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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

No centenário de Jorge de Sena (2).

 
 
 
 
 
JORGE DE SENA “SEPARA-SE” DA MÉCIA
 
          Foi em Madison, Wisconsin, pelas dez e meia da noite do ano do Senhor de 1969. Era Inverno e chovia quase torrencialmente.
         Estava eu em casa do Prof. António Salles, a discutir com ele o meu “paper” para o seminário anual de Linguística, quando alguém bate estrondosamente à porta. O Salles vai abrir e quem havia de estar à porta, com uma capa de oleado a escorrer água? – Jorge de Sena. Nem mais nem menos.
         Entra e enquanto o Salles o ajuda a tirar a capa, Jorge de Sena profere estas palavras:
         -  Ó Salles, separei-me da Mécia. Dás-me dormida em tua casa?
          -  Para já, senta-te aí nessa poltrona, toma um uísque e depois discutimos essa questão da separação e da dormida.
            E o Salles pegou dum copo e pôs-lhe duas pedras de gelo; depois pegou duma garrafa de Johnñy Walker, abriu-a e preparou um uísque bem generoso a Jorge de Sena. E bebido esse uísque, o Salles serviu-lhe outro. E enquanto Jorge de Sena saboreava os uísques em silêncio e com ar ensimesmado, o Salles e eu íamos notando, pelo rabo do olho, que a pequena raiva que Jorge de Sena trazia, ao entrar na casa do Salles, localizada junto do Capitólio, ia diminuindo a olhos vistos.
         Tendo observado essa transformação, o Salles perguntou-lhe então se de facto queria dormir em casa dele. Se sim, que esperasse uns minutos, enquanto ia mudar os lençóis na cama dele, e preparava uma cama para ele, Salles, no sofá. Foi então que Jorge de Sena, com ar ligeiramente sereno e visivelmente enternecido, perguntou ao Salles se podia usar o telefone dele. Com certeza. Estava à sua inteira disposição. E coloca-lho nas mãos. Jorge de Sena levanta o auscultador, disca um número, e passados momentos, com uma voz mais mansa que a de um cordeiro, profere estas palavras:
          - Ó Mécia, se eu voltar para casa, tu ainda me aceitas aí?
         E mais não disse. Decorridos brevíssimos instantes, pousou o auscultador, agradeceu a hospitalidade e o uísque, levantou-se da poltrona, pediu a capa de oleado e disse que ia para casa, que já era tarde e a Mécia estava à espera dele, muito preocupada.
 
            António Cirurgião
 

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

No centenário de Jorge de Sena (1)

 
 
 
 
