domingo, 27 de abril de 2025
sábado, 22 de março de 2025
Carta de Bruxelas.
A terra sobre os olhos
O historiador da arte Bernard Berenson nasceu Bernhard Valvrojenski, em Butrimonys, na Lituânia, numa família judia; tendo-se convertido ao cristianismo, foi episcopaliano quando a família emigrou Boston em 1875, e, em seguida, católico, quando já vivia em Itália, para onde se mudou depois de ter viajado na Europa em 1887, após a licenciatura. Berenson nunca deixou de se confrontar com a questão judaica; numa entrada do diário, de 2 de Setembro de 1953, deixou uma observação esperançosa. Via no poder nacional e no valor militar nele fundado uma carta de alforria, o caminho para a igualdade.
«Não serem objecto de desprezo» é
do que os judeus precisam. Certamente, nenhum outro «povo» – quero dizer um grupo
cuja coesão foi mantida por hábitos, usos, costumes, tradições, rituais –
nenhum outro povo que chegou até aos nossos dias com uma história ininterrupta de
uns bons três mil anos serviu tão bem a humanidade. Aos cristãos e aos
maometanos deu-lhes a sua religião, nunca deixou de contribuir para o
pensamento e a literatura, e, nos últimos 150 anos, nenhum outro povo esteve
presente de modo tão criativo e tão fecundo em todos os aspectos da actividade
humana, até na militar quando lhes foi permitido. Que a maior parte dos não judeus sinta
desprezo por eles, porém, não só os torna ressentidamente infelizes e
servilmente ansiosos por serem bons burgueses, acatando as regras da média em
todos os países, mas leva-os também a desprezarem-se a si mesmos até ao ponto
de se suicidarem, como foi o caso de Weininger. A solução pode estar num Estado
plus – um plus muito grande – a glória militar, o único valor que
todos nós reconhecemos como supremo. Se os judeus criassem um Estado militar
poderoso, desapareceria o desprezo de que são alvo.»
É uma concepção de uma época, de
duas épocas atrás. Dos tempos em que os judeus ficavam à porta da sociedade,
partilhando com outros grupos marginais e marginalizados a mesma condição de
inferioridade. Apesar da emancipação civil e política, o ferrete das origens
não desaprecia. Berenson vê no poder, entendendo que é antes de mais o poder de
responder taco a taco, de armas na mão, armas iguais às dos agressores, a
possibilidade de os judeus se constituírem como um povo em pé de igualdade com
os outros povos. A derrota do nacional-socialismo seria o fim da discriminação;
a fundação do Estado de Israel, soberano entre soberanos, a ratificação última
da igualdade. E, no entanto, o nazismo não foi o derradeiro capítulo de uma
história contínua, milenar de perseguição. Foi algo de novo. E essa novidade
permaneceu. Na concepção nacional-socialista, a dualidade ariano-judeu constitui
uma oposição insanável, que está para lá de todo e qualquer conflito político,
são dois tipos absolutos e de igual poder. Para que um viva, o outro tem de
morrer. Assim, o judeu foi guindado a uma posição insigne, negativamente
insigne. Se no pós-guerra, um pós-guerra que começa uma década depois do fim
das hostilidades (recorde-se as dificuldades de Isaac Schneersohn para erigir um memorial do genocídio; inaugurado
apenas em 1956, foi até ao início da década de 60 o único do mundo num espaço
público), o judeu não é exactamente igual, isso deve-se ainda a ter sido
alvo de todo o género de exacções e violências. O apoio da União Soviética a
vários países do Médio Oriente assinalou o início do divórcio da opinião
pública, por via esquerdina, é certo, mas não só por aí, relativamente a
Israel. Paradoxalmente, foi ao mesmo tempo o início da entronização do estatuto
que o nazismo atribuíra aos judeus. Os inimigos figadais de ontem geraram ambos
o mesmo fruto e, nesta coincidentia oppositorum diabólica, os
judeus tornaram-se a encarnação do mal absoluto e universal no mundo. O poder,
em que tantos depositaram as esperanças da igualdade, revelou-se, numa
desfiguração retroactiva, o elemento que apunha o selo definitivo no novo
estado de coisas. Em grande medida, o 7 de Outubro de 2023 consumou o que veio
à luz com o nacional-socialismo – foi a sua vitória. Por mais que custe
dizê-lo. As meias tintas que vigoraram depois de 45 (mas também a Shoah,
entendida quase sempre à luz da continuidade história) ficaram para trás,
caracterizam uma época – hoje vista como indecisa pelo novo sentido que um novo
acontecimento lhe impôs – que acabou por não ser um crédito adiantado, antes foi
o início de uma dívida cuja cobrança coube por fim ao 7 de Outubro de 2023 e às
suas repercussões. Pelo poder, a igualdade almejada retirou-se do mundo, e
deixou cadáveres como a maré vazia deixa destroços numa praia. Cadáveres
absolutos e universais de uma nova época.
