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sábado, 10 de fevereiro de 2024

Maluda.

 



Os nomes das ruas costumam durar décadas ou séculos, raramente são alterados. É o caso da longa Rua das Praças, no bairro da Lapa em Lisboa, que é cortada por sete ruas, passa pelo mítico Sr. Vinho cantado por Amália e acaba junto ao ISEG. A rua é estreita e ladeada por prédios, não há ali praça nenhuma, hoje, mas o nome mantém-se desde o século XVIII. 

É pena, porque lhe ficaria bem o nome Rua Maluda. A pintora Maluda (Maria de Lourdes Ribeiro) viveu nessa rua e teve aí o seu atelier. Mais importante: as janelas e azulejos dessa mesma rua inspiraram alguns dos quadros mais icónicos de Maluda, entre eles o que ilustra este texto, baseado na fachada do n.º 37 da Rua das Praças. Crê-se também que o lindíssimo azul-Tejo de tantas obras da pintora resultou de anos e anos a ver o rio pela janela de sua casa. 

Nascida e crescida, até aos 30 anos, na liberdade colonialista de Goa e Maputo e na liberdade europeia de Paris, Maluda viveu os seus restantes 35 anos vida em Lisboa (morreu faz hoje 25 anos). Tinha um estilo de vida boémio e era amiga de muitos outros artistas, entre os quais a já referida Amália. Era também homossexual, e o seu longo namoro com Ana Zanatti provocou um mini-escândalo na elite socioeconómica a que pertencia.  

Da sua obra sobressaem as janelas lisboetas, quase sempre fechadas, reflectindo mais o exterior do que mostrando o interior. O detalhe geométrico dos desenhos e o brilho nos azulejos são um deleite para quem ama Lisboa banhada pelo sol, para quem ama pintura e arquitectura, simetria e ordem, cores fortes e cheias. Mas Maluda fez muito mais: desenhou Lisboa vista de cima, com o Tejo ao fundo; desenhou quiosques lisboetas, faróis e janelas manuelinas em selos premiados internacionalmente; fez cartazes, tapeçarias, serigrafias. 

A Rua das Praças é a minha Rua Maluda, e não a Rua Maluda que existe, desde 2007, no bairro das Galinheiras da freguesia de Santa Clara, a mais exterior do concelho de Lisboa. Essa longa rua, tem graça, também é cortada por várias, neste caso seis, ruas transversais. As suas muitas janelas, sem azulejos em volta, são de bairro social. E é possível que dentro delas vivam algumas das pintoras do futuro. 

 

                                                                            Rui Passos Rocha

 

 



 


quarta-feira, 24 de maio de 2023

São Cristóvão pela Europa (217).

 

 

Obra-prima da pintura europeia do Século XV é o retábulo Agnus Dei da autoria sucessiva dos irmãos Hubert Van Eyck (1366-1426) e Jan Van Eyck (1390-1441).

Inaugurado em 1432, foi encomendado para a Catedral de Gand, a Catedral de São Bavon ou São Bavão em português.

Objecto de um profundo restauro foi colocado em 2020 na Capela do Santíssimo Sacramento em condições excepcionais de apresentação.

A sua história é muito atribulada. Esteve em risco de ser queimado pelos iconoclastas, foi roubado por Napoleão e esteve exposto no Louvre. Caído Napoleão, foram devolvidos alguns painéis, mas outros foram vendidos ao Rei da Prússia e expostos num museu em Berlim.

Foram roubados na I Guerra Mundial pelos alemães que os reuniram aos que já estavam na sua posse, mas perdendo a Guerra, tiveram de os devolver na integralidade

Em 1934 dois painéis foram roubados, mas só um foi encontrado. O exibido hoje é uma cópia.

Durante a II Guerra Mundial esteve depositado em Pau em França, mas foi apreendido por Hitler. No final da Guerra é colocado numa mina de sal na Áustria e salvo pelos Monuments Men de ser dinamitado. Há um filme de George Clooney sobre este grupo de militares.

Trata-se de um políptico que pode ser apreciado fechado e aberto. Fotografei-o não obstante os reflexos.

Fechado é assim:

 


Estes painéis já foram amplamente descritos pelo nosso amigo Ademar Marques pelo que não vou repetir o que ele escreveu.

http://malomil.blogspot.com/2021/10/em-busca-do-tosao-de-ouro-portugues-de.html

Só sublinhar o aspecto interessantíssimo de haver quem defenda que o modelo que serviu para a imagem da Sibila de Cumas (terceiro pequeno painel a contar da esquerda em cima) ser na realidade Isabel de Portugal, Duquesa da Borgonha, que havia casado em 1430 com o Duque da Borgonha Filipe III o Bom.

Lembremos que Jan Van Eyck veio de propósito a Portugal pintar dois retratos da princesa, filha do nosso rei D. João I. Foram enviados ao Duque por dois caminhos diferentes, mas nenhum deles chegou aos dias de hoje, embora existam cópias.

