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terça-feira, 1 de dezembro de 2020
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
Os recursos de um ser primitivo.
Fotografia de João Pina
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Os
recursos de um ser primitivo
Li
uma vez que os movimentos histéricos tendem a uma libertação por meio de um
desses movimentos. A ignorância do movimento exato, que seria o libertador,
torna o animal histérico, isto é, ele apela para o descontrole. E, durante o
sábio descontrole, um dos movimentos sucede ser o libertador.
Isso
me faz pensar nas vantagens de uma vida apenas primitiva, apenas emocional. A
pessoa primitiva apela, como que histericamente, para tantos sentimentos
contraditórios, que o sentimento libertador termina vindo à tona, apesar da
ignorância da pessoa.
Clarice
Lispector, A Descoberta do Mundo.
Crónicas
quarta-feira, 20 de junho de 2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
46750.
O João Pina já andou muito. Pelas
cadeias da ditadura portuguesa, pelos desaparecidos da Operação Condor e agora
pelo Rio de Janeiro, favelado e violento. O produto do trabalho dos seus anos cariocas está agora em livro, que pode – e deve!
– comprar até 5 de Março (http://46750book.joao-pina.com/). Sim, é publicidade descarada, pois vale a pena. Sobre
o Rio dos morros há um coffee table book interessante, colorido, apelativo,
Inside the Favelas, de Douglas Mayhew. O
livro do João é diferente, muito diferente. Se me permitem, esmagadoramente
diferente – e melhor.
quinta-feira, 13 de abril de 2017
Condor em Lisboa.
Já aqui falei várias vezes, mas nunca é
demais, do projecto e do livro de João Pina,
Condor. O João, que é amigo, até me convidou para lhe apresentar em Lisboa
o livro, o livro fantástico. Agora, no dia 20, o Condor chega de novo a Lisboa, que tem a
honra e o privilégio de alojar temporária e localmente a exposição do João. A
não perder. Nunca, por nada deste mundo – e do outro.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
O tango do desaparecido.
Fotografia de João Pina, Buenos Aires (2004)
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Já
falei, entrevistei e mais o diabo a sete do João Pina. As pessoas ficam boquiabertas
com o livro Condor mas nem sempre
imaginam o que custa fazer aquilo. Pessoalmente, financeiramente, até
fisicamente, é um trabalho épico. Ou julgam que é só chegar a um sítio,
instalar-se num bom hotel, e fazer umas selfies
na piscina com umas vítimas de Pinochet? O que não custa localizá-las,
conversar com elas, saber o que sofreram, persuadi-las a darem testemunho…
Por vezes há a ideia de que estes
fotógrafos levam uma vida regalada e cosmopolita, que só o facto de aparecerem
no NY Times, como o João apareceu,
lhes dá passaporte para uma existência aventurosa – e remunerada à farta e à grande.
Puro engano. Os jornais e as revistas internacionais estão a investir cada vez menos em trabalhos de grande
fôlego, como os que faz o João Pina. O projecto Condor levou anos a pôr em prática. Hoje vemos o livro,
folheamo-lo, e temo-lo para sempre, como homenagem às vítimas das ditaduras do
Cone Sul. Parece fácil, não é. E, para piorar as coisas, o material deste
ofício é caro, caríssimo. E, para piorar ainda mais o que já de si era muito mau, o
João Pina acaba de ser assaltado nas ruas de Buenos Aires. Um assalto à mão armada, em plena luz do dia. Ficou sem as
ferramentas que lhe permitiram fazer livros como Por Teu Livre Pensamento ou Condor.
Para minorar o dano, o João Pina lançou uma acção de crowdfunding: http://robado.joao-pina.com/
Sim,
somos amigos. E os amigos são para as ocasiões. Sobretudo ocasiões difíceis, como esta.
Ocasiões como esta em que, num golpe de segundos, alguém se vê privado do que
de essencial tem.
Robbed in Buenos Aires,
é só clicar e contribuir.
António Araújo
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
A jaula e a sala.
Podem ter a mesma força duas
imagens, uma de um homem vestido de cor de laranja a arder dentro de uma jaula
e outra, a preto e branco, de uma sala vazia meia em ruínas, com o sol a bater
e a desenhar um quadrado no chão?
Antes de ontem, o Estado Islâmico do
Iraque e do Levante enjaulou e chegou fogo a um piloto jordano, para logo o
soterrar num monte de pedras deixadas cair da pá de uma carregadora. Na
Jordânia foi executada uma terrorista iraquiana que aparece amiúde fotografada
também ela dentro de uma jaula. A execução da terrorista terá sido em
retaliação à execução do piloto, e ambos terão estado prestes a ser trocados um
pelo outro. Um acabou queimado, a outra enforcada. Olho por dente.
