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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Abstenção, a grande pedra no sapato da democracia participativa.

 


 

          A Fundação Francisco Manuel dos Santos desenvolve meritórias iniciativas para procurar dar a conhecer em equação o que é hoje ser português, que problemas trazemos connosco, quais as nossas marcações de identidade, como nos vemos na esfera do tempo; ah, como nos comportamos em cidadania e encaramos a democracia participativa. É nesta última temática que está em cima da mesa um osso duro de roer, dele se especula muito, há muitos porquês sobre a abstenção, nem a parte nem o todo apresentam resultados satisfatórios. Por isso a indagação é persistente, nem vale a pena falar dos riscos que representa o alheamento democrático. É assunto seríssimo, a Fundação acaba de tomar algumas iniciativas. Primeiro, um estudo. Vejamos o que ele diz.

           Consta no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos o seguinte:

“Quem se abstêm em Portugal e porquê? O novo estudo da Fundação é a mais extensa análise já feita (até à data) sobre as causas e as consequências da abstenção eleitoral em Portugal, cobrindo todo o período democrático e os vários tipos de eleições. Os autores recomendam estimular o dever cívico nas escolas, logo a partir o 1º ciclo, e expandir o voto em mobilidade para aumentar a participação eleitoral, mas deixam de fora o voto obrigatório e o voto online.

Portugal registou um declínio significativo na participação eleitoral ao longo das últimas décadas. Mas qual é a dimensão da abstenção? O que leva tantos eleitores a decidir não votar e quais são as consequências de não escolherem os seus representantes? Há diferenças entre as posições políticas de quem vota e de quem se abstém? E que estratégias podemos implementar para estimular a participação eleitoral?

O estudo, da autoria de José Santana Pereira e João Cancela, responde a estas questões com base num inquérito a 2405 eleitores, 6 focus groups com abstencionistas/votantes intermitentes e três encontros com representantes políticos a nível local, nacional e europeu, oferecendo a mais extensa análise até à data sobre o fenómeno no nosso país.

Esta investigação revela que em eleições legislativas, presidenciais e europeias, a participação eleitoral é mais elevada nas zonas urbanas, enquanto nas autárquicas os eleitores das zonas rurais e híbridas tendem a votar mais.

Sabe-se também que a abstenção não é um comportamento aleatório nem uniforme. Os autores destacam que características sociodemográficas, como a idade, o nível de escolaridade e de rendimentos, fatores atitudinais, como o sentimento de dever cívico ou o interesse pela política, e barreiras práticas, como a distância do local de voto, influenciam a decisão de não votar.” O leitor pode ter acesso ao estudo completo em: file:///C:/Users/M%C3%A1rio%20Beja%20Santos/Downloads/Estudo%20completo%20(PDF).pdf

Em simultâneo com a publicação do estudo era editado o livro O tanto que grita este silêncio, Porque se abstêm os portugueses?, por Nelson Nunes, Fundação Francisco Manuel dos Santos, setembro 2025.

Vota-se para quê? O autor recorda que o país está dividido em dois: nos meios urbanos, é mais fácil de chegar às urnas, mas, para os milhares de pessoas que vivem em meios rurais, o caso muda de figura. É muito provável haver milhares de abstencionistas involuntários nestes contextos. Não há explicação para esses porquês da inércia e do alheamento, mas não sobra dúvida que a política não está a comunicar a ponto de mexer com todos, e não vale a pena passar desculpas para os casos de corrupção, criminalidade, falta de satisfação de necessidades básicas como a saúde, recrudescimento de violências, matérias-primas que os órgãos de comunicação social que primam pelo sensacionalismo exploram até à exaustão.

Sabe-se que há abstenção como forma de protesto, se querem explorar o lítio na nossa terra, nós não votamos. Há quem diga que os partidos são todos iguais, nenhum deles dá resposta à falta de empregos, às remunerações justas dos primeiros empregos, e por aí fora. Nelson Nunes foi ouvir pessoas, grande surpresa foi perceber que há abstencionistas politicamente esclarecidos, há quem se apresente como abstencionista temporário, há quem foi muito tempo imigrante e que se sinta injustiçado por pagar impostos em Portugal, há mesmo quem diga nunca ter sido estimulado para as diversas formas de participação cívica, há quem não esconda um certo desconforto por saber que ao não votar há quem esteja a fazer escolhas por si, há também aquele inquirido que saltita de trabalho em trabalho e de país em país e que não vota alegando que os problemas se resolvem com decisões que nem foram anunciadas nos programas eleitorais.

Há quem se sirva da abstenção como um grito de revolta. E há respostas que nos apanham de surpresa, como esta: “Considero que a política é muito mal paga. Um bom gestor, um bom líder, não vai para a política. Vai para uma boa empresa, que lhe pague muito bem. Por isso, só vai para a política quem não é muito bom.” É como se dissesse que não se vota neles porque são genericamente medíocres. Quando, subitamente, em março de 2024, a abstenção foi das mais baixas de sempre, houve quem desse a seguinte interpretação: “É a revolta a falar. As pessoas estão cansadas, fartas do mesmo. Eu decidi não ir, mas com a generalidade das pessoas aconteceu o contrário. Foram votar porque querem respostas.”

Os inquéritos de Nelson Nunes não nos dão milagres explicativos: descobre-se que há quem foi durante muito tempo abstencionista e que agora participa, há quem durante muito tempo foi atraído por ideias de esquerda, está cansado de promessas, procura agora valores diferentes no populismo, mas também há quem se manifeste cansado numa direita e centro-direita que só tem uma certa política social para não perder o barco. O autor também bateu à porta de especialistas em ciência política, as respostas também são complexas no meio académico. Dirá mesmo, em jeito de conclusão, que o modo como as pessoas votam está diretamente relacionado com o estado das suas vidas. E os abstencionistas são mais do que a representação tosca que vemos deles na comunicação social. Acresce que a abstenção também é uma forma de representação mediática, por outras palavras, diz ele, o que falta é pôr os abstencionistas na comunicação social: libertá-los de um certo sentimento de vergonha, ou vê-los e perceber que caminho construtivo se pode desenvolver a partir daí. Estes abstencionistas silenciosos têm todo o direito a ser ouvidos.

