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quinta-feira, 26 de março de 2026

Carta de Bruxelas







                                                                                        Os relógios do tempo




Margarete Buber-Neumann (1901-1989) foi uma testemunha com o destino do século marcado a ferro na carne, deportada nos campos de Estaline e depois nos de Hitler. Cruelmente, passa directamente de uns para os outros. Depois da execução do marido, o dirigente do Partido Comunista Alemão Heinz Neumann, em 1937, na URSS, Margarete é condenada em 1938 a cinco anos de detenção num campo. Em 1940 é entregue pelas autoridades soviéticas às autoridades nacional-socialistas. Mais cinco anos em Ravensbrück. A dupla experiência concentracionária foi passada a escrito num livro justamente célebre, Als Gefangene bei Stalin und Hitler. Eine Welt im Dunkel (1949).  Sem a ambição histórica dessa obra, Margarete Buber-Neumann conta em Die erloschene Flamme: Schicksale meiner Zeit (1976) alguns episódios em que se cruzou com esses destinos de um século. Não se trata das grandes personagens, embora também lá estejam, por exemplo Panait Istrati ou Milena ( a quem tinha já dedicado um livro, o único traduzido para português).

Um dos casos incluídos nesse texto é o de Karl Brunnengraber. A conversa narrada por Margarete Buber-Neumann é fruto de um acaso. Passageiros do mesmo voo de Berlim para Frankfurt, calharam-lhes lugares contíguos, o que levou à conversa – e ao destino comum. Ambos judeus alemães. Ambos antigos concentraccionários. Ambos a viverem na Alemanha. Brunnengraber, relojoeiro, conta como sobreviveu no campo pai, mãe e irmãos já assassinados.  Um S.S. deu-lhe um relógio de pulso para reparar o mais depressa possível. De imediato, o prisioneiro percebeu que seria poupado aos transportes, enquanto fosse necessário. Explica que não terminava o arranjo antes de receber outro relógio para consertar. E assim «vivi por dois anos de um relógio para outro». Pelo meio narrou outras peripécias. No fim da conversa relatada pela autora, Karl Brunnengraber, reconciliado com a Alemanha, mostra-lhe uma bracelete de relógio que patenteara e explica-lhe longamente de que se trata; explicação, diz Margarete, «de que não comprendi uma só palavra». E, acrescenta o relojoeiro, a última frase do capítulo, «na minha cabeça tenho mais cinco invenções. Talvez ainda tenha tempo de as realizar todas....».

Involuntariamente, o texto de Margarete Buber-Neumann expõe uma ambiguidade, que lhe inverte o título: Die Kraft zu Überleben. O que estraçalha o destino de morte não é a força para sobreviver, é a força para viver. A ambiguidade dos relógios é a ambiguidade do tempo. Os primeiros, avariados, corporizam o tempo da morte iminente, em que cada minuto ganho é uma fuga, que se pode malograr no minuto seguinte. É o tempo do terror. Os segundos encarnam a invenção, a interrupção do novo, são o tempo pleno, o tempo da promessa – da promessa de uma vida livre.

 

                                                                                João Tiago Proença


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Carta de Bruxelas.

 

Irão: aguarda-se a qualquer momento a organização de uma flotilha humanitária, em alternativa uma caravana de camelos humanitários.

 

                                                                                       João Tiago Proença


domingo, 18 de janeiro de 2026

Carta de Bruxelas.




 






                                                                                Fotografias de João Tiago Proença





segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Carta de Bruxelas.

 





Outono


O Verão, diz o poeta, é a única estação. Depois da alegria ruidosa, exterior, objectiva, vem o tempo do recolhimento. Lá fora e lá para trás ficaram as aventuras movimentadas, os risos colectivos, as festas longas – e a promessa de mais no dia seguinte. Em casa, junto da família, sente-se o perfume quente e adocicado da compota ao lume, o conchego da lareira com o seu fogo antigo, a manta no sofá – talvez um bom livro para ler. O Porto velho substituiu a cerveja. Já chegaram as chuvas, que reflectem as luzes das lojas e dos automóveis, e chegaram também os vendedores de castanhas; é pena já não serem servidas nos cones feitos com as folhas das listas telefónicas. O frio faz-se sentir, tão agradável antes de se recolher ao lar, no contentamento discretamente sorridente de quem se cruza com as crianças pequenas que regressam da escola, ruidosas, ainda entusiasmadas como tudo o que começa. As ocasiões e os passeios pedem já outra roupa, que, pesada, sai ligeira dos armários; um encontro marcado no passado que se cumpre como esperado e com a satisfacção serena de uma surpresa não inteiramente surpreendente. E com o passar do tempo aproximam-se as férias e o Natal, os planos, as compras. É o Outono – de todos os lados chega o convite à traição. 


