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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Os Magos de Sant’Eustorgio de Milão.


 


No seu conto que é antecâmara da Epifania, Sophia de Mello Breyner atribui a cada um d’Os Três Reis do Oriente – Gaspar, Baltazar e Melchior – uma história particular e sobretudo uma razão para partir em busca da estrela mais brilhante. Independentemente da verosimilhança, a busca dos Magos interpela-nos quer nas escrituras e na tradição canónica, quer na elegante prosa de Sophia.

O regresso dos Magos a sua casa está envolto em maior mistério. São Mateus, o evangelista que narra a Epifania, relata que “avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho” (Mt 2, 12) – o que, em si mesmo, comporta o desafio alegórico aos que encontram Cristo para que sigam por outro caminho, um caminho melhor, depois desse encontro.

Os Magos, três na tradição ocidental, doze na tradição cristã oriental, voltaram “ao seu país” mas, de acordo com diversas lendas não necessariamente compatíveis, foram depois martirizados. O destino dos seus restos mortais foi igual ao de tantas outras relíquias e passou pela intervenção arrebatadora da Augusta (e futura santa) Helena, a mãe do Imperador Constantino, que na sua peregrinação à Terra Santa de 326-28 não só descobriu a Verdadeira Cruz como levou de volta a Constantinopla aqueles que se transformaram nos mais preciosos tesouros da Cristandade.


Campanário da Basílica de Sant’Eustorgio, em Milão, com uma estrela no topo.


As ossadas dos Magos partiram poucos anos depois com Eustórgio, que fora a Constantinopla para ser confirmado como novo bispo de Mediolanum, a Milão imperial, e regressou em 344 a casa com as preciosas relíquias, num pesado sarcófago de mármore arrastado por dois bois que, às portas da cidade, caíram de cansaço.

Como parte do seu ambicioso programa de difusão da Fé, o Bispo Eustórgio ordenou a construção de várias basílicas, consoante a categoria dos santos que albergariam: uma para os profetas, outra para os apóstolos, outra para os mártires e outra para as virgens. Eustórgio morreu com fama de “defensor da Fé” e elogiado pelos seus contemporâneos, passando a ser venerado localmente. Das basílicas que mandou construir restam ainda três, resistindo à modernidade que parece rodear-nos e que ofusca o que resta de Mediolanum, então capital do Império Romano do Ocidente.

Foi na basílica dos mártires, construída no lugar onde os bois se cansaram, que Eustórgio mandou sepultar os Magos, tendo passado a ser conhecida como Basílica dos Três Magos. No alto do campanário lá está uma estrela, em vez da habitual cruz. No portal principal, a estrela volta a marcar presença, por cima de um fresco que representa a visita dos Magos. No interior da basílica, permanece o túmulo manifestamente primitivo, sem adornos subsequentes, e, contudo, quase vazio.


Interior da Basílica de Sant’Eustorgio, em Milão.


Túmulo dos Magos, no interior da Basílica de Sant’Eustorgio.



Arca com representações da Viagem dos Magos, da Visita ao Menino e da Visita a Herodes, que teria servido para levar as relíquias de Constantinopla para Milão, no interior da Basílica de Sant’Eustorgio.

 

Em 1162, o Saque de Milão às mãos das tropas do Imperador Frederico, o célebre Barbarossa, lideradas por Rainald von Dassel, arcebispo de Colónia, viu a quase destruição da cidade. O arcebispo regressou com as preciosas relíquias e ofereceu-as ao Imperador que, por sua vez, as deu à cidade de Colónia – onde são ainda hoje veneradas num precioso relicário que honra, além dos Magos, o arcebispo que saqueou Milão.

Quase 750 anos e muitas tentativas de reaver os Magos – ou o que deles resta – depois, Colónia devolveu a Milão alguns fragmentos ósseos em 1903. Voltaram ao túmulo e à basílica que, entretanto, tomara o nome do seu fundador, Sant’Eustorgio, e que permanece um local onde a Fé é, surpreendentemente, um legado palpável.

