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segunda-feira, 4 de março de 2024

Resposta a Clara Pinto Correia.

 




Em resposta a um texto da minha autoria, intitulado “Clara Pinto Correia: adeus, princesa” (Diário de Notícias, de 25/2/2024), Clara Pinto Correia (CPC) publicou, no Página Um, um artigo em que põe em causa a minha honorabilidade profissional, questionando a qualidade e o rigor do trabalho que desenvolvi.

Não vou tecer quaisquer comentários sobre a apreciação que faz do meu texto, nem sobre os epítetos que me dirige (“homúnculo”, “nulidade”, “a criatura”, “aprendiz de feiticeiro”, “o despistado”, “jornalista limitado”, “apressado cronista de costumes”, “uma personalidade de todo em todo alérgica a dar um passo dentro de uma biblioteca”).

Cingir-me-ei, tão-só, aos erros e supostas falsidades que me imputa:

 

1 – Acusa-me Clara Pinto Correia de ter deturpado uma frase da sua autoria (“este aprendiz de feiticeiro manipulou e não foi pouco”). Segundo ela, a frase que escreveu foi “Numa lindas manhãs de sol, só nós dois, a passarada, e o anel de benzeno.”  E a que eu escrevi foi: “Só nós os dois e a passarada, em manhãs muito lindas, cintilantes de sol de Inverno.

Sucede, porém, que, neste texto da sua autoria, que citei, constante da Newsletter da Faculdade de Medicina, nº 82, de Outubro de 2018, o que está escrito é, ipisis verbis, “Só nós os dois e a passarada, em manhãs muito lindas, cintilantes de sol de Inverno.

Portanto:

a)    – a frase que Clara Pinto Correia diz que escreveu não consta do texto assinado e publicado por ela na Newsletter da Faculdade de Medicina;

b)    – a frase que eu citei é a que consta, sem tirar nem pôr, do texto que ela escreveu e deu à estampa.   

 

Que Clara Pinto Correia não se recorde de tudo o que escreveu, não é grave.

Grave é nem ter tido o cuidado de verificar a sua prosa, antes de acusar levianamente os outros de a terem deturpado.

 

– Acusa-me Clara Pinto Correia de ser “um jornalista que pelos vistos tem preguiça de investigar” e que o meu texto parece “escrito à pressa por um estagiário”, uma vez que cometi um lapso ao dizer que ela é a mais velha de quatro irmãs.

Simplesmente, não foi um estagiário que fez tal afirmação – pelos vistos, errada –, mas o decano dos jornalistas portugueses, Adelino Gomes, num artigo saído no Público, em 26/12/2000, onde se refere textualmente “professora universitária e escritora Clara Pinto Correia, a mais velha de quatro irmãs”.  

Pergunto-lhe apenas se considera Adelino Gomes “um jornalista que pelos vistos tem preguiça de investigar.” E agora?

 

3 – Clara Pinto Correia desmente ter escrito livros de ficção científica.

Acontece que essa afirmação não é minha, mas da Infopédia, a qual afirma que ela tem “a tendência para mesclar géneros romanescos (o policial, a ficção científica)”. Aliás, a mesma Infopédia informa que o livro que escreveu em parceria Mário de Carvalho tem “um pendor mais próximo da ficção científica”. De resto, e para fim de conversa, Clara Pinto Correia participou no livro Ficções Científicas e Fantásticas, um género que, diz agora, “eu francamente detesto.”

Que ela não se lembre do muito que escreveu, não é grave.

Que não tenha procurado informar-se, é lamentável.

 

4 – Clara Pinto Correia refere que eu digo que ela casou em Las Vegas com Pedro Palma. Não sou eu que o digo, é isso que se infere desta reportagem Correio da Manhã, Vidas, de 16/1/2010, disponível aqui, para a qual, aliás, ela contribuiu com declarações.  

 

***

 

No texto que escrevi sobre Clara Pinto Correia, omiti deliberadamente, como é óbvio, aspectos pessoais e íntimos (v.g., os anteriores casamentos, os filhos adoptivos), só falando daquilo que é do conhecimento público (v.g., os plágios, as fotografias dos orgasmos), matérias sobre as quais, aliás, a própria se pronunciou abundantemente em centenas de entrevistas e declarações à imprensa, que li na íntegra, de fio a pavio, como, já agora, visionei dezenas de horas dos vários programas em que participou.

Procurei, como sempre faço na série “Prova de Vida”, escrever um texto equilibrado e justo para o visado, no qual, note-se, classifico o seu livro Adeus, Princesa como “uma obra-prima”, digo que o seu pai era “uma das maiores sumidades mundiais no ramo da gastroenterologia”, afirmo que é “comovente” o relato que Clara faz dos passeios com o seu pai, refiro que ela foi “a primeira jornalista portuguesa” a escrever sobre o lince da Malcata, e que nas suas três carreiras – cientista, jornalista, escritora – se destacou “quer pela exuberância do brilho, quer pelo impressionante ritmo da sua produção.”

