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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Os recursos de um ser primitivo.

 

Fotografia de João Pina
 





Os recursos de um ser primitivo


        Li uma vez que os movimentos histéricos tendem a uma libertação por meio de um desses movimentos. A ignorância do movimento exato, que seria o libertador, torna o animal histérico, isto é, ele apela para o descontrole. E, durante o sábio descontrole, um dos movimentos sucede ser o libertador.
Isso me faz pensar nas vantagens de uma vida apenas primitiva, apenas emocional. A pessoa primitiva apela, como que histericamente, para tantos sentimentos contraditórios, que o sentimento libertador termina vindo à tona, apesar da ignorância da pessoa.  
 
Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo. Crónicas
 
 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

46750.

 
 
 
 
         O João Pina já andou muito. Pelas cadeias da ditadura portuguesa, pelos desaparecidos da Operação Condor e agora pelo Rio de Janeiro, favelado e violento. O produto do trabalho dos seus anos  cariocas está agora em livro, que pode – e deve! – comprar até 5 de Março (http://46750book.joao-pina.com/). Sim, é publicidade descarada, pois vale a pena. Sobre o Rio dos morros há um coffee table book interessante, colorido, apelativo, Inside the Favelas,  de Douglas Mayhew. O livro do João é diferente, muito diferente. Se me permitem, esmagadoramente diferente – e melhor.
 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Condor em Lisboa.

 
 





         Já aqui falei várias vezes, mas nunca é demais, do projecto e do livro de João Pina, Condor. O João, que é amigo, até me convidou para lhe apresentar em Lisboa o livro, o livro fantástico. Agora, no dia 20, o Condor chega de novo a Lisboa, que tem a honra e o privilégio de alojar temporária e localmente a exposição do João. A não perder. Nunca, por nada deste mundo – e do outro.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O tango do desaparecido.

 
 
Fotografia de João Pina, Buenos Aires (2004)


 
Já falei, entrevistei e mais o diabo a sete do João Pina. As pessoas ficam boquiabertas com o livro Condor mas nem sempre imaginam o que custa fazer aquilo. Pessoalmente, financeiramente, até fisicamente, é um trabalho épico. Ou julgam que é só chegar a um sítio, instalar-se num bom hotel, e fazer umas selfies na piscina com umas vítimas de Pinochet? O que não custa localizá-las, conversar com elas, saber o que sofreram, persuadi-las a darem testemunho…
         Por vezes há a ideia de que estes fotógrafos levam uma vida regalada e cosmopolita, que só o facto de aparecerem no NY Times, como o João apareceu, lhes dá passaporte para uma existência aventurosa – e remunerada à farta e à grande. Puro engano. Os jornais e as revistas internacionais estão a investir cada vez menos em trabalhos de grande fôlego, como os que faz o João Pina. O projecto Condor levou anos a pôr em prática. Hoje vemos o livro, folheamo-lo, e temo-lo para sempre, como homenagem às vítimas das ditaduras do Cone Sul. Parece fácil, não é. E, para piorar as coisas, o material deste ofício é caro, caríssimo. E, para piorar ainda mais o que já de si era muito mau, o João Pina acaba de ser assaltado nas ruas de Buenos Aires. Um assalto à mão armada, em plena luz do dia. Ficou sem as ferramentas que lhe permitiram fazer livros como Por Teu Livre Pensamento ou Condor. Para minorar o dano, o João Pina lançou uma acção de crowdfunding: http://robado.joao-pina.com/
Sim, somos amigos. E os amigos são para as ocasiões. Sobretudo ocasiões difíceis, como esta. Ocasiões como esta em que, num golpe de segundos, alguém se vê privado do que de essencial tem.
 
Robbed in Buenos Aires, é só clicar e contribuir.
 
António Araújo


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A jaula e a sala.