 
VISITAS AO INSTITUTE OF ART DE CHICAGO EM COMPANHIA DE JORGE DE SENA
 
 
Durante os meus cursos de Verão na Universidade de Wisconsin, em Madison, por mais de uma vez, por sugestão de Jorge de Sena, fomos a D. Mécia, a Júlia, o Jorge de Sena e eu visitar o Institute of Art de Chicago. Íamos no meu Impala novo, de oito cilindros, e era eu quem guiava. A distância entre Madison e Chicago, em Illinois, era (e é) umas noventa milhas, se bem me recordo.
Ainda era no tempo em que a velocidade máxima nas autoestradas do Midoeste e Oeste dos Estados Unidos era 75 milhas por hora. Ora, como o carro era potente, eu, tirando partido da proverbial tolerância de 10 milhas, não hesitava em ir a 85 milhas à hora. Porém, depressa me dei conta de que Jorge de Sena, vítima de um grave acidente de viação, durante a sua estadia no Brasil, de forma alguma gostava de excessos de velocidade. Pelo contrário: ao verificar, por meio da consulta ao conta-quilómetros, que eu estava a desobedecer ao limite de velocidade estatuído por lei, o antigo alto funcionário da Junta Autónoma das Estradas de Portugal chamava-me imediatamente a atenção, pedindo-me para abrandar, acrescentando às vezes, em tom meio jocoso e meio sério, que ainda éramos demasiado jovens para morrer e que ele fazia falta a Portugal e Portugal precisava dele.
   Nesta ordem de ideias, jamais poderei esquecer o conselho que ele deu à Júlia, minha ex-esposa, quando tomou conhecimento da rapidez com que eu tinha percorrido, no dito Chevrolet Impala, com minha mãe a meu lado, as duas mil e duzentas milhas que separam Madison, Wisconsin, de Reno, Nevada, em cuja universidade eu então ensinava Espanhol, Francês e Latim.
Foi assim. Nascido o Anthony, nosso filho, em Madison, no dia 11 de Agosto, facilmente concluímos que seria uma grande imprudência pôr a mãe e o bebé a fazer de carro uma viagem tão longa, menos de duas semanas após o nascimento da criança. De maneira que a solução que tomámos foi a seguinte: minha mãe e eu íamos de carro para Reno, enquanto a Júlia e o bebé ficavam hospedados em casa da família Sena e iriam depois juntar-se a nós de avião, uns quatro dias mais tarde. Tendo tomado a atitude de sempre (que era a de andar a velocidade de contra-relógio, dentro dos limites legais, naturalmente), fizemos essa viagem em tempo record.
Transposta a porta da casa de Reno, peguei do telefone e telefonei para casa dos Senas em Madison a fim de participar à Júlia que tínhamos acabado de chegar ao destino, sãos e salvos. Jorge de Sena a ouvir a notícia e a dizer à Júlia:
- Ó minha senhora, se quer um conselho amigo, divorcie-se deste homem, antes que se matem numa viagem de automóvel.
  Comentado mais tarde este facto, minha mãe fazia sempre a seguinte observação:
- A mim bem me parecia que íamos a uma velocidade demasiado alta. Mas, ao olhar para o conta-quilómetros, notava que o Fernando (era o meu irmão com quem minha mãe vivia há diversos anos em Portugal), ainda costumava andar a velocidades mais altas. Mas, ao tomar conhecimento da equivalência entre quilómetros e milhas, minha mãe rematava a história com uma admonição e com um sorriso...maternal.     
     Voltando às visitas ao Institute of Art de Chicago, um dos grandes museus do mundo, devo dizer que não havia guia de museu que pudesse comparar-se a Jorge de Sena. Sabendo de antemão o que de mais relevante existia nos museus, antes de pôr os pés neles, e sabendo também que era humanamente impossível ver tudo, Jorge de Sena dirigia-se imediatamente à sala que continha os quadros que valia a pena ver, segundo ele, grande conhecedor e apreciador de arte, de que a sua obra Metamorfoses é um dos testemunhos mais eloquentes. Melhor dito: era obrigatório ver e admirar. Vistos esses quadros, passava para outros, atravessando por vezes mais de uma sala em claro. E se porventura os que o acompanhávamos nos púnhamos a ver um quadro que não preenchia os requisitos estéticos dele, dizia-nos:
