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terça-feira, 15 de abril de 2025

Há um segredo em Tomar que pode provocar um turbilhão na fé dos homens.

 

 

O thriller literário distingue-se perfeitamente das obras de crime e mistério e de espionagem, pode adicionar ao seu conteúdo crime e mistério e até práticas de espionagem, mas o que identifica este subgénero literário é a tensão à volta de um segredo muito bem guardado por agentes de bem ou maléficos, por organizações terroristas, por confrarias fanáticas, por serviços secretos, e muito mais. A matéria-prima mais manipulada no thriller literário é um problema histórico: um tratado de compra e venda de território que desapareceu no afundamento de um navio, um dado religioso suscetível de convulsionar crenças profundas, uma descoberta arqueológica terrestre ou subaquática com uma dimensão tal que pode levar ao confronto uma série de Estados; mas há também o thriller tecnológico, o thriller económico-financeiro e o que pode envolver o cataclismo termonuclear.

Nas últimas décadas, as livrarias aparecem enxameadas de títulos que ganham a dimensão de bestsellers. Houve Robert Ludlum, o criador de Jason Bourne, e que em 1976 escreveu um livro que envolvia dois gémeos à cata do segredo mais bem guardado do cristianismo, o túmulo de Cristo; houve Clive Cussler, um especialista em arqueologia subaquática, escreveu obras de suspense bastante originais, no tal arco da história à religião; e continua na ordem de dia Daniel Silva e é expectável que Dan Brown um dia destes apareça com um espetacular thriller tecnológico cujo ingrediente seja a inteligência artificial, ele que entreteve milhões de leitores em todo o mundo pondo Jesus casado com Maria Madalena, e deixando descendência implacavelmente perseguida por organizações apoiadas pelo Vaticano, com destaque para a Opus Dei.

O Segredo de Tomar, por Rui Miguel Pinto, Porto Editora, 2025, é um thriller histórico-religioso, rigorosamente pontuado pela organização do thriller: o capítulo inicial, suficientemente nebuloso mas apimentado com uma situação avassaladora, há mistério para desvendar; descrição de acontecimentos históricos, no caso a extinção da Ordem do Templo, havia que preservar um segredo que vinha das cruzadas a Jerusalém, o fundador da Ordem recebera a incumbência de Bernardo de Claraval para fazer pesquisas ali para os lados do Templo de Salomão e da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, um mensageiro do último Grão-Mestre vem até Tomar em 1307, o segredo está guardado; viremos a saber que existe uma sociedade secreta que ressuscitou a Ordem do Templo, não olham a meios para que o segredo não seja desvendado, será o caso de terem assassinado uma famoso medievalista português que estava perto de o desvendar; são capítulos muito curtos, as subtilezas literárias reduzidas ao mínimo, vamos percorrer variadíssimos domínios, entre Portugal e França, Tomar começa por ter a fatia de leão, na região da Champanhe, em Payns, está ativa a sociedade secreta, usa da falta de escrúpulos para envolver um outro medievalista português, Jaime Morais, para este chegar ao segredo de Tomar; os filhos do Augusto Sousa, um outro medievalista assassinado pela organização fanática, irão estar ativos do princípio ao fim; e se é fundamental que o thriller mantenha um ritmo trepidante, vamos começar em finais de setembro e não haverá parança, vão entrando em cena personagens como um perito em paleografia, haverá muita atividade no Convento de Cristo, um comprador de documentos antigos obtém documentos relativos à Ordem do Templo que irão pôr a sociedade secreta em sobressalto, o professor Jaime Morais irá levar um grupo de alunos para uma atividade sigilosa em Santa Maria dos Olivais…

E para não querer tirar o fôlego e desvelar mais histórias sobre o segredo de Tomar, posso dizer sem qualquer hesitação que este primeiro livro de Rui Miguel Pinto cumpre cabalmente a função de entretenimento, tem todos os artifícios que competem ao thriller, desde aquela frase que pode ser Altar de Monte Santo e que o jovem Miguel, filho de Augusto Sousa, dotado de mente ágil e boa estrutura cultural, logo percebe para onde deve encaminhar a investigação, sempre açulado pelos fanáticos da sociedade secreta, na Capela de Santa Maria do Castelo, em Monsanto, descobre-se mais um elemento que introduz uma reviravolta na trama; obviamente que tem que haver tiros, raptos e reféns, envolvimento de polícias, não faltarão mortos e feridos, fatal como o destino acendem-se e reacendem-se amores, há mesmo um bocadinho de sexo, o autor já capturou o leitor compulsivo, com estrépito caminhamos para o território do desfecho, não falta a caça ao homem, haverá mesmo choro e ranger de dentes quando o chefe da organização fanática descobre que o segredo de Tomar estava ali à mão de semear. Como é do uso e costume, mesmo com o corte de alguns dedos, tudo está bem quando acaba bem. Mas há sempre uma névoa, há pontos que ficam mal-esclarecidos. E ainda bem.

E o que é desencadeando em 27 de setembro tem o seu momento de clímax no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, já estamos em outubro, mais adiante ficamos a saber que há séculos, noutro local, há homens vigilantes para que o mais temível segredo do cristianismo não seja desvendado.

Mesmo sabendo que o argumento só tem originalidade de envolver Tomar e tomarenses, diga-se de passagem, de garbosa compostura, que já apareceu noutros livros, na televisão e no cinema, se é verdade que esta investigação tem conclusões que só surpreendem quem ainda não leu outros saberes assim tão bem guardados, não é demais exaltar esta promissora estreia, em torno de ficcionados mistérios templários, trata-se de um segredo que pode abalar os alicerces do cristianismo.

Que os leitores devotos dos segredos templários não se ponham a imaginar que para além da ficção é possível andar a escavacar os nossos monumentos nacionais, são os nossos melhores votos. 


