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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

um homem bom é muito mais do que um gajo porreiro

 
 

 

não sei se éramos muitos ou apenas bastantes os que o vimos subir ao altar, para ler ao Pai. Aos poucos, como sempre acontece, a voz ficou um fio até estancar de todo; e nesse embargo de segundos vimos um homem, feito e famoso, recuar à infância e voltar a ser o menino de calções e bibe, desamparado. Toda a gente se condoeu à volta, contemplando-o como a Jesus na palha. Eu, a mim, deu-me logo grandes ganas de correr por ali fora a abraçá-lo, para que ficássemos no altar os dois, à vista de todos, cada qual apaixonado pelas suas próprias melancolias. Foi dos momentos mais comoventes do meu ano que passou.
 Pedro Mexia, são muitos anos (quantos? quinze, vinte?) A good man is hard to find, etc. e tal, eu sei. Entre os seus muitos talentos, o maior deles, caso não saibam, é a civilidade.
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 

terça-feira, 1 de maio de 2018

Maio, mês de Carolina.

 
 
 


 
 
         O Le Monde publicou um excelente fora-de-série sobre o mítico Maio, trazendo na capa a célebre fotografia da «Mariana de 68», assim chamada pela comparação óbvia com o quadro de Delacroix.

Procurei pela moça da imagem captada por Jean-Pierre Rey em Paris, na place Edmond Rostand, a 13 de Maio de 1968, mas estava receoso que os franceses, menos despertos para o follow-up do que os americanos, lhe tivessem perdido o rasto.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Não. A rapariga hoje mulher chama-se Caroline de Benderm e por três vezes tentou impedir judicialmente que a fotografia, originalmente divulgada pela revista Life, fosse republicada: em 1978, em 1988 e em 1998, Caroline foi aos tribunais em defesa do seu direito à imagem. Perdeu sempre, 1978, 1988, 1998, nas datas de comemoração de Maio (em 2008, terá desistido, pelo que é pouco provável que meta nova acção em 2018). Firmou-se jurisprudência em redor da foto, considerando os magistrados que a mesma, tirada num local público, ilustrava um facto histórico, pelo que a privacidade da retratada e o seu direito à imagem teriam de ceder perante a força das coisas, o movimento do colectivo. Talvez seja esta uma metáfora curiosa, talvez, mas não entremos por aí. Reparo agora que o Pedro Mexia já lhe fez a biografia, ou pelo menos  parte dela, em 2008, nas páginas do Público (aqui). Inglesa, jovem problemática, expulsa de vários colégios britânicos, modelo sem grande rasgo, neta de um conde que a exterminou do testamento assim que a viu em pose nas ruas de Paris, Caroline de Bendern viveu – ainda vive? – no opulento Monte Carlo, mas diz que nunca se arrependeu do que fez em Maio. Deserdada, passou a vida a processar o fotógrafo Rey. Perdeu sempre. Casou-se com o compositor Jacques Thollot, que morreu em 2014. Fez uns filmes por volta de 1968 e 1969, um dos quais tinha o Maio como pano de fundo (foi também estrela numa curta-metragem chamada Un film porno, rodada justamente em 1968 e dirigida pelo suíço Olivier Mosset, que terá decerto um pano de fundo que não o Maio de 68, nem sequer surgindo na filmografia oficial de Mosset nem da produtora, a fantástica Zanzibar Films). Avançamos também um vídeo do Youtube com uma cena do filme «À l'intention de Mademoiselle Issoufou à Bilma», película afro de 1971.
 
 
Un film porno, 1968
 
 
 
 
Além destes filmes de intervenção, a  acção política mais recente de Caroline foi contra o Brexit e a xenofobia, informa o Guardian.
E quem quiser falar com ela, encontra-a agora no Facebook. Join Facebook to connect with Caroline the Bendern. Sinal dos tempos. 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 13 de março de 2018

Marca de Água.

