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domingo, 11 de maio de 2025

Ensaios Policiais, de João Eloy.

 








aqui falei das Memórias de João Eloy, primorosamente preparadas pelos seus descendentes, Maria Madalena Eloy e Pedro Eloy.

          Este livro é, por assim dizer, a continuação do anterior, mantendo-se o seu óbvio e manifesto interesse histórico.

Diante de nós desfila a criminalidade lisboeta dos tempos da República, histórias de homicidas e curandeiros, de pornografia, de prostituição infantil, da perseguição aos homossexuais, então chamados «invertidos». E um capítulo fabuloso sobre a prática da «empenhoca», ou seja, da cunha, matéria também versada, por exemplo, em Memórias de um Chefe de Gabinete, de Tomás da Fonseca.

          É tempo, é mais do que tempo, de diversos investigadores se juntarem para fazer uma história do crime na Belle Époque portuguesa, prosseguindo depois pelos anos 1920 e pelo Estado Novo adentro. Há muita gente com trabalho feito, Maria João Vaz, Diego Palacios Cerezales, Gonçalo Rocha Gonçalves, Luís Bigotte Chorão, Tiago Pires Marques, Leonor Sá, Paulo Guinote, just to name a few. Só falta uma instituição universitária ou um editor esclarecido para concretizar este projecto, que sem dúvida teria enorme êxito junto do grande público.

          Até lá, fiquemos com estes Ensaios de João Eloy, imprescindíveis para reconstruir as luzes e as sombras das nossas polícias, dos nossos ladrões e, no fundo, do que fomos e, em parte, em boa parte, ainda somos.


                                                                                                António Araújo


 

sábado, 18 de julho de 2020

Skittles.






Nunca soube muito bem como é que se começa um texto a falar de assuntos sérios. Estas pessoas são amostras marcantes do excesso de força da polícia nos Estados Unidos.

Breonna Taylor, Trayvon Martin, Elijah McClain e Michael Marshall sofreram deste abuso de poder e infelizmente nem todos tiveram justiça.


Breonna Taylor morreu a 13 de março de 2020 com 26 anos. Três polícias entraram no apartamento dela e o namorado de Breonna pensava que eram ladrões e disparou. Os polícias dispararam 23 vezes, matando Breonna com 8 tiros e continuam livres.

Trayvon Martin morreu com 17 anos no dia 26 de fevereiro de 2012. George Zimmerman, um polícia, achou que ele tinha uma arma e disparou contra Trayvon e depois sim revistou-o e encontrou um pacote de Skittles. George Zimmerman em 2018 assinava pacotes de Skittles como se aquela morte fosse um orgulho.

Elijah McClain foi morto com 23 anos no dia 24 de agosto de 2019. Nesse dia, uma mulher ligou para a polícia a reportar um homem que andava na rua com uma máscara. A polícia, mal encontrou Elijah, deteve-o. Passado 15 minutos, os polícias deitaram McClain no chão e injectaram-no com ketamine. Elijah McClain foi enviado para o hospital mas acabou por morrer devido a esta substância.

Michael Marshall morreu dia 7 de novembro de 2015 após ser detido pela polícia. Michael tinha doenças mentais e já na esquadra teve um episódio psicótico. Os polícias pensaram que ele estava a resistir e derrubaram no, encostando a cara dele no chão durante 13 minutos. Michael acabou por vomitar passados 3 minutos de estar deitado e morreu sufocado no seu próprio vómito.

Todas mortes trágicas e desnecessárias causadas por excesso de poder.

Black Lives Matter não foi uma moda mas sim um pedido de ajuda a todos nós.


Joana Araújo












terça-feira, 7 de julho de 2020

Não insultem a memória.





Há coisas que parecem mentira, mas não são.

A crer nas notícias, a próxima directora do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade vai ser Rita Rato Fonseca, ex-deputada do PCP.