                                                            Mário Beja Santos




quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Quando John le Carré escrevia romances policiais… e dos bons.

 



Para melhor se entender este romance policial, a segunda obra de John le Carré, a que se seguirá dos livros mais espantosos da literatura de espionagem, O Espião Que Veio do Frio, há que ter em conta alguns aspetos curriculares do autor: passou uma boa parte da infância num colégio interno; estudou nos meios universitário de Berna e Oxford; foi docente em Eton e mais tarde andou pelo MI5 e MI6, seguramente aqui colheu muitos elementos para a extraordinária literatura que se seguiu, primeiro a de espionagem e depois da Guerra Fria a descrição de cenários  desse mundo tumultuoso das ganâncias da indústria farmacêutica, da lavagem de dinheiro, dos conflitos étnicos, e muito mais. O que sobressai no seu romance Um Crime de Categoria, por John le Carré, Publicações Dom Quixote, 2022, é um certo ajuste de contas com a classe de professores de um meio colegial altamente tradicional, vergasta, trata de forma demolidora os preconceitos de uma classe social onde irá ocorrer um crime tenebroso. A abertura do romance é elucidativa: “A grandeza do Colégio de Carne é consensualmente atribuída a Eduardo VI, cujo fervor pela educação a história outorga ao duque de Somerset. Contudo, Carne prefere a respeitabilidade do monarca à discutível política do seu conselheiro, respaldado pela convicção de que os Grandes Colégios, tal como os reis da dinastia Tudor são predestinados no Céu (…) Em Carne toda a gente estava constantemente a carpir: os rapazes mais novos porque tinham de ficar e os mais velhos porque tinham de partir e os professores porque a respeitabilidade era mal paga”.

Necessariamente entramos logo num jantar de má língua dado por alguém que dentro de 6 meses se aposentará, são comentários depreciativos, afloram sentimentos de classe, ressentimentos que não se apagam. E passamos para a redação da revista “Christian Voice”, a diretora acaba de receber uma carta de uma senhora que pede ajuda, sabe que o marido anda a tentar matá-la. Miss Brimley fica siderada, pede ajuda ao seu amigo George Smiley, aqui fica o seu primeiro elemento identificativo: “Dantes achava-o a pessoa mais insignificante que alguma vez conhecera: baixo e roliço, com uns óculos grosso e cabelo ralo, era à primeira visto o protótipo de um malsucedido solteirão de meia idade com uma ocupação sedentária. O seu acanhamento natural na maior parte das questões práticas refletia-se na indumentária, que era cara inadequada, visto ele ser um joguete nas mãos do alfaiate, que o explorava”. George Smiley promete ir até Carne, telefona para o irmão de um camarada de guerra. A senhora que enviara a carta fora assassinada, jantara mesmo em casa do professor Fielding, que se iria reformar. Mas Smiley parte para Carne, apurou acontecimento junto do subchefe da polícia, este mede Smiley de alto a baixo, baixo e atarracado, mal vestido. O inspetor Rigby não perde oportunidade para dizer o que pensa daquela gente de Carne: “Há um grande fosso entre a gente da terra e o meio académico, estes formam a sua própria comunidade”, vêm os pormenores do homicídio, a vítima terá sido agredida 15 ou 20 vezes com uma moca ou um pedaço de cano, não houve roubo nem violação. O marido tinha ido a casa de Fielding buscar uma pasta com exames, deparou-se com aquela tragédia. Aquela conversa bem inglesa em que se estuda as gentes e os seus antecedentes prossegue entre o agente policial e Smiley, a investigação promete ser difícil, a arma do crime apareceu a 6 quilómetros de distância, começa-se a falar numa louca com quem a vítima se relacionava. E Smiley prossegue a investigação.

Visita Fielding, impunha-se retratá-lo: “Vestia, em lugar do costumado traje académico, uma magnífica indumentária constituída por uma grossa toga negra e peitilho judicial, como um monge de hábito de cerimónia. Naquela noite trazia uma rosa, e pela sua frescura Smiley deduziu que a tinha colocado nesse preciso momento”. É Fielding quem desvela o mundo de Carne, o que se ensina, o mundo das orações, e Fielding despeja o seu rancor: “Carne não é um colégio. É um sanatório para leprosos intelectuais. Os sintomas principiaram quando viemos da universidade: uma putrefação gradual das nossas extremidades intelectuais.” Durante o jantar, Fielding destila veneno, diverte-se a falar das farsas dos cerimoniais, está presente outro professor, o nome é D’Arcy, indigna-se com muitos dos comentários de Fielding. No regresso, depara-se com Janie, a tal louca, na noite do assassinato vira alguém a voar no vento, a atmosfera enigmática adensa-se, a polícia percebe que é muito difícil incriminar tal mulher, as provas são mínimas, faltam impressões digitais, o ambiente de crime parece ter sido avassalado por um tufão. É altura de Smiley ir falar com o viúvo, o professor Rode. E depois John le Carré avantaja a fotografia do seu personagem favorito, em toda a sua obra: “Smiley era daqueles solitários que parecem ter vindo ao mundo já completamente educados aos 18 anos de idade. Obscuridade era a sua natureza, assim como a sua profissão. As vielas da espionagem não são povoadas pelos espalhafatosos e coloridos aventureiros da ficção. Um homem que, como Smiley, tinha vivido e trabalhado durante anos entre os inimigos do seu país aprende uma única prece: que nunca, por nunca ser, deem por ele”.