                                                                                João Tiago Proença




quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Carta de Bruxelas.

 








                                                     Fotografias de João Tiago Proença








domingo, 14 de setembro de 2025

Gajas despidas.

 


                                                                    Egon Schiele


A Escola de Belas Artes de Damasco, na Síria, acaba de proibir os modelos vivos nus para efeitos da formação artística dos estudantes. O nu e o despido: trata-se de uma distinção de créditos firmados na história da arte. O nu representa o corpo humano como problema. Nele condensa-se de forma insigne o antigo pensamento de que só o homem é o objecto da arte. E é na relação com ele que tudo o mais adquire significado artístico. Na representação do nu dá-se forma ao humano como objecto de si mesmo, e, nessa medida, o nu é desde logo sinal de liberdade. Ao contrário do despido, furta-se às categorias de vergonha e pudor, de sinal positivo, bem como às pudibundas e moralizantes, de sinal negativo. Nada esconde e nada censura. É antes um acto de evidência; aponta e diz : é assim. A relação do nu com o sexo é, por isso, uma relação necessária, dado que também ele faz parte da condição humana como tal. Não actua, contudo, como estímulo sexual directo; o facto de o poder fazer é um sintoma de malogro artístico por parte do criador ou de falta de educação sentimental, estética, do lado do receptor. Os casos de fronteira não invalidam a distinção, bem pelo contrário, provam-na. A necessidade de argumentar a favor de um ou do outro demonstra que se opera precisamente com base nos dois polos individualizados. Bem entendido, o nu não fica relegado a uma esfera de idealidade asséptica, não deixa de ter uma relação directa com o sexo, mas trata-se de uma relação de outra ordem. Ao despido sem referência ao nu incumbe-lhe despertar o instinto sexual natural, não codificado culturalmente, que por vezes é enaltecido como a verdade do sexo. É antes a sua incompreensão. Subjaz a esse tipo de interpretações uma consideração natural-objectivante que se guia sub-repticiamente pelo humano-subjectivo. A triste e cega cópula animal prova-o. As relações sexuais humanas, pelo contrário, estão sob a égide da negatividade, da recusa da imposição instintiva em que o fim natural é soberano. Nelas o trabalho, a reelaboração consciente do dado natural, torna-se um fim em si mesmo: transforma-se em jogo sempre repetido, sempre da capo, por que se faz conduzir pela alteridade inexaurível do outro.  O despido é também uma especificidade humana. É livre na medida em que decorre do nu – é esta a ordem, o specificum do humano. É isso que os fundamentalistas islâmicos não podem tolerar: que o despido seja uma afirmação do nu. Pois é nessa dobra que se funda a possibilidade da mulher – é dela e só dela que finalmente se trata – ser um sujeito sexual livre. E é também aí que se pode dar qualquer coisa como o respeito pelo pudor feminino. Ao interditar a aprendizagem da representação do nu, os talibãzinhos negam a aprendizagem da forma básica do respeito: a igualdade na diferença. Por essa razão não espanta que também queiram enfiar às mulheres burcas da cabeça aos pés; sejam elas impostas ou envergadas motu proprio, seja a servidão opressiva ou voluntária, o apagamento do feminino torna as relações sexuais predatórias, a imagem disforme do natural. Advinha-se sem dificuldade quem é o caçador e quem é a presa. E, no entanto, têm medo os selvagens pela simples razão de que na mulher nua só conseguem ver a gaja despida.


                                                                                        João Tiago Proença


terça-feira, 22 de julho de 2025

Carta de Bruxelas.

 







                                                                          Fotografias de João Tiago Proença





sexta-feira, 13 de junho de 2025

Carta de Bruxelas.

 









                
                    Fotografias de João Tiago Proença




segunda-feira, 19 de maio de 2025

Carta de Bruxelas.

 


Todos diferentes, todos iguais










Pode agora acrescentar-se o cartoon do Público


                                                                                João Tiago Proença


segunda-feira, 5 de maio de 2025

Carta de Bruxelas.

 










                                Fotografias de João Tiago Proença



sábado, 22 de março de 2025

Carta de Bruxelas.





