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segunda-feira, 3 de abril de 2023

Des (Crucificações)

 



No decurso do II Encontro da Associação Portuguesa de Prevenção do Alcoolismo, foi abordado o tema “O Álcool na Literatura _ O Escritor e a Obra” que incluiu uma homenagem a Natália Correia, para a qual me pediram colaboração. Escolhi nessa ocasião dar um testemunho sobre algumas dimensões menos visíveis da personalidade desta escritora que me impressionaram e tocaram duma forma especial (por ter sido sua amiga e por ter privado com ela) e poderão ajudar a compreendê-la um pouco melhor.

 

Se um talento esplendoroso, uma inteligência luminosa e um magnífico sentido de auto-encenação foram responsáveis pela incendiada admiração que tantos de nós sentimos por Natália Correia, a pose majestática, tonitruante e por vezes feroz, assustaram outros tantos; mas apenas um olhar disponível e sem preconceitos podia dar-se conta, ao arrepio dos lugares comuns que sempre se foram dizendo a seu respeito, do absoluto desamparo e da total fragilidade deste ser excessivamente complexo e paradoxal.

 

A quem se deixava impregnar pelo carisma desta mulher extraordinária, não podia deixar de surpreender o intenso curto-circuito que a sua personalidade exprimia pela mistura do esplendor com o arcaico, ou como ela própria disse em “Madona”, referindo-se a uma personagem, podíamos senti-la como se estivesse “...misticamente ligada a uma religião onde as forças extremas, o sórdido e o sublime se fundiam numa única e inominável divindade... Não havia qualquer duplicidade moral nesta sua forma de tocar os dois pólos da alma. Dir-se-ia que o seu espírito tinha um perpétuo movimento circular que incessantemente abrangia o superior e o inferior” (p. 41)

 

Esta complexidade e estes contrastes foram desde sempre para mim um poderosíssimo apelo à decifração. Tentar esclarecer alguns equívocos que envolveram a figura e a vida de Natália Correia é um tributo de quantos a conheceram e amaram.

 

O primeiro equívoco é sugerido pela associação da Natália à problemática do alcoolismo. Já por altura da sua morte houve quem, nunca a tendo conhecido, comentasse terem sido o álcool e o tabaco a vitimá-la. Nada mais injusto.

 

É verdade que Natália frequentava um bar regularmente, animando noite após noite tertúlias e convívios; defendeu exaltadamente marginalidades e marginais; celebrou com álcool festas e encontros; e abominou em discursos excessivos todas as formas de puritanismo. Tratava-se duma postura intelectual, uma atitude romântica, insubmissa e desafiadora, que partilhava desde a juventude com os surrealistas, de quem foi amiga, companheira de muitos percursos e em alguns casos musa inspiradora.

 

No entanto bebia muito moderadamente, apenas em situações sociais, e afirmava mesmo nunca se ter excedido. Quando deixou de beber e fumar por conselho médico, nunca a ouvi queixar-se por lhe sentir a falta; apenas sofria por ter perdido a saúde que lhe permitira no passado beber e fumar.

 

Aquilo que de mais subterrâneo a terá impelido para certos ambientes, sugeriu-o em “Madona”, a propósito de bares e do cortejo de seres bizarros que sempre lhes estão associados: “Perante essa inquietante sociedade de seres oníricos [Miguel], dava-me a impressão de um coleccionador de coisas fantásticas nas quais fazia entrar a tragédia afogada em risos desses palhaços da comédia dos sexos” (p. 84). Ou: “... Mas o que ele procurava era uma forma... de nadar naquele mar de naufragados, o único elemento que lhe permitia a sensação de se agitar e de se achar vivo no pulsar dessa agitação” (p.55). Ou ainda: “É no meio desses infelizes que eu me posso sentir um ser humano” (p.178).

 

Outro equívoco terrível que crucificou Natália Correia em vida diz respeito à lenda de “mulher fatal”, “vamp”, “devoradora de homens” (ou nem só), tecida através de inúmeras histórias e enredos, qual deles mais descabelado, com que mistificaram a sua vida amorosa. Este equívoco partilhou-o com outras mulheres de gerações próximas da sua. Grandes actrizes que ajudaram a criar e difundir o mito da “mulher fatal” surgem-nos hoje em dia, através de biografias póstumas (Garbo, Marlene, Marilyn, etc.), como vítimas destroçadas pelas armadilhas a que deram rosto, e revelam-se-nos mulheres imaturas, sexualmente inibidas, com vidas amorosas precárias e infelizes. Esta verdadeira patologia da feminilidade não parece encontrar-se nas gerações com menos de 60 anos. O cinema continua a promover imagens de mulheres belas e sensuais, mas distantes da “mulher fatal” dos anos 50. Sucessivas revoluções sexuais fizeram aparecer novas expressões para a mesma patologia da feminilidade, e ironicamente os herdeiros actuais destas “femmes fatales” dos idos 50 parecem ser certos travestis do “show business”.