Sucedem-se as entrevistas, ninguém daquele ambiente fechado deixará de ser interpelado por Smiley. E habilmente le Carré investe em pesquisas que irão conduzir à descodificação do crime, desde o início que se fala num nome de um jovem, Perkins, a segunda vítima de assassinato, um saco com roupa de caridade é procurado por Smiley, avança-se para a solução do crime, naquele saco vinha a indumentária do criminoso da mulher de Rode. E um tanto à inglesa, assim como Hercule Poirot convoca todos os possíveis envolvidos num determinado crime, Smiley recebe para jantar o criminoso, vem as provas do crime, os porquês de dois assassinatos, avisa que está a chegar o inspetor Rigby, o assassino fica inteiriçado, histérico, grita que não quer morrer na força, e o final desta bela obra só podia ter sido pensado e executado por um inglês:

“Smiley viu o carro partir. Não levava pressa; limitou-se a seguir o seu caminho pela rua molhada e desapareceu. Permaneceu ali muito depois de ele se ter ido, a olhar para o fundo da rua, de tal forma que os transeuntes o fitavam com estranheza ou tentavam seguir-lhe o olhar. Mas não havia nada para ver. Apenas a rua meio iluminada e as sombras que por ela iam passando.” 


Mário Beja Santos




 



domingo, 22 de maio de 2022

Quando o romance-problema se confrontou com a lógica cerebral de um detetive de génio.

 



 

No final dos anos 1920, uma dupla de primos deu à estampa o primeiro dos romances onde aparecia o detetive Ellery Queen, curiosamente escritor de romances policiais, insinuante e muito cioso da sua lógica dedutiva. A partir daí, apareceu um conjunto de obras que envolviam nomes de cidades ou países, chapéu romano, pó francês, ataúde grego, sapato holandês, cruz egípcia e, no caso vertente, laranja chinesa, este publicado em 1934. A trama destes romances-problema prende-se sempre com um ambiente um tanto claustrofóbico, o número de personagens é relativamente diminuto, há sempre um quadro que contextualiza a chegada à boca de cena de Ellery Queen, quando irrompe o crime vem então a polícia, com o inspetor Richard Queen, pai de Ellery, a capitanear a equipa do departamento de homicídios, e em todas as obras aparece o resmunga sargento Velie, com a sua pontinha de acinte, a tentar desfeitear o raciocínio deste detetive diplomado por Harvard. Estamos numa época gloriosa da literatura de crime e mistério, aqui se desenham quase a pena seca as personagens, há algo de teatral na sua entrada em cena, veja-se a descrição que se oferece do inspetor Queen: “O inspetor Queen assemelhava-se a um pássaro – um passarinho velho, de plumagem cinzenta, olhos estranhos e um bigode grisalho. Possuía também algo das aptidões do pássaro para estacar numa imobilidade de pedra quando as circunstâncias o exigiam, assim como a capacidade de se mover aos saltos, quando se tornava necessário agir com presteza. E nas ocasiões decisivas quase que chegava a pipilar. Era sabido que homenzarrões se encolhiam ao seu piar mais suave, pois, apesar do aspeto de pássaro, havia algo de impressionante naquele velho. E, por esta razão, os detetives sob o seu comando temiam-no e amavam-no.” 

Abre a cena no escritório de um editor de literatura e altamente conceituado colecionador de selos e joias. Um visitante sai do anonimato e pede para ser recebido pelo colecionador, vamos vê-lo encaminhado pelo secretário para uma sala, Donald Kirk andava por fora. Chega, é informado de que alguém o procura, parece que passou uma tempestade pela sala, está tudo do avesso, incluindo esse anónimo visitante, morto. Como foi possível? Ninguém entrou naquele espaço e ninguém dele saiu, assegurou veementemente o secretário. Ellery veio na companhia de Donald Kirk, tinha sido convidado para um evento, deparasse-lhe este insólito cenário onde não faltam duas lanças que ladeiam o cadáver e dá-se pela falta de uma tangerina. Na arquitetura do romance chegou o momento de pôr no palco um velho rabugento, um génio em línguas mortas, que move numa cadeira de rodas e anda para ali a maltratar verbalmente. O secretário, James Osborne, dá todas as explicações sobre a chegada do insólito visitante, aparece uma senhora com elevados conhecimentos da cultura chinesa, descobrir-se-á que há para ali uma elegante dama de sociedade que não passa de uma reles chantagista e ladra, o ignaro sócio de Donald Kirk, incapaz de um lampejo é expressivo nos comentários, e temos o clássico lugar da porta fechada, uma atração que outros autores cultivaram, como Edgar Wallace ou Frank Gruber ou S.S. Van Dine. O leitor fica logo dominado pela descrição daquele homem morto, que ninguém conhece: “Era o corpo rígido do homem corpulento de meia idade, cujo crânio calvo perdera o tom róseo e se tornara branco, respigado de vermelho, com fios gelatinosos que irradiavam de uma depressão escura no alto da cabeça. Tinha o rosto voltado para o soalho, e os seus braços curtos e gordos estavam contorcidos e metidos sob o corpo. Duas coisas estranhíssimas, de ferro, surgiam de dentro do seu casaco por detrás da nuca e, uma de cada lado da cabeça, pareciam como que figurando chifres”. 

