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quarta-feira, 14 de março de 2018
Histórias de mulheres: Niga Salam.
terça-feira, 7 de julho de 2015
Os Acontecimentos no Irak e a Fundação Gulbenkian, de A. Valdez dos Santos.
A
revolução do Irak teve por objectivo o termo dos feudalismos económicos e a
nacionalização dos petróleos. Ninguém ignora esse duplo propósito dos actuais
governantes de Bagdad e ninguém desconhece que a sua realização se sucederá a
um período de estudos e preparação psicológica em que, necessariamente, se
assegurará o respeito pelo que se pretende espoliar. Fayçal, Abdul Illah e Nuri
es Said não morreram debalde.
(Valdez dos Santos, Os Acontecimentos no Irak e a Fundação
Gulbenkian, Lisboa, 1958, pp. 17-18)
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Scala Regia.
As escadas, mesmo as
escadas régias, servem para subir e servem para descer. Por elas, subimos ao
Palácio Apostólico (com ou sem le privilège du blanc), mas também descemos ao piso térreo onde as almas vulgarmente humanas
esperam por nós, tal como os guardas suíços num momento de repouso.
Que o diga David
Motta, um dos colaboradores da revista Scala Regia, dirigida por Diogo
Mayo. David Motta é um dos protagonistas de O Fim das Miragens: Crime no
Jet-Set, do jornalista Paulo Moura (Alfragide: Livros d’Hoje, 2008). O
Fim das Miragens relata interpoladamente a vida de Maria das Dores, uma
história de ambição desmedida, que conduz à autoria moral do assassinato do
marido, Paulo Pereira da Cruz.
Condenada em 2008,
em 2010 cometeu novo crime. A partir da cadeia de
Tires, telefonou para o caseiro da quinta do sogro, fazendo-se passar pela cunhada,
e ordenou que oferecesse mobílias e cortasse todo o pomar plantado pelo
falecido marido. Também David Motta foi condenado a quatro anos e oito meses de
prisão com pena suspensa pelo crime de burla agravada e falsificação de
documentos, na sequência de um processo movido pelo pai. Aparentemente, David
Motta transferiu 127 mil euros de uma conta do pai para uma conta pessoal.
Scala Regia
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Mas o
interesse da revista Scala Regia não
se limita à rica história de vida dos seus colaboradores. A reportagem sobre
Maria do Carmo Castelo Branco, da responsabilidade de Aurélio Gomes, merece uma
leitura atenta. Com a epígrafe «George Bush ruined my life» (a revista é
integralmente escrita em língua inglesa), a vida da fidalga Maria do Carmo
Camacho Rodrigues de Sousa da Câmara, filha do
fundador e primeiro director da Estação Agronómica Nacional e
proprietária de pedreiras em Vila Viçosa, cruza-se curiosamente com a história
recente do Iraque.
Afinal, a
sua primeira paixão foi confessadamente Hans Blix, o diplomata sueco e chefe da missão das Nações Unidas que, em 2002,
procurou armas de destruição em massa no Iraque. Aurélio Gomes apresenta Maria
do Carmo Castelo Branco como uma mulher invulgar «since she never had to enter
a kitchen for cooking purposes, as the majority of women do». De facto, é
objectivo explícito de Scala Regia,
desde o editorial, «reunite the most extraordinary personalities, stories and
objects».
Maria do Carmo Castelo Branco lamenta o depressivo destino do Iraque,
não só porque duvida da recuperação política e económica, «but also because
this country was deprived of the beauty of her marble», já que Saddam Hussein era um grande apreciador do mármore alentejano. Mármore que, decerto, cobria as escadas do murado
complexo palatino de Saddam Hussein na cidade de Tikrit, que incluía um palácio
para o Presidente, outro para a mãe e para os filhos, com vista para um lago
artificial. Sendo uma personalidade inusitada, Saddam Hussein incluiu, num
gesto extraordinário de devoção familiar, uma sanita de ouro para a mãe e uma câmara
de tortura para o filho. Provavelmente, em betão armado.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Do uso criativo do sapato.
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Ao inventor do sapato devemos, não as calosidades, mas seguramente os calos. É obra. Aos utilizadores subsequentes do sapato devemos o uso criativo do mesmo.
# - O sapato como símbolo
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Ao inventor do sapato devemos, não as calosidades, mas seguramente os calos. É obra. Aos utilizadores subsequentes do sapato devemos o uso criativo do mesmo.
