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domingo, 16 de fevereiro de 2020

Plantas Tristes.

 



Falo disto à vontade aqui, porque o António decidiu contar tudo. E fez bem, neste tempo em que se discute revelar todas as ligações secretas, as mais e as menos organizadas, mais vale dar o exemplo. E o António Araújo fê-lo naquele que é simultaneamente o melhor blogue do mundo, mas também de Portugal, o Malomil. Caía o pano do ano – e que ano – quando o António, no trinta e um, procedeu a este outing botânico e contou ao mundo do Plantas.
O Plantas é o nome curto do Plantas Tristes, e o Plantas Tristes, criado em 20 de outubro de 2017, e com sete pessoas, é um grupo de WhatsApp. Um grupo de WhatsApp, nem mais nem menos. E o que é o Plantas? É um grupo onde adultos partilham consensualmente fotografias de plantas tristes. E o que são plantas tristes? Recorro aqui às palavras do António, que é uma pessoa boa, de palavra, além de colaborador deste Diário: "E o que são plantas tristes? – perguntais bem. Difícil explicar, é preciso sentir o conceito. Talvez por exemplos: plantas que jazem sozinhas nas entradas dos prédios, em terra árida e pouco regada, amiúde urinada, e resmas de beatas. Ou plantas solitárias entorpecidas em escritórios, que nascem e morrem sem conhecer outras plantas e, por isso, são incapazes, coitadinhas, de alegrar um ambiente de trabalho.
Plantas Tristes, em síntese apertada, é uma espécie de escravatura botânica, não sendo necessário, creio, acrescentar mais nada. Ora, tudo isso é triste, muito triste, como decerto compreendereis, corações bondosos." É isto mesmo, são plantas de hall de prédio, junto aos molhos de panfletos do Aldi, cuidadas por uma porteira ou vizinha de mãos verdes, quietas como tartarugas num aquário, ou plantas nos escritórios, nas salas de espera, nos corredores, nas entradas e nas saídas. E sim, é isso que fazem estes sete adultos, passam numa rua à porta de um prédio e lá dentro jaz uma planta, saca-se do telemóvel e sem edição, pumba, entra no Plantas. É uma espécie de adição e ninguém do grupo espera que ninguém fora do grupo compreenda, aceite ou sequer ache normal. Então porque escrever sobre o Plantas nas páginas do Diário de Notícias. Tem tudo que ver com o Trump, já lá chego.
A definição do António, que exemplifica (e portanto em rigor não é uma definição, mas eu é que lhe chamei definição) com plantas em halls e escritórios, esquece uma categoria importante de plantas tristes, talvez menos triste do que as outras (esta opinião é estritamente pessoal e não vincula o grupo) – são as plantas tristes em edifícios públicos. Por mais parteira que seja a porteira, por mais jardineira que seja a gente da manutenção do banco a tratar da planta da entrada, nenhuma planta é tão bem tratada como a que jaz em edifício público, repartição, direção-geral, gabinete de estudos, instituto de sigla com muitas letras, a última delas um p; plantas na entrada, nos corredores burocráticos em que não se corre e pouco ocorre, pautados por secretárias de pau-santo protegidos por senhoras santas, calendários, pirilampos mágicos em fila num monitor, plantas envasadas a ladear portas para salas onde pouca gente entra, plantas em nichos e recantos.
Mas são as menos tristes estas plantas, porque no público há mais carinho, mais tempo, um futuro certo, um amanhã infinito. São plantas feias como as outras, sobreviventes às sombras mais sombrias, aos dias mais pardos, plantas que habituadas a serem plantas de passagem, em que ninguém para nem repara, que nunca ninguém elogiou, plantas que quem mais olhou para elas depois da cuidadora informal foi um grupo de sete estranhos no WhatsApp, mas são plantas resolvidas, plantas do Estado-que-cuida.
E o que me preocupa, agora que me resta tão pouco espaço e por isso tenho de voltar ao tema, é que Trump assinou um decreto com o sugestivo nome "Making Federal Buildings Beautiful Again" com o objetivo de que os edifícios federais deixem de andar ao sabor dos arquitetos e que correspondam ao gosto clássico (?) do povo, no fundo menos edifícios do FBI, mais Casas Brancas. E, nisto, como ficam as plantas? O novo plano promove ou demove as plantas? É que pela América, em Washington, em Nova Iorque, não faltam plantas tristes à procura de serem felizes. O que pensará Trump sobre isto? Quer acabar com o brutalismo, com o cimento, com os volumes – quererá exterminar as plantas ou enxamear de plantas?
E se o leitor ficou curioso, lamento informar mas o grupo é muito seleto, não aceitamos casais nem no fundo queremos muito mais gente. Mas se achar que é um bom candidato a descobrir a tristeza escondida das plantas, já sabe, resposta a este jornal.
 
