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quarta-feira, 25 de junho de 2025

O retrato do jornalismo de imprensa: entre a hecatombe e a determinação da mudança

 


 

Trata-se de um ensaio feito por um jornalista credenciado, trabalho mais do que pertinente, crónica de um desastre anunciado, uma viagem com muitos testemunhos, não se escondem os riscos que impendem sobre a liberdade de expressão, mas o autor manifesta-se esperançoso: “Numa altura em que os jornais parecem moribundos, desacreditados e o saco de pancada onde se descarregam frustrações sociais, espero que este livro possa de alguma forma dignificar a luta de todos os jornalistas que resistem e que continuam a acreditar na profissão, mesmo ameaçados quase diariamente de despedimento. A nossa luta. Coragem, camaradas.” E entramos na leitura, empolgante e movimentada da vida dos jornais, o título do ensaio é O Jornal e o seu autor, Rui Frias, é jornalista, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025.

Antes de falarmos das redações que estão à míngua, importa passar em revista que já houve o sonho de oferecer jornais grátis, na expetativa de serem pagos pela publicidade, tudo falhou clamorosamente, o digital, com os jornais online e as redes sociais fizeram secar a venda de jornais, estes continuam embaraçados à procura do melhor modelo de negócio que permita assegurar jornais em papel, introduzindo no negócio livros de cultura variada e numa caterva de iniciativas. Mas os números de jornais vendidos diariamente em Portugal são eloquentes: de 315.139 exemplares em 2011 para 108.500 em 2021. O que se passou com o Covid também ajudou à festa, mas naqueles dez anos desapareceram jornais e jornalistas. E continua premente a questão da reinvenção do jornalismo. Rui Frias escreve e ninguém o contesta nesta paisagem desoladora: “Os perigos são óbvios e saltam à vista: crescimento da desinformação, do populismo e de uma certa bipolarização social cada vez mais extremada. E tornam mais necessária do que nunca a intermediação do jornalismo, numa altura em que, paradoxalmente, este se encontra mais fragilizado. Sobretudo entre os jornais, outrora território nacional da grande reportagem, do jornalismo de investigação e das notícias incómodas para os poderes. As redações são debilitadas. Perderam sangue, perderam músculo, perderam massa cinzenta. Das centenas de jornalistas divididos por secções, gabinetes de reportagem, equipas de investigação, especialistas em política, saúde, educação, ciência e ambiente, críticos de arte, literatura e gastronomia que povoaram as redações até ao virar do século, sobram agora na maioria delas, ‘pequenas equipas multidisciplinares’ – como passaram a chamar os gestores -, com gente obrigada a dividir-se entre alhos e bugalhos ao longo do dia, às vezes na mesma hora, para manter a máquina da atualidade a funcionar na voragem do imediatismo digital. Com isso, perde-se, inevitavelmente o rigor, a intermediação, a verdade. E apressa-se o caminho para a morte.” E desfilam os testemunhos, desde os tempos em que os jornalistas não tinham cursos, quando a redação era um ambiente extraordinário. Não são esquecidos os choques tecnológicos, lembra-se a máquina de escrever e a tipografia, as secções regionais e a Sociedade, lembra-se a importância da fundação do Expresso como Público, viragens de significado como também acontecera com o Diário de Notícias, em 1864, marcando a entrada na era do jornalismo industrial. Recorda-se os entusiasmos da década de 1980, a era da liberalização do setor, os novos títulos, a atração pelos assuntos europeus, a proliferação dos enviados especiais e, de repente, o choque com a informação na hora, a crescente capilaridade na internet, o aparecimento da redação digital dos jornais, até a ilusão de que se poderia replicar no digital o modelo de negócio que suportara o jornal em papel. Tudo mudou: “Em pouco mais de dez anos, os jornais feitos com jornalismo de rua, reportagem no terreno, contactos diretos, relacionamento com as fontes e tempo para cruzar informação deram lugar a sites alimentados ao minuto por notícias de agências acabadas de chegar, soundbytes apanhados nas televisões e fait-divers com potencial para viralizar nas redes sociais replicados há exaustão por todos os órgãos de media, sem tempo para se zelar minimamente pela veracidade dos factos.” É o triunfo do tabloide, entretanto acentua-se a crise financeira, já tinham morrido os jornais vespertinos, os despedimentos coletivos nunca mais pararam, os jornalistas tornaram-se precários, os jornalistas procuraram mudar de profissão (num estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa sobre os jornalistas, em 2021, dos cerca de 800 jornalistas inquiridos, metade ganhavam menos de mil euros).