João Tiago Proença
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
Carta de Bruxelas.
Para assinalar um ano e três meses passados sobre o dia 7 de Outubro de 2023
«Chi meglio di te?» foram as palavras de Elia Dalla Costa, cardeal de Florença, a Gino Bartali. Em 1943, o ciclista já vencera o giro e o tour de France. Bom católico, Gino aceitou a missão. Tratava-se de transportar documentos falsificados entre as duas Itálias, a ocupada e a livre. A pretexto de que se treinava, e sendo uma figura popular que não levantava suspeitas, Bartali contrabandeou os documentos, escondidos nos tubos do selim e do guiador, contribuindo dessa forma para salvar muitos judeus. Hoje tem uma árvore no Yad Vashem, tal como o cardeal Elia Dalla Costa.
Na interpelação do cardeal florentino, não reside uma exigência abstracta e sem destinatário. «Quem melhor do que tu?» é uma interrogação que se dirige a uma pessoa concreta nas suas circunstâncias concretas. O que afirma tem em conta esses elementos mas transcende-os. A pergunta depende dos talentos do espírito, das qualidades do temperamento e dos dons da fortuna, sem dúvida. Mas o que lhes dá sentido e unidade é de outra ordem: qual a finalidade do seu uso? Nessa acepção pode ser universalizada, reencontrando por essa via o messianismo judaico, o mundo só poder ser completado pelo Homem. Em tempos de perseguição – menos do que nunca –, a pergunta do cardeal não fica no passado, relegada ao pó dos arquivos, é de hoje, é a que tem de ser feita a si mesmo por cada qual nas suas circunstâncias: Chi meglio di te?
João Tiago Proença
domingo, 7 de abril de 2024
Carta de Bruxelas.
Para assinalar seis meses passados sobre o dia 7 de
Outubro de 2023
Jacques Maritain, o filósofo francês que inspirou o
personalismo cristão e que tanta influência exerceu no catolicismo social,
viveu alguns anos exilado nos Estados Unidos da América durante a guerra. Entre
1941 e 1944 proferiu várias alocuções radiofónicas dirigidas à França ocupada.
Em 1945, passadas a escrito, essas palavras de esperança e de solidariedade
foram editadas com o título Messages 1941-1944. Uma delas, com o número XXV e difundida a 5 de Janeiro de 1944,
tinha como título A Paixão de Israel. Nela lê-se: «Hoje uma testemunha
dos Massacres de Kharkoff em 1941 contou que no campo onde os alemães haviam reunido
os judeus antes de os enviarem para a morte, uma mulher judia entrou em
trabalho de parto na noite de Natal; e suplicou a Deus: faz que eu dê à luz um
bebé morto, para que não seja morto pelos homens.»
Já foi assim.
João Tiago Proença
quinta-feira, 7 de março de 2024
Carta de Bruxelas.
Para assinalar cinco meses passados sobre o dia 7 de
Outubro de 2023
Mala Ziemetbaum, nascida em Brzesko, Polónia, foi detida
pelos ocupantes nazis em 22 de Julho de 1942, na Bélgica, para onde fugira. É
deportada no comboio n.º 10, em 15 de Setembro de 1942, com Auschwitz como
destino. O seu carácter destemido e as suas actividades no campo não suscitam
dúvidas. Numa posição administrativa privilegiada, passa mensagens, arranja
medicamentos e rações suplementares, distribui as mais fracas pelas tarefas
menos exigentes. No final de 1943 conhece Edek (Edward Galinski) prisioneiro
político. Juntos e apaixonados fogem em 24 de Junho de 1944. São capturados 12
dias depois. E condenados à forca.