 


Quando aberto, o retábulo apresenta-se desta maneira gloriosa:

 




Mas trago o retábulo aqui por alguma razão…

É que no painel da direita em baixo podemos ver São Cristóvão conduzindo os peregrinos. Curiosamente não se vislumbra o rio habitual na iconografia. Apresenta-se como gigante, descalço e com o seu cajado.

 

 


 

Esta é a Catedral vista do exterior:

 

 

Numa outra capela da catedral encontramos ainda uma imagem do nosso Santo:

 


 

                                                                        Fotografias de 24 de Abril de 2023.

 

                                                                                                        José Liberato






terça-feira, 7 de março de 2023

A Pintura Moderna Vista Por Um Nazi (português).

 





 

 

Numa das minhas incursões pela Feira da Ladra encontrei um livrinho encadernado, o título prontamente me chamou à atenção, fui levado a supor que se prendia com uma conferência feita por um prosélito nazi sobre o que eles pensavam da arte moderna, e que dera mesmo origem à queima de obras de arte e a uma exposição intitulada “A arte degenerada” exibida por todo o Terceiro Reich, como manifestação da barbárie e até da conspiração judaica mundial.

É nisto que vejo o autor da obra, Arnaldo Ressano Garcia, conferência realizada em abril de 1939 na Sociedade Nacional de Belas Artes. Ressano Garcia era um ultraconservador, abominava o futurismo, qualquer manifestação de cubismo expressionismo, tratava Almada Negreiros como um louco, entrou em polémica com o Cardeal Cerejeira por causa da Igreja de Nossa Senhora de Fátima como irá entrar em polémica pelas teses vencedoras de António Ferro quanto às artes plásticas na Exposição do Mundo Português. Ressano Garcia tinha currículo:

Docente da Escola do Exército, Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; dirigente da Sociedade Nacional de Belas Artes; docente de Astronomia, Geodesia e Topografia no curso de Engenharia Militar; profissão: artista plástico e caricaturista.

O exemplar que adquiri tem a dedicatória ao poeta Cardoso dos Santos, resta saber se foi este senhor que mandou encadernar os textos da conferência e deliberou tratar Ressano Garcia por nazi. Este coronel do exército português viajou até Paris, visitou a Exposição Universal de Paris de 1937, e seguramente museus e outros institutos de cultura. Adverte-nos no prefácio: “Conheci lá fora os bastidores de certas manifestações e o desgraçado caminho tomado pela pintura impropriamente chamada avançada, num regresso repugnante para a selvajaria, glorificando-se a ignorância e a degenerescência, verdadeira afronta.” Na primeira parte da sua conferência, este artista plástico e caricaturista já esquecido procura dar uma lição sobre a história de arte e quando chega ao Modernismo, diz que na Alemanha os museus se tinham enchido das mais espantosas aberrações, mentais e sexuais, e exalta Hitler:

“Hitler é um artista candidato a uma escola de Belas Artes e nunca um simples pintor de tabuletas, como malevolamente se espalhou. Compreendendo quanto prejudicial seria aquela degenerescência nas artes para o bom nome da cultura alemã, manda limpar os seus museus de todas as imundícies artísticas que o desvairamento iconoclasta havia imposto. Nomeia, para tal fim, uma comissão de indivíduos da mais alta competência artística e honestidade de caráter. A maioria dessas obras é mandada queimar. Com as outras, as escolhidas, as menos horrorosas, forma-se um museu que se intitula ‘O Museu da Arte Degenerada’. Quando algum artista estrangeiro deseja realizar na Alemanha uma exposição das suas obras, tem de as sujeitar a uma prévia censura artística por parte da mesma comissão. Hitler não descansa, torna-se, e cada vez mais, exigente. Quer que a Alemanha nova, a do seu tempo, apresente só artistas insignes.”

Ressano Garcia também não é peco a falar do Futurismo em Itália, diz que Mussolini fracassou deixando estes artistas de vanguarda à rédea solta. Não deixa de zurzir o Pavilhão de Espanha, “onde toda a charlatanice de Picasso campeava à vontade”. Entende discretear sobre a responsabilidade dos comerciantes da arte, atribui-lhe uma grande responsabilidade na propaganda à arte degenerada. Não se conforma com os disparates de Rodin, sente-se à altura de proferir juízos definitivos sobre este génio da escultura: “Rodin só foi sincero e gigante exatamente na parte séria da sua obra. Na parte filosófica, embora sempre de maravilhosa técnica, a sinceridade na ideia é, em geral, nenhuma. Executava uma estatueta, contorcida e estranha, só pelo prazer de vencer dificuldades de atitudes e de movimento. Depois, aguilhoado pelo tal cabotinismo, ele, ou algum dos seus amigos, compunha o título filosófico, a legenda que melhor se casava com a produção.” Também não deixa de vergastar a arte de El Greco ou a de Goya. E chega o momento de falar sobre a responsabilidade de um comerciante (um marchand) de arte, Ambroise Vollard, velho traficante de quadros, judeu, grande admirador e amigos dos mais célebres artistas da vanguarda.