O relacionamento do jornalista com o mundo faz-se, regra geral, com recurso à prótese digital. “Se os jornalistas nas redações são hoje metade (ou nem isso) do que eram no final do século passado, agora cada jornalista tem pelo menos dois monitores na sua secretária, dividindo-se entre plataformas, sites, agências, cada vez mais amarrado à cadeira e de olhos fixados nos ecrãs.”

Rui Frias não esquece de fazer a apologia do jornalismo investigativo, lembra o caso Watergate, hoje em dia uma raridade, conta mais histórias de camaradas que procurar medrar no jornalismo de investigação, a necessidade de ter tempo para escutar as fontes, para conviver com as pessoas. E chega a hora de abandonar o ritmo das penúrias e vocações que sucumbem para acende o facho da esperança, tocar a trombeta da inovação em tempos de crise, seguem-se depoimentos de quem se lançou na aventura, caso dos jornais locais, projetos a evoluir para o jornalismo de investigação, fazendo ganhar a confiança dos leitores usando da transparência, trocando a velocidade pela profundidade, fazendo recurso de media multiplataformas (papel, áudio, vídeo, redes sociais…) usando podcasts ativos. Como alguém observa ao autor: “O jornalismo é cada vez mais um serviço em constante mutação de produtos. E o que nós tentamos é ter um serviço completo, que cruze variadas dimensões. Os jornais ganham com a multiplicidade de plataformas para chegar aos leitores, ou ouvintes, ou o que seja. Precisamos de ter uma componente 360 graus, para que as pessoas que estão do outro lado possam chegar até nós da forma que mais gostam.”

É nesta constante luta pela sobrevivência que ganha realce a inovação. Diga-se o que se disser, a missão dos jornalistas está mais atual do que nunca, a despeito dos despedimentos e da falta de salários. E assim o autor se despede: “Continuo a acreditar que o bom jornalismo pode mudar o mundo.”

De leitura obrigatória.

 

                                                    Mário Beja Santos




domingo, 29 de maio de 2022

Mário Mesquita (1950-2022).

 






Mário Mesquita – da personagem jornalística singular a uma excursão narrativa da sua exemplar deontologia1 

 

 

O risco de não chegar a tempo de participar no volume de homenagem ao Mário Mesquita é um quase pesadelo que me tem vindo a perseguir nos últimos tempos. Não quero sequer pôr a hipótese de não estar presente em tão merecida celebração, pois conto o homenageado na lista das pessoas que admiro profundamente e de quem sou grande amigo, as duas coisas em simultâneo. 

Dele ouvi primeiro falar quando ainda vivia nos Açores na década de 60. Os nossos universos eram distintos e não se cruzavam. Os meus anos lectivos eram passados na Terceira, no Seminário Episcopal, enquanto os dele, três anos mais novo (o que, quando se é jovem, faz muita diferença) eram vividos no Liceu de Ponta Delgada. Dada a inexistência, nesse tempo, de ensino superior nos Açores, o Seminário de Angra e o Liceu de Ponta Delgada constituiam dois activos focos de aglomeração e intervenção intelectual e cultural no arquipélago. O Liceu Antero de Quental como que fazia jus ao seu nome produzindo uma plêiade de alunos, vários dos quais, para além da sua excelência académica, se notabilizaram pela actividade política naqueles anos. Foi o caso de José Medeiros Ferreira, Eduardo Paz Ferreira, Jaime Gama, João Bosco Mota Amaral, Paulo Jorge Melo2 (se recuarmos um pouquito, chegamos a Sacuntala de Miranda, Bruno da Ponte, Mário Barradas e António Valdemar, por exemplo3). Um dos mais novos dessa ínclita geração foi Mário Mesquita, que emergiu no final dos anos 60, quando os seus predecessores já estavam em Lisboa, ou até no exílio, como acontecera com Medeiros Ferreira que, expulso da universidade portuguesa, se vira forçado a ir estudar para a Suíça. 

Foi quando eu já estava em Lisboa, no início da década de 70, que um dia fui contactado por Mário Mesquita sugerindo um encontro. Não descubro outra explicação para essa ocorrência a não ser aquela força magnética que, em Portugal continental, une os insulares. E deve ter sido ela mesma que, a partir desse momento inicial de aproximação, continuou a alimentar os nossos contactos subsequentes. Na verdade, algum tempo depois eu partia de férias de verão, em visita a meus pais nos Estados Unidos (estávamos em 1972) e Mário Mesquita, que na altura trabalhava na redacção do República, pediu-me para enviar umas crónicas acerca da campanha eleitoral. O Presidente Nixon candidatava-se à reeleição e George McGovern iria ser o candidato do Partido Democrata. Correspondi ao pedido com não me recordo quantas crónicas, porque acabei quedando-me pelas Américas, decidido a não regressar a Portugal por razões que não cabe agora enumerar. 

