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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Os demónios da interioridade, as assimetrias que matam os sonhos dos homens.

 

 



 

          Não há discurso político-partidário que não proclame a predisposição para pôr termo às nossas interioridades, que não são poucas, estão prantadas na raia, até mesmo nas regiões ultraperiféricas, explicitam-se por fuga das gentes, falta de serviços, ausência de industrialização, esquecimento dos planificadores ou mesmo dos investidores, há interioridades nas Beiras, na zona transmontana, em vastidões como aquela que vamos falar, pontos da serra algarvia, por ali se passa com um certo desfastio, às vezes com curiosidade, são itinerários obrigatórios para alcançar as paragens turísticas. No caso vertente do Barrocal Algarvio multiplicam-se os estudos, adivinham-se as potencialidades, sonha-se com desenvolvimento, espera-se pelo Encoberto. A Fundação Francisco Manuel dos Santos encomendou a um jornalista de alto coturno, Rui Araújo, que andasse por esses montes escalvados, o produto final que ele nos deu é uma reportagem assombrosa, chama-se Um tesouro no deserto, Retratos da Fundação, 2025. O autor começa por nos dizer ao que vem:

          “A intenção é emprestar voz a esta gente esquecida dos montes do Nordeste do Algarve. Escutar as suas memórias. Os testemunhos. Os silêncios. Pintar nestas páginas a terra e as gentes.” Rui Araújo é um andarilho com muitas provas dadas, sabe perguntar, sabe contextualizar, ora vejam:

          “DESERTO. Foi ontem! As placas indicam Alcoutim, IC27 e Deserto. Opto por Deserto, o nome atrai-me. Deve ser um lugar diferente. Dou com dois idosos sentados diante de uma casa sem janelas, o que dá para imaginar o que a vida custa. Primeiro encontro. E, irremediavelmente, as primeiras descrenças.

- Ah, tenho saudades, que a gente saía e via gente por aí todos, o mesmo que a gente. E, agora, uma pessoa sai e não vê ninguém… - diz-me dona Adelina.

A solidão imposta é sentida como um calvário. Diz-se, diz-se. E é capaz de ser mesmo assim. Ela veste blusa e avental azuis. Ele está de chapéu negro sobre os olhos e de camisa cor de burro quando foge. Daqueles pares de olhos, apesar dos óculos graduados, irradia tristeza, apenas tristeza.”

A conversa mete muito desalento, quase que se ouvem os espetros, há memórias dos tempos com trabalho, a apanha da amêndoa e do figo. O jornalista volta ao local, veio de moto, contempla um furjal, nome que alguns algarvios dão aso terrenos vedados por árvores de sequeiro. Ainda na década de 1990 as terras eram todas cultivadas, havia trigo, aveia, centeio, azinheiras e muito mais. Agora as ruelas estão desertas. O jornalista segue para Balurco de Baixo, mete conversa com Francisco José Cavaco Gonçalves, foi lavrador e trabalhou na Câmara de Alcoutim, a população é de velhos, mesmo os estrangeiros que por ali habitam. É tudo uma questão dos censos, em cerca de sessenta anos há quase dez vezes menos pessoas a trabalhar no campo e nem a pesca escapou à desgraça. Em Alcoutim já só resta um pescador. Nova localidade, o nome é Soudes, conversa com Agostinho Mestre Pereira, conta a sua vida, até a vida sentimental lhe foi madrasta. Mas não se esquece de dizer que antigamente se vivia pior. Pobre é uma palavra recorrente, não foram esquecidas as lembranças da vida frugal, “os brinquedos que eu tive eram uma roda de cortiça redonda metida numa câmara-de-ar e correndo atrás daquilo.”

Estamos agora no Torneiro. “Ao cabo de uma eternidade, aparece diante da moradia branca uma idosa que me mede de alto a baixo. Digo-lhe, só para me dar ares de erudito, que estou a escrever um livro sobre a memória dos montes do Algarve. Dona Maria Dias Gomes Afonso manda-me entrar com um sorriso largo e bonacheirão.” Vai recordar a sua infância, lembra as festas, a vida difícil, comia-se o que a gente colhia, agora nada se semeia e não há pessoas, diz que é uma mulher feliz.