- Passemos adiante, pois, de outra maneira, não teremos tempo para ver o que verdadeiramente importa ver.
  A respeito de museus, não posso esquecer-me do comentário que uma vez Jorge de Sena fez quando eu lhe disse que, a julgar pelo que me era dado concluir, como resultado das minhas diversas e longas viagens de carro através dos Estados Unidos, que todas as cidades e vilas americanas se pareciam umas com as outras, sobretudo as do Midoeste, como se de fotocópias se tratasse: tinham todas uma Main Street e nessa Main Street havia um Sears Reobuck, um Seven & Eleven, um Friendly’s Restaurant, um Mcdonal’s, um Woolsworths, um First National Bank a condizer com a respectiva vila ou cidade, etc. e tal.
– Pois é, Cirurgião. Mas há uma coisa que as distingue a todas. Sabe o que é? E respondia logo ele, sem esperar pela resposta: são os museus.
  Conclusão: Jorge de Sena, homem enciclopédico por natureza, de uma curiosidade intelectual elevada à última potência, sabia tudo por tudo ler e tudo intuir. Levar-lhe novidades, fosse em que campo fosse da cultura, era quase impossível, como eu pude verificar muitas vezes. Antes de se falar em mecânicas de leitura (ou métodos para aumentar a rapidez da leitura), já Jorge de Sena as dominava por instinto.
Neste aspecto da rapidez vertiginosa com que ele devorava livros, a imagem que me salta à mente e à vista, quando penso nisso, e o revejo mentalmente, é aquela em que Óscar Wilde, no filme Wilde, está sentado numa cadeira de balanço, junto de uma janela, a ler um livro. Segura o livro com a mão esquerda e, se não me engano, vai voltando as páginas com o indicador da mão direita. Ao notar a velocidade extraordinária com que volta as páginas do livro, a esposa diz-lhe que ele não está a ler. Resposta de Óscar Wilde:
- Try me (experimenta).
Esta seria a resposta que Jorge de Sena poderia dar a quem quer que lhe fizesse uma observação semelhante, uma vez que ele fazia o mesmo. E eu sei do que estou a falar porque o vi muitas vezes sentado em cadeira idêntica àquela em que se sentava Óscar Wilde e lendo de maneira idêntica àquela em que lia o autor de Picture of Dorian Gray. E, nesta ordem de ideias, ocorre-me agora perguntar se não seria para facilitar o voltar rápido das páginas dos livros que devorava que Jorge de Sena fazia questão de ter sempre compridas as unhas dos dedos das mãos.
A respeito da quase impossibilidades de levar novidades a Jorge de Sena, no mundo da cultura, lembro-me de uma vez lhe ter dito que, ao reler, no dia anterior, as redondilhas de Camões Sobre os rios que vão (Jorge de Sena fazia questão de não permitir aos seus alunos que dissessem Sôbolos rios que vão), notara que o número de versos dessa extraordinária poesia era 365, tantos quantos são os dias do ano.
Julgando que, tal como me acontecera noutras ocasiões, isso não era novidade nenhuma para ele, obtenho de Jorge de Sena este comentário:
- Interessante! Eu que li várias vezes esse poema, a ponto de ter publicado um conto sobre ele e o salmo que Camões parafraseou, nunca tinha reparado nesse importantíssimo pormenor. Aconselho o Cirurgião a escrever imediatamente uma nota sobre esse achado e publicá-la no Diário de Notícias (de Lisboa), antes que alguém venha a fazer essa descoberta e a aproveitar-se dela.
E eu não acatei o conselho de Jorge de Sena. Mas vim a saber, alguns anos mais tarde, que de facto alguém veio a “fazer essa descoberta e a aproveitar-se dela”. Fora o meu futuro amigo Vasco Graça Moura, que viria a fazer dessa poesia de 365 versos o ponto fulcral do seu excelente estudo camoniano - Camões e a Divina Proporção -, publicado em 1985 pela IN/CM, de que o autor era competentíssimo administrador: obra com que teve a bondade de me presentear.   
 