 
 
 
 
 
 
Podem ter a mesma força duas imagens, uma de um homem vestido de cor de laranja a arder dentro de uma jaula e outra, a preto e branco, de uma sala vazia meia em ruínas, com o sol a bater e a desenhar um quadrado no chão?
Antes de ontem, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante enjaulou e chegou fogo a um piloto jordano, para logo o soterrar num monte de pedras deixadas cair da pá de uma carregadora. Na Jordânia foi executada uma terrorista iraquiana que aparece amiúde fotografada também ela dentro de uma jaula. A execução da terrorista terá sido em retaliação à execução do piloto, e ambos terão estado prestes a ser trocados um pelo outro. Um acabou queimado, a outra enforcada. Olho por dente.
Voltando à jaula e ao fogo. É forte a imagem de alguém enjaulado, dentro de um cubo de grades, exposto, misto de leão, hamster e canário. Uma forma antiga de o poder exercer poder, desde a exibição dos condenados nas praças públicas medievais ao carniceiro de Rostov, o serial killer ucraniano que aparecia em tribunal dentro de uma jaula com esgares maléficos e uma camisa apalhaçada (foi executado em 1994 com um tiro atrás da orelha), às gaiolas nos corredores de certos tribunais norte-americanos enquanto os prisioneiros aguardam o julgamento. Recentemente, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem voltou a considerar desumana a prática ainda comum em alguns países de se julgarem os suspeitos dentro de jaulas metálicas.
Uma jaula é mais forte do que uma cela. A cela ainda é quarto, quarto com grades, mas quarto. Jaula não é nada, é jaula apenas. E quando é colocada em campo aberto, ao ar livre, permitindo a observação trezentos e sessenta, esmaga-se a humanidade do prisioneiro. Depois há o fogo. O fogo faz dos corpos ferretes da memória. O fogo das piras de Varanasi, das fogueiras do Terreiro do Paço, das estacas de Nagasáqui, dos monges budistas, e agora do jovem jordano. O homem vira rato enjaulado, o rato vira vaca em chamas.
 
João Pina, Condor
 
 
 
 
Ontem foi lançado em Lisboa o livro Condor, com fotografias do João Pina, um dos maiores fotógrafos mundiais, que por acaso é português. O João Pina tem a língua nos olhos e é através deles que nos fala do sofrimento e das aspirações dos outros, das favelas do Rio à Primavera Árabe, tem sido publicado e exposto em tudo o que é jornal e galeria importante. No Condor fala de sofrimento e aspirações, mas de outra forma. Durante dez anos, o João andou por aí, de máquina apontada, a investigar a Operação Condor, uma operação militar secreta que nos anos setenta, nas ditaduras de direita de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, terá varrido da terra mais de sessenta mil pessoas. No Condor João Pina não mostra pessoas enjauladas, nem labaredas a devorar corpos, nem cabeças cortadas à faca, nem electrocussões. Há caves ou salas vazias, há pessoas normais em pé no meio do campo, ou em cima de um muro. Há os locais da morte sem os mortos, as casas da tortura sem o sangue nem os gritos, mas sim com o sol a entrar, tudo tão tranquilo, apenas as paredes e os chãos, os pais, os filhos, os outros. Mas também os que escaparam, hoje mais velhos, de volta ao local do crime, para a fotografia. Há, como diz Baltasar Garzón no prefácio, "olhares tristes e de dor infinita". É mostrar sem mostrar, dizer sem falar. Pina já o tinha feito no impressionante Por Teu Livre Pensamento, sobre os presos políticos portugueses, porque estas coisas de prender e espancar estudantes não foi o Pinochet que inventou.
O que Pina consegue é fazer que uma sala vazia, onde se torturaram centenas ou milhares de homens e mulheres, não seja menos brutal do que um piloto jordano enjaulado em chamas. De certa maneira, as salas vazias de Pina, onde o sol bate, são mais fortes do que a jaula em fogo. Porque a jaula em fogo todos vemos, e não vamos esquecer, e podemos sempre rever e rever, em fotografia, em vídeo, ontem, hoje e amanhã. Mas a sala vazia, sem carrascos nem matracas, podia ter fugido por entre o tempo. Até que o Pina a apanhou, para sempre. Porque o mal que se esquece é sempre pior do que o mal que se lembra.
 