Voltando à jaula e ao fogo. É forte
a imagem de alguém enjaulado, dentro de um cubo de grades, exposto, misto de
leão, hamster e canário. Uma forma antiga de o poder exercer poder, desde a
exibição dos condenados nas praças públicas medievais ao carniceiro de Rostov,
o serial killer ucraniano que aparecia em tribunal dentro de uma jaula com
esgares maléficos e uma camisa apalhaçada (foi executado em 1994 com um tiro
atrás da orelha), às gaiolas nos corredores de certos tribunais
norte-americanos enquanto os prisioneiros aguardam o julgamento. Recentemente,
o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem voltou a considerar desumana a prática
ainda comum em alguns países de se julgarem os suspeitos dentro de jaulas
metálicas.
Uma jaula é mais forte do que uma
cela. A cela ainda é quarto, quarto com grades, mas quarto. Jaula não é nada, é
jaula apenas. E quando é colocada em campo aberto, ao ar livre, permitindo a
observação trezentos e sessenta, esmaga-se a humanidade do prisioneiro. Depois
há o fogo. O fogo faz dos corpos ferretes da memória. O fogo das piras de
Varanasi, das fogueiras do Terreiro do Paço, das estacas de Nagasáqui, dos
monges budistas, e agora do jovem jordano. O homem vira rato enjaulado, o rato
vira vaca em chamas.
Ontem foi lançado em Lisboa o livro Condor, com fotografias do João Pina, um
dos maiores fotógrafos mundiais, que por acaso é português. O João Pina tem a
língua nos olhos e é através deles que nos fala do sofrimento e das aspirações
dos outros, das favelas do Rio à Primavera Árabe, tem sido publicado e exposto
em tudo o que é jornal e galeria importante. No Condor fala de sofrimento e aspirações, mas de outra forma. Durante
dez anos, o João andou por aí, de máquina apontada, a investigar a Operação
Condor, uma operação militar secreta que nos anos setenta, nas ditaduras de
direita de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, terá varrido
da terra mais de sessenta mil pessoas. No Condor João Pina não mostra pessoas
enjauladas, nem labaredas a devorar corpos, nem cabeças cortadas à faca, nem
electrocussões. Há caves ou salas vazias, há pessoas normais em pé no meio do
campo, ou em cima de um muro. Há os locais da morte sem os mortos, as casas da
tortura sem o sangue nem os gritos, mas sim com o sol a entrar, tudo tão
tranquilo, apenas as paredes e os chãos, os pais, os filhos, os outros. Mas
também os que escaparam, hoje mais velhos, de volta ao local do crime, para a
fotografia. Há, como diz Baltasar Garzón no prefácio, "olhares tristes e
de dor infinita". É mostrar sem mostrar, dizer sem falar. Pina já o tinha
feito no impressionante Por Teu Livre
Pensamento, sobre os presos políticos portugueses, porque estas coisas de
prender e espancar estudantes não foi o Pinochet que inventou.
O que Pina consegue é fazer que uma
sala vazia, onde se torturaram centenas ou milhares de homens e mulheres, não
seja menos brutal do que um piloto jordano enjaulado em chamas. De certa
maneira, as salas vazias de Pina, onde o sol bate, são mais fortes do que a
jaula em fogo. Porque a jaula em fogo todos vemos, e não vamos esquecer, e
podemos sempre rever e rever, em fotografia, em vídeo, ontem, hoje e amanhã.
Mas a sala vazia, sem carrascos nem matracas, podia ter fugido por entre o
tempo. Até que o Pina a apanhou, para sempre. Porque o mal que se esquece é
sempre pior do que o mal que se lembra.
João Gama
(publicado
no Diário de Notícias, e aqui no Malomil, com autorização do autor)
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Condor, no Rio.
Há
dias, a presidente Dilma Rousseff, entre lágrimas, divulgou o relatório final
da Comissão Nacional da Verdade. Criada em 2011, a Comissão concluiu agora o
seu trabalho. Duas estatísticas bastam: o relatório identificou 377
responsáveis por crimes contra a humanidade e concluiu que 434 pessoas morreram
ou desapareceram durante a ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1986. Um
outro número: quase 200 cadáveres estão por recuperar. Já falei várias
vezes de Condor, um projecto
fotográfico de João Pina. O autor até já foi entrevistado aqui no Malomil.
