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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Os Magos de Sant’Eustorgio de Milão.


 


No seu conto que é antecâmara da Epifania, Sophia de Mello Breyner atribui a cada um d’Os Três Reis do Oriente – Gaspar, Baltazar e Melchior – uma história particular e sobretudo uma razão para partir em busca da estrela mais brilhante. Independentemente da verosimilhança, a busca dos Magos interpela-nos quer nas escrituras e na tradição canónica, quer na elegante prosa de Sophia.

O regresso dos Magos a sua casa está envolto em maior mistério. São Mateus, o evangelista que narra a Epifania, relata que “avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho” (Mt 2, 12) – o que, em si mesmo, comporta o desafio alegórico aos que encontram Cristo para que sigam por outro caminho, um caminho melhor, depois desse encontro.

Os Magos, três na tradição ocidental, doze na tradição cristã oriental, voltaram “ao seu país” mas, de acordo com diversas lendas não necessariamente compatíveis, foram depois martirizados. O destino dos seus restos mortais foi igual ao de tantas outras relíquias e passou pela intervenção arrebatadora da Augusta (e futura santa) Helena, a mãe do Imperador Constantino, que na sua peregrinação à Terra Santa de 326-28 não só descobriu a Verdadeira Cruz como levou de volta a Constantinopla aqueles que se transformaram nos mais preciosos tesouros da Cristandade.


Campanário da Basílica de Sant’Eustorgio, em Milão, com uma estrela no topo.


As ossadas dos Magos partiram poucos anos depois com Eustórgio, que fora a Constantinopla para ser confirmado como novo bispo de Mediolanum, a Milão imperial, e regressou em 344 a casa com as preciosas relíquias, num pesado sarcófago de mármore arrastado por dois bois que, às portas da cidade, caíram de cansaço.

Como parte do seu ambicioso programa de difusão da Fé, o Bispo Eustórgio ordenou a construção de várias basílicas, consoante a categoria dos santos que albergariam: uma para os profetas, outra para os apóstolos, outra para os mártires e outra para as virgens. Eustórgio morreu com fama de “defensor da Fé” e elogiado pelos seus contemporâneos, passando a ser venerado localmente. Das basílicas que mandou construir restam ainda três, resistindo à modernidade que parece rodear-nos e que ofusca o que resta de Mediolanum, então capital do Império Romano do Ocidente.

Foi na basílica dos mártires, construída no lugar onde os bois se cansaram, que Eustórgio mandou sepultar os Magos, tendo passado a ser conhecida como Basílica dos Três Magos. No alto do campanário lá está uma estrela, em vez da habitual cruz. No portal principal, a estrela volta a marcar presença, por cima de um fresco que representa a visita dos Magos. No interior da basílica, permanece o túmulo manifestamente primitivo, sem adornos subsequentes, e, contudo, quase vazio.


Interior da Basílica de Sant’Eustorgio, em Milão.


Túmulo dos Magos, no interior da Basílica de Sant’Eustorgio.



Arca com representações da Viagem dos Magos, da Visita ao Menino e da Visita a Herodes, que teria servido para levar as relíquias de Constantinopla para Milão, no interior da Basílica de Sant’Eustorgio.

 

Em 1162, o Saque de Milão às mãos das tropas do Imperador Frederico, o célebre Barbarossa, lideradas por Rainald von Dassel, arcebispo de Colónia, viu a quase destruição da cidade. O arcebispo regressou com as preciosas relíquias e ofereceu-as ao Imperador que, por sua vez, as deu à cidade de Colónia – onde são ainda hoje veneradas num precioso relicário que honra, além dos Magos, o arcebispo que saqueou Milão.

Quase 750 anos e muitas tentativas de reaver os Magos – ou o que deles resta – depois, Colónia devolveu a Milão alguns fragmentos ósseos em 1903. Voltaram ao túmulo e à basílica que, entretanto, tomara o nome do seu fundador, Sant’Eustorgio, e que permanece um local onde a Fé é, surpreendentemente, um legado palpável.

Os Magos não são, de resto, a única atração da basílica, nem tampouco os únicos mártires que honram a evocação primitiva. Apesar de fisicamente ligada à basílica e na continuação da capela-mor, a Capela Portinari é uma construção autónoma e sobretudo com um estilo e identidade próprios.

