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quinta-feira, 5 de março de 2026

Autópsia da formação e dos tormentos de guerra de um oficial dos Comandos, em Angola.

 





          Num tempo em que a literatura da guerra colonial se foca em memórias, em quadros de expiação de filhos de antigos combatentes que visitam os locais por onde andaram os pais, não deixa de surpreender O Elogio da Dureza, volume I de uma trilogia intitulada A Vida Aventureira de um Homem de Letras, por Rui de Azevedo Teixeira, Guerra e Paz Editores, 2024. Não vale a pena iludir a chamada ficção da literatura de guerra, romance, novela, conto, tem sempre fumos autobiográficos. O autor é doutor em letras, tem obra de académico e de ensaísta e procura neste seu primeiro volume da trilogia descrever a preparação de um alferes dos Comandos, expõe com crueza um drama familiar, era dado como perfilhado, sentia a ferida da discriminação, ainda por cima a relação com o padrasto era quase nula; fala-nos da sua mocidade e das muitas leituras, com relevo para Camões, Hemingway, Simenon, à testa de muitos outros nomes. Andou por Coimbra, frequentava certamente um curso de Filologia Germânica, citações a jeito de tais línguas aparecerão no romance. Impelido pelo fascínio da força, encaminhou-se para a guerra, vai descrever como nunca ninguém descreveu a preparação de um Comando, entremeia também como páginas de um diário que ele apresenta como diário incerto.

          Sobrepõe-se os tempos no romance, antes de conhecermos o que foi a sua preparação para a guerra, vemo-lo de regresso, um tanto à deriva, é convidado a entrar no PREC, o alvo são os esquerdistas e os comunistas. E entramos brutalmente no universo infernal da preparação, feito em Angola, no Centro de Instrução de Comandos. O teste da sede, o arranque do curso estava dado – brutalidade com o máximo de disciplina, formandos quase enlouquecidos a beber a própria urina, as humilhações, as eliminações de quem não suportava a dureza de tais provas, os crosses e as marchas forçadas, as flexões, numa barra fixa, até à exaustão, os tratamentos degradantes, a leitura em voz alta do correio enviado aos formandos, aquilo que hoje podemos chamar de violação de correspondência.

           E virá um momento de dúvida neste jovem que se ofereceu para os Comandos, ele vai passar uns dias a Luanda e segue-se um episódio marcante assim descrito:

          “De um golpe, numa única lição prática, percebeu a essência do colonialismo. Uma parte dessa essência.

Paulo descia e o homem preto subia. Ambos pelo mesmo passeio estreito. O preto tinha cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho, fato coçado. Um ar sério, digno, de pequeno funcionário. Três ou quatro metros antes de se cruzarem, o homem olhou para Paulo, baixou os olhos, encurvou as costas e, automaticamente desceu do passeio para Paulo poder passar à vontade. Baralhou-se a cabeça ao cadete. Caiu-lhe muito mal que um homem preto de meia-idade se tivesse curvado, diminuindo-se perante um jovem branco, perante si. Pela idade, podia ser seu pai. Nenhum dos textos que tinha lido sobre o colonialismo teve em Paulo o mesmo impacto que esta cena muda numa rua de Luanda.”

Vamos conhecer a vida daquele grupo de cadetes, os sofrimentos a que eles serão sujeitos nas últimas semanas da sua formação, segue-se o juramento dos Comandos. Voltamos ao PREC e passamos para a guerra do Leste de Angola, Paulo está no Luso, seguem-se operações, caso da Empurra Tudo, na zona do Luma Cassai, no lusco-fusco o grupo da tropa especial entra num acampamento, vamos ter o horror da guerra, uma faca de mato na barriga de um velho, girando lá dentro como o corno de um touro numa corrida, não faltam tiros de misericórdia para os guerrilheiros agonizantes. Entre operações, Paulo refastela-se, companhias femininas não lhe faltam, e depois temos as operações, os mortos e os feridos, não faltam interrogatórios com sofrimento descomunal. Há também as perdas de camaradas. E depois Paulo é afastado do Leste, vem preparar novas gentes, vai guardar grandes saudades das Terras do Fim do Mundo.

Neste entremeado do durante-antes-depois, Paulo já está a acabar o seu bacharelado, vemo-lo agora no centro de instrução dos Comandos, faz um curso de milhas e armadilhas, é convidado para participar na operação pantufada, no Mayombe, deixa-nos uma bela descrição:

“Sob intensa chuva e trovoada agressiva, os Comandos entraram ao fim da manhã na opulência vegetal de Mayombe. Os estouros metálicos dos trovões davam-se mesmo por cima das copas das árvores majestosas, o que tornava os comandos momentaneamente surdos. A espessa massa vegetal, de cheiro intenso e meio adocicado, e o sobe e desce dos morros da floresta tornavam a progressão muito mais difícil do que avançar pelas planuras do Leste. Mayombe, o verde vibrante e ubíquo. Verde no chão, verde a meia altura e, no alto, um céu de folhas verdes. Só o acinzentado das árvores muito direitas, altas e elegantes escapava ao verde.”

    E assim chegamos ao 25 de abril. Paulo é professor em Vila Figueira, cria amizades, gosta da estúrdia com um aristocrata real. Vai depois ensinar na ilha da Madeira, está a acabar a licenciatura, conhece Iza Maria Possolo d’Ornellas, haverá um casamento, ele dirá ser “sublime, sólido, sagrado”. A expiação em que vivera como filho de pai incógnito e perfilhado pelo padrasto irá ser cabalmente esclarecida por Iza, afinal Paulo era filho do padrasto, ele não esconde a sua revolta, aqueles pais nunca tiveram em conta o sofrimento do filho, decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. Assim termina o volume primeiro desta aventura de um homem de letras. António Cândido Franco diz tratar-se de “Curioso e comovente percurso do lobo solitário, personagem viva e única que evolui diante do leitor de forma memorável… Um milagre que transforma a dureza em pureza.” Esperamos vir a seguir as outras obras da trilogia. 


                                                                                                        Mário Beja Santos  

 




sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral.

 




 


    É um título surpreendente, pois não é uma biografia pautada pelo rigor historiográfico, nem é meramente um romance onde se iludem factos comprovadamente verídicos ou escamoteiem eventos ou documentos fidedignos. No prefácio à obra Amílcar Cabral, O Africano que Abalou o Império, por José Alvarez, Âncora Editora, 2025, o General Pezarat Correia presta esclarecimentos quanto à essência deste trabalho: “É um ensaio biográfico porque o tema é a vida de Amílcar Cabral, sustentada por uma exaustiva investigação de fontes primárias. É um romance porque nessa vida sobressai a acidentada e apaixonada vida amorosa de Cabral, traduzida em dois casamentos dominados pelo empenhamento ideológico e político do próprio e das suas companheiras. E é ficção histórica porque tratando-se da descrição de um percurso político, de uma época e das suas circunstâncias, onde se cruzam personalidades reais e em situações reais, toda ela é enriquecida com a óbvia imaginação criativa do autor na descrição e reprodução de cenários, da tensão nas reuniões, dos diálogos ideologicamente discordantes, das cumplicidades e traições que ali se cruzam.”

          Numa apresentação quase fascicular, acompanhamos o nascimento de Cabral na Guiné, conhecemos a sua filiação, a sua partida para Cabo Verde, os seus estudos primários e secundários, a sua atração pela criação literária, um curso liceal concluído com alta distinção e a sua partida em 1945 para Lisboa, beneficiava de uma bolsa de estudos. Chega e bate à porta da Casa dos Estudantes do Império, o prédio ainda está de pé ali no cruzamento do Arco do Cego, Rua Dona Estefânia e Avenida Duque d’Ávila, com uma lápide evocativa, bem maltratada à porta. Temos diálogos ficcionados, Cabral frequenta o Instituto Superior de Agronomia, cedo revela as suas capacidades, volta a emergir a ficção nos diálogos entre Cabral e Maria Helena Rodrigues, será a sua primeira mulher, casarão em Lisboa antes de partirem para a Guiné, em 1952, ele já formado, ela em vias de conclusão dos estudos. Somos introduzidos no círculo de amizades de ambos, a relação amorosa do casal é mostrada nos seus pontos de atrito, no contacto com outros estudantes africanos que vai começar a consolidar-se a preocupação nacionalista e anticolonialista de Cabral.