Iniciam-se as diligências para entender aquele código de tudo estar às avessas, nada naquela sala deixara de ficar virado ao contrário. É inevitável o parecer do médico forense, terá havido para ali uma zaragata e depois um tiro fatal. Ellery vai perguntando, vai descobrindo que há segredos na vida familiar dos Kirk, parece que ninguém está de fora quanto à hipótese de ter assassinado o insólito visitante, a começar pelo próprio Donald Kirk, que se descobre ter um vulnerável álibi. No meio da tragédia, toda aquela gente janta numa atmosfera fúnebre o que se presumia ter sido um banquete. Fala-se muito da China, o leitor continua desorientado com tanta conversa labiríntica, mas já não pode perder a leitura febril, desaparecem livros hebraicos e nessa altura fala-se de um selo conhecido por Selo de Foochow, talvez uma das maiores raridades da filatelia, de valor incalculável, fazia parte do património do colecionador, aparece agora nas mãos de outra pessoa, lá se vão ouvindo argumentos para a troca de posse, Ellery Queen aproveita para nos dar uma lição pelos chamados selos “locais”, verdadeiros objetos filatélicos, pois a generalidade dos colecionadores interessam-se por selos de emissão nacional. E temos juras de amor, a ladra encostada à parede, tem cadastro internacional, andava a fazer chantagem, sabedora de um casamento tormentoso da irmã de Donald Kirk, conseguiu extorquir-lhe joias, qual Zorro o nosso Ellery Queen consegue arrebatar-lhe essas preciosidades. Nada se passa fora desta atmosfera claustrofóbica, a não ser umas conversas entre o inspetor Queen e o filho, avançamos, na maior das tensões para a revelação do crime, e é nisto que Ellery Queen lança um desafio ao leitor, uma autêntica provocação, pois diz-lhe: “Assegure-lhes que, neste ponto da leitura de O Mistério da Laranja Chinesa, estão na posse dos elementos essenciais à descoberta de uma solução clara do mistério. Devem, nesta altura, estar aptos a resolver o enigma do crime cometido na sala de espera do escritório de Donald Kirk. Serão capazes de os reunir e de, por um processo lógico de raciocínio, chegar à única solução possível?” O tanas, o leitor anda por ali atarantado e vai sorvendo as peripécias do desfecho final, tudo à moda, no próprio ambiente em que se dera o crime desvenda-se o engenho utilizado para a sala fechada, o porquê daquelas lanças, uma história de amor, ainda por cima malsucedido, em que a visada fica aturdida quando Ellery Queen denuncia o crime, quem matou confessa-se e salta pela janela em direção à morte. 

É este o fascínio da ilusão que provoca o romance, ficamos de boca aberta com as explicações dadas quanto à monstruosa tragédia engendrada por alguém que precisava de muito dinheiro. Para Ellery Queen é tudo simples: “Eu procurava um significado em todas as coisas, procurava um falso significado. Daí resultou que me pareceu necessário investigar todas as coisas que estivessem ao contrário, afinal o assassinato tivera fome e comera uma tangerina, trouxera o “Laranja Chinês”, selo valiosíssimo, que lhe custou a vida”. 

De leitura obrigatória, Ellery Queen é o sumo sacerdote da literatura de crime e mistério, de todos os tempos. 

 

  Mário Beja Santos 

 


 

 

 


quarta-feira, 26 de maio de 2021

A Janela Alta, de Raymond Chandler.

 




Raymond Chandler, 

provavelmente um dos maiores escritores norte-americanos de sempre


 


Vida movimentada, nasce em Chicago, educa-se em Inglaterra, onde não se deu bem, regressa aos Estados Unidos, é combatente no exército canadiano, fixa-se em Los Angeles, chega a administrador em empresas petrolíferas. Aos 44 anos, desempregado após a Grande Depressão, começa a escrever histórias policiais, ganha notoriedade, parece atraído pelo chamado “romance negro”. O seu primeiro romance intitula-se À beira do abismo, Chandler passa a ser visto com outros olhos até porque criou um detetive privado que passará a fazer parte da galeria das grandes lendas da literatura de crime e mistério, Philip Marlowe, o herói que o acompanhará noutras histórias de grande sucesso. Este detetive Marlowe é o espelho de Chandler e o seu oposto: bebe desalmadamente, vive dentro das normas, numa grande sobriedade, é desafetado e romântico, investiga em todas as direções e haverá um momento em que pespega a verdade dos acontecimentos na cara dos seus autores e volta à sua doce rotina, vai para casa, veste as suas roupas velhas e joga partidas de xadrez sozinho. É provável que o leitor iniciado se surpreenda com tantas referências a judeus e a certos preconceitos raciais, é fruto da época.

Que versa este espantoso romance intitulado A Janela Alta, Livros do Brasil/Porto Editora, 2021? O nosso detetive é contratado por uma ricaça para resgatar uma moeda rara. De imediato vamos ser envolvidos na definição de perfis e numa atmosfera de extravagâncias, bizantinices. Logo o local em que vive a ricaça, esta sempre com uma garrafa de Vinho do Porto na mão: “A sala era grande, quadrada, sombria e fresca e tinha a atmosfera sossegada de uma capela funerária. Tapeçarias nas paredes grosseiramente rebocadas, grades de ferro a imitar varandas por fora das janelas de sacada laterais, cadeiras pesadamente entalhadas com almofadas de veludo, costas de brocado e borlas de um dourado baço caído dos lados. Ao fundo, um vitral, quase do tamanho de um campo de ténis”. Daqui parte para a entrevista após dar referências à secretária Mrs. Elizabeth Bright Murdock, esta é premiada com a seguinte água-forte: “Tinha uma cara e um queixo enormes. O cabelo cinzento, cor de estanho, estava arranjado numa permanente rígida, o nariz duro tinha a forma de um bico e os olhos grandes e húmidos tinham a expressão compassiva das pedras molhadas. Tinha rendas à volta do pescoço, mas era um pescoço que ficaria melhor numa camisola de futebol. Vestia um vestido de seda acinzentada. Os braços nus eram grossos e eram sardentos. Ao lado dela estava uma mesa baixa com tampo de vidro e uma garrafa de vinho do Porto”. A ricaça quer saber os honorários, informa que tem um filho completamente idiota que fez um casamento estúpido sem o consentimento da mãe. Terá sido ela que levou o “Dobrão Brasher”. A moeda vale um dinheirão, é um exemplar fora de circulação. A senhora está inquieta porque um numismata telefonou-lhe para saber se lhe podia comprar a moeda, à cautela descobriu que a moeda levara sumiço. Tem início a investigação, encontrar uma amiga da esposa desaparecida, entretanto Marlowe apercebe-se que anda a ser seguido. Visita ao numismata, multiplicam-se as andanças. Marlowe descobre que o filho da sua cliente tem dívidas e que não são pequenas, acontece que o credor tem uma relação íntima com a amiga da esposa desaparecida, o credor pretende os serviços de Marlowe, são negados. Todos estes encontros são alvo de retratos poderosos, diálogos sóbrios, há muito humor cáustico, piadas e cinismo nas respostas. Em dado momento é como se estivéssemos a ler Steinbeck ou Faulkner, veja-se este primor: “Bunker Hill é cidade velha, cidade perdida, cidade miserável e cidade criminosa. Outrora, há muito tempo, era o bairro residencial mais seleto da cidade, e ainda estão de pé algumas das mansões góticas recortadas com pórticos amplos e paredes cobertas de telhas de madeira com as extremidades arredondadas e varandas envidraçadas de canto com torreões em agulha. Agora são todas pensões com os soalhos de parquê riscados, o brilhante polimento inicial gasto e as largas e vastas escadarias escurecidas pelo tempo e pelo verniz barato aplicado sobre gerações de sujidade. Nos quartos altos, as megeras das senhorias implicam com os inquilinos esquivos. Nos pórticos amplos e frescos, com os sapatos esburacados estendidos ao sol e a olhar para o nada, sentam-se os velhos com caras que lembram batalhas perdidas”.