António Cirurgião
 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

De como Jorge de Sena tinha direito às suas raivas.

 
 
 
 
 
 
DE COMO JORGE DE SENA TINHA DIREITO ÀS SUAS RAIVAS
 (No 41º aniversário da morte de Jorge de Sena).
 
Entre os dias 7 e 13 de Setembro de 1966 realizou-se o VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros nos Estados Unidos. A primeira parte teve lugar na Harvard University, em Cambridge, Massachusetts, e a segunda, na Hispanic Society of America, na Cidade de Nova Iorque.
Zelosamente empenhada vem a delegação  oficial do Brasil, em conivência tácita com a de Portugal, em impedir por todos os meios possíveis e imaginários que o Eng. Jorge de Sena e prolífico escritor, já com o seu doutoramento em literatura portuguesa, pela Universidade de São Paulo, feito em 1964, e, portanto, devidamente credenciado em termos académicos, e com a experiência de seis anos de professor competentíssimo nessa mesma universidade, para já não falar da publicação de um vasto leque de estudos seminais nos campos da literatura, cultura e crítica literária, possa continuar a exercer o magistério de professor de literatura portuguesa e brasileira nos Estados Unidos, especificamente na Universidade de Wisconsin, em Madison, para que fora contratado no ano anterior, ou seja, em 1965.
Numa carta que Dona Mécia de Sena me escreveu, datada de 16 de Novembro de 1966, de Madison, Wisconsin, conta-me o que Jorge de Sena me viria a confirmar, também por carta, poucos dias depois, a propósito do que aconteceu durante o dito VI Colóquio:
                   
“Quanto à comunicação [de Jorge] do Colóquio deve ser publicada um dia, não sabemos quando, nas actas do Colóquio. Quando o [Raymond] Sayers perguntou ao Armando Cortesão se a comunicação seria incluída no volume que ele declarou seria feito em Portugal com as teses dos portugueses e brasileiros que lhes aprouvesse este declarou que o Jorge não era brasileiro nem português... era americano... que não, claro. [...]  numa das últimas [cartas] que o Jorge enviou [para “O tempo e o Modo”] seguia o relato do comportamento vergonhoso que foi o da delegação portuguesa no Colóquio e da brasileira que resolveu destruir o prestígio do Jorge aqui (o que foi claramente dito ao Sayers com antecipação) pelo que o Pedro Calmon, a propósito da tese, que por certo não lera, declarou que o meu marido era um incompetente no ensino da literatura brasileira e que eram pessoas destas que para aqui vinham. O Josué Montello pôs mais lenha [na fogueira] e o Afrânio [Coutinho] deu o que ele julgou ser o golpe de misericórdia, dizendo que o Brasil “generosamente” dera ao meu marido títulos que ele jamais merecera. Felizmente que meu marido tinha no bolso um artigo do dito Afrânio em que ele dava largas ao seu anti-portuguesismo vesgo (que providencialmente fora enviado ao Jorge) e ele levara para mostrar ao Guerra da Cal, que era também visado e não pouco nele. Uma coisa que deixou os norte-americanos agoniados e culminou em o Montello por três vezes se oferecer para ensinar na Columbia [University]. À terceira investida foi-lhe dito que a Columbia não estava interessada em académicos, muito menos brasileiros. Claro que a delegação portuguesa estava impante com o ataque, e não viam, os estúpidos, que estava triunfante a turma do status quo na medida em que tentavam calar a única voz que ainda grita que o rei vai nu”.    
 
