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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Varna.

 
 















 

         Varna fica na Bulgária e o Monumento de Libertação de Varna fica em Varna. Oferta soviética ao povo búlgaro, ao pior estilo brutalista e betoneiro, o Monumento comemora a Guerra Russo-Turca de 1878. Os antigos monumentos soviéticas na Bulgária têm sido vandalizados e a Rússia de Putin, que gosta dos antigos monumentos soviéticos, já pediu aos búlgaros que parassem com os seus vandalismos.  





        Aquele a quem chamaram «Bansky da Bulgária» teve até o sumo engenho de pintar soldados do Exército Vermelho de Super-Homem e de outras figuras americanizadas. Chamam-lhe «vandalismo artístico», mas é vandalismo tout court e isso está mal feito, mesmo que não se goste do que o Exército Vermelho andou a fazer por aquelas bandas búlgaras. No caso de Varna, o monumento está num péssimo estado de conservação, como o atestam as imagens supra, retiradas daqui. É um belo de um monumento horrível, pelo que deviam mantê-lo e conservá-lo bem. Para todos os efeitos, e como informa o sempre informado Atlas Obscura, este portento de celebração da amizade URSS-Bulgária tem 10.000 toneladas de betão, 1.000 toneladas de ferro e foi erigido graças ao esforço de 27.000 voluntários, que ao fim de 7 meses de suor produziram a beleza que ali se vê.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

It's a wonderful world.

 
 
 


 
Já há uns dias, o El País trazia aqui uma notícia que, se fosse vivo, teria feito a cabeça em água a Erich Honecker. O antigo edifício do Conselho de Estado, a sede do poder da República Democrática Alemã, o lugar onde Fidel Castro e Leónidas Brejnev foram recebidos, o centro onde se tomavam as grandes decisões em nome dos amanhãs que cantam, é hoje, imagine-se, pasme-se, uma business school. Nem mais, nem menos. A ESMT, a escola internacional de gestão de Berlim, ministra cursos em inglês e mandarim (https://www.esmt.org/). Start-ups, empreendedorismo, inovação, todo o jargão estereotipado do capitalismo global substitui agora os clichés do velho comunismo, luta de classes, materialismo dialéctico, meios de produção, infraestruturas e superestruturas e por aí fora.
 
 




 
 
 
Os estudantes circulam frente a um vitral monumental, lindíssimo, da autoria de um dos grandes nomes do realismo socialista, Walter Womacka. No cristal, as figuras de Karl Liebknecht ou Rosa Luxemburgo contemplam, aterradas, os alunos a discutir técnicas de opressão das massas, a fim de ganharem mais massas – para eles e para as suas empresas.
 

 
 
Como se não bastasse, cúmulo da hegemonia do kapital, uma outra notícia que encontrei aqui. Essa, ainda mais espantosa. Em Miami, USA, num mercador de arte, esteve em exposição para venda outro monumental vitral. Desta feita, uma peça que adornava um edifício da Stasi, a sinistra polícia política da Alemanha comunista. Quem visitar a sede da Stasi ou as prisões de Berlim pode ver o nível de sofisticação e requinte a que chegou a barbárie e a desumanidade naquele pedaço da Europa. Quem quiser e tiver paciência pode ler um guia de Berlim-Leste, ou da sua memória, que em tempos publiquei aqui. Um roteiro da Ostalgie. É a nostalgia de Leste – ou da sua arte – que levou à praça, em 2016, por um preço fabuloso, este vitral «A Paz no Mundo», de 1982-83, da autoria de Richard Otfried Wilhelm (entrevista do artista ao NY Times, aqui). Pertencia ao edifício da Stasi e, vá-se lá saber por que voltas, acabou nas mãos de um negociante alemão de arte, Thilo Holzman, que prontamente o despachou para os States, onde terá sido comprador por um coleccionador saudoso do comunismo ou meramente apreciador da vida & obra da figura central da peça, Vladimir Lenine. O mundo é um lugar estranho.
 
António Araújo
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Piccolo mondo?