Os Magos não são, de resto, a única atração da basílica, nem tampouco os únicos mártires que honram a evocação primitiva. Apesar de fisicamente ligada à basílica e na continuação da capela-mor, a Capela Portinari é uma construção autónoma e sobretudo com um estilo e identidade próprios.

Foi contruída entre 1462 e 1468 por ordem de Pigello Portinari, o representante do portentoso Banco dos Médici em Milão. Embora a arquitectura seja inspirada da Sacristia Velha da Basílica de São Lourenço em Florença (panteão dos Médici), obra de Brunelleschi, a decoração da Capela Portinari é bastante mais exuberante e considerada um dos melhores exemplos do Renascimento lombardo.


Pigello Portinari, fundador da Capela Portinari, representado aos pés de S. Pedro Mártir.

 

Cúpula da Capela Portinari, na Basilica de Sant’Eustorgio.

 

Cúpula da Capela Portinari, na Basílica de Sant’Eustorgio.

 

A capela é toda ela uma homenagem a São Pedro de Verona ou São Pedro Mártir, o padroeiro dos inquisidores, recordado pela sua oposição feroz às heresias e que acabou… removido do calendário romano em 1969 com o argumento de que o seu culto era irrelevante internacionalmente, mas certamente vítima do espírito conciliador do Concílio.

Pedro de Verona, dominicano, que fora frade em Sant’Eustorgio e veio a ser nomeado inquisidor para a Lombardia pelo Papa, foi atacado em 1252 por um grupo de sicários, um dos quais lhe enterrou um machado no crânio. Pedro terá molhado os dedos no sangue e escrito na terra o primeiro verso do Credo dos Apóstolos – Credo in Deum – antes de cair morto. A cena foi de tal forma marcante que o assassino arrependido e convertido veio a ser, ele próprio, beatificado. A Pedro o martírio valeu aquela que continua a ser a canonização mais rápida da história, alcançada em apenas 11 meses.

A cúpula da capela é surpreendente pelas cores que decoram os dezasseis segmentos e que criam um efeito quase psicadélico. Nas paredes, os frescos recordam alguns dos milagres atribuídos a Pedro de Verona em vida, uma nuvem milagrosa que protege uma multidão de um calor tórrido, um pé amputado e recolocado, e o mais sugestivo, o Milagre da Falsa Madonna, quando o inquisidor desmascarou o Demónio que se tinha disfarçado de Nossa Senhora – e assim se apresenta uma desconcertante e falsa Nossa Senhora, com chifres.


Fresco da Capela Portinari, na Basílica de Sant’Eustorgio, representando Pedro de Verona a escrever a primeira linha do Credo dos Apóstolos com o seu sangue.


Fresco representando Pedro de Verona a obrigar o Demónio, disfarçado de Nossa Senhora, a revelar-se.


Sumptuosa arca tumular de S. Pedro Mártir, na Capela Portinari.

 

As Virtudes, representadas na arca tumular de S. Pedro Mártir.

 

Pormenor da arca tumular de S. Pedro Mártir.


Alguns dos temas repetem-se na sumptuosa arca tumular de Pedro de Verona, em mármore branco de Carrara, colocada já no século XVIII no centro da capela, mas que precede em um século a construção da Capela Portinari. De grande riqueza iconográfica, a arca tumular, datada em 1339 e assinada por Giovanni di Balduccio, é suportada por oito pilares em mármore vermelho, junto aos quais estão oito figuras femininas representando as virtudes teológicas e as virtudes morais.

A cada 6 de Janeiro, Dia de Reis, o cortejo histórico dos Reis Magos atravessa Milão, partindo da Catedral até à Basílica de Sant’Eustorgio, antiga Basílica dos Três Magos e lugar onde ainda se veneram, junto a um inquisidor martirizado. Qualquer dos dias do ano é, no entanto, um bom dia para visitar Sant’Eustorgio.