          Já com os estudos adiantados, em 1949, Cabral passa férias em Cabo Verde, nova ficção nos diálogos com os seus ternos familiares, revelam-se resquícios de uma ternura muito especial pela Rosa, a quem Cabral dedicara o poema Rosa Negra. Conversa ficcionada com o Governador, como mais tarde haverá ficção na conversa com o Governador da Guiné Diogo de Mello e Alvim, nas preocupações martirológicas de alguns autores até se inventou que Cabral fora expulso da Guiné, ele que ainda não tinha ficha na PIDE, o que ele tinha era um ataque de malária, tal como a mulher, a Junta de Saúde recambiou-os para Lisboa.

          Em 1951, Cabral está em fase de conclusão dos seus estudos, continua a reunir com amigos nacionalistas de várias colónias portuguesas, em 20 de dezembro de 1951, ele e Maria Helena casam no Registo Civil na Avenida Guerra Junqueiro, a festa é no Café Colonial, na Avenida Almirante Reis nº 24, come-se o seu prato favorito, bacalhau. Recebe a classificação de 18 valores, parte à frente para a Guiné, instala-se na Granja de Pessubé, prepara o ambiente para a chegada de Maria Helena. Tece um programa de comunicação sobre as noções básicas das potencialidades agrícolas da Guiné, chama a atenção; planificou o Recenseamento Agrícola da Guiné Portuguesa, fará trabalho de campo em grande parte do território em 1953. O seu irmão Luís chega À Guiné e vai trabalhar na Casa Gouveia. Maria Helena sofre muito com o clima. Nasce a filha mais velha, Iva Maria.

          Regresso a Lisboa, Cabral retoma atividades profissionais; perito na área da erosão dos solos, é atraído por trabalhos em Angola. José Alvarez faz constar uma viagem relâmpago de Cabral, de Angola a Bissau, em 1956, seria a data mítica da fundação do PAI. Encontro em Lisboa com Viriato da Cruz, nacionalista angolano, vestígios de relações tensas com Maria Helena. A pretexto de uma digressão em África para pelo estado português, Cabral percorre meios nacionalistas, em 1959 está de facto em Bissau, é o verdadeiro lançamento do partido, aliás dele só se falará em 1960, na Conferência de Tunes, a reunião veio no rescaldo dos graves acontecimentos havidos no porto do Pidjiquiti, um número impressionante de mortos e feridos na repressão policial.

          Novamente em Lisboa, em 1959, dentro em breve terá ficha na PIDE, Cabral prepara a sua partida para o exílio, está em contacto com outras figuras preponderantes da luta independentista. Está presente em Tunes na Conferência dos Povos Africanos, segue para Londres, apresenta o seu primeiro documento com alguma ressonância internacional, The Facts about Portugal African Colonies, assina Abel Djassi, faz amizade com o escritor e jornalista Basil Davidson. Instala-se em Conacri, por ali anda Viriato da Cruz, a sua atividade debate-se em várias frentes: tem um emprego do Estado, estrutura a organização do partido, sente a hostilidade de outros movimentos independentistas, recebe apoio da China para a formação de quadros da guerrilha, Luís Cabral já partiu para o exílio, vai-se-lhe juntar Rafael Barbosa, que terá um papel preponderante na mobilização de jovens para a Guiné-Conacri. Maria Helena será professora num liceu em Conacri, Mário Pinto Andrade é o dirigente do MPLA com quem Cabral aqui mais convive.

          1961 significa o nascimento da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, a causa independentista destas colónias entra no tabuleiro dos jogos africanos e na atenção da China, da URSS e países que lhe são afetos. O regime do Estado Novo sofre sérios abalos, desde o sequestro do paquete Santa Maria até à queda do Estado da Índia. Em Conacri, Cabral fundou o Lar dos Combatentes. Novas tensões no casal, Maria Helena está novamente grávida, é encaminhada para Rabat. A prisão de Rafael Barbosa em Bissau, em março de 1962, obriga a uma restruturação das células da guerrilha interna.

          Em 1962, no segundo semestre, começa a atividade subversiva e no início de 1963 a luta armada e o terramoto demográfico, os grupos do PAIGC procuram instalar-se em pontos de difícil acesso, ocupam várias áreas no Sul, confinando as populações que estão do lado português, ficando na órbita de quartéis; atravessa-se o Corubal e o PAIGC também se instala entre o Xime e o Xitole, são posições praticamente inamovíveis, o mesmo acontecerá nas densas florestas do Morés e áreas contíguas. O PAIGC lança a propaganda de que domina dois terços do território, uma franca fantasia, mas criou a vida extremamente penosa aos militares e milícias guineenses que se espalham por grande parte do território. Quando se chegar a 1964 não só se atingiu a paridade armamentista no que toca ao Exército, como o PAIGC desencadeia uma nova tormenta com a proliferação de minas antipessoal e anticarro.

          É facto que a partir de 1963, é o PAIGC exclusivamente que está no terreno, a estrutura de liderança é solida e a partir do Congresso de Cassacá, em fevereiro de 1964, instituem-se as FARP e o poder militar fica subordinado ao poder político. Dá-se a rutura relacional entre Cabral e Maria Helena, Moscovo torna-se no principal fornecedor de armamentos. E data de 1963 a denúncia de que nem tudo está bem dentro da organização, como se revelará no Congresso de Cassacá, que levará a afastamentos e execuções.

          José Alvarez, capítulo a capítulo, conduz-nos à ascensão internacional de Cabral, o ideólogo, o utópico, o diplomata, o visionário que prepara a declaração unilateral da independência; como irá refazer a sua vida amorosa com Ana Maria Voss, e, insidiosamente, vão emergindo os contenciosos entre guineenses e cabo-verdianos, até se chegar ao assassinato de 20 de abril de 1973. E conclui Alvarez: “Foi o pai da independência da guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano. Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fração do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção.”

Há que reconhecer que a obra de José Alvarez é um meritório esforço didático-pedagógico bem-sucedido, e espera-se que desta homenagem ao africano que abalou o Império surjam mais trabalhos na sua senda.


                                                                            Mário Beja Santos 


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Nem reportagem, nem biografia e duvidosamente um romance, é uma obra-prima consumada.

 


 

Acaba de ser publicada a edição comemorativa dos 40 anos da 1ª edição de O Papagaio de Flaubert, por Julian Barnes, Quetzal. Perguntará o leitor o que há assim de tão intricado para definir uma obra com discurso pulverizado entre literatura e escritores, histórias familiares do genial Gustave Flaubert, a sua correspondência, o desvendar da sua vida íntima e até a sua delapidação de património, ainda por cima havendo o pretexto de um médico inglês ter passado o Canal da Mancha dirigindo-se a Ruão, e com um objetivo que nos pode deixar atónitos: ver o papagaio embalsamado que serviu de modelo ao autor de Madame Bovary durante a escrita de um dos seus livros. E mais ainda, Julian Barnes publicou este livro em 1984, e a obra começa exatamente nesse ano com uma viagem do escritor inglês na chamada França profunda. Logo começam as observações que contribuem para que o leitor galope freneticamente na imaginação de uma escrita sagaz, do tipo: um escritor precisa de três coisas para ter êxito: talento, trabalho árduo e sorte, conta histórias alusivas à publicação de O Papagaio de Flaubert, e dirá mais adiante que aprendeu a lição que não vale a pena imaginar quem e qual pode ser o universo dos seus leitores.

Agora sim, o inglês Geoffrey Braithwaite está em Ruão, especado frente à estátua de Flaubert, ficamos a saber que a estátua não é original, os alemães levaram-na, a idealidade de Ruão aprovou o projeto de uma nova estátua, o escritor interroga-se, é como se dissesse ao leitor aqui vai o meu aviso à navegação. “Porque é que a escrita nos faz procurar o escritor? Porque é que não o deixamos em paz? Porque é que os livros não bastam? Flaubert queria que fosse assim: poucos escritores acreditaram mais na objetividade do texto escrito e na insignificância da personalidade do escritor; mas mesmo assim desobedecemos e continuamos.”

