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domingo, 3 de setembro de 2023

E nós, calamo-nos?

 



          "Error 404. Sorry, we can't seem to find the page you're looking for. The link you requested might be broken or no longer exists. Why not start at our home page?".

          Esta é a mensagem que a Taylor & Francis colocou há dias na página digital onde constava, para venda, a obra Sexual Misconduct in Academia. Informing An Ethics of Care in the University, publicada pela Routledge, chancela daquele grupo editorial, e coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          A obra fora suspensa há dois meses, não tendo sido indicados os fundamentos que concorreram para tal decisão. Esta semana, soube-se que a Routledge decidiu eliminar do livro o capítulo 12, intitulado "The walls spoke when no one else would. Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia" (pp. 208-223), assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom.

          Aquilo que começou por ser uma denúncia de abuso sexual e extractivismo académico, tornou-se agora, como facilmente se percebe, um caso gritante e grotesco de censura, um inconcebível ataque às liberdades: à liberdade de expressão e de pensamento, desde logo; e à liberdade científica, pois, não o esqueçamos, o texto censurado não é um artigo de opinião, é um artigo científico, publicado de acordo com os mais exigentes protocolos (v.g., peer-review), por uma das editoras mais prestigiadas na área das ciências sociais.

          Não por acaso, o principal visado no texto das três académicas, Boaventura Sousa Santos (BSS), publicou na Routledge os livros Globalizing Institutions. Case Studies in Regulation and Innovation (2000, com Jane Jenson), Epistemologies of the South. Against Epistemicide (2014), Reinventing Democracy. Grassroots Movements in Portugal (2019, com Arriscado Nunes), Knowledges Born in the Struggle. Constructing the Epistemologies of the Global South (2020, com Maria Paula Meneses), Demodiversity. Toward Post-Abyssal Democracies (2020, com José Mendes), The Pluriverse of Human Rights: The Diversity of Struggles for Dignity (2021, com Bruno Sena Martins), Decolonizing Constitutionalism. Beyond False or Impossible Promises (2023, com Sara Araújo e Orlando Aragón Andrade), From The Pandemic to Utopia. The Future Begins Now (2023).

          Caso para perguntar: a mesma editora de BSS publica artigos com falsidades e difamações?

 

          Recuemos um pouco. No início de Junho, a Routledge recebeu uma carta de cease-and-desist de um obscuro "portuguese lawyer", cuja identidade se desconhece, agindo em nome de alguém cujo nome também nunca foi revelado (porventura um dos alegados assediadores visados no referido capítulo 12). Não se sabe, ninguém dá a cara, ninguém tem a coragem ou a hombridade de assumir que falou com a Routledge – é importante dizer que não foi por iniciativa desta, mas a pedido ou mando de um inquisidor oculto, que a editora actuou.

          O “portuguese lawyer” exigia que a Routledge suspendesse a publicação daquele texto e que adoptasse algumas "formas de mitigação do dano causado à reputação, saúde e trabalho académico" do suposto assediador, bem como da reputação do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra. Caso a Routledge não respeitasse as suas exigências, avançaria para tribunal.

        Perante isto, a Taylor & Francis e a Routledge decidiram suspender temporariamente o livro, retirando-o do mercado e limitando-se a dizer, na sua página online, que a obra estava "sob revisão": "This content is temporarily unavailable as it's currently under review" ("O conteúdo deste livro está temporariamente indisponível, por se encontrar sob revisão").

          Três meses depois, a 31 de Agosto, a Routledge tomou a decisão final de censurar o capítulo, revertendo os respectivos direitos de publicação para as autoras. Segundo a mensagem da editora, enviada às três autoras do artigo, as duas coordenadoras do livro teriam “aceitado e compreendido a posição da Routledge” ("We have spoken with Erin and Delyth, who understand this decision").