Irá substituir o reputado historiador Luís Farinha, que alcançou a idade da reforma, com uma vida dedicada ao estudo da História, em particular sobre o período do Estado Novo.

Agora, perguntais e bem: porquê, Rita Rato? Sim, porquê Rita Rato?

Tem formação académica ou outra em História? Nop.  

Tem obra publicada ou investigação feita nesse domínio? Nada, absolutamente nada.

Tem alguma experiência curricular para o cargo? Niet, nenhnuma, zero.

Então que tem ela, além de uma tremenda lata?

Tem, sem dúvida, uma apreciável dose de ignorância histórica a seu lado.

Mais, Rita Rato, tal qual os alunos cábulas, não sabe História e não se interessa por aprender História.

Uma vez, perguntaram-lhe sobre os crimes do estalinismo. Respondeu a jovem deputada... ouçamo-la, vale a pena:

- Como olha para os erros do passado cometidos por alguns partidos comunistas do Leste europeu?
- O PCP, depois do fim da URSS, fez um congresso extraordinário para analisar essa questão. Apesar dos erros cometidos, não se pode abafar os avanços económicos, sociais, culturais, políticos, que existiram na URSS.
- Houve experiências traumáticas...
- A avaliação que fazemos é que os erros que foram cometidos não podem apagar a grandeza do que foi feito de bom.
- Como encara os campos de trabalhos forçados, denominados gulags, nos quais morreram milhares de pessoas?
- Não sou capaz de lhe responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso.
- Mas foi bem documentado...
- Por isso mesmo, admito que possa ter acontecido essa experiência.
- Mas não sentiu curiosidade em descobrir mais?
- Sim, mas sinto necessidade de saber mais sobre tanta outra coisa...

Tinha ela 26 anos, a licenciatura feita em Ciência Política e Relações Internacionais e, pasme-se, nunca tinha ouvido falar do estalinismo e dos seus crimes. Acreditam? 

Questionaram-na também sobre a China. De novo, a ignorância evasiva, obviamente comprometida e de má-fé:
- Concorda com o modelo que está a ser seguido na China pelo PCC?
- Pessoalmente, não tenho que concordar nem discordar, não sou chinesa. Concordo com as linhas de desenvolvimento económico e social que o PCP traça para o nosso país. Nós não nos imiscuímos na vida interna dos outros partidos.
- Mas se falarmos de atropelos aos direitos humanos, e a China tem sido condenada, coloca-se essa não ingerência na vida dos outros partidos?
- Não sei que questão concreta dos direitos humanos...
- O facto de haver presos políticos.
- Não conheço essa realidade de uma forma que me permita afirmar alguma coisa.
- Mas isto é algo que costuma ser notícia nos jornais.
- De facto, não conheço a fundo essa situação de modo a dar uma opinião séria e fundamentada.
- No curso de Ciência Política e Relações Internacionais, não discutiu estas questões?
- Não, não abordámos isto.

Diz-se agora que o júri da EGEAC a nomeou porque ela apresentou um projecto interessante» para o Museu do Aljube. Ei, amigos, estarão a gozar connosco? Não percebem que, com o seu cadastro revisionista, Rita Rato é a última das últimas pessoas a poder ser nomeada para um museu como aquele?

Que isenção tem ela para o lugar, que competência, que experiência? Nada de nada. Consigo traz apenas, dizem, um «projecto interessante».

Vistas as coisas por esse prisma, também o Gulag foi um «projecto interessante». E os milhões de mortos da Coreia do Norte esses, então, são interessantíssimos.

Mas por isso nunca se interessou Rita Rato, que nunca leu nada, nunca estudou nada, não soube nada, não disse nada, um zero completo. Uma mulher que fugiu escandalosa e despudoradamente às perguntas que lhe fizeram sobre questões básicas que têm a ver com História e com Direitos Humanos, a matéria-prima de que é feito qualquer museu de resistência e liberdade digno desse nome.