Mais ainda: refiro que, “como cientista, publicou nas mais prestigiadas revistas do mundo” e, como escritora, “publicou cinco dezenas de livros, ou mais, cobrindo todos os géneros.” Refiro também que se doutorou “com louvor unânime” e que nos EUA teve o “período mais fecundo da sua carreira.” Depois, saliento que fez, “e bem” (sic), o que lhe deu na real gana, mas que acabou sendo “uma vítima não-inocente” do paroquialismo do meio cultural português, que procedeu à sua “defenestração implacável”, em parte por “inveja”, em parte por “atávica misoginia.”

Num balanço final, acrescento que nunca se procedeu a uma avaliação isenta da sua obra, que permitisse “distinguir aquilo que tem efectivo valor e interesse (quase todos os seus trabalhos de divulgação de ciência, muitos dos quais pioneiros) daquilo que se mostra mais duvidoso (praticamente toda a obra literária).”

Clara Pinto Correia por certo estava à espera de um ditirambo acrítico – e acéfalo –, mas, temos pena, um perfil biográfico não pode ser um derramar de elogios atrás de elogios sobre o biografado. De resto, foi o facto de ter sido alvo, em muito nova, de um processo de “genialização instantânea” que, como digo no meu texto, acabou por marcar o seu destino e criar o ego desmesurado que, pelos vistos, ainda mantém.  

O texto que escrevi, garanto-lhe, não contém plágios, mas terá lapsos e erros. Em todo o caso, nenhum dos que Clara Pinto Correia me aponta, sendo citadas todas as fontes de informação, como convém, e que ela bem poderia ter consultado antes de ter posto em causa o meu brio profissional e o rigor do meu trabalho, coisa que não fiz em relação ao trabalho dela, bem pelo contrário. Julguei ter escrito um texto suave e ponderado, compassivo e terno, mas Clara assim não o percebeu, o que é um problema dela – ou, melhor, o que é o problema dela.

 

  António Araújo 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Tomás da Fonseca.

 



Leio sobre o início da vida dele e parece que estou a ler sobre o meu pai, nascido sete décadas depois: cresceu numa família de proprietários rurais; cedo se juntou à lavoura, tal como os muitos irmãos; teve de caminhar quilómetros e quilómetros, duas vezes por dia, para poder estudar; prosseguiu os estudos num seminário bem longe; e abandonou o seminário antes de se tornar padre, para desgosto dos pais. 

Mas ao contrário do meu pai, católico até hoje, Tomás da Fonseca tornou-se um ateísta fervoroso e militante para o resto da vida. Em artigos de jornal e nos livros que publicou, criticou o sadismo, a misoginia e a pedofilia nos seminários; escreveu que os professores deviam ser carinhosos para com os alunos, e não punitivos como era norma; pugnou por um ensino laico, liberto de obscurantismos e democrático (na região onde cresceu havia apenas uma turma para 12 raparigas em 20 quilómetros, enquanto três das muitas turmas para rapazes tinham falta de alunos). 

Foi assessor na Primeira República, odiou o sidonismo e ainda mais o Estado Novo, que o prendeu no Aljube por ter escrito sobre o Tarrafal. Criticou a beatificação de Nuno Álvares Pereira, instrumentalizado por monarquistas e conservadores no final da República. E, mais do que tudo, lançou-se de unhas e dentes contra o Cardeal Cerejeira e outros dois membros do clero por, juntos, terem montado a estratégia propagandística que fez das visões de Fátima, décadas antes, um fenómeno nacional e internacional com reconhecimento, até, pelo próprio Papa. 

Tomás da Fonseca morreu a 12 de Fevereiro de 1968, meses antes da queda de Salazar e anos antes do fim do Estado Novo. Bem no centro da sua Mortágua natal, a longa Rua Tomás da Fonseca serve de residência para a biblioteca municipal (a que foi dado o nome de um seu filho) e conduz os visitantes até uma Praceta 25 de Abril na qual se encontra um busto deste escritor, activista e professor. A apenas 10 minutos dali, de carro, chega-se a Santa Comba Dão e ao seu Largo Dr. Salazar. Duas mundivisões tão distintas em tão curta distância. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha



domingo, 3 de setembro de 2023

E nós, calamo-nos?

 



          "Error 404. Sorry, we can't seem to find the page you're looking for. The link you requested might be broken or no longer exists. Why not start at our home page?".