Rui Araújo preparou-se a sério para esta digressão. Estamos agora na Bemposta, invoca-se a documentação atinente, temos mais conversa, desta vez com o senhor Domingos, nova expressão do desalento. “Se este monte tinha trinta e tal pessoas e hoje só há um. E vocês vão a esses montes que há por aí, passa igual. Em todo o concelho. As pessoas que viviam nesta serra todas viviam do campo. Estes campos que a gente vê aí cheios de mato não se via um pé de mato nem erva daninha (…) E quando eu abalar daqui isto é capaz de acabar. As pessoas todas abalaram daqui. Toda a minha família. Nós éramos dez. só temos já cinco. Já morreram outros cinco. Éramos só dois machos. Um morreu na Guiné, em 1967.”

É reportagem radioscópica e radiográfica, vai-se por Ourique, depois Pereiro, Tremelgo de Cima, na Serra do Caldeirão, mais adiante pinhal, à frente Marim, passa-se para Silgado, que é o primeiro nome do planalto do Pereirão, inflete-se para Pescueza, convém aqui uma detença. Estamos na província de Cáceres, é uma vila rústica do século XV que tem uma particularidade de os velhos não estarem em lares, vivem nas casas onde ergueram telhados, mas não se façam juízos muito coloridos, pode correr o risco de desaparecer se não for invertida a dinâmica populacional. O jornalista foi ver o projeto onde se pretende quebrar a solidão e dar a gente na idade maior um astro de dignidade.

E temos agora o regresso a Alcoutim, lembra-se o contrabando e os contrabandistas, de lá para cá levava-se o café. A conversa de Rui Araújo com Paulo Paulino, o Presidente da Autarquia é de ler com maior atenção: “Somos o concelho do país com menor densidade populacional. O tamanho médio da propriedade é muito pequeno. Não existe dimensão para que as explorações sejam autossuficientes.” Solução que propõe: o emparcelamento. Refere ao entrevistador que há potencial na região, logo o rio Guadiana, faltam marinas onde pudessem chegar veleiros, ao potencial turístico, as florestas e a área pastoril.

Se se começou no Deserto estamos agora no Tesouro, em fim de viagem, serra do Caldeirão, uma conversa luminosa com a professora Babi, octogenária, a não perder. De modo que tem todo o sentido a despedida que Rui Araújo nos faz: “Parti à procura do Deserto e descobri um inestimável Tesouro nos confins de Portugal. É das pessoas de carne e osso que gosto. O resto é paisagem. Só paisagem.”

Uma belíssima incursão por um desses dolorosos recantos das nossas interioridades. 


                                                                Mário Beja Santos 

 


quinta-feira, 23 de abril de 2026

São Cristóvão pela Europa (353).

 


 

Continuando na província de Salamanca, agora na sua parte Sul, Beleña é um pequeno município situado em planalto. Sendo plano, atinge altitudes entre 800 e 900 metros.

Uma estátua de São Cristóvão foi criada por um artista local usando betão e cimento branco. Localiza-se junto à estrada com a intenção de proteger os condutores que passam.

A igreja, muito simples, é dedicada também ao nosso Santo. No interior, uma imagem que mal se consegue descortinar na fotografia.

 




 Ainda mais a Sul, fazendo já fronteira com a Província de Cáceres, situa-se Montemayor del Rio.

Nesta região passava a Via da Prata, caminho que ia de Astorga até Mérida. Segundo a tradição por aqui andaram Viriato, Sertório, até Aníbal Barca, o general Cartaginês.

O Castelo medieval de São Vicente, também chamado Castelo do Paraíso, do final do Século XIII, avulta na paisagem. Foi edificado certamente sobre fortificações anteriores

A Igreja de Nossa Senhora da Assunção é uma igreja construída em granito no Século XIII na transição do românico para o gótico. Possui um fresco representando São Cristóvão um pouco deteriorado.

 





Zamora é uma cidade importante na História de Portugal, em especial nos seus primórdios.

D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, foi Senhora de Astorga e Zamora a partir de 1111. Passou aliás a usar o título de rainha desde essa altura.

Provavelmente em 1125, fez recentemente 900 anos, o jovem Infante D. Afonso Henriques investiu-se como cavaleiro. Dizem os Anais de D. Afonso, rei dos portugueses, transcritos por José Mattoso na sua biografia de D. Afonso Henriques:

Era de 1163 (ou seja 1125). O ínclito Infante D. Afonso, filho do Conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso, tendo cerca de 14 anos de idade (teria 16), estando na Sé de Zamora, no dia Santo de Pentecostes, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis. Vestiu-se com a armadura como o Gigante, pois era grande de corpo, e cingindo-se a si próprio com as armas para as batalhas, tornou-se nos seus actos, como um leão e como a cria do leão que ruge na caça.