 
 
 
 
        
         Alegrem-se as almas. Foi publicado em Portugal, finalmente, Marca de Água. Sobre Veneza, o extraordinário livrinho de Joseph Brodsky sobre a Sereníssima, que viu a luz primeira em 1992 mas só agora, tantos anos volvidos, em Janeiro do corrente 2018, desembarcou até nós na barca da Relógio D’Água – e com grande tradução de Ana Luísa Faria, parabéns. Na mesma editora e na mesma colecção, já Veneza merecera lugar merecido com o livro de Javier Marías Veneza, Um Interior. E se tivermos presente que, noutra excepcional colecção de livros de viagens, a Tinta-da-china publicara Veneza, de Jan Morris, um dos melhores livros alguma vez escritos sobre a cidade-fábula, concluiremos que, para a pobreza reinante, não estamos mal servidos de literatura sobre aquela terra aquosa.
Nas páginas do Expresso, Pedro Mexia já escreveu o bem que havia a escrever sobre o livro de Brodsky e, quando o Pedro fala, pouco ou nada há a acrescentar. Na verdade, basta a assombrosa descrição de Brodsky sobre uma visita nocturna às salas cobertas de pó de um velho palácio veneziano, feita na companhia do seu proprietário, para valer a pena ler este livro.
Quase no final, Brodsky diz que as igrejas deveriam ficar abertas toda a noite, «pelo menos a da Madonna dell’Orto – não tanto em atenção à hora provável dos tormentos da alma como por causa da magnífica Virgem com o Menino que nela se abriga. Apeteceu-me desembarcar ali e dar uma espreitadela ao quadro, ao espaço de uma polegada que separa a mão esquerda da Madonna da planta do pé do menino. Essa polegada – ah, bem menos de uma polegada! – é o que separa o amor do erotismo. Ou talvez seja o grau supremo do erotismo.»
A coisa prometia. O problema é que Brodsky não identifica de que Virgem com o Menino está a falar. E o problema é que aquela de que provavelmente está a falar, a Madonna con Bambino, pintada por Giovanni Bellini em 1480, foi furtada da igreja da Madonna dell’Orto em 1993, ou seja, um ano depois de o Prémio Nobel ter publicado o seu livro. Na noite de 1 de Março de 1993, alguns ladrões entraram na igreja veneziana e apoderaram-se da tela de Bellini, nunca mais vista, que eu saiba. Era este o quadro, em nome do qual Brodsky apelava a que se mantivesse aberta à noite a igreja de Veneza. Mesmo com a igreja fechada, o quadro desapareceu… É pena, é tanta pena.
 

 
Sirva-nos de lenitivo e magro consolo o facto de, na mesma igreja de Madonna dell’Orto, existir uma estátua da Virgem com o Menino, da autoria de Antonio Rizzo (1430-1499), que não fica atrás do quadro de Bellini em matéria de erotismo (ou, pelo menos, do erotismo que julgo adivinhar no espírito de Brodsky).
 
 
 
De igual modo, Bellini pintou várias Virgens com o Menino, ainda que nenhuma delas, como é óbvio, susbstitua a obra-prima perdida; a mesma que, como também é óbvio, a obra-prima perdida nunca substituiria as três madonnas que aqui mostramos, todas razoavelmente «eróticas», crê-se. 
 

 





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Combray.