 
 
 








Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida
 




O meu grande e bom amigo Onésimo – a pessoa mais feliz do mundo – mandou-me ontem, a mim e a um grupo de afortunados, algumas fotografias do Novo México, por onde agora. Juntou, como de costume, um texto seu, descrevendo o lugar. Abusivamente, sem lhe pedir autorização, transcrevo o que nos disse:  
«Santa Fé é uma pequena cidade de menos de 100 mil habitantes, a quarta maior de New Mexico. A população é uma mistura de hispânicos, anglos e ameríndios. A 2 300 metros de altitude, é praticamente uma cidade nas alturas  do pico do Pico. Mas não se nota. Apenas o ar puro e leve o denuncia. Curiosamente, é a segunda mais antiga cidade americana, só que foi espanhola antes de ser gringa. Tradicionalmente um centro de arte ameríndia e hispânica, de repente catapultou-se a um lugar de proeminência no mundo da arte. Para aqui se mudaram artistas de todas as tradições, escolas e gostos e foi um tal abrir galerias e lojas de arte, que por sua vez foram atraindo compradores ricos e, de um momento para o outro, a cidade tornou-se um heaven para a gente do dinheiro que se aproveitou do ar puro, da segurança, da serenidade do ambiente, da ecologia e de tudo  mais para recriar ali uma espécie de El Dorado da nova geração. Não foi por acaso que a UNESCO a escolheu como uma das primeiras Creative Cities. A invasão da gente-bem, ecologicamente consciente (muita dela fugida da Califórnia) transformou o que era um pacato centro cultural numa meca das artes. Basta passearmo-nos pela plaza e arredores para nos apercebermos da vasta quantidade de lojas de arte e galerias. Mas é quando nos metemos a passear ao longo do Canyon Road, a uma milha e pouco do centro, que nos apercebemos dos rios de dinheiro que por estas paragens correm. São umas 250 galerias só ao longo da rua e arredores. Preços exorbitantes a atingirem facilmente os 10 e 20 mil dólares por peça e tudo num ambiente exteriormente muito dentro dos cânones ecológicos e culturalmente tradicionais.
Quem escolheu (ou pôde escolher) mudar-se para a cidade soube o que fazia. São 300 dias de sol por ano em quatro estações demarcadas, quase sempre de ar límpido e leve  e de horizontes largos e revigorantes. A humidade baixíssima.»


 
         Numa das fotografias, encontrei aquilo que aparenta ser (será? não será?) uma recriação, um pastiche, ou que lhe quiserem chamar, de uma escultura histórica, um dos maiores ícones do comunismo. Já falei dela aqui, O Operário e a Camponesa, e da sua autora, a medalhadíssima Vera Mukhina. Esteve no cimo do pavilhão soviético da Exposição de Paris em 1937, enfrentando a águia nazi. E, tendo sido objecto de várias recriações, qual não foi o meu espanto quando a vi, trazida pela mão amiga do Onésimo Teotónio de Almeida, dos confins do Novo México. De uma zona reservada a compradores muito endinheirados, a elite aquisitiva do capitalismo sofisticado, made in America. Pensar que um milionário de Silicon Valley irá colocar no seu relvado uma recriação d’O Operário e a Camponesa é algo que nos deixa perplexos e maravilhados. Intrigados, sobretudo. A estátua do Novo México não é exactamente igual à que se encontra em Moscovo. Mas parecenças não faltam... será, não será?
 

Vera Mukhina
O Operário e a Camponesa

 
        Piccolo mondo. Mais uma, entre tantas, que fico a dever ao Onésimo, a quem faço esta surpresa, com um abraço grato e amigo,
 
 
António Araújo



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Daqui ninguém sai vivo.

 
 
 
Kim Song Sil, Cesta de Flores Kim Jong Il.
Bordado, 64 x 80 cm, 2003.
Oficinas Mansudae
 
 
 
 
 
 
Esta história entala muita gente.
Em Frankfurt, no nº 29 da Kaiserstrabe, situa-se o imponente edifício-sede do Banco Central Europeu. Quem quiser ir de metro, deve apear-se na estação Willy-Brandt Platz. É aí o coração do poder financeiro do Velho Continente, de uma Europa que se compraz na afirmação de «valores» e «princípios»: a liberdade, a democracia, o respeito pelos direitos humanos.
 