 

                                                                Mário Beja Santos


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Tenha cuidado, Luís Montenegro, com as reformas de Estado por pressão jornalística.

 


 


 

A jornalista Bárbara Reis escreveu uma peça no jornal Público no 18 do corrente sobre as adiadas reformas de Estado e (subliminarmente, claro está) por forma a acicatar o atual Governo veio recordar o deslumbramento que teve em 12 de março de 2005 quando José Sócrates, logo no seu discurso de tomada de posse ter anunciado que ia acabar com o monopólio obsoleto das farmácias, deixara de fazer sentido que as farmácias comunitárias vendessem medicamentos sem prescrição médica – tínhamos aqui uma reforma de Estado. A jornalista lembrou as críticas e saudações a tal iniciativa, o ponto curioso é que nesse mesmo dia um jornalista do Público pediu-me opinião sobre a decisão do primeiro-ministro e eu respondi que se tratava de um pagamento eleitoral, os supermercados batiam as palmas, era pura fantasia que estes medicamentos se poderiam ir vender em espaços comerciais de pequena movimentação. Viu-se. Promulgada a legislação admitindo novos espaços comerciais, certos supermercados lançaram-se a sério neste comércio, apareceram centenas de estabelecimentos com técnicos de farmácia à frente, como a legislação prescrevia. Passado vinte anos, em que deu esta portentosa reforma de Estado que a tão entusiasta jornalista recorda a Luís Montenegro como um bom exemplo? As centenas de estabelecimentos fecharam as portas, não possuíam dimensão para vender a gama de medicamentos não prescritos, é certamente com gáudio que a jornalista se abastece hoje com o cartão Continente quando vai à Wells ou aproveita o cartão PoupaMais do Pingo Doce (aí o negócio é minorca, são uns armários e uma certa gama de medicamentos).

Vê-se quem ganhou com a reforma de Estado, em que deu a espaventosa afirmação de Sócrates que “é tempo de resolver os estrangulamentos que impedem que o interesse geral imponha aos interesses particulares e corporativos que não servem a maioria dos portugueses”. Mas a medida de Sócrates tinha subjacente uma vingança e uma desforra. O PS pusera em outdoors que ia tomar uma medida de grande benefício, criar farmácias sociais. O então presidente da Associação Nacional das Farmácias zurziu, a medida era inconcebível, desafiou que explicassem publicamente o que era isso de farmácias sociais. Não houve troco, o que o PS propunha era pólvora seca.

Por razões do meu empenho participativo, fui durante alguns anos um dos diretores de uma associação europeia dos consumidores, curioso com esta proposta das farmácias sociais, bati à porta de colegas ligados ao setor farmacêutico democrata-cristão, liberal e socialista, queria saber se a Bélgica e em qualquer país da União Europeia vigoravam-se as farmácias sociais, a resposta foi pronta, era coisa do passado, havia ainda uma reminiscência de duas na Bélgica e ligadas diretamente a instituições de filantropia.

A jornalista Bárbara Reis desvaloriza a banalização da venda de medicamentos fora da farmácia, esquece-se que, em primeiro lugar, devia haver um técnico qualificado nos supermercados ou estruturas adjacentes para comunicar com o adquirente de medicamentos, quer ela acredite ou não, não há medicamentes inócuos. Tirando o caso específico das associações de doentes em que se dá informação que serve para que as escolhas de medicamentos não tenham efeitos adversos quando se associa um medicamento de venda livre aos medicamentos que servem para terapêuticas de doentes crónicos, por exemplo, a falta de literacia em Saúde justifica prudência e aconselhamento farmacêutico. Não se pode tomar à toa o que quer que seja para tratar uma constipação, o nariz entupido, o mal-estar do estômago, uma prisão de ventre, por exemplo, esses medicamentos apresentam precauções de utilização, como todos os outros. Há dezenas de medicamentos diferentes para tratar a constipação, uns não podem ser tomados por pessoas com problemas de estômago, como gastrite ou úlcera; outros não podem ser tomados por doentes asmáticos e alérgicos; outros não podem ser usados por doentes cardíacos, pessoas que tiveram enfarte, arritmias com pulso rápido; alguns são perigosos quando usados muito tempo, porque podem ocasionar hemorragias cerebrais. E chega.

O mais surpreendente deste convite subliminar de reforma a reforma, problema a problema, dizendo a jornalista espaventosamente que o elefante se corta às postas, era muito mais interessante que sugerisse quer aos farmacêuticos quer aos doentes que tivessem posturas mais rigorosas ao balcão, sobretudo os farmacêuticos, que, independentemente dos serviços farmacêuticos que prestam (caso das vacinas contra a gripe e covid-19) não deviam limitar-se a uma mera dispensa de medicamentos porque a saúde é mais do que comércio; e que os Ministérios da Saúde e da Educação apostassem nessa reforma de Estado que é a de gerar literacia em Saúde, uma dimensão da cidadania associada a estilos de vida mais saudáveis, quer a exigir aos profissionais de saúde que habilitassem os doentes a tratar o medicamento como deve ser – vende-se numa atividade comercial, mas deve ser sempre dispensado com conselho, seja medicamento prescrito ou não prescrito.