O Aljube vai passar a ter, coitado, uma directora amnésica. Uma directora ignorante, falsificadora da História e assassina da memória, uma apparatchik que foi tremendamente gozada, e bem, pelo desconcerto completo das suas afirmações sobre Estaline ou a China.  

Dizer que Rita Rato é incompetente seria pressupor que tem um mínimo de competência para o cargo. Não tem. 

E nomeá-la é um insulto grave, um insulto grave aos historiadores e investigadores portugueses, a gente competente e independente, aos cidadãos desta Lisboa, aos resistentes e às vítimas pela liberdade, a todas elas, sem excepção, aos que lutaram e sofreram no Tarrafal, em Auschwitz, no Gulag, na Coreia do Norte, em Hong-Kong, em muitos lugares.

Rita Rato será decerto numa pessoa estimável e com competência para muita coisa.

Mas para dirigir o Museu do Aljube, isso tenham paciência, não, isso nunca, jamais, em tempo algum.       
















quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Chega... de demagogia.


 
 
Na secção «Reflexões e Análises» do site do Chega vi uma «reflexão» do vice-presidente desse partido, José Dias, com o pelouro da Segurança e da Justiça, em que Dias diz, a dado passo, que as Forças de Segurança têm a «maior taxa de suicídio profissional nacional»
 Ainda não tenho a certeza se isso é verdade, mas, a crer no trabalho de Miguel Rodrigues, autor do livro Os Polícias Não Choram e chefe da PSP, a taxa de suicídio nas Forças de Segurança é, de facto, muito superior à da população em geral, quase o dobro . Mas, e sem pôr em causa essa conclusão nem menorizar esse flagelo, de modo algum, os quadros avançados por este chefe da PSP mostram uma coisa curiosa: reparem como o número de suicídios na PSP e na GNR caiu a pique em 2016 e 2017.
 
 

 

 
Em 2016, a taxa de suicídio nas Forças de Segurança foi igual à da população em geral.

Em 2017, essa taxa foi das mais baixas dos últimos dezassete anos.
Vejam o quadro, por favor, ou os dois quadros, melhor dizendo. Quadros do livro Os Polícias Não Choram, do chefe da PSP Miguel Rodrigues.
Motivos para preocupação? Sem dúvida. Mas o que diz o vice-presidente do Chega! só conta uma parte da verdade e é, como sempre, tendencioso, manipulador, alarmista. O número de suicídios nas Forças de Segurança não só diminuiu significativamente como é dos mais baixos em quase duas décadas. Porque não referiu isto o vice de Ventura? Chega… de demagogia.
 
 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Lava Jato.

 
 

 
 