Foi um primeiro momento de afirmação real de D. Afonso Henriques, três anos antes da batalha de São Mamede. Aconteceu em Zamora porque estava em território de sua mãe. Evidentemente que há que ter em conta que os Anais, escritos em 1185, são um panegírico do nosso primeiro rei.

Em 4 e 5 de Outubro de 1143, o Cardeal Guido de Vico (natural de Pisa, cardeal desde 1130, participante em na eleição de pelo menos três papas) encontrou-se em Zamora com Afonso VII de Castela e Leão e Afonso Henriques. Foi a chamada Conferência de Zamora.

Nessa conferência, de que não existem registos escritos, D. Afonso Henriques estabelece uma relação directa com a Igreja de Roma, ao mesmo tempo que vê Afonso VII reconhecê-lo como rei e afirmar-se como Imperador, dignidade superior à de Rei.

É indiscutivelmente um momento fundador da nacionalidade portuguesa.

A construção da Catedral de Zamora, tal como a conhecemos hoje, iniciou-se por volta de 1139, o que significa que a mencionada investidura de D. Afonso Henriques como cavaleiro ocorreu provavelmente na sua anterior configuração.

No seu interior, uma magnífica pintura mural de São Cristóvão, da autoria de Blas de Oña, pintor documentado entre 1531 e 1543.




 

                                                Fotografias de 3 e 4 de Abril de 2026

                                                                                      José Liberato





domingo, 8 de março de 2026

São Cristóvão pela Europa (350).

 

 

 

Terminadas as digressões pelo Centro da Europa, voltemos ao nosso querido Portugal. E ao Norte.

 

Em Gondomar, a Igreja Paroquial é dedicada a São Cosme e São Damião, os dois santos gémeos e médicos. A igreja é barroca, construída na primeira metade do Século XVIII. A torre sineira permite uma passagem.

Numa remodelação infeliz no início do Século XX desapareceram paredes inteiras de azulejaria. Subsiste um belo painel representando São Cristóvão.

 




 Na freguesia de Antas, concelho de Esposende, existe uma pequena ermida de São Cristóvão. Originalmente dedicada a Nossa Senhora da Portela, não se conhece como passou a ser de São Cristóvão. Se hoje está longe dos olhares dos passantes, anteriormente podia ser facilmente avistada de quem se dirigia da Póvoa de Varzim para Viana do Castelo.

Segundo o historiador Penteado Neiva, que teve a gentileza de me acompanhar na visita (juntamente com os Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipais), esta deve ser a mesma capela da Senhora da Portela fundada em 1553 pelo proprietário da quinta da Portela, o abade de Santa Leocádia de Geraz do Lima.

Ao longo dos anos, discutiu-se a manutenção do edifício, a falta de recursos para a realizar, a conveniência de a deslocar para outro lugar. Mas sempre resistiu. Está na posse da mesma família desde 1887.

No interior, uma imagem de São Cristóvão de madeira policromada de autor desconhecido e do Século XIX. Tem duas características diferenciadoras. Em primeiro lugar, a sua dimensão de 68 centímetros não corresponde ao padrão gigantesco habitual. Por outro lado, o Menino Jesus assenta no braço direito do Santo e não no ombro.

 



No concelho de Vizela situa-se o santuário de São Bento das Pêras, local de peregrinação e de belas vistas.

No interior da Igreja principal, já do Século XX, uma imagem do nosso Santo.

 




                                                                Fotografias de 31 de Janeiro de 2026,

                                                                                                     José Liberato


segunda-feira, 23 de junho de 2025

São Cristóvão pela Europa (310).

 

 

Por diversas vezes, tenho chegado à conclusão que esgotei o tratamento dos São Cristóvãos de Portugal. Mas rapidamente constato que a conclusão afinal não tinha fundamento.

Os meus amigos são muitas vezes culpados. Foi o caso agora de dois São Cristóvãos do Minho que me foram apontados pelo Vítor e pela Fátima, a quem muito agradeço.

O primeiro situa-se em Esposende na bela Igreja da Misericórdia. A sua construção é de 1579 e o estilo maneirista é predominante,

 



Outro São Cristóvão encontra-se no Museu Pio XII em Braga na parte consagrada à obra do pintor Henrique Medina (1901-1988), grande retratista português.

O quadro da sua autoria retrata por sua vez uma imagem do nosso Santo.

 




                                             Fotografias de 16 e 17 de Março de 2025.