Há diversas versões sobre a execução de Mala. Louise
Alcan explica em Le temps écartelé, versão aumentada do seu primeiro
testemunho Sans armes et sans bagage, 1947, que «Em 22 de
Agosto, depois da chamada da tarde, todas judias de Birkenau tiveram de
ficar lá fora. Capturada há várias semanas, Mala vai ser enforcada diante de
todas as suas companheiras. É da praxe para os evadidos que fracassam. Em
certos enforcados pendura-se-lhes ao pescoço um cartaz com a inscrição:
Hurra, wir sind wieder da.»
João Tiago Proença
segunda-feira, 22 de janeiro de 2024
Carta de Bruxelas.
Olhos nos olhos
As execuções capitais ofendem a sensibilidade
contemporânea nas democracias ocidentais, e não só. O acto de matar deve ser
realizado administrativamente, intra muros, nas instituições
judiciais. Como pena judicial, é um momento previsto oficialmente, a ser
resguardado dos olhares públicos. Além dos carrascos, podem assistir, por
vezes, a família do criminoso ou as vítimas dele. Uma coisa é certa, não se
aceita a execução como espectáculo social, nem momentâneo para o qual se alugavam
janela em casas privadas ou se levavam crianças, muito menos como essas quase
procissões que eram os autos da fé, pormenorizadamente organizados pela
Inquisição, com a sua etiqueta solene e precedências rigorosas; tudo pontuado
por uma sólida sucessão de episódios dramáticos. Não se pretende, em tais
casos, morigerar; faz parte da execução dar o exemplo, sem dúvida. Mas o
essencial não reside nisso. O castigo reabilita o criminoso, confere-lhe um
lugar na comunidade cujas leis ofendeu. A solidão da morte é uma solidão com os
outros. Está entre os seus, que são dele testemunhas. Não se trata apenas de
uma coesão religiosa ou ideológica, com o poder definitivo de um ferrolho
corrido. Recordam os historiadores que os condenados à morte, na sequência das
purgas levadas a cabo na França revolucionário pelo Comité de Salvação
Nacional, se preocupavam com a sua aparência e porte, as palavras que
dirigiriam à multidão, a sua a conduta no momento de subir ao patíbulo. Para lá
de todas as divisões resta sempre a comunidade humana que exorbita Estados,
classes ou costumes.
Num pequeno relato, publicado presumivelmente em 1946 ao
regressar do cativeiro, o romancista belga Joseph Wilkens, refere a propósito
dos enforcamentos que os prisioneiros eram obrigados a presenciar: «Reunidos na
praça da chamada, assistíamos impotentes ao assassínio dos nossos camaradas. As
vítimas tinham de aguardar a sua vez. Minuto de sofrimento atroz, ver perecer
de uma morte horrível, um amigo, até um familiar, e saber que, chegada a nossa
vez, sofreríamos a mesma sorte. O supliciado procurava na multidão dos forçados
um rosto amado e punha num derradeiro olhar toda a eloquência de um adeus supremo.»
Não por acaso, o trecho provém de um capítulo intitulado O desprezo da morte.
`O sistema concentracionário roubava à morte o seu carácter humano,
precisamente por não reconhecer na morte um acto humano mas antes a eliminação
de algo que definia a priori como infra-humano – os Untermenschen.
O olhar em que Wilkens descobre o adeus supremo é um adeus de condenado a
condenado, que pretende ser um adeus de homem a homem, lembra sem esperança, na
palavra emudecida, já incapaz de um apelo, a humanidade comum.
João Tiago Proença
domingo, 5 de novembro de 2023
Exercícios de memória.
Quem não se lembra? Quem não se lembra das conversas um
pouco enfastiadas em que havia quem garantisse que era desnecessário remexer no
passado? Dizia-se que o mundo tinha andado para a frente e que águas passadas
não movem moinhos e que já ninguém se interessava pelo assunto. Quem não se
lembra? Gente culta citava Estaline, «Hitler passa, mas o povo alemão fica». O
muro tinha caído há pouco tempo, e professoras de alemão mostravam-se
genuinamente surpreendidas; sem acinte, perguntavam «para quê estudar coisas
tão tristes?». Quem não se lembra? Quem não se lembra de que os povos tinham
superado os traumas? Anos depois, os alemães já festejavam a vitória da
selecção de futebol, tudo entrara nos eixos. Para arrumar o assunto, afirmavam
alguns, ufanos, «até a Merkel vai ao balneário», era a época da Kabinenbesuch.