Afrânio Coutinho não só fez questão de propalar essas execrandas aleivosias entre os membros do Colóquio, mas teve o desplante de informar expressamente o chefe do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Wisconsin, Professor Edward Mulvihill, que no Brasil tinham dado o doutoramento a Jorge de Sena, por terem pena dele, uma vez que tinha de sustentar a esposa e nove filhos.
Aos infames e infandos ataques ad hominem, por parte de Afrânio Coutinho, ripostou Jorge de Sena que a rábida sanha de Afrânio contra Portugal e os académicos portugueses havia chegado ao ponto de pontificar publicamente que o Padre António Vieira era exclusivamente escritor brasileiro e de intimar os portugueses a jamais incluí-lo nos manuais e antologias de literatura portuguesa e considerá-lo escritor português; que a dita sanha de Afrânio Coutinho tinha chegado também ao ponto de maldosamente intrigar junto da administração do Reader’s Digest, onde o grande escritor português, Rodrigues Miguéis, exilado político nos Estados Unidos, encontrara o seu honesto ganha-pão, para o despedirem sumariamente, uma vez que ele, Rodrigues Miguéis, garantia Afrânio Coutinho, não tinha competência para exercer esse cargo – o de tradutor desses livros para Português – ele, Rodrigues Miguéis, que foi um dos melhores prosadores do seu tempo, como as suas obras o provam à saciedade. E foi assim que Afrânio Coutinho roubou descaradamente e despudoradamente o emprego a Rodrigues Miguéis.
Sabendo de antemão que esses asquerosos ataques seriam movidos contra Jorge de Sena, os organizadores americanos do VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros defenderam o Engenheiro, Escritor e Professor Jorge de Sena com dois potentes e impenetráveis escudos: conferiram-lhe a honra de ser o orador oficial da abertura da primeira parte do Colóquio, realizado na Harvard University, onde ele proferiu a sua famosa conferência sobre a “Situação da Literatura Portuguesa”, conferência que Jorge de Sena classificara de “uma bomba medonha”, numa carta a Dante Moreira Leite, de 25 de Agosto de 1966, e fizeram-no membro da prestigiosa Hispanic Society of America, lado a lado com duas sumidades das letras portuguesas - a falecida Carolina Michaelis de Vasconcellos e Fidelino de  Figueiredo -, factos que levaram Jorge de Sena a dizer-me justamente ufano, na tal longa carta que me escreveu, por essa ocasião, que a todos esses sacanas que queriam destruí-lo como professor universitário lhes “saíra o tiro pela culatra”. 
Não tinha decorrido muito tempo sobre estes acontecimentos quando, sob os auspícios do State Department, veio mais uma vez Afrânio Coutinho visitar oficialmente alguns dos programas de Português nos Estados Unidos, criados durante a presidência de Dwight Eisenhower, em resposta aos desafios da “Guerra Fria”, com forte apoio financeiro do governo federal, para incentivar o estudo das chamadas “línguas críticas”, entre as quais ocupava lugar cimeiro a língua portuguesa, sobretudo em virtude das dimensões continentais do Brasil.
E, claro está, que nesse tour tinha de estar incluída, como esteve, a Universidade de Wisconsin, em pleno ano lectivo, uma vez que, por esse tempo, essa Universidade tinha o melhor centro de estudos luso-brasileiros dos Estados Unidos.
Como era da praxe, agendou-se uma espécie de seminário para que Afrânio Coutinho, que – dizia-se - possuía a melhor biblioteca de literatura comparada do Brasil, pudesse dialogar, sobretudo, com os alunos de pós-graduação, entre os quais se encontrava o abaixo-assinado.
Por razões mais que óbvias, não se podia esperar, dadas as peripécias de má memória referidas anteriormente, e outras semelhantes, que Jorge de Sena participasse do tal seminário nem muito menos se encontrasse com esse ilustre convidado do State Department. Mas isso não impediu que, por razões protocolares e deontológicas, aconselhasse todos os seus alunos a participar e a aprender.
Entretanto, numa aula do dia seguinte, não posso esquecer que uma das primeiras perguntas que Jorge de Sena nos fez foi se Afrânio Coutinho tinha finalmente resolvido, a contento de todos os participantes, a momentosa e eterna questão sobre Dom Casmurro de Machado de Assis: se houve ou não adultério, por parte de Capitu.
Como é que ele, Jorge de Sena, sabia que esse fora um dos assuntos discutidos durante o dito encontro com Afrânio Coutinho? A resposta de Jorge de Sena, com um sorriso a fugir levemente para a ironia, fazendo lembrar a resposta dada pelos pais e pelos avós às criancinhas apanhadas a mentir, foi que ele tinha um dedo mendinho que adivinhava essas coisas.       
         Concluir assim esta entrada do meu Diário destoaria do que, na realidade, a diabólica perseguição movida contra Jorge de Sena, por ocasião do VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, representou na vida do meu saudoso Mestre. É que tanta injustiça e tanta infâmia, da parte dos representantes oficiais do país onde nasceu – Portugal – e do país que adoptou – o Brasil –, abriram em Jorge de Sena uma ferida que o amargurou profundamente durante a vida inteira.   
 