         Há quem prefira ver a série de José Padilha no Netflix, e de facto O Mecanismo inspira-se neste livro. Por isso, veja a série, muito bem, tem actores e acção, mas não deixe de ler o livro, que vale muito a pena. É de 2016, bem sei, e muita coisa aconteceu depois disso: a ascensão de Bolsonaro, a ida de Moro para o governo, as revelações desconcertantes – e escabrosas – da Vaza Jato. À distância, os elogios sobre elogios de Vladimir Netto a Sérgio Moro parecem algo ridículos, até caricatos. Ainda assim, Lava Jato é, que eu saiba, o mais completo livro sobre a Lava Jato, que nos mostra como se desencadeou uma operação gigantesca, como ela acabou com um ninho de corrupção que levava milhões aos cofres da Petrobras, isto é do Estado e do povo brasileiro, para os cofres das grandes construtoras e para as contas na Suíça de muitos políticos.
 Poderá dizer-se muita coisa, criticar-se tudo, mas como é evidente não era propósito da Lava Jato acabar com a corrupção no Brasil inteiro – e a corrupção das maiores construtoras do país foi provada e confirmada por várias instâncias, dos juízos de Curitiba ao Supremo Tribunal Federal, e há muita gente importante ainda presa. Dirão muitos que houve atropelos aos direitos humanos, já lá vamos. Dirão outros que foi tudo uma estratégia para dar cabo do PT e da candidatura presidencial de Lula, o que é simplista: no início da operação, estava-se muito, muito longe daí (e para isso é preciso ler o livro). Dizer que a Lava Jato foi montada desde o início para destruir o PT é ridículo; quando muito, poder-se-á dizer que, numa fase adiantada da operação, as coisas se encaminharam nesse sentido, o que é bem diferente. Mas, já agora, é importante sublinhar alguns pontos: desde logo, espanta que, quando a Lava Jato ia bem adiantada, e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, já estava implicado, Lula ainda mantinha níveis muito altos de popularidade nas sondagens, e muito possivelmente poderia ganhar as eleições. Ou seja, apesar de tudo, apesar de se falar já há muito do triplex de Curitiba, a popularidade de Lula mantinha-se em alta. Como também é importante referir que a Lava Jato, sobretudo nos seus primórdios, descobriu uma rede de corrupção que beneficiava todos os partidos, não sendo um exclusivo do PT. Ou que Eduardo Cunha e Michel Temer também foram envolvidos, Ou que a Lava Jato decorreu, como o livro diz, em grande parte porque os governos do PT deram à Polícia Federal os poderes e os meios para actuar como actuou.
Há duas narrativas simplistas e contraditórias sobre este caso: diz-se, por um lado, e Moro disse-o vezes sem contra, que as suas decisões foram esmagadoramente confirmadas pelos tribunais superiores, ou seja, que o Estado de direito funcionou e que o poder judicial actuou. Mas diz-se também que o PT dominava o Estado de cima abaixo, controlando todos os poderes, o que não permite explicar, então, como é que o impeachment de Dilma foi votado, como é que Eduardo Cunha teve o papel que teve, como é que o poder judicial pôde actuar com independência e resistir à pressão corruptora do Partido dos Trabalhadores. Entendamo-nos: nunca houve uma pressão brutal, aberta e flagrante sobre o poder judicial como aquela que se verifica, por exemplo, na Venezuela; podem ter existido contactos sulfurosos, discretos, pressões ocultas, manobras de bastidaores – mas, pelos vistos, não surtiram efeito. Mérito exclusivo de Moro ou independência dos juízes supremos? Uma e outra explicação são plausíveis, mas uma não exclui a outra. Mais ainda: uma peça fundamental em tudo isto, o procurador-geral Rodrigo Janot, foi designado por Dilma para um novo mandato, contra imensas pressões, e numa altura em que a Lava Jato já ia bem avançada. Aliás, Janot não se mostrou um serventuário do PT, longe disso. Daí que uma conclusão se imponha: a Lava Jato foi – e é – muito mais complexa do que muitos fazem crer, de um lado e do outro da barricada. Já agora, em matéria de confrontos com o poder judicial a actual presidência de Bolsonaro não parece ser melhor, bem pelo contrário, do que a presidência de Dilma. E será que hoje avançariam processos contra o Presidente e os seus familiares, semelhantes aos que levaram à prisão de Lula e à destituição de Dilma? Pelo que se sabe, a resposta é não.    
Também é caricato dizer que Moro tinha, desde o início, ambições políticas. Vedetismo e protagonismo, sem dúvida – mas isso também não sucedeu também, e mal, com Baltasar Garzón, apelidado de «juiz-estrela», que igualmente se deixou inebriar pela fama? Ou Moro é mau e Garzón é bom, apenas por terem, como agora se diz, «agendas» diferentes? Também não se pode dizer que Moro tivesse na altura ambições políticas, pois, com a popularidade que detinha, poderia ter-se então candidatado a Presidente, e não o fez (e, convenhamos, seria um Presidente mil vezes melhor do que Bolsonaro, o que não é difícil). Até por isso, foi desastrosa a sua aceitação da pasta de ministro da Justiça, comprometendo a sua imagem, a imagem da Lava Jato, a imagem da justiça brasileira, e até comprometendo o combate futuro a novos casos de corrupção, para sempre manchados com a suspeita de que estarão a ser politicamente motivados ou juridicamente manipulados.