                                                                                          José Liberato




sexta-feira, 30 de maio de 2025

A desdita dos comandos africanos da Guiné na labiríntica historiografia pós-colonial.

 

 



Para me licenciar em História, aprendi que esta é a ciência do Homem no tempo, tempo que tem um antes, um durante e um depois, o investigador compulsa a documentação, pode socorrer-se de depoimentos escritos ou orais, em caso algum pode encobrir provas ou manejá-las de modo que a sua narrativa esteja em plena concordância com as acusações que comportam os recados que aparentam corresponder à clara certidão da verdade.

Os fuzilamentos dos comandos guineenses que combateram do lado português continuam a ser matéria fraturante, pasto de trabalhos que no fundo pretendem demonstrar como a nossa descolonização foi caótica, praticou injustiças, deixou um estendal de misérias. Sofia da Palma Rodrigues doutorou-se sobre este tema, ouviu velhos antigos combatentes, responsabiliza as autoridades portuguesas que acompanharam o prescrito pelo Acordo de Argel, e as subsequentes de desleixo criminoso, abandonaram, afinal, à mercê dos rancores do PAIGC homens que tinham sido valorosos a combater pela soberania portuguesa. É uma crítica acintosa, um uso atrabiliário da bibliografia e de diferentes fontes documentais, assim se escreve Por ti, Portugal, eu juro! A história dos comandos africanos da Guiné, por Sofia da Palma Rodrigues, Edições Tinta-da-China, 2024.

De acordo com o que se escreveu nos volumes dedicados à Guiné na Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África, publicados pelo Estado-Maior do Exército, em 1969, o governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, António de Spínola, concebeu uma força especial de comandos e fuzileiros, que deu origem a três companhias de comandos e duas de fuzileiros, as primeiras vieram a agrupar-se no chamado Batalhão dos Comandos Africanos. Fez-se uma seleção por recrutamento voluntário de gente que veio dos pelotões de caçadores nativos, das forças das milícias, sobretudo. Está comprovado que as autoridades do PAIGC, o presidente Luís Cabral e os políticos do seu círculo, foram inteiramente responsáveis pelos crimes perpetrados após a independência, perseguindo, prendendo, torturando e fuzilando elementos dessas forças especiais, tanto dos comandos como dos fuzileiros, e mentindo descaradamente, forjando intentonas ou dizendo nada saber sobre estes fuzilamentos. Nos diferentes livros que escreveu, nas entrevistas que deu, Luís Cabral negou sempre conhecimento dessas matanças. Só que os seus colaboradores têm vindo a escrever que as coisas não se passaram assim. Veja-se o que disse Manecas Santos num livro também publicado em 2024 intitulado Uma biografia da luta, Rosa de Porcelana Editora, página 113:

“Pouco tempo após a independência, talvez por volta de 1976, Luís Cabral foi passar férias à Suécia. No regresso, fez uma paragem em Lisboa. Tinha boas relações com Ramalho Eanes que o convidou para um jantar. Durante a conversa, Eanes falou-lhe de um conjunto de militares, antigos efetivos do exército colonial, que ainda estavam detidos na Guiné. Fez-lhe um pedido: que fossem devolvidos a Portugal, mediante a sua garantia pessoal de que não se envolveriam em qualquer intriga posterior contra o PAIGC ou o Estado da Guiné-Bissau.

Luís concordou. Assim que chegou a Bissau, convocou o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Umaru Djaló; Nino Vieira ministro do Interior; e António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado. Informou-os sobre o acordo feito com Eanes e solicitou que providenciassem os documentos de viagem necessários para o regresso a Portugal dos militares em questão.

Foi então que Buscardini, com toda a desfaçatez, informou o presidente que os soldados que tinha prometido devolver já tinham sido executados. Ou seja, Buscardini tinha tomado individualmente uma decisão que punha em causa a palavra do chefe de Estado perante um homólogo; e tinha cometido uma violência contra os prisioneiros que teria sido impensável para o PAIGC, mesmo durante as hostilidades da luta armada.”

Esta é a versão de Manecas Santos, acontece que Luís Cabral, por mais uma vez, falou em tribunais e em tentativas de complô feitas pelos comandos, teria sido a justiça a decidir o seu fuzilamento. Como se sabe, não há uma só prova de qualquer envolvimento de comandos e fuzileiros em complôs e sabe-se que os fuzilamentos se prolongaram até finais de 1977.