Entretanto, o 25 de Abril  surpreendeu-nos a todos. Só me lembro de o nosso contacto ter sido reatado quando o Mário Mesquita, já director do Diário de Notícias, provavelmente o mais jovem de sempre dos directores de um diário português, me convidou a colaborar na página “Cultura”, então um espaço de intervenção com influente presença no país. Algum tempo depois, revelando uma consciência preclara para a época, solicitou-me sugestões de nomes para correspondentes do jornal na Costa Leste e na Califórnia, onde residem fortes comunidades portuguesas, maioritariamente açorianas. Recomendei-lhe Eurico Mendes, jornalista do Portuguese Times, de New Bedford, que durante décadas se fez presente no Diário de Notícias com bem informadas crónicas, e Vamberto Freitas, na Califórnia. Sobre este último, acrescentei na altura que dele se poderia esperar colaboração mais alargada, uma vez que estava já fazendo notáveis incursões no campo da crítica literária especialmente dedicada à escrita luso-americana e também à norte-americana. 

Aceites ambas as sugestões, o espaço que lhes foi concedido no Diário de Notícias permitiu uma significativa presença luso-americana no jornal, num momento em que a predisposição dominante em Portugal estava entusiasmadamente voltada para o Leste europeu e, depois, para a Europa Central.  

Nesses idos tempos, os jornais não circulavam com facilidade. Chegavam-me alguns à Biblioteca da Brown – o Expresso, por exemplo – mas os diários eram visita muito esporádica. Só recebida quando um viajante amigo se lembrava de trazer uns quantos exemplares, ou quando o senhor Pedroso do Friends Market, no centro do antigo bairro português de Fox Point onde nasceu a minha avó paterna, conseguia obter alguns, não sei bem por que processos. Mas exibia-os sobre o balcão e disponibilizava-os aos visitantes da sua hoje mítica loja. 

Tenho ideia de ter sido quando Mário Mesquita me ofereceu um exemplar de Deve & Haver4, colectânea de crónicas e notas suas recolhidas da imprensa, que me rendi e transformei em incondicional leitor. Aquela escrita cativou-me de imediato por quatro razões misturadas entre si, sem possibilidade de elenco em qualquer pré-determinada ordem: a perspicácia de observação, a precisão de pensamento, a fina ironia e a escorreiteza de estilo, bebido nos melhores clássicos. Três anos mais tarde, um novo volume – A Regra da Instabilidade5, uma recolha de editoriais – confirmou, definitivamente para mim, uma imagem de marca. Mário Mesquita era atentíssimo e destacado observador da cena nacional, social e política, e senhor de uma prosa que se inseria na melhor tradição jornalística em que o país é notoriamente rico. Se em Deve & Haver havia já ficado mais do que patente estarmos em presença de um notável cronista e comentador político-cultural, A Regra da Instabilidade inscreveu o nome de Mário Mesquita na elite dos cronistas portugueses da actualidade. Por minha parte, não sei já quantas vezes citei desse livro a magistral análise do comportamento do ciclista Joaquim Agostinho, que Mário Mesquita arvorou em modelo prototípico de uma significativa camada do povo português. Não resisto a evocá-la de novo: 

Dos actuais “ídolos” do desporto português, ciclista veterano de uma Nação velha, é o que melhor se identifica com as forças e fraquezas dos seus contemporâneos. Nesta terra onde o desporto, como tudo o resto, é o culto do acaso, Agostinho é o desportista descoberto graças a um compadre que o observava nas corridas da aldeia; é o espelho da tenacidade perseverante que o há-de manter em competição até aos quarenta anos. Para uma nação sem planos e sem projectos, Agostinho é o protótipo da força e do talento desorganizados. 