João Taborda da Gama
(in Diário de Notícias, de 15/02/2020)
 

 

 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A seringa.


 
 
 
Foi uma seringa a primeira coisa que mudou a minha vida. Não foi heroína nem insulina, mas os efeitos foram os mesmos. Devia ter 10 anos e devia ser um sábado de manhã e os vizinhos do sexto levaram-me com eles à Feira da Ladra. A minha mãe deu-me vinte escudos, dez cêntimos em euros. Não sei para que era o dinheiro. Ou até sei, o dinheiro era sempre para se comêssemos alguma coisa pagas com o teu dinheiro, ou ofereces-te para pagar, e trazes os vinte escudos ou o troco, estás a ouvir. Não sabia ao que ia, mas assim que lá cheguei percebi que não ia ficar por ali. Acontece-me assim, às vezes, com casas, com pessoas, com cidades, com sítios, perceber nos primeiros segundos que os segundos serão anos, e a Feira da Ladra foi um desses, talvez o primeiro.
Numa das bancas, normalmente uma toalha estendida no chão com um amontoado de coisas, estava uma seringa antiga de êmbolo de vidro com uma caixa metálica. Tive perante a seringa um sentimento que ouço algumas amigas descrever a propósito de sapatos. Veio o preço. Acima dos vinte escudos, não sei quanto. A nota verde na mão - a única saudade dos escudos foi termos tido uma nota que quase parecia dólares - não sei se regateei, se o vendedor achou piada ao miúdo, toma lá, faço-te vinte escudos. Aqui foi a primeira parte da magia, uma coisa que tinha um preço, mas podia ser vendida por outro. Agarrei-me à caixa da seringa e continuámos o passeio por um território que estava a descobrir. Mais à frente um vendedor olhou para a minha mão, o que trazes aí, mostrei-lhe, quanto queres por isso? Ele queria a seringa, a minha seringa, queria comprá-la. Quanto quero? Não devo ter respondido a medo porque ele aceitou logo, nem devo ter pedido pouco, porque não regateou. Alquimia, a nota verde era agora cinco vezes mais verde, era azul. Cem escudos, cinquenta cêntimos em euros.
Ainda lá fui uma vez com a minha mãe comprar um skate, fininho preto, rodas vermelhas, mas o que lá queria ir fazer era vender, não era comprar. E montei um sistema de recolha de entulho nas casas das famílias e amigos. As primeiras vezes foi o meu avô Jaime que me levava, Opel Record branco, mas chegar às nove era tarde, tinha de se chegar cedo, cada vez mais cedo, para escolher os melhores lugares, para tentar vender em lote aos que compram por atacado para revender. Para ter mais feira. Durante vários anos, sempre que podia, aos sábados lá ia, no primeiro autocarro até à Graça (eram dois, primeiro o 7, acho, era preciso mudar na Almirante Reis, ou apanhar um táxi.
Vender numa feira coisas velhas devia fazer parte dos currículos escolares, com carga horária equivalente a todo o currículo de português que não seja ler e interpretar textos bem escritos.
Aprende-se que as coisas não têm valor intrínseco, mas apenas o que alguém naquele momento está disposto a dar por ela, e que pessoas diferentes pagam diferente pela mesma coisa. E para ver esse valor é preciso desligarmo-nos de nós e da coisa que vendemos, e usar todos os segundos possíveis para perceber o outro, o que ele quer, porque quer, quanto tem, quanto quer deixar de ter, e construir uma relação instantânea. Não crias a relação, não vendes. Se gostas demais do que vendes, não vendes.
Um dia levei uma televisão de táxi e um skate (largo, amarelo, comprado em Nova Iorque, com uma caveira), e depois a televisão em cima do skate campo de Santa Clara adentro, e tive um problema, que foi o de vender o skate antes da televisão e se não a conseguisse vender não a ia conseguir levar de volta até aos táxis. Mas lá se vendeu a televisão, felizmente a um comprador incauto que não percebeu o dilema do menino e do mono.
A minha base era a loja do Sr. Morais, que vendia material militar, com a mulher, a sogra na porta. Fardos de fardas, de vários tamanhos, camisas, botas, meias, sacos e mochilas, muitas vezes trocadas pelos magalas que tinham de devolver o material no fim da tropa (ou seria no fim do ano?) e queriam ficar com coisas de melhor qualidade e devolver umas calças mais coçadas.
Guardava lá as coisas, o que não vendia, ou quando já não queria vender mais e queria era ir gastar o que tinha ganho pela feira (sobretudo artigos militares antigos para uma colecção que julgava que andava a fazer).
Mas havia ainda outra coisa, a Feira era um espaço onde não entravam nem leis, nem impostos, nem recibos, nem bancos. Passeavam por lá fiscais, alguns polícias, mas tudo ali era outra ordem, coisas arranjadas, coisas roubadas, vendidas para a droga, muita droga, uma fauna que só ali há.
E não era uma ordem, eram outras ordens, que uma feira tem muitas camadas, o que se vê e o que não se vê, as bancas, as lojas, têm clientes de vários estratos, o negócio entre vendedores (que muitas vezes não se faz por isso mesmo, ou que pode ser feito por troca), os clientes habituais (para quem se reserva ou finge ter reservado um artigo, embrulhado em jornal num saco e reservado para dar um ar de exclusividade que prepara o caminho para o preço salgado), as amizades, os ódios. E há o turista, que dá sempre mais valor ao objeto mais pequeno e mais típico e que por mais que pergunte o preço da televisão antiga quer sempre o bibelô em forma de sardinha ou o azulejo roubado. Tanto azulejo se deve ter vendido ontem aos estrangeiros da Web Summit.
 