Esta ilustre doutora diz abertamente ao que vem: “Este livro foca-se na recolha de testemunhos que põem em causa as narrativas oficiais que tanto Portugal como a Guiné-Bissau escolheram contar sobre si, e sobre os relatos de pessoas que foram cuspidas para fora de ambos os projetos políticos.” Por outras palavras, os historiadores, na plenitude andam a mentir. Por vezes diz coisas sem qualquer fundamento, como dizer que o PAIGC dominava já mais de metade do território quando Spínola se viu obrigado a apostar nos militares africanos e a dar-lhe funções de maior importância no Exército. É facto que Spínola apostou fortíssimo nestes comandos, eles foram utilizados para as operações mais arrojadas, fizeram muitas vezes vacilar os guerrilheiros do PAIGC e as populações por ele dominadas. Chegaram a ser cruciais em momentos em que se previa a hecatombe, como no cerco a Guidaje, em que os comandos entraram no Senegal e puseram o PAIGC em pânico, em Cumbamori.

Se esta historiografia pós-colonial servisse para pôr esta situação em pratos limpos, ouvir-se-iam aqueles que estiveram a pôr em execução o Acordo de Argel. A senhora doutora nunca refere as conversações travadas pelo brigadeiro graduado Carlos Fabião com os oficiais e sargentos dos comandos e dos fuzileiros, Fabião já faleceu, mas deixou depoimento do que fez e como fez. Nem uma palavra. O PAIGC aceitou incorporar todas as forças militares que combatiam do lado português, não cumpriram. Naquele vendaval de acusações que a doutora faz ao comportamento das autoridades portuguesas, não há nem uma palavra sobre a atmosfera que se viveu em Portugal, particularmente a partir do 11 de março, em que os spinolistas entraram em debandada. Era igualmente compreensível que na análise da situação concreta que se vivia nas conversações entre as autoridades portuguesas e as do PAIGC, estas apelassem à desmobilização das forças especiais, temiam que com a saída dos portugueses se gerassem focos de guerra civil. Valia a pena que a doutora tivesse procurado a documentação desta época nos arquivos da Defesa Nacional e não se limitasse a dizer que Glória Alves, o 2º comandante do Batalhão de Comandos afirmara que os guineenses tinham retirado o seu nome da lista que fora proposta por Fabião para virem para Portugal, fala também em Florindo Morais, mas diz que estes dois responsáveis não eram capazes de garantir como o processo aconteceu e recorre-se de interrogações: “Foram mesmo todos os que tinham o nome na lista a desistir? Houve alguém a precipitar esta decisão? O que terá levado estes militares a deixarem de querer ir para Portugal?” Será isto maneira de fazer historiografia? Andou a fazer entrevistas aos comandos africanos e esta questão não era importante?

Chegámos por fim ao mau da festa, Almeida Santos, que escreveu e promulgou o Decreto-Lei n.º 308-A/75, de 24 de junho, que previa que só conservariam a nacionalidade os cidadãos portugueses nascidos em África que tivessem pais, avós ou bisavós com linhagem europeia goesa. Nem uma palavra para a avalanche de retornados que começavam a afluir, nenhum partido político ao tempo contestou a necessidade desta legislação e, como é sabido, daí por diante, nenhum governo alterou a essência deste princípio da nacionalidade. É facto que se devia ter a seu tempo agido em nome do artigo 25º do anexo do Acordo de Argel, mas, como também é sabido, é assunto face ao qual nenhuma governação quis tratar por via diplomática pelas autoridades da República da Guiné-Bissau, a partir da Resolução do Conselho de Ministros nº18/83 em que se definiu que o pagamento das pensões seria transferido para o Estado da Guiné-Bissau, em troca Portugal perdoaria uma dívida de juros vencida no valor de 200 milhões de escudos. O que será que a senhora doutora queria, que cortássemos relações com a Guiné-Bissau por não cumprir com o estipulado?

Fuzilamento de comandos guineenses matéria fraturante? Sim, enquanto faltar historiografia que busque com rigor o tratamento das fontes e trate com a devida prudência as lacunas e omissões da História oral. Livro que não convence.

 

                                                                                     Mário Beja Santos


quinta-feira, 20 de março de 2025

São Cristóvão pela Europa (302).

 

 

 

É tempo de voltar ao nosso querido rectângulo. Visitei em Janeiro três freguesias todas no Norte de Portugal e tendo como orago São Cristóvão.

Comecei pela freguesia de Candemil na parte Sudeste do concelho de Amarante, junto ao concelho de Baião. A paróquia já é mencionada no Século VI, sendo chamada de Sancto Christophori de Candemir a partir de 1152, ou seja, antes da Lenda Dourada de Voragine que estabelece a história de São Cristóvão!