 
O edifício-sede do Banco Central Europeu, Frankfurt
 
 
A poucos metros da Kaiserstrabe, mesmo ao virar da esquina, existe uma zona arborizada, um pequeno jardim entre as torres frias de vidro e aço. Depois, numa praceta despida, uma fonte com uma estátua. Märchenbrunnen ou, se quisermos, «Fonte dos Contos de Fadas». Em Berlim existe outra «Fonte dos Contos de Fadas», da autoria de Ludwig Hoffmann (1852-1932), um dos mais famosos arquitectos da cidade (entre centenas de outras obras, desenhou, em co-autoria com Alfred Messel, o edifício destinado a albergar o esmagador Museu Pérgamo). Nas suas Memórias, Hoffmann conta a atribulada história da construção da Fonte dos Contos de Fadas, concebida para adornar o primeiro jardim público de Berlim, o Volkspark Friedrichshain. Muitas das obras de Hoffmann não chegaram a ser construídas devido ao eclodir da Guerra de 1914-18, outras foram devastadas durante a guerra de 1939-45. Os dois lados da Europa: um, majestoso e apolíneo, marcando o traço historicista de Ludwig Hoffmann; outro, furioso e dionisíaco, arrasando as obras criadas no seu ateliê.
         A Fonte dos Contos de Fadas de Frankfurt foi desenhada por um autor menos famoso, Friedrich Christoph Hausman (1860-1936). A estátua art-nouveau é encimada pela figura de uma jovem graciosa e frágil, que, segundo dizem alguns guias turísticos, representa a bela filha de um padeiro de Frankfurt. O modelo terá sido uma rapariga de 19 anos, lavadeira de profissão, de seu nome Margaret Endres, que mais tarde casou com o músico Edward Gelbart. A estátua foi construída graças ao generoso e vultuoso financiamento de um fundo instituído pelo mecenas Leo Gans (1843-1935), e destinado a apoiar as artes e a cultura. Nesse gesto ecoa a presença da Europa civilizada e culta. O mundo de ontem. A Fonte das Fadas foi inaugurada em Agosto de 1910, mas teve vida curta. As figuras de bronze que se encontravam na sua base foram derretidas durante a 2ª Guerra, para apoiar o esforço belicista germânico. Salvou-se a ninfa, esculpida em mármore branco do Tirol, mas, ao que sei, também ela se perdeu nos escombros do pós-guerra.    
 
 
Frankfurt, Märchenbrunnen, imagens dos anos 1910-20
 
 
 
         Em Maio de 2006, a estátua foi reinaugurada, na sua versão au complet, com uma nova figura feminina no topo e a base contendo representações de lagartos, crocodilos e crianças, entre outras feras. Agora, daqui para a frente só há dragões. Em Novembro de 2005, dois alemães viajaram até Pyongyang. A sua missão não era tratar dos direitos humanos ou do programa nuclear da Coreia do Norte. Voaram até à Coreia para contactar os responsáveis da Oficina Artística Mansudae (tradução algo bárbara de Mansudae Arts Studio). A Fonte das Fadas fora totalmente destruída e os seus planos originais não constavam dos arquivos municipais de Frankfurt. Havia que reconstruir o monumento apenas com base em fotografias dos anos 20. A cidade de Frankfurt queria a sua estátua reedificada – e exibida com esplendor «antigo» nas imediações do Banco Central Europeu. A Europa tinha liberalizado os movimentos de capitais em 1990, introduzido o euro em 1999. Nesse mesmo ano de 1999, entrara em vigor o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Decidiu-se que o Banco Central Europeu teria a sua sede em Frankfurt. E assim se fez. Já agora: está a ser finalizado, ou já foi mesmo inaugurado, o novo edifício-sede do Banco Central Europeu, da traça do arquitecto austríaco Wolf Dieter Prix (visita virtual aqui). Duas torres, com 165 e 185 metros de altura, respectivamente, equivalendo a 48 pisos cada uma. As torres da nova sede do BCE estão ligadas por um jardim suspenso e serão decoradas por esculturas de artistas dos vários Estados-membros da União (os resultados do concurso internacional irão ser anunciados já neste Outono). Custo da obra: mil milhões de euros, mais coisa menos coisa. Num momento em que a Europa atravessa uma crise como a que vivemos, é estranho construir algo que custa mil milhões de euros. Mas, como bem sabeis, são insondáveis os desígnios desta União.
 