         Além de contar a história da Lava Jato, desde a detenção de Alberto Youssef à prisão de Lula da Silva, adoptando um registo de apoio incondicional à operação e a Sérgio Moro, o que este livro tem de interessante é o conjunto de informações que nos dá, e as reflexões que suscita. Parece estranho, por exemplo, que, numa fase inicial da operação, Moro proibisse os arguidos e as testemunhas de falarem de nomes concretos da classe política, cerceando a liberdade de depoimento (ver página 78); Moro não queria que, se alguém falasse do senador A ou do deputado B, o processo tivesse de transitar para o Supremo, o foro da classe política, e fugisse das suas mãos. É igualmente bizarro que, pelos vistos, no Brasil ainda não haja separação entre juiz de instrução e juiz de julgamento, um dos princípios básicos de um processo penal justo: quem dirige a instrução não pode aplicar as penas, como acontecia com Moro. Também parecem muito estranhas e questionáveis as penas aplicadas, sobretudo a disparidade das penas nascida da «delação premiada». Houve casos de arguidos implicados a fundo no esquema criminoso, como Alberto Youssef ou Paulo Roberto Costa, da Petrobras, que tiveram penas leves, levíssimas para a sua culpabilidade, apenas porque falaram e denunciaram terceiros. Com a agravante de Youssef, por onde tudo começou, ter violado um anterior acordo de delação premiada – celebrado ademais com Moro, aquando do «mensalão» – e, ainda assim, ser considerado apto a subscrever um novo e muito generoso acordo.
         É possível que só através da delação premiada seja possível ir ao fundo de casos como este, sobretudo num país minado pela corrupção ao mais alto nível do Estado. Mas o recurso sistemático ao método da delação premiada, numa dada investigação, sempre coloca muitas dúvidas: afinal, quem é culpado e quem é inocente? Se todos decidissem falar, ninguém seria condenado? Ou é o juiz que decide discricionariamente, aceitando e premiando generosamente a delação de uns e rejeitando o depoimento de outros? Tomemos um exemplo imaginário: na Odebrecht, um quadro superior era o grande responsável pela corrupção, conhecia os meandros, praticava os crimes, e o presidente da empresa, até para sua defesa, só tinha uma pálida ideia do que se passava; se, no decurso das investigações, o alto quadro decide colaborar com a justiça, o presidente da empresa é preso e o seu funcionário premiado? E o «prémio» abstrai do grau de dolo e da gravidade dos actos praticados, graduando a pena de acordo com a denúncia feita? Não há o risco de o princípio da culpa ser relegado para um plano secundário, em benefício exclusivo do nível de colaboração com a justiça? E não há o risco de o juiz actuar de forma arbitrária? Um caso que nos dá que pensar: a segunda pena mais pesada deste caso, os 18 anos aplicados a Pedro Barusco, foi mandada cumprir e regime aberto diferenciado, com os dias passados fora de casa, e as noites e os fins de semana em casa. Uma das penas mais pesadas, 18 anos, cumprida de uma forma tão leve… apenas porque o arguido beneficiou da delação premiada. Não é excessivo?
         Por último, algo que também nos surpreende: o modo como o juiz Moro ia levantando o segredo de justiça e divulgando na Internet trechos do processo, de uma forma selectiva, reactiva ao que se ia passando no país, fazendo, ele próprio, uma gestão política, ou político-mediática, dos autos. Talvez tenha sido essa a única forma de conquistar apoio popular e evitar que o caso fosse abafado. Talvez só assim tenha havido Lava Jato. Perguntas que ficam.
         O que fica, também, é a ideia de que o fulcro da questão, o gigantismo da empresa estatal Petrobras e a sua politização, não foi resolvido. Longe disso. Pelo contrário: há dias, a Petrobras decidiu cancelar dois contratos de prestação de serviços do escritório do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, um homem em conflito aberto com Bolsonaro e com Sérgio Moro (aqui). Foi um acaso? Não. A interferência do poder político – e de Dilma – na Petrobras foi um dos cancros da Lava Jato, pelos vistos não debelado. A Moro devemos o mérito de ter conseguido resistir a pressões imensas – e a inteligência letal como conduziu a sua estratégia, jurídica e política, acima de tudo pessoal. Mas o que aconteceu depois deixa enormes dúvidas sobre muita, muita coisa. Até por isso, convém ler este livro, com uma pergunta: e em Portugal, seria possível algo desta envergadura?
 