          Ora, isto é falso, descaradamente falso, como se depreende pelo artigo da jornalista Fernando Câncio, no Diário de Notícias de 31 de Agosto – "Editora britânica retira capítulo que acusa Boaventura [de Sousa Santos] em livro sobre assédio sexual" –, onde as coordenadoras, Erin Pritchard e Delyth Edwards, afirmam estar "muito desapontadas com o facto de a Routledge ter tomado a decisão de retirar permanentemente de publicação o capítulo 12 e possivelmente o próprio livro. Isto corresponde a pôr-se do lado dos que estão a tentar silenciar este livro, sem fazer qualquer tentativa de apoiar o livro contra as ameaças legais e, portanto, não defendendo a liberdade académica nem o direito dos sobreviventes de assédio sexual de falarem das suas experiências. Tomar a decisão de retirar permanentemente o capítulo não é mais que uma forma de apoiar o abuso de poder sistemático na academia". Um entendimento bem diferente, portanto, daquele que a editora dava a entender na mensagem enviada às autoras do capítulo 12.

          Percebe-se a atitude das coordenadoras e das autoras do livro. Desde logo, porque nem umas nem outras conhecem os fundamentos da decisão, já que a Routledge, em nenhum momento, as informou das razões que a levaram a censurar aquele capítulo.

De igual modo, a Routledge ainda não revelou o nome do advogado português que escreveu e enviou para Inglaterra a carta de "cease-and-desist", que levou à censura do capítulo, nem revelou a identidade do queixoso.

          Quem pensa que não é importante conhecer o nome do "portuguese lawyer" e do seu mandante, está inteiramente enganado. Ambos têm de dar a cara. Quem são eles?

          Para se poderem defender da denúncia do advogado, as autoras do capítulo precisam de saber os nomes de quem está por trás disto tudo (não será descabido perguntar, também, porque é que a Routledge mantém o anonimato do "portuguese lawyer" e do cliente que contratou os seus serviços).

          É que a Routledge, ao censurar o capítulo 12 – praticando um epistemicídio, como diria BSS –, parece corroborar assim o sentido das queixas de Boaventura de Sousa Santos (BSS), segundo o qual estaria a ser alvo de uma "difamação vergonhosa e vil".

          Isto depois, não esqueçamos, de o próprio BSS já ter admitido "comportamentos inapropriados", típicos de quem, como ele, nascido em 1940, pertence a uma geração em que tais atitudes eram aceites pela sociedade ("Reconheço que em determinados momentos possa ter sido protagonista de alguns desses comportamentos", Expresso, 4 de Junho de 2023); e de a própria Routledge ter publicado há cerca de um mês (Julho) uma obra coordenada por BSS, Decolonizing Constitutionalism, Beyond False orImpossible Promises.

          Uma decisão também, já agora, enquanto decorre no CES um inquérito (liderado pela Comissão Independente do Centro de Estudos Sociais, "para o esclarecimento de eventuais situações de assédio"), cujas conclusões ainda ninguém sabe quais serão.

          E se o inquérito vier a demonstrar que BSS praticou, realmente, alguns daqueles actos graves, descritos no capítulo 12? Como ficará a reputação e o prestígio da Routledge? Não teria sido mais prudente e avisado ter aguardado pelas conclusões do inquérito? Este timing não é estranho? Ou será que a Routledge já sabe que o inquérito não vai dar em nada e, temendo um futuro processo judicial, resolveu antecipar-se?

          Por outro lado, não é estranho que, dos nomes falados na esfera pública – mas nunca citados no artigo, note-se, e a saber, BSS, Bruno Sena Martins e Maria Paula Meneses –, nenhum tenha a coragem e a frontalidade de assumir que se queixou à editora?

          Bruno Sena Martins negou a autoria da acção ("Não desencadeei qualquer acção legal junto da editora"), BSS começou por não responder – andou às voltas, com rodriguinhos e meias palavras – e depois reconheceu que conversou com a Routledge sobre o capítulo 12, mas não assumiu a paternidade da queixa e da diligência junto da sua própria editora.

          Um processo inaudito: nem o nome do advogado se conhece! Quem e o quê se pretende esconder? A má consciência por ter promovido uma censura académica?

          Como quer que seja, uma evidência se impõe: nunca se viu uma coisa assim. Uma editora de um país democrático como Inglaterra, que se rege pelo princípio da liberdade de expressão, decidiu censurar um artigo académico. E, caso se confirme que a diligência do “portuguese lawyer” se deveu a BSS, tem este agora de responder por duas suspeitas graves: a de assédio sexual e a de censura académica.