João Taborda da Gama
(publicado originalmente no Diário de Notícias, republicado no Malomil com permissão do autor; obrigado, João!)
 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Quantos são? Quantos são?



 
Cova da Moura
 
Quantos são? Quantos são?
16 DE JULHO DE 2017 00:17
João Taborda da Gama
 
 
Cem por cento da polícia é boa e dois terços dos criminosos são negros – isto era a conclusão a que eu chegaria sobre a criminalidade em Portugal baseado na minha experiência. Só que eu sou branco, e rico, e as conclusões não podem resultar da nossa vidinha. E em rigor ninguém faz ideia se os negros cometem mais crimes nem se há racismo policial em Portugal porque ninguém sabe quantos negros, brancos, asiáticos, há em Portugal.
Cresci no Lumiar, andei em escolas públicas no Lumiar, e tive uma educação sem trela no meio da rua e dos anos oitenta, rodeado de bairros de lata e a droga começava a entrar. Havia tentativas de assalto, à porta da escola, nas traseiras dos prédios, nas paragens do autocarro, na "mata" (hoje a Quinta das Conchas e dos Lilases), nas inúmeras arcadas, passagens e túneis com que a arquitetura dos anos setenta e oitenta nos brindou (ah, Jane Jacobs, se eles te tivessem lido). Dinheiro, relógios, blusões, ténis, carteiras (uma carteira Dunas era um bem raro). As histórias eram diárias. A maior parte das vezes aplicava-se a prevenção: correr e só parar em casa, mudar de passeio, mas sobretudo correr, correr muito. Por vezes, poucas, o confronto. Em algumas, menos ainda, ser assaltado, no meu caso duas. A primeira, um Swatch com uma navalha, um branco franzino, passa para cá o relógio senão.... Passados uns anos, tinha 13 ou 14 ou 15, fui cercado por um grupo de negros, encostado a uma parede com uma navalha enquanto era revistado, se gritares corto-te a piça e não te chibes a ninguém, fiquei sem cinco contos, que levava para o barbeiro, que a minha mãe não tinha mais pequeno, quero esse troco todo quando chegares, não chegou nada.