Foi contruída entre 1462 e 1468 por ordem de Pigello Portinari, o representante do portentoso Banco dos Médici em Milão. Embora a arquitectura seja inspirada da Sacristia Velha da Basílica de São Lourenço em Florença (panteão dos Médici), obra de Brunelleschi, a decoração da Capela Portinari é bastante mais exuberante e considerada um dos melhores exemplos do Renascimento lombardo.


Pigello Portinari, fundador da Capela Portinari, representado aos pés de S. Pedro Mártir.

 

Cúpula da Capela Portinari, na Basilica de Sant’Eustorgio.

 

Cúpula da Capela Portinari, na Basílica de Sant’Eustorgio.

 

A capela é toda ela uma homenagem a São Pedro de Verona ou São Pedro Mártir, o padroeiro dos inquisidores, recordado pela sua oposição feroz às heresias e que acabou… removido do calendário romano em 1969 com o argumento de que o seu culto era irrelevante internacionalmente, mas certamente vítima do espírito conciliador do Concílio.

Pedro de Verona, dominicano, que fora frade em Sant’Eustorgio e veio a ser nomeado inquisidor para a Lombardia pelo Papa, foi atacado em 1252 por um grupo de sicários, um dos quais lhe enterrou um machado no crânio. Pedro terá molhado os dedos no sangue e escrito na terra o primeiro verso do Credo dos Apóstolos – Credo in Deum – antes de cair morto. A cena foi de tal forma marcante que o assassino arrependido e convertido veio a ser, ele próprio, beatificado. A Pedro o martírio valeu aquela que continua a ser a canonização mais rápida da história, alcançada em apenas 11 meses.

A cúpula da capela é surpreendente pelas cores que decoram os dezasseis segmentos e que criam um efeito quase psicadélico. Nas paredes, os frescos recordam alguns dos milagres atribuídos a Pedro de Verona em vida, uma nuvem milagrosa que protege uma multidão de um calor tórrido, um pé amputado e recolocado, e o mais sugestivo, o Milagre da Falsa Madonna, quando o inquisidor desmascarou o Demónio que se tinha disfarçado de Nossa Senhora – e assim se apresenta uma desconcertante e falsa Nossa Senhora, com chifres.


Fresco da Capela Portinari, na Basílica de Sant’Eustorgio, representando Pedro de Verona a escrever a primeira linha do Credo dos Apóstolos com o seu sangue.


Fresco representando Pedro de Verona a obrigar o Demónio, disfarçado de Nossa Senhora, a revelar-se.


Sumptuosa arca tumular de S. Pedro Mártir, na Capela Portinari.

 

As Virtudes, representadas na arca tumular de S. Pedro Mártir.

 

Pormenor da arca tumular de S. Pedro Mártir.


Alguns dos temas repetem-se na sumptuosa arca tumular de Pedro de Verona, em mármore branco de Carrara, colocada já no século XVIII no centro da capela, mas que precede em um século a construção da Capela Portinari. De grande riqueza iconográfica, a arca tumular, datada em 1339 e assinada por Giovanni di Balduccio, é suportada por oito pilares em mármore vermelho, junto aos quais estão oito figuras femininas representando as virtudes teológicas e as virtudes morais.

A cada 6 de Janeiro, Dia de Reis, o cortejo histórico dos Reis Magos atravessa Milão, partindo da Catedral até à Basílica de Sant’Eustorgio, antiga Basílica dos Três Magos e lugar onde ainda se veneram, junto a um inquisidor martirizado. Qualquer dos dias do ano é, no entanto, um bom dia para visitar Sant’Eustorgio.

Ademar Vala Marques

6 Janeiro 2025

Fotografias: Novembro 2024




quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Scorsese em estado de graça e para quem qualquer rosto humano tem um direito sobre nós.




Tudo terá começado em 3 de março de 2016, em Nova Iorque, um jesuíta e teólogo, Padre Antonio Spadaro, encontrou-se com Martin Scorsese em sua casa para discutir Silêncio, filme que o realizador italo-americano dedicou à perseguição aos jesuítas no Japão, e a relação do cineasta com a fé. Este livro compendia um conjunto de conversas sobre as motivações do cineasta, ele é questionado sobre a fé e a graça que, mais ou menos subtilmente, emergem das suas obras. O mínimo que se pode dizer do todo desta obra é que ficamos com o retrato de uma das principais figuras contemporâneas da sétima arte, Conversas Sobre a Fé, Casa das Letras, 2024.