Ademar Vala Marques

6 Janeiro 2025

Fotografias: Novembro 2024




quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Scorsese em estado de graça e para quem qualquer rosto humano tem um direito sobre nós.




Tudo terá começado em 3 de março de 2016, em Nova Iorque, um jesuíta e teólogo, Padre Antonio Spadaro, encontrou-se com Martin Scorsese em sua casa para discutir Silêncio, filme que o realizador italo-americano dedicou à perseguição aos jesuítas no Japão, e a relação do cineasta com a fé. Este livro compendia um conjunto de conversas sobre as motivações do cineasta, ele é questionado sobre a fé e a graça que, mais ou menos subtilmente, emergem das suas obras. O mínimo que se pode dizer do todo desta obra é que ficamos com o retrato de uma das principais figuras contemporâneas da sétima arte, Conversas Sobre a Fé, Casa das Letras, 2024.

Nesse primeiro encontro de 2016, Scorsese fala da sua juventude, era acólito e por vezes ao sair para a rua no fim da missa perguntava a si próprio: “Como é possível que a vida continue como se nada tivesse acontecido? Porque é que o mundo não é abalado pelo corpo e pelo sangue de Cristo?” Questão que o realizador tratou no cinema em filmes como O Touro Enraivecido, A Última Tentação de Cristo e o Silêncio. Padre e realizador irão encontrar-se durante o período da pandemia, falarão de pessoas e livros que influenciaram o realizador que continua obcecado em filmar sobre Jesus.

Fala-se inicialmente de Silêncio, dos jesuítas perseguidos no Japão. Scorsese é assumidamente católico, inquieta-o a questão da graça, algo acontece ao longo da vida e comenta: “Não se consegue ver através da experiência de outra pessoa, apenas da nossa. Por isso, pode parecer paradoxal, mas relacionei-me com o romance de Shūsaku Endō.” Contará ao entrevistador o que pensa das fascinantes e intrigantes personagens do romance, padres que perderam a sua fé, padres que descobriram o rosto de Cristo. Questionado se a compaixão é instinto ou humor, responde que a chave é a negação de nós mesmos, ele dá-se como obcecado pelo espiritual. “Estou obcecado com a questão do que somos. E isso significa olhar para nós de perto, para o bom e para o mau. Será que podemos cultivar o bem para que, num momento futuro da evolução da humanidade, a violência possa, possivelmente, deixar de existir? Mas, neste momento, a violência está cá. É importante mostrar isso. Para que não se cometa o erro de pensar que a violência é algo que os outros fazem.” Reflete demoradamente sobre o tempo da pandemia, os livros que releu, os filmes que viu e fala do que ressoou em si a mensagem do Papa Francisco:

“Durante muitos anos, tentei compreender como Jesus vive no mundo que o rodeia e como a sua presença pode viver em mim e ser expressa por mim. Durante muito tempo cometi o erro de pensar que estava a exprimir Jesus quando, na verdade, estava a estragar as coisas – era uma questão de orgulho e de ego, de me deixar levar pelo papel de grande realizador de cinema e pelo poder de fazer arte. Lendo o texto do Papa Francisco, fiquei entusiasmado.” E fala do seu passado e da sua juventude, em Little Italy¸ Nova Iorque, zona de crime organizado, frequentou uma escola católica, conheceu o padre Francisco Príncipe, influenciou-o muito. “Ele representava uma forma de pensar e uma forma de lidar com a vida que era muito, muito diferente do mundo cruel, duro e julgador que me rodeava. Olhava para nós e dizia: ‘Não têm de viver assim’.” Era uma época de movimentos de direitos civis e o padre Príncipe dera-lhe uma abertura para o mundo, teve um efeito poderoso sobre Scorsese. Pensou que estava destinado a seguir a vida sacerdotal, cedo descobriu que estava a tentar esconder-se da vida e do medo, apercebeu-se que queria estar com os outros, e então apareceu a paixão pelo cinema.