Merece tudo, muito mais do que isso. Porquê? Porque Condor é, tão-só e apenas, o
melhor livro publicado em Portugal em 2014. O projecto de resgatar a
memória das vítimas da sinistra Operação Condor levou agora o João Pina ao
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, numa exposição grandiosa. Espera-se
que haja o bom senso de a trazer até cá, rapidamente – e com o destaque que
merece. Pode parecer provinciano ou nacionalista, mas é um orgulho grande, que
bate cá bem fundo, ver um fotógrafo português, ademais nosso amigo, no lugar olímpico que é seu por inteira
justiça: entre os melhores do mundo. João, um grande abraço, obrigado pelas
fotos (estas e as outras) e Bom Natal para ti, do
António Araújo
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terça-feira, 12 de agosto de 2014
Condor.
Aqui onde o vêem, é apenas o melhor livro publicado este ano em Portugal. Em Portugal, não. Além da edição portuguesa, Condor foi publicado em inglês e
em castelhano. Será um estrondoso êxito, ninguém duvide. O autor já foi alvo da atenção do NY Times. E Condor resulta de um extraordinário
projecto: recolher os testemunhos das vítimas – dos seus familiares – do
sinistro plano militar secreto instituído em 1975 por seis ditaduras
militares da América Latina. Pela primeira vez na História, segundo creio, um fotógrafo percorreu
estes seis países, dando-nos um relato completo da tristemente célebre
«Operação Condor». Sim, o João Pina faz-me o favor de ser meu amigo, mas não é
isso que me ofusca a vista. O que confunde o olhar é o seu trabalho, este caminho
feito na Argentina, no Brasil, na Bolívia e no Chile, no Paraguai e Uruguai. Muitos
quilómetros palmilhados para atingir um documento único, inquietante, pedagogicamente perturbador. Creio que ainda está apenas em pré-venda,
mas reservem já o vosso exemplar (é que, para além do mais, vai ser um valioso
objecto de colecção.) Para a canalha invejosa que ouse julgar que isto é publicidade
feita ao livrinho de um amigo, diga-se que o João Pina não precisa disso nem de mim para nada. Mais: ainda nem se ouvia falar sequer de livro
e já aqui no Malomil, além de apelar e saudar a futura edição da obra, tive o privilégio de entrevistar o João, precisamente a
propósito deste seu voo de condor pelas cordilheiras agrestes da memória e da justiça.
António Araújo
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domingo, 4 de maio de 2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
João Pina, a Sombra do Condor.
Já
aqui falámos do trabalho de João Pina sobre a Operação Condor. Com entrevista e tudo. Agora, o nosso colega NY Times publica também uma entrevista com o João.
Uma selecção de fotografias extraordinárias. A Sombra do Condor foi um projecto realizado durante meses, financiado através de crowdfunding: o fotógrafo não ganhou um cêntimo, mas pôde realizar o seu trabalho, o seu trabalho notável. Aos 33 anos de idade, com imenso labor e enorme talento, João Pina está à beirinha de entrar na galeria dos grandes nomes
da fotografia mundial. Não duvidem. Vamos ouvir falar muito dele. O livro está na forja. Os editores
portugueses que se apressem a propor-lhe a publicação da sua obra. Irá ser um dos livros mais marcantes da fotografia documental
dos próximos anos. De que estão à espera?
António Araújo
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Pretérito imperfeito.
A Sombra do Condor: entrevista com João Pina
Ao fim de 7 anos de trabalho, João Pina concluiu o seu projecto sobre a Operação Condor. Um levantamento
fotográfico dos vestígios de uma operação secreta levada a
cabo pelas ditaduras da América Latina que, segundo algumas estimativas,
fez 60.000 vítimas durante os três anos em que teve lugar, de 1975 a 1978.
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O resultado final de um périplo fotográfico pela Argentina,
Brasil, Bolívia, Chile, Cuba, Paraguai, Estados Unidos e Uruguai
será um livro editado em 3 idiomas diferentes e uma exposição para levar
o trabalho de volta aos países envolvidos.
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P. - Este projecto sobre a Operação
Condor começou há alguns anos. Entre investigação e trabalho de campo,
quantos ao certo? Como surgiu a ideia e como foi possível concretizar um
projecto tão ambicioso, que envolveu tantos países?
