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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O Oldsmobile do senhor Macedo.







O Sr. Augusto Macedo tinha um Oldsmobile de 1928 que, durante décadas, animou o Rossio e a cidade de Lisboa. Cidade que agora não lhe agradece o gesto nem honra a memória, tal o estado de abandono a que vota o histórico automóvel, doado pela família à Associação de Turismo de Lisboa. A ser assim, que estímulo existe para fazer doações ao Estado, às entidades públicas? Lisboa, cidade sem memória… O alerta foi dado, como sempre, pelo Fórum Cidadania Lx – e o que o Paulo Ferrero tem feito por Lisboa e por nós é algo de extraordinário. Obrigado, Paulo, um grande abraço do

 

António Araújo



 






 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

acabado de regressar a Lisboa...





 


Exmo. Senhor Vereador

Eng. Ricardo Veludo

Exma. Senhora Vereadora

Dra. Catarina Vaz Pinto

 

C.C. PCML, AML, JF e media

 

Decorrido mais de um ano (Julho de 2019) sobre o embargo decretado, e bem, pela Câmara Municipal de Lisboa às obras ilegais então promovidas pelo proprietário da loja histórica A Minhota, e verificada há dias a existência de indícios de novas obras,

 E considerando que, como é do conhecimento de V. Exas., esta antiga leitaria é não só classificada “Loja com História”, como o seu exterior (montra em ferro e painel de azulejos publicitários) e interior (armários de madeira originais, fabulosas prateleiras em pedra, tectos de estuque e diversas raridades das leitarias do final do século XIX) são Património da cidade e por isso estão inscritos na Carta Municipal do Património (lote 45.72 (Antiga) Leitaria e Manteigaria “A Minhota”/Rua de São José, 138-140, Rua do Carrião, 70), não podendo ser alterados, conforme disposto no Regulamento do PDM;

 Solicitamos a V. Exa. que nos esclareça sobre o respectivo ponto de situação, isto é, se o embargo se mantém, ou se existe projecto aprovado e licenciado pela CML?

 Com os melhores cumprimentos

 

Fotos: Fernando Jorge (1 e 2), Time Out (3, 2018) e O Corvo (4 e 5, 2017)

 

http://cidadanialx.blogspot.com
http://cidadanialx.tripod.com







quinta-feira, 14 de junho de 2018

Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo.

 
 





Esta oliveira tinha 1390 anos. Mais de mil anos, portanto. Quase mil e quatrocentos anos, é verdade. Um certificado dizia datar de 728 d.C. Estava cá antes de Portugal, mas não lhe sobreviveu (ou Portugal não foi capaz de lhe sobreviver). Colocada em Santarém, frente aos serviços do Instituto de Conservação da Natureza que, pelos vistos, foram incapazes de a salvar. Morreu há pouco, deixaram-na secar, falecida de sede – e desleixo? Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo.

 




quinta-feira, 1 de junho de 2017

Quem Graça faz, graça merece.