Há um outro momento decisivo na sua vida quando, em 1964, viu o filme Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini, o filme era para ele num planeta diferente, o rosto de Jesus aparecia nada que tinha visto antes. “Os outros filmes sobre Jesus que tinha sido feitos até essa altura eram muito, muito piedosos, e sempre que Jesus aparece é o centro das atenções em todos os sentidos. É destacado do resto da humanidade na sua maneira de falar, na sua maneira de se mover, na sua perfeição física e no enquadramento, na encenação, na encenação, na iluminação. Mantém uma longa tradição de representar Jesus na pintura de forma absolutamente idealizada. Mas o que Pasolini fez foi tornar Jesus um ser humano, uma pessoa, alguém que se pudesse conhecer e com quem se pudesse falar.”

Respondendo a comentários sobre os seus filmes lembra que A Última Tentação de Cristo toca em toda a iconografia da igreja. “Apercebi-me que tinha de ir mais longe na história de Jesus quando fiz este filme. Havia uma parte de mim que se sentia compelida a lidar com a iconografia – tinha de criar a crucificação, tinha de criar a ressurreição de Lázaro, tinha de criar o sermão da montanha, mas acho que essa não é realmente a história de Jesus.” E, mais adiante: “Jesus abraça toda a humanidade, e Jesus é realmente toda a humanidade. Mostra-nos a todos o caminho, a forma de viver, de lidar com a raiva, a vingança e a retribuição, com o amor, o perdão, a redenção e tudo o mais que existe em nós e entre nós.”

E conta-nos o que o acicatou a filmar Assassinos da Lua das Flores. “Por volta do início do século XX, os Osage descobriram petróleo na sua reserva. Rapidamente, tornaram-se o povo mais rico do mundo. Depois, como é óbvio, os brancos especuladores e vigaristas e oportunistas e ladrões e assassinos desceram. Sentiram o cheiro do dinheiro fácil. Houve um esforço concentrado para matar praticamente toda a comunidade Osage em troca do dinheiro do petróleo, por todos os meios imagináveis: tiroteios, atentados à bomba, a bebidas alcoólicas e envenenamento lento.” Confessa que procura compreender e aceitar a violência que existe em nós, procura aprender sobre a vida interior dos outros observando o seu comportamento exterior. Volta a falar sobre a hecatombe que caiu sobre os Osage: “O reinado de terror dos Osage foi uma questão de poder e ganância. Foi muito fácil para Bill Hale e todos os outros assassinos desumanizarem os Osage, mas estes homens e mulheres não foram assassinados por serem Osage, foram assassinados pelo seu dinheiro. No final, os assassinos não escaparam com nada a não ser dinheiro. Os Osage têm a sua cultura extraordinária, agora em processo de renascimento e reconstrução.

E Scorsese despede-se deixando um argumento para um possível filme sobre Jesus, belíssimo texto a coroar esta longa conversa sobre a fé, medos e inspirações, sempre presentes no cinema de um dos maiores realizadores do nosso tempo. 


                                                                        Mário Beja Santos



 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Tomás da Fonseca.

 



Leio sobre o início da vida dele e parece que estou a ler sobre o meu pai, nascido sete décadas depois: cresceu numa família de proprietários rurais; cedo se juntou à lavoura, tal como os muitos irmãos; teve de caminhar quilómetros e quilómetros, duas vezes por dia, para poder estudar; prosseguiu os estudos num seminário bem longe; e abandonou o seminário antes de se tornar padre, para desgosto dos pais. 