A imagem de Joaquim Agostinho, ciclista do azar e da sorte, dobrado sobre a bicicleta, a ensaiar a recuperação de mais uma queda inexplicável, será um símbolo deste País de emigrantes e improvisadores – símbolo mais vivo e representativo, para os estudiosos da vida quotidiana dos portugueses no ano de 1980, do que tantos outros que terão direito a estátua na praça pública ou darão nome a ruas de Lisboa.6 

Regresso ao meu percurso de cruzamentos com MM, agora nos anos após a direcção do Diário de Notícias. Os encontros sucederam-se, a admiração e a amizade misturaram-se cada vez mais, sem todavia nunca o meu juízo sobre a superior qualidade do seu trabalho se ter deixado perturbar pelo enviesamento que as cumplicidades criam. Procurei sempre usar de discernimento e separar as águas, quer com ele quer com outros amigos, servindo-me do apoio de critérios vários que me ajudam nesse processo complexo.  

A sua partida para a Universidade de Louvaina com vista a um Mestrado em Comunicação Social acrescentou à vida de Mário Mesquita um elemento que nos uniu ainda um pouco mais: a partilha da experiência diaspórica. Ele talvez não tenha notado esse outro motivo de aproximação entre nós, todavia eu senti-o especialmente. Podíamos em comum olhar Portugal de fora, nunca deixando de continuar a senti-lo a partir de dentro. 

A acutilância do seu espírito analítico-crítico, de acentuada veia irónica, desenvolveu-se numa nova linha, a da reflexão sobre ética da comunciação social, durante o período em que foi Provedor dos Leitores do Diário de Notícias. A acuidade e profundidade das suas análises e do seu criterioso juízo ético está mais do que patente nas páginas do livro O Jornalismo em Análise – A coluna do Provedor dos Leitores (Coimbra, Minerva, 1998). Basta ler alguns textos para nos apercebermos da exemplaridade modelar desta escrita do género. 

A experiência universitária permitiu-lhe, entretanto, catapultar os seus múltiplos talentos para um plano superior. Começaram a surgir ensaios sobre a sua área de especialidade, numa linguagem a primar pela ausência de jargão, pecha quase tão inevitável quanto tomada como intrinsecamente necessária ao progresso na carreira académica. Tais ensaios revelavam algo que sempre prezei: o rigor de pensamento manifestado numa escrita límpida e de cristalina transparência. O traquejo jornalístico, aliado ao seu gosto literário, permitiam-lhe agora elaborar textos densos, revelando aprofundadas leituras em diversas áreas de especialização associadas com o jornalismo e a comunicação social, numa escrita analítica plena de finura e de cativante, embora contida, elegância. O grosso volume de ensaios O quarto equívoco – o poder dos media na sociedade contemporânea7 - constitui uma vigorosa demonstração das afirmações atrás conscientemente expressas. Basta folhear-lhe o índice para nos darmos conta da alargada dimensão da temática abordada, tudo questões intimamente conectadas. Depois, é só ler, quase indiscriminadamente e sem nenhuma ordem especial, os capítulos mais apelativos. Cada um entra por um ângulo particular da problemática nuclear da comunicação social e vai solidamente rasgando horizontes, abrindo constantemente para questões colaterais que são desenvolvidas noutros capítulos. Não se trata de um compêndio, mas de um grosso conjunto de ensaios individuais guiados por um conjunto de preocupações coerentemente interligadas. 

O volume poderia muito bem ter sido dividido em dois e, se a mancha de página não fosse tão densa, poderia efectivamente ter resultado em dois avolumados tomos. Qualquer deles constituiria de per si uma tese de doutoramento. Conhecedor, porém, de uma distintiva marca da sua personalidade, o perfeccionismo, que o impedia eternamente de dar por terminada a tese por, segundo ele, estar ainda muito longe da almejada perfeição, sugeri-lhe que organizasse esse volume em jeito de dissertação de doutoramento e o apresentasse a uma universidade.  

Impossível, porém, convencer o Mário (nesta altura já posso deixar cair o sobrenome pois tenho-o por amigo muito próximo). Para ele, senhor de uma ética absolutamente irrepreensível (ainda não me referi a essa faceta da sua personalidade, mas não posso esquecê-la e prometo lá chegar), a minha sugestão soava a truque imoral ou a saída truculenta, a esquema matreiro ou a esperteza saloia, ou, sei lá, a desenrascanço tipicamente luso roçando a aldrabice.  