 
 

 
 
 
 
 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Desaparecer na Escuridão.

 

 
 
 
         Acabado de sair, já com uma notícia no SOL, aqui, e uma recensão muito positiva no EXPRESSO, Desaparecer na Escuridão é, para quem goste de policiais e sobretudo de true crime, um livro de leitura compulsiva. Não se consegue parar enquanto não se assassinam as mais de trezentas páginas em que se contam os horrores de um violador e homicida em série que assolou a Califórnia nas décadas de 1970 e 1980. Talvez as partes mais interessantes do livro sejam aquelas em que a autora, com um pormenor milimétrico, descreve os bairros de classe média e média-alta onde o predador atacava as suas presas, o quotidiano destas, os seus percursos de vida, conformistas ou atribulados. Num certo sentido – e perdoe-se a observação óbvia e banal –, a autora foi a derradeira vítima do Golden State Killer. A obsessão em apanhá-lo destruiu-lhe a vida: Michelle McNamara morreu devido a uma overdose de tranquilizantes, dos calmantes que tomava para aplacar a ansiedade tremenda suscitada por uma busca insana e insone que, tragicamente, não chegou a concluir com sucesso. Agora, que localizaram o presumível criminoso (por favor, só leia isto ou isto depois de ler o livro), e por mais que as autoridades digam que o livro de Michelle nada contribuiu para isso, o certo é que o seu blogue e os seus escritos mantiveram acesa a paixão por descobrir o assassino-violador em série. Por outro lado, McNamara tem a intuição certeira do potencial extraordinário do cruzamento entre o ADN e as bases de dados genealógicas, um método de investigação que levanta dúvidas éticas, sem dúvida, mas que produz resultados espantosos – como agora se viu. Estamos já muito longe dos métodos do profilers que vimos em O Silêncio dos Inocentes, a propósito do qual foi agora publicado um livro lido há anos, Mindhunter – e cuja edição actual, entre nós, peca por tardia, servindo apenas para acompanhar a série da Netflix com o mesmo nome ou como documento histórico sobre o modo como num passado não muito distante o FBI caçava, ou não, os serial killers. Não são técnicas de há muitos anos e nem se encontram sequer inteiramente ultrapassadas – mas, com as novas metodologias, tudo parece de um passado distante e escuro. Recomenda-se muitíssimo Desaparecer na Escuridão. Não tem, de modo algum, a densidade de O Meu Quarto Escuro, nem Michelle McNamara é James Ellroy. Em todo o caso, uma grande leitura de férias, enquanto aguardamos o desfecho do caso do Golden State Killer, capturado há um par de meses.

 



 

quarta-feira, 14 de março de 2018

Lutz Eigendorf (1956-1983), in memoriam.



Lutz Eigendorf

 

         Foi necessário sair um livro, um livro ficcional, para nos recordarmos do destino trágico de Lutz Eigendorf. Sendo ficcional, esse livro baseia-se em factos infelizmente verídicos, que o jornalista espanhol Eduardo Verdú investigou para escrever Todo lo que ganamos cuando lo perdimos todo. Na sua pesquisa, Verdú acabou um dia por ir dar a uma sepultura na floresta de Kaiserslautern.
 