Mas posso compreender que esta reforma de Estado não seja um elefante que se corta às postas, não dá lucros imediatos, nem melhora o cash-flow das empresas, apesar de vinte anos depois da portentosa reforma de Estado de Sócrates o ganho está nos supermercados (isto, sem prejuízo do consumidor e utente de saúde ter alguns ganhos na caixa registadora do supermercado). 


                                                                            Mário Beja Santos





sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A Tale of Two Cities.

 


Foram tempos magníficos, foram tempos tenebrosos, foi a era da sabedoria, foi a era da estultícia, foi a época das convicções, foi a época da incredulidade, foi a idade da luz, foi a idade das trevas, foi a Primavera da esperança, foi o Inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós,  nada tínhamos diante de nós, íamos todos direitos para o Céu, íamos todos direitos em sentido contrário – em suma, aquela época assemelhava-se tanto à presente que algumas das suas eminências mais exuberantes insistiam que apenas a poderíamos adjectivar, para o bem ou para o mal, lançando mão do grau superlativo.


Charles Dickens, História em Duas Cidades, 1859




   

sexta-feira, 26 de julho de 2024

As cinquenta tonalidades dos elefantes olímpicos

 

As cinquenta tonalidades dos elefantes olímpicos


A publicação em Portugal do livro Jogos de Poder, do investigador e ex-atleta olímpico Jules Boykoff, é apenas o mais recente capítulo de uma longa lista de denúncias sobre o problemático universo das Olimpíadas, nomeadamente ao nível dos muitos “elefantes brancos” deixados em herança às cidades organizadoras. Mas se agora tendemos – e bem! – a olhar com desconfiança o fenómeno dos Jogos, mais importante se torna sublinhar que nem só da cor da neve se fez este reino de paquidermes.

 



Se o caldeirão olímpico falasse ou, mais bem dito, cantasse, à semelhança dos seus primos saídos das histórias de bruxas, talvez se sentisse tentado a recorrer, no momento em que a tocha se aproxima, ao Dá-me Lume de Jorge Palma, marcando assim, com um toque de humor, o ponto alto da cerimónia de abertura, ela própria, por sua vez, muito provavelmente o ponto alto de qualquer edição dos Jogos Olímpicos. Sendo Paris a cidade anfitriã da próxima, seria certamente um bom momento para os largos milhares de portugueses que, misturados nas quinhentas mil pessoas previstas nos números da organização, irão assistir, ao vivo, à grande inovação desta XXXIII Olimpíada: a transferência, pela primeira vez, do interior de um estádio para um genuíno ambiente urbano, da sempre espectacular inauguração do evento.

Conjugar esta surpreendente decisão – tomada sob o signo da abertura popular e da facilidade de acesso, e considerada tão relevante que foi dada a conhecer ao mundo através do Presidente Macron lui-même – com a da não construção de um estádio olímpico de raiz – optando-se, ao invés, por utilizar o Stade de France, um equipamento em funcionamento regular desde o Campeonato do Mundo de Futebol de 1998 –, deu origem a um coro de elogios, proferidos dentro e fora do Hexágono, que revelou bem o cansaço de largas parcelas da sociedade (e das respectivas carteiras) com a multiplicação de “elefantes brancos”, uma espécie que nunca correu qualquer risco de extinção desde que se mostrou ao mundo (eventualmente na forma de Torre de Babel) e que costuma encontrar na ecologia dos grandes eventos condições óptimas de reprodução.

De facto, depois de décadas a ler notícias e a ver imagens de instalações olímpicas abandonadas, das piscinas extraordinárias e caríssimas cuja água nem ao Natal seguinte chega até aos pavilhões outrora resplandecentes engolidos pelo mato logo na primeira Primavera, não é de estranhar que os contribuintes – e mesmo quem não contribui – fiquem aliviados por saber que a organização de uns Jogos, preocupada com o futuro e consciente das experiências passadas, pretende evitar “gigantismos” e aposta na contenção dos egos e dos custos que os costumam suportar. Quando essa filosofia de sobriedade mostra a sua força em Paris, uma cidade normalmente obcecada com a grandeur, junta-se ao alívio a surpresa: se até a capital de Luís XIV, Napoleão, Charles de Gaulle e Mitterrand, sede de um vasto Clube das Inutilidades Magníficas com sócios do jaez do Grande Arche de La Défense (300 mil toneladas de vaidade em forma de betão, vidro e mármore), começa a perceber as vicissitudes financeiras e ambientais da pompa, então há esperança para a tão debatida sustentabilidade do mundo.

Posto isto, que não é pouco e muito menos irrelevante, talvez seja igualmente justo sublinhar, numa subjectiva e discutível tentativa de separar o trigo do joio, que nem todos os milhões, ou biliões, quiçá triliões gastos em 128 anos e 32 edições das Olimpíadas modernas tomaram a forma de escandaloso desperdício, um pouco como se os estádios, sem excepção, aproveitando-se do seu design, tivessem assumido o papel de gigantes retretes onde lunáticos e perdulários decisores despejaram sem tino nem proveito camiões e camiões de dinheiro. Sobre esses casos, quase incontáveis, não há falta de relatos e de falatório. Quanto aos outros, os que honraram a despesa com uma obra marcante, muitas vezes revolucionária e ainda em usufruto, têm sido mais raras as crónicas, pelo menos nos últimos anos, uma realidade algo injusta que merece reparação.

 

776 a.C.