          Esta é a mensagem que a Taylor & Francis colocou há dias na página digital onde constava, para venda, a obra Sexual Misconduct in Academia. Informing An Ethics of Care in the University, publicada pela Routledge, chancela daquele grupo editorial, e coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          A obra fora suspensa há dois meses, não tendo sido indicados os fundamentos que concorreram para tal decisão. Esta semana, soube-se que a Routledge decidiu eliminar do livro o capítulo 12, intitulado "The walls spoke when no one else would. Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia" (pp. 208-223), assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom.

          Aquilo que começou por ser uma denúncia de abuso sexual e extractivismo académico, tornou-se agora, como facilmente se percebe, um caso gritante e grotesco de censura, um inconcebível ataque às liberdades: à liberdade de expressão e de pensamento, desde logo; e à liberdade científica, pois, não o esqueçamos, o texto censurado não é um artigo de opinião, é um artigo científico, publicado de acordo com os mais exigentes protocolos (v.g., peer-review), por uma das editoras mais prestigiadas na área das ciências sociais.

          Não por acaso, o principal visado no texto das três académicas, Boaventura Sousa Santos (BSS), publicou na Routledge os livros Globalizing Institutions. Case Studies in Regulation and Innovation (2000, com Jane Jenson), Epistemologies of the South. Against Epistemicide (2014), Reinventing Democracy. Grassroots Movements in Portugal (2019, com Arriscado Nunes), Knowledges Born in the Struggle. Constructing the Epistemologies of the Global South (2020, com Maria Paula Meneses), Demodiversity. Toward Post-Abyssal Democracies (2020, com José Mendes), The Pluriverse of Human Rights: The Diversity of Struggles for Dignity (2021, com Bruno Sena Martins), Decolonizing Constitutionalism. Beyond False or Impossible Promises (2023, com Sara Araújo e Orlando Aragón Andrade), From The Pandemic to Utopia. The Future Begins Now (2023).

          Caso para perguntar: a mesma editora de BSS publica artigos com falsidades e difamações?

 

          Recuemos um pouco. No início de Junho, a Routledge recebeu uma carta de cease-and-desist de um obscuro "portuguese lawyer", cuja identidade se desconhece, agindo em nome de alguém cujo nome também nunca foi revelado (porventura um dos alegados assediadores visados no referido capítulo 12). Não se sabe, ninguém dá a cara, ninguém tem a coragem ou a hombridade de assumir que falou com a Routledge – é importante dizer que não foi por iniciativa desta, mas a pedido ou mando de um inquisidor oculto, que a editora actuou.

          O “portuguese lawyer” exigia que a Routledge suspendesse a publicação daquele texto e que adoptasse algumas "formas de mitigação do dano causado à reputação, saúde e trabalho académico" do suposto assediador, bem como da reputação do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra. Caso a Routledge não respeitasse as suas exigências, avançaria para tribunal.

        Perante isto, a Taylor & Francis e a Routledge decidiram suspender temporariamente o livro, retirando-o do mercado e limitando-se a dizer, na sua página online, que a obra estava "sob revisão": "This content is temporarily unavailable as it's currently under review" ("O conteúdo deste livro está temporariamente indisponível, por se encontrar sob revisão").

          Três meses depois, a 31 de Agosto, a Routledge tomou a decisão final de censurar o capítulo, revertendo os respectivos direitos de publicação para as autoras. Segundo a mensagem da editora, enviada às três autoras do artigo, as duas coordenadoras do livro teriam “aceitado e compreendido a posição da Routledge” ("We have spoken with Erin and Delyth, who understand this decision").

          Ora, isto é falso, descaradamente falso, como se depreende pelo artigo da jornalista Fernando Câncio, no Diário de Notícias de 31 de Agosto – "Editora britânica retira capítulo que acusa Boaventura [de Sousa Santos] em livro sobre assédio sexual" –, onde as coordenadoras, Erin Pritchard e Delyth Edwards, afirmam estar "muito desapontadas com o facto de a Routledge ter tomado a decisão de retirar permanentemente de publicação o capítulo 12 e possivelmente o próprio livro. Isto corresponde a pôr-se do lado dos que estão a tentar silenciar este livro, sem fazer qualquer tentativa de apoiar o livro contra as ameaças legais e, portanto, não defendendo a liberdade académica nem o direito dos sobreviventes de assédio sexual de falarem das suas experiências. Tomar a decisão de retirar permanentemente o capítulo não é mais que uma forma de apoiar o abuso de poder sistemático na academia". Um entendimento bem diferente, portanto, daquele que a editora dava a entender na mensagem enviada às autoras do capítulo 12.

          Percebe-se a atitude das coordenadoras e das autoras do livro. Desde logo, porque nem umas nem outras conhecem os fundamentos da decisão, já que a Routledge, em nenhum momento, as informou das razões que a levaram a censurar aquele capítulo.

De igual modo, a Routledge ainda não revelou o nome do advogado português que escreveu e enviou para Inglaterra a carta de "cease-and-desist", que levou à censura do capítulo, nem revelou a identidade do queixoso.