João Gama
 
(publicado no Diário de Notícias, e aqui no Malomil, com autorização do autor)
 
 
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Condor, no Rio.

 
 






















 
 
 
Há dias, a presidente Dilma Rousseff, entre lágrimas, divulgou o relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Criada em 2011, a Comissão concluiu agora o seu trabalho. Duas estatísticas bastam: o relatório identificou 377 responsáveis por crimes contra a humanidade e concluiu que 434 pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1986. Um outro número: quase 200 cadáveres estão por recuperar. Já falei várias vezes de Condor, um projecto fotográfico de João Pina. O autor até já foi entrevistado aqui no Malomil. Merece tudo, muito mais do que isso. Porquê? Porque Condor é, tão-só e apenas, o melhor livro publicado em Portugal em 2014. O projecto de resgatar a memória das vítimas da sinistra Operação Condor levou agora o João Pina ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, numa exposição grandiosa. Espera-se que haja o bom senso de a trazer até cá, rapidamente – e com o destaque que merece. Pode parecer provinciano ou nacionalista, mas é um orgulho grande, que bate cá bem fundo, ver um fotógrafo português, ademais nosso amigo, no lugar olímpico que é seu por inteira justiça: entre os melhores do mundo. João, um grande abraço, obrigado pelas fotos (estas e as outras) e Bom Natal para ti, do
 
António Araújo



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Condor.

 
 
 
 

 


         Aqui onde o vêem, é apenas o melhor livro publicado este ano em Portugal. Em Portugal, não. Além da edição portuguesa, Condor foi publicado em inglês e em castelhano. Será um estrondoso êxito, ninguém duvide. O autor já foi alvo da atenção do NY Times. E Condor resulta de um extraordinário projecto: recolher os testemunhos das vítimas – dos seus familiares – do sinistro plano militar secreto instituído em 1975 por seis ditaduras militares da América Latina. Pela primeira vez na História, segundo creio, um fotógrafo percorreu estes seis países, dando-nos um relato completo da tristemente célebre «Operação Condor». Sim, o João Pina faz-me o favor de ser meu amigo, mas não é isso que me ofusca a vista. O que confunde o olhar é o seu trabalho, este caminho feito  na Argentina, no Brasil, na Bolívia e no Chile, no Paraguai e Uruguai. Muitos quilómetros palmilhados para atingir um documento único, inquietante, pedagogicamente perturbador. Creio que ainda está apenas em pré-venda, mas reservem já o vosso exemplar (é que, para além do mais, vai ser um valioso objecto de colecção.) Para a canalha invejosa que ouse julgar que isto é publicidade feita ao livrinho de um amigo, diga-se que o João Pina não precisa disso nem de mim para nada. Mais: ainda nem se ouvia falar sequer de livro e já aqui no Malomil, além de apelar e saudar a futura edição da obra, tive o privilégio de entrevistar o João, precisamente a propósito deste seu voo de condor pelas cordilheiras agrestes da memória e da justiça.
 
 
António Araújo
 
 
 
 
 
 


domingo, 26 de janeiro de 2014

João Pina, a Sombra do Condor.










Já aqui falámos do trabalho de João Pina sobre a Operação Condor. Com entrevista e tudo. Agora, o nosso colega NY Times publica também uma entrevista com o João. Uma selecção de fotografias extraordinárias. A Sombra do Condor foi um projecto realizado durante meses, financiado através de crowdfunding: o fotógrafo não ganhou um cêntimo, mas pôde realizar o seu trabalho, o seu trabalho notável. Aos 33 anos de idade, com imenso labor e enorme talento, João Pina está à beirinha de entrar na galeria dos grandes nomes da fotografia mundial. Não duvidem. Vamos ouvir falar muito dele. O livro está na forja. Os editores portugueses que se apressem a propor-lhe a publicação da sua obra. Irá ser um dos livros mais marcantes da fotografia documental dos próximos anos. De que estão à espera?
 