Nesse primeiro encontro de 2016, Scorsese fala da sua juventude, era acólito e por vezes ao sair para a rua no fim da missa perguntava a si próprio: “Como é possível que a vida continue como se nada tivesse acontecido? Porque é que o mundo não é abalado pelo corpo e pelo sangue de Cristo?” Questão que o realizador tratou no cinema em filmes como O Touro Enraivecido, A Última Tentação de Cristo e o Silêncio. Padre e realizador irão encontrar-se durante o período da pandemia, falarão de pessoas e livros que influenciaram o realizador que continua obcecado em filmar sobre Jesus.

Fala-se inicialmente de Silêncio, dos jesuítas perseguidos no Japão. Scorsese é assumidamente católico, inquieta-o a questão da graça, algo acontece ao longo da vida e comenta: “Não se consegue ver através da experiência de outra pessoa, apenas da nossa. Por isso, pode parecer paradoxal, mas relacionei-me com o romance de Shūsaku Endō.” Contará ao entrevistador o que pensa das fascinantes e intrigantes personagens do romance, padres que perderam a sua fé, padres que descobriram o rosto de Cristo. Questionado se a compaixão é instinto ou humor, responde que a chave é a negação de nós mesmos, ele dá-se como obcecado pelo espiritual. “Estou obcecado com a questão do que somos. E isso significa olhar para nós de perto, para o bom e para o mau. Será que podemos cultivar o bem para que, num momento futuro da evolução da humanidade, a violência possa, possivelmente, deixar de existir? Mas, neste momento, a violência está cá. É importante mostrar isso. Para que não se cometa o erro de pensar que a violência é algo que os outros fazem.” Reflete demoradamente sobre o tempo da pandemia, os livros que releu, os filmes que viu e fala do que ressoou em si a mensagem do Papa Francisco:

“Durante muitos anos, tentei compreender como Jesus vive no mundo que o rodeia e como a sua presença pode viver em mim e ser expressa por mim. Durante muito tempo cometi o erro de pensar que estava a exprimir Jesus quando, na verdade, estava a estragar as coisas – era uma questão de orgulho e de ego, de me deixar levar pelo papel de grande realizador de cinema e pelo poder de fazer arte. Lendo o texto do Papa Francisco, fiquei entusiasmado.” E fala do seu passado e da sua juventude, em Little Italy¸ Nova Iorque, zona de crime organizado, frequentou uma escola católica, conheceu o padre Francisco Príncipe, influenciou-o muito. “Ele representava uma forma de pensar e uma forma de lidar com a vida que era muito, muito diferente do mundo cruel, duro e julgador que me rodeava. Olhava para nós e dizia: ‘Não têm de viver assim’.” Era uma época de movimentos de direitos civis e o padre Príncipe dera-lhe uma abertura para o mundo, teve um efeito poderoso sobre Scorsese. Pensou que estava destinado a seguir a vida sacerdotal, cedo descobriu que estava a tentar esconder-se da vida e do medo, apercebeu-se que queria estar com os outros, e então apareceu a paixão pelo cinema.

Há um outro momento decisivo na sua vida quando, em 1964, viu o filme Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini, o filme era para ele num planeta diferente, o rosto de Jesus aparecia nada que tinha visto antes. “Os outros filmes sobre Jesus que tinha sido feitos até essa altura eram muito, muito piedosos, e sempre que Jesus aparece é o centro das atenções em todos os sentidos. É destacado do resto da humanidade na sua maneira de falar, na sua maneira de se mover, na sua perfeição física e no enquadramento, na encenação, na encenação, na iluminação. Mantém uma longa tradição de representar Jesus na pintura de forma absolutamente idealizada. Mas o que Pasolini fez foi tornar Jesus um ser humano, uma pessoa, alguém que se pudesse conhecer e com quem se pudesse falar.”

Respondendo a comentários sobre os seus filmes lembra que A Última Tentação de Cristo toca em toda a iconografia da igreja. “Apercebi-me que tinha de ir mais longe na história de Jesus quando fiz este filme. Havia uma parte de mim que se sentia compelida a lidar com a iconografia – tinha de criar a crucificação, tinha de criar a ressurreição de Lázaro, tinha de criar o sermão da montanha, mas acho que essa não é realmente a história de Jesus.” E, mais adiante: “Jesus abraça toda a humanidade, e Jesus é realmente toda a humanidade. Mostra-nos a todos o caminho, a forma de viver, de lidar com a raiva, a vingança e a retribuição, com o amor, o perdão, a redenção e tudo o mais que existe em nós e entre nós.”