Da vez dos cinco contos fiz queixa à polícia, orgulhoso do buraco nos jeans feito com a ponta da naifa (ponta e mola), e passei uma noite no carro da polícia a fazer rondas pelos bairros (uma rapariga veio queixar-se da violência do marido e eles disseram, agora temos este rapaz aqui, mas a gente já cá volta para tratar dele e lhe ensinar umas coisas); passado um tempo, fui chamado a reconhecer um dos assaltantes na esquadra, depois o primeiro julgamento na Boa Hora, em que fui metido numa sala com os familiares do dito e tive de desaparecer dali antes de me fazerem o que estavam a dizer que me iam fazer, e por ter faltado ao julgamento, um segundo julgamento em que fui para o tribunal detido pela polícia por ter faltado ao primeiro, passando uma manhã na esquadra de Telheiras, e sendo transportado num daqueles Fiats da PSP com uma prostituta que ia ser julgada por uma coisa qualquer (neste segundo julgamento, já não misturaram as testemunhas com o público). E que grande manhã, a ouvir histórias, a pedir para ver as armas, a ouvir as conversas. E também por isto sempre gostei de polícias, mesmo quando levei aquela bastonada a sair do Benfica-Sporting sobre a qual escrevi neste jornal (Cabeça Limpa).
O que se passou na Cova da Moura é bárbaro. Claro que falta julgar e apurar tudo ao mais ínfimo pormenor, mas não é preciso ser um especialista em processo penal para percebermos que esta acusação não teria saído de ânimo leve, que o Estado tem sempre, e bem, mais cuidado em julgar-se a si próprio. E isso é a primeira lição positiva: que o Estado policiou os seus, que o Estado vai julgar os seus. Mas o que é preciso saber, perceber, pelo menos tentar, é se são casos isolados ou se são estruturais. Ou seja, saber se a violência policial contra negros existe de uma forma diferente daquela que existe contra brancos, se é mais ou menos. Vendo este caso, diríamos que sim, e a reportagem da Fernanda Câncio ontem aqui no DN, impressionante, aponta para racismo e abusos, um excesso de pedidos de identificação e paragens para revistar. Uma versão lusa do "stop and frisk", que nos Estados Unidos tem sido descontinuada por cada vez mais se provar que não reduz a criminalidade e que é usada desproporcionalmente contra jovens negros (aliás, foi inventada para isso).
A consequência da violência policial racista que se lê na reportagem da Fernanda Câncio está com muita força no Killing in the Name, dos Rage against the Machine – quem mata alegadamente em nome da lei, quem violenta só porque tem um crachá, deixa de ser obedecido. E, sem obediência, não há autoridade.
Ninguém duvida de que há racismo em Portugal de vários tipos, mas também daquela pior espécie que é o racista que não crê ser. E isto não é apenas aquele racismo contemporizador de perguntar a todos os africanos nas universidades portuguesas se vão ser ministros quando voltarem para o país deles. É um denial institucional, uma amnésia de Estado, que se crê tão pouco racista que se recusa a saber que percentagem da população não é branca. Dizem que é por uma questão de proteção de dados, por uma questão de proteção da dignidade dos próprios, uma idiotia completa que impede qualquer estudo rigoroso sobre o racismo e a discriminação. Como é que eu posso saber se os negros são discriminados nas entrevistas de emprego, na violência policial, nas condenações em pena de prisão, nos rendimentos sociais, se eu não sei quantos negros há em Portugal?
É desejável estarmos sempre do lado da polícia contra os ladrões, é desejável tentar compreender o que é ser polícia e ser morador na Cova da Moura, mas nunca desculpabilizar o crime que lá existe, o dos moradores e o da polícia. Não, uma mão não lava a outra, ambas estão sujas e ambas têm de ser limpas, na justa medida da sujidade. Nem mais, nem menos. Mas comecemos por saber quantos são. Ou melhor, quantos somos.
 
João Taborda da Gama
 
(publicado originalmente no Diário de Notícias; republicado no Malomil com permissão do autor, a quem agradecemos – obrigado, João!)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Brutalidades.

 
 
 










O brutalismo arquitectónico – ou, melhor, a sua recordação – está na moda. A propósito de um livro da Phaidon, This Brutal World, o portentoso Atlas Obscura (que também já tem um livro, atenção) publicou aqui estas imagens portentosas, que vi graças à infalível generosidade do João Gama. Obrigado!  

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Primark vista da Buchholz.