Atenção, o escritor vestiu a pele do tal médico reformado, procura saber mais sobre o romancista que tornou Emma Bovary uma estrela mundial. Viu o papagaio, Flaubert tinha pedido ao Museu de Ruão essa ave empalhada enquanto escrevia Un Cœur Simple, o que podia parecer uma vulgaridade abre uma trajetória para conhecer o processo narrativo do romance e graças ao papagaio; para que tudo se torne mais palpável e para que o leitor participe claramente na intrusão da vida e obra de Flaubert vamos ler, deliciados, a cronologia, mete família, o que publicou, as amizades e os amores, desvelam-se os seus pensamentos: “À medida que envelhecemos, o coração deixa cair as folhas como uma árvore. Nada resiste contra certos ventos. Cada dia arranca umas folhas mais; e depois há as tempestades, que de uma só vez partem vários ramos. E enquanto o verde da natureza cresce na primavera seguinte, o do coração não volta a crescer.”

Vamos penetrar na vida amorosa deste solteirão empedernido, a sua esplêndida correspondência, assim chegamos a formas de tratamento que podemos considerar um bestiário, em família e nos amores há ursos, ratazanas, ouriços, lagartos, mas é de facto o urso que impera, e assim chegamos a esse papagaio, o do intrigante título desta obra, mas que tanto seduziu o romancista francês, talvez porque o papagaio é capaz de imitar a voz humana. Mas é a convocação de pensamentos que dá a grude que nos vai inteiriçando de um assunto para outro, empolga-nos, a propósito de não apreciar os críticos quanto às referências à cor dos olhos de Emma Bovary, aparecem colorações diferentes, tanto podem ser castanhos como negros, e lá vamos sendo imiscuídos em considerações que do trivial, ou quase, ganham proporções de um quase êxtase, é o caso da história de adultério da sedução de Emma numa carruagem em andamento, que tanta indignação deu a gente pudibunda e levou Flaubert ao tribunal; ficamos igualmente a saber a relação que o escritor manteve com os caminhos de ferro, e temos o impacto dos dados biográficos:

“Nunca casou e nunca aprendeu a dançar. Resistia de tal maneira à dança que nos seus romances a maioria das personagens masculinas partilham desta atitude e também se refusam a dançar.

Em vez de aprender a dançar, o que é que aprendeu? Aprendeu que a vida não é uma escolha entre matar para chegar ao trono ou passar pela lama da pocilga; que há rei porcinos e porcos dignos de um trono; que o rei pode invejar o porco; e que as possibilidades da não-vida hão de sempre mudar angustiantemente para se encaixarem nos problemas da vida vivida.”

É aliciante, esta quase descida aos infernos da sua história amorosa com Louise Colet, é como se fosse um relato a várias vozes, deste modo:

“Não quero ser dura, mas logo quando o vi pela primeira vez reconheci o género: o provinciano grande e desajeitado, tão ansioso e feliz por finalmente se ver nos círculos artísticos. Gustave tinha 24 anos. Para mim, a idade não conta; o que conta é o amor. Não precisava de ter Gustave na minha vida. Se andasse à procura do meu amante – admito que a fortuna do meu marido não estava num ponto brilhante e a minha amizade com o filósofo estava nessa altura um pouco tumultuosa -, não teria escolhido Gustave (…) Era impetuoso, o meu Gustave. Deus sabe que nunca era fácil convencê-lo a encontrar-se comigo; mas quando lá estava… Fossem quais fossem as batalhas que existiram entre nós, nenhuma delas foi travada no reino da noite. Aí beijávamo-nos à luz dos relâmpagos; aí a violência ligava-se à brincadeira terna. Tinha, naturalmente, a eterna ilusão dos jovens fortes, a de que as mulheres medem a paixão pelo número de vezes que o assalto é renovado no decurso de uma mesma noite.” É, seguramente, uma das mais belas páginas, e no tal grau de confusão sobre o género literário em que se pode classificar esta obra-prima, onde não faltam máximas, arremedos de páginas de diário, um completo labirinto entre a arte e a vida, que Julian Barnes logo aproveita para ser claramente opinativo: “Para alguns, a Vida é rica e cremosa, feita segundo uma antiga receita caseira e só com produtos naturais, enquanto a Arte é um pálido produto comercial que consiste basicamente em corantes e sabores artificiais. Para outros, a Arte é a mais verdadeira das coisas, plena, movimentada e emocionalmente satisfatória, enquanto a Vida é pior que o pior dos romances: falha de enredo, povoada de maçadores e de velhacos, parca de espírito, envolta em incidentes desagradáveis e conducente a um desenlace doloroso e previsível.” E no final da obra, como que por milagre, não sabemos se estivemos sempre a conversar com um romancista consagrado e premiado ou com um médico reformado e viúvo.

Obra esplendorosa, em boa hora reeditada com muito cuidado gráfico. 


                                                                        Mário Beja Santos

 

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Natal em Alcântara.

 



                                Dedico este conto ao meu Padrinho António Pracana


   Este conto de Natal começa comigo a sair da boca do metro. Atravesso uma rua até ao Largo das Fontaínhas. Ultrapasso a fila que se forma de manhã no Consulado e bebo uma bica no restaurante “Resina". A sair, olho para a casa por cima do Burger King, onde passava os natais da minha infância. Entro na hamburgueria e cumprimento o senhor Diógenes, cuja história irei de seguida contar. Ele vende-me o menu “Whopper”. E lembro-me de olhar pela janela na consoada.

   Naquele Natal nevava em Alcântara: o horizonte era brumoso, mas feliz. O frio cheirava-se, mas todos os que tinham agasalho contentavam-se com o fenómeno.

   Reinavam as luzes no meio do nevoeiro. A “CUF” estava quase escondida: só as janelas brilhantes e os táxis eram percetíveis. Sempre reparei no heliporto do hospital. Nunca lá tinha visto nenhum helicóptero e pensava que seria ali que estacionavam o Rudolfo e o Pai Natal.

   Do mesmo modo, as luzes das gruas das docas e ainda a própria ponte pareciam árvores de Natal que ficavam montadas o ano inteiro. A tudo isto acrescentava-se a iluminação natalícia oficial.

   Entre as pessoas que não gostavam do frio estava o senhor Diógenes. Não era maldisposto, mas ninguém gosta verdadeiramente de sentir frio.

   Nesse Natal,fiz um bolo-rei. Fui comprar a fruta cristalizada à mercearia e fui preparar o bolo a casa da minha avó. Em casa da minha avó estavam guardados a aguardente e o vinho do Porto, ingredientes que não poderia comprar sozinho. O cheiro da aguardente na massa do bolo-rei é fortíssimo!

   A preparação do bolo-rei é muito diferente da dos outros bolos: não se usa uma batedeira e não se prova a massa com os dedos. É mais especial do que fazer pão, apesar de às vezes os processos terem semelhanças.

   Enquanto a minha avó assistia o “Natal dos Hospitais” na rtp, comecei a misturar a farinha com a margarina com as mãos, depois: o fermento, a aguardente, a dúzia de ovos, as raspas de laranja e limão, o sumo de laranja, o leite morno, o açúcar, as frutas cristalizadas e a fava. Bati a massa com os punhos, envolvendo-a de baixo para cima, sem a deixar arrefecer. Chegou a minha avó. Só nas tuas mãos está, pelo menos, outro bolo - disse ela com carinho.

   Limpei as mãos e deixamos a massa levedar. Durante a espera para decorar o bolo, depois de o levar ao forno, ouvimos as "christmas carols" do Frank Sinatra e do Bobby Helms.

   Tendo terminado, fui encontrar-me com o senhor Diógenes. A casa dele era perto da minha. Fiz o caminho inverso ao que narrei no início do conto. Cheguei a uma Avenida que percorri até metade. No caminho, encontrei um grupo de homens sentados à beira de uma fogueira de três metros. 

   A casa de metal do senhor Diógenes não ficava longe desse lugar. Conversámos enquanto comíamos fatias gulosas do bolo que eu trouxera. 

   Antes de partir, o senhor Diógenes ofereceu-me o seu último tesouro: um ovo de avestruz. Ele trabalhara numa oficina de presépios. Segundo ele, era melhor que a oficina do Pai Natal. As mínimas figuras de cerâmica contavam todas a mesma história com ambientes e atores diferentes. Era um local desarrumado, mas, sem dúvida, emblemático.