Começam os crimes, irá ser baleado um jovem com pretensões a detetive que seguira Marlowe e lhe propusera parceria, na revelação do crime aparece um casal embebedado com a singularidade de a arma do crime estar debaixo da almofada da cama. É preciso talento a rodos para estar sempre a desenhar protagonistas, agora o Inspetor da Polícia, Jesse Breeze: “Era um homem grande, bastante barrigudo, com sapatos castanhos e brancos, meias descaídas, calças brancas com riscas pretas finas, camisa de colarinho aberto que deixava ver alguns pelos ruivos no cimo do peito, um casaco desportivo azul celeste que não tinha mais largura nos ombros do que uma garagem para dois carros”. O imbróglio ganha volume, vai ser assassinado o numismata, Marlowe recebe uma encomenda, alguém lhe envia o Dobrão Brasher. Aparentemente, a ricaça dá por findos os serviços de Marlowe, reaparecera a moeda, ela mal sabe que Marlowe também recebeu outra. No meio desta densa neblina, o detetive apercebe-se que há uma história de chantagem, há mesmo quem lhe proponha dinheiro generoso para estar calado. E Marlowe conhece a nora da ricaça, conversa esclarecedora, mais um perfil: “Tinha a boca larga e fria, o nariz pequeno, os grandes olhos frios, o cabelo escuro dividido ao meio por um risco largo e branco. Trazia um casaco branco por cima do vestido, com gola voltada para cima. Parecia mais velha, os olhos eram mais duros, os lábios pareciam ter-se esquecido de como é que se sorria”.

De novo reunido com a ricaça, aparece-lhe o filho que conta uma história da carochinha sobre a dívida, o desvio do Dobrão e como o recuperou. A polícia quer inteirar-se dos movimentos do detetive, este ajuda, vai dando pistas. Nestas movimentações, Marlowe descobre um falsário, ocorre uma nova morte e aproxima-se a hora da dedução final, há um velho segredo do passado, de uma janela alta alguém fotografou um abominável crime que origina chantagem e o uso de uma jovem inocente que leva regularmente dinheiro ao chantagista. Estamos em 1942 quando foi publicada A Janela Alta, ainda não era escandaloso escrever o que Chandler escreve: “O Dr. Carl Moss era um judeu grande e corpulento, com bigode à Hitler, olhos salientes e a calma de um glaciar”. Marlowe descobre a fotografia que é um móbil da chantagem bem como as razões de um suicídio, tudo vai contar à sua cliente e ao inspetor Breeze, há o final romântico de uma menina que volta para casa dos pais, a ricaça continua imperturbável a beber vinho do Porto, cada um parece seguir o seu destino, Marlowe veste as velhas roupas de trazer por casa e joga xadrez sozinho. O uísque nunca falta, ajuda a alta tensão entre os disparos. A Janela Alta é uma perfeição, digno dos aficionados da literatura de crime e mistério e de todos os outros que gostam de livros poderosos, inesquecíveis. 


Mário Beja Santos 




 

 

 



segunda-feira, 20 de maio de 2019

Balada em Angola, por Bruce OSS 117.

 
 



O caso tinha começado quando a C.I.A. tivera conhecimento de que Cuba se preparava para enviar um grupo de «instrutores» junto dos diferentes movimentos de libertação. Especialmente um de entre eles, devia transmitir a verdadeira palavra da revolução a uma organização de rebeldes angolanos instalados na Zâmbia com a bênção do Governo de Lusaka.
 
 


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Os natais de Agatha Christie.

 
 
 
         Devo a Mário Cabeças, que estuda com afinco a história das ameixas de Elvas, esta deliciosa referência a Agatha Christie, que não só colocou as ameixas de Elvas no enredo da sua história The Adventure of the Christmas Pudding (1960) como, ao recordar o Natal na sua autobiografia (1977), fala de novo do delicioso fruto. Aqui vai a transcrição em inglês, Boas Festas.
 