          Quem pensa que não é importante conhecer o nome do "portuguese lawyer" e do seu mandante, está inteiramente enganado. Ambos têm de dar a cara. Quem são eles?

          Para se poderem defender da denúncia do advogado, as autoras do capítulo precisam de saber os nomes de quem está por trás disto tudo (não será descabido perguntar, também, porque é que a Routledge mantém o anonimato do "portuguese lawyer" e do cliente que contratou os seus serviços).

          É que a Routledge, ao censurar o capítulo 12 – praticando um epistemicídio, como diria BSS –, parece corroborar assim o sentido das queixas de Boaventura de Sousa Santos (BSS), segundo o qual estaria a ser alvo de uma "difamação vergonhosa e vil".

          Isto depois, não esqueçamos, de o próprio BSS já ter admitido "comportamentos inapropriados", típicos de quem, como ele, nascido em 1940, pertence a uma geração em que tais atitudes eram aceites pela sociedade ("Reconheço que em determinados momentos possa ter sido protagonista de alguns desses comportamentos", Expresso, 4 de Junho de 2023); e de a própria Routledge ter publicado há cerca de um mês (Julho) uma obra coordenada por BSS, Decolonizing Constitutionalism, Beyond False orImpossible Promises.

          Uma decisão também, já agora, enquanto decorre no CES um inquérito (liderado pela Comissão Independente do Centro de Estudos Sociais, "para o esclarecimento de eventuais situações de assédio"), cujas conclusões ainda ninguém sabe quais serão.

          E se o inquérito vier a demonstrar que BSS praticou, realmente, alguns daqueles actos graves, descritos no capítulo 12? Como ficará a reputação e o prestígio da Routledge? Não teria sido mais prudente e avisado ter aguardado pelas conclusões do inquérito? Este timing não é estranho? Ou será que a Routledge já sabe que o inquérito não vai dar em nada e, temendo um futuro processo judicial, resolveu antecipar-se?

          Por outro lado, não é estranho que, dos nomes falados na esfera pública – mas nunca citados no artigo, note-se, e a saber, BSS, Bruno Sena Martins e Maria Paula Meneses –, nenhum tenha a coragem e a frontalidade de assumir que se queixou à editora?

          Bruno Sena Martins negou a autoria da acção ("Não desencadeei qualquer acção legal junto da editora"), BSS começou por não responder – andou às voltas, com rodriguinhos e meias palavras – e depois reconheceu que conversou com a Routledge sobre o capítulo 12, mas não assumiu a paternidade da queixa e da diligência junto da sua própria editora.

          Um processo inaudito: nem o nome do advogado se conhece! Quem e o quê se pretende esconder? A má consciência por ter promovido uma censura académica?

          Como quer que seja, uma evidência se impõe: nunca se viu uma coisa assim. Uma editora de um país democrático como Inglaterra, que se rege pelo princípio da liberdade de expressão, decidiu censurar um artigo académico. E, caso se confirme que a diligência do “portuguese lawyer” se deveu a BSS, tem este agora de responder por duas suspeitas graves: a de assédio sexual e a de censura académica.

          A situação é de uma clareza meridiana: a Routledge submeteu o livro ao sistema de arbitragem científica, ou revisão por pares (peer review ou refereeing), o qual deu luz verde à publicação da obra coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          Goste-se ou não se goste, os especialistas – e a editora aconselhada por estes – consideraram que todos os capítulos tinham qualidade suficiente para serem publicados na "editora académica líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais" ("Today Routledge is the world's leading academic publisher in the Humanities and Social Sciences. We publish thousands of books and journals each year. Founded in 1836, we have published many of the greatest thinkers and scholars of the last hundred years, including Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse and Sartre", lê-se no respectivo site).

          Agora, confrontada com as ameaças de um "portuguese lawyer", a editora vem desdizer os especialistas por ela escolhidos, reconhecendo (implicitamente) que o seu sistema de avaliação está avariado? Depois do acordo ou consenso entre os especialistas daquela área, decidiu publicar o capítulo 12 e, depois de publicado, vem agora retirá-lo de publicação?

          É que, conforme lembrou uma das autoras, "o livro foi feito com altos padrões de qualidade. Foi sujeito a várias revisões e avaliações antes de ser publicado. É um livro de alta qualidade. Mas alguém demandou as responsáveis ou a editora porque contém um artigo que denuncia um caso de assédio sexual, e essa pessoa não gostou" (afirmações reproduzidas por Fernanda Câncio, "Acção legal na origem de suspensão de livro que denuncia Boaventura. Autora fala em 'silenciamento'", Diário de Notícias, 13 de Agosto de 2023).

          Repare-se, e insista-se, que o texto assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom não é um mero artigo de opinião, passou pelos mais exigentes processos de revisão científica de uma das mais exigentes editoras europeias.