# - O sapato como símbolo
Em 2008, após três longos anos de especulação sobre a sua origem, o L'Osservatore Romano veio esclarecer que os sapatos vermelhos do Papa não são Prada, porque “o Papa não usa Prada, usa Cristo”. Ficámos esclarecidos. Ficámos?
A célebre imagem de Charlot degustando, a meias com Big Jim Mckay, um delicioso sapato cozido, em “A Quimera do Ouro” (1925), esconde um pormenor delicioso: os sapatos, os atacadores e os próprios pregos eram feitos de chocolate. Com a mania das perfeições de Chaplin, os takes eram tantos que os dois actores ficaram terrivelmente mal dispostos com a refeição.
Inspirando-se no imortal clown, espera-se que, depois do pastel de nata, se siga uma acção de propaganda ministerial a propósito de um novo produto de exportação tipicamente português, o sapato comestível. O que não deixará de representar um solene avanço da indústria nacional, desde os tempos em que aos marinheiros da Nau Catrineta foram fornecidos sapatos incomestíveis:
Já não tinham que comer
Nem tão pouco que manjar.
Deitaram sola de molho,
Para o outro dia jantar.
Mas a sola era tão rija
Que a não puderam tragar.
Os chineses são conhecidos pela sua proverbial criatividade na aplicação de instrumentos de tortura. Mas também é sabido que usam a tortura, não só para fazer falar aqueles que, por qualquer motivo desconhecido, não querem confessar algo que os vai condenar à morte ou a qualquer martírio mais interessante, mas também para aperfeiçoar a beleza feminina. Os sapatinhos que envolviam aqueles delicados pezinhos escondiam autênticas monstruosidades. Ossos partidos, peles deformadas, articulações destruídas, para os pezinhos poderem caber nos sapatinhos. Conclui-se que os chineses gostam mais de sapatos do que de pés.
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# - O sapato como arma de arremesso
This is a farewell kiss from the Iraki people, you dog! |
E alguém se lembra ainda daquele heróico mas pouco preciso jornalista iraquiano, Muntadhar al-Zaidi, que, numa conferência de imprensa, quis atingir o presidente dos EUA com o seu sapatão? Conta-se que al-Zaidi se denunciou ao gritar “This is a farewell kiss from the Iraki people, you dog!”, o que ficou bem como proclamação não particularmente elegante mas suficientemente expressiva, mas permitiu evitar o impacto. Mesmo assim, foi notável o poder de esquiva, digno de um Jack Dempsey, de George W. Bush. Preso, afirma-se que al-Zaidi foi torturado durante a detenção. Alguma tortura chinesa?
A virtuosa flexibilidade do sapato tem sido profusamente ilustrada, podendo mesmo dizer-se que o mais famoso sapato do século XX é um calçado protestante. A ter existido.
Nikita Krushchev, na Assembleia Geral da Nações Unidas, irritado com um orador, terá mesmo brandido o seu sapato soviético contra o tampo da bancada? Até hoje não há certezas. A fotografia que circula na Net é declaradamente falsa. Uns dizem que viram, testemunharam, podem jurar. Outros atestam que não viram, que não aconteceu, que seria impensável. A filha Nina escreveu na New Statesman um artigo, tomando partido: o papá não bateu com o sapato na mesa.
Resumidamente, a base do argumento filial é a seguinte: o meu papá não era, ao contrário do que constava no Ocidente, um pobre e ignaro camponês ucraniano (ele nem era sequer camponês, nem ucraniano), que ria desbragadamente enquanto contava anedotas anticapitalistas e provava como a URSS iriam ultrapassar os EUA. Pelo contrário, era um refinado teórico marxista e um estratega de fino recorte que, para subir na vida, ou, mais prosaicamente, para se manter vivo, acamaradara com um tal José que o forçara, de passagem, a deixar morrer à fome uns milhões de concidadãos (esses sim, camponeses e ucranianos). Sendo tão refinado, conclui-se insofismavelmente que nunca poderia ter tido tão primitivo comportamento.
Em suma, Nikita e a sua Nina não assumem a responsabilidade. Trata-se de um comportamento-padrão de membro da Nomenklatura, que o brando Molotov exemplificou quando terá dito: “O Pacto, vá que não vá, fui eu! O cocktail, não fui, mas gostaria de ter sido. Agora, o pudim?! Nunca, jamais, em tempo algum.”