A chama que irá “dar lume” ao caldeirão parisiense, e que se encontra neste momento na parte final de uma viagem de 101 dias e 10 000 “passagens de testemunho”, foi acesa no passado mês de Abril em Olympia, a cidade grega localizada no Peloponeso onde toda esta alegre confusão teve início. Cumprindo a lei de ferro dos eventos, chegámos, entretanto, às três dezenas de modalidades e dez milhares de atletas, mas nesse longínquo ano de 776 a.C., quando ocorreu a primeira edição, tudo se resumia a uma corrida a pé entre duas pedras, afastadas entre elas, ao que parece, 192 metros. A essa distância se deu o nome de stadion, palavra que foi em simultâneo utilizada – não sabemos se por falta de inspiração, preguiça ou simplificação comunicacional – para baptizar a prova em si e também a pista onde foi disputada, uma construção simples que ainda lá se encontra, ao lado de várias outras antiguidades em ruínas (nomeadamente o Templo de Zeus, casa da desaparecida estátua esculpida por Fídias, uma das sete maravilhas do mundo), todas obviamente inscritas na lista de Património Mundial da UNESCO.

Pai de todos os estádios, incluindo do Municipal de Braga, cujo custo total de 192 milhões de euros poderá ter sido uma homenagem à unidade de medida acima referida, o stadion de Olympia foi utilizado regularmente até 393 d.C., ano em que o Imperador Teodósio, entre outras medidas de combate ao paganismo, decretou o fim da versão 1.0 dos Jogos Olímpicos. Se estes onze séculos de perseverança dos materiais seriam já um excelente indicador ao nível da amortização do investimento na infra-estrutura desportiva, perdoe-se o jargão económico, melhor ficaram os rácios quando os responsáveis por Atenas 2004 decidiram lá fazer a prova de lançamento do peso, aumentando a vida útil do recinto para uns invejáveis 2780 anos, marca apenas superada pela vida útil do defesa central Képler Laveran Lima Ferreira, mais conhecido por Pepe. A responsabilidade pelo complicado legado desses J.O. na capital grega, que cumprem agora o 20.º aniversário, terá, pois, de ser procurada noutro lugar, a começar talvez na cobertura de 256 milhões de euros idealizada por Santiago Calatrava para o estádio principal, e que se encontra, neste momento, interdita por risco de colapso.

Não tendo sorte com as construções recentes, a Grécia, numa daquelas ironias que talvez lá tenham sido representadas teatralmente pela primeira vez, parece ter boa fortuna com as antigas. É que além do complexo de Olympia, algo deslocado neste texto por não estar directamente relacionado com as Olimpíadas da era moderna, alberga também nas suas fronteiras o Panatenaico, um estádio que nasceu em Atenas ainda na Antiguidade, sendo depois progressivamente abandonado até à ruína, com o mármore que o compunha a ser roubado e utilizado noutras obras por empreiteiros dinâmicos e com espírito de iniciativa, espécie rara mas que de vez em quando aparece, e vendo algumas das suas maravilhas a emigrarem, como por exemplo o Trono de Biel, exposto actualmente no Museu Britânico. Entretanto, após extensos trabalhos arqueológicos desenvolvidos durante o séc. XIX, o Panatenaico é totalmente reconstruído com o famoso e nobilíssimo mármore branco do Monte Pentélico, o mesmo que faz brilhar o Pártenon à luz do tórrido sol grego, numa operação milionária patrocinada por homens de negócios de bolsos fundos que tinha em vista os J.O. de 1896, ou seja, os primeiros da modernidade. Agora que caminhamos para os trigésimos terceiros, parece justo reconhecer, a título de balanço, que o Kallimarmaro (“beleza em mármore”), nome pelo qual também é conhecido, se portou bem, aguentando décadas de eventos variados, inspirando, com o seu misterioso túnel de acesso e com a sua simplicidade clássica em forma de ferradura, vários arquitectos, incluindo alguns pouco recomendáveis como o nazi Speer, e, aspecto importante, sem nunca ter tido qualquer problema com a cobertura, eventualmente pela prosaica razão de não ter nenhuma.

 

 


(Estádio Panatenaico)

 

 

Oito anos depois, em St. Louis, Missouri, continuaram bem tramados os carecas, sujeitos aos escaldões pela igual falta de um tecto. Por outro lado, desviando a atenção para o que estava debaixo deles, puderam desfrutar dos Jogos em grande segurança estrutural, uma vez que as bancadas foram construídas com a então inovadora tecnologia do betão armado, nessa época em fase de desenvolvimento. A aposta, imbuída de pioneirismo, foi ganha, e ainda hoje lá nos podemos sentar para assistir a jogos ou a provas de atletismo, o mesmo acontecendo com o vizinho Francis Gymnasium, um espaço que, além da prática desportiva, costuma ser escolhido para acolher os debates entre candidatos a Presidente dos Estados Unidos, sempre excelentes oportunidades para se trocarem juízos sobre bons e maus investimentos.

Os mais atentos terão reparado que Paris 1900 não foi referido, algo que acontecerá também com Londres 1908 e com mais uma ou outra edição, pois em não havendo obra marcante ou duradoura, ou, quem sabe, havendo ignorância do signatário sobre obra que afinal até tenha existido, delas se guardará de Conrado o prudente silêncio. Não é porém o caso dos Jogos de Estocolmo (1912), Paris (1924) e Amesterdão (1928), todos merecedores de alguma atenção, quer pela perenidade geral dos estádios que os acolheram, os três ainda no activo, quer por algumas particularidades dignas de nota: o recinto sueco, sendo dos mais pequenos de sempre, foi um dos que mais recordes do mundo viu serem batidos na história do atletismo, numa excelente demonstração da máxima “less is more”; o francês, construído sob uma apertadíssima restrição financeira, conseguiu proteger os carecas do sol com uma desafiante cobertura de ferro suportada por apoios mínimos, demonstrando dotes de engenharia (civil e financeira) que podem ainda ser apreciados, uma vez que o estádio, exactamente 100 anos depois, será um dos palcos de Paris 2024; o holandês (ou será paísbaixês?), esse, saído do estirador de Jan Wils, arquitecto fundador, na companhia de Mondrian, van Doesburg e Gerrit Rietveld, do grupo De Stijl, seria, só pelo génio do criador, um lugar a ter em conta – não por ser um exemplo desse movimento marcado pela ortogonalidade e forma cúbica revestida a cores primárias, mas por representar a “outra vida” de Wils, ligada ao expressionismo do tijolo vermelho característico da “Escola de Amesterdão”. Ademais, pormenor decisivo, foi dele a ideia de fazer renascer a chama olímpica da antiguidade grega, tendo construído uma elegante e grandiosa torre para servir de “castiçal”, embelezando ainda mais um estádio já de si lindíssimo – que o digam os benfiquistas, que de lá trouxeram, numa época pré-maldição, a sua segunda taça de campeões europeus.