Bem que tentei demonstrar-lhe, por escrito, a qualidade dos seus textos sobre o sujeito enunciador da narrativa jornalística, bem como sobre outros aspectos intimamente relacionados com o problema da objectividade. No fundo, ambos os temas eram duas vertentes do mesmo problema, o da envolvência da subjectividade na busca de uma escrita que se pretende objetiva. Questão candente e actualíssima, que aliás me interessava particularmente, pois cedo eu próprio me envolvera e apaixonara mesmo pela questão da objectividade nas ciências sociais, a ponto de me ter lançado na escrita de uma tese sobre a questão da ideologia. Lembro-me perfeitamente de ler esses escritos do Mário numa altura em que me embrenhara a sério nessa probemática então aplicada à História, e sobre a qual até eu dera, no Departamento de Teoria e História das Ideias da Universidade Nova de Lisboa, um seminário precisamente sobre a questão da objectividade, analisando quatro obras na altura muito debatidas nas universidades americanas8. Refiro este pormenor para acentuar o facto de ter sentido, ao contactar em directo com os ensaios de Mário Mesquita, que da sua perspectiva teórica ele estava articulando e aprofundando a longa experiência acumulada na sua própria vida profissional, em perfeita sintonia com a problemática e as abordagens que então dominavam os debates anglo-americanos. Em Lovaina, Mário Mesquita conheceu e studou a fundo a obra de Paul Ricoeur, que se tornou a sua principal referência teórica. Ricoeur foi, no seu tempo, o filósofo da tradição continental europeia mais em diálogo com o pensamento anglo-americano. 

Intromete-se aqui uma magnífica e marcante experiência de vida que me foi proporcionada, graças a uma iniciativa de Mário Mesquita, que de então para cá com muita frequência refiro como constituindo uma das minhas grandes aprendizagens sobre a questão da objectividade.  

Em 1990, MM tinha sido convidado a dirigir o então renovado Diário de Lisboa e, nessa qualidade, organizou um originalíssimo colóquio de revisitação do 25 de Abril visto pela comunicação social. Convidou jornalistas de todo o mundo que tinham feito a cobertura da revolução e dos eventos durante os anos quentes que lhe sucederam.  Pedira-lhes que, em retrospectiva, fizessem uma avaliação do trabalho por eles então realizado. Recordo a presença de representantes de The New York Times, da TVE, do Le Monde, do Izvestia, entre tantos outros. Nesse evento participaram também actores da revolução, como Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e o General Costa Gomes. Foi fascinante verificar como os jornalistas já não viam os acontecimentos como os tinham descrito na altura. Além disso, também os ouvimos desculparem-se confessando que as reportagens enviadas para as redacções nem sempre correspondiam ao que vinha a público. Ainda assim, o mais espantoso para mim foi ouvir os próprios intervenientes no processo revolucionário discordarem entre si sobre o que tinham dito ou feito. Aqueles dias no Forum Picoas constituiram para mim uma fabulosa e inesquecível lição. Dela dei notícia na crónica quinzenal que então publicava no Diário de Notícias9

Durante anos, insisti com  Mário Mesquita que impusesse a si próprio uma curta paragem de um semestre, a fim de se recolher a um ambiente propício à investigação e poder terminar a tese. Sugeri-lhe a Brown University e tratei de oficializar um convite, que lhe foi entregue. A oportunidade dar-lhe-ia a acrescida vantagem do livre acesso à bibliografia anglo-americana que, na verdade não lhe trazia nada de particularmente novo, mas lhe permitiria demonstrar exactamente isso: que o substracto teórico de toda a sua pesquisa estava inteiramente em harmonia, e à la page, com o diálogo internacional em vigor. Numa viagem aos EUA em que fez algumas intervenções em universidades, na Brown University apresentou uma comunicação sobre o sujeito no discurso jornalístico que deu azo a profundo e animado diálogo com o público, professores e alunos de pós-graduação que, em literatura, se ocupavam das mesmas questões. Se dúvidas prévias tivessem havido sobre a qualidade académica do conferencista, elas ter-se-iam dissipado em absoluto para rapidamente darem lugar a um sentimento geral de admiração e apreço. 

Não estou a precisar datas porque estes nossos diálogos arrastaram-se ao longo de anos e confesso que não conseguiria ser muito exacto nos dados, se tivesse de explicitá-los. Todavia um dos factores-chave terá sido a sua nomeação para a Directoria da Fundação Luso-Americana. Esse facto veio proporcionar-me renovado contacto frequente com ele. Nos seus anos de intervenção na criação e desenvolvimento da Escola de Jornalismo da Universidade de Coimbra os nossos encontros tinham-se espaçado, já que as minhas idas a Lisboa frequentemente coincidiam com as suas deslocações a Coimbra. Depois, na qualidade de membro do corpo directivo da FLAD, assumiu o que considero uma acertada visão da relação de Portugal com os Estados Unidos tendo como base de apoio fundamental as comunidades açórica e luso-americana na América do Norte. Por essa razão, vi-me envolvido nalguns dos seus projectos, como por exemplo o da intensificação de intercâmbios universitários de professores e alunos dos dois países, mas também a outros níveis, como o aproveitamento do legado cultural deixado pela Família Dabney nos Açores, e o estabelecimento do Forum Roosevelt. 