 
António Araújo




quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pretérito imperfeito.

 

 

 

 




A Sombra do Condor: entrevista com João Pina





 

 
 
 
 
Ao fim de 7 anos de trabalho, João Pina concluiu o seu projecto sobre a Operação Condor. Um levantamento fotográfico dos vestígios de uma operação secreta levada a cabo pelas ditaduras da América Latina que, segundo algumas estimativas, fez 60.000 vítimas durante os três anos em que teve lugar, de 1975 a 1978.
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O resultado final de um périplo fotográfico pela Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Cuba, Paraguai, Estados Unidos e Uruguai será  um livro editado em 3 idiomas diferentes e uma exposição para levar o trabalho de volta aos países envolvidos.
 
 
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Um avião utilizado pelos militares argentinos para lançar oposicionistas de esquerda, vivos,
ao Mar da Prata e ao Atlântico serve agora como objecto publicitário
de uma loja de venda de materiais de construção nos arredores de Buenos Aires.

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P. -  Este projecto sobre a Operação Condor começou há alguns anos. Entre investigação e trabalho de campo, quantos ao certo? Como surgiu a ideia e como foi possível concretizar um projecto tão ambicioso, que envolveu tantos países?
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R. - A ideia surgiu em 2004/2005 enquanto terminava o meu primeiro livro «Por teu Livre Pensamento» sobre ex-presos políticos portugueses, e em que, ao mostrar a vários amigos estrangeiros o trabalho, este ficaram surpreendidos pelo tema e me perguntaram porque não continuaria o trabalho noutros países.  Comecei a investigar melhor a história da região e as ditaduras nos países do cone sul da América viveram dos anos 60 até meados dos anos 80, e foi quando me deparei com a existência da Operação Condor, que é ainda hoje algo muito pouco conhecido mesmo nos países que a viveram. 
Logisticamente, consegui fazer este trabalho graças aos anos em que vivi (e continuarei a viver) na região e que entre trabalhos de "encomenda" para jornais e revistas, podia passar algum tempo nos países em questão a investigar esta história. Finalmente nos últimos dois anos recorrendo a uma plataforma de "crowd-funding" chamada emphas.is pude juntar o dinheiro suficiente para me concentrar neste tema durante alguns meses no terreno e terminei de fotografar em Dezembro de 2012. 
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Casa de banho em Londres 38, um antigo centro de detenção e tortura
do tempo da ditadura de Pinochet, localizado na baixa da cidade de Santiago do Chile.