A igreja sofreu imensas alterações, as últimas das quais no Século XIX, sendo que todas as imagens foram roubadas no início do século seguinte.

No interior, uma imagem no altar-mor e outra na sacristia.

 

 





 

Totalmente remodelada no Século XVIII, a igreja Paroquial de Mondim de Basto, é hoje uma típica igreja de estilo barroco. De gótico, apenas a porta lateral. O tecto ostenta, no caixotão central, a imagem de São Cristóvão.

 




Finalmente, e também em Trás-os-Montes, a Igreja Paroquial de Parada de Cunhos no concelho de Vila Real é também barroca. Tem imagens de São Cristóvão num nicho da fachada, no tecto como na igreja de Mondim de Basto e no altar-mor.

 





                                Fotografias de 17 de Janeiro de 2015

                                                                      José Liberato




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

O Amor é Cego: os bonecos de Estremoz.


 



É facto que todo o amor é cego, e sempre o foi. Em Vila Viçosa há um miradouro chamado Varandinha dos Namorados, para que os amantes possam contemplar as vistas e abandonar por momentos a cegueira que os traz mergulhados nas trevas do sentimento. Mas é Estremoz que essa cegueira se torna mais evidente, no culminar de uma longa história que remonta ao Câmbrico, e que envolve vários heróis, um dos quais, talvez o maior de todos, foi professor na escola industrial da cidade.

 

***

 

        Ao contrário do que sucede com as argilas de Flor da Rosa ou de Nisa, provenientes de solos graníticos, ou com as de Évora, Redondo e Viana, de um tom castanho-negro, vindas de dioritos ou de xistos silúricos, as argilas de Arronches, Campo Maior, Elvas, Portalegre, Vila Viçosa ou Estremoz têm origem na decomposição de xistos pré-câmbricos e câmbricos.

Daí surgiram os barros vermelhos estremocenses com que se fariam os púcaros celebérrimos, falados por nomes famosos das letras – Gil Vicente, Camões, Quevedo, Lope de Vega – e louvados por homens poderosos, como o cardeal Venturini ou Filipe II, o qual, na correspondência que manteve com as filhas, teve ensejo de escrever:  Al Calabrés [o seu secretário particular] he embiado a Estremoz á hacer púcaros como los que tenía ay las flores”, ou “El Calabrès ha vuelto já de Estremoz, aunque el dexa haciendose alli los púcaros.” Em Espanha, tornaram-se lendários os púcaros de Estremoz, que conseguiam manter a água sempre fresca, adicionando-lhe um sabor agradável, e que, sobretudo, tinham extraordinários poderes cosméticos e terapêuticos, fosse no embranquecimento da pele das senhoras, fosse no morigerar das dores da menstruação. Ao tempo da União Ibérica, a alta aristocracia espanhola e portuguesa aderiu em força à moda – ou ao vício – da bucarofagia: cavalheiros e senhoras, sobretudo estas, bebiam águas dos púcaros e a seguir trincavam e comiam o barro, fosse o de Estremoz, fosse o de outras paragens, até distantes, como Tonalá, no México.

Na sua Relation du voyage d’Espagne, de 1691, a duquesa de Monteleón, Madame d’Aulnoy, afirma que “viu comer, ouviu gabar e provou com repugnância” aquela argila miraculosa, cujas virtudes medicinais eram exaltadas pelo grão-duque da Toscânia, Cosme III de Médicis, ou por Duarte Nunes de Leão. Dizem os especialistas que um púcaro de Estremoz – ou, melhor, que se presume ser de Estremoz – surge num dos quadros mais famosos do mundo, As Meninas de Velázquez, em cima da bandeja de prata que dona Maria Agustina Sarmiento oferece à Infanta Margarita , a figura central da tela. Seja ou não verdade, é um facto que os púcaros estremocenses aparecem, por vezes em lugar de destaque, nas obras de outros pintores notáveis, como Grão Vasco ou Josefa de Óbidos. 


                                                      Diego Velázquez, As Meninas, 1656


Em documentos oficiais, os barros de Estremoz surgem citados pela primeira vez em 1258, no reinado de D. Afonso III, que fundou o castelo e deu foral à terra, então apenas vila; e as primeiras referências ao figurado de Estremoz constam de um escrito de Frei Agostinho de Santa Maria, de 1718, e do Aquilégio Medicinal, de 1726, da autoria de Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V, havendo também um acta da vereação da cidade, datada de 10 de Novembro de 1770, na qual se fala já das boniqueiras da terra. Antes disso – e podemos até contemplá-lo no museu municipal da cidade –, há um fragmento minúsculo de um Menino Jesus, datado do século XVII, que foi descoberto há bem pouco, no ano de 2006, por escavações empreendidas por Marco Liberato e por Helena Santos.