          Para que não restem dúvidas, Lieselotte Viaene é antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Carlos III, de Madrid, tem um doutoramento em Direito (Ghent University, Bélgica, 2011), artigos publicados em revistas internacionais indexadas, como Journal of Transitional Justice, Critique of Anthropology, International Human Rights Journal, Netherlands Quartely of Human Rights, Antipoda. Revista de Antropologìa y Arquelogìa, teve uma bolsa individual Marie Curie (2016-2018) e trabalhou nas Nações Unidas, no gabinete do Alto Comissário dos Direitos Humanos (2010-2013).

          Por sua vez, Catarina Laranjeiro é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa), é mestre em Antropologia Visual e dos Media, na Freie Universitaet Berlin, doutorada em Pós-Colonialismos e Cidadania Global pelo CES (Universidade de Coimbra), tem artigos na The Internacional History Review e publicou na editora Palgrave Macmillan (Londres).

          Myie Nadia Tom é professora na Universidade do Nebraska (EUA), estudou na Universidade de São Francisco e na Universidade Complutense de Madrid, e publicou artigos na International Review of Education (revista da UNESCO, num número organizado por si), na Comparative Education Review e na University of Wisconsin Press (EUA).

          Erin Pritchard, uma das coordenadoras do livro, é professora na Universidade de Liverpool, doutorada pela Universidade de Newcastle, é editora da revista académica Disability & Society, tem artigos publicados em revistas como The Canadian Journal of Disability Research ou The Scandinavian Journal of Disability Research, e investigação publicada na Bloomsbury Academic ou na Peter Lang.

          Delyth Edwards, a outra coordenadora, foi docente em Sociologia da Infância e da Juventude na Universidade de Liverpool, é actualmente professora na Universidade de Leeds (Inglaterra), na área da Inclusão, Infância e Juventude, fez o doutoramento em Sociologia na Queens University (Belfast), o mestrado em Investigação Sociológica na University of Essex, tem artigos em revistas académicas como Cultural Trends e investigação publicada em editoras como a Sage ou a Springer International Publishing.

          Estes são os currículos das mulheres envolvidas. E o livro, nunca é demais insistir, foi sujeito aos procedimentos de qualidade e rigor científicos da editora do próprio Boaventura de Sousa Santos.

          A exclusão do capítulo significa que a editora não o considera científico? Se é assim, por que razão o publicou? Não o devia ter rejeitado antes?

          E, no meio desta história toda, como ficam os cientistas responsáveis pelo peer-review do livro? A decisão tomada não representará um atropelo à sua dignidade formal e profissional? O mesmo em relação às autoras, cujos indesejáveis danos reputacionais são difíceis de prever. E os processos de publicação e controlo de qualidade científica da Routledge? Não ficam postos em causa? É que, aparentemente, os procedimentos editoriais da líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais não primam pelo rigor...

          Que BSS se comporte como um senhor feudal, já não nos surpreende. O mesmo não poderemos dizer de uma editora como a Routledge, cujo acto de censura não honra a sua história (uma história, não é despiciendo relembrar, que começou em 1836 e que inclui a publicação de pensadores e académicos como Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse e Sartre).

          O cúmulo da ironia, ou da hipocrisia, é que a Taylor & Francis, proprietária da Routledge, até se permite (e muito bem!) fornecer conselhos aos seusautores/as vítimas de assédio na academia... 

O texto ora censurado, insiste-se, passou o crivo da revisão científica, foi avalizado pelos académicos escolhidos pela editora. E, já agora, censurado porquê? Por ser difamatório? Por falta de qualidade? Não se sabe, porque a Routledge jamais esclarece. E tem a obrigação de fazê-lo, até para que as lesadas, caso queiram, contestem a decisão tomada, em tribunal ou fora dele. Assim, sem explicação alguma, estamos no reino do arbítrio puro, do tirânico “posso, quero e mando”.

Para quem publica obras sobre a democracia e os direitos humanos, sobre os oprimidos deste mundo, sobre as vítimas de violência, sobre racismo e feminismo, tudo isto é, como disse uma das alegadas vítimas de Boaventura, "um escândalo internacional".

 

          A decisão da Routledge supõe uma grande novidade, de efeitos imprevisíveis, que deveria deixar apreensivos os investigadores académicos de todo mundo quanto à sequência dos acontecimentos futuros.

          Colocada entre dois fogos – por um lado, a denúncia das autoras do capítulo 12 (Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom) e, por outro lado, supõe-se, a queixa de Boaventura de Sousa Santos, um académico com enorme poder internacional, com vários livros publicados na Routledge, muitos deles traduzidos noutros idiomas e em vários países da América do Sul, o que representará, decerto, elevados proveitos para a Routledge) –, a editora escolheu o lado do mais forte.