   Abri o ovo e descobri um belo presépio. O ovo, por fora, era dourado com quatro “pés de galinha”. Toda a ação estava organizada em torno do Menino Jesus. Jesus tinha a seus pés pequenas abóboras e laranjas. A seu lado um senhor oferecia-lhe bananas e frutos exóticos. Era quase irónica a mistura entre o Antigo e o Moderno extravagante: todos estavam vestidos com mantos coloridos, bordados a ouro e feitos de veludo. 

   São José e Nossa Senhora estavam atrás do Menino, acompanhados de quatro senhoras. Nossa Senhora estava sentada em cima de uma manta azul. São José segurava-se no seu cajado. Duas das senhoras estavam no fundo, outra ajoelhada perto do Menino. Do lado oposto, estava uma cabrinha que sempre foi a minha figura preferida. Uma senhora carregava cestos de limões. A última senhora trazia um vaso de barro na mão esquerda, e mais trabalhos de barro num cesto por cima da cabeça. Por fim, os reis magos, de joelhos, eram os mais próximos do Menino e faziam-lhe as suas ofertas. 

   Por cima de tudo, estava um muro de pedra com uma trepadeira florida. As flores eram brancas. O muro escondia a fachada da casa minhota onde estavam a Sagrada Família e todos. 

   As faces das figuras, devido à sua pequena dimensão, tinham expressões muito simples. Felizmente, as laranjas, os cabelos e chapéus, os vasos, as cores dos mantos, as flores e as bananas, faziam-nos encontrar algo diferente no presépio todos os Natais.

   Passados três anos o senhor Diógenes encontrou um emprego. Pediu ajuda. Agora mora em Mem Martins. 

   As consoadas em nossa casa eram sempre iguais. Vinham avós, tios e primos de todos os graus. A sala meio escura era apenas iluminada pelas luzes douradas, verdes e vermelhas do pinheiro de Natal. A mesa de banquete tinha um pano vermelho e branco com desenhos bordados da flor de Natal. A avó sentava-se à cabeceira virada para a porta de entrada. Aos doces de Natal juntavam-se as especialidades de uma tia ou avó (mousses, arrozes-doces ou serraduras), que eram sempre as primeiras a acabar. 

   No dia 24, eram muitos os atrasos: o tempo passava rápido. O Dia de Natal parecia o dia mais longo do ano. As crianças jogavam jogos de tabuleiro. Os adultos comiam "after-eights" e conversavam com fervor.

   Olhava pela janela e via tudo aquilo que já descrevi anteriormente. No centro da festa e para maravilha de todos estava o presépio.

 

                                                                                            Lucas Mendes


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Como me fiz um homem inteiro, feito de todos os homens e que vale por todos eles.

 


 

Antes de se tornar no Papa do existencialismo, em grande romancista e dramaturgo, teatrólogo brilhante, ativista de grandes causas, Jean-Paul Sartre foi criança, teve uma infância marcante, viveu num ambiente familiar tratado com desvelo e atribui àquela atmosfera de livros o gosto em tornar as palavras que leu na sua própria escrita. As Palavras, romance autobiográfico dado à estampa poucos meses antes de lhe ser atribuído o Prémio Nobel da Literatura, é esse estupendo exercício.

Escavando a memória, libertando recordações, vai dar-nos essencialmente o que foi a sua infância no meio dos livros, no recato do meio familiar e como a leitura lhe definiu o modo de escrever, na pessoa em que se transformou. Dirá mesmo que “comecei a minha vida como provavelmente a irei terminar: no meio dos livros”. E adianta: “No escritório do meu avô, havia-os por toda a parte; era proibido limpar-lhes o pó, exceto uma vez por ano. Ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas; direitas ou inclinadas, robustas como tijolos nas estantes da biblioteca ou nobremente espaçadas em áleas de menires, sentia que a prosperidade da família dependia delas. Tocava-lhes às escondidas para honrar as minhas mãos com a sua poeira, mas não sabia bem o que fazer delas e todos os dias assistia a cerimónias cujo sentido me escapava: o meu avô – normalmente tão desajeitado que a minha mãe lhe abotoava as luvas – manuseava esses objetos culturais com uma destreza de oficiante. Vi-o mil vezes levantar com um ar ausente, dar a volta à mesa, atravessar a divisão em duas passadas, pegar num volume sem hesitar, sem se dar tempo de o escolher, folheá-lo ao voltar para a poltrona, com um movimento combinado do polegar e do indicador.”

Muito se fala da Alsácia Lorena, o avô domina fluentemente o alemão e o francês. A biblioteca é volumosa, a vida social era fluente, como Sartre observa: “Frequentávamos pessoas ponderadas que falavam alto e com clareza, baseavam as suas certezas em princípios sãos, na sageza das nações, e não desdenhavam distinguir-se do comum apenas por um certo maneirismo da alma, ao qual eu estava perfeitamente habituado. As visitas despediam-se, eu ficava sozinho, evadia-me desse cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura dos livros. Bastava-me abrir um para nele redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de ideia em ideia, cem vezes por página, e eu deixava-o seguir, atordoado, perdido.”

Para gozar na plenitude As Palavras, de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, 2024, é preciso aceitar este passeio na memória até uma biblioteca do início do século XX, dela extrair a formação de uma mentalidade, a descoberta de que foi nesta infusão de leituras que nasceu o prazer da escrita. O menino Sartre é puxado pela mãe e pelo avô, da leitura que hoje se designa por infato-juvenil, um autêntico mundo de aventuras, a estudar em casa é depois inscrito no liceu onde se descobre que era demasiado avançado para a sua idade. Vai olhando à volta os adultos da sua família, confessa que e o seu corpo formavam um estranho casal, é educado no catolicismo até que a fé, um dia, se esvaiu. Teve as suas doenças e foi mimado nas suas convalescenças. Deus o angustia, e Dele passa a descrer: “Se Deus me livrasse das aflições, eu teria sido uma obra-prima assinada; seguro da minha parte no concerto universal, teria aguardado pacientemente que Ele me revelasse os seus desígnios e a minha necessidade. Eu pressentia a religião, aguardava-a, era o remédio. Se me a tivessem recusado, eu próprio a teria inventado. Que não ma recusassem: educado na fé católica, apreendi que o Todo-Poderoso me criara para a Sua glória: era mais do que aquilo que eu ousaria sonhar.”

Educado nesta atmosfera de gente cumpridora dos preceitos culturais burgueses, vai-nos deixando registos esplendentes desta sociedade antes da Primeira Guerra Mundial. O teatro, por exemplo:

“Os burgueses do século passado nunca se esqueceram do seu primeiro serão no teatro e os seus escritores encarregaram-se de nos relatar as circunstâncias. Quando o pano subiu, as crianças julgaram-se na corte. Os ouros e as púrpuras, as luzes, as pinturas, a ênfase e os artifícios punham algo de sagrado até no crime; no palco, viram ressuscitar a nobreza que os seus avós haviam assassinado. Nos entreatos, a estratificação das galerias oferecia-lhes a imagem da sociedade; foram-lhes mostrados, nos camarotes, ombros nus e nobres vivos.“

Aprendeu a ler, sente-se um beneficiário do amor familiar, é nisto que, surdamente, o vai minando a epopeia da escrita. A segunda parte de As Palavras é em si própria a génese da sua aventura na escrita, ele vai descrevendo as sinuosidades em todas estas tentativas dos seus queridos juvenis, a mãe orgulhosa com estes primeiros escritos, o avô mais cético. Em retrospetiva, faz a sua confissão:

“Há alguns anos, fizeram-me notar as personagens das minhas peças e dos meus romances tomam as suas decisões bruscamente e em crise, que basta um instante, por exemplo, para que o Orestes das Moscas conclua a sua conversão. Sem dúvida: é que os faço à minha imagem; provavelmente, não tal como sou, mas tal como quis ser (…) À falta de me amar, fugi para a frente; resultado: amo-me ainda menos, essa inexorável progressão desqualifica-me incessantemente aos meus olhos; ontem, agi mal, visto que era ontem, e hoje pressinto o julgamento severo que farei incidir sobre mim amanhã.”