 
Vem o provérbio popular do título acima a propósito da transfiguração radical (para bastante melhor, diga-se) por que tem passado o bairro da Graça, mais propriamente o seu coração, no largo homónimo, ou seja, naquele pedaço desenho urbano já de si lindíssimo que vai do miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen ao local de inversão de marcha do eléctrico 28, ao cimo da Rua Voz do Operário.
Trata-se de uma verdadeira metamorfose a nível do espaço público, tendo por base um princípio-base simples, apanágio do século XXI (cá, porque lá fora já vem de há muitas décadas): o primado do peão sobre o automóvel. Numa zona em que tudo parecia sufocado pelo imenso caos de sucata móvel, que a ocupava a seu bel-prazer de há muitos anos a esta parte.
Só por isso, portanto, esta obra deve ser motivo mais do que suficiente para encher de orgulho todos quantos nele (bairro) vivem, trabalham ou visitam e, já agora, os que contribuíram para que isto acontecesse, para fazer jus ao título que encima estas linhas:
Há mais passeios e em calçada portuguesa, amplos (ainda que bordejados pelos inevitáveis pilaretes), com bancos, e até vai regressar um coreto em frente da Escola-Oficina nº 1. Há mais árvores no “sopé” do Jardim Augusto Gil e um pouco por todo o lado, embora ainda haja lugar para mais umas quantas e grande parte das recém-plantadas o sejam porque em substituição de umas poucas injustamente abatidas.
E como a Graça não se reduz a um largo, e como sem N. Senhora da Graça e a respectiva igreja-convento, simplesmente, não haveria Graça nenhuma, há que não esquecer nesta acção de graças à CML (e não só) o que já foi feito e está a ser feito nesse conjunto monumental: o jardim da cerca do convento, que foi inaugurado há nem 2 anos (e a que ainda falta abrir 2 entradas), a lindíssima capela do Senhor dos Passos, que foi recentemente reaberta depois de minucioso restauro, e as várias alas do antigo convento (incluindo as dependências da Real Irmandade do Senhor dos Passos da Graça) e os próprios passos (alguns já recuperados) a restaurar. De fora, ainda sem destino ou obra efectivamente traçados ficam o resto do convento e do quartel entregues à GNR, mas de hotel não se deverão livrar, e que não seja mal que venha por bem, é o que deseja.
Falta o resto? Falta.
Desde logo, no capítulo dos popós, o arrumar de vez com aquela coisa dos carros estacionados na Rua Voz do Operário passeio acima, ou na ligação a Sapadores, ou nos acessos congestionados de veículos 3 e 4 rodas às vistas fantásticas que se tem desde a cadeira milagrosa de São Gens; e, claro, o tal de parque de estacionamento automóvel para quem vocifera por já não poder estacionar no meio do largo, ou porque não sabe que naquele sítio quem nele decida morar tem inevitavelmente um custo de oportunidade associado (o não de não poder ter tantos carros quantos os membros do agregado familiar), ou porque ao querer ir ao Botequim ou ao Pitéu, não quer ir de eléctrico nem de Uber, perdão, táxi, nem a pé. No entanto, o vasto espaço da parada do quartel dá para se fazer um amplo estacionamento, assim se entendam todos.
No espaço público, ainda, há que intervir com igual frémito a jusante da colina, seja no lindíssimo largo do Mosteiro de São Vicente de Fora, tornando-o unicamente pedonal, seja no refazer e alindar daquela encruzilhada de cotas e elementos espúrios a que dão o nome de Largo Rodrigues de Freitas, indigno, aliás, de uma capital europeia.
Falta sobretudo uma reabilitação cuidada do edificado de várias épocas e estilos, e não estilos, que compõe a riquíssima heterogeneidade da Graça, começando por devolver a dignidade e o aprumo merecidos ao Bairro Estrela d’Ouro (e já agora ao Royal) e que Agapito e suas filhas e Norte Júnior por certo agradecerão, e a todas as pequenas vilas operárias que há nas imediações. Há vários exemplos de reabilitação cuidada pela Graça (ex. Travessa das Mónicas, 67) mas não tantos que nela façam regra contra o abuso do PVC e das mansardas em zinco, o que é uma grande pena.
Seria óptimo que o complexo das Mónicas voltasse ao Estado e que, uma vez recuperado, fosse aberto à comunidade, não só porque o negócio da sua privatização nunca convenceu ninguém, como porque o que para lá se projectou é mau de mais para ser verdade.
Assim como óptimo seria que a CML se deixasse de patrocinar a destruição do alambor da muralha fernandina (Monumento Nacional), e se decidisse antes por reformular o traçado do tal funicular que quer colar à viva força na encosta, unindo as Olarias ao miradouro, mas que assim não vale.
 
 
Paulo Ferrero
Fundador do Fórum Cidadania Lx
 
(originalmente publicado no Diário de Notícias, de 29/5/2017)

sábado, 6 de junho de 2015

O néon na Polónia comunista: sem dúvida, um tema importante.

 
 
 





