          A situação é de uma clareza meridiana: a Routledge submeteu o livro ao sistema de arbitragem científica, ou revisão por pares (peer review ou refereeing), o qual deu luz verde à publicação da obra coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          Goste-se ou não se goste, os especialistas – e a editora aconselhada por estes – consideraram que todos os capítulos tinham qualidade suficiente para serem publicados na "editora académica líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais" ("Today Routledge is the world's leading academic publisher in the Humanities and Social Sciences. We publish thousands of books and journals each year. Founded in 1836, we have published many of the greatest thinkers and scholars of the last hundred years, including Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse and Sartre", lê-se no respectivo site).

          Agora, confrontada com as ameaças de um "portuguese lawyer", a editora vem desdizer os especialistas por ela escolhidos, reconhecendo (implicitamente) que o seu sistema de avaliação está avariado? Depois do acordo ou consenso entre os especialistas daquela área, decidiu publicar o capítulo 12 e, depois de publicado, vem agora retirá-lo de publicação?

          É que, conforme lembrou uma das autoras, "o livro foi feito com altos padrões de qualidade. Foi sujeito a várias revisões e avaliações antes de ser publicado. É um livro de alta qualidade. Mas alguém demandou as responsáveis ou a editora porque contém um artigo que denuncia um caso de assédio sexual, e essa pessoa não gostou" (afirmações reproduzidas por Fernanda Câncio, "Acção legal na origem de suspensão de livro que denuncia Boaventura. Autora fala em 'silenciamento'", Diário de Notícias, 13 de Agosto de 2023).

          Repare-se, e insista-se, que o texto assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom não é um mero artigo de opinião, passou pelos mais exigentes processos de revisão científica de uma das mais exigentes editoras europeias.

          Para que não restem dúvidas, Lieselotte Viaene é antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Carlos III, de Madrid, tem um doutoramento em Direito (Ghent University, Bélgica, 2011), artigos publicados em revistas internacionais indexadas, como Journal of Transitional Justice, Critique of Anthropology, International Human Rights Journal, Netherlands Quartely of Human Rights, Antipoda. Revista de Antropologìa y Arquelogìa, teve uma bolsa individual Marie Curie (2016-2018) e trabalhou nas Nações Unidas, no gabinete do Alto Comissário dos Direitos Humanos (2010-2013).

          Por sua vez, Catarina Laranjeiro é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa), é mestre em Antropologia Visual e dos Media, na Freie Universitaet Berlin, doutorada em Pós-Colonialismos e Cidadania Global pelo CES (Universidade de Coimbra), tem artigos na The Internacional History Review e publicou na editora Palgrave Macmillan (Londres).

          Myie Nadia Tom é professora na Universidade do Nebraska (EUA), estudou na Universidade de São Francisco e na Universidade Complutense de Madrid, e publicou artigos na International Review of Education (revista da UNESCO, num número organizado por si), na Comparative Education Review e na University of Wisconsin Press (EUA).

          Erin Pritchard, uma das coordenadoras do livro, é professora na Universidade de Liverpool, doutorada pela Universidade de Newcastle, é editora da revista académica Disability & Society, tem artigos publicados em revistas como The Canadian Journal of Disability Research ou The Scandinavian Journal of Disability Research, e investigação publicada na Bloomsbury Academic ou na Peter Lang.

          Delyth Edwards, a outra coordenadora, foi docente em Sociologia da Infância e da Juventude na Universidade de Liverpool, é actualmente professora na Universidade de Leeds (Inglaterra), na área da Inclusão, Infância e Juventude, fez o doutoramento em Sociologia na Queens University (Belfast), o mestrado em Investigação Sociológica na University of Essex, tem artigos em revistas académicas como Cultural Trends e investigação publicada em editoras como a Sage ou a Springer International Publishing.

          Estes são os currículos das mulheres envolvidas. E o livro, nunca é demais insistir, foi sujeito aos procedimentos de qualidade e rigor científicos da editora do próprio Boaventura de Sousa Santos.