Wolf Dieter Prix, Nova sede do Banco Central Europeu, Frankfurt
 
 
 
 
         Insondáveis foram também os motivos que levaram os alemães a recorrer à Coreia do Norte para reconstruir uma estátua. E logo ali, no coração da cidade, a poucos metros da sede Banco Central Europeu, perto da estação de metro com o nome de Willy Brandt. A Östpolitik de Brandt, concorde-se ou não com ela, visava uma abertura ao Leste, buscando a paz e a segurança europeias, em nome da democracia e dos direitos humanos. A Östpolitik das autoridades de Frankfurt, ao contratarem os escultores norte-coreanos, não visa nada de nada. Apenas visou obter uma estátua ao melhor preço e por quem se especializou em intervenções artísticas monumentais, ao serviço de uma das mais cruéis ditaduras do planeta. Por esses anos, em 2005-2006, a Coreia do Norte esteve presente na Feira do Livro de Frankfurt. Falava-se então na necessidade de chamar a Coreia do Norte, que tem um feitio terrível, ao convívio ameno dos povos democráticos. Daí o álibi para lhes encomendar a estátua. Passaram quase dez anos, não se viu nada. Mudanças, só para pior. E a estátua permanece lá, no centro de Frankfurt, feita pelos artistas da Mansudae.
 
 
Märchenbrunnen, na versão actual, nas imediações do BCE
 
 
Oficinas Mansudae, o modelo de crocodilo para a estátua de Frankfurt...
 
 
 
 
         Sendo, muito provavelmente, a maior fábrica de objectos artísticos do mundo, com um belo site em inglês e tudo (http://www.myinweb.com/mansudae/), a Mansudae emprega cerca de 4.000 pessoas. É a única instituição autorizada a fazer retratos da dinastia Kim, que depois são reproduzidos ad nauseam. Tem trabalhado e feito monos horríveis para glória dos regimes mais corruptos e autocráticos desta Terra, actuando especialmente em África, como já veremos. O director do Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, Klaus Klemp, descobriu a Mansudae em 2004. Ficou maravilhado. Justifica a decisão de contratar a empresa norte-coreana com o argumento inacreditável de que na Europa já ninguém consegue produzir arte realista. Afirma que a atracção pela arte conceptual e abstracta tirou aos escultores europeus – e de todos os países do mundo, que não os norte-coreanos… – a capacidade de reconstruir a estatuária fin-de-siècle. «Os artistas mais proeminentes da Alemanha pura e simplesmente já não fazem trabalhos realistas. Pelo contrário, os norte-coreanos têm apurado a sua experiência neste estilo, exactamente aquele que queríamos para refazer uma escultura de 1900», teve o desplante de afirmar o director do Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt (aqui). No fundo, como se a opção fosse apenas escolher entre a Alemanha e a Coreia do Norte. Ou como se a «experiência» adquirida pelos norte-coreanos na arte realista não o tenha sido à conta de fazerem centenas de estátuas representando Kim Il Sung, Kim Jong Il, Kim Jong Un. «Tratou-se de uma decisão puramente técnica», disse Klaus Klemp. Não, não foi. Contratar uma fábrica como a Mansudae é uma decisão política. Porquê? Porque a Mansudae é uma fábrica política. Falta falar do essencial, o preço. A Mansudae fez o trabalhinho todo por 200 mil euros, incluindo shipping and handling de Pyongyang até Francoforte-sobre-o-Meno. Dizer que o preço se deve aos salários miseráveis da Coreia do Norte é algo que certamente não interessará recordar aos alemães que contrataram a Mansudae. Como se refere aqui, na Coreia do Norte o salário médio é de 50 cêntimos por mês. O salário mensal dá para comprar dois quilos de arroz, nada mais. Nas imediações do Banco Central Europeu, o baluarte da moeda única e das suas promessas de prosperidade, encontramos uma estátua feita por pessoas que nem uma moeda de euro ganham num mês inteiro de trabalho. Provavelmente, os cerca de 1.000 artistas profissionais que trabalham na Mansudae ganham mais do que isso. Mas essa desigualdade não favorece a atitude dos alemães; pelo contrário, torna-a ainda mais abjecta e vil.   
         Há uma coisa, porém, em que temos de concordar com os alemães de Frankfurt: os Estúdios Mansudae são únicos no mundo. A este propósito, recomendo muito a leitura de um livro, Art Under Control in North Korea, da autoria de Jane Portal. Obra profusamente ilustrada, de leitura fácil e, para mais, não excessivamente volumosa (não chega às 200 páginas, entre texto e abundantes imagens). A Mansudae é frequentemente mencionada, quase em todas as páginas. Pela leitura do livro, percebemos a dimensão do seu poder. A estátua monumental de Kim Il Sung, que se ergue nos arredores de Pyongyang, com vinte metros de altura – e perante a qual os norte-coreanos são «aconselhados» a fazer uma vénia e dobrar a espinha –, foi feita pela Mansudae. E, já que falamos nela, foi feita com pouco profissionalismo: datada de 1982, era de bronze, posteriormente substituído quando começou a acusar as marcas da corrosão do tempo, algo inconcebível para a representação de um Padre Eterno. Também de 1982, e pelas mãos da Mansudae, a Torre Juche, na capital norte-coreana. Com 170 metros, é a maior torre de pedra do mundo. No cimo, uma chama ou tocha que acende pela luz eléctrica, simbolizando o poder incandescente do pensamento juche, também ele bastante electrizante. Mais antiga, mas também em grande, a Estátua de Cholima. 46 metros de altura, bronze, datada de 1961.
 