 Manchester, 29 de Maio de 2019
 
        António Cirurgião

 

terça-feira, 6 de junho de 2017

D. Mécia de Sena e o Professor Fernando Cristóvão.




Jorge e Mécia de Sena com Rui Knopfli

 


Foi por ocasião de um colóquio realizado na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, sobre literatura do mundo lusófono. Entre vários outros conferencistas, vindos das Américas e da Europa,  encontrava-se também o Professor Fernando Cristóvão, da Universidade de Lisboa.   
Pelo fim do primeiro dia do colóquio, a D. Mécia de Sena aproximou-se de mim e perguntou-se se era verdade que o Professor Fernando Cristóvão era padre. Que sim: que era, e muito digno - confirmei eu.
Foi então que a D. Mécia, com aquela delicadeza que lhe é tão peculiar, me pediu se eu lhe podia fazer o favor de perguntar ao Professor Fernando Cristóvão se ele podia celebrar uma missa pela alma do marido. Naturalmente que a minha resposta foi que sim: que teria o maior prazer em fazer essa pergunta e esse pedido ao Prof. Fernando Cristóvão, bom colega e excelente amigo.     
O pedido foi feito e prazenteiramente aceito. E na manhã do dia seguinte lá nos encaminhámos os três – a D. Mécia, o Prof. Fernando Cristóvão e eu – para a igreja católica onde se celebrara a missa de corpo presente por Jorge de Sena, em Junho de 1978: Our Lady of Sorrows, na cidade de Santa Bárbara, estado da Califórnia.
Celebrada a missa, a que eu ajudei (depois de tantos anos afastado da igreja, e a viver numa fase de agnosticismo, ainda não me tinha esquecido completamente de como se ajudava à missa), dirigimo-nos ao Calvary Cemetery, de Santa Bárbara, fundado em 1896, assim como a igreja Our Lady of Sorrows, pelo padre jesuíta belga Polydore Stockman, famoso especialista em botânica. Situado nas Montanhas de Santa Ynez, com uma vista esplendorosa e deslumbrante para o Pacífico, o Calvary Cemetery é um autêntico mar de verdura e de flores, das mais variegadas cores, salpicado de uma grande variedade de pequenas árvores e de pequenas ilhas de jazigos brancos, e a rescender a paz etérea.  
Manhã de sol e de céu muito azul. Cerimónia simples, mas bela e tocante. Posta a sobrepeliz e a estola e aberto o ritual, o bom do Padre Cristóvão, com a D. Mécia a assistir e eu a fazer de acólito, aproximou-se da campa rasa de Jorge de Sena, assinalada por uma pequena lápide jazente de bronze assinada por ele, e, com o ar mais devoto e profundo recolhimento, aspergiu a campa de água benta e fez a encomendação da sua alma a Deus.
 
António Cirurgião
 
 

domingo, 4 de junho de 2017

Jorge de Sena, genuíno exemplo.




 
 