 
 
 
 

 
 
Uma das delícias do tempo de Natal são os textos contra o consumismo desenfreado desta sociedade materialista em que vivemos. Escritos por quem tem tudo o que quer e que reduz o consumismo àquilo de que não gosta, diatribes na ressaca de terem de ter ido ao Colombo porque no Chiado já não havia as cápsulas para a Nespresso, e aproveitou-se para comprar um presente que faltava, já que se estava ali, é que já não dava para encomendar pela Amazon, não ia chegar a tempo, uma chatice, e se viu devorado por uma horda de gente com sacos, que horror aquela gente toda ali no domingo a fazer compras de coisas que não precisa, a gastar imenso dinheiro, tudo a crédito só pode ser, já têm a casa atafulhada de tarecos, a minha empregada até um plasma na casa de banho tem e nós a mesma televisão há mais de dez anos. Ou, horror pior ainda, aquela gente toda no Chiado. Turistas até, daqueles que roubam os bairros históricos e o centro das cidades aos lisboetas, o terramoto, a cidade como parque temático.
Claro que nem todos os que criticam o consumismo de Natal o fazem por povofobia. Há muitos que é mesmo por uma questão de puro bom gosto. Regrados e contidos no gastar, porque tantas vezes a pergaminhos cheios correspondem contas vazias, fazem da necessidade ideologia e estética, a vida simples de quem não tem outro remédio senão ser remediado, vai aqui uma lembrança simbólica, que nós na nossa família não somos dos de gastar no Natal, as pessoas realmente ficam loucas com isto das compras, tem muito mais significado este bugalho pintado com verniz das unhas para dar cheiro à roupa numa gaveta, porque quem realmente se preocupa com os outros faz com a sua criatividade, até pode ser em família, com os miúdos, o máximo.
Também há, claro, a crítica fácil à comida a mais, doces que nem chegaram a ser abertos, travessas de bacalhau que mal lhes tocaram, e hoje já ninguém gosta do bacalhau, mais vale fazer-se para a próxima o dobro do arroz de pato. Fazer-se, que é como quem diz encomendar, que hoje cada vez se faz menos, porque as pessoas andam muito atarefadas. Para não dar trabalho, o melhor é ir fora, ou viajar, cada vez mais gente viaja no Natal.
Sabemos que o Natal não são coisas, que a verdade da espera do Advento não se mede em pacotes junto da árvore de Natal, e que o nascimento do Senhor é mais bem rezado com a Xbox desligada. Mas vamos por um momento admitir que há um conjunto de pessoas que esperou pelo Natal para comprar o que lhes apetece, fazendo-se a si felizes, e àqueles a quem vão dar os ténis. A compra de uma sweartshirt de marca (Element, por exemplo) para um adolescente é um ato de realização e transmissão da felicidade não menos digno do que a leitura de um romance (Ferrante, por exemplo). Vamos até admitir que para muita gente um centro comercial, um grande armazém de roupa, é um lugar mais organizado e mais cómodo do que as suas casas. Vamos por um segundo pôr a hipótese de ser o domingo o único tempo que têm livre para, juntos, estarem nas compras. Curiosamente, as personagens que figuram no quadro dos horrores do consumismo compram em bando, recusando a compra solitária, deprimente, despachada, o que ainda encanita mais os puristas do Natal.
Claro que aquilo que nos devia contentar, no plano do dever-ser, era uma vida virtuosa, que fazer o bem devia bastar, que não é preciso comer manteiga de amendoim, havendo pão. É, a gente sabe isso tudo. Mas também sabe que a praia com as pessoas vestidas e o vinho sem álcool não seriam a mesma coisa. Entre diamantes e legos no Natal vai um mar de decência.
A impossibilidade de nos pormos na pele do outro, de percebermos o que é semelhante, mas sobretudo o que é diferente, são também formas de negar a essência Natal, precisamente pelos seus maiores aiatolas. E assim vamos sendo mais empurrados para um não-Natal, sem luzes com o Menino Jesus, para não ofender, sem presentes, porque isso é consumismo, uma coisa assim que não ficará na memória de ninguém, mas que será quando um homem quiser, ou seja, nunca porque sempre. Já é tarde e ainda me falta comprar umas prendas. Mas a última coisa que me apetecia era ir agora meter-me no Colombo.
 
João Taborda da Gama
 
(publicado originalmente no Diário de Notícias, aqui; reproduzido no Malomil graças à autorização do João: obrigado!)

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Rainha e o Comandante.


