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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Retrato: Kurt Masur.


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Quem é Kurt Masur? Quem é o homem que levantou a voz e foi seguido por dezenas, por centenas de milhares de alemães de Leste? Um líder? Um político? Um oposicionista com anos de cadeia e de sofrimento acumulados?

Não. Kurt Masur é um maestro: “ - Sou em primeiro lugar e acima de tudo um maestro e um músico. Só sou um político contra a minha vontade.”

No entanto, em 1989 e 1990, em Leizpig e na RDA, as ovações que recebia sempre que se apresentava com a sua orquestra, mesmo antes do concerto começar, pareciam mais próprias de um comício do que de um concerto. Era a época em que a reunificação era apenas uma hipótese e Masur era o mais provável Vaclav Havel da RDA: o primeiro Presidente da República em democracia. Mais tarde, em 1993, o seu nome também foi seriamente considerado para Presidente da Alemanha.

Como é que este homem, que começou por ser membro da Juventude Hitleriana e que, de seguida, conviveu, aparentemente de modo pacífico, com o poder comunista na RDA, despertou? E que sortilégio fez com que tivesse um papel decisivo na crise terminal da RDA?

Ao contrário de muitos alemães do Leste, Kurt Masur resolveu ficar na sua terra. Tornou-se um maestro com grande notoriedade. Convenceu o camarada Honecker a investir a única sala de espectáculos de música clássica construída na RDA. Convidou Honecker, e os demais dignitários do regime, para a inauguração da sua Gewandhaus. E, após a queda de Honnecker, escreveu-lhe uma carta a agradecer o que este tinha feito pela sua orquestra e pela sua cidade.



No seu trajecto, contudo, algo o tornou muito forte. Tão forte que suportou a opressão. Tão forte que o tornou de tal modo destemido que não mais tinha medo: “Nenhum medo e medo de ninguém: nem da CIA americana, nem do KGB soviético. É um sentimento maravilhoso.”
 

Aos 16 anos

1946

Aos 27 anos

1957

Muito novo, combateu sem desfalecimento na defesa até ao último homem de uma ponte na retirada alemã da Holanda, acabando por ser aprisionado pelos Aliados.

Jovem músico prometedor, é convocado pelo comité central do SED para uma sessão na qual, na presença de homens da cultura, Walter Ulbricht arenga sobre o dever de todos os artistas de servir o realismo socialista. Quando lhe solicitam uma resposta, afirma: “Depois do que disse, o diálogo não é mais possível.” Entra no índex. De 1964 a 1967, não tinha orquestra nem lhe foi permitido trabalhar no ocidente. Passou dificuldades, vendeu o carro para sobreviver. Mas não desistiu. Convidado para dirigir o “Lohengrin” em Veneza, aceitou, mesmo estando-lhe vedada a saída do país. Contactou o Ministro da Cultura e disse-lhe que, se fosse necessário, faria a viagem mesmo sem autorização e que, se algo lhe sucedesse na fronteira, a culpa seria do Governo. No dia seguinte tinha a autorização para sair. E voltou.






Em 1972, sofreu um acidente de viação onde morreram os dois ocupantes da outra viatura. Dentro do carro em chamas, debaixo de si, agonizante, a sua mulher. A filha, de cinco anos, diz-lhe: “Papá, a minha boneca está tão suja!” Tentado a desistir, salvaram-no a filha, os músicos da Gewandhausorchester e Bach. “Dentro de seis semanas – disseram-lhe – temos um espectáculo com a Missa em B menor de Bach.” No final do concerto chorou como uma criança.

Kurt Masur afirma que nessa noite, como em muitas outras ocasiões, a Stasi está vigilante e regista as suas palavras. Pouco importa: “Eu era suficientemente famoso para me poder permitir dizer a verdade. Eles sabiam que havia qualquer coisa em Masur que não se ajustava. Além do mais, eu era cristão...”

A fama permitia-lhe levar a sua orquestra até ao Ocidente. Por vezes, um dos músicos não regressava. Kurt Masur recorda a melhor desculpa, dada por um seu colega da Filarmónica de Leninegrado, quando tal acontecia e recebia um telefonema do responsável pela cultura do partido: “Camarada Mravinsky, então o que se passa? De cada vez que sai um dos seus músicos abandona-o!” E ele respondia, fulminante: “Não me estão a abandonar a mim. Estão a abandoná-lo a si!”