Monumento a Kim Il Sung, Pyongyang.
Oficinas Mansudae 
 
Torre Juche, Pyongyang.
Oficinas Mansudae
 
O Líder, em visita à Mansudae



 
         Existem outras oficinas artísticas na Coreia do Norte, todas sob apertado controlo estatal, mas a maior de todas – de longe – é a Mansudae, de seu nome completo Mansudae Changjaska. Fundada em 1959, esteve sempre sob controlo directo dos sucessivos membros do clã Kim, que acompanham pessoalmente, repete-se, o que por ali se faz. Os campos de acção são vários e divididos em dez departamentos: pintura a tinta, pintura a óleo, escultura, impressão e cartazes, pintura mural, cerâmica, manufactura, desenho e design. Além disso, uma especialidade local: pintura com pó de pedra. Cerca de 100 membros da Mansudae receberam o título de «Artista de Mérito». Na Coreia, essa distinção foi atribuída a 200 artistas, o que significa, portanto, que a Mansudae arrecada 50% dos títulos. Existem cerca de 50 a 60 «Artistas do Povo», dos quais 30 integram os quadros de pessoal da Mansudae. Por ano, a Mansudae produz aproximadamente 4.000 obras, das quais cerca de metade resultam de encomendas oficiais. Algumas são vendidas para o exterior, através do Mansudae Overseas Project, com clientela no Japão, na Coreia do Sul e na China. A Alemanha juntou-se ao clube em 2005, mas também há africanos – muitos. Já vamos falar deles. Antes disso, só um breve apontamento sobre Chung Young-man. Considerado um dos maiores calígrafos e pintores a tinta da Coreia do Norte, foi secretário-geral do comité central da Federação dos Artistas Coreanos. Recebeu o título de «Artista de Mérito» em 1974 e o Prémio Kim Il Sung em 1989, sendo elevado à categoria de Herói em 1991 e, como se não bastasse, de Duplo Herói, em 1997. Faleceu em 1999. E era vice-presidente da Mansudae, claro está. Agora vamos a África.   
         Em Dacar, no Senegal, ergue-se o piramidal Monumento da Renascença Africana. Comecemos por este fantástico vídeo:
 
 
 

 
 
 
Inaugurado em 2010 e com 49 metros de altura, é mais alto do que a Estátua da Liberdade ou que o Cristo Redentor. Aliás, é a mais alta estátua do mundo fora da Ásia e da ex-URSS. A sua monumentalidade decorre não apenas da dimensão do objecto; para ela contribui ainda o facto de estar pousada numa colina de 100 metros de altura, no subúrbio de Ouakam. Representa em bronze uma família africana ao melhor estilo do realismo socialista. A criança ergue a mão na direcção do Atlântico. O desenho é do escultor romeno Virgil Magherusan, que começou a carreira a trabalhar para os artistas que estavam ao serviço de Ceaucescu e mais tarde se celebrizou pelas suas esculturas de cavalos e soldados, bem como por incursões ousadas em temáticas eróticas. O projecto de obra coube ao arquitecto senegalês Pierre Goudiaby Atepa, autor da horrenda Porte du Troisième millénaire, em Dacar, que por pudor nos abstemos de exibir ao público. Pierre Atepa dirigiu a Ordem dos Arquitectos do Senegal, foi designado conselheiro especial do Presidente Abdoulaye Wade em matéria de arquitectura. Convém referir que em matéria de arquitectura Pierre Atepa é um artista a valer: proclamou arquitecto da sede da Banque centrale des États de l’Afrique de l’Ouest, mas na barra dos tribunais o seu colega Cheik Ngom conseguiu provar ter sido o verdadeiro autor do projecto. Nada disso impediu Pierre Atepa de abrir ateliers na Gâmbia, na Guiné Bissau, no Mali, no Togo, na Mauritânia, no Chade, no Burkina Faso, como não o impediu de ser eleito presidente da União dos Arquitectos de África. Aliás, é membro da Academia Internacional de Arquitectura. Em 2006, abriu um centro com o seu nome («Espace Atepa»), nos Campos Elísios, Paris. E, em 2010, uma sucursal em Pequim. Na sua terra natal, nos tempos do Presidente Abdoulaye Wade, os colegas chamavam-lhe «artista oficial do Rei Sol». Invejosos.
 