Pode não parecer, mas não foi meu propósito vir para aqui escrever a bibliografia de Mário Mesquita. Se fosse esse o caso, muitíssimo mais haveria a dizer. Pretendi tão-só saltitar entre cruzamentos das nossas trajectórias de vida. 

Atrás indiquei a intenção de referir a dimensão ética que atravessa toda a carreira de MM. De resto, quem o conhece de perto dispensa qualquer elaboração nesse domínio. Afirmo-o com base em repetidas experiências de conversas com amigos comuns, com antigos alunos seus e outras pessoas das suas relações profissionais e pessoais. As preocupações éticas de MM levaram-no desde muito cedo a desligar-se de poderosos nexos políticos que o teriam inevitavelmente catapultado aos mais altos cargos na vida pública nacional. Bem conhecedor das facilidades de que poderia ter beneficiado, MM demarcou-se do poder (dos poderes e/ou poderosos) sempre que a sua consciência lhe impôs limites a certas formas de relacionamento e colaboração. Regendo-se por valores e princípios herdados em casa (MM emociona-se, muitas vezes sem o revelar abertamente, quando fala ou lhe referem a figura tutelar de seu pai, que nele teve uma enorme influência). A sua entrada no Diário de Notícias como o mais jovem director de sempre de um diário português, quando aquele jornal ainda estava atolado em turbulentas tempestades políticas, revelou às partes envolvidas nos diversos litígios acumulados ao longo dos anos que podiam confiar no novo timoneiro do jornal, e que a sua idade em nada afectaria a sua performance. O carácter moral de MM impôs-se desde o começo como um nobre aliado das suas inegáveis qualidades de jornalista. Em pouco tempo, o jornal readquiria o seu antigo estatuto de voz autorizada a merecer devida atenção. Em curto tempo também, os jornalistas da casa tornaram-se seus aliados, não poucos deles juntando-se a uma crescente lista de admiradores. 

A sua digna postura ética testemunhei-a eu sempre, tanto nos momentos altos como nos de adversidade que a vida sempre oferece a qualquer. MM manteve sistematicamente altos os padrões morais que o regem, e isso permitiu-lhe equilibrar a justiça devida a todos com a liberdade a que têm direito, usando de uma isenção que, não sendo imparcial pois ninguém o é na medida em que todos somos entes subjectivos e com valores próprios, não se refugiou nunca em alienante neutralidade. Tomou sempre as posições que lhe pareceram as mais equitativas e consentâneas com os seus ideais de respeito pelos outros, por vezes em detrimento dos seus próprios interesses. 

Tenho essa como uma das marcas idiossincráticas da personalidade de Mário Mesquita, pois trata-se não de uma cereja em cima do bolo mas de um elemento estruturante do seu modo de estar e de ser. Pressenti-o de imediato desde o nosso primeiro encontro há cinquenta anos. Meio século de convívio apenas solidificou essa impressão inicial. Convenhamos ser tempo mais do que bastante para reconhecer que nos Deves & Haveres de Mário Mesquita é essa a sua indelével Regra da [Es]tabilidade

 

    Onésimo Teotónio Almeida 

 



 

 


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Cristo com carabina ao ombro.

 







Cristo com carabina ao ombro, por Ryszard Kapuściński

 

Mário Beja Santos

 

Reconhecido por vozes autorizadas como um dos grandes mestres do jornalismo moderno, repórter empolgante e dotado de um poder descritivo fractal que agarra o leitor do princípio ao fim, em Cristo com Carabina ao Ombro, Livros do Brasil, 2021, de Ryszard Kapuściński pode ser agora apreciado de um trabalho que teve a sua primeira edição polaca em 1975 e que nos leva a três cenários distintos, marcantes na época e que desgraçadamente continuam atuais: o conflito israelo-palestiniano, as ditaduras da América Latina e a luta de libertação em Moçambique.