Masur afirma que, a princípio, não queria ser ele a ler o apelo de 9 de Outubro na rádio. Afinal, era apenas um músico. Um músico para a elite que gosta de música clássica. Mas todos insistiram com ele, apesar das suas reticências: “Não acreditava que as minhas acções tivessem qualquer efeito sobre o curso dos acontecimentos.”

As pessoas confiaram no seu maestro. A Gewandhausorchester, afinal, era a orquestra do povo. A mais antiga, em toda a Alemanha, fundada e paga pelos orgulhosos cidadãos de uma grande urbe, duzentos anos antes. Era a sua orquestra. Ouviam-na na ópera da cidade e na mesma igreja onde Johann-Sebastian Bach também fora Kapellmeister. Também tocara em jardins infantis, em concertos escolares, em concertos para operários. Kurt Masur tinha 62 anos. Dirigia a orquestra desde 1970. Todos os habitantes de Leipzig conheciam o seu maestro e confiavam na sua integridade.


 
Por isso, como já aqui contámos, entre um teólogo respeitado, Peter Zimmermann, um artista de cabaré admirado, Berd-Lutz Lange, e três dirigentes locais do SED, não admira que tivesse sido o maestro do povo o possuidor da voz mais respeitada. Um homem bom, um homem justo elevou a voz. Veio depois para a rua, para a frente da manifestação. E a revolução pacífica venceu. Depois, Kurt Masur voltou a ser apenas um maestro.


Um grande maestro que disse, mais tarde: “Não há qualquer razão para ir para a política, porque acredito que já não posso mudar mais nada.” Talvez não mas, em tempo, em circunstâncias extraordinárias, fez mais do que aquilo que seria exigível a qualquer um de nós. Esses são os heróis.


José Luís Moura Jacinto




terça-feira, 8 de maio de 2012

O apelo de Kurt Masur.

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Como contámos aqui, naquela tarde do dia 9 de Outubro de 1989, a tensão dentro da Nikolaikirche atingira os limites do suportável. No exterior, já se ouviam os slogans: “Wir sind das Volk!” e “Stasi raus!”. Quando as preces terminassem e as pessoas saíssem, seria dado o sinal para o início da manifestação. E para o banho de sangue...
No preciso momento em que a história da RDA resvalava para o caos terminal, ergueu-se uma figura poderosa. Kurt Masur, o Kapellmeister da Gewandhausorchester Leipzig decidiu agir. Após uma vida de acomodação, levantou a voz.
 




Avisado pelos activistas do Neues Forum, o seu escritório na Gewandhaus tornou-se o epicentro dos acontecimentos. Duas horas antes do início previsto da manifestação, Kurt Masur chamou algumas pessoas. Só na pátria de Lutero, de Bach e de Marx um tal grupo desempenharia o papel que lhe estava destinado: um maestro, um artista de cabaré, um teólogo e três dirigentes locais do Partido Socialista Unificado (SED). Ficariam conhecidos como Die Leipziger Sechs. Masur propôs-lhes a emissão de um apelo conjunto à calma. Deixou claro que, se se lhe não associassem, agiria sozinho.

Die Leipziger Sechs


Entretanto, do comandante das forças militares da RDA, soube que fora decretado o alerta máximo. Mas do comandante soviético apurou que o exército vermelho tinha ordens de Gorbachev para nada fazer contra os manifestantes que reclamavam liberdade.