 

Natália Correia contribuiu para este equívoco que se lhe colou à pele e à vida: foi uma mulher muito bela e uma sedutora compulsiva, uma “allumeuse”. Com as suas ideias libertárias e atitudes desafiadoras demoliu publicamente muitos tabus, sexuais incluídos, ajudando a criar uma imagem com que viria a ser perversamente agredida.

 

Era por isso totalmente inesperado darmo-nos conta, ao privar com ela, de quanto a sua vida e os valores pelos quais pautava o seu comportamento contradiziam esta ousada encenação intelectual. Confessava repetidamente, a pessoas quase sempre incrédulas, que se considerava uma mulher sexualmente inexperiente, inapetente e inapta. Emitia juízos de valor a respeito de comportamentos de pessoas que lhe eram próximas, que mais do que conservadores, chegavam a ser reaccionariamente puritanos.

 

Mas ela própria afirmou: “A minha ousadia era puramente intelectual, ou seja, a cobardia de viver” (“Madona”, p. 165). Ou: “...A poesia é o défice das nossas inibições. Viver poeticamente é viver as coisas em potência.” (Ibid., p. 154). Ou ainda: “... Fazer poemas enquanto se mata/ durante a cópula quando faminto/ esses nunca os vi fazer// A poesia é sempre em vez / mênstruo da alma uma vez por mês/ sangrenta flor abortada/ da natureza infecunda” (“Poema Sáfaro”, in “O Vinho e a Lira”).

 

Perante a perplexidade de quantos a procuravam compreender, tornava-se claro que não se tratava de fingimento: não havia uma Natália actriz “vs. “ a pessoa; a figura pública “vs.” a existência privada; a máscara “vs.” o rosto. Ao contrário, estávamos sempre dentro do mesmo cenário, barroco, que ora nos aparecia pelo direito, ora pelo avesso, numa constante reversibilidade dos contrários.

 

Um dia contou-me que, quando criança, ainda nos Açores, vira num filme bíblico cristãos a serem devorados por leões num circo romano, e imediatamente tomara o partido dos leões. Nesta frase extraordinária, Natália Correia condensou toda a sua tragédia narcísica: ela foi sempre a vítima, condenada implacavelmente a ser comida pelo leão – em que ela própria se tornava para poder sobreviver. Cristão devorado e leão devorador, Natália Correia cumpriu este destino em vida e obra. Vítima sacrificial desde sempre crucificada na sua tragédia interior, o que a compeliu a trabalhar obsessivamente, e magnificamente, o tema da descrucificação.

 

Esta primordial crucificação (tão dilaceradamente exposta em “Uma Estátua Para Herodes”) dum ser que simultaneamente irrompia com uma energia anímica assombrosa (Henry Miller chamou-lhe “uma força da natureza”) pertencia ao que em Natália Correia permanecia um enigma em busca de decifração. Sensíveis à carga mítica que desde sempre a envolveu, podíamos ao mesmo tempo adivinhar a criança dependente, humilhada e culpabilizada que também foi. Com a sua admirável vitalidade “deu a volta por cima”, sem no entanto se soltar do fio da navalha onde sempre se equilibrou pela criação e fantasia que fizeram dela a genial fabricante de sonhos que conhecemos.   

 

A devoção e admiração que procurava permanentemente obter à sua volta, foram a forma sublime com que recusou submeter-se à sua aflita dependência, que noutros planos sentiu com um desmesurado embaraço. A vergonha e humilhação transfigurou-as em magnífica arrogância com que golpeava implacavelmente quantos ameaçavam apequená-la. A terrível culpabilidade em que se consumia converteu-se em desafio e provocação com que “levantava as saias a essa podridão vestida de marido, de pai, de sacerdote” (“Madona, p. 36).

 

Neste precário equilíbrio entre dependência e necessidade de ser admirada, humilhação e arrogância ou mesmo culpa e desafio, Natália cumpriu-se excessiva e exuberante em cada um destes pólos antitéticos.