 



(Estádio Olímpico de Amesterdão)

 

 

Mania das grandezas

E eis-nos assim chegados à década de 30 e aos dois colossos que a marcaram, um deles sob o signo do espanto e optimismo, por ter sido possível ao engenho humano de uma nação construir tal poderosa maravilha, o outro sob o signo do espanto e pessimismo, por ter sido possível ao engenho humano de uma nação construir tal poderosa maravilha. A diferença? O gigantismo de Los Angeles 1932 era patrocinado por uma democracia liberal consolidada, com as suas virtudes e defeitos bem conhecidos de todo o mundo; o outro, de Berlim 1936, era um projecto de poder de um sistema político misterioso instituído três anos antes, um regime que se apoiava numa ideologia nazista ainda pouco transparente quanto às suas verdadeiras intenções, mas da qual o que se ia sabendo não augurava nada de bom.

À parte isso, o assombro. Cem mil lugares – uma escala nunca vista – em ambos os casos; noventa portões de acesso no de L.A., permitindo uma evacuação total em pouco mais de 15 minutos; uma capacidade logística no de Berlim que garantia conseguir enchê-lo, compra dos bilhetes incluída, enquanto o Diabo – ou o próprio Hitler – esfregava um olho. Em relação à durabilidade, nada parece haver a apontar: o recinto californiano, que recebeu Carlos Lopes no final dos 42.195 metros do nosso contentamento, já acolheu as Olimpíadas de 1932, as de 1984, e prepara-se agora para uma nova aventura em 2028, colocando a fasquia das reutilizações num nível difícil de ultrapassar; o intimidante palco germânico, por seu lado, não durará certamente, à semelhança do III Reich, os mil anos previstos pelos megalómanos nazis, mas lá continua de pedra (muita) e cal (pouca), após várias renovações, muitas provas de atletismo, nomeadamente um campeonato do mundo, e centenas de jogos de futebol, incluindo dois mundiais da FIFA, um deles, em 2006, com direito a uma histórica cabeçada de Zidane.

 


(Parque Olímpico de Berlim)

 

Desviando-nos substancialmente da linha do tempo, num salto importante para perceber um contraste revelador, importa falar sem delongas de Munique 72, os segundos Jogos realizados na Alemanha, tristemente célebres pelo atentado terrorista contra a delegação de Israel, mas arquitectonicamente felizes pelo sublime trabalho de Günter Behnisch, Frei Otto (que era também engenheiro) e Günther Grzimek, paisagista responsável por implantar na capital da Baviera um parque exemplificativo do seu conceito de “verde democrático”. Construído especificamente para servir de antítese à experiência nacional-socialista de 1936 – projectar poder através de formas neoclássicas de rigorosa geometria e de pesadas placas de pedra aparelhada –, o Parque Olímpico de Munique é um prodígio de leveza e de abertura, e o estádio nele plantado (é a palavra certa, pois está significativamente enterrado no terreno), com a sua delicada cobertura ondulada, é uma obra tão bem feita que consegue até disfarçar a tremenda complexidade técnica e consequente inovação estrutural que permitiram a sua existência. Imitando uma teia de aranha, caso as aranhas fossem do tamanho de dinossauros, a “tenda”, que cobre uma larga parcela dos equipamentos desportivos, precisou de 436 km de cabos de aço para garantir a própria sobrevivência contra ventos e nevões, uma membrana protectora de milhares de metros quadrados de um arrojo poucas vezes visto, embora nada esmagador por estar sabiamente harmonizado com colinas, lagos e árvores. O que esmagou, claro, foi o custo da brincadeira, sacos carregados com o poderoso marco alemão a caminho do bolso dos empreiteiros que ergueram a canópia, movimentaram milhões de metros cúbicos de terra e executaram as fundações com quase 40 metros de profundidade, e dos muitos engenheiros, técnicos e cientistas que tudo isto possibilitaram a partir de laboratórios e centros de investigação. Em sua defesa, porém, diga-se que na História da Humanidade em geral, e na dos J.O. em particular, já se gastou bem mais em coisas bem menos fabulosas.

 



(Parque Olímpico de Munique)

 

 