          A exclusão do capítulo significa que a editora não o considera científico? Se é assim, por que razão o publicou? Não o devia ter rejeitado antes?

          E, no meio desta história toda, como ficam os cientistas responsáveis pelo peer-review do livro? A decisão tomada não representará um atropelo à sua dignidade formal e profissional? O mesmo em relação às autoras, cujos indesejáveis danos reputacionais são difíceis de prever. E os processos de publicação e controlo de qualidade científica da Routledge? Não ficam postos em causa? É que, aparentemente, os procedimentos editoriais da líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais não primam pelo rigor...

          Que BSS se comporte como um senhor feudal, já não nos surpreende. O mesmo não poderemos dizer de uma editora como a Routledge, cujo acto de censura não honra a sua história (uma história, não é despiciendo relembrar, que começou em 1836 e que inclui a publicação de pensadores e académicos como Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse e Sartre).

          O cúmulo da ironia, ou da hipocrisia, é que a Taylor & Francis, proprietária da Routledge, até se permite (e muito bem!) fornecer conselhos aos seusautores/as vítimas de assédio na academia... 

O texto ora censurado, insiste-se, passou o crivo da revisão científica, foi avalizado pelos académicos escolhidos pela editora. E, já agora, censurado porquê? Por ser difamatório? Por falta de qualidade? Não se sabe, porque a Routledge jamais esclarece. E tem a obrigação de fazê-lo, até para que as lesadas, caso queiram, contestem a decisão tomada, em tribunal ou fora dele. Assim, sem explicação alguma, estamos no reino do arbítrio puro, do tirânico “posso, quero e mando”.

Para quem publica obras sobre a democracia e os direitos humanos, sobre os oprimidos deste mundo, sobre as vítimas de violência, sobre racismo e feminismo, tudo isto é, como disse uma das alegadas vítimas de Boaventura, "um escândalo internacional".

 

          A decisão da Routledge supõe uma grande novidade, de efeitos imprevisíveis, que deveria deixar apreensivos os investigadores académicos de todo mundo quanto à sequência dos acontecimentos futuros.

          Colocada entre dois fogos – por um lado, a denúncia das autoras do capítulo 12 (Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom) e, por outro lado, supõe-se, a queixa de Boaventura de Sousa Santos, um académico com enorme poder internacional, com vários livros publicados na Routledge, muitos deles traduzidos noutros idiomas e em vários países da América do Sul, o que representará, decerto, elevados proveitos para a Routledge) –, a editora escolheu o lado do mais forte.

          O mesmo lado – o de Boaventura de Sousa Santos – que há um ano dizia, a propósito da guerra na Ucrânia, da NATO e dos EUA, que se estava a criar "um novo período de caça às bruxas muito semelhante ao que se viveu nos EUA na década de 50 e que ficou conhecido por Macarthismo". 

          Não tenhamos dúvidas: estamos perante um acto insofismável de censura, que viola o espírito de crítica e de liberdade de pensamento, e que deve ser denunciado sem quartel nem tréguas. Casos como estes não podem ser escamoteados ou relativizados, com base em interesses ideológicos, profissionais ou pessoais. Perante este acto de silenciamento, estranha-se o silêncio dos que se proclamam defensores dos mais fracos e oprimidos. 

          O que se passou neste final de Agosto de 2023 é um dos mais bárbaros e iníquos atentados à liberdade de expressão académica, perpetrado por uma das editoras mais prestigiadas do mundo que se arrogou no direito de censurar um texto que havia publicado – e, pior ainda, fazendo-o com base numa denúncia anónima de um “portuguese lawyer” e sem justificar ou fundamentar o seu acto.

          O poder académico perpetuou, durante anos, situações de assédio sexual e moral e de extractivismo intelectual. Agora, amordaça o pensamento e censura a liberdade. E nós, calamo-nos?

 

João Pedro George

 



quinta-feira, 17 de junho de 2021

O indesculpável esquecimento da presença feminina na guerra colonial.