 

 
No outro dia, no carro para a escola, na rádio, a notícia dos vinte e cinco anos da morte de Freddy Mercury. Estava nevoeiro e frio, como quando cheguei à escola, segunda-feira, há vinte e cinco anos, também com catorze, tinha morrido o Freddy Mercury, na véspera. Com  SIDA. Semanas antes tinha sido Magic Johnson a anunciar que tinha sida. De um dia para o outro, tinham todos SIDA. Não havia internet. Como é que se sabiam as coisas? Como é que se sabia que Freddy tinha morrido? Ou o que queria dizer sida? Os meios de comunicação davam notícias, as pessoas recebiam-nas, acreditavam, e transmitiam-nas umas às outras. Lembro-me de ter ouvido na rádio? Onde? E se não tivesse ouvido, teria ele ficado vivo uns dias mais? Meses, anos? (Um aparte: os Queen eram parte substancial do meu dia, do quarto, da alma).
Não sabiam quem era. Disse-lhes o que sabia, do que fui lendo, alguns poucos factos que retive, um pai austero empregado das alfândegas em Zanzibar (mas podia não ser das alfândegas, podia não ser austero), a compra de uma guitarra em segunda mão em Londres, ténis em Ibiza, o início dos Queen, a recusa inicial dos sintetizadores, os complexos com a aparência física, o sucesso. Não lhes contei aquela que era a minha recordação mais forte de todos os livros e revistas que li, alguns com a idade delas: festas em que anões transportavam na cabeça bandejas de prata com cocaína. Esse facto, que tinha lido num livro mal escrito, orgulhava-me de sabê-lo e achava que poucos o saberiam. Hoje, no Google, há centenas de milhares de referências.
Mas tal como Freddy Mercury tinha morrido, e era verdade, também a vocalista das 4 Non Blondes morreu várias vezes e, vi agora, continua viva com uma carreira de sucesso na produção musical. Como é que se sabia que ela não tinha morrido, se as pessoas diziam que ela tinha morrido?
A confirmação de factos podia ser feita recorrendo a um recorte de jornal, normalmente um instinto de preservação que raramente servia a sua função (onde estavam os recortes, quais, por que ordem, os cantos amarelados a enrolarem, a tinta a esvair-se, porque é que eu recortei isto?). No fundo, toda a confirmação era oral. É impressionante como, até há quinze, vinte anos a cultura era predominantemente oral e paroquial (perguntas em família, em amigos), sim, claro, a prensa de Gutenberg, os livros, as enciclopédias, tudo certo, mas as pessoas não andavam com a enciclopédia luso-brasileira no autocarro, nem tinham a biblioteca de Alexandria na sala. Eu tinha a certeza que uma coisa tinha acontecido porque me lembrava e ou alguém me dizia.
Hoje não é assim. Quando na rádio as minhas filhas ouviram dos vinte e cinco anos da sua morte, podem saber tudo o que quiserem sobre o Freddy Mercury, até enquanto eu lhes conto, na velha tradição oral, quem foi, como morreu, o que fez. Quando explico uma coisa aos meus alunos, ou relato um facto, sei que uma parte está a verificar o que digo no computador ou no telefone. Por um lado, dependemos menos das nossas memórias (que efeitos vai ter no médio prazo?), mas existe aí fora toda a nossa memória, sem lugar ao esquecimento, nem do que está porque foi, nem do que está mas não foi.
Uma cultura que se baseia na possibilidade constante da confirmação de factos, de reputação, é uma sociedade que será menos materialista: sentindo que pode sempre ter tudo, não precisa nunca de ter nada. Começou com a música, os filmes, livros, passará para os automóveis em breve. Mas no conhecimento, no consumo de notícias, a coisa tem o lado negro da notícia falsa, a tal da pós-verdade, que redundará numa escolha entre verdades, se calhar na existência de duas verdades, simultâneas, opostas, ambas com os seus processos de criação, divulgação e confirmação (hoje) permanente.
Em 1984, os Queen lançam, I Want to Break Free, uma música de John Deacon, o discreto baixista, que tinha escrito uma música de revolta e de libertação pessoal (nos Queen também conviviam duas verdades, Freddy excessivo, e John tímido, casado ainda hoje com a mesma mulher, seis filhos). No vídeo de I Want to Break Free, que ficou famoso, os membros da banda, vestidos de mulher numa casa parodiavam a telenovela Coronation Street. Mas a música transformou-se imediatamente num hino da resistência às ditaduras por todo o mundo, da África do Sul à América Latina. Por isso, quando Freddy Mercury subiu ao palco do Rock in Rio em 1985 vestido de mulher para cantar a música, foi assobiado e apedrejado por quem achou isso uma ofensa ao hino de libertação política. A mesma música, duas verdades. E os cubanos, continuarão a ter de cantar I Want to Break Free? Depende de quem lermos hoje. João Taborda da Gama
 
João Taborda da Gama
 
(originalmente publicado no Diário de Notícias; republicado no Malomil graças à generosidade do autor: um abraço, João!)
 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O direito fundamental à habitação (em Alfama, vista rio).