Entrando nas conclusões, faz advertências ao Governo, este deve firmar-se num nacionalismo vigoroso e sensato. Remete uma mensagem aos artistas portugueses: “devem todos pôr os olhos na corrente mórbida, que devasta as artes plásticas, lá por fora, não para, cegamente, a canalizarem também, para nós, mas, ao contrário, para, à força de razão, estudo, talento e patriotismo, lhe oporem um dique, inexpugnável.”

Porque tínhamos grandes mestres de pintura, e elenca-os: Domingos Sequeira, Vieira Lusitano, Vieira Portuense, Cristino da Silva, Anunciação, Lupi, Silva Porto, Columbano, Malhoa, Luciano Freire, Roque Gameiro e Condeixa. A partir destes, era como se tivesse chegado um deserto de tártaros. E lança ao público a sua tremenda mensagem, o seu desmedido apelo:

“Unamos todas as nossas forças artísticas, todas as nossas energias, todas as nossas inteligências, na ideia de elevar ao máximo a Arte Portuguesa!

Não sejamos, nem contra o classicismo, nem contra o romantismo, nem contra o realismo, nem contra o modernismo, mas em compensação, unamos todas as nossas forças artísticas, todas as nossas energias, todas as nossas inteligências contra a invasão atual do… intrujismo!”

Ressano Garcia fazia circular pela assistência duas provas de degenerescência e intrujismo, duas aberrações de Picasso, falando de “La femme qui pleure”, de 1937, faz a seguinte observação: “É a este o ideal que certos amadores do intrujismo desejam para a pintura do novo Portugal”. 


                                                                                   Mário Beja Santos 



Caricatura de Salazar por Arnaldo Ressano Garcia 






terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Lourdes Castro, muito antes das sombras.

 




 

   Foi uma daquelas amizades marcadas por encontros regulares, de intensa cumplicidade, logo a partir do primeiro encontro em que nasceu o nosso gosto pelas leituras em comum. E 20 anos, aproximadamente, de nos termos conhecido, este meu amigo começou a ter graves problemas de visão, e cegou completamente, foi o maior abalo que o podia afetar, bibliófilo desmesurado, a casa a transbordar desde o corredor da entrada, quartos reconvertidos, o corredor dos quartos, o escritório praticamente inacessível, a cama cercada de livros, carreirinhos na sala de estar.

Exatamente nesta sala de estar, durante 14 anos a fio, fiz-lhe leituras, de acordo com a exigências do dono da casa, de Cristóvão Colombo às lutas entre miguelistas e liberais, livros sobre o Estado Novo, uma curiosidade compulsiva quanto a novos talentos literários portugueses, tudo nos podia acontecer e eu não escondia o comprazimento que me dava corresponder a esta intensa alegria que era vê-lo empolgado, houvesse texto sobre Mário Cesariny de Vasconcelos ou um ensaio recente sobre o Integralismo Lusitano.

          Impôs-se naturalmente o ritual das conversas avulsas, foi, até ao fim dos seus 90 anos, um homem dotado de uma memória prodigiosa, recordava Vitorino Nemésio ou as noites de Natal da sua infância, como se fossem acontecimentos da véspera. Acontece que as paredes da casa, as que não estavam cobertas de livros, enchiam-se de imagens dos ancestrais, pululavam fotografias de familiares e amigos e sobretudo na sala de estar, o nosso ponto de convívio, as paredes estavam cobertas de quadros da sua eleição, cada um daqueles quadros propiciava histórias de encontros, amizades, relações intensas que mantivera com artistas plásticos, caso de Moniz Pereira, Noronha da Costa ou Cesariny. Eu sentava-me num cadeirão no canto, de madeira maciça, junto a uma cantoneira cheia de recordações, e por cima estava pendurado um quadro que me assombrava, um óleo de caligrafia críptica, uma espantosa mancha de cor verde bordejada, imaginava eu, de um emolduramento de tom anil. E um dia não resisti a perguntar-lhe a proveniência da obra. Registei algo parecido com o que passo a escrever:

          “É um óleo da Lourdes Castro, dávamo-nos muito bem, ela chegou a fazer uma palestra no Centro Nacional de Cultura, no tempo em que eu fiz parte da sua direção. O René Bértholo, o futuro marido, era mal-encarado, ela uma simpatia, mostrava-me as fotografias dos seus trabalhos, era arte abstrata, nada que me recordasse abstracionistas consagrados como Kandinsky, os construtivistas russos, os futuristas, até Jackson Pollock, senti que era um caminho muito próprio, isto em meados da década de 1950, pontificavam ainda entre nós os modernistas e os neorrealistas. Muitas vezes, findo o meu trabalho, ia até à Galeria Pórtico, que ela também frequentava, conversávamos, e ela desabafa sempre que queria partir para a Europa, percorrer mundo. Era uma mulher singela, nunca escondia as dificuldades com o dinheiro. E em 1957 compareci à inauguração da exposição na Galeria do Diário de Notícias, este quadro estava acabadinho de fazer. Foi amor à primeira vista, era uma revolução para os meus olhos. Não foi por acaso que o coloquei aí, contemplava-o amiúde, aqui sentado no cadeirão, enquanto tive vista. Foi um período curto, este de arte abstrata da Lourdes, depois andou a fazer aqueles utensílios de que eu não desgostava, embora me parecesse um prato requentado, lembrava-me o Marcel Duchamp e os seus seguidores, depois vieram as sombras e mais tarde os herbários, sei muito bem que esta arte abstrata não deve entusiasmar os mercadores de arte, e ainda bem. Haverá poucos quadros deste período, ela teve um incêndio no atelier que lhe devorou muitas telas. Depois ela partiu para Paris, nunca mais nos vimos, perdão, ela está aqui presente a recordar este espantoso período da vida artística de que ninguém fala”.