A verdade é que assumir qualquer responsabilidade poderia levar a que das fotografias fosse apagada a sua imagem – o que, consta, era sempre prenúncio de consideráveis problemas de saúde.
Em jeito de conclusão, podemos dizer que, como sempre, razão tinham os Romanos: ne sutor ultra crepidam. Sapateiro, não vás além do sapato. Quando começam os usos criativos do sapato (e quando começamos, em desespero, a desenterrar ditos em línguas mortas), não se sabe onde se vai parar. Se é que, assim calçados, se para... ou pára? Olhem, acaba-se a escrever «para» sem acento. Por muito que isto aperte os calos de Vasco Graça Moura.
José Luís Moura Jacinto
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
O quarto do filho.
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CPL. Christopher Scherer. Marines. 21/7/2007. Sniper. Karmah, Iraque. 21 anos. Morada: East Northport, NY. |
Richard P. Langenbrunner. 17/9/2007. Suicídio. Rustamiyah, Iraque. 19 anos. Morada: Fort Wayne, Ind. |
Wilfredo Perez Jr. Exército. 26/1/2003. Ataque de granada. Baquba, Iraque. 24 anos. Morada: Norwalk, Conn. |
Carl L. Anderson Jr. Força Aérea. 29/8/2004. Mina anticarro. Mosul, Iraque. 21 anos. Morada: Georgetown, S.C. |
PFC Karina S. Lau. Exército. 2/11/2003. Queda de um helicópetro atingido pelos rebeldes. Fallujah, Iraque. 20 anos. Morada: Livingston, Calif. |
No recente e excelente Afterwards. Contemporary Photography Confronting the Past, de Nathalie Herschdorfer (Thames & Hudson, 2011), conheci um projecto que o fotógrafo australiano Ashley Gilbertson desenvolve desde 2009 e pensa publicar em livro ainda este ano. Bedrooms of the Fallen.
Ashley Gilbertson, na produção de Bedrooms of the Fallen |
Fotógrafo movido por causas sociais desde a juventude (produziu ensaios sobre a toxicodependência em Melbourne, sua terra natal, ou sobre os refugiados kosovares a quem foi concedido asilo temporário na Austrália), Ashley Gilbertson (n. 1978) esteve no Iraque, captando imagens que lhe valeram prémios, com destaque para a Robert Capa Gold Medal. Uma das mais conhecidas, tirada no decurso da Batalha de Fallujah, integrou em 2004 a selecção das «Fotografias do Ano» da revista Time. Em 2007, publicou Whiskey Tango Foxtrot, livro que retrata a sua experiência de quatro anos na frente iraquiana. Uma coisa é certa: Ashley Gilbertson esteve lá – e por mais tempo do que é habitual num repórter de guerra. Viu e fotografou os sofrimentos e os combates, facto que, em si mesmo, não lhe concede uma legitimidade moral acrescida no seu trabalho mas que permite, porventura, explicar a génese deste projecto. Com Bedrooms of the Fallen, Ashley Gilbertson prolonga a sua experiência de guerra, apenas transferindo o território do seu olhar para a frente interna, para o interior das moradas de onde partiram os soldados que viu combater no Iraque.
Bedrooms of the Fallen contém um devastador conjunto de imagens dos quartos de dormir de casas da América onde viviam jovens soldados que morreram no Iraque e no Afeganistão. Homens sobretudo; mas também mulheres. Quase todos jovens, muito jovens, de 19 ou 20 e poucos anos. Os que morreram na guerra nunca regressarão aos quartos que habitavam, geralmente nas casas dos pais, e onde guardavam os seus objectos pessoais ou as suas recordações mais preciosas. Como alguém já notou, o aspecto mais impressionante destas imagens reside no facto de os jovens que morreram nunca irem crescer. Nunca irão sair dali, dos quartos captados pela objectiva de Ashley Gilbertson. As fotografias são extremamente concretas e realistas, captadas de modo a fixar os mais ínfimos pormenores. Mas, em simultâneo, são abstractas e «conceptuais» na mensagem que subliminarmente visam transmitir: projectos de vida acabados, futuros incumpridos, existências interrompidas e para sempre aprisionadas em quartos decorados com bandeiras da América, posters do filme Lord of the Rings, taças desportivas ou ursos de peluche. Just kids, como disse quem olhou para estas imagens.