Há gente diferente. Por exemplo, aqueles professores de excepção, que nos marcam sem que saibamos bem porquê, mestres que para sempre guardaremos na memória. Tive a ventura, ou o bom destino, de ser aluno de Adérito Tavares. Não foi apenas o melhor professor que tive na vida, é algo mais, uma gratidão difícil de explicar. Nas aulas de História, entre livros de Braudel e slides de castelos  raianos, o professor Adérito contava-nos episódios da sua vida. Como aquele em que, sendo criança vinda de terras do Sabugal, se maravilhou ao contemplar as luzes do Rossio à noite. Reclamos luminosos na Praça de Dom Pedro IV, brilhos faiscantes vistos pelos olhos de uma criança acabada de chegar à capital nacional.
         Na gente diferente, há gente que se dedica a causas. Os dias, os anos, o tempo e o trabalho, a paciência e a energia que o Paulo Ferrero já gastou para defender Lisboa é uma coisa que me deixa deslumbrado de admiração. O Paulo merecia uma estátua pelo bem que nos tem feito – sobretudo, pelos males que tem evitado ou denunciado. Outros que merecem aplauso são a Rita Múrias e o Paulo Barata. Andam há muito a recolher os letreiros luminosos que, de tanto passarmos por eles, já fazem parte de nós, ainda que nem nos lembremos quando desaparecem da vista. A Rita e o Paulo chamam-lhes «fantasmas», pois o néon é fugidio, quebradiço. Têm resgatado da destruição muitos dos anúncios faiscantes que fazem parte da paisagem urbana de Lisboa, tanto como a colina do Castelo ou o Elevador de Santa Justa. Para o ano, se tudo correr bem, a Rita e o Paulo irão realizar uma exposição no MUDE – Museu do Design e da Moda. A longo prazo, contam abrir um Museu do Néon em Lisboa. Que bom seria.
         Há um grande Museu do Néon em Las Vegas, que nunca vi (http://www.neonmuseum.org/ ). Outro em Berlim (aqui). E outro em Varsóvia, no bairro de Praga, na margem leste do Vístula, um sítio onde os turistas ainda vão pouco, mas suspeito que irão começar a ir cada vez mais. Não muito longe do Museu do Néon, no nº 25 da Rua Minska fica o Czar PRL – Museu da Vida Quotidiana sob o Comunismo.
         Uma vez, escrevi longamente, mais do que a conta e o bom senso, sobre alguns lugares da Ostalgie em Berlim. Também na Polónia a memória do comunismo virou atracção turística. Em Cracóvia, há excursões a Nowa Huta, um lugar sobre o qual gostaria de escrever, pois tem muita realidade dentro. Sobre Nowa Huta existe vasta literatura, tendo ainda há pouco saído dos livros que valem muito a pena. Unfinished Utopia. Nowa Huta, Stalinism, and Polish Society, 1949-56, de Katherine Lebow, e, mais acessível e cobrindo um âmbito temporal mais vasto, Nowa Huta, Generations of Change in a Model Socialist Town, de Kinga Pozniak. A ter escolher, escolheria este. Mas quem quiser ficar com uma breve ideia das cidades-modelo de inspiração soviética (como Sztálinváros, na Hungria, Stalinstadt, na Alemanha, ou Nowa Huta, na Polónia) pode socorrer-se, em tradução portuguesa, de Cortina de Ferro.O fim da Europa de Leste, de Anne Applebaum, a pp. 460ss.
 
 
 
         É também por causa de um livro que hoje aqui estamos reunidos. Da autoria da fotógrafa Ilona Karwinska, Polish Cold War Neon conta, de forma muito ilustrada, a história do néon polaco nos tempos do comunismo, quando o regime percebeu as potencialidades propagandísticas das luzes nocturnas.  Nesses tempos negros, foi criada, inclusivamente, uma empresa estatal só para tratar do néon polaco. No auge da sua actividade, a Reklama tinha à sua conta cerca de 1.000 instalações de néon espalhadas por um país que, não sendo pequeno, ainda vem a ser bastante grande. As histórias da Polónia, como a de Norman Davies, não falam do néon. A mais antiga história da Polónia que tenho, para mais escrita por um português, também não fala do néon (refiro-me a Historia da Polonia desde o Seu Começo, da autoria de José Hermenegildo Corrêa, publicada pela Typograhia de J. B. de Morando em 1865 – Hermenegildo Corrêa era aspirante da Alfândega Municipal de Lisboa quando escreveu este livro, em quatro tomos; e quando nos interrogamos sobre se, nos dias de hoje, um funcionário subalternno das alfândegas seria capaz ou teria sequer vontade de escrever uma história da Polónia em quatro volumes somos forçados a reconhecer que, em muitas coisas, houve um retrocesso civilizacional muito estranho). Voltando ao néon polaco, importa dizer que os anúncios da Reklama eram propagandísticos mas não necessariamente políticos. Tentando explicar, eram anúncios comerciais, publicitando edifícios, produtos, bens e serviços, não tendo um conteúdo declaradamente ideológico. Em todo o caso, veiculavam uma ideologia, a cores berrantes. Estilizados, sensaborões, pouco criativos, os néons da Polónia nada tinham a ver com os flamejantes painéis de Las Vegas, e ainda bem. Mas que lhes faltava graciosidade, disso não haja dúvida.
 












 
 
         Para terminar, um outro livro, Window-Shopping Through the Iron Curtain, de David Hlynsky. Da prestigiada chancela Thames & Hudson, com um tema interessante – as montras das lojas de Leste – tinha tudo para ser um bom livro. Não é. Comprei-o mal saiu para o comércio, no início deste ano. O livro tem uma ampla recolha de fotografias, cobrindo vários lugares: Praga, Moscovo, Belgrado, etc. Algumas imagens têm a sua graça, pelo kitsch, mas provocam um sorriso e pouco mais,. As fotografias são quase todas do pós-perestroika, 1989 em diante. Contextualização histórica, imagens antigas, nada ali existe. Uma decepção completa. Trata-se de um projecto fotográfico, não de um livro de História, bem sei. Mas tudo muito fraquinho, com um discurso padronizado e rebuscado, previsível, algo pedante. O livro não serviu para nada, excepto para falar dele neste texto, que se despede com um travo de desilusão e amargura pelo tempo que vos fiz perder. Logo numa altura tão turbulenta da vida nacional, em que o país inteiro se dilacera e debate com a conversão de Jesus ao credo sportinguista.
 
 
António Araújo