 

Palavras e Silêncios, Memórias femininas da presença militar no Ultramar, coordenação de Ana Maria Taveira, Maria Armanda Taveira e Maria de Fátima Pina, Âncora Editora, 2020, é uma coletânea a todos os títulos original, juntam-se 32 testemunhos cronologicamente diferenciados, percorrem a longa duração da presença de mulheres de militares em pontos salpicados do Império, desde a paz ao conflito armado. A guerra e a presença dos militares nas parcelas do Império aparecem na historiografia e na literatura em que a dominante é o masculino: como se preparou e encarou a missão; como observou o território e qual foi a natureza da defesa e resposta que lhe coube pela roda do destino; as memórias que ficaram, as cartas que escreveram, as saudades inexauríveis da mulher, da noiva, dos filhos, dos pais, dos amigos; e, por vezes, a descrição crua da emboscada, da flagelação, da operação; e os encontros, as saudades, muitas décadas depois. Do testemunho no feminino pouco se fala, ora, pelas mais variadas razões, foram omnipresentes na educação dos filhos, na companhia que por vezes deram aos seus maridos, nas lembranças que retiveram seja na retaguarda seja em lugares próximos ou exatamente no conflito.

Quem organizou Palavras e Silêncios teve o esmero de entender que estas memórias se tornam ainda mais vigorosas por serem testemunhos pela ordem cronológica do nascimento das participantes, abrem pistas para as circunstâncias políticas e a condição da mulher na sociedade ao longo da vastidão de muitas décadas, facilitam o entendimento do quadro ideológico em que se moviam e como apresentam as suas narrativas. As coordenadoras passaram a escrito as conversas gravadas e não tiveram dificuldade alguma em aquilatar o valor patrimonial destes testemunhos. E o leitor rapidamente se aperceberá da singularidade de tão valioso contributo que se vai juntar ao que mais recentemente se tem publicado sobre a mulher e a guerra por onde os portugueses andaram até ao fim do Império.

Chegar a Goa perto do fim da II Guerra Mundial, entrar num mundo completamente desconhecido, o deslumbramento dos casamentos hindus, o acaso brutal que tudo mudou: “Quando o meu marido adoeceu eu tinha 29 anos, fui sua cuidadora durante 37 anos, até à sua morte. A minha filha faleceu antes da morte do pai. A vida tratou-me mal, deve-me muito, mas agora já é tarde para me pagar”. Alguém acompanha um marido que cumpriu cinco comissões no Ultramar. A primeira foi em Angola, em 1963, no Ambrizete. “Fui ter com ele e levei comigo a nossa filha mais nova, que ali frequentou a escola primária e concluiu a quarta classe”. Fim do Império trabalhou no apoio aos chamados retornados, confessa a sua satisfação em se ter mantido solidária. Maria Matilde nasceu em Campo Maior em 1930 e viveu doze anos em África, foi professora em Angola e Moçambique. “Sinto falta de estar com alguém que tenha vivido comigo esta realidade em África. Foi um período da minha vida emocionalmente muito intenso, mas tinha saúde e era nova. Temos de novo Goa, quem testemunha fala do seu marido prisioneiro. “Os meus filhos têm idades muito próximas, a mais velha tem, agora, 65 anos, o segundo 64, o terceiro 63 e a mais nova 58. Quando viemos para Portugal, na véspera da invasão de Goa, a mais pequenina tinha pouco mais de um ano. Assim que o meu marido chegou, como o seu vencimento de militar era curto para uma família tão numerosa como a nossa, achei que devia ir trabalhar e tive a oportunidade de o fazer numa escola na Buraca. A minha vida fora muito agradável na Índia, pois estava na minha terra, junto da minha família. Sofri e chorei muito, tive horas difíceis, mas adaptei-me depressa à nova terra. Quando casei, não pensei que algum dia viria viver para Portugal. Imaginava que ficaríamos para sempre em Goa. Mas a vida correu de outra forma”.