 
 
 
 
Num evento chamado Trienal de Arquitectura, decidiu-se que "urge estancar a sangria do centro histórico da cidade". Compreende-se: sangria é uma coisa mais de praia do que de cidade e mancha a calçada portuguesa quando derrama, e fica ali a fruta toda a apodrecer e inclusive as velhotas podem escorregar e partir o fémur. Mas parece que a sangria que querem parar não é a bebida, é em sentido figurado a desertificação. Bastava o mínimo de coerência e estudo, ou até ir de vez em quanto ao tal centro histórico da cidade, para se perceber que não há qualquer sangria do centro histórico motivada pelo turismo, ou pelos estrangeiros que vêm para cá viver, ou pelo investimento imobiliário. O que há é precisamente o contrário, um vislumbre de vida e de viço. Durante as décadas e décadas em que Alfama perdia população, ninguém quis trocar o conforto de Telheiras pela realidade de Alfama. Alfama estava "esquecida em cada dia que passa", como na música Alfama dos Madredeus, de 1995; ou como cantava Mariza em 2003, uma Alfama "fechada em seu desencanto/ Alfama cheira a saudade/ Alfama não cheira a fado/ Cheira a povo, a solidão/ Cheira a silêncio magoado/ Sabe a tristeza com pão".
E agora que Alfama é mais visível, que está na moda, que aparece na imprensa internacional, que tem franceses com bom aspecto a irem ao pão de manhã e miúdas giras a estender roupa, e casas recuperadas em que apetece viver quando se olha da rua lá para dentro, agora que finalmente os moradores de sempre conseguem rentabilizar as suas casas ou parte delas, melhorar as suas vidas, do que se lembram é de vir pedir a intervenção do Estado e do município para... "estancar a sangria" através de uma espécie de contratos de associação no sector imobiliário para as zonas premium da cidade.
A Trienal (que por acaso começou em 2007 com o tema "Vazios urbanos", em que alertava, então mais acertadamente, para o êxodo de certas zonas da cidade) não é caso isolado neste awakening repentino, este momento-Alfama de que se acometeu subitamente alguma da nossa mais ilustre intelectualidade. A reacção é tão estapafúrdia que só pode explicar-se pelo remorso de termos sido individualmente e como povo cúmplices do que se fez aos centros históricos das nossas cidades: um conjunto de leis de arrendamento urbano criminosas, uma política pública de incentivo à compra de habitação própria mancomunada com o sistema bancário em detrimento do arrendamento e da reabilitação, em conjunto com uma quantidade de factores imateriais como a obsessão pelos dois lugares de garagem e arrecadação, uma preferência pelas tipologias novas a estrear, a ditadura dos acabamentos, o fetiche do elevador. A tudo isto se junta um sistema urbanístico de licenciamento camarário assente em leis até há pouco desfasadas, prazos pornográficos de licenciamento para a reconversão urbana e corrupção.
E como lida com o remorso o movimento Alfama-aos-portugueses? Quer resolver um problema no momento em que ele começa a desaparecer com aquilo que foram as suas causas históricas (rendas controladas, hiper-regulação, distanciamento do mercado). O mais aflitivo é uma incompreensão das dinâmicas urbanas, uma ignorância sobre Lisboa, um desamor pela cidade travestido de messianismo olisiponense, um paroquialismo pretensamente erudito, um cosmopolitismo que se ficou pelos Erasmus em Barcelona.
Fica a sensação de que até há pouco menos de um ano muitos daqueles que hoje reclamam Alfama, a sua Alfama, achavam que Alfama se chamava Santos – e não digo Santos como a antiga freguesia –, achavam que se chamava Santos como na frase "esta noite vou com a malta do atelier ali aos Santos [Populares]" – e eram incapazes de encontrar Alfama sem Google Maps numa manhã de Fevereiro. Alfama é assim uma ideia construída em cima das memórias de um Woodstock anual de sardinha onde se apanhava uma bebedeira de música pimba e de povo, antes de se voltar por mais 364 dias ao eixo Telheiras-Marquês, triangulando pelo Bairro Alto-Lux aos fins-de-semana.
Estrangeiros em Alfama? Liberdade de circulação? Turistas? Visitantes? Sim, mas com regras, não é assim virem à maluca renovar um prédio que os lisboetas deixaram entregue ao mijo de gato e aos ninhos de pombos, com uma viúva encarcerada num fétido quarto andar sem elevador e com uma escada angulosa onde a mortalha só cabe ao alto.
N’A Vida de Brian, Stan quer ser uma mulher e que lhe chamem Loretta porque quer ter bebés. Diz que é o direito de qualquer homem ter bebés. Francis apoia-o, mesmo que um homem não possa ter bebés, tem de ter o direito a ter bebés, e que vão lutar por isso – é simbólico na sua luta contra a opressão. Aqui é igual, não importa que nunca tenham querido viver em Alfama, não importa sequer que não queiram viver em Alfama, nem importa tão-pouco que podem viver em Alfama – o que importa é que se aprove uma lei que lhes dê o direito a poder viver em Alfama e que exclua outros desse direito. Como, porquê, por quanto tempo, para quê, nada disso interessa, nem interessa o que pensam disso os residentes do bairro, nem os senhorios do bairro, nem os proprietários – é uma coisa contra a opressão. É o direito fundamental à habitação, um direito democrático à habitação.
E eu também quero. É inconstitucional que o imóvel em Alfama com a referência D:120611244-178 da Re/Max Expo não seja meu, ou pelo menos que eu não possa lá viver um a dois anos. Não é justo. É que eu nasci em Lisboa, e Lisboa aos lisboetas. E apetece-me mesmo poder viver em Alfama. Não importa que eu nunca tenha feito nada para viver em Alfama. Não importa que o apartamento custe milhão e meio de euros e eu não os tenha. Que culpa tenho eu? Não importa que haja quem dê esse dinheiro pela casa, quem tenha investido naquele prédio, que haja proprietários. O que precisamos é de políticos com coragem, que defendam a Constituição com maiúscula e o direito fundamental à habitação, o meu direito fundamental à habitação. Àquela habitação. É que vinha mesmo a calhar aqui para os oito. São cinco quartos e uma sala, 337 metros quadrados de arquitecto. E vista rio frontal.
 