A denúncia da crueza da guerra não é realizada através da exibição de mortos ou feridos na frente de combate, tal como Gilbertson havia feito em Whiskey Tango Foxtrot. Mas as imagens de Bedrooms of the Fallen são também, de uma maneira muito peculiar, imagens de guerra. Aqui não há feridos nem cadáveres, mas tão-só a ausência de vida em quartos de dormir cuidadosamente arrumados. Aqui, evoca-se a destruição de vidas jovens, mas também o sofrimento dos pais que conservam intocados os quartos dos seus filhos, convertidos em relicários de objectos banais que, todavia, evocam memórias e lembranças de um tempo irrepetível. A sensação de quem olha é de alguma claustrofobia. Vemos o sofrimento sem ver quem o sofre. A paisagem visual é completamente despojada da presença de marcas de dor, mostrando apenas objectos de um quotidiano normal, que aguarda o regresso dos seus filhos. Não há pessoas, só a sua ausência. A sua irreversível ausência. Jamais regressarão ali.
......Trata-se, sem dúvida, de uma abordagem original e bastante inesperada à fotografia de guerra, que surpreende e comove justamente por isso. Mesmo que não seja absolutamente nova na história da fotografia, sobretudo na mais recente, a perspectiva de Gilbertson entra em ruptura com aquilo que, desde há décadas, é habitual no fotojornalismo de guerra, tingido de sangue e corpos mutilados, marcado pela exposição da dor física. Ao invés, em Bedrooms of the Fallen a dor é, toda ela, moral. A violência, puramente psicológica. Ao retratar vazios e ausências, as imagens de Gilbertson impressionam ainda por outra singularidade: o silêncio. Nas clássicas fotografias de guerra, há ruído, muito ruído; de tiros e de bombas, de choros de mães e gritos de soldados feridos. Aqui, pelo contrário, somos confrontados com o silêncio da não-presença. Perguntamo-nos o que acontecerá a estes quartos juvenis quando os seus guardiões, também eles, desaparecerem. Naturalmente, serão destruídos, pois com a morte dos pais desaparecerá a razão íntima que os preserva na forma imaculada que vemos nas imagens. Para quê arrumar assim o quarto de um filho morto, se este não voltará a casa para o desarrumar de novo? Para quê o escrúpulo do alinhamento perfeito dos objectos, se em vida aqueles quartos nunca estiveram tão ordenados como agora os vemos?
......Trata-se, sem dúvida, de uma abordagem original e bastante inesperada à fotografia de guerra, que surpreende e comove justamente por isso. Mesmo que não seja absolutamente nova na história da fotografia, sobretudo na mais recente, a perspectiva de Gilbertson entra em ruptura com aquilo que, desde há décadas, é habitual no fotojornalismo de guerra, tingido de sangue e corpos mutilados, marcado pela exposição da dor física. Ao invés, em Bedrooms of the Fallen a dor é, toda ela, moral. A violência, puramente psicológica. Ao retratar vazios e ausências, as imagens de Gilbertson impressionam ainda por outra singularidade: o silêncio. Nas clássicas fotografias de guerra, há ruído, muito ruído; de tiros e de bombas, de choros de mães e gritos de soldados feridos. Aqui, pelo contrário, somos confrontados com o silêncio da não-presença. Perguntamo-nos o que acontecerá a estes quartos juvenis quando os seus guardiões, também eles, desaparecerem. Naturalmente, serão destruídos, pois com a morte dos pais desaparecerá a razão íntima que os preserva na forma imaculada que vemos nas imagens. Para quê arrumar assim o quarto de um filho morto, se este não voltará a casa para o desarrumar de novo? Para quê o escrúpulo do alinhamento perfeito dos objectos, se em vida aqueles quartos nunca estiveram tão ordenados como agora os vemos?