          Pediram-me os herdeiros deste querido amigo que os apoiasse no desmanchar da casa, fi-lo com dor, manuseei os seus milhares de livros e outros pertences. E os seus familiares presentearam-me com esta companhia diária, uma Lourdes Castro que aqui não tem sombras, nem construções utilitárias ou simuladas nem herbários, um quadro a óleo que revisito e que me recorda, como deve ser, este benfeitor cultural, uma memória vigorosa e revigorante que me trouxe ensinamentos fecundos, o meu muito especial companheiro de leituras, alguém que me telefonava com muita frequência e que assim começava a frase: “por gentileza…”, e com esta deferência eu devia encaminhar-me para um alfarrabista da Calçada do Combro, a livraria da Imprensa Nacional, se eu podia licitar num leilão online, e muito mais.

          Leio agora a necrologia a exaltar esta admirável artista plástica das sombras, um dos nomes mais sonantes das artes plásticas do nosso século XX, e apeteceu-me tirar do anonimato e mostrar a quem tem direito que Lourdes Castro teve outras inquietações antes das sombras, nos chamados Anos de Chumbo ela foi uma formidável promessa num outro itinerário vanguardista, o abstracionismo, que começava a ganhar fluência nas artes plásticas portuguesas.

Aqui vos deixo a imagem da Lourdes Castro que me remete, digo-o com imenso orgulho, para uma indefetível amizade, que a artista alumia, em cada dia da minha vida.


Mário Beja Santos







terça-feira, 12 de outubro de 2021

Em busca do Tosão de Ouro português: de Bruges a Nicósia, partindo do Alto da Ajuda.



 

Em busca do Tosão de Ouro português:

de Bruges a Nicósia, partindo do Alto da Ajuda



 

Parte I

A infanta profetisa

 

Sob o brilho inaudito de centenas de diamantes, dezenas de rubis e de uma magnífica safira de Ceilão, pende a patética figura de uma pele de cordeiro, em ouro cinzelado, cravejado a diamantes. Capa da revista do Expresso no início deste ano, é uma condecoração singular que é também uma jóia admirável – uma das mais espectaculares insígnias de ordem de cavalaria alguma vez criadas, notável tanto pela beleza do seu desenho e pela perfeição da sua execução, como pela sua grandiloquente desproporção.

 

O Tosão de Ouro, magistral criação de David Gottlieb Pollet em 1790 para o futuro Rei D. João VI, terá certamente um lugar de destaque no novo Museu do Tesouro Real, que no fim deste ano de 2021, segundo da era Covid, abrirá portas no alto da Calçada da Ajuda após segunda inauguração. Será porventura o princípio do fim da polémica sobre a conclusão do inacabado Palácio da Ajuda, que esteve para ser ministérios e tantas outras coisas sem nunca deixar de ser uma ruína indigna.

 

Capa da edição 2520 da Revista E, do Expresso, de Fevereiro de 2021, com a insígnia de D. João VI da Ordem do Tosão de Ouro em tamanho real, apresentada como “a peça mais importante” do futuro Museu do Tesouro Real.

 

D. João, Príncipe Regente de Portugal e futuro Rei D. João VI, com a insígnia do Tosão de Ouro ao pescoço, pintado por Domingos Sequeira em 1802. (Colecção do Palácio da Ajuda, fotografias do autor)

 

Depois de ter ornado o real e imperial peitilho na última década do século XVIII e nas primeiras do XIX, foi remetido a mais de cem anos de escuridão num cofre, até ser comprado por Salazar aos herdeiros do Rei D. Miguel, que recebeu a jóia na partilha da herança do seu pai mas não a levou para o exílio.

 

Mas a insígnia de D. João VI carrega consigo a história de uma ligação mais profunda a Portugal, que nos remete para um tempo mais longínquo, nos alvores da dinastia de Avis – e abre as portas para um périplo europeu em busca de sinais dessa presença portuguesa no início da Ordem do Tosão de Ouro, uma das mais prestigiadas condecorações do mundo, rivalizando apenas com a Ordem da Jarreteira, criada quase um século antes em Inglaterra e que permanece igualmente uma das mais exclusivas.

 

Isabel, única infanta da Ínclita Geração, tinha quase 33 anos quando se casou com Filipe III, o Bom, Duque da Borgonha. Em 1430 a Borgonha era um portento da Europa, no auge do seu poder comercial e da produção cultural do continente, além de que em desafio constante aos seus suseranos, os Reis de França.

