nunca aparece alguém, factualmente, a desmentir a ligação de Marcelino com spinolistas, o ELP, parece que foi o MRPP que o descobriu por ciência infusa, aproveita-se a oportunidade para novamente enxovalhar o nome de Leal de Almeida, comandante do RALIS, que teria aproveitado a oportunidade para exercer uma vingança pessoal sobre Marcelino. E depois vem a sua ligação às manifestações dos antigos comandos guineenses, em 1986, tudo é exposto sem nenhum contraditório, aliás está na moda, até em processos de doutoramento as calúnias andam impunemente à solta. E depois o herói morre, e por muito que o autor diga que falar de Marcelino exige uma perspetiva de apaziguamento e moderação, há que reconhecer que é preciso ter muita desfaçatez para escrever esta narrativa completamente inútil.


Mário Beja Santos