O repórter viaja acompanhado por três feddayin (combatentes da liberdade), muitos jovens, trajam fardas de cotim e empunham metralhadoras, chegam a Rashidyia, esta cheira a laranjas e a sangue. “Um dos explosivos atingiu um camião que transportava laranjas; assim, líquidos dourados e aromáticos jorram pela rua principal. Perto, ao pé de um casebre, está sentado um velho árabe que parece petrificado no seu silêncio. Daquilo que ainda ontem era a sua casa, não restou mais do que o chão e um pedaço do muro. Da família não sobreviveu ninguém”. Rashidyia é um dos campos palestinos no Líbano. Percorrem-se ruínas e o jornalista interroga a luta destes palestinos, é um conflito com muita história, arredondando números, em 1930, escreve o autor, o governo britânico conclui que a Palestina era demasiado pequena e que, consequentemente, não podia acolher mais judeus porque não havia terras livres. Mas estamos a falar de 200 mil judeus, e nos anos 1970 eram quase 3 milhões. Há naturalmente um problema de espaço e as vitórias militares sobre os Árabes geraram a ambição de um grande império. A opinião pública mundial desconhece que a imigração judaica para a Palestina não se realizou só à custa dos Palestinos, mas também à custa dos judeus da Palestina. “Os judeus locais lembravam-se de que outrora a Palestina era uma terra próspera onde conviviam Árabes, judeus e cristãos e onde não passava pela cabeça de ninguém disparar nas costas do vizinho. Outrora, cada comunidade guardava os seus templos e havia espaço para todos os deuses. Um milhão de palestinos teve de abandonar a sua Pátria”. E descrevem-se os campos de refugiados e a vontade indómita do retorno à sua terra. Viaja-se pela História de um conflito, lembra-se o exército clandestino judaico, o Haganah e a sua organização terrorista Palmach e uma outra mais terrorista, a Irgun, geraram matanças na população árabe e não pouparam os britânicos, era necessário expulsar os Palestinos. E vem uma observação que tem premente atualidade: “Se o mundo não interferir, nenhuma das partes vai terminar esta guerra. Há demasiado ódio, demasiada morte, demasiada desgraça, e a memória está demasiado viva. Trata-se de um pequeno pedaço de terra, difícil de encontrar no mapa-mundo”. E viaja-se pela complexidade das alianças entre árabes, a Jordânia fora cruel com os Palestinos, sonharam incluir a Palestina dentro do seu reino. A reportagem continua por todo este calvário, fala-se da Batalha dos Montes Golã e questiona-se porque é que os árabes perderam a guerra em 1967, procura-se uma explicação: “Em Israel todos participam na guerra, nos países árabes é só o Exército. Em Israel, quando começar a guerra, todos vão para a frente de combate e a guerra civil para. Na Síria, ao contrário, muitos ficaram a saber da guerra de 1967 só quando acabou, ainda que a Síria tenha perdido uma zona tão estrategicamente importante como os Montes Golã. A Síria estava a perder os Montes Golã, e no mesmo dia, à mesma hora, a vinte quilómetros de distância, os cafés em Damasco estavam cheios de clientes, havendo gente a deambular, apenas preocupada em encontrar uma mesa livre”. Um repórter que nos faz compreender a germinação do imperialismo israelita que ninguém parece estar em condições de travar.

Já estamos na América Latina e o repórter justifica o título da sua obra: “Pouco depois da morte de Che Guevara, o pintor revolucionário argentino Carlos Alonso pintou um quadro que imediatamente se tornou famoso em toda a América Latina: a figura de um Cristo de carabina ao ombro. O quadro de Alonso converteu-se desde então num símbolo artístico do guerrilheiro, do homem que combate a violência e a arbitrariedade na sua luta por um mundo diferente, justo e bom para todos os seres humanos”. É uma reportagem que pode ser vista como uma parada de horrores, primeiro na Bolívia, com a sua instabilidade, prisões, execuções, golpes de Estado, os militares a derrubarem-se uns aos outros, uma degenerescência que lembra o fim do Império Romano. Passamos para outra atmosfera ditatorial, a ilha de S. Domingos, dois ditadores e dois monstros onde 90% da população vive na mais profunda miséria e ignorância. Depois El Salvador e a seguir os crimes abomináveis da Guatemala onde os EUA sempre tiveram o descaro de perseguir quem contraria o império bananeiro da United Fruit. Se ainda houvesse dúvidas sobre a abjeta interferência norte-americana nos assuntos internos da América Latina é só estudar o que se passa na Guatemala, ainda recentemente o romancista Vargas Llosa lhe dedicou um pungente romance ficcional Tempos Duros. Uma pequena água-forte do autor: “A Guatemala é um país governado por uma camarilha de coronéis, já que durante a revolução anularam o grau de general. No Exército, há um coronel por trinta soldados. A Embaixadas dos Estados Unidos ocupa o lugar supremo do poder, depois vem o Conselho de Coronéis, e o governo ocupa o terceiro lugar. Qualquer coronel gostava de ser presidente, devido ao prestígio e ao salário alto. O ordenado anual do Presidente da Guatemala é de um milhão e 94 mil dólares, sem contar com outras regalias, mais ou menos oficiais, e um enorme subsídio de representação (no mesmo país, os rendimentos de um camponês rondam entre os 50 e 80 dólares anuais”. E observa o que espera um jovem revolucionário neste canto do mundo: “Uma pessoa jovem, na América Latina, cresce rodeada de um mundo corrupto. É o mundo da política exercida pelo dinheiro e para o dinheiro, um mundo de demagogia desenfreada, um mundo de assassínios e de terror policial, um mundo da plutocracia prolixa e despiedada, de uma burguesia ávida de tudo, de exploradores cínicos, novos ricos depravados e vazios. Um jovem revolucionário rejeita tudo isto, pretende destruir esse mundo, mas antes de o conseguir quer contrapor-lhe um mundo diferente, limpo e honesto, e arrisca a sua própria vida”.