O desastre

Sem nos afastarmos muito, cronologicamente falando, basta avançar uma edição, para Montreal 76, rumo a um dos maiores desastres financeiros – e não só – de sempre. Os admiradores do projecto, tentando equilibrar a balança, não deixarão de referir a monumental torre inclinada, responsável por gerir a abertura e fecho da cobertura do estádio, e, sem dúvida, um dos símbolos mais visíveis e reconhecíveis da cidade actualmente. Impressiona, de facto, mas não tanto como as fotografias da cerimónia de abertura, onde no lugar da torre se veem apenas gruas e pontas de varões de aço, símbolos inconfundíveis de obras não terminadas. A dita-cuja chegou mais tarde, mais concretamente em 1988, com um ligeiro atraso de três Olimpíadas, e continuou a ser paga até 2006, com um ligeiro desvio orçamental de 1300%. Valeu a pena, todavia, pois ainda se conseguiu abrir e fechar o tal tecto umas dezenas de vezes, antes de se tornarem tão evidentes os problemas que não restou outra opção senão trocá-lo por outro, solução que durou até o tal outro, por sua vez, começar também a dar problemas, e assim sucessivamente, numa novela que, 48 anos volvidos, continua em exibição, montada num argumento que incluiu corrupção, caos no estaleiro, greves infindáveis, atletas olímpicos misturados com trolhas que tentavam desesperadamente “segurar as pontas”, desmoronamentos de pedaços de betão com várias toneladas, feridos, processos em tribunal, incêndios, falhas estruturais, e a quase falência do município. Com a cidade ainda dividida entre aqueles, pessimistas, cujo derradeiro sonho é a demolição do paquiderme, e os restantes, optimistas, que acreditam que tudo acabará por correr bem se continuarem, ad aeternum, a regá-lo com dinheiro, é provável sermos ainda presenteados, durante muito tempo, com a única herança evidente e indiscutível destes Jogos, a saber: as anedotas.

 


(Estádio Olímpico de Montreal com uma cobertura)

 



(Estádio Olímpico de Montreal com outra cobertura, em direcção a mais uma, e assim sucessivamente)

 

 

Comparadas com Montreal, as restantes barracadas olímpicas, por maiores que tenham sido, parecem sempre diminutas e aceitáveis, no mínimo passíveis de contraditório. Por isso, e também pela promessa inicial de concentrarmos a atenção nas edições que equilibraram minimamente os custos com um legado decente, passemos ao de leve pelo património de Moscovo 80 (o estádio Lenine, que entretanto foi rebaptizado como Luzhniki, conta apenas com a fachada original, pois tudo o resto foi demolido e reconstruído para o FIFA 2018; e sendo essa fachada, em estilo neoclássico, um derivado fora de prazo do Olímpico de Berlim, não teria vindo mal nenhum ao mundo se tivessem deitado tudo abaixo); e de Seoul 88 (uma obra interessante, de um arquitecto interessante, onde nada de interessante se passou desde a cerimónia de encerramento); e de Atlanta 96 (um estádio sem interesse nenhum, substituído logo em 1997 por outro, também sem interesse nenhum, e entretanto por um terceiro – sim, adivinharam – igualmente desinteressante; como todas estas metamorfoses foram planeadas e orçamentadas por americanos, é provável que o legado financeiro não tenha sido mau, mas o patrimonial, esse, não existe); e de Londres 2012 (é verdade que o neofuturista Centro Aquático da arquitecta Zaha Hadid, estrela mundial da arte do estirador, primeira mulher a receber o Pritzker, “rainha da curva” e de muitas outras designações elogiosas, é, de facto, um magnífico exemplar da “WOW! architecture”, e talvez seja até, como referiu à época o Presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), uma obra-prima, mas os orçamentistas conseguiram meter tanta água como as próprias piscinas, e a brincadeira derrapou até aos 300 milhões de euros, um valor que só se justificaria se os atletas tivessem exigido nadar em champanhe francês); e do Rio 2016 (“OLIM(PIADA)”, escreveu um brasileiro anónimo numa vedação do Parque Olímpico, dando à luz um resumo provavelmente mais certeiro do que injusto); e, por último, de Tóquio 2020, um caso que se compreende melhor a partir da anterior edição nipónica, quase seis décadas antes e na mesma cidade: os Jogos de 1964.

 


(Centro Aquático de Londres)

 


Não parecem existir grandes dúvidas de que a boa vontade de cidadãos e contribuintes em relação à organização de Olimpíadas tem vindo a diminuir, uma disposição mental que provoca a redução do número de cidades candidatas e a multiplicação de acções de protesto contra quem se chega à frente. O escrutínio cada vez mais intenso e profissional, responsável por boa parte deste estado de espírito, levanta, contudo, problemas de comparação entre iniciativas recentes e iniciativas antigas, quando o exame das relações de custo-benefício por parte de jornalistas, investigadores ou activistas não era tão desconfiado e minucioso.

Salta, porém, à vista, mesmo aceitando que os japoneses de 1964 gostavam tanto de desperdiçar dinheiro como os seus descendentes de 2020, que antigamente o desperdiçavam melhor. A Arena Budokan e, principalmente, o Pavilhão Yoyogi, da autoria de Kenzo Tange, ambos intensivamente utilizados durante os últimos 60 anos, são obras emblemáticas da arquitectura do Japão, não sendo exagero atribuir à segunda o estatuto de prodígio estético e estrutural. Tange era um conhecedor profundo da tradição japonesa e também um entusiasta do Modernismo, pelo que abordou o equipamento olímpico com as mais avançadas tecnologias construtivas disponíveis (que lhe permitiram erguer o maior espaço coberto sem pilares jamais visto), inspirando-se todavia nos templos xintoístas para desenhar as suas linhas onduladas e arrojadíssimas coberturas, quase uma “pele” suspensa numa rede de cabos de aço.