E conta-nos o que o acicatou a filmar Assassinos da Lua das Flores. “Por volta do início do século XX, os Osage descobriram petróleo na sua reserva. Rapidamente, tornaram-se o povo mais rico do mundo. Depois, como é óbvio, os brancos especuladores e vigaristas e oportunistas e ladrões e assassinos desceram. Sentiram o cheiro do dinheiro fácil. Houve um esforço concentrado para matar praticamente toda a comunidade Osage em troca do dinheiro do petróleo, por todos os meios imagináveis: tiroteios, atentados à bomba, a bebidas alcoólicas e envenenamento lento.” Confessa que procura compreender e aceitar a violência que existe em nós, procura aprender sobre a vida interior dos outros observando o seu comportamento exterior. Volta a falar sobre a hecatombe que caiu sobre os Osage: “O reinado de terror dos Osage foi uma questão de poder e ganância. Foi muito fácil para Bill Hale e todos os outros assassinos desumanizarem os Osage, mas estes homens e mulheres não foram assassinados por serem Osage, foram assassinados pelo seu dinheiro. No final, os assassinos não escaparam com nada a não ser dinheiro. Os Osage têm a sua cultura extraordinária, agora em processo de renascimento e reconstrução.

E Scorsese despede-se deixando um argumento para um possível filme sobre Jesus, belíssimo texto a coroar esta longa conversa sobre a fé, medos e inspirações, sempre presentes no cinema de um dos maiores realizadores do nosso tempo. 


                                                                        Mário Beja Santos



 

domingo, 14 de abril de 2024

Argélia: o tempo da fraternidade? (18).

 


 

 

Em Tibhirine, a 95 quilómetro a Sul de Argel situa-se o Mosteiro de Nossa Senhora do Atlas.

Criado por monges trapistas em 1939, desenvolveu desde então uma acção importante no desenvolvimento agrícola da Região onde se implantou. O mosteiro sempre teve uma atitude ecuménica, ao ponto de, na falta de uma mesquita na aldeia vizinha, ter cedido as suas próprias instalações para os muçulmanos exercerem o seu culto.

Ficaria dramaticamente célebre na noite de 26 de Março de 1996.

Em plena Guerra Civil, um comando de terroristas tomou facilmente o mosteiro e raptou quase todos os monges. Nunca mais foram vistos com vida. Os seus corpos foram encontrados sem cabeça um mês depois. Nunca foram identificados os perpetradores do crime.

Hoje, respira-se no mosteiro um ambiente tranquilo, embora a memória do acontecido esteja presente. Ainda hoje, e não obstante a convivência com as populações locais persistir, os monges só vão à aldeia, por exigência das autoridades, sob escolta policial.

Curiosamente, o sino só é autorizado uma vez por ano, no dia de Páscoa.

 







 

                                    Fotografias de 19 de Outubro de 2023

 

                                                                          José Liberato


sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Zurzir nas trafulhices das crendices: Uma viagem no mundo do imaginário religioso dos portugueses.

 





 

A obra chama-se Histórias Heréticas, é seu autor o escritor António Loja, um madeirense que comandou a Companhia de Caçadores nº 1622, colocada num dos locais com maior risco, no Sul da Guiné, 1966-1968, deu matéria para que este capitão miliciano tivesse escrito uma poderosíssima obra de literatura memorial, de referência, As Ausências de Deus (Âncora Editora, 2013, ainda disponível). Volta agora a publicar na Âncora Editora, em 2020, uma reflexão sobre a exploração das crendices, apresenta-se como agnóstico e avisa claramente que não vem com sanha antirreligiosa, limita-se a medir a temperatura da religiosidade dos seus compatriotas, lembra alguns santos que afinal não existiram e outros que aparecem associados a guerras santas, é o caso de S. Tiago na guerra aos mouros, de S. Jorge que foi excluído do calendário litúrgico, afinal ele ter vencido o dragão não passou de uma balela e, por muito incómodo que seja, não há provas do milagre de Ourique, foi de facto uma aldrabice forjada pelos frades de Alcobaça.