Há quem sustente, a este propósito, que o figurado estremocense pode ter surgido aquando da edificação do Convento de Mafra, que trouxe ao país diversos artistas estrangeiros, mormente italianos. Estes conviveram de perto com os seus colegas portugueses, uma plêiade de barristas notáveis que tomou o nome de “Escola de Mafra”, formada sob os auspícios dos grandes criadores de presépios lisboetas, como Machado de Castro e os seus colaboradores, António Ferreira, José Joaquim Leitão, José de Almeida, etc. Concluído o convento mafrense, alguns destes artistas ter-se-ão dispersado pelo país. Em Estremoz, há notícia de um deles, conhecido por “Alfacinha”, que fez escola e deixou continuadoras nas pessoas de Ti Gertrudes Rosa Marques e de Mariana Estopa.

Em finais do século XVIII, começaram os problemas, à cabeça dos quais uma crónica falta de lenha, essencial para alumiar os fornos, escassez que se manteve pelo século XIX dentro. Para agravar as coisas, em 1800 a extracção de barros teve um tal aumento de preços que os oleiros e mestres da Fábrica de Faiança se queixaram, sem sucesso, à Junta Real do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. Depois, a instabilidade trazida pelas guerras napoleónicas e, a seguir, pelas guerras liberais levou à decadência da arte do figurado, que estava praticamente extinta nos alvores do século XX.

Foi salva por um herói, José Maria de Sá Lemos, escultor e discípulo de Teixeira Lopes, que entrou em cena em 1932, ao assumir as funções de professor e director da Escola Industrial António Gonçalves. Esteve em Estremoz até 1945 e aí exerceu funções como vereador da Cultura, além de ter concebido para a cidade o Monumento aos Mortos da Grande Guerra e a singular Fonte do Sátiro. O seu principal legado, contudo, foi ter resgatado de uma morte quase certa aquilo que a UNESCO hoje consagra como Património Material da Humanidade. Para o efeito, foi necessária muita persuasão e paciência junto de Ti Ana das Peles, a qual, não sendo bonecreira de ofício, na mocidade vira algumas artistas a trabalharem nas suas oficinas. Todas elas estavam mortas há muitos anos, pelo que – e esta é outra maravilha numa história tão fértil delas – o ressuscitar de uma arte morta foi, essencialmente, um trabalho de memória e reminiscência. Em jovem, Ti Ana das Peles fizera apenas algumas figuras mais simples, as de assobio; todas as outras que depois produziu resultaram deste comovente e prodigioso esforço de lembrança. 


                                                               José Maria de Sá Lemos e Ti Ana das Peles


Por essa altura, o jornal Brados dos Alentejo bradava, indignado, que já não exista manufactura do barro em Estremoz, mas, logo que foram devolvidos à vida, os bonecos estremocenses fascinaram intelectuais e etnógrafos e, pela mão de Luís Chaves, do SNI, fizeram as delícias propagandísticas do Estado Novo, que os levou a diversos e importantes certames, como a Quinzena de Arte Popular Portuguesa, em Genebra, 1935; a Exposição de Arte Popular Portuguesa, Lisboa, 1936; a Exposição de Paris, de 1937; e por fim, mas não por último, a Exposição do Mundo Português, em 1940.


                                                                                        Exposição de Arte Popular Portuguesa, 1936


Tirada em 1936, na Exposição de Arte Popular Portuguesa, uma fotografia  mostra-nos um Salazar sorridente, contemplando uma vitrine com os bonecos saídos das mãos de Ti Ana das Peles, mulher que certamente nunca imaginou que as suas memórias de meninice despertariam um dia a atenção desvelada de um chefe de governo português, ademais todo-poderoso. Anos depois, em 1962, os bonecos apareceram em lugar cimeiro na exposição “Barristas do Alentejo”, patente no Palácio D. Manuel, em Évora. Nessa fase, já tinham entrado no acervo de alguns museus e colecções privadas (v.g., a de Júlio Maria dos Reis Pereira) e merecido a atenção de estudiosos que, tanto no passado como no presente (v.g., Azinhal Botelho, Luís Chaves, Solange Parvaux, Joaquim Vermelho, Rafael Salinas Calado, Hernâni Matos, Hugo Guerreiro), projectaram e continuam a projectar a obra de gerações sucessivas de artistas, alguns dos quais pertencentes à mesma família, dinastias inteiras de bonecreiros.      