Christmas was the supreme Festival, something never to be forgotten. Christmas stockings in bed. Breakfast, when everyone had a separate chair heaped with presents. Then a rush to church and back to continue present opening. At two o’clock Christmas Dinner, the blinds drawn down and glittering ornaments and lights. First, oyster soup (not relished by me), turbot, then boiled turkey, roast turkey, and a large roast sirloin of beef. This was followed by plum pudding, mince pies, and a trifle full of sixpences, pigs, rings, bachelors’ buttons and all the rest of it. After that, again, innumerable kinds of dessert. In a story I once wrote, The Affair of the Christmas Pudding, I have described just such a feast. It is one of those things that I am sure will never be seen again in this generation; indeed I doubt nowadays if anyone’s digestion would stand it. However, our digestions stood it quite well then.
I usually had to vie in eating prowess with Humphrey Watts, the Watts son next to James in age. I suppose he must have been twenty-one or twenty-two to my twelve or thirteen. He was a very handsome young man, as well as being a good actor and a wonderful entertainer and teller of stories. Good as I always was at falling in love with people, I don’t think I fell in love with him, though it is amazing to me that I should not have done so. I suppose I was still at the stage where my love affairs had to be romantically impossible–concerned with public characters, such as the Bishop of London and King Alfonso of Spain, and of course with various actors. I know I fell deeply in love with Henry Ainley when I saw him in The Bondman, and I must have been just getting ripe for the K.O.W.s (Keen on Wallers), who were all to a girl in love with Lewis Waller in Monsieur Beaucaire.
Humphrey and I ate solidly through the Christmas Dinner. He scored over me in oyster soup, but otherwise we were neck and neck. We both first had roast turkey, then boiled turkey, and finally four or five slashing slices of sirloin of beef. It is possible that our elders confined themselves to only one kind of turkey for this course, but as far as I remember old Mr Watts certainly had beef as well as turkey. We then ate plum pudding and mince pies and trifle – I rather sparingly of trifle, because I didn’t like the taste of wine. After that there were the crackers, the grapes, the oranges, the Elvas plums, the Carlsbad plums, and the preserved fruits. Finally, during the afternoon, various handfuls of chocolates were fetched from the store-room to suit our taste. Do I remember being sick the next day? Having bilious attacks? No, never. The only bilious attacks I ever remember were those that seized me after eating unripe apples in September. I ate unripe apples practically every day, but occasionally I must have overdone it.
 
 
 

 
 

 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

São Cristóvão pela Europa (69)

 
 

Museu Mayer Van den Bergh, Antuérpia, 3 de Agosto de 2017

 
Mary Higgins Clark é uma autora de romances de suspense e mistério de grande sucesso. Nasceu em 1927 nos Estados Unidos.
Em 1995, publicou o livro Silent Night, cujo título evoca a célebre canção de Natal austríaca.
 
Todo o enredo do livro gira à volta de uma medalha de São Cristóvão. A medalha pertencera a um militar da II Guerra Mundial, a quem teria salvo a vida. Estava mesmo danificada no local em que uma bala tinha feito ricochete.
Na véspera de Natal, um rapaz de sete anos, Brian, neto do militar, vê-se envolvido nas maiores aventuras para salvar a medalha e assim poder entregá-la ao pai que sofre de uma doença grave.
Não que todos acreditem no poder salvífico da medalha.
Diz a mãe da criança: Cristóvão não era senão um mito. Nem sequer é já considerado um santo. As únicas pessoas que ele ajudou  foram os vendedores de medalhas. Antigamente toda a gente as colava no tablier dos carros.
E Jerry que rapta Brian: São Cristóvão! Não ponho os pés numa igreja há lustros mas mesmo eu sei que o despediram há uns anos. E quando eu penso em todas essas histórias que a avó nos contava, como ele levava o Cristo em cima dos ombros através de um rio ou não sei que mais...
Só Brian acredita que a medalha o salvará, a si próprio e ao pai. E imagina-se nos ombros do santo.
No momento crucial do romance, Brian utiliza a medalha como arma de arremesso ao atingir o raptor num olho. Quando no final um polícia o resgata ele pergunta-lhe se é o São Cristóvão.
E o romance termina com o inevitável happy end. Brian e o irmão põem a medalha de São Cristóvão no pescoço do pai e dizem em coro: Feliz Natal, papá.
 
José Liberato
 

 

domingo, 19 de novembro de 2017

As Meninas das Massagens, de J. J. More.

 
 
 
 
Entrando em Devonshire Terrace, encontrou a morada.
Não.
Hesitou em frente à porta da rua. O que tinha começado com uma aventura, num estado de embriaguez, tornava-se, lentamente, um tormento, Era ali que ele e Doris…
− Que raio! – disse e apressou-se a entrar.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Mitos e Mortos, de Vasconcelos Carvalho (Presidente da Direcção do Clube Filatélico de Portugal)

 
 
 
 
 
Mitos e Mortos, um complexo thriller nórdico cuja acção decorre, entre outras paragens exóticas, no Clube Filatélico de Angola e – juro – tem um capítulo intitulado «A morte definitiva do Silva Gama que não é Silva Gama». Livro policial, portanto, com uma morte definitiva, género infelizmente muito descurado pela moderna ficção de mistério i suspenso.
 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Correio da Gestapo, de Valentine Williams.

 
 
 
 
 
 Os S.S. saudaram o «Coxo» e retorquiram:
- «Zu Befehel, Herr Doktor!»
Von Halberstadt passou a língua, nervosamente, pelo bigode e arriscou humildemente:
- Julgo que me darão tempo a que a minha ordenança prepare a mala.
Procurei Müller com os olhos. Toda a sua petulância desaparecera e pelo rosto corria-lhe o suor que enxugava lentamente, com um lenço.              
 
 

terça-feira, 7 de junho de 2016

O regresso do Vampiro.

 
 
 


 
A Colecção Vampiro regressou de entre os mortos para trazer de volta um dos catálogos mais divertidos e com um arranjo gráfico que, ainda hoje, é revolucionário.  
 