         Aí se desvanecem os restos mortais de um jovem de 26 anos. Uma estrela de futebol da RDA, Lutz Eigendorf, que na Alemanha comunista tinha tudo a que podia aspirar: a protecção do sinistro e todo-poderoso Erich Mielke, director da Stasi, que o apadrinhava por Lutz ser uma estrela de futebol (e, logo, uma arma política de grande valor); uma mulher bela, a mais bonita colega de escola, da qual tinha uma filha de dois anos.

O regime festejava-o, adulava-o, Lutz era o «Beckenbauer do Leste», nos dizeres da propaganda. Vivia sob férrea disciplina desde os 14 anos, quando ingressou no Dínamo de Berlim (o clube-mascote da Stasi), onde conquistou a glória. Cientes da sua valia política, os dirigentes da RDA começaram, ao que se diz, a fazer com que todos os jogadores, da sua equipa e das outras, jogassem a seu favor. Fraudulentamente. Talvez fosse isso que fez despertar em Lutz o desejo de fugir, a ânsia da liberdade. Ou o facto de estar saturado de, desde muito novo, ter de assumir tarefas como comissário político, a par dos treinos e das partidas que são habituais a todo o jogador da bola.







Em 20 de Março de 1979, Lutz desertou para o Ocidente. Aproveitando uma partida amigável na Alemanha «de cá», escapuliu-se com fragor enquanto os seus colegas faziam compras nas apetecidas lojas da RFA. Apanhou um táxi, fez uma viagem de 170 quilómetros até ao estádio do FC Kaiserslautern. Aí chegado, ofereceu-se para jogar no clube, que de imediato o contratou.

Obsessiva, doentia, a Stasi nunca parou de andar no seu encalço. Montou uma trama para o liquidar, a Operação Rosa, e tudo indica que foram agentes da RDA que estiveram na origem da sua trágica e aparatosa morte, em 5 de Março de 1983. A perfídia raiou a loucura: quando se aperceberam de que Lutz tencionava chamar a si a família, que deixara a Leste, trazendo para viver no Ocidente, a polícia política organizou o inconcebível, o cúmulo da maldade, mobilizando um agente, Peter Hommann, com uma missão clássica nos operacionais da Stasi: seduzir Gabi Eigendorf, que cedeu aos encantos (ou à chantagem?) daquele donjuan vermelho. Peter convenceu Gabi a divorciar-se para casar com ele e chegou, pasme-se, a adoptar a filha do desertor, rebaptizada Sandy Hommann.     
 





Lutz jogou dois anos na Bundesliga. Comprou um Alfa Romeo GTV-6 e, numa noite de Março de 1983, teve um brutal acidente de automóvel, ainda hoje tido suspeito, mais que suspeito.

E tudo isto se passou não longe de nós, num tempo em que muitos dos que lemos e conhecemos isto já éramos crescidos e bem adultos. Mas nem todos quiseram ver, na época. Mesmo hoje, alguns ainda teimam em negar, tendo o supremo desplante de chamar «revisionistas» (ou mesmo «fascistas») a quem deles discorde. Um passado que não quer passar.
 
 
 

 

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Ópio, Cocaína e Escravatura Branca, de Adolfo Coelho.

 
 
 



 
         Pelo que respeita à França, tem os seus clandestinos institutos de morfina, onde certas megeras, as morphineuses, recebem uma numerosa clientela feminina, à qual injectam a droga nefasta, auferindo um elevado rendimento desse mester criminoso.
 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Sem armas, sem ódio, sem violência.