E dá-nos uma despedida que é a sua assumida condição humana posta em palavras:

“Durante muito tempo, considerei a pena como uma espada, agora conheço a nossa impotência. Não importa: faço, farei livros; é preciso que o faça; servem para alguma coisa, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não justifica. Mas é um produto do homem: este projeta-se nela, reconhece-se nela; apenas esse espelho crítico lhe oferece a sua imagem (…) Lancei-me por inteiro à obra para me salvar por inteiro. Se arrumo a impossível Salvação no armazém, que resta? Um homem inteiro, feito de todos os homens que vale por todos eles, e por quem valem todos os outros.”

Um monumento autobiográfico no topo da grandeza da escrita. 


                                                                            Mário Beja Santos

 


segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Sagal, o bravo paraquedista, combatente em Moçambique e Angola, justiceiro na Venda Nova.

 


 

A literatura é pródiga em heróis feitos na guerra que no regresso passam pela descida aos infernos e fazem a catarse como justiceiros, defensores de valores pátrios, juízes implacáveis castigando espiões, rufias, gangues, poderão mesmo apresentar-se como defensores de humilhados e ofendidos. Recordo, a título meramente exemplificativo Mike Hammer, um detetive criado por Mickey Spillane, um escritor norte-americano que teve larga audiência pela sua prosa truculenta, ágil, anticomunista (foi colaborador no macartismo), punindo sem dó nem piedade quer os agentes de Moscovo, criminosos avulsos, por vezes geniais, máfias de exploração de raparigas, etc.

António Brito é autor de uma das obras mais importantes da literatura da guerra colonial, Olhos de Caçador, publicado em 2007, inegavelmente autobiográfico. Em 2012, deu-nos Sagal, Um Herói Feito em África, temos agora a infância, a juventude, uma guerra duríssima em Moçambique e Angola, a queda num abismo, a ressurreição com o prodígio de desmontar um negócio sórdido para matar um supermercado na Venda Nova. Acaba de sair nova edição no Clube do Autor, é bem merecido o regresso de António Brito, segue-se a justificação do aplauso.

Um Sagal que é abandonado numa caixa de cartão ali para os lados do Martim Moniz, acolhido no bordel da Tia Lola, e rapidamente Brito deixa o leitor em riste, a narrativa parte desembalada, uma narrativa em que cada capítulo começa por mais uma etapa de uma minimaratona, sempre com definições, palavras nuas e cruas. Sagal começa por ser Emiliano Salgado, tem direito a batismo, manda a moral vigente que fosse transferido para um orfanato, mais crueza naquela aprendizagem dura, a Casa Pia impõe brutais regras de sobrevivência, andam por ali à volta uns predadores de crianças, sai da Casa Pia e vive de expedientes, chega a hora do serviço militar, prepara-se para ser caçador paraquedista. Temos aqui texto clarificador:

“No curso de paraquedismo, espremeram-me o como massa de pasteleiro, levando-o ao limite. Esticaram o cavername e a resistência para lá do que um cristão-novo pode suportar na tortura da Inquisição. Comparado com isto, os tratos de polé não passam de aquecimento suave. Acabava os dias coberto de golpes e nódoas negras, as nádegas em sangue coladas às calças por causa dos rolamentos a pé firme. Repetia ad nauseam os mesmos gestos e movimentos até conseguir aterrar sem partir as pernas à chegada do paraquedas ao solo. Descobri que o cogumelo de nylon verde-azeitona com tiras e cordões era mais importante que um seguro de vida com prémio VIP. Safar o couro defecado das nuvens pelo avião tinha tanto de temerário como de ciência feita. E a torre de saltos a ensombrar-me todos dias. Mais treino de subir à torre: Jááááá!”

Ei-lo em Moçambique, surge uma figura de um mau da fita que pontuará a narrativa até ao fim, o Educador, apresentado como obcecado pela superioridade da raça branca, espécie de ideólogo do poder europeu, sabia muito bem o que queria do seu Moçambique: “Quando houver independência, será como na Rodésia, os brancos a governar. Os pretos vivem na Idade da Pedra, são incapazes de se organizar sem a ajuda dos brancos. Vamos tomar conta do nosso destino… E do deles.” Se já tínhamos nomes das meninas do bordel da Tia Lola, da malta da Casa Pia, não há paraquedista sem nome, o Povoador, o Casto, o Trovador, o Mandarim, o Proletário, o Justiceiro, o Magnânimo, o Africano, e muito mais. Guerra sem quartel, Sagal revela-se astuto, faz frente ao Educador, o superior que ele despreza. A FRELIMO encontra pela frente a bravura de Sagal e dos seus camaradas. Em cerimónia ele é batizado como Leão do Sagal, é condecorado. Chega ao 25 de Abril, Sagal estará presente nos acontecimentos do levantamento dos brancos em Lourenço de Marques, no Rádio Clube, vem a independência, Sagal parte para África do Sul, a sua vida está sem destino, aceita uma proposta feita pelo coronel Peter Vorwerk, vai entrar diretamente no conflito que estalou em Angola, formou a equipa Zulu, se toda a narrativa até agora é construída para não dar tréguas ao leitor, toda a operação para retardar e anular o equipamento soviético e um contingente do MPLA é de deixar a garganta seca, o Leão de Sagal sai ferido da refrega, é tratado na África do Sul, regressa a Portugal.

Temos agora a descida aos infernos, o herói transformou-se num pedinte, um sem-abrigo que dorme nas arcadas da estação de Santa Apolónia. Mãos amigas levam-no para a recuperação, vai para um mosteiro de budismo zen, na Serra do Caldeirão, até que chega o tempo de abalar, sente-se refeito, anda à procura de trabalho, temos agora a etapa capital de ir para o Pão de Açúcar na Venda Nova, prepõem-lhe a tarefa de repositor, alomba com caixas, embrulhos, o ambiente envolvente é de grande hostilidade, vivia-se o PREC, havia roubos e muitas faltas, abundavam as pichagens de um grupelho que se intitulava FNP – Frente Nacionalista Popular. Destemido, o Leão de Sagal monta uma armadilha à Quadrilha do Cigano, impõe-se junto dos seus superiores, lembra-lhes do seu currículo: “Sagal, o sacana que impediu que a vossa caixa-de-merda a que chamam supermercado fosse saqueada e incendiada. O mesmo Sagal combateu e matou filhos da puta no planalto dos macondes, na estrada de Marracuene, no deserto de Moçâmedes e nas margens do rio Cunene. Esse sacana enfrentou comunas bem piores que os piolhosos que vos estragam o negócio. É o único que pode salvar esta vossa trampa atulhada de destroços.” Reunido com os seus superiores, faz-se nomear gerente-chefe, com plenos poderes. O supermercado da Venda Nova enfrenta a Quadrilha do Cigano, desmonta a operação da FNP, está ao serviço de um projeto imobiliário secreto, manda embora o piquete de segurança, inútil, apercebe-se que alguém no interior montou uma outra operação para estragar produtos, como é próprio das sagas, o Leão de Sagal rodeia-se dos antigos camaradas de guerra, obtém-se o radical controlo dos furtos, fica-se a saber que a Quadrilha do Cigano é o braço armado da FNP, o Educador anda por ali, Sagal obtém informação de que os arruaceiros preparam um ataque em grande escala, a resposta é brutal, o cigano é abatido, a minimaratona está praticamente concluída, é desmascarado o bandalho que andava a sabotar os produtos, coisas como pôr cigarros na margarina. E como em todas as sagas, e quase como uma homenagem aos romances de Mickey Spillane, o badalhoco do Educador é batido à boa maneira, mais truculento não podia ser:

“O vulto emergiu por entre os carros estacionados no parque. Avançou agachado para as minhas costas. Enquanto eu rodava, levei a mão ao .38 entalado no cinto das calças. Quando o vulto disparou, eu disparei. A bala do cabrão entrou-me bela antiga cicatriz da coxa, furando a perna e a chapa do Honda Civic.