Estamos agora em Dar es Salaam, 1962, o repórter encontra-se com Joaquim Chissano e Eduardo Mondlane, fala-se da independência de Moçambique, das diferentes fações ligadas à libertação, faz-se o historial do início da guerra e das batalhas da FRELIMO. E assim se despede, Moçambique já é independente: “Revi as fotografias de Lourenço Marques. Numa delas, dois inimigos de ontem, um soldado português e um guerrilheiro da FRELIMO, patrulham juntos a cidade. Examino os dois rapazes e vejo que o soldado tem botas e o guerrilheiro também já usa botas. E, de repente, pensei que há no mundo coisas grandes, e que é magnífico que, depois de anos de se andar descalço, chega afinal o dia em que se já se pode calçar sapatos e caminhar pela terra sem medo de deixar rasto”.

De leitura obrigatória.

 

 





quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Abjecto.

 
 


 








 











 

 




 





Os senhores directores porcalhões de jornais deviam ter vergonha na cara e acabar com esta coisa dos anúncios de «convívio». O pior de todos é o Correio da Manhã mas a praga nojenta contamina também os periódicos ditos «de referência». O CM publica notícias indignadas sobre prostituição, lenocínio e mulheres maltratadas e, logo a seguir, ao virar da página, enche páginas com anúncios que, obviamente, são colocados e pagos por redes de prostituição, exploração e tráfico de mulheres. Todos sabem, ou se não sabem deviam saber, que em 90% dos casos não é a Loira de Tortosendo ou a Rapariga Diferenciada de Cascais nem a Mulatinha Meiguinha que pagam esta publicidade enganosa, são os chulos e os traficantes que as exploram. À vista de todos, um crime, cumplicidade com lenocínio, basta comprar o jornal ou ir ao sítio da Internet… que miséria vergonhosa, vil atentado aos mais básicos direitos humanos. Senhores directores porcalhões de jornais, é favor emendar a mão e acabar com esta coisa de uma vez por todas.
 
 
 

sábado, 26 de outubro de 2019

Pato à Pequim.

 
 
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Uma coisa que não percebo ou, se percebo, percebo que é pelas mais vis e venais razões. O El País aceita ter no seu interior um extenso caderno de várias páginas chamado China Watch que é um descarado panfleto de propaganda ao regime de Pequim. Notícias sobre notícias do império maravilhoso, nem uma palavra sobre direitos humanos, minorias étnicas, Prémio Sakharov, protestos nas ruas. É esta a matriz ética do El País? E, já agora, de muitos jornais portugueses que se prestam ao mesmo serviço? E de sociedades de advogados lisboetas, como a Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados, que são membros honorários de uma coisa chamada Associação de Amigos da Faixa e Rota?
          Por uma vez: a China é uma ditadura. Não tem liberdade de expressão, direitos humanos, outras garantias básicas e, portanto, outra vez: a China é uma ditadura. O El País, que eu saiba, não foi um projecto jornalístico criado para apoiar ditaduras ou ser subsidiado por elas. Na China, o El País não existiria – esse é o ponto. E se falassem aos jornalistas do El País ou aos advogados da Morais Leitão que estavam a apoiar Hitler ou Goebbels, ai jesus. Hoje não há Hitler nem Goebbels, ainda que haja candidatos a isso. Hoje, a maior ameaça à democracia e aos direitos humanos à escala mundial é a China. Mas, claro, é melhor olhar para o lado na hora de fazer dinheiro, que a vida custa a todos. DESPREZÍVEL.