Há quem tenha partido para o Império casada de fresco, e depois regressa e é surpreendida pelas notícias dos massacres em Nambuangongo, deu aulas, permaneceu em Luanda depois da independência. Conta-se uma história tocante, tem a ver com a partida precipitada de centenas de milhares de pessoas. Foi a Porto do Saco, onde estavam pequenos montes de objetos calcinados, era o local de embarque das famílias portuguesas que ali deixaram os seus pertences. Guardo em casa alguns objetos que ali recuperei, inclusive fotografias, que trouxe com a ideia de devolver às pessoas a quem pertenciam. Não consegui localizar ninguém”.

Há quem casou por procuração e depois religiosamente numa parcela do Império, foi o caso de Luísa Natália. Depois veio a guerra de Angola. Quando o marido foi para uma zona considerada muito perigosa, regressou a Luanda com o filho. Em fevereiro de 1973, o marido parte para nova comissão, em Montepuez, em Moçambique, instala-se em Porto Amélia com os dois filhos mais novos. “As dificuldades cimentam o amor, ajudam à união da família. Sempre fui uma mulher positiva, nunca perdi a esperança de que tudo iria correr bem, principalmente para os nossos filhos. Quero expressar o respeito enorme que tenho pelas crianças destes países e pela vida sofrida da maioria da população. Lídia Madalena acompanhou o marido em Santo António do Zaire, mais uma professora, fala comovidamente de todo o apoio que as unidades militares davam à população civil. Há quem tenha muitos militares na família, é o caso de Maria Theolinda: “O meu avô paterno, o meu pai, o meu irmão, o meu marido, um dos meus filhos, o meu genro, dois dos meus cunhados, o avô do meu marido e vários primos todos foram ou são militares”. Viveu em Mafra, na Tapada, frequentou o Instituto de Odivelas e sempre que possível acompanhou o marido em missões na Europa, em Angola, na Guiné e em Timor. “Atualmente, já há muitas mulheres militares, mas, no passado recente, apenas algumas enfermeiras paraquedistas participaram ativamente no esforço da guerra. Desde a época dos Descobrimentos, que a mulher portuguesa teve um papel bem ativo no acompanhamento militar dos seus maridos, quer rumando para longínquas terras, quer educando, quer gerindo filhos e património”. Há quem nos faça refletir sobre o casamento e a partida apressada, iniciara-se a guerra, foi o caso de Maria Isabel que acompanhou o marido, tenente-médico da Força Aérea, e foi para o Negage. Hoje ri-se na sua ingenuidade, tinha apenas 21 anos, o marido chegou a casa com duas enormes lagostas. “Não soube o que fazer com aqueles bichos, ainda vivos, e meti-os na banheira, em água. Quando o meu marido chegou para o almoço, contente por vir comer as lagostas, tinham morrido, porque estavam mergulhadas em água doce. Não as tinha dado à cozinha para as cozerem, para poderem ser um petisco para o almoço. Eu nunca tinha visto uma lagosta!”.

Há testemunhos por vezes pungentes, quando estas mulheres apanham em cheio diferentes comissões, com a casa sempre às costas, os filhos a crescer aqui e ali, nunca escondendo a solidariedade que viveram e edificaram, ficamos com um caleidoscópio de impressões de tantas mulheres que não guardam azedume mesmo quando o destino lhes foi cruel e começamos a perceber que toda a literatura que temos lido no masculino é manifestamente carente deste escondido lado do espelho da vida, para que a História tenha contornos mais definidos.

     De leitura obrigatória.


                                                                                                             Mário Beja Santos

 





segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Folie à deux.

 



 O Nuno Lemos Jorge, que tem olho de lince e faro de perdigueiro, mandou-me um caso extraordinário (mas não tão invulgar como isso) d’un amour fou. Na Elle, aqui, ou no The Guardian, aqui. Obrigado, Nuno, abraços! 



 



 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Uma paixão simples.

 



Esse homem, nunca mais vou voltar a vê-lo. No entanto, é este regresso, irreal, quase inexistente, que dá à minha paixão todo o seu sentido, que é não ter nenhum, e ter sido durante dois anos a realidade mais violenta que se possa conceber, e a menos explicável.

 





sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Alegoria da caverna.