          O mesmo lado – o de Boaventura de Sousa Santos – que há um ano dizia, a propósito da guerra na Ucrânia, da NATO e dos EUA, que se estava a criar "um novo período de caça às bruxas muito semelhante ao que se viveu nos EUA na década de 50 e que ficou conhecido por Macarthismo". 

          Não tenhamos dúvidas: estamos perante um acto insofismável de censura, que viola o espírito de crítica e de liberdade de pensamento, e que deve ser denunciado sem quartel nem tréguas. Casos como estes não podem ser escamoteados ou relativizados, com base em interesses ideológicos, profissionais ou pessoais. Perante este acto de silenciamento, estranha-se o silêncio dos que se proclamam defensores dos mais fracos e oprimidos. 

          O que se passou neste final de Agosto de 2023 é um dos mais bárbaros e iníquos atentados à liberdade de expressão académica, perpetrado por uma das editoras mais prestigiadas do mundo que se arrogou no direito de censurar um texto que havia publicado – e, pior ainda, fazendo-o com base numa denúncia anónima de um “portuguese lawyer” e sem justificar ou fundamentar o seu acto.

          O poder académico perpetuou, durante anos, situações de assédio sexual e moral e de extractivismo intelectual. Agora, amordaça o pensamento e censura a liberdade. E nós, calamo-nos?

 

João Pedro George

 



sexta-feira, 7 de outubro de 2022

O Estado Novo em que os intelectuais não eram espancados, mas altamente vigiados, silenciados.

 






Brandos Costumes… O Estado Novo, a PIDE e os intelectuais, com coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2022, é um livro que resulta de um projeto de investigação que pretende desvelar o comportamento da polícia política e da censura do Estado Novo face a intelectuais que não eram nada amáveis com o regime forjado por Salazar. O coordenador fala-nos na introdução dos brandos costumes dentro do pensamento único exigido pelo ditador, como funcionavam os órgãos repressivos desse regime, como vigiava a PIDE quem afrontava ou procurava desmitificar a ditadura, chamasse-se Aquilino Ribeiro ou Soeiro Pereira Gomes, Amílcar Cabral ou Agostinho Neto. Há a preocupação de lembrar o papel da Censura, ela definia os livros cuja circulação era proibida, uma lista farta, incluía obras revolucionárias, obras que abordavam o comunismo, livros de teoria política como os de Maurice Duverger ou Raymond Aron, a obra de Sartre ou Simone de Beauvoir, não faltavam os portugueses como José Vilhena, Natália Correia, Manuel Alegre, como também algumas obras de Jorge Amado. E todos aqueles que assinavam documentos de índole política apelando à libertação de presos ou à reposição das liberdades de expressão iriam ter uma vida menos fácil.

Tomás da Fonseca, que para muitos era o Tomás das Barbas, escritor anticlerical em a quem se deve talvez o libelo mais demolidor sobre as aparições de Fátima, era alvo das atenções da PIDE, teve muitos livros apreendidos, a polícia tratava-o como simpatizante do PCP, que em todos os seus interrogatórios Tomás da Fonseca negou, a despeito das ligações fraternas que manteve com comunistas e companheiros de estrada. O seu funeral foi alvo de relatório da polícia secreta, não se escondeu que chegou um cortejo automóvel com cerca de 100 viaturas ao cemitério de Mortágua onde o esperava uma multidão de 800 a 900 pessoas. Aquilino Ribeiro também não foi poupado, se bem que um dia Salazar lhe tenha tecido elogios, quando um jornalista francês que lhe pediu para conhecer a realidade nacional, o ditador respondeu: “Comece o seu inquérito por Aquilino. É um inimigo do regime. Dir-lhe-á mal de mim, mas não me importa: é um grande escritor.” Acontece que Aquilino era alvo de admiração de pessoas como Marcello Caetano, Santos Costa, António Ferro, Caeiro da Mata, Rafael Duque, incondicionais do salazarismo. O ensaio sobre Aquilino aborda o processo da rotura de Aquilino com o regime, a fúria com que foi recebido o romance Quando os Lobos Uivam, refere como Aquilino era indiciado por vários delitos, tais como: fazer perigar o bom nome de Portugal, bem como o crédito e o prestígio do Estado português no estrangeiro; fazer a apologia de crimes contra a segurança do Estado; injuriar e ofender o Presidente do Conselho e os demais ministros, etc., etc. Nem mesmo a sua indigitação para o Prémio Nobel da Literatura acalmou a vigilância da PIDE. Com Ferreira de Castro, talvez por ser ao tempo o escritor com mais traduções, a repressão era selecionada, a PIDE considerava-o “desafeto ao regime”, sabia-se das suas ligações aos intelectuais de oposição, mas salvaguardavam-se as distâncias, Ferreira de Castro era nome sonante na literatura internacional, temia-se o ridículo pondo no Índex qualquer uma das suas obras.