Muito há a suspeitar dos milagres de Santo António, lembra um episódio descrito pelo conde da Ericeira no seu Portugal Restaurado, referente aos acontecimentos do 1º de Dezembro de 1640, havia gritaria do povo defronte da igreja de Santo António, dizia-se que uma imagem de prata de Cristo crucificado que levava um capelão, despregara o braço direito. “Gritou o povo, prostrado por terra, que era milagre, e todos cobraram invencível confiança de que Deus aprovava a gloriosa deliberação dos confederados.” Tudo isto só podia ter acontecido na igreja de Santo António…. E o milagre das rosas, as atrocidades da Inquisição, as falsas miraculadas, a que, felizmente, a Igreja Católica consegue pôr termo; e os milagres daquelas imagens que parecem chorar, depois faz-se exame pericial e quem sabe da poda, um santeiro, esclarecia cabalmente o fenómeno:

“Quando levamos a imagem de barro ao forno não podemos colocar-lhe os olhos antes da cozedura. O forno é muito quente e os olhos de vidro derretem naquela temperatura. O que fazemos é, depois da cozedura, abrir um furo por detrás da cabeça até ao lugar dos olhos, depois colocamos estes, sempre por detrás e preenchemos o espaço vazio com cera. A pintura disfarça as cicatrizes, mas quando há muito calor junto da imagem, uma lâmpada mais forte em dia quente, por exemplo, ou um candelabro com várias velas mais próximo, a cera pode começar a derreter e sair pelos olhos. Isso até tem acontecido na oficina.” Assim se pôs ponto final sobre um milagre que não aconteceu.

E há os milagres de Santa Filomena, outra santa que não existiu, mas que aliviou dois jovens residentes na Câmara de Lobos a tirar umas notas de um saco que estava por trás da imagem de Santa Filomena e que pretendiam comprar duas bicicletas.

António Loja faz uma grande angular sobre iconoclastas, troça de um tolo fanático, Sousa Lara, que queria que se fizessem umas cruzes altíssimas, a Igreja impediu esta iniciativa megalómana, na viragem do século. E há o negócio das medalhas milagrosas, os falsos videntes, e aí conta-nos a história da vidente Alexandra, a Alexandra Solnado, são crendices à vista desarmada, mas que têm clientela segura. Era indispensável uma referência a mercantilismos de padres de paróquia, e o autor traz aqui a história do padre do Livramento, na Madeira, que pedia pela prestação de um serviço a quantia de 8 euros por cada membro da família, a prestação tinha a ver com a visita do Espírito Santo, ou seja, na Páscoa aparecia o padre acompanhado de gente com opas vermelhas e empunhando pendões, fazia parte do uso e costume oferecer-lhes vinho da Madeira, bolos e broas, pela visita, segundo a circular distribuída pelo correio havia a tabela de 8 euros por cabeça. Não sabemos como acabou a história, seguramente que não teve um final prestigiante.

Sendo madeirense, também vem zurzir sobre o turismo religioso na região, será o caso da beatificação do imperador da Áustria, ali falecido em 1922, Carlos, o herdeiro de Francisco José, refugiou-se na Madeira. “Dizem os seus cronistas que viveu santamente, ajudando os pobres da terra e praticando as obras de misericórdia, assim garantindo a beatificação. O Bispo D. Teodoro de Faria declarou ao Diário de Notícias do Funchal que a beatificação do imperador Carlos de Áustria tem levado ao Monte um maior número de turistas, sublinhou que as igrejas e os túmulos dos santos são locais de evangelização e o turismo religioso é um dos mais impressionantes em números.” Para quê comentários?

E conta-nos também uma história saborosa de um imigrante bem-sucedido que regressou da Venezuela e que oportunamente um padre o nomeou mordomo, o sr. Freitas aceitou, e na missa solene de domingo, com um grupo coral contratado para o efeito e dois rabequistas se esmeraram junto ao altar-mor, o sr. padre pediu uma oração pela saúde deste estimado paroquiano e pela prosperidade dos seus negócios. Alguém bichanou ao ouvido de alguém para saber a que negócio se dedicava o sr. Freitas, e foi rapidamente elucidado que o sr. Freitas era proprietário de um bordel.

Não deixa de zurzir na promiscuidade entre a religião e a política e vem à baila o padre da paróquia do Estreito de Câmara de Lobos, estávamos em 1994. Em pleno púlpito, repentinamente, como se uma ideia brotasse do seu cérebro iluminado por uma língua de fogo, o vigário deixou sair dos seus lábios a frase-chave do inflamado sermão: “Se Deus pudesse votar, votaria no PPD.”