 

A Flandres era o centro da corte da Casa da Borgonha. Através de uma política muito activa de aquisições territoriais, Filipe III foi alargando progressivamente o seu território, e aumentando o seu prestígio e a sua força militar. Com quase 34 anos e viúvo pela segunda vez, faltava-lhe o essencial para quem quer formar uma dinastia. Não deixa de surpreender, nesse sentido, a opção pela infanta portuguesa, que se poderia considerar demasiado madura para conceber o tão desejado herdeiro.

 

Representação de Filipe III da Borgonha e Isabel de Portugal, que aparece envolta num manto com as armas nacionais, no Armorial de la Toison d'or da Biblioteca Municipal de Dijon.

 

Armas conjuntas de Filipe III da Borgonha e Isabel de Portugal no Armorial de la Toison d'or da Biblioteca Municipal de Dijon.

 

Quinze anos antes, a Infanta tivera uma proposta de casamento do seu primo direito, o Rei Henrique V de Inglaterra, que não se concretizou. A proposta borgonhesa chegou ao Rei D. João I em 1428 e em Outubro do ano seguinte o fundador da Dinastia de Avis despediu-se da filha, que partiu numa esquadra naval para uma viagem turbulenta até ao Norte da Europa, mais refinado e exuberante do que a corte portuguesa.

 

O faustoso casamento entre Isabel e Filipe III celebrou-se a 7 de Janeiro de 1430 em L'Écluse (Sluis). Já em Bruges, no último dia das festas matrimoniais, a 10 de Janeiro, Filipe anunciou a criação daquela que haveria de se tornar uma das mais cobiçadas ordens de cavalaria do Mundo para os séculos seguintes[i] – e até aos nossos dias – tendo por símbolo uma excêntrica pele de cordeiro, em ouro, designado tosão ou velo.

 

Subjacente à escolha de tão peculiar símbolo não estava uma conotação religiosa, antes uma evocação da mitologia grega. Ora, se os caminhos da História são por vezes tortuosos e difíceis de deslindar, os da mitologia grega e romana, desligados que estão dos grilhões castradores da realidade terrena, tornam-se verdadeiros labirintos.

 

Filipe, o Bom, terá encontrado na aventura de Jasão e dos Argonautas e da sua heróica conquista do tosão de ouro a inspiração para a heroicidade que procurava nos cavaleiros da sua nova ordem, os argonautas da Borgonha, destinados a grandes feitos – ainda que já sem as sereias, os dragões e outros seres imaginários que enriquecem o conto de Jasão.

 

Representação de Jasão depois de resgatar o tosão dourado no livro Origen del orden militar del Toisón de oro (1601) da Biblioteca Municipal de España.

 

Alegoria de Filipe, o Bom, Duque da Borgonha, apresentado num pedestal, rodeado por Gedeão, à esquerda da imagem, e por Jasão, à direita, cada um deles segurando o tosão. Gravura de Manuel Salvador Carmona (1734–1820), de 1778, no Metropolitan.

 

Sucede que as dificuldades de carácter do mítico Jasão, nomeadamente a afeição ao perjúrio e ao adultério, não terão sido particularmente bem vistas na corte e, em especial, pela Igreja. E foi por isso que, logo nas primeiras décadas da Ordem do Tosão de Ouro – que coincidem com o acosso muçulmano a Constantinopla e finalmente com a queda do Império do Oriente, em 1453 –, se procura reenquadrar a simbologia nas Escrituras e nas virtudes cristãs.

 

O tosão é encontrado no Livro dos Juízes, concretamente na história de Gedeão, propiciamente um heróico combatente de árabes pré-Islão, os madianitas. Deus atribuiu a Gedeão a liderança de uma espécie de cruzada – em tudo semelhante à que Filipe da Borgonha então se propunha a lançar para resgatar Constantinopla. A prova ou o sinal de que Gedeão era o escolhido foi precisamente uma pele de cordeiro, um velo de lã ou tosão (Jz 6, 36-40).

 

Página do Armorial de la Toison d'or (Biblioteca Municipal de Dijon) dedicado à fundação da Ordem, transcrevendo as duas linhas do epitáfio de Filipe III da Borgonha que respeitam à Ordem: “Pour maintenir leglise, qui est de Dieu maison | Jay mis sus le noble Ordre, quon nome La Thoyson”.

 

Guillaume Fillastre, bispo de Tournai e segundo chanceler da Ordem, produziu literatura em abundância para conciliar o pagão Jasão e o juiz Gedeão – um dos notáveis exemplares do seu De la Thoyson d'or encontra-se na nossa Biblioteca Nacional. O obscuro Gedeão, que dificilmente poderia aspirar a muita notoriedade fora do círculo dos mais doutos teólogos, foi então redescoberto para a fama da arte na Renascença europeia, como novo padroeiro da Ordem do Tosão de Ouro. A mesma glorificação coube ao infiel Jasão.

 

Ao longo dos séculos têm resistido diferentes teorias quanto às razões de Filipe da Borgonha para criar a Ordem naquele momento[ii]. Várias destas teorias afastam qualquer relação com o casamento, apontando a escolha da ocasião apenas como um momento propício para causar efeito e sensação, por parte do Duque, aproveitando o facto de estar reunida a corte e garantindo a difusão quando os convidados regressassem aos seus territórios.