Mas ao contrário do meu pai, católico até hoje, Tomás da Fonseca tornou-se um ateísta fervoroso e militante para o resto da vida. Em artigos de jornal e nos livros que publicou, criticou o sadismo, a misoginia e a pedofilia nos seminários; escreveu que os professores deviam ser carinhosos para com os alunos, e não punitivos como era norma; pugnou por um ensino laico, liberto de obscurantismos e democrático (na região onde cresceu havia apenas uma turma para 12 raparigas em 20 quilómetros, enquanto três das muitas turmas para rapazes tinham falta de alunos). 

Foi assessor na Primeira República, odiou o sidonismo e ainda mais o Estado Novo, que o prendeu no Aljube por ter escrito sobre o Tarrafal. Criticou a beatificação de Nuno Álvares Pereira, instrumentalizado por monarquistas e conservadores no final da República. E, mais do que tudo, lançou-se de unhas e dentes contra o Cardeal Cerejeira e outros dois membros do clero por, juntos, terem montado a estratégia propagandística que fez das visões de Fátima, décadas antes, um fenómeno nacional e internacional com reconhecimento, até, pelo próprio Papa. 

Tomás da Fonseca morreu a 12 de Fevereiro de 1968, meses antes da queda de Salazar e anos antes do fim do Estado Novo. Bem no centro da sua Mortágua natal, a longa Rua Tomás da Fonseca serve de residência para a biblioteca municipal (a que foi dado o nome de um seu filho) e conduz os visitantes até uma Praceta 25 de Abril na qual se encontra um busto deste escritor, activista e professor. A apenas 10 minutos dali, de carro, chega-se a Santa Comba Dão e ao seu Largo Dr. Salazar. Duas mundivisões tão distintas em tão curta distância. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha



quinta-feira, 22 de junho de 2023

Abusos sexuais na Igreja em Portugal: o palco e os bastidores.

 




 

 

Clérigos e barregãs é uma história muito antiga, de um modo geral objeto de imensa tolerância, os senhores padres em Cabo Verde chegavam a ter dúzias de filhos e nas nossas paróquias da chamada interioridade eram muito comuns os vigários que vivam paredes meias com uma alegada irmã, e proliferavam os afilhados ou crianças ditas protegidas por não se saber do pai e da mãe, assim constava, a solicitude do senhor padre é que era importante. E já não vem à baila os Papas e os cardeais da Cúria que tinham bastardos, muitos deles bem tratados.

Dos anos 1970 para os anos 1980, esta estabilidade afetiva camuflada explodiu noutra dimensão, a pedofilia e, em menor grau, o padre pai de filhos. O dossiê ganhou volume e intensidade mediática, assentou-se a câmara na Igreja Católica, presume-se por razões do celibato dos padres e o encobrimento das vítimas, uma conspiração de silêncio que, como é hoje bem visível, gerou e continua a gerar uma enorme convulsão na Igreja Católica.

Em Nome do Pai, abusos sexuais na Igreja em Portugal, por Sónia Simões, Oficina do Livro, 2023, é uma reportagem em derredor de acontecimentos contemporâneos, mas onde o passado não foi esquecido. A escandaleira soou nos EUA, ao tempo de João Paulo II, e o Papa Francisco recebeu um farto processo onde Bento XVI igualmente tinha agido. A intensidade das denúncias levou a que o Papa Francisco convocasse, em fevereiro de 2019, uma reunião que não tinha precedentes, compareceram os presidentes das conferências episcopais do mundo com um ponto único na ordem de trabalhos: agir resolutamente para que nenhum dos crimes sexuais fosse doravante encoberto. Sónia Simões deixa bem claro que o alto clero português tem agido ao retardador, é uma história um tanto escandalosa, processos sinuosos de encobrimentos, até declarações públicas contrárias ao decidido em Roma.