O arquitecto: Pierre Atepa.
 
 
Como se disse, a monumental estátua de Dacar foi construída pela Mansudae. Trabalharam nela cerca de 150 artistas norte-coreanos, sendo uma obra pessoal do antigo Presidente senegalês, Abdoulaye Wade, cuja biografia é riquíssima de pormenores sórdidos e escabrosos, envolvendo até acusações de homicídio do vice-presidente do Conselho Constitucional. Na versão francesa da Wikipedia, afirma-se que, após concluir estudos superiores, entre 1952 e 1953 obteve «diversos certificados em várias faculdades da Universidade de Besançon» (aqui). 
 
O Presidente: Abdoulaye Wade.
 
Oficialmente, diz-se que o Monumento da Renascença Africana custou cerca de 25 a 27 milhões de dólares. Fontes credíveis apontam, todavia, para um custo total de 70 milhões. Os trabalhos começaram em 2002, a construção em 2008, prevendo-se terminar em 2009. Atrasou-se. Só esteve pronta em 2010, sendo inaugurada a 4 de Abril desse ano, em comemoração do 50º aniversário da independência do Senegal, numa cerimónia que contou com a presença de 19 chefes de Estado africanos. Além deles, altos funcionários da Coreia do Norte e uma delegação afro-americana chefiada pelo reverendo Jesse Jackson. Enquanto isso, nas ruas de Dacar eclodiam manifestações exibindo «estátuas», em protesto contra a realização de uma obra desta envergadura num país pobre, flagelado pelo desemprego e pela miséria. Nos tempos de Wade, que abandonou a Presidência em 2012, a percentagem de senegaleses em situação de pobreza atingiu os 54%, com uma inflação galopante. A ajuda internacional representava 10% do PIB senegalês. Terá servido essa ajuda internacional para financiar as dezenas de milhões de dólares que custou o Monumento da Renascença Africana? Perguntas sem resposta. Mas não se pode pôr em causa que tudo isto é muitíssimo ilustrativo da corrupção e nepotismo que grassam em vários Estados africanos. E da rapina neocolonial a que são sujeitos por potências estrangeiras, muitas vindas da Ásia. Tudo ocorre com a cumplicidade das elites locais, que encontraram uma nova forma de colonialismo: colonializaram os seus próprios países, capturando-os, e aos seus recursos, em benefício pessoal e das cliques que alimentam. Veja-se o caso do monumento que, por ironia, se chama da «renascença africana». Edificado por um Presidente que quis chamar a si uma parcela dos lucros de exploração, projectado por um arquitecto que era seu apaniguado. Contratado aos norte-coreanos, custando milhões num país em que a população vive miseravelmente. Diz-se que a Coreia do Norte, em vez de dinheiro, recebeu terras em troca, hectares a perder de vista.
 

 


 
A figura feminina, vista a partir da cabeça da figura masculina. O inconfundível estilo Mansudae.
 