 

Alquimicando esta humaníssima dilaceração, o seu extraordinário talento marcou-lhe encontro com as próximas gerações, quando a sua vastíssima obra for conhecida, compreendida, apreciada e ocupar o lugar cimeiro que lhe pertence no panorama cultural do nosso século. O futuro deixar-se-á impregnar pela genialidade fulgurante das suas dádivas maiores: “...E à branca praia nos leva a onda materna/ Porque os deuses aí não são longínquos./ Têm seus tronos onde nos esperam/ Imutáveis os mitos” (in “O Armistício”).

 

É lá que a Natália Correia nos espera.          

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Correia, N. (1968). Madona Lisboa, Editorial Presença

Correia, N. O Vinho e a Lira. Lisboa, edições «Afrodite»

Correia, N. (1974). Uma Estátua Para Herodes. Lisboa, Arcádia

Correia, N. (1985). O Armistício Lisboa, Publicações D. Quixote


Manuela Gonçalves dos Santos

Psicóloga Clínica | Grupanalista 







segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A Celebração da Vida pela Elevação da Morte.





A Celebração da Vida pela Elevação da Morte


          Por Pedro Strecht, Médico Pedopsiquiatra



 

          Pela primeira vez, desde sempre na história conhecida das nações, muitos de nós não vamos poder estar junto dos que nos são mais queridos e já partiram. Por razões preventivas de saúde física, sacrificando novamente as de ordem psíquica e social (contidas na definição da OMS), a circulação entre concelhos será proibida nas datas em que anualmente muitos se organizam nos necessários rituais do luto necessário em volta da perda e da morte, para que justamente a vida possa continuar a ter o seu sentido mais profundo: que há para além de mim? Que existe depois desta existência?


          Por isso, relembro nesta ocasião pequenos pontos-chave que parecem cada vez mais omissos numa sociedade que há muito se afastou da noção da doença, lida mal com a presença da morte e faz da vida uma corrida de contínua corrida e falsa infalibilidade. Todos somos mortais. Todos precisamos de, ao longo da vida, ir organizando suficientemente bem esse conceito, na relação connosco próprios e com a noção de presença ou ausência física e emocional dos outros.

1.    A negação da morte é um imenso ataque à noção de vida.

2.    O que torna o homem consciente de si mesmo e do outro é a percepção da finitude: a omnipresente angústia de morte, incluindo as suas variações minor de separação e perda

3.    As pessoas e as sociedades organizam-se em volta de rituais. A sua abolição produzirá os dois efeitos extremos: a paralisia psíquica (o desinteresse, a apatia, o vazio depressivo) ou, no oposto, os movimentos de zanga e raiva indiscriminada.

4.    A presença emocional do outro (incluindo perante a sua ausência física como na morte) celebra-se na continuidade do tempo, na evocação das memórias mais marcantes (incluindo as sensitivas), das recordações significativas, em suma, de tudo quanto representa formas de inscrições psíquicas.

5.    A vida também se vive pela morte e seus equivalentes emocionais, mesmo em tempos em que estes conceitos parecem subitamente negados: a importância do vazio, a necessidade do silêncio, a procura de uma luz que quer acender (uma vela)

6.    A morte também precisa de vida, de festa e celebração em seu redor, para que não seja sentida de uma maneira tão dura e difícil: os ramos de flores, a cor e a harmonia que exibem

7.    Neste ano difícil, depois de Todos os Santos e Fiéis Defuntos, virá com certeza uma provável supressão do Natal? Esse, alguns o disseram há muito, também já é quando o homem quiser, tornando-se a celebração do consumo e do narcisismo.



Lisboa, 25 de Outubro de 2020


Pedro Strecht, mail: plstrecht@gmail.com











quinta-feira, 19 de março de 2020

VVV

 
 
          Covid-19
          Dicas para Pais em tempo de pandemia: VVV
 
 
1.    Medo vs Pânico
O que as crianças e os adolescentes pensam e sentem depende ainda muito da atitude dos adultos. Eles são o principal espelho da sua estabilidade emocional. Os medos existem e protegem-nos: são estruturantes. O pânico desorganiza, produz mais riscos sobre uma situação de tensão. Uma função dos pais é serem verdadeiros ansiolíticos das respostas dos filhos.
 