         Durante os treze anos que viveu nos Estados Unidos, ninguém fez tanto pela promoção da língua portuguesa e da cultura dos países lusófonos como Jorge de Sena. Entregou-se à missão em prol das letras luso-brasileiras e luso-africanas com o fervor de um neo-convertido. Toda a sua vida nos Estados Unidos foi totalmente dedicada ao magistério, à crítica, ao ensaísmo e à criação literária. Muitos dos que tiveram o privilégio de conhecê-lo não podiam acreditar que um só homem pudesse fazer e produzir tanto. Só pelo que se refere ao magistério basta dizer que, quando eu fazia a minha tese de doutoramento sob a direcção dele, havia mais treze candidatos ao doutoramento nas mesmas condições. Além disso, ministrava uma média de três cursos por semestre. Todos ficavam deslumbrados perante a vastidão da sua obra – desde a crítica literária à poesia, passando pela história da cultura e das ideias, pela ficção e pelo teatro. Quando o conselho administrativo da Universidade da Califórnia já não dispunha de mais postos para premiar o mérito de Jorge de Sena, não viu outra saída senão honrá-lo com o título de marshal da Universidade. Foi por ocasião da investidura nesse alto cargo honorífico que um dos administradores pediu a Jorge de Sena que aproveitasse a oportunidade para finalmente anunciar publicamente o nome dos coautores da obra que corria em seu nome. É que não queria acreditar que um só homem pudesse escrever tanto e desempenhar tantos cargos académicos, desde o de professor ao de investigador, supervisor de teses doutorais, conferencista através do mundo, Chefe do Departamento de Espanhol e Português e do Departamento de Literatura Comparada.
         Tive a honra de encontrar Jorge de Sena pela primeira vez em fins de Dezembro de 1965, em Chicago, por ocasião do congresso anual da Associação Americana de Línguas Modernas. Decidido finalmente a fazer o doutoramento (Ph. D.) em Português e Espanhol, estava indeciso entre fazê-lo na Universidade de Harvard ou na Universidade de Wisconsin, em Madison, aonde Jorge de Sena chegara pouco tempo antes, vindo do Brasil. Após uma breve conversa com o homem que já me habituara a admirar como escritor, desvaneceram-se todas as dúvidas. E chegado o Verão de 1966, fui iniciar os meus estudos de doutoramento na Universidade de Wisconsin, sob a direcção de Jorge de Sena. Das três cadeiras que fiz nesse primeiro curso de Verão, de oito semanas, duas foram com Jorge de Sena: uma sobre a Civilização Brasileira e outra sobre o Teatro Brasileiro Contemporâneo. Os meus colegas e eu ficámos fascinados com a competência rara, com o brilhantismo e com o espírito de dedicação do engenheiro escritor, investigador e professor. Sempre bem disposto, sempre pontual, sempre bem preparado, o autor de Estudos de História e de Cultura era um estímulo constante para todos nós. Algumas das suas aulas faziam lembrar os episódios de uma telenovela: era com pena que se via acabar umas e era com ansiedade que se esperava por outras.
         No capítulo da dedicação, raros foram os professores que me impressionaram tanto como Jorge de Sena. Não só não faltava a uma aula, como estava sempre disposto a receber os alunos no seu escritório – e em sua casa – para toda a espécie de esclarecimentos e de ajuda. Mais: a sua biblioteca pessoal estava também à disposição dos colegas e dos alunos. E a dedicação não acabava aí. Terminado o curso de Verão, e longe de Wisconsin, entregues ao magistério, vários eram os alunos que se dirigiam ao autor de os Grão-Capitães, pedindo opiniões sobre autores e sobre obras. E, com uma pontualidade exemplar, lá chegavam as longas cartas de Jorge de Sena, recheadas de factos e de doutrina.
         Tendo convivido com Jorge de Sena durante três cursos de Verão e um ano lectivo, foi-me dado presenciar a sua actividade mercuriana. Diante da máquina de escrever, num pequeno escritório, onde apenas havia espaço para a secretária, umas três cadeiras e uma estante com a Enciclopédia Britânica e com História Genealógica da Real Casa Portuguesa de Dom António Caetano de Sousa (as estantes com os outros livros encontravam-se na sala de estar, na sala de jantar e um pouco por toda a casa), Jorge de Sena era uma máquina criadora. Punha uma folha na máquina de escrever e saía um artigo; punha outra folha na máquina e saía um poema; punha uma outra folha e saía um conto. Escrevia com uma rapidez frenética, como se estivesse possuído por aquele demónio interior de que fala Platão. Correcções? Poucas mais que as gralhas ocasionadas pela velocidade vertiginosa com que escrevia. Trabalhos de crítica literária, de história, de cultura, em geral só eram revistos quando chegavam da tipografia. Quanto aos poemas, só mesmo as gralhas tipográficas eram corrigidas. O autor de Metamorfoses era contra a revisão de poemas. O poema acontecia. Corrigido, já era outro poema, sentido num momento distinto, vivido sob um estado de espírito diferente.
         Quem para um momento a considerar a vastidão, a variedade e a profundidade da obra de Jorge de Sena há-de imaginar que ele não fazia outra coisa senão escrever. De maneira alguma. Jorge de Sena lia muito e era um conversador incansável. Em casa dele, em casa dos colegas, era o grande animador de tertúlias sem fim. Nessas tertúlias, o que mais impressionava em Jorge de Sena era a vastidão dos seus conhecimentos e o entusiasmo com que os expunha. Numa recepção em que houvesse, por exemplo, professores de várias literaturas estrangeiras, Jorge de Sena brilhava sempre. Para surpresa dos especialistas em Petrarca, em Garcilaso, em Cervantes, em Shakespeare, em T. S. Elliot, em Ezra Pound, em Rimbaud, em Paul Valéry, em Goethe, em Rilke, Jorge de Sena tinha sempre algo de profundo e de inédito a dizer sobre esses e muitos outros monstros sagrados da literatura universal. Coadjuvado por uma inteligência rara, por uma memória prodigiosa, por uma curiosidade intelectual sem limites, inflamado pelo fogo sagrado dos génios, ninguém como Jorge de Sena distribuía com tanta generosidade e desinteresse da sua extraordinária riqueza cultural.
         Dotado de talento invulgar e frequentemente visitado pelo génio criador, Jorge de Sena tinha plena consciência do que podia e do que valia. Brioso e brilhante como poucos, havia duas coisas que Jorge de Sena dificilmente tolerava: a mediocridade e a desonestidade intelectual. Mas esse sentimento só o exteriorizava geralmente sob a forma da palavra escrita em prefácios, em posfácios e em centenas de artigos que fazem as delícias de todos aqueles que apreciam uma boa polémica. Ao castigar a mediocridade e a desonestidade intelectual de alguns dos seus companheiros no magistério e nas letras, fazia-o Jorge de Sena apenas com um objectivo em mente: o de contribuir com o seu muito saber e o seu apuradíssimo senso crítico para a dignidade das artes e das letras e da profissão a que se dedicou com corpo e alma.
         Como pessoa, Jorge de Sena irradiava simpatia. Tratava os colegas e os alunos com muita compreensão, afecto e requintes de cortesia. Tinha o sorriso e a elegância espiritual de um autêntico gentleman.
         Partiu o grande e saudoso Mestre e, com ele, o luso-brasileiro-americano que melhor testemunho deu, entre os seus contemporâneos, da língua e da cultura do mundo lusófono, já no país em que nasceu – Portugal -, já na pátria que adoptou – o Brasil -, já no país onde trabalhou e tombou heroicamente. Para os amantes do bom teatro, da boa ficção, e da boa poesia, deixou uma obra imorredoura; para os leitores e professores dignos de tal nome, deixou uma obra crítica original e valiosíssima; para os que se propõem a missão de promover a língua portuguesa e as letras e a cultura do mundo lusófono, deixou o mais genuíno dos exemplos.
 