As colecções do passado
 
Já aqui escrevi sobre a difícil relação que o mercado editorial português parece manter com o seu passado. Estas lacunas na memória editorial têm apartado os publicadores de uma saudável relação e, até mesmo, de uma lógica de continuidade com os grandes catálogos de que algumas editoras dispunham. É inegável que esta ausência de memória nos tem toldado as perspectivas e feito caminhar de costas voltadas para um passado que, muito mais do que mencionado, merece ser lido, tanto melhor quanto mais essa leitura seja feita contra o presente, contra a obsessão infundada pelos novos autores, contra os mais recentes prodígios editoriais ou êxitos de venda importados. Este passado editorial representa uma riquíssima herança para os actuais fazedores de livros, tanto pelos catálogos como pelas colecções em que estes muitas vezes se subdividiam.
As colecções, quando pensadas e estruturadas sob mais critérios que somente o género literário, quando reveladoras de uma atitude estética e de selecção coerente e ponderada, dão às editoras algo que os grandes grupos têm tido uma enorme dificuldade em lograr, uma identidade. A colecção da Relógio d’Água de formato económico e dedicada aos clássicos, bem como as diversas que a Tinta-da-China mantém são disto um excelente exemplo. Contudo, são recentes e, mais que isso, quase nenhuma das grandes colecções do passado sobreviveu até aos dias de hoje sem um sacrifício mais do relevante da sua identidade.
De entre as diversas colecções dignas de menção, talvez a mais icónica tenha sido, pelo menos no que ao aspecto gráfico diz respeito, a célebre Colecção Vampiro, editada pela Livros do Brasil, ainda hoje, e sem grande polémica, a mais reconhecível e meritória colecção no universo da literatura detectivesca. Quem se interessa por livros em Portugal reconhecerá de imediato os volumes da Colecção Vampiro, principalmente daqueles caixotes de exemplares a 1 e 2 euros, seja nos vendedores de fim-de-semana da Rua da Anchieta, nos alfarrabista ou em qualquer pessoa que tenta ganhar uns trocos a esvaziar as estantes herdadas dos pais. O império das vendas por atacado que estes livros representam, ainda hoje disponíveis para venda em alfarrabistas, mostra a enorme popularidade que esta colecção chegou em tempos a ter, tal como demonstra que, actualmente, a grande maioria dos seus volumes não estão particularmente valorizados no mercado dos livros antigos.
 
Antigas e novas andanças do Vampiro
Num gesto tão inesperado quanto saudavelmente conservador – ainda para mais num grupo como a Porto Editora, que incorpora quase cabalmente o mantra do empreendedorismo literário, se é que estas duas palavras podem ser acopladas sem danos cerebrais significativos para quem as pronuncia – decidiu ressuscitar a Colecção Vampiro na mesmíssima Livros do Brasil, actualmente uma das chancelas do conglomerado.
A Vampiro nasceu em 1947, com Poirot Desvenda o Passado de Agatha Christie, ao qual se seguiram cerca de setecentos livros, naquela que é, provavelmente, a mais prolífica colecção editorial portuguesa, e que durou até 2007, altura em que foi posta a dormir, depois de uns últimos anos de escolhas contestáveis e de claros retrocessos no impecável formato de bolso e nas emblemáticas capas que tinham tornado reconhecível a colecção.
Admitindo que muito do sucesso da Colecção Vampiro está relacionado com os gostos da época – vivíamos na época de ouro das novelas detectivescas –, certamente a sua estética única e imediatamente identificável, mesmo por quem ainda nem estava vivo quando o seu catálogo reinava, há-de ter jogado um papel central no fenómeno Vampiro. Isto terá acontecido sobretudo no formato de bolso (105x160), de tons predominantemente negros e onde as excepcionais capas de Cândido Costa Pinto ou Lima de Freitas fascinaram a grande maioria dos seus compradores e leitores, e que as colecções de policiais posteriores a serem editadas em Portugal, como a Xis e a Escaravelho de Ouro, nascidas na década de cinquenta, procuraram emular.
As singulares e tantas vezes desconcertantes capas – mais as de Costa Pinto, membro do Grupo Surrealista de Lisboa e um dos grandes nas artes gráficas nacionais –, chocavam com a simplicidade e, claro, a pobreza dos meios utilizados, não envergonhando as fabulosas revistas e seriados pulp norte-americanos dos anos vinte e trinta, que em parte a inspiraram, como a Weird Tales[1], a Astounding Stories[2] ou a Pocket Books, esta última publicada desde o fim dos anos trinta e com capas semelhantes. Em alguns casos Costa Pinto chega mesmo a mergulhar no profundo do plágio, como acontece com capa de A Mão Decepada, de Joel Townsley Rogers, que copia quase integralmente a capa do mesmo título na Pocket Books, como refere Henrique Valle num texto publicado no Malomil [3].
Sem prejuízo disto, Costa Pinto é, na e para a Vampiro, o autor de algumas das melhores capas da edição em Portugal, como acontece em O Caso das Garras de Veludo ou em O Caso do Olho de Vidro, ambos de Erle Stanley Gardner, em O Santo no Mar Alto, de Leslie Charteris, ou naquela que é, provavelmente, a mais exemplar capa do autor para a Vampiro, em O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie.
Esta segunda vida da Vampiro é agora reiniciada com S. S. Dine, em Os Crimes do Bispo, e com Ellery Queen, em Vivenda Calamidade, dois dos autores mais reconhecíveis e repetidos de um vasto catálogo de centenas e centenas de obras, juntamente com, só para citar alguns nomes, George Simenon, Raymond Chandler ou Rex Stout, para além dos já referidos Erle Stanley Gardner e Agatha Christie, e com alguns dos investigadores de papel e tinta mais eficazes e implacáveis da história da literatura, como Philip Marlowe, o detective imortalizado por Humphrey Bogart e com mais rápido nas ironias e nas piadas do que com as mãos num revólver, o picuinhas e vaidosíssimo Hercule Poirot, a metediça Jane Marple ou Perry Mason, o causídico que induziu em erro gerações e gerações de aspirantes a advogados no mundo real.
Podendo até questionar as qualidades literárias de uma parte significativa de um catálogo invulgarmente vasto e dedicado a géneros que pela popularidade ou pela marginalidade sempre ficaram um pouco longe do panteão literário, há que reconhecer que, dentro do género detectivesco, a Vampiro conta com um elenco notável e com obras que são, por direito próprio, bons momentos da literatura, como é o caso de O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett, um portento entre as novelas policiais. E, não se resumindo ao universo policial, a Vampiro deu também a conhecer alguns autores importantes dentro dos géneros fantástico e pulp, como é o caso de H. P. Lovecraft, cujo Os Mortos também Voltam, publicado pela Vampiro, foi o primeiro livro do grande mestre do horror do século XX a ser editado em português.
 