A minha bala acertou-lhe no pescoço. Um tiro de sorte. Levou as mãos ao rasgão nas goelas, por onde fervilhava sangue a espirrar para os lados. Deixou-se tombar entre os carros, escorregando até ao chão, sem pressa. Esticou o pernil sem o ai, os olhos abertos, o espanto, a surpresa vincada num olhar – o olhar apagado do líder da FNP, o corpo imóvel e sem vida do Educador.”

António Brito é exímio nesta literatura de um justiceiro duro, bem à portuguesa. 


                                                                            Mário Beja Santos 


terça-feira, 13 de agosto de 2024

Uma obra de génio, A Torre de Barbela, continuamos a viver em tal país maravilhoso.

 


Daquela década de 1960 guardo três títulos literários de leitura obrigatória: Barranco de Cegos, de Alves Redol, O Delfim, de José Cardoso Pires, e A Torre de Barbela, de Ruben A. É desta obra-prima absoluta que vos quero falar.

Não é uma obra de literatura fantástica, nem vernacular e muito menos humorística. São recados sobre a história de Portugal, a Torre da Barbela é um ponto de partida e uma advertência para o ponto de chegada, a Torre estava ligada aos primórdios da nacionalidade, era agora uma mera atração turística, o solar conhecera a decadência e depois o ocaso. E daí o arranque da obra, o guia local clama pletórico a quem o acompanha numa viagem de muitos degraus até lá acima:

“Aqui estamos em frente da Torre, meus senhores, peço que se descubram e ao mesmo tempo um minuto de silêncio pela alminha dos Senhores que lá estão.

Esta Torre já não se sabe de quantos séculos podemos datá-la, mas certo é que Dom Raymundo Barbela – crê-se que tenha sido o primeiro da família da Torre – saiu destas bandas para ajudar com os seus homens nas cargas de Dom Afonso Henriques, seu primeiro do colateral. As pedras são todas da prumitiba, mesmo lá perto da torreta podemos ainda ler as inscrições latinas que rezam a sepultura de Dom Martim, morto de adigestão quando de uma lampreiada para festejar as vistorias do primo. Tem a Torre trinta e dois metros de altura, e é a máor da península e os degraus contam-se em oitenta e nove, com patamares de descanso. A vista lá em cima é grandiosa.”

Nunca se tinha ido na literatura portuguesa tão longe a falar de um Portugal feérico, mitológico, façanhudo. Temos, pois, aqui um guia que apresenta aos visitantes as memórias de um Portugal inventado, e momentos há em que se pode ter a ilusão de se estar perante um romance do fantástico, com incursões pelo sobrenatural; é através de uma leitura cuidada que se vai descodificando que este romance escrito em plena década de 1960 é uma xácara habilidosa para caricaturar um ideário de nacionalismo bacoco. Ruben A. Irá tratar com pinças esta visita ao alto da Torre, “outrora de menagem, estendia-se um país inteiro, seiva virgem de uma nação. Toda a História se abria com a paisagem”. De forma subtil, pela obra perpassa o Portugal do Quinto Império, das bravuras mil, das extraordinárias e desvairadas viagens e presenças em todos os continentes de gente desta nação mirífica e imortal. Ruben A. arriscou muito, a paródia de que os Barbelas não morrem e estão cientes do seu peso de uma nação de séculos é um tanto uma escrita no fio da lâmina, o escritor vai-nos apresentar que todos os que vivem na Torre levam às centenas de anos uma boa convivência, adormece o dia e eles andam por ali a revoltear, tudo na margem esquerda do rio Lima, a Ribeira Lima, folgam após o horário da visita conduzida por aquele guia de discurso estrondoso: os antigos Barbelas, vindos de oito séculos diferentes entram em cena, viajam por aqui e além, é uma azáfama de ardores e amores, coscuvilhices e êxtases, um arrebol naquele espaço minhoto, há quem vai à Moutosa, à vila de Serzedelo, mesmo a Viana do Castelo, à Serra de Arga, e é muito estimado o Jardim dos Buxos e a Fontinha. Sim, toda esta genealogia dos Barbelas tem muitíssimo para contar:

“Quando a linha do horizonte baixava a intensidade e os fumos azulados batiam a favor do vento e do andar das coisas, naquela dimensão abrupta que testemunhava o acender das constelações, os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre. De noite, ressuscitavam e, de companhia, traziam os amores e os ódios de outras eras e de outras sensibilidades, os dramas pessoais e a contagem de fábulas capazes de entrarem pelas ruelas aveludadas dos vizinhos de Serzedelo e de Vitorino das Donas. Aquele ressuscitar transfigurava a Torre. A procissão saía pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios – trazidos por Dom Payo da Barbela quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum surgiam ainda os apátridas, filhos ilegítimos, frades, freiras, e os que remotamente pertenciam à venerável espérmia da Torre.” Entraram em cena o Menino Sancho, Dona Urraca, o Cavaleiro e o seu garrano Vilancete, Dona Mafalda, Dona Urraca, Madeleine de Barbelat (esta terá papel crucial num desfecho trágico que nem vos conto!), percorre-se toda a História de Portugal e a sua épica, e chega o momento de apresentar a grandeza do lugar:

“O Solar da Barbela data precisamente do século XVI, quando os Barbelas em protesto contra os anos de cativeiro espanhol resolveram abandonar a capital do Reino e regressar às terras. Nessa época, os Barbelas voltaram à vida rural e nada mais encontraram da propriedade do que a Torre e o terreiro ao lado, com algumas habitações toscas. O oiro das especiarias e o comando das esquadras da Índia tinham levado os braços disponíveis nas redondezas. Quando Dom Sebastião desapareceu na sua fatal correria de Alcácer, além de arrastar muitos Barbelas consigo, deu também um ar desolador à pátria. Os fumos da Índia e as espumas de África trouxeram consigo a desolação, sem que para isso fossem bastantes as façanhas dos fidalgos de Entre Douro e Minho.”

Os Barbelas até tiveram santos, como São Cyro, é o comandante espiritual da Torre. Há paixões escondidas, dignas de Tristão e Isolda, como o Cavaleiro e Madeleine, há visitas dos Barbelas à Beringela, que guarda um fumeiro muito especial, logo um petisco capitoso, as enguias. E ao longo destas centenas de páginas vamos convivendo com os Barbelas, há gente que até lembra Eça de Queiroz, como o ridículo Dr. Mirinho. Que ninguém se iluda, a Torre de Ruben A. é o miraculoso país do passado, onde se celebram centenários, onde há bruxas apaixonadas, como aquela que vive em São Semedo, Madeleine é ligação à França, convém não esquecer os caixotes de Paris e a literatura que nos afogueou, antes e depois da monarquia constitucional.

Espantosa arquitetura da escrita, onde não falta o bobo italiano, passeios de burro, igrejas como não há no outro Portugal. Veja-se só: “A única igreja no Norte de Portugal que se pode comparar vagamente com a da Moutosa é a da Montaria, no caminho de Orbacém para São João de Arga. Mas é melhor não comparar. O curioso distinguirá imediatamente uma qualidade única em São Lourenço. Possui, como só a Torre de Belém, uma proporção de medidas que equilibra o pensamento ao primeiro relance. Olhando-se em frente fica-se à procura do desnível e do imperfeito. O talhe de pedra granítica, com os santos padroeiros das principais freguesias da Ribeira Lima empunhando uma escada para subirem mais facilmente ao Céu, transmite uma doçura de penetração que envolve até o menos crente.”

Convido o leitor a acompanhar a trama amorosa do Cavaleiro por Madeleine, tudo isto num lugar soberbo, de nome a Fontinha, que “fora desde tempos idos o ponto de partida dos Barbelas para as viagens de aquém e além-mar. Daquele estreito molhe de granito e terra batida, sombreado pelas ramagens quentes de salgueiros e choupos, as bateiras saíam em direção a Viana, donde os barcos de maior calado levavam a família aos mais diversos destinos do mundo.”

Reparem que não se fala aqui só do Portugal maravilhoso, há histórias de assombrar, é o caso do Grande Nevoeiro, uma das diabruras mais imprevistas do destino. “De Barcelos ao Lindoso, dos contrafortes do Gerês até às terras raianas do rio Minho, e descendo pela linha da costa, montes e vales ficaram cobertos de um misto de nevoeiro e neve que transformou o sentido do voo das aves e deu aos homens uma atitude meio religiosa meio borguista que perdurou pelos tempos.”