 

(Pavilhão Yoyogi, Tóquio)

 

 

Também em Roma, quatro anos antes, e na Cidade do México, quatro anos depois, foi o mundo presenteado com vasta perícia e refinado gosto. Nas Américas, sob a orientação de Augusto Pérez Palacios, um arquitecto atento à importância de valorizar os edifícios através da articulação entre as várias disciplinas das belas-artes, o Estádio Olímpico em forma de cratera, precursor da pista de atletismo em tartan, espantou tanto o povo como as elites, homenageando a cultura e a geologia locais com a utilização de rochas vulcânicas como material de construção, numa inspirada referência que transformou os atletas em personagens quase literais do romance Debaixo do Vulcão de Malcolm Lowry. A cereja em cima do bolo, colocada pelo volumoso Diego Rivera, um artista que sem dúvida gostava de doces, consistiu num extraordinário relevo cuja imponente dimensão só não é maior devido à interrupção dos trabalhos por morte do muralista. Integrado na principal cidade universitária mexicana, o estádio, em conjunto com muitas outras obras do campus, foi devidamente reconhecido pela UNESCO, no ano de 2007, como Património da Humanidade. Quanto aos jogos romanos de 1960, destacou-se Pier Luigi Nervi com o seu domínio absoluto da arte do betão armado. O Palazzetto dello Sport não é o único filho olímpico do inovador e patenteado “Sistema Nervi”, mas é possivelmente o mais elegante, com a sua cúpula em infinitos losangos, assinatura de autor admirada e reconhecida em qualquer faculdade de engenharia ou arquitectura do mundo. Um Panteão do séc. XX, construído em tempo recorde graças ao revolucionário método de pré-fabricação, e com um custo total de 263 milhões de liras, mais ou menos o preço actual de um gelado numa esplanada da Piazza Navona. A vizinhança, essa, é complicada, constituída pelos edifícios desportivos que Enrico Del Debbio, Luigi Moretti e Costantino Costantini, sob as ordens de Mussolini, projectaram no Foro Italico para servir a candidatura da capital italiana à organização dos J.O. de 1940 (que nunca chegaram a ocorrer por causa da II Guerra Mundial). Utilizados 20 anos depois, a complicação não deriva da falta de beleza, grandeza ou funcionalidade, mas sim, pelo contrário, do excesso dessas características num ambiente de manifesta estética fascista. Perante as estátuas do Stadio dei Marmi ou a piscina coberta do Palazzo delle Terme, entre toneladas de carrara e travertino, não há maneira de escapar ao fascinating fascism, título do ensaio que Susan Sontag, pensando em artistas como Leni Riefenstahl, escreveu em 1975.

 

 


(Estádio Olímpico Universitário, Cidade do México)

 


(Palazzetto dello Sport, Roma)

 


(Stadio dei Marmi, Roma)

 


(Palazzo delle Terme, Roma)

 

 

Os Jogos da Austeridade

Traumatizados que estamos com as derivas perdulárias, em alguns casos na ordem das dezenas de milhares de milhões de dólares, facilmente esquecemos que estas, embora caracterizem boa parte dos 128 anos de Olimpíadas modernas, não os representam na totalidade. Em Helsínquia 52, por exemplo, parecem ter tido lugar uns Jogos modestos e eficientes, com o Estado a assegurar o financiamento de infra-estruturas de longo prazo (vias rápidas, ferrovias, um novo aeroporto, tudo ainda em pleno funcionamento) e a receita dos bilhetes e da publicidade a ser encaminhada para as restantes despesas. E o legado patrimonial, bem amparado na solidez intemporal do melhor funcionalismo vanguardista nórdico, está ainda de óptima saúde, não obstante a esbelta torre do Estádio Olímpico, durante décadas um símbolo da Finlândia independente e moderna, poder agora ser vista, à luz dos irritantes novos códigos de conduta, como uma manifestação de “masculinidade tóxica”.

 



 

Já em 1956, pelo contrário, a “toxicidade” dos machos tinha amplo apoio e carinho popular, razão pela qual um jogo de pólo aquático entre a invasora URSS e a invadida Hungria ficou para sempre na memória colectiva, comentado com respeito e admiração apesar de ter consistido numa manifestação de orgulho ferido vingado ao soco e ao pontapé. O “ringue” onde tudo se passou, e que era afinal uma piscina radicalmente original ao nível estético e estrutural, ainda lá está, reconhecido pelos australianos como uma herança valiosa das Olimpíadas de Melbourne, um equipamento em forma de pirâmide invertida cuja firmeza ficou definitivamente provada no tumulto com que os milhares de adeptos nas bancadas responderam ao “banho de sangue” proporcionado por soviéticos e húngaros. Ademais, construído no espírito do minimalismo de materiais, não pesou muito no bolso dos contribuintes, tendo sido mais caro, contudo, do que o somatório financeiro de todas as instalações desportivas inauguradas em Londres no ano de 1948: exactamente zero libras.

 


(Centro Aquático de Melbourne)

 

A cidade inglesa, na ressaca da guerra, optou por não construir nada de raiz, limitando-se a adaptar o edificado já existente, às vezes com um espírito de desenrascanço bem português, como quando foi colocada uma plataforma de madeira na piscina, que tinha 60 metros de comprimento, conseguindo assim encurtá-la para os 50 metros regulamentares. Não satisfeitos, assim que as provas de natação terminaram, com nítido domínio americano, encaixaram mais uns estrados em cima da água e deram início à competição de boxe, não à maneira do que viria a ser informalmente praticado em 1956 no centro aquático de Melbourne, mas rigorosamente de acordo com o previsto nos códigos desportivos.

Para a história ficou o epíteto de “Jogos da Austeridade” e Wembley, inaugurado em 1923 como Estádio do Império, serviu como sede do evento, tendo ainda aguentado mais meio século antes de se ver substituído por um dos expoentes da megalomania contemporânea, o The New Wembley, um dos campos da bola mais caros de sempre, com um custo de construção que daria para levantar do chão 10 estádios da Luz, e que ainda assim parece barato quando comparado com o rei do esbanjamento, o americano SoFi Stadium, orçamentado no valor de 35 (trinta-e-cinco!) recintos iguais ao utilizado pelo Benfica. Em princípio vamos vê-lo em L.A. 2028, mas, como se trata de um investimento privado, talvez não dê origem a demasiada contestação. Semelhante sossego também se sentiu em Pequim 2008, não por falta de estrondoso dispêndio público, mas eventualmente por falta de paciência das autoridades para níveis de ruído acima dos 30 decibéis de um murmúrio. O Estádio “Ninho de Pássaro”, esse, custou menos de 500 milhões de dólares, o que até parece pouco para essa soberba floresta de aço saída da imaginação da prestigiada dupla Herzog & de Meuron com a consultoria do artista Ai Weiwei, entretanto caído em desgraça junto do governo chinês, arriscando virar Wei AiAi, e que lamenta agora ter participado no projecto, actualmente um “elefante branco” com pouca utilidade prática, embora tão bonito e espectacular que se transformou numa atracção turística capaz de mobilizar milhões de visitantes por ano.