Na última revista Sábado, um pouco de pornografia. Na imagem, calma, está tudo vestido, sobretudo de preconceitos. O almoço anual de 2014 numa herdade alentejana do empresário Ilídio Pinho. Convidado de honra, Pedro Passos Coelho. Sentados à mesa, só homens – o que, desde logo, e do ponto de vista da mera cortesia, é só por si uma grande javardice. Mas o que mais fere a vista e confrange o espírito é vê-los, aos machos pensantes, rodeados de mulheres, como um harém do intelecto. Uma senhora abana-se com um leque, outra mira o telemóvel, a maioria observa em silêncio o que dizem os cavalheiros, doutos e audazes. O espantoso é que ninguém ali parece estar incomodado perante uma cena que não, não é uma coisa civilizada (só os homens, aliás, têm direito a cafés, águas e folhas de papel A 4 para espraiar seus pensamentos… incrível, a imagem é de 2014).     






 


 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

No mar, no campo, na floresta e outros destinos de vilegiatura…







Criaturas aladas e aquáticas; da terra e do ar; bípedes, quadrúpedes e centípedes fazem-no. Os bacalhaus no mar fazem-no, decerto. Possivelmente fazem-no até em viveiro, hoje em dia. Que o façam no mar de Portugal, aí já tenho sérias dúvidas. Nesse caso, por que teriam, então, partido em massa os nossos pescadores para mares tão longínquos em demanda do fiel amigo?

É este o problema capital de que padece a recriação brasileira do clássico Let's Do It (Let's Fall in Love), de Cole Porter, interpretado em baixo por Conal Fowkes.

Abraço, para este efeito, um tipo de atitude crítica em tudo análogo à perspetiva modelar que presidiu àquela que é talvez a melhor recensão de livro de sempre, feita por Ed Zern em 1959 na revista Field and Stream à obra O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence.

Dizia Zern que este “relato ficcional do quotidiano de um guarda de caça” tem ainda um considerável interesse para os amantes da vida ao ar livre, pois contém muitas passagens sobre a criação de faisões, a deteção de caçadores furtivos, o controlo de infestantes e outros deveres e tarefas do guarda de caça profissional. Infelizmente, prossegue o recenseador, é-se obrigado a percorrer muitas páginas de material irrelevante, lateral ao assunto, para se poder desfrutar destas curiosidades sobre a gestão de uma coutada nas Midlands de Inglaterra. E, a ser assim, o livro não poderia nunca alcandorar-se ao lugar de Practical Gamekeeping, de J. R. Miller.

Pois bem, algo de semelhante afeta Façamos, Vamos Amar, a recomposição tropical de Let’s Do It levada a cabo por Carlos Rennó e interpretada por Elza Soares e Chico Buarque. A manifesta falta de trabalho no tema do bacalhau (que inexiste) em águas territoriais, questão central tratada assim com tanta displicência e falta de empenho, inquina de alto a baixo o que de outro modo seria um exercício instrutivo e meritório sobre a vida animal. Mais até do que o original, educativo no seu tempo, mas que se vê agora atualizado com um toque de contemporaneidade e em sintonia com novas realidades.

Ficam, pois, as duas composições para cotejo e verificação rigorosa, acompanhadas logo a seguir pelas respetivas letras, com a infame passagem do bacalhau devidamente assinalada a vermelho para comodidade dos leitores.




Cole Porter, Let's Do It (Let's Fall in Love) · Conal Fowkes

Let's Do It, Let's Fall in Love

When the little blue bird who has never said a word
Starts to sing, "Spring, spring"
When the little blue bell in the bottom of the dell
Starts to ring, "Ting, ting"
When the little blue clock in the middle of his work
Sings a song to the moon up above
It is nature that's all
Simply telling us to fall in love
And that's why birds do it
Bees do it
Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love

In Spain, the best
Upper sets do it
Lithuanians and letts do it
Let's do it, let's fall in love
The dutch in old Amsterdam do it
Not to mention the fins
Folks in Siam do it
Think of Siamese twins
Some Argentines
Without means, do it
People say in Boston even beans do it
Let's do it, let's fall in love