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P. - Antes de iniciares o trabalho fotográfico, tiveste naturalmente de te documentar, de conhecer o que foi a Operação Condor. Havendo ainda tanta coisa por revelar sobre essa operação, e informação que se conheceu apenas quando ias desenvolvendo a pesquisa, como conseguiste saber onde ir, com que pessoas falar, que arquivos consultar? Foste adaptando o trabalho à medida que ias sabendo mais sobre a Operação Condor?  
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R. - Desde o início a minha ideia não foi fotografar apenas casos do "Condor", mas analisar o que tinha acontecido na região não só durante os anos de 1975 e 1978 que foi quando o Condor esteve oficialmente activo, mas ir a montante e a jusante dessas datas para tentar entender como se tinham reunido as condições para que essa sinistra reunião em Santiago do Chile que deu início ao Condor em Novembro de 75 pudesse ter acontecido. 
Assim, primeiro dediquei-me a estudar e compreender as histórias individuais de cada uma das ditaduras, e depois tentar retratar os efeitos que essas ditaduras tiveram enquanto regimes nacionais e o que aconteceu depois da união dos recursos, e inevitável aumento exponencial da repressão política nos países envolvidos. No meio de tudo isso, ia entrevistando sobreviventes e familiares de desaparecidos que me iam ajudando a traçar o quadro. 
Muito revelador foi também uma entrevista que fiz no Brasil ao Coronel Curió, um coronel retirado do exército brasileiro, que participou directamente na repressão a uma guerrilha opositora brasileira,  e participou também em várias acções do Condor em países da região. Aí consegui compreender de uma forma menos académica  como estava armado o sistema e a forma de participação que houve de uns países noutros. 
A linha principal do trabalho Sobreviventes/Familiares/Lugares de desaparição, foi traçada desde o início; depois fui acrescentando novas situações que foram acontecendo enquanto eu pesquisava, como o início dos julgamentos contra militares na Argentina por crimes contra a humanidade, funerais de desaparecidos encontrados e identificados por equipas de antropologia forense, escavações para procura de desaparecidos na Amazónia brasileira. Todas estas situações continuam "vivas" e em movimento, e por isso continuo atento a elas e eventualmente poderei fotografar ainda mais um pouco. Assim como nos arquivos, uma pista leva a outra, um encontro leva a outro, e desse modo fui e vou descobrindo mais coisas sobre o tema. 
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Detida em Novembro de 1975, a argentina Mirta Clara esteve presa durante seis anos.
O marido foi executado na prisão. Foi torturada enquanto estava grávida do segundo filho, que ainda hoje sofre de distúrbios mentais. Libertada em 1983, vive e trabalha actualmente
em Buenos Aires, onde é advogada de direitos humanos e psicóloga.  
 
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P. - Em que países tiveste mais dificuldades ou deparaste com mais resistências?
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R. - Cada país tem as suas especificidades, e em nenhuma tive resistência ao trabalho que estava a fazer. Apenas algumas situações em que a própria história dos eventos não está bem resolvida dentro da sociedade e como tal tive que "escavar" um pouco mais para chegar onde queria. Mas, em geral, todas as pessoas foram muito abertas,  receberam-me e falaram do que passaram sem imporem limitações ao meu trabalho. Da parte dos Estados sim, institucionalmente existe alguma resistência em abrir estas histórias para investigações, pois foram crimes perpetrados pelo próprio Estado e com muitos dos actores ainda vivos e algumas vezes em posições de poder. Como tal, cada país gere essas resistências de forma diferente, e o interessante neste processo foi entender e tentar conseguir uma forma de poder aceder ao que eu queria dessas instituições sem que elas se assustassem pelo meu objecto de trabalho.
Pelo contrário, o que mais me surpreendeu foi a facilidade de acesso no Paraguai. Nesta última viagem em pouco mais de duas semanas, consegui entrar em prisões ainda em funcionamento, fotografar antigos centros clandestinos de tortura, fotografar arquivos fotográficos, entrevistar pessoas em lugares diferentes do país. Isto, em circunstâncias normais, demoraria vários meses a conseguir. Não estava à espera que o tema de direitos humanos estivesse tão aberto e institucionalizado e o apoio que houve ao meu trabalho foi muito grande, o que me facilitou muito a vida.
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Antigos militares argentinos escondem as suas caras na sessão de julgamento em que são acusados, pelo Estado argentino, da prática de crimes contra a Humanidade
perpetrados no período 1976-1983.