                                                                A terra sobre os olhos



O historiador da arte Bernard Berenson nasceu Bernhard Valvrojenski, em Butrimonys, na Lituânia, numa família judia; tendo-se convertido ao cristianismo, foi episcopaliano quando a família emigrou Boston em 1875, e, em seguida, católico, quando já vivia em Itália, para onde se mudou depois de ter viajado na Europa em 1887, após a licenciatura. Berenson nunca deixou de se confrontar com a questão judaica; numa entrada do diário, de 2 de Setembro de 1953, deixou uma observação esperançosa. Via no poder nacional e no valor militar nele fundado uma carta de alforria, o caminho para a igualdade.

«Não serem objecto de desprezo» é do que os judeus precisam. Certamente, nenhum outro «povo» – quero dizer um grupo cuja coesão foi mantida por hábitos, usos, costumes, tradições, rituais – nenhum outro povo que chegou até aos nossos dias com uma história ininterrupta de uns bons três mil anos serviu tão bem a humanidade. Aos cristãos e aos maometanos deu-lhes a sua religião, nunca deixou de contribuir para o pensamento e a literatura, e, nos últimos 150 anos, nenhum outro povo esteve presente de modo tão criativo e tão fecundo em todos os aspectos da actividade humana, até na militar quando lhes foi permitido.  Que a maior parte dos não judeus sinta desprezo por eles, porém, não só os torna ressentidamente infelizes e servilmente ansiosos por serem bons burgueses, acatando as regras da média em todos os países, mas leva-os também a desprezarem-se a si mesmos até ao ponto de se suicidarem, como foi o caso de Weininger. A solução pode estar num Estado plus – um plus muito grande – a glória militar, o único valor que todos nós reconhecemos como supremo. Se os judeus criassem um Estado militar poderoso, desapareceria o desprezo de que são alvo.»

É uma concepção de uma época, de duas épocas atrás. Dos tempos em que os judeus ficavam à porta da sociedade, partilhando com outros grupos marginais e marginalizados a mesma condição de inferioridade. Apesar da emancipação civil e política, o ferrete das origens não desaprecia. Berenson vê no poder, entendendo que é antes de mais o poder de responder taco a taco, de armas na mão, armas iguais às dos agressores, a possibilidade de os judeus se constituírem como um povo em pé de igualdade com os outros povos. A derrota do nacional-socialismo seria o fim da discriminação; a fundação do Estado de Israel, soberano entre soberanos, a ratificação última da igualdade. E, no entanto, o nazismo não foi o derradeiro capítulo de uma história contínua, milenar de perseguição. Foi algo de novo. E essa novidade permaneceu. Na concepção nacional-socialista, a dualidade ariano-judeu constitui uma oposição insanável, que está para lá de todo e qualquer conflito político, são dois tipos absolutos e de igual poder. Para que um viva, o outro tem de morrer. Assim, o judeu foi guindado a uma posição insigne, negativamente insigne. Se no pós-guerra, um pós-guerra que começa uma década depois do fim das hostilidades (recorde-se as dificuldades de Isaac Schneersohn  para erigir um memorial do genocídio; inaugurado apenas em 1956, foi até ao início da década de 60 o único do mundo num espaço público), o judeu não é exactamente igual, isso deve-se ainda a ter sido alvo de todo o género de exacções e violências. O apoio da União Soviética a vários países do Médio Oriente assinalou o início do divórcio da opinião pública, por via esquerdina, é certo, mas não só por aí, relativamente a Israel. Paradoxalmente, foi ao mesmo tempo o início da entronização do estatuto que o nazismo atribuíra aos judeus. Os inimigos figadais de ontem geraram ambos o mesmo fruto e, nesta coincidentia oppositorum diabólica, os judeus tornaram-se a encarnação do mal absoluto e universal no mundo. O poder, em que tantos depositaram as esperanças da igualdade, revelou-se, numa desfiguração retroactiva, o elemento que apunha o selo definitivo no novo estado de coisas. Em grande medida, o 7 de Outubro de 2023 consumou o que veio à luz com o nacional-socialismo – foi a sua vitória. Por mais que custe dizê-lo. As meias tintas que vigoraram depois de 45 (mas também a Shoah, entendida quase sempre à luz da continuidade história) ficaram para trás, caracterizam uma época – hoje vista como indecisa pelo novo sentido que um novo acontecimento lhe impôs – que acabou por não ser um crédito adiantado, antes foi o início de uma dívida cuja cobrança coube por fim ao 7 de Outubro de 2023 e às suas repercussões. Pelo poder, a igualdade almejada retirou-se do mundo, e deixou cadáveres como a maré vazia deixa destroços numa praia. Cadáveres absolutos e universais de uma nova época.

 

                                                    João Tiago Proença


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Carta de Bruxelas.









                                                                    Fotografias de João Tiago Proença