 

Miniatura de Rogier van der Weyden, representando Filipe III, rodeado por vários Cavaleiros da Ordem do Tosão de Ouro, enquanto recebe de Jean Wauquelin as Crónicas de Hainaut. (Wikipedia Commons)

 

Filipe III, o Bom, Duque da Borgonha, com hábito de Soberano da Ordem do Tosão de Ouro e o seu famoso chaperon (Biblioteca Nacional de França).

 


Filipe III, o Bom, Duque da Borgonha, com hábito de Soberano da Ordem do Tosão de Ouro (
Biblioteca Nacional de França).

 

 

Em sentido contrário, a escolha da divisa da Ordem – Aultre n'auray (“não terei outra”, como possível referência à sua mulher) – parece reforçar a ligação a Isabel de Portugal, que, com inegável sentido de humor provocatório, escolheu para sua divisa pessoal o resto da frase: Tant que je vive (“enquanto eu for viva”). Especula-se que esta poderia ser a resposta de Isabel aos rumores que situavam a Ordem como uma homenagem à amante favorita de Filipe, cujos lautos cabelos louros seriam evocados pelo cordeiro e o que explicaria a escolha do infiel Jasão como inspiração.

 

 

* * *

 

 

Aos cavaleiros do Tosão de Ouro era recomendado que em todas as ocasiões usassem o seu colar de ouro reluzente, para prestigiar a Ordem – só mais tarde se passou a usar apenas a insígnia de pescoço, como a D. João VI. O duque borgonhês empenhou-se em garantir a grandiosidade do cerimonial, com reuniões capitulares com a máxima pompa, reguladas em cada pormenor protocolar, que suplantassem o que até então se vira pela Europa, ansiando assim reforçar a sua pretensão de independência[iii].

 

Representação de um dos faustosos capítulos da Ordem do Tosão de Ouro, presidido por um dos seus soberanos borgonheses (Filipe III ou o seu filho Carlos). (Biblioteca Municipal de Dijon)

 

Em 1432, apenas dois anos depois da fundação da Ordem, surgia na mesma corte outra instituição que havia de ser alvo de admiração, intriga e cobiça para os séculos seguintes – e igualmente até aos nossos dias. A sua riquíssima iconografia e simbolismo, entrelaçam-se na da Ordem do Tosão de Ouro, influenciando o seu cerimonial, mas entrelaçam-se também na nossa busca por sinais da presença lusa.

 

A 6 de Maio, na Igreja de São João Baptista de Gante (hoje, Catedral de São Bavão), era baptizado o segundo filho de Filipe e Isabel. O mais velho tinha morrido nos primeiros meses desse mesmo ano e também aquele se seguiria pouco depois. Mas se a breve vida de quatro meses não reservou ao neófito lugar na História, o cenário da celebração religiosa ganhou vida própria desde o primeiro dia.

 

O baptismo teve lugar diante do famosíssimo retábulo do Cordeiro Místico, obra prima dos irmãos Hubert e Jan van Eyck, mostrado nesse dia em avant-première. Era o início de uma das histórias mais atribuladas da História da Arte, cheia de aventura, resgates, roubos e mistério. Dürer, que terá visto o políptico em Abril de 1521, chamou-lhe a mais bela pintura da Cristandade.

 

Sendo verdadeiro milagre que permaneça quase intacto até aos dias de hoje, tem em curso um ambicioso projecto de restauro que durará, na totalidade, cerca de um quatro de século, para devolver os painéis ao estado original. Neste mesmo ano de 2021, o retábulo já parcialmente restaurado foi colocado num novo local dentro da Catedral de Gante, protegido de quase tudo o que já se cruzou com tão singular jóia em perto de 600 anos, incluindo da luz, dos iconoclastas e dos ladrões.

 

O Cordeiro Místico tem, quando fechado, 12 tábuas autónomas, representando as 4 centrais a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora, que ocorre no belíssimo interior de uma casa flamenga, com vistas para uma das cidades do Ducado. Por cima, dois profetas (Miqueias e Zacarias) e duas sibilas (profetisas importadas da mitologia clássica, neste caso a Sibila Eritreia e a Sibila de Cumas), todos anunciando o Salvador. Na parte inferior são representados os doadores do retábulo, Joost Vijdt e Lysbette Borluut, além de São João Baptista e São João Evangelista.

 

Painéis centrais do retábulo do Cordeiro Místico, de Hubert e Jan van Eyck, quando fechado, representando a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora, já depois do restauro. (Imagens: closertovaneyck.kikirpa.be)

 

Painel central do retábulo do Cordeiro Místico, de Hubert e Jan van Eyck, quando aberto, representando a Adoração do Cordeiro, já depois do restauro. (Imagens: closertovaneyck.kikirpa.be)

 

 




Pormenores do painel central do retábulo do Cordeiro Místico, de Hubert e Jan van Eyck, quando aberto, representando a Adoração do Cordeiro, já depois do restauro. (Imagens: closertovaneyck.kikirpa.be)

 

 

Quando aberto, o retábulo tem outras 12 tábuas, formando as seis inferiores uma cena, no centro da qual está o Cordeiro Divino, para o qual se viram todas as atenções de anjos, santos, bispos e reis que se multiplicam nas diferentes tábuas, numa magnífica mise-en-scéne do texto do Apocalipse de São João. Cada uma destas tábuas foi já profusamente estudada nos seus pormenores belíssimos, de uma grande riqueza iconográfica e extraordinária qualidade de execução. O restauro em curso tem permitido remover grande parte dos repintes para permitir redescobrir o trabalho original.