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 P. - Quer nos teus trabalhos sobre os presos político do Estado Novo ou sobre a Reforma Agrária,  quer neste sobre a Operação Condor, há uma linha de continuidade na tua obra, onde a memória ocupa um lugar central. Será correcto qualificar-te como um «fotógrafo da memória»? E nessa captura da memória há alguma intenção cívica, política ou ideológica?
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R. - Eu cresci numa família política e cheia de histórias do passado. Os meus avós maternos passaram muitos anos nas prisões do fascismo português, e nunca conheci o meu avô materno, por isso conheci-o, e continuo a conhecê-lo, pelo que me contavam dele. Para uma criança de 5-6 anos contarem-lhe que o avô que já morreu, esteve preso porque acreditava em ideias diferentes do regime em que vivia, que fugiu de Peniche pendurado numa corda feita de lençóis, e de Caxias num carro blindado que o Hitler tinha oferecido a Salazar, eram histórias maravilhosas e que superavam a maioria dos contos de crianças. 
Naturalmente desenvolvi uma curiosidade por estes temas, e mais tarde consegui entender a importância que essas memórias tinham na minha própria formação como indivíduo, e também que essas memórias criavam em mim uma inquietude que os meus amigos da mesma geração não tinham. Isso foi o que me fez, em primeiro lugar, ir atrás destas histórias e querer fotografar o que restava delas, para, por um lado, poder contribuir que estas não morram com quem as viveu e, ao mesmo tempo, para poder de alguma maneira acalmar a minha inquietude causada pelo facto das pessoas com quem falava nada sabiam do que tinha acontecido num Portugal tão próximo ao nosso presente. 
Dito isto, não acho que seja correcto qualificar-me como um "fotógrafo de memória". A memória é parte do meu trabalho, como o presente e o futuro também o são. Assim como fotografo o "passado", também gosto de cobrir histórias do presente como a Primavera Árabe, ou construir um documento sobre Cuba do ponto de vista do presente mas a pensar nas mudanças do futuro. Gosto de subverter essas dimensões do passado, presente e futuro, acho que isso seria a forma de me definir neste momento.
Existe naturalmente uma intenção cívica e política em todo o meu trabalho. Acredito que é importante dar voz a muitas pessoas que têm histórias extraordinárias e que estas não seriam conhecidas de forma natural. Seja no Afeganistão, na América do Sul ou em Portugal. Como te contei, venho de uma família política, mas não me imaginei nunca a fazer política no activo, por isso acho que a minha participação pode ser usar as minhas ideias para tentar aproximar o leitor de histórias reais. Ideologicamente não acho que tenha nenhuma intenção: em primeiro lugar, porque eu mesmo não me revejo em nenhuma das ideologias dominantes da actualidade, mas acho que a nossa participação cívica enriquece em muito as democracias onde vivemos, e, mesmo sendo um sistema longe de ser perfeito, a democracia é sem dúvida o sistema político em que acredito.
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Restos mortais de dois desaparecidos políticos, no laboratório da Equipa de Antropologia Forense da Argentina, com vista a serem estudados e, se possível, identificados.


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P. - Muitos fotógrafos procuram a memória histórica: Frank Schwere, Paula Luttringer, Peter Herbsein, Ivor Prickett, Pieter Hugo, Steven Laxton, Franziska Vu, Indre Serpytyte, Anna Shteynshleyger, Guillaume Herbaut, Taryn Simon, Ashley Gilbertson… a lista é grande. Mas, ao que sei, nenhum desenvolveu, num só projecto, um trabalho tão vasto e ambicioso como o teu. Conheces alguém que tenha tentado fazer um levantamento tão sistemático da Operação Condor?
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R. - É curioso mencionares tantos nomes, alguns que são uma grande inspiração e outros que nem conheço, e muitos mais poderiam ser mencionados. Sem dúvida nomes como o Gilles Peress, a Susan Meiselas e o Patrick Zackmann têm um papel muito preponderante naquilo que eu acredito que seja uma visão documentalista da História. Não conheço quem tenha abordado fotograficamente a temática do Condor, e menos ainda nos 6 países que a viveram. Esse foi um dos motivos pelos quais  decidi investir tanto tempo e tantos recursos para fazer este trabalho, pois não havia quem tivesse fotografado todas as ditaduras com uma linha apenas. 
Existem trabalhos fotográficos extraordinários sobre as ditaduras individualmente, sobretudo de fotógrafos da época que conseguiram ir fotografando as ditaduras a desenrolarem-se nos seus próprios países (como o Luis Navarro no Chile, o Aurelio Gonzales no Uruguai, entre outros), que, pelo facto destes fotógrafos não viverem nos países com capacidade económica para que a sua obra seja conhecida, nunca receberam o crédito pelo trabalho que foram desenvolvendo ao longo das suas vidas. 
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Detalhe das fichas de vários presos políticos estrangeiros, encontradas nos arquivos da polícia política nas imediações de Assunção, Paraguai, conhecidos como «arquivos do terror».