Está ainda por esclarecer o que levou este alto clero a fingir quje escapava às obrigações da transparência, isto quando já 34 bispos chilenos tinham renunciado, houvera a investigação na Pensilvânia, soubera-se que um cardeal norte-americano era acusado, Irlanda, França, entre outros, as igrejas nacionais agiram celeremente, enquanto aqui se empatava. A autora, jornalista experimentada neste dossiê, desenvolve a sua narrativa a partir da história de Mariana, então uma jovem que cedera às promessas de um padre vinte anos mais velho e de quem teve um filho, fica bem claro quem e como andou neste jogo do empata. E que havia instruções para agir, havia, desde 2009 exisita um documento interno da Santa Sé com indicações expressas do que fazer, no caso de um padre que tenha um filho.

A grande surpresa veio com o relatório da Comissão Independente, os números eram demasiado violentos e indiciavam o encobrimento do alto clero, fazia-se o chamamento às vítimas abusadas, os traumas, os sentimentos de culpa, vergonha, nojo, revolta, perda de fé, até suicídio. É um desbobinar de histórias, avulta a pedofilia, houve pais que se dirigiram aos bispos, a solução adotada era transferir o padre.

Vamos então aos números. “A Comissão Independente cruzou 217 estudos sobre a generalidade dos abusos sexuais de crianças, elaborados entre 1980 e 2008, para perceber a incidência por género, deste tipo de crime na sociedade. E a conclusão é avassaladora. As estimativas feitas a partir de 331 amostras num total de quase 10 milhões de participantes revelam que 18 em cada 100 raparigas foi abusada sexualmente, assim como 8 em cada 100 rapazes foram igualmente vítimas. O abusador é, na maior parte das vezes, alguém que é próximo da vítima e em quem esta confia. Cenário propício a que, em grande parte dos casos, os crimes não acontecem apenas uma vez, mas perdurem no tempo, aproveitando o agressor para ir quebrando barreiras e escalar no tipo de abusos.”

A maior parte destes crimes não chegam às autoridades e, como é evidente, os crimes sexuais contra menores ocorridos no meio eclesiástico é uma fração deste tipo de crime em toda a sociedade. Só que os tempos mudaram, o encobrimento é cada vez menos possível, as vítimas sentem-se impelidas a denunciar os abusos sofridos e os números falam por si. “Em 2021, ano em que foram denunciados 828 crimes de abusos contra menores, a Polícia Judiciária – com competência exclusiva na investigação deste tipo de criminalidade –, deteve 270 suspeitos. Nesse ano, foram concluídos 351 julgamentos de abusadores sexuais e, em 397 arguidos, 293 foram condenados.” Como observa a autora, nos crimes em contexto religioso a incidência recai sobre o sexo masculino, a maioria das vítimas são rapazes. E aqui a autora disserta sobre as prerrogativas de poder que o padre abusador pensa que detém, no meio social e junto da vítima, como igualmente aborda o chamado problema da cura do abusador. A comissão francesa centrou uma boa parte da sua pesquisa no estudo do abusador. “Mais de metade dos padres entrevistados declararam ser homossexuais e alguns assumiram manter relações ativas com adultos da mesma idade. Uma das explicações mais comum para os abusos foi a necessidade de afeto ou intimidade com outras pessoas. Apontam-se culpar à própria Igreja ou mesmo à época que se vivia – uma característica dos abusadores em geral que raramente se sentem responsáveis pelos seus atos.”