2.    Informação, Conhecimento
É importante mantermo-nos informados. As novas tecnologias de informação permitem o acesso a um mundo infinito de factos e números: geram e desfazem expectativas e ilusões. Mas a função de filtro é muito importante nestes momentos. Nem tudo interessa. Nem tudo é verdadeiro ou tem uma base científica. Demasiada informação já não esclarece: confunde. Convém não esquecer nunca que aceder a informação não é sinónimo de ter conhecimentos (muito menos sabedoria).
 
3.    Desligar
Habituamo-nos a estar sempre ligados, totalmente dependentes da imagem e do ecrã, que agora já é o do telemóvel. O acesso ao que se passa no mundo exterior é imediato, pode levar-nos directamente do interior de nossas casas a um quarto de hospital na China ou em Itália. Ninguém se organiza emocionalmente bem se permanecer como contínuo receptor de tudo quanto sucessivamente está a acontecer. Limitar tempos para estar ligado, a receber informação. Gerar outros para poder desligar, respirar o silêncio, a pausa, um certo vazio estruturante; ajude os mais novos a fazer o mesmo.
 
4.    Isto Não É uma Guerra
A pandemia por coronavírus não é uma guerra. É uma situação difícil que obriga a adaptações importantes e temporárias. Todos os seres humanos estão do mesmo lado! Estamos em família, juntos, não há pais ou filhos a partirem para outros locais, a morrerem longe ou de forma inesperada. Por outro lado, a história recente indica que o homem tem vencido estas batalhas, mesmo que por vezes leve algum tempo. Há cem anos atrás (quase) todos os infectados morriam de tuberculose. Há trinta, o mesmo se passou com o VIH e a Sida. As vacinas estão a caminhos, outros medicamentos também. O tempo que demora a chegar a resposta é cada vez menor!
 
5.    Riscos; Do Possível ao Provável
Neste tipo de situação morrem, infelizmente, pessoas. São sempre os de maior idade, os já fragilizados por outras doenças. Em 2019, nos dois picos de gripe “comum”, só em Portugal morreram cerca de 3.300 pessoas; jamais atingiremos este número na situação actual. Estamos a agir bem! Também no nosso país, quando há cerca de 10 anos surgiu a epidemia por gripe A, os primeiros dados apontavam para cerca de 2 a 3 milhões de infectados e o risco de 75.000 mortos. No final, contaram-se perto de 167.000 infectados, faleceram 122 pessoas.
 
6.    Lidar com o Desconhecido
O que talvez mais inquiete nesta situação é o desconhecido. O que não se vê e o que não se controla. O homem habituou-se demasiado a ter a (falsa) ideia de que sabe e domina tudo em seu redor; o aumento da sua esperança de vida e todos os avanços científicos e tecnológicos criaram a falsa ideia de uma imortalidade física ou, pelo menos, de uma amortalidade, isto é, não morrer mais de causas naturais. Mas, crentes de todos os maravilhosos avanços que conseguimos, vale a pena respeitar um conceito de transcendência: nem tudo depende de nós. Será que ainda conseguimos?
 
7.    Olhar para Dentro
Viver a restrição de uma circulação pública, estar confinado a um espaço de casa ou de quarto, obriga a parar. A cessar transitoriamente determinado tipo de estímulos. A repensar sobre o âmago da vida, da nossa existência até. Então, há que aproveitar para distinguir o essencial do acessório, o central do satélite. Abandonar um registo habitualmente auto-centrado. Rever o conceito de “ser” muito para além do “ter”; “ser no mundo” é, afinal, “ser no outro”.
 
8.    Simplificar
Como no final de um poema de Mário Cesariny, perguntar a nós próprios: “afinal, o que importa?” Por vezes, como referiu o arquitecto Mies van der Rohe, “less is more”: menos é mais. Para quê tanto objecto em casa? Tanta peça de roupa no armário? Tanto detalhe ou complicação no dia a dia? Tanta hora presencialmente gasta no trabalho, afinal a característica maior deste novo “homo laborans”? Eric Schumacher, economista do final do século xx, também adiantava ao referir-se a um sistema em que as pessoas contam: “small is beautiful”.
 