Além da denúncia da guerra, o propósito de Ashley Gilbertson, segundo o próprio, consiste numa homenagem aos que caíram em combate. Subsiste, todavia, um ponto que deve merecer a nossa reflexão. As fotografias de Gilbertson são indiscutivelmente perturbadoras, com a imagem de um quarto vazio e a legenda a indicar secamente o nome do militar morto, a patente, a idade, a causa do óbito e o lugar onde perdeu a vida, além da morada na terra de origem. Temos, todavia, uma obrigação de distanciamento e um imperativo de reflexão, até para fazer justiça não apenas às vítimas como ao próprio trabalho de Gilbertson. Há uma dimensão «demagógica», por assim dizer, nestas imagens. Mas ela sempre existiu e existirá neste tipo de levantamentos. «Demagogia», nesse sentido, encontramo-la nos trabalhos de diversos autores. Para citar alguns contemporâneos: em Pieter Hugo, com os vestígios dos massacres do Ruanda; em Steven Laxton e as suas fotografias de sobreviventes do Holocausto; em Franziska Vu, com os detidos nas celas da Stasi; em Guillaume Herbaut e as vítimas de Hiroxima; em Suzanne Opton e os seus close-ups dos rostos inexpressivos de soldados americanos vindos do Iraque; em Raphaël Dallaporta com imagens das residências burguesas onde viveram mulheres exploradas; em Dana Ropa e os seus retratos de antigas escravas sexuais que regressaram à Moldávia natal. Em todos estes projectos, não há uma intenção estritamente documental ou testemunhal mas um assumido propósito «artístico», inquestionavelmente «comprometido» com o objecto fotografado, mas nem por isso menos interessante e até, em certos casos, admirável. A militância e o engajamento em nada retiram valor artístico a estes projectos, questão de há muito ultrapassada. Alguns desses levantamentos têm, aliás, como propósito primordial servir uma causa justa. Lembre-se, por exemplo, do trabalho de Peter Pütener (Totenklage, 2006), que fotografou as roupas dos mortos na Bósnia com o intuito de possibilitar o reconhecimento dos cadáveres pelos seus familiares ou amigos. Porém, quando entramos no site que aloja este projecto de Ashley Gilbertson e podemos navegar pelos bedrooms of the fallen, aproximando o cursor (e o olhar) deste pormenor ou daquele, interrogamo-nos sobre se não existirá aqui um voyeurismo que questiona radicalmente os fundamentos deste projecto fotográfico, sejam quais forem as intenções subjectivas – e por certo generosas – que lhe estão subjacentes. As imagens, naturalmente, foram captadas com autorização. Mas, até em nome de uma homenagem póstuma às vítimas, será legítimo podermos deixar deslizar o rato do computador pelos seus quartos, refúgios privados de jovens, normalmente avessos à intrusão alheia e muito ciosos da sua intimidade? Nas fotografias divulgadas online, movemo-nos como se lá estivéssemos, mudando de ângulo e perspectiva, fixando o olhar em objectos íntimos, o que adensa suspeições de uma manipulação emocional gratuita.
A questão é complexa e não quero discuti-la em profundidade. O autor fala do seu projecto aqui e aqui. Explica-o, explica-se. O The New York Times, para o qual trabalha, também o apresenta: aqui. O leitor que forme a sua opinião. O que me surpreende é que este projecto, segundo creio, não pareceu suscitar controvérsia e debate, tendo sido aclamado pela crítica e até já premiado. Porventura, a existirem reacções negativas, elas surgirão dos defensores da intervenção norte-americana no Afeganistão e no Iraque, possuindo, pois, contornos político-ideológicos que nos afastam do ponto que me interessa discutir.
É certo que muitos projectos desta natureza comportam sempre um ineliminável risco de manipulação emocional e até de intrusão na privacidade alheia. Esse risco é potenciado sempre que o fotógrafo busca um perspectiva diferente sobre uma realidade já conhecida e observada. Aliás, quanto mais uma realidade foi escrutinada mais a busca de originalidade conduz os autores por caminhos que suscitam nuitas interrogações, sobretudo do foro ético. Quem percorrer as páginas de The Last Album. Eyes from the ashes of Auschwitz-Birkenau, organizado por Ann Weiss, que reúne imagens de álbuns de família de vítimas do Holocausto, com fotografias de infância, de festas e casamentos, de férias felizes, compreenderá decerto a que me refiro. O mesmo ocorre, por exemplo, com o projecto Ausencias (2006), do argentino Gustavo Germano, que se baseia em imagens antigas da vida doméstica de desaparecidos durante a ditadura militar.
Ashley Gilbertson quis captar a realidade da guerra de uma forma menos usual e mais subtil daquela a que estamos acostumados. Mas, o que é paradoxal, parece faltar justamente alguma subtileza na sua abordagem. Existe aqui uma estranha perda de autocontenção e até, de certo modo, alguma falta de inteligência do olhar, ao contrário do que sucede, por exemplo, nos trabalhos de Taryn Simon, com realce para A Living Man Declared Dead and Other Chapters, que afortunadamente vi na Tate Modern em Julho do ano passado. Em breve gostaria de falar de Taryn Simon.
António Araújo
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