Situação execrável foi o processo de Andrée Crabbé Rocha na PIDE. O marido, Miguel Torga, sempre recusou enviar as obras à censura prévia, a polícia política sentiu-se afrontada, Torga conheceu a cadeia do Aljube, livros queimados, apreendidos, proibidos. Andrée Rocha foi demitida da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947 e cinquenta anos depois partilhou no Expresso as suas memórias: “[…] nunca nas minhas aulas de literatura portuguesa e de literatura francesa falei em política. Talvez tivessem descoberto que eu era mulher de Miguel Torga. […] nada pude fazer em relação à decisão. Passados 2 anos, abriu um concurso para professor extraordinário em que era necessário apresentar um trabalho. Preparei um sobre o Cancioneiro Geral de Garcia Resende. No dia das provas recebi um ofício da reitoria a dizer que não as podia prestar. Solicitei durante 21 anos a realização da prova, e durante todo este tempo me foi recusado. Fui obrigada a dar lições particulares em Coimbra, para onde me mudei, e frequentei outro curso, que me permitiu dar aulas em colégios particulares. Mas em 1955, até esse diploma me tiraram”. Andrée Rocha era classificada na PIDE como mulher do comunista Torga, só pôde retomar funções universitárias na Faculdade de Letras de Lisboa em março de 1970.

O percurso de Soeiro Pereira Gomes foi a de um regente agrícola que foi viver para Alhandra e se tornou empregado de escritório na fábrica Cimento Tejo, cedo se comprometeu com o ideário comunista, movia-se pela vontade de proteger os humildes, como é explícito na sua obra maior Esteiros, a vida de crianças conduzidas ao duro trabalho naquela região ribatejana. A PIDE tinha-o sob vigilância, ele teve um papel de grande importância na greve dos operários daquela fábrica, Soeiro teve que fugir, vai conhecer a clandestinidade mais dura, é um intelectual comunista. Esteiros recebeu mesmo elogios de Marcello Caetano, é obra escrita em 1941, havia uma réstia de esperança na vitória dos Aliados e que esta comportaria a queda do regime de Salazar. Dado curioso, a obra foi lida e autorizada pelo tenente-coronel Salvação Barreto, diretor da Censura, muitos anos depois esta mesma Censura considerou que o livro deveria ter sido proibido quando apareceu, “mas agora deve ser ignorado”, pois que a proibição agora só serviria à sua propaganda no nosso meio”. O escritor, agitador e quadro de topo do PCP morreu muito novo, em 1949, conceituados escritores como Ferreira de Castro reconheciam o seu imenso talento.

O leitor encontrará ainda nesta obra trabalhos bem elucidativos sobre a vigilância da PIDE a Fernando Namora, Jorge de Sena, as obras teatrais, o trabalho dos informadores da polícia política, as péssimas relações de figuras da Igreja Católica com o Estado Novo a partir da década de 1960, a PIDE no encalço de Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Luís Reis Torgal não deixa de referir na conclusão que não passou de um mito a ideia de intolerância branda, e se é certo que a ação policial da PIDE não é comparável com os sistemas racistas e antissemitas ou com as práticas da violência sem limites no estalinismo, o regime de Salazar quis-se intransigente, perseguindo ou asfixiando as ideias e práticas anarquistas e comunistas, mas também as simplesmente liberais, católico-progressistas ou até monárquicas; e a guerra colonial veio a justificar a permanência dessa repressão deixando bem claro que isso dos brandos costumes não passou de um mito.

A pedir leitura urgente. 



Mário Beja Santos 










sexta-feira, 25 de junho de 2021

Integrado Marginal.

 

 



          Acabei de ler a biografia de José Cardoso Pires escrita pelo Bruno Vieira Amaral (BVA) e depois li esta recensão de Luís Miguel Rosa (LMR). Sou amigo e admirador do Bruno há muitos anos e não conheço Luís Miguel Rosa (que, diga-se, me parece culto, lido e informado), mas parece-me que eu e ele não lemos o mesmo livro. Eu li Integrado Marginal, ele leu Marginal Integrado e o facto de se enganar no título do livro (e de repetir o erro vezes sem conta, ao longo da sua extensa recensão) talvez diga alguma coisa sobre o rigor com que a obra foi analisada ou, melhor dito, sobre o preconceito persecutório que anima o escrito de Luís Miguel Rosa da primeira à última linha.