Porventura por sermos descentes dos Barbelas, seja qual for a colateral, é imperativo dever nosso conhecer de fio a pavio toda esta saga genialmente redigida por Ruben A. Está aqui o nosso retrato, caso não tenhamos perdido o gosto pela autocrítica: “Falavam, falavam, conversando fiado por tempos sem conta, discutiam, assentavam decisões e conversas, e ao fim encaminhavam-se ao natural de nada se ter passado. Enfim, o que havia era, bem ou mal, a prata da casa. Aquela prata que se apresentava nas grandes ocasiões de cerimónia e onde se comia a malga do caldo-verde e o naco de broa acompanhado de uma lasca de bacalhau cru ou de uma rodela de enchido de porco. Um destino embebido de fatalismo, uma espécie de não te rales. O resto não os preocupava em profundidade.”

Enquanto lia esta obra-prima da literatura portuguesa, passei os olhos por um injustamente esquecido Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes, por António José Saraiva, era uma edição de 1960, onde ele abordava em curto ensaio as distinções entre país real, país legal e país fabuloso. Percebe-se porque é que a Censura foi logo buscar o livro às livrarias:

“País fabuloso é o melhor dos mundos possíveis. Tudo nele decorre segundo o programa previsto. As pessoas são felizes, trabalham e produzem. Estão sempre agradecidas aos governantes que são sempre the right man on the right place. Nada acontece neles – a não ser os terramotos, os vulcões, os naufrágios ao largo e os excessos de temperatura, fenómenos indiferentes à vontade humana – que mereça uma reportagem especial, porque, como disse não sei já quem, os povos felizes não têm história. O país fabuloso é livre de seguir o seu encantador caminho sobre papel. Mas o país efetivo, que nada tem com isso, vai caminhando. Num caminhar obscuro, tateante, ao lusco-fusco de uma semiconsciência, porque não tem meios de dar notícia de si próprio. E é por isso que o país fabuloso, aparentemente risonho e inocente, se torna uma perigosa realidade. Ele nada cria a não ser fábulas.” 


                                                    Mário Beja Santos

 


segunda-feira, 29 de julho de 2024

Uma noveleta sublime, publicada debaixo do fogo da crítica.

 


 

Digamos que se trata de uma obra póstuma do Prémio Nobel da Literatura em 1982, que os filhos de Gabriel García Márquez justificam como o seu derradeiro esforço para continuar a criar já no turbilhão da perda de memória. “O processo foi uma corrida entre o perfecionismo do artista e o declínio das suas faculdades mentais.” Gabriel García Márquez terá dito que o livro não prestava, devia ser destruído. “Não o destruímos, deixando-o antes de parte, na esperança de que o tempo decidisse o que fazer com ele. Ao lê-lo mais uma vez, passados quase dez anos sobre a sua morte, descobrimos que o texto possuía muitíssimos e muitos apreciáveis méritos. Tem algumas lacunas e pequenas contradições, mas nada que nos impeça de usufruir o que a obra de Gabo tem de mais excelente: a sua capacidade de invenção, a poesia da língua, a narrativa cativante, a sua compreensão do ser humano e o carinho pelas suas vivências e as suas desventuras sobretudo no amor.” E assim a obra foi entregue a um mestre da escrita, Cristóbal Pera, que lhe deu a demão final. A crítica dividiu-se entre o aplauso e a indignação, dizendo os contestatários que era uma traição à vontade de Gabo.

Traição ou não, temos uma noveleta cujo poder metafórico conhece alguns antecedentes de valor extraordinário. Penso concretamente em A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada e Memórias das Minhas Putas Tristes, tramas que decorrem entre o onírico, a bestialidade/crueldade e a redenção pelo amor. No caso vertente de Vemo-nos em Agosto, Publicações D. Quixote, 2024, é mais o destino de uma mulher que conta; ano após ano, num dia preciso, 16 de agosto, apanha um ferry que a transporta até à ilha onde a mãe está enterrada, é uma emotiva visita que mete até confissão oral dos acontecimentos do ano transato. A mulher, Ana Magdalena Bach torna-se uma pessoa diferente durante uma noite por ano, finda a visita ao túmulo da mãe contempla os homens do bar do hotel, como se estivesse a proceder a uma seleção, haverá sempre um amante. E seremos integrados nessa galeria de noites caribenhas repletas de salsa e boleros, encontros extravagantes ou não tanto, até que num determinado mês de agosto haverá uma reviravolta nos acontecimentos, jamais saberemos o que virá a ser o seu velho normal ou o seu novo normal.

As descrições são as de uma inevitável beleza a que Gabo nos habituou. Falando da chegada de Ana Magdalena e na cerimónia da mudança entre a mulher casada e feliz e essa vontade irresistível de querer ser diferente naquela noite a caracterização da personagem é ímpar: “Escovou o cabelo índio, que lhe dava pelos ombros, e amarrou o rabo-de-cavalo com o lenço de pássaros. Para terminar, suavizou os lábios com batom de vaselina simples, humedeceu os indicadores na língua para alisar as sobrancelhas desencontradas, pôs um toque de Maderas de Oriente atrás de cada orelha e enfrentou, por fim, o espelho com o seu rosto de mãe outonal. A pele sem o rasto de cosméticos tinha a cor e a textura do melaço, e os olhos de topázio eram bonitos, com as suas escuras pálpebras portuguesas. Triturou-se a fundo, julgou-se sem piedade e achou-se quase tão bem como se sentia.”

É um desfile de inspiração esta sucessão de encontros: um homem distinto, vestia de linho branco, com o cabelo metálico, logo o primeiro, depois de muito folgarem, ela parte e descobre com horror que ele lhe deixara uma nota de vinte dólares, Ana Magdalena sente-se desfeiteada; somos introduzidos no meio familiar, marido músico, filho músico, e de música clássica, e há a filha, Micaela, uma desobediente encantadora, irá professar numa ordem religiosa. Sempre que ela volta da ilha, o marido nota diferenças, é assunto de atenção passageira. Regresso à ilha, ela procura o biltre que ele vendera com a nota de vinte dólares, desta feita surge um homem muito bonito, de pele lívida, olhos ardentes, indumentado com um smoking tropical de seda crua, muito mais novo do que ela, trocam galantarias (- Sabe que idade tenho? – Não posso imaginar que a senhora tenha uma idade – disse ele. – Só a que a senhora quiser.); García Márquez é um perito distinto em impedir sequências enfadonhas, na terceira viagem à ilha, ela escolhe um hotel de cabanas rústicas num bosque de amendoeiras, apareceu-lhe a fazer tagatés Aquiles Coronado, a quem Ana Magdalena nunca deu atenção, repudia-o secamente, e o genial escritor tem uma página inesperada sobre a solidão daquela mulher:

“Quando recuperou o humor passava da meia-noite. Doía-lhe a cabeça, mas doía-lhe mais ter perdido a sua noite. Arranjou-se um pouco e desceu, disposta a recuperá-la. Tomou um gin com soda num tamborete do bar frente ao jardim abandonado pelos turistas madrugadores. Chegou um hermafrodita de músculos artificiais com correntes e pulseiras de ouro, cabelo dourado e a pele avermelhada com unguentes para o Sol. Tomou ao balcão uma bebida fosforescente. Ela perguntou a si mesma se seria capaz de se insinuar ao empregado do bar, que era jovem e bem proporcionado, e respondeu a si própria que não. Chegou a interrogar-se sobre se seria capaz de sair par a rua e mandar parar automóveis até encontrar alguém que lhe fizesse o favor de seu gosto, e a resposta foi a mesma: não. Perder a noite era perder um ano, mas eram três da madrugada e não havia remédio: perdera-o.”