Sónia Simões analisa detalhadamente o caso do padre José Anastácio Alves, de que houve conhecimento público quando se tentou entregar na Procuradoria-Geral da República, um longo historial abafado ou menorizado. E dá-nos conta da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, realizada em Fátima em 2019, era tempo efervescente e mandaria a lógica que o abuso de menores na Igreja fosse no mínimo objeto de debate. A reunião de Roma exigia um tratamento de choque. Tudo começou com a criação da Comissão de Proteção de Menores do Patriarcado de Lisboa, o alto clero procurou resistir aos propósitos da Comissão, só que o Papa Francisco voltou à carga, exigiu a nível universal, “procedimentos tendentes a prevenir e contrastar estes crimes que atraiçoam a confiança dos fiéis.” Após hesitações, formou-se a Comissão Independente. Descrevem-se ainda os casos que chegaram ao Ministério Público, a autora passa em revista como noutros países se estudam estes abusos, é um levantamento que nos faz pensar, era impossível a partir dos resultados da Comissão Independente não agir. Está em funcionamento o Grupo VITA – grupo de acompanhamento das situações de abuso sexual de crianças. Em abril deste ano a Igreja emite comunicado: “Entrámos agora numa nova fase. Estamos empenhados em prosseguir um caminho de reparação e prevenção para que seja possível garantir o devido apoio às vítimas e implementar uma cultura de cuidado e proteção dos menores e adultos vulneráveis.” E a autora termina o seu trabalho dizendo: “Passaram quatro anos desde o encontro em Roma e ainda estamos aqui.” Obra de inegável interesse para procurar estudar o que são os bastidores da Igreja Católica em Portugal.


                                                                                                Mário Beja Santos




quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

São Cristóvão pela Europa (170).

 


 

Num dos pontos cimeiros da Serra de Montemuro, a 1141 metros de altitude, no território da paróquia de Felgueiras, concelho de Resende, é possível encontrar a capela de São Cristóvão.

Local de peregrinação, tem um enquadramento majestoso, caracterizado pelo silêncio e tranquilidade.

 


A capela tem a forma de uma mastaba oriental. O interior é austero. A imagem de São Cristóvão é de granito e o Menino que o Santo transportava no seu ombro já se perdeu no desgaste do tempo.





 

 Fotografias de 3 de Fevereiro de 2022.

 

José Liberato




sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

São Cristóvão pela Europa (169).

 


 

A freguesia de Gondomil pertence ao concelho de Valença e à diocese de Viana do Castelo.

O topónimo é muito antigo e parece de origem germânica.

O orago da paróquia é São Cristóvão.

A fachada da Igreja Matriz contém um nicho com o nosso santo:

 



Junto à igreja, um painel de azulejos recorda a escolha de Gondomil como um dos mais lindos nomes de terras:



No interior uma imagem no altar-mor:



 

Fotografias de 30 de Dezembro de 2021

 

José Liberato





terça-feira, 21 de dezembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (167).

 

Uma nova incursão pelo Norte de Portugal permitiu identificar mais algumas imagens do nosso Santo.

A paróquia de Nogueira da Regedoura, situada no Concelho de Santa Maria da Feira e na Diocese do Porto tem como orago São Cristóvão.

O Santo figura no Brazão da freguesia:





Naturalmente o nosso Santo está bem representado na Igreja Matriz:

 


Na fachada um azulejo:

 


E no altar-mor uma imagem:




 

Bordejando o rio Douro, Espadanedo, no concelho de Cinfães e na diocese de Lamego, também tem São Cristóvão como padroeiro:

 


No altar-mor:

 



 

No tecto da Igreja está pintada a figura de São Cristóvão, curiosamente reproduzindo os traços da imagem do altar-mor:



E no exterior, na rua que conduz à Igreja, um nicho:




 

Fotografias de 19 de Dezembro de 2021

 

José Liberato






quarta-feira, 17 de novembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (166).


 

Armamar é um lindíssimo concelho que pertence administrativamente ao distrito de Viseu, integra o território da diocese de Lamego mas que sobretudo se integra na famosa região do Douro.

Encontrei, também por lá, o nosso Santo.

Em primeiro lugar, na freguesia de Contim, onde foi erguida uma estátua de São Cristóvão:

 


A Igreja Matriz de Arícera dispõe de uma bela talha dourada e é mesmo dedicada a São Cristóvão:

 




Finalmente, em Travanca existe uma capela de São Cristóvão dispondo de uma imagem, de uma pintura no tecto e de um vitral:

 




Fotografias de 6 de Novembro de 2021.

José Liberato