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Citadino impenitente, avesso à vida campestre, é contudo a uma casa de campo que me mantenho fiel. Uma casa na “província”, como se dizia em outros tempos, fica à entrada de uma vila mas é como se estivesse isolada, fora do mundo. As gerações mais velhas conhecem os vizinhos, mas eu só lhes sei o nome, ou nem isso, não é uma comunidade, esta casa, mas um castelo, um castelo ao baixo e não num alto, um castelo aberto, até há poucos anos tractores e carros de bois atravessavam o pátio, era “servidão de passagem” que estudei na faculdade, a casa não é porém uma “quinta” ou uma “herdade”, apenas um casarão antigo no campo, espaçoso, vetusto, de aspecto rústico e fidalgo, a minha Combray.
Uma casa é uma forma de identidade, uma permanência, uma ilusão de perpetuidade. Tanto que imaginamos que nada muda, embora saibamos que a mudança é uma inevitável; por exemplo as divisões da casa criam a sua mitologia, a sala onde agora escrevo era a cozinha, existiu aqui uma cozinha durante tantas décadas, e para mim nunca deixará de ser a cozinha, embora no futuro ninguém se lembre disso. A mitologia renova-se, cada geração tem a sua. No lugar desta casa havia outra, houve um incêndio, há uns duzentos anos, não sei bem, reconstruíram-na, e portanto a casa imemorial da qual avós e pais e tios se lembram era na verdade uma nova casa, tão nova como esta em que estamos agora, refeita por dentro depois da morte da avó e de uma divisão pelas filhas; e no entanto tantas modificações não alteram em nada a nossa imagem da casa, a imagem mental, é a mesma casa ainda que tenha mudado várias vezes, a sua identidade é igual à nossa, mudámos tanto, alguns de nós, quase não somos as mesmas pessoas, e no entanto continuam a conhecer-nos e a reconhecer-nos, como nós à casa. Custou-me ver as obras, há uns anos, embora fossem obras necessárias, acompanhadas de querelas desnecessárias, mudaram as coisas de sítio, uma escada é agora um quarto de dormir, um corredor é agora um armário, custou-me, custou-nos, desarrumaram a imagem da nossa infância, é isso uma casa, uma imagem da infância, um abrigo quase feminino.
Para nós que a tínhamos como segunda casa era também um ritual, a casa, colada ao calendário, a festas, férias, celebrações, baptizados, casamentos e funerais, todo o teatro da nossa alegria e fugacidade. Aqui havia longos verões, férias que pareciam ter dois anos, como em Júlio Verne; Natais à lareira; e tardes pascais que passavam devagar debaixo da olaia, à sombra do chorão, perto do grande tanque grande e tosco. Imagens que me passais pela retina: os primos escondidos no jardim a atirarem camélias a quem passava; as tangerinas do quintal contra as janelas. Antes de conhecer quaisquer perigos, o poço era o grande perigo, avisavam que não nos aproximássemos, contavam histórias de gente que tinha caído lá dentro, histórias falsas, quase de certeza, para meter medo, ainda hoje nada me mete mais medo do que um poço, em pequeno andávamos à volta, espreitávamos uma ou outra vez o pavoroso abismo, com as suas paredes de pedra e musgo, o seu fundo escuro e líquido, caí algumas vezes ao poço, em adulto, um poço bem mais fundo, para o qual não me tinham avisado, e pensei sempre nesse poço da infância, o pior de todos os perigos, bem à nossa vista, e no entanto uma fonte de consolo e de sustento. Entenda quem puder.
Em noites que não fossem muito frias, sentávamo-nos, sentamo-nos, no alpendre, a ver a serra lá em cima, é estranho como um lisboeta tem essa imagem da serenidade, quase da eternidade, os caminhos íngremes da serra, arvoredo e luzes esparsas, alguma povoação, e cá em baixo um comboio ruidoso e visível, que agora também já não há. E os sons sobre os quais escrevi um dos meus primeiros poemas, a madrugada de galos, a manhã de pássaros, a noite de grilos. Não conheço figura mais exemplar da fidelidade e da infelicidade do que o cão preto envelhecido, com as orelhas sem ferida, uma espécie de tosse, uma espécie de brandura, um cão do qual não havia mal algum a esperar, que talvez não nos defendesse de nada, mas que sairia em nossa defesa, de quantos humanos temos tal certeza? E a fantasmagoria das galinhas a andar em círculos sem cabeça, como eu na altura pensava que apenas as galinhas eram capazes.
E agora a casa é parcialmente minha, mas não me pertence, nunca me pertenceu, é ainda a casa dos avós, mesmo com os avós repousando num jazigo ao cimo da rua; e no entanto sempre foi e é a minha casa, tão segundo quanto primeira, a minha Combray, fui feliz aqui, aqui havia descanso, pertença, os irmãos que não tive, era uma zona de excepção, onde o mundo não entrava; também me lembro de sofrer nesta casa, mas era uma mágoa em surdina, um pressentimento, antecipava de algum modo a crueldade no mundo, mas este era um mundo diferente, tantas vezes passadista ou arcaico nas suas devoções, mas gentil, afável, um miúdo que também se criou aqui mais tarde ou mais cedo ia encontrar em Lisboa aquilo em que nunca pensou, aquilo para que nunca foi preparado. Alguma coisa que não estava nas arcas mágicas de quinquilharia no sótão, no crescimento colectivo de iguais, na música das festas de verão, na primeira pessoa do plural que nunca mais usei, na fornada de pão nocturno que íamos comprar e que em casa, ainda sem luz do dia, repartíamos.

Pedro Mexia