Atarantados, os dirigentes do SED pediram instruções a Berlim. Enviaram uma cópia do apelo a Egon Krenz, membro do Politburo e sucessor anunciado, o qual, não querendo tomar qualquer iniciativa, pediu a Honecker que o aprovasse. Este limitou-se a dizer-lhe que podia fazer o que quisesse mas que, tendo depositado grandes esperanças em Krenz, começava a ter dúvidas. Este ficou sem saber o que fazer e não respondeu aos telefonemas que chegavam de Leipzig. Até que, pressionados pelos acontecimentos, pela primeira vez na vida os dirigentes de Leipzig tomaram uma iniciativa ignorando Berlim e associaram-se ao apelo.
Kurt Masur dirigiu-se a todos os cidadãos da sua cidade pela rádio. Entretanto, o bispo luterano Johannes Hempel corria todas as igrejas de Leipzig, assegurando-se de que o apelo seria lido. 
O apelo avisava a polícia e a Stasi que não deviam recorrer à violência. Pedia ao comandante da polícia para afastar todos os agentes do caminho dos manifestantes. E  afirmava ser necessário um diálogo aberto, convidando todos para encontros que viriam a ter lugar na própria sala de concertos da Gewandhausorchester.


O pastor Christian Führer, na Nikolaikirche


O pastor da Nikolaikirche, Christian Führer, recorda o que aconteceu: “No dia 9 de Outubro, entre os participantes nas orações pela paz estavam cerca de 600 militantes do SED e agentes da Stasi. Do lado de fora estava um contingente do exército, além da polícia e da milícia. As orações ocorreram numa atmosfera de incrível quietude e concentração. No final da celebração, o apelo urgente pela não-violência foi lido. Quando saímos da igreja deparámos com dezenas de milhares de pessoas aguardando na praça. Nunca esquecerei aquela vista. Seguravam velas nas suas mãos. A não-violência saiu da igreja e foi posta em prática na rua. Duas mãos são necessárias para segurar a vela e para impedir que a chama se extinga, por isso ninguém podia empunhar bastões ou atirar pedras.”
Houve conversações com o exército, a milícia e a polícia. Perante eles, a multidão armada de velas, cantos e orações, bradava: “Keine Gewalt!” O facto de os protestos não serem violento deixava-os sem saber o que fazer. Um membro do comité central do SED descreveu num relatório a sua perplexidade: “Tínhamos tudo planeado. Estávamos preparados para tudo – excepto para velas e orações.”


Leipzig, 9 de Outubro de 1989. 70.000 pessoas


“Estávamos preparados para tudo – excepto para velas e orações.”


As forças presentes retiraram. Os tanques e os canhões de água recuaram. A marcha podia seguir.

“– Nunca vi tantas caras felizes – relembra Kurt Masur  –, como nesse dia 9 de Outubro. Era uma revolução pacífica. E era a prova de que as pessoas na RDA tinham aprendido a agir de forma deliberadamente política. Ainda me sinto impressionado pelo modo como foram inteligentes... e pelo modo como as forças de segurança permaneceram calmas. Nesse dia, nem um único vidro de uma única janela foi quebrado.”
Depois da saída da Nikolaikirche, houve outro momento de particular tensão quando os manifestantes se encaminharam para o quartel da Stasi de Leipzig. Dentro, encontravam-se muitos agentes, incluindo os que tinham retirado da praça. Todos armados. Tinham ordens para defender o estratégico edifício. Sacos de areia protegiam as janelas. Ainda hoje esses sacos se encontram onde então foram colocados, porque o local se transformou num museu. Se uma pedra tivesse quebrado uma vidraça, teria ocorrido o temido banho de sangue. Mas não houve pedras pelo ar. Apenas se entoaram canções. Quando se afastaram, os manifestantes deixaram velas acesas nos degraus da escadaria.
O povo de Leipzig encontrara nas igrejas o lugar da verdade. Delas partira para as ruas e as praças da cidade. Daí, com a ajuda de um homem justo que levantou a voz, nasceu uma revolução pacífica feita de velas e de orações.
Quando o dia terminou, a RDA tinha mudado. O grito “wir sind das Volk” era a essência da revolução pacífica. A democracia que se afirmava popular não podia desrespeitar o poder de todo um povo sem perder o derradeiro resquício de autoridade. A notícia circulou por toda a RDA: perante protestos pacíficos, não fora usada a força. A revolução espalhou-se por todo o país. Exactamente um mês depois, o Muro cairia. Mas se aqueles 70.000 manifestantes, todos e cada um deles, não tivessem mantido a calma e seguido o apelo de Kurt Masur, tudo poderia ter sido completamente diferente.

José Luís Moura Jacinto