 
 
 
 
Nice, 1976. Muitos ainda se lembram do célebre furto na Société Générale. Um golpe engenhoso, audacioso, tão ou mais do que o célebre  assalto ao comboio-correio de Inglaterra. O cúmulo da subversão, na minúcia do plano e na frase muito soixante-huitarde inscrita nas paredes da casa-forte: «Sem armas, sem ódio, sem violência». Depois, a fuga espectacular de um dos assaltantes, Albert Spaggiari. E, agora, 42 anos volvidos… uma escorregadela desastrada de Jacques Cassandri, presente há pouco ao tribunal, na iminência de cumprir pena. Como é possível ter-se enganado na contagem dos prazos de prescrição? Desleixo inconsciente? A cegueira da vaidade? Uma grande e fabulosa história.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Crime, disse ela.

 
 
         Eu tenho de pedir daqui as maiores mas mesmo as maiores desculpas à Joana Albernaz Delgado que, como sempre, me deu conta de material fabuloso, a que só agora respondo. Desta feita, enviou Joana os dioramas criminais de Frances Glessner Lee, que é a senhora gorducha com ar vitoriano que aparece na imagem supra. Frances Glessner Lee era uma rica herdeira americana que nasceu em 1878 e faleceu bastantes anos depois, em 1962. Enquanto nascia e morria, deu-lhe para fazer miniaturas de cenas de crimes, as quais se tornaram famosas e se chamam Nutshell Experiences of Unexplained Death, um nome fabuloso. A senhora Lee, que era uma grandessíssima filantropa, usou a fortuna da família para criar o departamento de medicina legal da Universidade de Harvard. E foi fazendo, para as aulas, estes cenários casa de bonecas, de que restam actualmente noventa, à guarda do Maryland Medical Examiner’s Office, Baltimore. Ainda são usados em palestras e seminários de medicina forense, especialidade em que Frances Lee foi pioneira. Apaixonada pelas novelas de Sherlock Holmes, é conhecida por «mãe das ciências forenses». Começou a carreira aos 52 anos, o que é bom e animador para quem ronda essa idade perigosa. Tendo em conta que para construir cada um dos dioramas se gastava três a quatro mil dólares, é questão de fazer as contas para saber, no final do dia, quanto gastou a austera senhora numa brincadeira que, em definitivo, não é para crianças. Mas parece. A casa de bonecas mais fantástica que vi está no Castelo de Windsor (ei-la!) e pouco tem a ver com estas modelagens de Frances Glessner Lee. E olhem que já vi muita casa de boneca e até construí uma para a-minha-Leonor-que-não-me-deixa-mentir. Na nutshell de Lee é muito diferente. Há um ambiente sangrento e violento que, estando associado a um imaginário infantil e pueril, torna a coisa ainda mais perversa e quiçá mesmo demoníaca (e não, não é preciso evocar os mil e um filmes de terror com bonecas assassinas ou palhaços letais). Como é evidente, ou não se passasse isto na América, há toneladas de informação sobre os dioramas de Frances Lee e até, coisa que desconhecia, documentários sobre o uso de casas de bonecas como suporte a investigações criminais. Suma consagração, as casinhas de Lee foram expostas no Smithsonian, em Washington, D.C., mostra com título muito bem caçado («Murder is Her Hobby»), como podeis ver no brevíssimo filminho que vai já a seguir. Depois do filminho, umas imagens das casas da grande tarada da minina Lee e, à laia de piéce de résistance, o trailer de um documentário de 2012 sobre esta vibrante temática e, a seguir, o próprio do documentário de 2012 sobre esta temática vibrante. Quem quiser ir ao fundo mesmo fundo desta cena, há o habitual site do taradinho que compilou tudo tudinho (http://www.deathindiorama.com/) e a mais há um livro que podeis mandar vir pela Amazon, porquanto de livrarias estamos mal: fechou a Lello na Rua do Carmo, em Lisboa, e atrocidade homicida, encerraram as portas da livraria Leitura, à Invicta (a.k.a. cidade do Porto). Um crime nunca vem só.