 

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O tema da cegueira do amor é atribuído a Platão, que em As Leis escreveu “aquele que ama é cego para o que ama”, e foi depois glosado por Shakespeare num dos seus sonetos. Deu mote a vários provérbios e ditos populares e, na arte do barro estremocense, é figurado como o boneco Amor Cego (ou O Amor é Cego), que surge assinalado pela primeira vez em 1929, no Inventário do Museu Municipal de Estremoz, mas que remonta certamente ao século XIX. De acordo com os especialistas, denota influência brasileira, e até porventura africana (na freguesia do Ameixial, nos arredores de Estremoz, há um Monte dos Pretos e na cidade existe, como noutras localidades do país, a Rua dos Malcozinhados, dois indícios da presença de escravos negros na região).


                                                      David Freitas, Primavera, anos 1960-70


À semelhança de figuras congéneres como as das Primaveras  (Primaveras de Arco ou Primaveras de Plumas) ou as das Bailadeiras, os bonecos do Amor Cego surgem geralmente aos pares, em alegoria do amor profano ou, segundo outros estudiosos, como evocação metafórica da felicidade, do matrimónio, da caridade, da providência. As suas origens terão sido as personagens dos teatros ambulantes que percorriam o país de lés a lés ou as estampas de curiosidades que tiveram grande circulação no século XIX. Poderá ter havido também inspiração nos anjos tocheiros que adornam muitas das nossas igrejas, e há parecenças com certos Bonecos de Santo Aleixo ou até com os anjos da cimalha de presépios expostos em maquinetas com cenas da Natividade. Contudo, a alusão mais óbvia é profana e o seu avatar é Cupido, o qual, à semelhança dos bonecos do Amor Cego, tem as asas vermelhas, a cor da paixão e da luxúria. No figurado de Estremoz, contudo, o amor é representado por uma figura feminina, de coração na mão e de olhos vendados (aliás, nas obras de vários pintores, como Piero della Francesca, Botticelli, Ticiano, Lucas Cranach, etc., há vários cupidos vendados). 


                                                     Piero della Francesca, Cupido Vendado, 1452


Como surgem geralmente aos pares, numa das figuras as plumas do toucado ou dos capacetes inclinam-se da esquerda para a direita, e na outra tomam o sentido inverso. Há variantes e cambiantes, recriações contemporâneas, mais livres e ousadas, mas, em regra, a figura do Amor Cego tem uma saia rodada, de cores vivas e garridas.

Em face daquela mulher cega de amor, com os olhos vendados e o coração na mão, somos tentados a lembrar um episódio sucedido em 1543, quando um familiar do arcebispo de Lisboa acompanhou a Castela a noiva de Filipe II, Maria de Portugal. De Estremoz, por onde passou, disse: “nesta villa há mtas moças fermosas e em boa cantidade, porque se os graes e os púcaros sam famosos, mais merecem as molheres. 

 

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Uma história começada no Câmbrico, há coisa de 500 milhões de anos, e que ainda não terminou. 



                                                                        António Araújo



Bibliografia consultada: Carolina Michäelis de Vasconcelos, Algumas Palavras a Respeito de Púcaros de Portugal, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921; Joaquim José Vermelho, Sobre a Cerâmica de Estremoz. Arquivos da memória, organização de Hugo Guerreiro, Lisboa-Estremoz, Edições Colibri-Câmara Municipal de Estremoz, 2005; Ana Maria Baptista Costa Mateus, Bonecos de Estremoz, objectos de identidade patrimonial, dissertação apresentada à Escola Superior de Design do IADE, Lisboa, 2008, policopiada, inédita; José Fernandes Reis de Oliveira, Bonecos de Estremoz. Etnografia e Arte, Lisboa, By the Book, 2015; Hernâni Matos, Bonecos de Estremoz, prefácio de António Júlio Rebelo, fotografias de Luís Mariano Guimarães, Estremoz-Póvoa de Varzim, Edições Afrontamento, 2018; Hugo Guerreiro, Figurado de Estremoz. Produção. Património Imaterial da Humanidade, fotografias de Guilhermo Carmelo, prefácio de José Daniel Pena, 2.ª edição, Porto, Edições Afrontamento, 2022.