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P. - No entanto, e à semelhança do que em certa medida ocorreu na História, não há o risco de esta «fotografia da memória» se converter numa «moda»? E, sendo assim, pela sua efemeridade acabar, no final, por contrariar os seus propósitos cívicos?    
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R. - Não acho que a fotografia de memória seja a única forma de abordar estas temáticas, e seguramente que a História e o documentalismo não se devem servir apenas desta linguagem para contar o aconteceu. De forma a contrariar um pouco esta tendência, tenho tentado, seja com o recurso a imagens "reais" de arquivos, seja pela voz das pessoas que entrevisto, criar uma linguagem que não se prenda exclusivamente na fotografia do presente que remete para o passado. 
Mais do que a fotografia da memória (e o mesmo acontece com outros géneros de fotografia), os propósitos cívicos começam a ser contrariados quando os fotógrafos têm pretensões de serem celebridades eles mesmos. Isso é o que para mim vai corrompendo as ideias que muitos de nós defendemos e que nos levam a fazer este trabalho. 
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Marco Aurélio Guimarães, patologista forense,
transporta consigo o que aparentam ser os restos mortais de um guerrilheiro araguaia.

 

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P. - Aqui, como nos outros projectos, há um propósito documental ou pretendes ir além dele? Mas, se formos além do puro registo dos factos, não existe o risco de uma certa «estetização do sofrimento», a partir do reencontro com memórias pessoais tão dolorosas?
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R. - Em geral, tento não entrar em grandes discussões sobre semiótica, e o papel da fotografia. Considerando-me mais, para usar uma linguagem de época, um "operário fotográfico" do que um "intelectual fotográfico". Tenho naturalmente preocupações de não usar gratuitamente o sofrimento que as pessoas passam para com isso criar imagens, até porque vivemos numa altura em que a violência é tão presente que corremos o risco de  a banalizarmos  e de as pessoas que olham para as fotografias ficarem imunes a ela. Ao mesmo tempo, ao estarmos no terreno e vivermos uma ínfima parte de algumas dessas coisas, queremos naturalmente usar a fotografia como uma forma de denúncia. Isto, aliado ao facto da maioria das pessoas que fotografamos serem vítimas também elas à procura de uma explicação para o que lhes acontece, faz com que o desejo de denunciar seja um eixo comum quando se trabalham temas tão dolorosos. A minha preocupação com essa anestesia à violência preocupa-me mais do que a discussão à volta da estética do sofrimento.
Do que nos serviriam imagens cujo leitor a primeira coisa que faz ao olhar para elas seja desviar o olhar, por estarem mal compostas, serem demasiado gráficas, ou com problemas técnicos graves?  Essa estetização do sofrimento, não me incomoda. Pelo contrário, acho que uma imagem para ser eficaz tem de ser forte, tanto estética como tecnicamente. Seria como escrever uma crónica sobre uma guerra com erros de ortografia. A estética e a técnica são dois instrumentos que temos para criar imagens, e eu, como espectador, prefiro olhar para uma imagem da guerra na Síria que seja horrivelmente bela do que uma que não me crie nenhum impacto.
 
 
 
Entrevista de António Araújo