 

Jan van Eyck, o mais novo e mais famoso dos irmãos e autor de grande parte do retábulo depois da morte de Hubert em 1426, veio a Portugal em 1428 na embaixada enviada pelo Duque da Borgonha para pedir a mão da Infanta Isabel ao Rei D. João I[iv]. A peste de então, ainda sem dados diários por concelho e centena de milhar de habitante, obrigava a corte à itinerância e os embaixadores de Filipe III foram encontrar o Rei, a Infanta e os seus ínclitos irmãos na sede da dinastia, em Avis.

 

Foi ali que Jan van Eyck, pintor da corte e membro do séquito pessoal de Filipe III há vários anos, cumpriu o propósito da sua vinda: o retrato da Infanta, pintado em Avis, foi enviado para a Flandres, juntamente com a resposta do Rei D. João I à proposta borgonhesa. Van Eyck permaneceu em Portugal mais alguns meses, enquanto decorreram as negociações. A sua influência na arte portuguesa e nos célebres pintores que se formaram nesses anos de ouro é reconhecida pelos historiadores.

 

Se o retrato de van Eyck se perdeu uns séculos mais tarde, restam felizmente cópias do mesmo que nos permitem vislumbrar a Infanta D. Isabel antes dos seus anos no Norte da Europa e a forma como a mestria do flamengo a colocou, elegante e sedutora, sob um toucado de pérolas. A Torre do Tombo conserva uma das cópias existentes. Na moldura lê-se:

 

C'est la pourtraiture qui fu envoiée a Philippe duc de Bourgogne et de Brabant, de Dame Isabel, fille de roi Jean de Portugal et d'Algarbe, seigneur de Septe par lui conquise, qui fu depuis femme et épouse de dessus dit duc Philippe.[v]

 

Cópia do retrato de Jan van Eyck da Infanta D. Isabel de Portugal, depois Duquesa da Borgonha, que pertence ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, com a inscrição na bordadura.  (Imagem: ANTT)

 

No primeiro volume dos seus “Livros Antigos Portugueses” (Londres, 1928), o Rei D. Manuel II referia ser também possuidor de uma cópia semelhante – porventura a mesma, comprada em leilão e integrada mais tarde nas colecções nacionais – e descrevia desta forma a infanta: “Tem egualmente o olhar semi serrado, e sobretudo o esboço de sorriso, que se é alegre, tem tambem ironia.[vi]

 

As cópias do retrato permitiram mais recentemente a alguns autores, o primeiro dos quais terá sido Volker Herzner, especular sobre a verdadeira identidade de uma das figuras nas tábuas da parte exterior do retábulo do Cordeiro Místico de Gante: segurando uma faixa onde se intui ler “REX ALTISSIMUS ADVENIET PER SECULA FUTURUS SCILICET IN CARNE”, a Sibila de Cumas, vestindo de verde e com um imponente barrete cravejado de pérolas, tem inegáveis semelhanças com a Isabel de Portugal do retrato cujo original se perdeu[vii].

 

A mensagem que carrega (“O Rei Altíssimo virá com forma humana pelos séculos”) poderia, de facto, corresponder a uma mensagem política subliminar sobre as pretensões de independência do Ducado da Borgonha, que nesse momento travava uma feroz guerra com a França e cujas esperanças estavam no nascimento de um herdeiro de Filipe e de Isabel.


 

A Sibila de Cumas, no retábulo do Cordeiro Místico, de Hubert e Jan van Eyck (Imagens: closertovaneyck.kikirpa.be

 

Indo além da mensagem, a semelhança fisionómica e de vestuário entre as figuras dos dois retratos é bastante esclarecedora, mesmo descontando tratar-se um deles de uma “cópia tosca”, como lhe chamou o nosso último rei. Os vestidos são praticamente idênticos, tal como o toucado e até o pormenor da costura lateral do barrete, que arranca exactamente do mesmo sítio da orelha. Na extraordinária semelhança do conjunto reside a confirmação de que não se terá perdido totalmente a representação da Duquesa Isabel por van Eyck.

 

Quando postos lado a lado, a principal diferença entre as duas figuras, além da expressão mais serena e sóbria da Sibila, é na mão direita, que no retábulo de Gante repousa sobre o ventre, o que parece reforçar a ideia do duplo significado da mensagem profética.

 

A teoria não convence todos os historiadores, entendendo alguns que na época, de grande mortalidade infantil, seria mau augúrio representar a Duquesa de esperanças[viii]. A semelhança é, contudo, avassaladora e inegável: Isabel de Portugal, Infanta da Ínclita Geração, em cuja honra foi fundada a Ordem do Tosão de Ouro, está muito provavelmente representada num dos mais importantes tesouros da arte, disfarçada de profetisa.