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R. - A ideia
surgiu em 2004/2005 enquanto terminava o meu primeiro livro «Por teu Livre
Pensamento» sobre ex-presos políticos portugueses, e em que, ao mostrar a
vários amigos estrangeiros o trabalho, este ficaram surpreendidos pelo tema e me
perguntaram porque não continuaria o trabalho noutros países. Comecei a
investigar melhor a história da região e as ditaduras nos países do cone sul da
América viveram dos anos 60 até meados dos anos 80, e foi quando me deparei com
a existência da Operação Condor, que é ainda hoje algo muito pouco conhecido
mesmo nos países que a viveram.
Logisticamente, consegui fazer este trabalho graças
aos anos em que vivi (e continuarei a viver) na região e que entre trabalhos de
"encomenda" para jornais e revistas, podia passar algum tempo nos
países em questão a investigar esta história. Finalmente nos últimos dois anos
recorrendo a uma plataforma de "crowd-funding" chamada emphas.is pude juntar o
dinheiro suficiente para me concentrar neste tema durante alguns meses no
terreno e terminei de fotografar em Dezembro de 2012.
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P. - Antes de iniciares o trabalho fotográfico, tiveste naturalmente de te
documentar, de conhecer o que foi a Operação Condor. Havendo ainda tanta coisa
por revelar sobre essa operação, e informação que se conheceu apenas
quando ias desenvolvendo a pesquisa, como conseguiste saber onde ir, com que
pessoas falar, que arquivos consultar? Foste adaptando o trabalho à medida que
ias sabendo mais sobre a Operação Condor?
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R. - Desde o início a minha ideia não foi fotografar apenas
casos do "Condor", mas analisar o que tinha acontecido na região não
só durante os anos de 1975 e 1978 que foi quando o Condor esteve oficialmente
activo, mas ir a montante e a jusante dessas datas para tentar entender como se
tinham reunido as condições para que essa sinistra reunião em Santiago do Chile
que deu início ao Condor em Novembro de 75 pudesse ter acontecido.
Assim, primeiro dediquei-me a estudar e compreender as
histórias individuais de cada uma das ditaduras, e depois tentar retratar os
efeitos que essas ditaduras tiveram enquanto regimes nacionais e o que
aconteceu depois da união dos recursos, e inevitável aumento exponencial da
repressão política nos países envolvidos. No meio de tudo isso, ia
entrevistando sobreviventes e familiares de desaparecidos que me iam ajudando a
traçar o quadro.
Muito revelador foi também uma entrevista que fiz no
Brasil ao Coronel Curió, um coronel retirado do exército brasileiro, que
participou directamente na repressão a uma guerrilha opositora brasileira,
e participou também em várias acções do Condor em países da região. Aí consegui
compreender de uma forma menos académica como estava armado o sistema e a
forma de participação que houve de uns países noutros.
A linha principal do trabalho
Sobreviventes/Familiares/Lugares de desaparição, foi traçada desde o início;
depois fui acrescentando novas situações que foram acontecendo enquanto eu
pesquisava, como o início dos julgamentos contra militares na Argentina por
crimes contra a humanidade, funerais de desaparecidos encontrados e
identificados por equipas de antropologia forense, escavações para procura de
desaparecidos na Amazónia brasileira. Todas estas situações continuam
"vivas" e em movimento, e por isso continuo atento a elas e
eventualmente poderei fotografar ainda mais um pouco. Assim como nos arquivos,
uma pista leva a outra, um encontro leva a outro, e desse modo fui e vou descobrindo
mais coisas sobre o tema.
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P. - Em que países tiveste mais dificuldades ou deparaste com mais
resistências?
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R. - Cada país tem as suas especificidades, e em nenhuma
tive resistência ao trabalho que estava a fazer. Apenas algumas situações em
que a própria história dos eventos não está bem resolvida dentro da sociedade e
como tal tive que "escavar" um pouco mais para chegar onde queria.
Mas, em geral, todas as pessoas foram muito abertas, receberam-me e falaram do
que passaram sem imporem limitações ao meu trabalho. Da parte dos Estados sim,
institucionalmente existe alguma resistência em abrir estas histórias para
investigações, pois foram crimes perpetrados pelo próprio Estado e com muitos
dos actores ainda vivos e algumas vezes em posições de poder. Como tal, cada
país gere essas resistências de forma diferente, e o interessante neste
processo foi entender e tentar conseguir uma forma de poder aceder ao que eu
queria dessas instituições sem que elas se assustassem pelo meu objecto de
trabalho.