Estamos chegados às conclusões, o autor sublinha que a fragilidade cultural de uma sociedade é a sua permeabilidade ao dolo e ao engano, e a sociedade portuguesa ainda se mantém, em parte, recetiva a trapaceiros e sugestionada pelo bombástico (religioso ou não). E desanca naquela que o autor considera a grande instituição da trapaça, a Igreja Universal do Reino de Deus, pega num folheto que lhe deixaram na caixa de correio, com títulos sugestivos: “Sinta prazer na vida familiar”, “Que esperança há para entes queridos falecidos?”, aqui o folheto garante: felizmente está próximo o dia em que Satanás e o seu bando deixarão de existir! O mundo (inclusive seus governantes demoníacos) está passando, assegura a Bíblia, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre; e há também o título “Pode este mundo sobreviver?”, versa uma infinidade de tragédias, de castigos com terramotos, inundações e pestilências. E o autor lembra as sessões litúrgicas da Universal onde se fazem exorcismos, afinal a Idade Média ainda está ao pé da nossa porta. “Abençoada Igreja, à qual tantos tolos entregam fielmente a dízima, tal como os católicos faziam há mil anos. Funciona melhor que o negócio da Dona Branca. E, aparentemente, nada paga o fisco.” 


                                                                                Mário Beja Santos









 




segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Entre Oriente e Ocidente (15).

 

 

A entrada na Albânia fez-se pela cidade de Shkodra, quinta cidade do país e centro económico do Norte.

É o principal centro católico da Albânia (40 % de católicos) e cidade mártir da ditadura. Aqui foi criado o Museu do Ateísmo em 1967:

 



Só em 1990 foi possível realizar a primeira cerimónia religiosa depois de 30 anos de proibição total.

Hoje, a Igreja de São Francisco é decorada pelas chamadas pinturas anticomunistas da autoria do pintor albanês Pjerin Sheldija

 





Atracção maior da cidade é o Museu Marubi, criado a partir de um estúdio de fotografia fundado pelo italiano Pietro Marubi (1834-1903) e depois continuado pelos seus descendentes.

Uma fotografia de refugiados em 1914, vítimas de deportação numa altura de grandes indefinições nas fronteiras:

 


Enver Hoxha na varanda da Câmara de Shkodra fotografado pelos Marubi e a fotografia adulterada à boa maneira do regime:

 




E outras fotografias de ambiente otomano e depois dos militantes da Resistência:






Fotografias de 17 de Maio de 2022

 

José Liberato


quarta-feira, 20 de julho de 2022

Entre Oriente e Ocidente (5).

 


 

Sarajevo caracteriza-se hoje pela coexistência entre religiões.

Predomina a muçulmana, mas as outras religiões estão também presentes.

A ocupação muçulmana nos Balcãs foi sempre pragmática e muito ardilosa deste ponto de vista.

Quem não era muçulmano pagava impostos muito elevados. Escusado será dizer que este foi um argumento muito convincente para as conversões…

Em muitos locais dos Balcãs, quando chegavam as invasões turcas, os povos das aldeias fugiam para a floresta com o seu pope e os seus ícones, esperando o momento em que o invasor estivesse já longe para regressar. Diz-se que na Valáquia havia umas charretes onde os aldeões deixavam em permanência os bens essenciais nomeadamente os religiosos, o que permitia uma partida muito rápida.

A seguir a principal mesquita construída no Século XVI, a Gazy- Husrevbey, nome do governador otomano da época, a sua madrassa, e a Catedral católica

 








 

Fotografias de 12 de Maio de 2022

 

José Liberato




quarta-feira, 13 de outubro de 2021

São Cristóvão pela Europa (163).

 

 

Termino hoje a minha digressão por terras austríacas ainda no Vale do Rio Gail.

Em Passriach, na Igreja de São Valentim um fresco datado de 1716:

 


Na Igreja de St. Georgen im Gailtal, a curiosidade de haver dois frescos de São Cristóvão na mesma parede:

 


Na Igreja de St. Paul an der Gail, um fresco do primeiro quartel do Século XVI, descoberto em 1992:

 


 

Finalmente em Emmersdorf, na Igreja de São Bartolomeu, um fresco em mau estado:

 



Fotografias de 13 de Agosto de 2021

José Liberato