Numa obra desta dimensão, com quase 600 páginas, haverá sempre lapsos e omissões e, se nos pusermos a esquadrinhar à lupa, falta sempre, mas sempre, alguma coisa (dois exemplos: ao falar do Congresso para a Liberdade da Cultura, de Pierre Emmanuel, BVA poderia falar das ligações à CIA daquela organização, objecto de um fascinante livro de Frances Stonor Saunders, com tradução espanhola – La CÍA y la guerra fría cultural – ou, ao aludir ao general Matthew Ridgway, poderia mencionar que a sua visita a França motivou um enorme protesto em Paris em 1952, «Ridgway, la peste!», com a prisão do dirigente comunista Jacques Duclos, o que era importante para situar o movimento pela paz onde andaram muitos intelectuais portugueses: mas coisas destas fariam sentido numa biografia de Cardoso Pires? Não, é óbvio). Em todo o caso, e não sendo eu especialista, parece-me que os lapsos apontados ao livro de BVA, admitindo que têm razão de ser, não são suficientes – de modo algum! – para descartamos uma obra desta envergadura, fruto de trabalho sério, na qual até o próprio LMR confessa ter ficado surpreendido com muito do que nela é revelado. E isso não vale para lhe dar nota mais do que positiva? (é significativo que, na hora de fazer um balanço global e final, LMR se abstenha de dizer o que pensa).   

O levantamento dos erros, porém, não só não é grave como é saudável e permitirá a BVA, estou certo disso, corrigi-los em futuras edições da obra. Grave é o seguinte: o que implícita e até explicitamente perpassa no texto de LMR é a crítica clássica, habitual e expectável, de que o biógrafo não soube afastar-se do biografado. Não é verdade, não é manifestamente verdade. Desde logo, BVA não perde oportunidade, em várias ocasiões, para alfinetar Cardoso Pires como marido e como pai, daí resultando um retrato nada favorável, para dizer o mínimo, o retrato de um misógino egoísta, excessivamente centrado na sua obra e na sua pessoa, alimentada a whiskies, cigarros e postas de pargo grelhado. Do ponto de vista humano, não é José, mas Edite, a mulher, quem avulta como personalidade e quem tem a tirada mais luminosa de todas, num extraordinário depoimento sobre o marido, constante da página 543. Depois de tudo quanto lemos sobre ele nas páginas anteriores, das suas frequentes ausências, do machismo reinante, das noitadas de copos, das viagens a solo, da incapacidade de manifestar afecto pelas filhas, da tirania de silêncio que impunha em casa quando estava a criar a sua «obra», as declarações compassivas de Edite ainda se tornam mais notáveis e, elas sim, reveladoras de uma grandeza que parece ter escapado ao esposo.   

Mais importante do que isso, BVA louva quando acha que tem de louvar, mas não deixa de criticar os muitos fracassos literários do seu biografado, de lhe apontar os bloqueios de escrita e os impasses de carreira, as eternas angústias de quem se sentia ultrapassado por outros na corrida a um estrelato literário que, à nossa escala, era caricato e risível (como, aliás, BVA bem mostra). Mas, sobretudo, BVA não deixa de apontar a falta de qualidade de várias coisas que Cardoso Pires produziu. Neste particular, aliás, um dos pontos que se pode criticar é até o seguinte: por vezes, aqui e acolá, BVA cede à tentação de fazer crítica literária dos livros de Cardoso Pires, não se limitando a situá-los no contexto da biografia do autor; em certos momentos, procede a uma análise interna das obras, o que talvez não seja muito canónico num texto biográfico, mas é perfeitamente adequado e compreensível.

Mas, acima de tudo, isto: o retrato de grupo que, no final do livro, avulta dos escritores daquela geração não é, digamos, famoso. A Censura e o Estado Novo explicarão alguma coisa, mas não redimem os nossos prosadores de uma tremenda pequenez, pessoal e intelectual, nem os resgatam de viverem afundados num meio periférico e paroquial, acotovelando-se uns aos outros na busca de efémera fama e escassa fortuna, na ânsia mesquinha dos prémios e das medalhas, sem horizontes culturais para além dos que recebiam de uma pátria remediada e triste (goste-se ou não, basta ler as entrevistas de Michel Houellebecq, acabadas de publicar entre nós com o título Intervenções, para percebermos que, mesmo hoje, poucos ou nenhuns escritores portugueses têm densidade e formação para dar as respostas  que ele dá). Curiosamente, no panteão dos desgraçados escritores do nosso século XX, talvez sejam os menos obcecados em criar uma «obra» e em ter uma «carreira», como Branquinho da Fonseca, Alexandre O’Neill ou Luiz Pacheco, os que melhor irão resistir à usura do tempo. E é essa a questão que fica, a de saber se, salvo uma ou outra excepção (De Profundis, Valsa Lenta; Lisboa, Livro de Bordo), os livros de Pires conseguirão sobreviver por muito tempo. É possível, até provável, que esta excelente biografia de Bruno Vieira Amaral dure mais do que as novelas do seu biografado. O futuro (e talvez já o presente) tenderá a ver José Cardoso Pires mais como figura-tipo de escritor uma dada época do que como um ficcionista merecedor de leitura e admiração.

 

António Araújo