 
João Taborda da Gama
 
(publicado originalmente no Diário de Notícias; no Malomil com autorização
do João - obrigado, um abraço!)
 
 
 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

As afinidades electivas.

 
 
 
Kai Frober, na fronteira, na década de 1970

Kai Frober, 2015


O «Cinto Verde»
 
Gunther Berwing (à direita), em 1983

Gunter Berwing e Kai Friobel, 2015




As comemorações do aniversário da queda do Muro de Berlim deram azo a muita coisa. A Taschen arrasou a paróquia com um calhamaço sobre a República Democrática que, do ponto de vista iconográfico, não tem rival. Num registo completamente diferente, em que a imagem pouco interessa ante a riqueza da história, Maxim Leo reconstituiu as biografias atribuladas dos seus pais e avós no apaixonante Red Love. The Story of an East German Family. 
 
          Mas a história mais fascinante de todas, aquela que mais me tocou, encontra-se aqui, à distância de um clique. Foi-me trazida pelo João Gama – e é por essas e outras que beijo o chão que ele pisa. Vamos à história, mas em linhas muito gerais. Entre aquilo que outrora dividia as Alemanhas existia uma vasta terra-de-ninguém. A ausência de presença humana fez florescer a natureza no «Cinto Verde», um corredor arborizado de quilómetros e quilómetros. Por vezes, o campo era atravessado por fugitivos de Leste, sendo território perigoso e minado. Nada disso dissuadiu um jovem alemão ocidental de entrar lá, para ver os pássaros. Do lado de lá da fronteira, outro rapaz faria o mesmo. Kai Frobel e Gunter Berwing acabariam por se conhecer, comungando da mesma paixão pela terra e seus bichos. A história mete a malvada da Stasi e peripécias várias. Mas acaba bem, com a reunificação de um povo e a reintrodução de um bicho, o lince. Dava um livro, um filme; dava o que quiserem. Por agora, leiam-na, que bem merece.
 
António Araújo