 

Comparação entre a cópia de van Eyck e a Sibila de Cumas que se afigura ser uma representação da Duquesa da Borgonha.

 

Segundo o Rei D. Manuel II, van Eyck teria homenageado a Infanta colocando as torres da Sé de Lisboa entre o conjunto de monumentos que surge no fundo do painel central. É difícil discernir, no elaborado fundo, as torres da catedral alfacinha. Mas é verdade que entre a abundante vegetação surgem também árvores que van Eyck só poderia ter visto durante as suas viagens, pelo que não seria estranho que tivesse escolhido representar, na sua idealização da Jerusalém apocalíptica, edifícios que vira na Península Ibérica.

 

A história do retábulo do Cordeiro Místico é um thriller avassalador. Escondido dos iconoclastas durante as queimadas protestantes, foi cobiçado e roubado ao longo dos séculos. Levado para o Louvre por Napoleão, foi devolvido após Waterloo. Levado para Berlim durante a Grande Guerra, foi devolvido em 1920, para ter dois painéis roubados em 1934. Um deles foi devolvido pelo ladrão; o outro, o dos Juízes Justos, continua desaparecido e surgem de vez em quando notícias sobre a sua possível reaparição. O resto do retábulo, confiscado em 1942 por Hitler, teve ordem de destruição caso a Alemanha fosse derrotada mas foi salvo do bunker nas minas de sal de Altaussee e devolvido a Gante no final da Segunda Guerra.

 

O Cordeiro Místico acabaria por influenciar também a vida na corte de Filipe e Isabel, e as cerimónias da Ordem do Tosão de Ouro. Em várias das Entradas Solenes em cidades do ducado ao longo do seu reinado, houve representações vivas da cena central da adoração do Cordeiro Místico. Barbara Haggh-Huglo, musicóloga norte-americana especializada na Idade Média e na Renascença, estudou a música e as cerimónias da Ordem do Tosão de Ouro[ix] para concluir que o retábulo do Cordeiro Místico teve um impacto profundo no cerimonial da Ordem mas também na cristianização do tosão, que passou a ser visto, depois da exegese de Guillaume Fillastre, como alegoria da Anunciação e do próprio Cristo.

 

A busca do Tosão de Ouro, agora insígnia real e não apenas objectivo mitológico de Jasão, tornar-se-ia, a prazo, apetecível a todos os príncipes cristãos. De resto, um certo renascimento do espírito das Cruzadas, a que o retábulo do Cordeiro Místico também apela, estava na ordem do dia. Enquanto Portugal se preparava para a odisseia de África e, depois, da conquista dos “mares nunca de antes navegados”, na Borgonha preparar-se-ia em breve uma cruzada em que um português se assumiria como futuro Rei de Jerusalém.

 

(Continua...)

 

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Ademar Vala Marques

Outubro 2021

 

 



[i] Paviot, Jacques, Du nouveau sur la création de l'ordre de la toison d'or, in Journal des Savants  Année 2002  2  pp. 279-298.

[ii] Para uma análise mais aprofundada, recomenda-se Rey y Cabieses, Amadeo-Martín, La Orden del Toisón de Oro: Vicisitudes y debates históricos desde su fundación hasta la Guerra de la Independencia (1430-1700), in La Orden del Toisón de Oro: problemas y debates historiográficos desde su fundación a la actualidade, Real Academia Matritense de Heráldica y Genealogía, Madrid, 2020.

[iii]El complejo ceremonial de la Orden del Toisón de Oro permitió a sus primeros soberanos, sin ostentar el título de rey, revestirse con el lujo, la apariencia, la etiqueta de la dignidad de auténticos reyes o emperadores.” (Rey y Cabieses, op. cit., pág. 106)

[iv] Gonçalves, J. Cardoso, O Casamento de Isabel de Portugal com Filipe-o-Bom, Duque da Borgonha e a fundação da Ordem Militar do Tosão de Ouro, in Arqueologia e História, Volume IX, Série 6.ª, 1930.

[v] Algo como: “É o retrato que foi enviado a Filipe, Duque da Borgonha e Brabante, da Infanta Isabel, filha do Rei D. João de Portugal e do Algarve, senhor de Ceuta por si conquistada, que foi depois mulher e esposa do dito Duque Filipe.

[vi] Citado em Gonçalves, J. Cardoso, op. cit.

[vii] Em 1945, Jean Gessler, historiador belga, defendeu que as Sibilas têm os nomes trocados, uma vez que a inscrição que a Sibila de Cumas tem corresponde aos Oráculos Sibilinos, associados à Sibila Eritreia. Assim sendo, Isabel de Portugal estaria representada como Sibila Eritreia. (Breve nota na Revue belge de Philologie et d'Histoire Année 1945, 24, pp. 496-7)

[viii] Bernhard Ridderbos, Henk Th. van Veen, Anne van Buren, Early Netherlandish Paintings: Rediscovery, Reception and Research, p. 58.