 
 
 
 
Ficar morto entre os mortos?
No passado dia 23 de maio, quase nas vésperas da abertura oficial da Feira do Livro de Lisboa de 2016, a Porto Editora anunciava da seguinte forma a recuperação da Vampiro, num comunicado publicado no site e onde vinha incluído o seguinte parágrafo:
A merecer a atenção dos leitores estará, certamente, o regresso da emblemática coleção Vampiro, da Livros do Brasil, que se iniciará com dois livros: Os Crimes do Bispo, de S.S. Van Dine (n.º 1) e Vivenda Calamidade, de Ellery Queen (n.º 2). Numerados, em formato de bolso e com um preço acessível – como sempre foi característico desta coleção criada no final dos anos 40 do século passado e que marcou gerações de leitores e a própria história da edição em Portugal.
Dar uma nova vida àquilo que já esteve morto, como tanta literatura de horror testemunha, é sempre perigoso. Mesmo no domínio metafórico da necromancia a que aqui nos circunscrevemos, não nos podemos furtar ao questionamento: que sentido faz recuperar uma colecção a que o eufemismo jornalístico do “morreu de doença prolongada” se pode aplicar na perfeição?
Mantendo ainda a brincadeira e analogia com o horror, o problema do zombie canónico do cinema não é o facto de comer cérebros ou o seu aspecto desconjuntado e andrajoso, mas sim o simples detalhe de que aquilo que regressa é de uma natureza diferente daquilo que partiu. O cerne da questão está, neste momento, e prende-se com o futuro da colecção e com o rumo que a Porto Editora pretenda dar a este catálogo. Se nova será Vampiro uma mera reposição do catálogo anterior ou se conseguirá seleccionar o que de melhor e menos disponível existe entre os seus autores, se será uma espécie de arca de enxoval ou se será capaz de dar continuidade ao catálogo e incluir novos autores que estejam hoje a escrever nestes mesmos géneros, isto é o que verdadeiramente interessa.
 
 
 
 
Estes dois livros editados permitem-nos, contudo, algumas conclusões. O formato de bolso é mantido, embora agora num 110x170, ligeiramente maior que o formato original. O mesmo, contudo, não acontece com as capas que, nesta nova Vampiro, são substituídas, pelo menos a julgar pela pequeníssima amostra disponível. E, tanto no caso de Ellery Queen como de S. S. Dine, infelizmente, substituíram duas das capas mais interessantes da colecção por desenhos sem qualquer ponto de contacto com o charme, o impacto e a graça dos originais.  
Pelo contrário, as traduções, uma Némesis demasiado frequente da Vampiro, mantêm-se. Este era um dos pontos mais críticos do catálogo, com enormes, frequentes e tantas vezes inexplicáveis problemas de tradução, com especial destaque nos títulos, que em português, muitas vezes, só se entendiam mesmo pela pura piada, como é caso do já referido Os Mortos Também Voltam, de H. P. Lovecraft, duplamente bizarro porque traduz para português o complicadíssimo título original The Case of Charles Dexter Ward (só era preciso mudar três palavras) e porque escolhe um título tão apropriado e distintivo para este conto do autor norte-americano que, à primeira vista, tanto poderia ser para este texto como para pelo menos mais uma meia-dúzia de textos de Lovecraft que tratam de pessoas/coisas que regressam da morte, como The Thing in the Doorstep, Herbert West Reanimator, Statement of Randolph Carter ou The Unnamble, isto para não falar do nada consensual À Beira do Abismo, versão portuguesa de The Big Sleep ou do incompreensível O Barco da Morte, a “tradução” para português de Death on the Nile, de Agatha Christie, em que o tradutor estava provavelmente a tentar mostrar ao editor que leu mesmo o livro.
Ambos os livros agora editados mantêm as traduções originais, apenas reformuladas ao acordo ortográfico aplicado pela Porto Editora e oriundas de um tempo em que as pessoas, em português, ainda praguejavam com um “caramba” iam a “sorveterias” e consideravam algumas coisas uma “tolice”. Em abono da verdade, os casos específicos das traduções de Vivenda da Calamidade e Os Crimes do Bispo não apresentam problemas de maior, mas, como se disse, há no catálogo da Vampiro autênticos desastres na arte de transpor um texto para uma outra língua.
 
 
 
 
 
Em suma, pretender republicar acriticamente e sem critérios de selecção o catálogo da Vampiro é absurdo, pelo que se espera que tal ideia não passe, de todo, pelos planos da Porto Editora. Muitos dos seus autores são hoje fósseis de um tempo e de um gosto sem qualquer comunicação com a actualidade. Há obras que merecem ser revisitadas, mas, mesmo dentro dos géneros em que a Vampiro tendeu a limitar-se, há ainda muito inédito por explorar. Esperemos que seja um catálogo com vocação para a continuidade, em vez de um mero museu de parte do kitsch português da segunda metade do século XX.
 
(uma versão mais reduzida deste texto foi publicada no jornal i,
de 2-VI-2016)
 
David Teles Pereira