Retornamos ao ambiente familiar, diálogos soberbos com o marido. E voltamos a 16 de agosto, ela volta ao hotel do costume, renovado, e dá-se a relação mais improvável que alguma vez supusera. “Tinha a parcimónia de um reitor magnífico, uma voz pausada e mansa e um talento espantoso para os impropérios galantes.” Ele convida-a para um restaurante fora dos poisos do turismo, homem sóbrio, contador de anedotas simples, iniciam as preliminares, ele pergunta-lhe o nome, ela improvisa: Perpétua, resposta pronta do novo amante: “É uma pobre santa que morreu espezinhada por uma vaca.” Surpreendida ela pergunta como o sabia, placidamente ele responde que é bispo, ela parte precipitadamente, pretextou que não queria perder o ferry. E entramos no clímax da noveleta, os filhos a fazer a sua vida, o marido na rotina, ela com uma certa saudade daquele bispo, volta à ilha, “Diante da sepultura da mãe sofreu uma comoção porque encontrou um promontório inusitado de flores apodrecidas pelas chuvas.” Perguntou ao guarda quem as tinha posto, resposta: o senhor de sempre. E aqui sim, há uma pitada de realismo mágico, na tenda de um mágico ambulante perguntou por brincadeira onde estava o homem da sua vida, veio a resposta, o mágico trouxe-lhe uma imprecisão certeira: nem tão perto como quererias nem tão longe como julgas. O último encontro é um perfeito desencontro, ele bem bate à porta do quarto e ela adormece chorando de raiva. E o final tem um peso metafórico avassalador.

A despeito dos ditos de traição, temos aqui Gabu e o seu estilo inconfundível, Gabo podia estar demente mas deixou-nos este belo hino à vida finda a vindima.

 

 

Mário Beja Santos





quinta-feira, 27 de junho de 2024

Guardo esta carta fechada, voltei a pôr na folha lá dentro, encontrei um começo.

 

 

Por uso e costume, e manda o rigor de quem tem opiniões próprias, quem aprecia uma obra literária, não embandeira em arco com sinopses feitas por outros. Contudo, encontrei num jornal online de alunos de Comunicação Social da Universidade do Minho a referência ao livro A Palavra que Resta, de Stênio Gardel, Publicações D. Quixote, 2024, que passo a tomar como minha, como ponto de partida da leitura que pude fazer desta obra-prima:

A Palavra que Resta marca o romance inaugural de Stênio Gardel no universo literário, amplamente premiada, e mesmo em dois continentes.

A narrativa desenrola-se ao redor de uma antiga carta preservada por mais de meio século e jamais lida, que se torna a chave de uma jornada pessoal para Raimundo Gaudêncio. O homem carrega consigo não apenas a carta: há também a memória de um amor secreto e trancado na sua juventude. Analfabeto, Raimundo Gaudêncio nunca pôde decifrar o conteúdo daquela missiva, mas agora, com 71 anos, propõe-se aprender a ler, decidido a desvendar os segredos da carta e, com isso, curar a ferida emocional que o acompanha desde a juventude.

Nascido e criado na roça, Raimundo não frequentou a escola, pois desde cedo precisou de ajudar nas tarefas do campo. Há muito tempo, foi forçado a deixar a família e a sua vida no interior do Brasil para trás. Desse tempo, ele guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, quando o amor proibido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar rasto, exceto aquela carta que Raimundo não sabe ler (pelo menos até agora).

Com uma personagem principal tão humana e real, o autor deixa-nos presos a esta história desde as primeiras linhas. A sua escrita livre, em fluxo, torna-se atordoante para o leitor, não por ser críptica, mas por representar com maestria o turbilhão de sentimentos de Gaudêncio. É notável a forma como Gardel consegue transmitir as mais profundas angústias e os demais confrontos enfrentados por Raimundo.

Mais do que uma história de amor entre duas pessoas do mesmo género, A Palavra que Resta não é só um romance arrebatador sobre a repressão, o preconceito homofóbico e a violência física ou psicológica. É, acima de tudo, uma história de superação e de coragem para ultrapassar todos estes desafios.”

A primeira tentação é a de procurar catalogar a obra: que este romance pertence ao género da literatura homoerótica, no fundo houve o amor de Raimundo e Cícero, de que resta uma carta, cujo conteúdo é um completo enigma para o leitor. Acontece que este tipo de carpintaria literária, independentemente do tema, tem uma longa história, é um expediente com um poder catalisador, mas que também se pode limitar a uma mera e ofuscante pirotecnia. O que não é o caso deste livro, os valores infundidos podem reclamar-se do preconceito sexual, mas no caso vertente todo este amor escondido é uma peça clássica que pode perfeitamente decorrer numa relação heterossexual. Penso que posicionar esta escrita é uma operação de valorizar a sinceridade desta escrita, um amor transcendente, uma fidelidade amorosa que jamais perde a esperança. Então, não é que a primeira obra-prima da literatura mundial, que terá saído do punho de Homero, não fala de uma Penélope que aguarda a chegada de Ulisses, afastando todos que a pretendem?

O que domina esta pulsão da escrita é o uso de uma simplicidade, de um casticismo, de um processo ficcional em que se sente desde a primeira página que estamos a cavalgar num mundo de sentimentos nobres sob a pena da exclusão, somos engolfados na ilusão de que aquela carta irá restituir a dois longevos o que a juventude não permitiu, como se o mais importante não fosse mesmo o esplendente da esperança. O velho Raimundo Gaudêncio guardou a carta toda a vida, então começa a história, os pais descobrem aquele amor adolescente, dar-se-á a separação entre amantes. E agora voltamos ao velho Raimundo Gaudêncio que está a aprender a ler para depois regressar a um amor proibido que Stênio Gardel conduz com uma delicadeza ímpar: “Nas peles nuas, a saliva dos beijos e o suor dos abraços irrigavam, dentro deles, raízes fortes, de agarrar as tripas e o que mais tivesse dentro. Até a alma. E as raízes faziam das veias seiva e cresciam pelos poros como galhos trepadeiros em direção ao sol. Quando se tocavam, se engarranchavam e viravam uma planta só, com flor que se abria sobre o peito. Papoula amarela de cálice cor de sangue.”

Saberemos quase tudo do itinerário de Raimundo, chegou mesmo a procurar sexo em relações sem compromisso, tudo efémero, encontros nos cinemas porno, o texto intercala a sua relação com Cícero, os ambientes familiares, como Raimundo sobreviveu no trabalho, como os anos passaram, como um dia procurou voltar à terra natal, como Raimundo e Suzzanný travesti vivem juntos, aconchegados, é uma velhice serena: “Quando a gente sai na rua é desse jeito, fica segurando minha mão, ainda hoje tem gente que estranha, homem velho de mão dada com travesti velha, uns cochichando de um lado, uns olhando atravessado de outro, deixa estranhar, um dia eles aprendem, eu aprendi, eles aprendem, mas tem que querer, querer sair da ignorância, é quase como eu querendo aprender a ler e escrever, tomei a decisão de ver o mundo de outro jeito, me sentir mais dentro dele, porque a ignorância faz é isso, exclui, isola, e não era isolado que eu vivia?” Não é que estes dois velhos não tenham arrofos, mas tudo acaba bem.

Há lugares míticos, de lembrança inextinguível, é o caso daquela cruz no rio onde Raimundo e Cícero se iriam encontrar, o que não aconteceu. A irmã de Raimundo, Marcinha, entregou-lhe a carta de Cícero, e o fulgor desta escrita parece um chamamento à coragem do leitor, prosa magnética:

“eu fui deixando, fugindo, ainda estou é fugindo, fugindo de mim, como fugi muito tempo, agora tento fugir do que vou ser depois da leitura da tua carta, e eu trouxe ela aqui pensando em jogar no rio, tanta vez que já pensei dar cabo desse papel mas nunca fui até ao fim, tenho mais uma chance agora, deixar o rio dissolver e afundar tuas palavras, já que não vou saber mais de tu mesmo, e seu eu aprender a ler e puder responder, eu não ia poder te mandar e tu nunca ia descobrir o que eu escrevi, se pelo menos soubesse onde tu está, se tá vivo ainda, me esperando…”

É o derradeiro flashback, Cícero a entregar a carta a Marcinha, podemos supor tudo o que ela contém, talvez Cícero tenha dito que capitulava, ia desaparecer para outro lugar, ter outro destino, aquela exclusão era asfixiante, viveriam sobre o peso da vergonha. É que a esperança nunca morre, Raimundo sabe ler, aprendeu a ler e a escrever, é nesta liberdade que ele encontrou um começo.

Uma obra-prima absoluta. 


                                                        Mário Beja Santos