Foi talvez por falta de amor a essa espécie animal da família dos esbanjadoris maximus que a organização de Barcelona 92, um projecto maturado durante mais de meio século, aplicou todos os seus neurónios no desenvolvimento de um modelo diferente, desde essa altura utilizado pelo COI para responder aos múltiplos ataques de que é alvo por parte dos inúmeros críticos dos megaeventos em geral e das operações olímpicas em particular. Há certamente algum exagero nos elogios dirigidos à capital catalã, que também recorreu ao habitual esquema da suborçamentação prévia seguida de derrapagens póstumas, bem como a uma distribuição não equitativa dos benefícios do acontecimento. Ainda assim, tudo pesado e medido, parece ter sido de facto uma oportunidade devidamente aproveitada para melhorar a cidade no seu conjunto, da “criação” de uma imensa frente de praia à demolição de instalações industriais abandonadas, da renovação do sistema de transportes à limpeza de rios e construção de modernos sistemas de esgotos. Legado patrimonial relevante inaugurado propositadamente para as competições, talvez apenas o Palau Sant Jordi, uma arena multiúso desenhada pelo japonês Arata Isozaki, discípulo de Kenzo Tange e vencedor, tal como o seu mestre, do prémio Pritzker. Quanto ao resto da herança, sobressai a subida galopante de Barcelona nos rankings internacionais de turismo, para alegria de muitos e tristeza de outros tantos.

Considerados por várias personalidades como “os melhores de sempre”, os J.O. de 1992 não conseguiram reter esse título por muito tempo, não por culpa própria, sublinhe-se, mas devido à volatilidade do elogio, sempre pronto a voar, na companhia dos figurões olímpicos, para as edições seguintes. Foi assim que em Sydney, oito anos volvidos, Juan Antonio Samaranch, Presidente do COI, presenteou os australianos com o mesmo estribilho, num discurso que só foi bem recebido pelos locais porque estes o ouviram antes da conta de vários milhares de milhões de dólares ter chegado às suas casas na forma de impostos.

 

Pentatlo das Musas

Nas edições olímpicas da primeira metade do século XX, além dos prémios desportivos, eram também atribuídas medalhas a quem se destacava no mundo das artes, fosse na literatura e na música, fosse na pintura, escultura ou arquitectura. A manter-se essa extraordinária competição, Jørn Utzon, que desenhou a Ópera de Sydney, teria certamente ganho uma medalha de ouro na década de 70, quando essa obra foi inaugurada, isto apesar do seu custo astronómico, do atraso de 10 anos na construção, e da derrapagem orçamental de 1400%. Em certo sentido, podemos especular que não foi o despesismo olímpico que irritou os contribuintes da Austrália no ano 2000, mas sim o facto de esse despesismo, ao contrário do que aconteceu com a Ópera de Utzon, não se ter traduzido em algo que suscitasse espanto e deslumbramento por muito tempo, eventualmente para sempre. Nos campos charmosos das Inutilidades Magníficas, há pouco adubo disponível para o crescimento da exaustão fiscal.

A publicação em Portugal do livro Jogos de Poder, do investigador e ex-atleta olímpico Jules Boykoff (edição Zigurate, 2024), é apenas o mais recente capítulo de uma longa lista de denúncias sobre o problemático universo das Olimpíadas, nomeadamente ao nível dos muitos “elefantes brancos” deixados em herança às cidades organizadoras. Mas se agora tendemos – e bem! – a olhar com desconfiança o fenómeno dos Jogos, mais importante se torna sublinhar duas coisas: nem só de albinos se fez este reino de paquidermes, e de quando em quando, estranhamente ou talvez não, até esses dispendiosos exemplares da cor da neve conseguem a proeza de nos encantar.

 

                                                                            Sérgio Barreto Costa

 

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Carta de Bruxelas - 13.

 


 

 

                                                                              Chapéus há muitos

 


Já eram bastantes. Havia o idiota desinformado, que aprecia lenços, cerveja, convívio e um protestozinho contra qualquer coisa que imagina vagamente ser o sistema. Julga-se de esquerda. Havia o engagé, que milita e milita e continuará a militar. Por isso já foi militante, hoje é activista. Sempre de esquerda, sempre de boa consciência moral, sempre atrás do progresso. E lá vai ele pela arreata da História. Na versão sonsa, emite uns sim, mas; por um lado, por outro lado; compreende as duas partes, mas dá razão sempre à mesma. Uma espécie de quod erat demonstrandum, envergonhadito -- na melhor das hipóteses. Havia o repugnante, costuma ser comunista, que toma partido assolapadamente, justifica todas as violências contra Israel e os israelitas com grande fausto de palavras e indignação -- depois janta bem e ceia melhor. Para compor o ramalhete anti-semita, faltava o maluquinho, de obediência neo-fascistóide. Agora já não falta.

 

                                                                        João Tiago Proença





segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Bruxelas, 22 de Outubro de 2023.













A palavra de ordem era "free, free Palestine; boycott Israel". Para esta gente, a última parte vem em primeiro lugar. O resto é fogo de vista.

 

                                                                                            João Tiago Proença