Sponges
They say, "Do it"
Oysters down in oyster bay do it
Let's do it, let's fall in love
Cold cape cod clams
Against their wish, do it
Even lazy jellyfish, do it
Let's do it, let's fall in love
Electric eels I might add do it
Though it shocks 'em I know why ask if shad do it
Waiter bring me bring me shad roe
Come on and bring me, bring me shad roe
In shallow shoals
English soles do it
Goldfish in the privacy of bowls do it
Let's do it, let's fall in love

Now if the birds and the bees and the trees do it
The monkeys and the birds, bees do it
In, in water gates they quarrel but they do it
And if they can make up and still do it baby, how about me and you?
Hey let's do it now
Let's do it, let's fall in love

Façamos, Vamos Amar

Os cidadãos no Japão fazem
Lá na China um bilhão fazem
Façamos, vamos amar
Os espanhóis, os lapões fazem
Lituanos e letões fazem
Façamos, vamos amar
Os alemães em Berlim fazem
E também lá em Bonn
Em Bombaim fazem
Os hindus acham bom
Nisseis, níqueis e sansseis fazem
Lá em São Francisco muitos gays fazem
Façamos, vamos amar

Os rouxinóis nos saraus fazem
Picantes pica-paus fazem
Façamos, vamos amar
Uirapurus no Pará fazem
Tico-ticos no fubá fazem
Façamos, vamos amar
Chinfrins, galinhas afim fazem
E jamais dizem não
Corujas sim fazem, sábias como elas são
Muitos perus todos nus fazem
Gaviões, pavões e urubus fazem
Façamos, vamos amar

Dourados no Solimões fazem
Camarões em Camarões fazem
Façamos, vamos amar
Piranhas só por fazer fazem
Namorados por prazer fazem
Façamos, vamos amar
Peixes elétricos bem fazem
Entre beijos e choques
Cações também fazem
Sem falar nos hadoques
Salmões no sal, em geral, fazem
Bacalhaus no mar em Portugal fazem
Façamos, vamos amar

Libélulas em bambus fazem
Centopéias sem tabus fazem
Façamos, vamos amar
Os louva-deuses com fé fazem
Dizem que bichos de pé fazem
Façamos, vamos amar
As taturanas também fazem
Com um ardor incomum
Grilos meu bem fazem
E sem grilo nenhum
Com seus ferrões os zangões fazem
Pulgas em calcinhas e calções fazem
Façamos, vamos amar

Tamanduás e tatus fazem
Corajosos cangurus fazem
Façamos, vamos amar
Coelhos só e tão só fazem
Macaquinhos no cipó fazem
Façamos, vamos amar
Gatinhas com seus gatões fazem
Tantos gritos de ais
Os garanhões fazem
Esses fazem demais
Leões ao léu, sob o céu, fazem
Ursos lambuzando-se no mel fazem
Façamos, vamos amar

Manuela Ivone Cunha







terça-feira, 16 de junho de 2020

Quando Madrid está triste








Esta é uma história triste, que talvez não acontecesse cá. Não porque fosse impossível os dois membros de um casal morrerem de Covid, como aconteceu a José Luís e a Pilar. Mas, Portugal, em Portugal há um ódio às varandas, que ora são confinadas a alumínio, ora são recicladas para armazém de tralha a céu aberto, ora são pura e simplesmente abandonadas, salpicadas aqui e ali por plantas tristes. Madrid não é assim, pois os espanhóis sabem gozar a vida – e gozar uma varanda ao sol é gozar a vida. E a varanda de Pilar e José Luís era um assombro, dizem, um jardim suspenso mais do que babilónico, no coração do bairro de Embajadores. Morreu ele primeiro, aos 71 anos. A seguir foi ela, dias depois, com 70 anos. Gostavam da vida, ambos reformados, ele a dar aulas de guitarra, ela, ex-modista, a vestir-se vaidosa, de sevilhana, bailando zarzuelas. Depois, a existência a dois, anos a fio, a ida juntos à missa, os pinchos de tortilla no bar do rés-do-chão do prédio, os risos e os amigos. Morreram um, depois o outro – e o jardim foi a seguir. É hoje uma imagem imensamente triste, pungente, a varanda mais triste de Madrid. E quando Madrid está triste, o mundo chora.