Pelo contrário, o que mais me surpreendeu foi a
facilidade de acesso no Paraguai. Nesta última viagem em pouco mais de duas
semanas, consegui entrar em prisões ainda em funcionamento, fotografar antigos
centros clandestinos de tortura, fotografar arquivos fotográficos, entrevistar
pessoas em lugares diferentes do país. Isto, em circunstâncias normais, demoraria
vários meses a conseguir. Não estava à espera que o tema de direitos
humanos estivesse tão aberto e institucionalizado e o apoio que houve ao meu
trabalho foi muito grande, o que me facilitou muito a vida.
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Antigos militares argentinos escondem as suas caras na sessão de julgamento em que são acusados, pelo Estado argentino, da prática de crimes contra a Humanidade
perpetrados no período 1976-1983.
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P. - Quer nos teus trabalhos sobre os presos político do Estado Novo ou
sobre a Reforma Agrária, quer neste sobre a Operação Condor, há uma
linha de continuidade na tua obra, onde a memória ocupa um lugar central.
Será correcto qualificar-te como um «fotógrafo da memória»? E nessa captura
da memória há alguma intenção cívica, política ou ideológica?
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R. - Eu cresci numa família política e cheia de histórias
do passado. Os meus avós maternos passaram muitos anos nas prisões do fascismo
português, e nunca conheci o meu avô materno, por isso conheci-o, e continuo a
conhecê-lo, pelo que me contavam dele. Para uma criança de 5-6 anos
contarem-lhe que o avô que já morreu, esteve preso porque acreditava em ideias
diferentes do regime em que vivia, que fugiu de Peniche pendurado numa corda
feita de lençóis, e de Caxias num carro blindado que o Hitler tinha oferecido a
Salazar, eram histórias maravilhosas e que superavam a maioria dos contos de
crianças.
Naturalmente desenvolvi uma curiosidade por estes
temas, e mais tarde consegui entender a importância que essas memórias tinham
na minha própria formação como indivíduo, e também que essas memórias criavam
em mim uma inquietude que os meus amigos da mesma geração não tinham. Isso foi
o que me fez, em primeiro lugar, ir atrás destas histórias e querer fotografar o
que restava delas, para, por um lado, poder contribuir que estas não morram com
quem as viveu e, ao mesmo tempo, para poder de alguma maneira acalmar a minha
inquietude causada pelo facto das pessoas com quem falava nada sabiam do que
tinha acontecido num Portugal tão próximo ao nosso presente.
Dito isto, não acho que seja correcto qualificar-me
como um "fotógrafo de memória". A memória é parte do meu trabalho,
como o presente e o futuro também o são. Assim como fotografo o
"passado", também gosto de cobrir histórias do presente como a
Primavera Árabe, ou construir um documento sobre Cuba do ponto de vista do
presente mas a pensar nas mudanças do futuro. Gosto de subverter essas
dimensões do passado, presente e futuro, acho que isso seria a forma de me
definir neste momento.
Existe naturalmente uma intenção cívica e política em
todo o meu trabalho. Acredito que é importante dar voz a muitas pessoas que têm
histórias extraordinárias e que estas não seriam conhecidas de forma natural.
Seja no Afeganistão, na América do Sul ou em Portugal. Como te contei, venho
de uma família política, mas não me imaginei nunca a fazer política no activo,
por isso acho que a minha participação pode ser usar as minhas ideias para
tentar aproximar o leitor de histórias reais. Ideologicamente não acho que
tenha nenhuma intenção: em primeiro lugar, porque eu mesmo não me revejo em
nenhuma das ideologias dominantes da actualidade, mas acho que a nossa
participação cívica enriquece em muito as democracias onde vivemos, e, mesmo
sendo um sistema longe de ser perfeito, a democracia é sem dúvida o sistema
político em que acredito.
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Restos mortais de dois desaparecidos políticos, no laboratório da Equipa de Antropologia Forense da Argentina, com vista a serem estudados e, se possível, identificados.
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P. - Muitos fotógrafos procuram a memória histórica: Frank Schwere, Paula
Luttringer, Peter Herbsein, Ivor Prickett, Pieter Hugo, Steven Laxton,
Franziska Vu, Indre Serpytyte, Anna Shteynshleyger, Guillaume Herbaut, Taryn
Simon, Ashley Gilbertson… a lista é grande. Mas, ao que sei, nenhum
desenvolveu, num só projecto, um trabalho tão vasto e ambicioso como o teu. Conheces
alguém que tenha tentado fazer um levantamento tão sistemático da Operação
Condor?