Dacar, Senegal, Monumento da Renascença Africana
 
 
Reivindicando ter sido uma ideia sua, o Presidente Wade reclamou para si uma percentagem de 35% do valor total da obra (outras fontes referem que reclamou, isso sim, uma percentagem do preço dos bilhetes de entrada). A obra provocou controvérsia desde o início. Apresentada como uma evocação da ideia de renascença africana, conceito com um longo historial, despertou o repúdio dos sindicatos senegaleses, que se queixaram de uma empreitada destas proporções estar a ser feita por estrangeiros numa época em que a taxa de desemprego no país era de 50%. Abdoulaye Wade defendeu-se: «Só os norte-coreanos seriam capazes de fazer a minha estátua. Eu não tinha dinheiro» (itálico acrescentado). Usou, no fundo, os mesmíssimos argumentos utilizados pelo director do Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt para justificar um facto inédito: a Alemanha é o único país democrático do mundo a ter contratado os serviços da Mansudae. Para reconstruir uma estátua perto da sede do Banco Central Europeu. Sempre a lógica do think big: nova sede do BCE com custo de mil milhões de euros, estátuas com mais de cem metros de altura, uma fábrica norte-coreana cujas instalações ocupam uma área equivalente a 22 estádios de futebol. Já agora, outros números grandes: segundo as Nações Unidas, 30% das crianças norte-coreanas sofrem de malnutrição; no ano em que se celebrou o 100º aniversário do nascimento de Kim Il Sung, 44,8% de todo o Orçamento do Estado foi destinado a erigir monumentos à sua memória. Também há think small: o salário médio de um norte-coreano são 50 cêntimos/mês, como vimos. 
         A clientela da Mansudae inclui países como a Argélia, Angola, o Benim, o Camboja, o Chade, a República Democrática do Congo, o Egipto, a Guiné Equatorial, a Etiópia, a Malásia, Moçambique, Madagáscar, Namíbia, Senegal, Síria, Togo e Zimbabwe. Por ano, a Mansudae International movimenta algo como 160 milhões de dólares, de acordo com uma estimativa de 2011 (aqui). O trabalho feito resume-se numa palavra: horrível. A fábrica ostenta nas suas paredes os dizeres: «Quando o Partido dá ordens, nós executamos!». É verdade. Os artistas da Mansudae, petrificados há décadas no realismo socialista em versão baratucha e made in China, são incapazes de fugir das normas e das convenções. Quando os alemães que contrataram a Mansudae viram os primeiros esboços ficaram horrorizados com o aspecto anguloso e sem vida da estatuária, tendo de explicar que o realismo socialista não estava muito em voga em Frankfurt e que era necessário suavizar um pouco a rigidez das linhas. «Foram muito compreensivos» − diz, justificando-se, Philipp Sturm, o homem que em 2005 acompanhou Klaus Klemp na fatídica viagem a Pyongyang.
         Também o Presidente senegalês ficou horrorizado quando viu as primeiras versões da «sua» estátua monumental, com uma família africana de aparência oriental (que ainda mantém, aliás). No país, os muçulmanos reprovaram a nudez dos corpos musculados. Nas mesquitas, os imãs emitiram uma fatwa implorando a Alá que o país não fosse castigado por ter construído uma estátua tão obscena, contrária aos mandamentos do Profeta. Por sua vez, o Presidente Wade (que aos 83 anos anunciara candidatar-se a um novo mandato…) teve de pedir desculpas à minoria cristã, por, numa entrevista, ter comparado a estátua a Jesus Cristo. O arcebispo de Dacar disse sentir-se «humilhado» pelas palavras presidenciais. Os movimentos feministas senegaleses protestaram pela aparência submissa da mulher. Mas, como disse à Reuters um senador senegalês, a arte, a grande arte, é sempre polémica: «Todos os grandes trabalhos arquitectónicos suscitaram controvérsia – vejam a Torre Eiffel, em Paris». Por seu turno, o Ministro da Cultura senegalês, Mamadou  Bousso Léye, iria mais longe. Asseverou que o Monumento estava tão bem edificado (no cimo de uma colina vulcânica…) que se esperava vir a ter uma duração de 1200 anos. Nem mais, nem menos.
 
         Construída para honrar a Renascença Africana, a soviética Sagrada Família de Dacar é bem uma síntese da África do nosso tempo, em que a pobreza de milhões convive com os milhões de muito poucos. Dos muito poucos que, para sua glória, encomendam trabalhos e projectos à Mansudae:   
 
 

 
        
 
A presença da Mansudae tem sido alvo de polémica em vários países africanos. No Botswana, os artistas locais protestaram quando em 2004 foi celebrado um contrato de um milhão de dólares com os norte-coreanos. Mas a obra já está feita, o Monumento dos Três Chefes (ou Monumento dos Três Dikgosi), homenageando, como o próprio nome indica, três históricos chefes tribais.
 