                           (Este depoimento, pedido ao autor pelo Director do Tempo, Nuno Rocha, foi publicado no dia 6 de Julho de 1978.)   
 
António Cirurgião
 
 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

No Montecarlo.

 

 
Jorge de Sena e os escritores do café Montecarlo de Lisboa
 
 
Durante vários anos, por ocasião das minhas estadias em Portugal, pelas férias de Natal e de Verão, dedicadas a pesquisas na Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca da Ajuda e Biblioteca da Academia de Ciências, para já não falar da Biblioteca da Universidade de Coimbra, da Biblioteca Municipal do Porto, da Biblioteca e Arquivo Distrital de Évora,  fiz do Montecarlo o meu café preferido.             
Pouco a pouco, fui adoptado pelos escritores que mais frequentemente aí se reuniam em longas tertúlias e em conversas da mais variada natureza, como costumam ser, em geral, as conversas dos cafés. Entre os escritores com quem mais convivi no Montecarlo, contam-se Alexandre Pinheiro Torres, Carlos de Oliveira, Herberto Hélder, João José Cochofel, José Cardoso Pires, José Gomes Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues.
Sabendo das minhas relações com Jorge de Sena, desde o facto de havê-lo tido como professor no meu curso de doutoramento na Universidade de Wisconsin e como principal orientador da minha tese de doutoramento sobre Fernão Álvares do Oriente até ao facto de continuar em contacto com ele, uma das primeiras coisas que esses escritores me pediam, aquando da minha primeira aparição no Montecarlo, eram novidades sobre Jorge de Sena. E eu, lisonjeado por ser convidado a falar sobre o Mestre, dizia-lhes dos seus extraordinários dotes docentes, do seu saber enciclopédico, do seu brilhantismo em conferências e em congressos, da sua produção literária mercuriana, indo da poesia ao ensaio e da ficção ao teatro, passando pela crítica literária e pela história da cultura.
Mas brevemente me dei conta de que os escritores do Café Montecarlo não estavam particularmente interessados nos triunfos académicos e nos sucessos editoriais de Jorge de Sena. Pelo contrário, o seu interesse e o seu desejo íntimo – vim a perceber - seriam ver Jorge de Sena apagado. Mas poderia tal coisa acontecer? De forma alguma. E porque não? Carlos de Oliveira, uma vez, à guisa de metáfora, explicou-me parcialmente por quê, começando por dizer que eu poderia saber muitas coisas sobre Jorge de Sena, mas que certamente ignorava muitas outras. Sabia eu, por exemplo – perguntava-me retoricamente Carlos de Oliveira, com certo ar de malícia mal disfarçada – que Jorge de Sena tinha tanta carência de reconhecimento e de admiração, que escrevia à média de trinta cartas por mês para pessoas de Portugal, para que o não esquecessem? Isso para não falar das crónicas e críticas literárias e ensaios que escrevia na imprensa portuguesa. (Informo entre parêntesis que Jorge de Sena por mais de uma vez me manifestou o seu alto apreço por Natércia Freire, por esta lhe publicar, no suplemento literário do Diário de Notícias, que ela dirigia, tudo quanto ele lhe mandava, sem qualquer interferência da censura.) Sabia eu, por exemplo, prosseguiu Carlos de Oliveira, que fora o salto para o estrangeiro que contribuíra para que Jorge de Sena adquirisse o prestígio que tinha? Prestígio que ele jamais teria adquirido se tivesse continuado a viver em Portugal? Que, quando aí vivia, lá aparecia ele de vez em quando com a sua pastinha e com os seus versos – esclarecia Carlos de Oliveira – pela Brasileira do Chiado e pela Portugália, mas que, praticamente, ninguém dava pela sua existência e muito menos pela sua importância.
E umas vezes com mais subtileza e outras com menos, de uma maneira geral os escritores e intelectuais do Montecarlo manifestavam claramente que não morriam de amores por Jorge de Sena nem tinham admiração por ele. Ou teriam e não queriam admiti-lo? Os ciúmes, como os camaleões, vestem-se de muitas cores. É que de minimis non curat praetor. Aliás, a admiração, ou melhor dito, a falta de admiração dos escritores neo-realistas por Jorge de Sena e a deste por eles era mútua. Não me esqueço de ter ouvido mais de uma vez dizer a Jorge de Sena, observação de que se faria eco Dona Mécia de Sena, que Carlos de Oliveira passara a vida a refazer Uma abelha na chuva. E por mais de uma vez ouvi também dizer a Jorge de Sena que a salvação de Vergílio Ferreira como romancista foi ter abandonado a tempo o dogmatismo dos neo-realistas e enveredar pelo romance psicológico e existencialista, na peugada de Jean-Paul Sartre.
E veio o 25 de Abril e muitos dos autênticos exilados políticos – e dos chamados exilados políticos – e muitas das vítimas do regime totalitarista de Salazar – e das chamadas e presumíveis vítimas do regime totalitarista de Salazar – tomaram de assalto as universidades portuguesas e as associações culturais e académicas e os jornais e a rádio e a televisão e sanearam professores universitários de alta qualidade e idoneidade e praticamente apolíticos, em muitos casos, forçando injustamente e maldosamente vários deles ao exílio. 
         Meses após a Revolução e um ano após a Revolução e dois anos após a Revolução, os escritores do Montecarlo perguntavam-me se Jorge de Sena não estaria também interessado em ir ensinar para uma universidade portuguesa. E a minha resposta era invariavelmente a mesma: que Jorge de Sena nunca tinha sido convidado; que o convidassem formalmente, como tinham feito a tantos outros, que nem de longe tinham as credenciais e os méritos que tinha Jorge de Sena, para ver o que acontecia. E eles davam sempre a mesma resposta, fazendo assim, sofisticamente, da sua inquirição uma mera pergunta de retórica: que certamente Jorge de Sena nunca aceitaria esse convite, pois iria ganhar muito menos para Portugal do que ganhava nos Estados Unidos, e todos sabiam que ele tinha nove filhos para criar. E a essa conclusão falaciosa, por parte dos escritores e intelectuais do Montecarlo, retorquia sempre eu, mais ou menos com estas palavras: que essa questão de sacrifício financeiro e de responsabilidade pela criação dos nove filhos só a Jorge de Sena dizia respeito e só a Jorge de Sena competia resolver. Que aos portugueses – e especificamente aos autoproclamados donos da Revolução – só lhes restava formular o convite, uma vez que diziam  reconhecer-lhe idoneidade e credenciais; que a Jorge de  Sena – e só a Jorge de Sena, frisava eu – lhe competia aceitar ou rejeitar o convite potencial.
E para que conste direi o que neste mês de Outubro de 2009 me contou D. Mécia de Sena: que no próprio dia em que se deu o 25 de Abril, Jorge de Sena, ao ouvir pela rádio que tinha caído a ditadura em Portugal, se voltou para ela e lhe disse, com uma alegria e um entusiasmo quase infantil: - “Ó Mécia, vamos para Portugal”? Ao que a D. Mécia respondeu: -“Ó Jorge, como é que podemos ir assim sem mais, se tu não tens nenhuma garantia de emprego em Portugal nem sabes sequer se to vão oferecer? Vamos esperar e depois se verá.” E a verdade é que, através dos anos, por mais de uma vez me referiu a D. Mécia que o tal convite para ensinar numa universidade portuguesa só foi feito a Jorge de Sena quando ele estava no leito de morte, no hospital, em Santa Bárbara, no ano do Senhor de 1978. Fizera-lho António Reis, na sua qualidade de Secretário da Cultura num dos governos socialistas. Que nesse momento, muito comovido e sensibilizado pelo convite, Jorge de Sena se voltou para a D. Mécia e lhe disse: - “Vamos, Mécia”? Ao que a D. Mécia respondeu: - “Jorge, primeiro tens de melhorar; depois falamos nisso”. 
 
António Cirurgião