9.    Pedir Ajuda, Manter a Esperança
As situações de tensão podem conduzir ao que designamos como um “pensamento terminal”, sentido como sem ajuda possível ou sem sentimento de esperança algum. Pedir e aceitar ajuda não tem que ser um sinal de fragilidade; todos somos humanos e também nos reconhecemos em diversos pontos fracos. Pedir ajuda pode ser apenas um sinal de humildade e lucidez. Por outro lado, a esperança é a luz que todos recebemos, mas também aquela que emitimos. Há coisas que, mesmo no escuro, brilham: são incandescentes. Assim também nós temos que ser agora: luz de luz. Ou, como se ouvia numa bela canção do grupo The Smiths, “there is a light that never goes out”
 
10. Prosseguir, sendo
Há um conceito importante em saúde mental, que nos remete para a possibilidade de prosseguir, mesmo diante de situações adversas: “going on beign”, que apela à unidade de cada pessoa, não só enquanto ser individual, mas sobretudo como ser social, em constante interacção com os outros. E também recorda a ideia de que, por vezes, não é mesmo possível fazer mais nada do que serenamente deixar fluir o tempo, boiar à tona de águas difíceis e crer que, mesmo assim, a força da corrente nos levará em breve para a areia quente de uma praia tranquila.
 
Vai tudo correr bem!
VVV… Vamos Vencer o Vírus!
Vamos pôr um V no nosso olhar, nas palavras, nos sorrisos, nos abraços e nos beijos que, por agora, nos aconselham a não dar.
Vamos por um V às nossa janelas.
 
Pedro Strecht, Médico Pedopsiquiatra
plstrecht@gmail.com
 
 



 
 
 
 



sábado, 9 de março de 2019

Cómicos censurados.

 

 
 

Há pouco teve lugar na Biblioteca Nacional uma fantástica exposição sobre a saudosa Agência Portuguesa de Revistas. E também há pouco, na Faculdade de Letras, Ricardo Leite Pinto defendeu com brilho a sua tese de doutoramento sobre a censura às publicações juvenis no Estado Novo. Vi agora que saiu em Espanha, o reino das traduções, uma versão castelhana do livro The Ten-Cent Plague: The Great Comic Book Scare and How It Changed America. Pode encontrar-se uma análise desenvolvida aqui. O autor, David Hajdu, aborda em detalhe os discursos – e as práticas legais – que em meados da década de 1950 justificaram desconfiança sobre os malefícios dos comics. Um famoso psiquiatra chegou a afirmar, no não menos famoso A Sedução dos Inocentes, que «comparado à indústria dos comics, Hitler era um principiante». A coisa terminou em boa forna: ao invés de invocar a liberdade de expressão e de criação, como era apanágio das editoras em apuros (por exemplo, a Random House com o Ulisses de Joyce), a indústria optou pela auto-regulação, criou a Comics Code Autorithy e miúdos e graúdos puderam continuar a ser deliciosamente pervertidos por heróis de papel. Much ado about nothing.
 
 
 
 
 


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O Síndrome de Jerusalém.

 
 
 
 
Leio no jornal que o desaparecimento em Israel deste jovem de 29 anos, Oliver MacAffee, pode dever-se ao «síndrome de Jerusalém». Não sabia o que era, e na Wikipedia dizem existir pelo menos três tipos de síndrome de Jerusalém (isto para não falar do síndrome de Estocolmo, do síndrome de Stendhal ou do síndrome da China, só para citar alguns de lembrança). Houve até o trabalho-vídeo de um artista, Nathan Coley, chamado Jerusalem Syndrome, mas não consegui ver no Yotube esse trabalho-vídeo do artista-Nathan, que entrevistou o Dr. Moshe Kalian. No filme abaixo, uma intervenção televisiva do Dr. Moshe Kalian, autoridade psiquiátrica de Jerusalém. Enfim, e portanto, o mundo é um lugar maravilhosamente estranho.   
 
 

 
 
 
 
 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Desmond Morris, pintor.














Tenho nascido em 1928, o senhor na imagem da sua casa de Oxford, que eu nunca tinha visto in vivo, é o ultrafamoso Desmond Morris, celebrizado pel’O Macaco Nu, entre outras obras. Lembro-me de uma série documental que Desmond Morris fez há anos a partir do seu livro A Tribo do Futebol. O que a minha ignorância desconhecia é que Morris foi também pintor, e até pintor surrealista, muito à Tanguy, sobretudo em meados de 1970. Surrealista tardio, talvez fracote, deixo isso aos especialistas. Mas só soube que Morris pintava porque fui ao Instituto Superior de Psicologia Aplicada que – para informação dos leitores – editou um belo catálogo da obra artística de Morris, com introdução de Silvano Levy. Pronto, fica dito.