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R. - É curioso mencionares tantos nomes, alguns que são uma
grande inspiração e outros que nem conheço, e muitos mais poderiam ser
mencionados. Sem dúvida nomes como o Gilles Peress, a Susan Meiselas e o
Patrick Zackmann têm um papel muito preponderante naquilo que eu acredito que
seja uma visão documentalista da História. Não conheço quem tenha abordado
fotograficamente a temática do Condor, e menos ainda nos 6 países que a
viveram. Esse foi um dos motivos pelos quais decidi investir tanto tempo e
tantos recursos para fazer este trabalho, pois não havia quem tivesse fotografado
todas as ditaduras com uma linha apenas.
Existem trabalhos fotográficos extraordinários sobre
as ditaduras individualmente, sobretudo de fotógrafos da época que conseguiram
ir fotografando as ditaduras a desenrolarem-se nos seus próprios países (como o
Luis Navarro no Chile, o Aurelio Gonzales no Uruguai, entre outros), que, pelo
facto destes fotógrafos não viverem nos países com capacidade económica para
que a sua obra seja conhecida, nunca receberam o crédito pelo trabalho que foram
desenvolvendo ao longo das suas vidas.
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Detalhe das fichas de vários presos políticos estrangeiros, encontradas nos arquivos da polícia política nas imediações de Assunção, Paraguai, conhecidos como «arquivos do terror».
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P. - No entanto, e à semelhança do que em certa
medida ocorreu na História, não há o risco de esta «fotografia da memória» se
converter numa «moda»? E, sendo assim, pela sua efemeridade acabar, no final,
por contrariar os seus propósitos cívicos?
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R. - Não acho que a fotografia de memória seja a única
forma de abordar estas temáticas, e seguramente que a História e o
documentalismo não se devem servir apenas desta linguagem para contar o
aconteceu. De forma a contrariar um pouco esta tendência, tenho tentado, seja
com o recurso a imagens "reais" de arquivos, seja pela voz das
pessoas que entrevisto, criar uma linguagem que não se prenda exclusivamente na
fotografia do presente que remete para o passado.
Mais do que a fotografia da memória (e o mesmo acontece
com outros géneros de fotografia), os propósitos cívicos começam a ser
contrariados quando os fotógrafos têm pretensões de serem celebridades eles
mesmos. Isso é o que para mim vai corrompendo as ideias que muitos de nós
defendemos e que nos levam a fazer este trabalho.
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Marco Aurélio Guimarães, patologista forense,
transporta consigo o que aparentam ser os restos mortais de um guerrilheiro araguaia.
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P. - Aqui, como nos outros projectos, há um propósito documental ou pretendes
ir além dele? Mas, se formos além do puro registo dos factos, não existe o
risco de uma certa «estetização do sofrimento», a partir do reencontro com
memórias pessoais tão dolorosas?
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R. - Em geral, tento não entrar em grandes discussões
sobre semiótica, e o papel da fotografia. Considerando-me mais, para usar uma
linguagem de época, um "operário fotográfico" do que um
"intelectual fotográfico". Tenho naturalmente preocupações de não
usar gratuitamente o sofrimento que as pessoas passam para com isso criar
imagens, até porque vivemos numa altura em que a violência é tão presente que
corremos o risco de a banalizarmos e de as pessoas que olham para as fotografias
ficarem imunes a ela. Ao mesmo tempo, ao estarmos no terreno e vivermos uma ínfima
parte de algumas dessas coisas, queremos naturalmente usar a fotografia
como uma forma de denúncia. Isto, aliado ao facto da maioria das pessoas que
fotografamos serem vítimas também elas à procura de uma explicação para o que
lhes acontece, faz com que o desejo de denunciar seja um eixo comum quando se
trabalham temas tão dolorosos. A minha preocupação com essa anestesia à
violência preocupa-me mais do que a discussão à volta da estética do
sofrimento.
Do que nos
serviriam imagens cujo leitor a primeira coisa que faz ao olhar para elas seja
desviar o olhar, por estarem mal compostas, serem demasiado gráficas, ou com
problemas técnicos graves? Essa estetização do sofrimento, não me
incomoda. Pelo contrário, acho que uma imagem para ser eficaz tem de ser forte,
tanto estética como tecnicamente. Seria como escrever uma crónica sobre uma guerra
com erros de ortografia. A estética e a técnica são dois instrumentos que temos
para criar imagens, e eu, como espectador, prefiro olhar para uma imagem da
guerra na Síria que seja horrivelmente bela do que uma que não me crie nenhum
impacto.
Entrevista de António Araújo
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