 
Botswana, Monumento dos Três Chefes
 
 
Em Angola, na capital, o Memorial Agostinho Neto, um grotesco míssil de betão armado, parece que teve a mão da Mansudae, segundo se diz aqui. Mas julgo que se está a falar do Centro Cultural Dr. Agostinho Neto em Catete, no Bengo, onde a marca da Mansiudae é inconfundível. Também o Monumento à Paz, na Praça Lenine, em Luena, parece ter dedo norte-coreano. Foi inaugurado por José Eduardo dos Santos em Abril de 2012 (aqui). De igual modo, o Monumento aos Heróis do 4 de Fevereiro, em Luanda, revela sinais do estilo do realismo socialista, mas não encontro registo de que tenha sido feito pela Mansudae.
 
Angola, Luanda, Memorial Agostinho Neto
 
Angola, Bengo, Centro Cultural Dr. António Agostinho Neto
 
Angola, Bengo, Centro Cultural Dr. António Agostinho Neto
 
 
Angola, Luena, Monumento à Paz
 
Angola, Luena,  Monumento à Paz
 
 
Por terras de África, poderíamos ainda falar da estátua a Kabila ou do palácio presidencial na Namíbia. Mencionemos por ora a estátua a Samora Machel, em Maputo, inaugurada em 2011, no 25º aniversário da sua morte.
 
 
 

Moçambique, Maputo, Monumento a Samora Machel
 
 
O Zimbabwe contratou a Mansudae para fazer duas estátuas de Joshua Nkomo. A família deste, quando viu a obra, nem queria acreditar (a estátua teve de ser refeita, o que, como vimos, acontece muito com os trabalhos da Mansudae). Erguer monumentos a Nkomo foi considerado uma afronta para quem se recorda que, nos anos 80, milhares de cidadãos do Zimbabwe foram massacrados e houve violações em massa de mulheres por parte das tropas governamentais treinadas… na Coreia do Norte.
         A Mansudae continua a operar no mundo, em parte graças à intermediação de Pier Luigi Cecioni, um antigo chefe de orquestra que agora se move à larga nos meandros da indústria artística internacional. Naveguei um pouco na página da Mansudae, não sendo difícil descobrir maravilhas. Neste ano de 2014, foi publicado um catálogo, penso que de uma exposição, com o título propagandístico North Korea: a Unique History. Publicado em inglês, coreano e italiano, recolhe o trabalho de 210 artistas da Coreia do Norte. O curador da mostra foi, naturalmente, Pier Luigi Cecioni. E quem foi o director do projecto? Luciano Benetton. Exactamente, o criador da companhia que fabrica as camisolas que, possivelmente, alguns dos que lerem este texto estarão a vestir neste momento. Os textos do livro são da autoria de Pier Luigi Cecioni, de Eugenio Cecioni (coincidência de apelidos?) e de Luciano Benetton. Ah, também de Yang Byong Su, da Mansudae. Luciano Benetton. Como disse no início, esta história entala muita gente.  
 

Luciano Benetton
 
A Mansudae não actua apenas na órbita do realismo socialista. É também líder na contrafacção e no pastiche. Paisagens holandesas, vistas de Montmartre, pinturas venezianas, tudo se produz em Pyongyang. É o próprio Klemp que o diz: «se comprar um quadro nas margens do Sena, é muito possível que tenha sido pintado na Coreia do Norte». Palavras do director do Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, do homem que contratou os serviços da Mansudae.
 
Uma amostra da produção clássica Mansudae
 
 
         Para evitar excessos de orientalismo, os alemães apresentaram aos artistas da Mansudae modelos e fotografias de crianças com aparência caucasiana, talvez mesmo ariana. «Para que o produto não fosse demasiado coreano», diz Klemp. Terminada a obra, foi transportada para a China, da China para Hamburgo e daí levada para Frankfurt. «Ficámos muito satisfeitos com o trabalho», diz Klemp. «Tudo foi feito dentro dos prazos e todas as pessoas com quem trabalhámos eram excepcionalmente profissionais. Para mim, o mais interessante foi a normalidade com que tudo foi feito». A normalidade com que tudo foi feito. Isso é, de facto, o mais interessante de toda esta história. Uma história que entala muita gente.  Daqui ninguém sai vivo.  
 
António Araújo    




Protestos em Dacar contra a construção
do Monumento à Renascença Africana

Märchenbrunnen, Frankfurt,
anos 1910-20