Quem não se lembra? A normalização estava mais do que comprovada, tão
comprovada que Israel já praticaria malfeitorias no Médio Oriente. Tornou-se
mesmo um Estado entre outros, não há dúvida. E recebeu muito dinheiro, não se
podem queixar. Para quê estar sempre a falar da mesma coisa? Perguntava-se com
perplexidade, cheira a vingança e a vontade de sacar mais algum. Melhor fora
que se deixassem disso. Estar sempre a falar de Auschwitz é maçador e
contraproducente. Já chega, a vida continua. A vida continuou. Não foi maçador,
nem contraproducente.
Foi inútil.
João Tiago Proença
quinta-feira, 2 de novembro de 2023
Terra Sangrenta, a Europa entre Hitler e Estaline.
Não
li nada de tão importante este ano como esta aparatosa e original análise
histórica
É
uma edição revista e atualizada com um novo epílogo, trata-se de uma narrativa
que não nos dará descanso até à última página, uma viagem que começa nas fomes
estalinistas e nos faz palmilhar até às marchas da morte de 1945, iremos
percorrer em sufoco terras de fronteira que constituíram a questão nevrálgica
das obsessões ideológicas de Estaline e de Hitler, Polónia e Ucrânia,
Bielorrússia e Estados Bálticos, seremos confrontados com dezenas de milhões de
civis que foram mortos à fome, espancados, gaseados e assassinados por
autoridades e forças militares de diferente ordem, tanto da URSS como da
Alemanha nazi. Até muito recentemente, a historiografia que investiga e explica
os acontecimentos entre a ascensão dos poderes ditatoriais de Estaline e Hitler
catalogava as monstruosidades deste período falando do Gulag, do Grande Terror,
do paranoico antissemitismo nazi e do Holocausto. Ora, os campos de morte na
Europa neste amplo espaço a que o historiador Timothy Snyder designar por terra
sangrenta revela aproximações aterradoras que são uma lição utilíssima para
ajudar a compreender alguns dos mais inquietantes conflitos do nosso tempo. Terra
Sangrenta, a Europa entre Hitler e Estaline, Publicações Dom Quixote,
outubro de 2023, é uma narrativa que nos faz abalar a compreensão que tínhamos
do terror estalinista, da demência racial de Hitler, dos seus propósitos
expansionistas, e como são chocantes analogias de duas estratégias imperiais.
Esta soberba investigação de Timothy Snyder, aclamada e reconhecida como obra
de consagração de um dos maiores historiadores do nosso tempo, é profundamente
incómoda para algumas mantras instaladas, quase mitologias, o genocídio judaico
circunscrito a um processo de matança em grande escala e centrado em Auschwitz;
a Grande Guerra Pátria, uma façanha de heroísmo desmedido centrado na abnegação
russa. Acontece que a história envolvente é muitíssimo mais complicada e o
martírio dessas dezenas de milhões de civis revelam que a hecatombe teve mais
dimensões.
É,
pois, uma investigação crucial que não nos dará tréguas, tem o poder de nos
fazer alterar pontos de vista quanto a rótulos simplistas sobre tiranias,
massacres, destruição de países, ódios raciais – uma História confecionada por
vencedores e que conseguiu sobreviver durante a pós a Guerra Fria. É uma
análise profundamente incómoda, veja-se logo esta apreciação feita no prefácio:
“O assassínio em massa na Europa é normalmente associado ao Holocausto e o
Holocausto a um rápido massacre industrial. A imagem é demasiado simples e
limpa. Nos locais onde foram cometidos os massacres, tanto pelos alemães como
pelos soviéticos, os métodos de homicídio eram bastante primitivos. Dos 14
milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos das guerras sangrentas entre 1933
e 1945, mais de metade morreu por lhe ter sido negado o acesso a alimentos. Os
europeus privaram deliberadamente de alimentos outros europeus em números
horripilantes em meados do século XX. As duas maiores ações de assassínio em
massa, depois do Holocausto – as fomes dirigidas por Estaline no início dos
anos de 1930 e a privação de alimentos que Hitler impôs sobre os prisioneiros
de guerra soviéticos no início dos anos 1940 –, envolveram este método de
homicídio. À privação de alimentos seguiu-se o fuzilamento e, depois, o
gaseamento. No Grande Terror de Estaline, em 1937-1938, foram fuzilados quase
700 mil cidadãos soviéticos. Os cerca de 200 mil polacos mortos pelos alemães e
pelos soviéticos durante a sua ocupação conjunta na Polónia foram fuzilados. Os
judeus mortos no Holocausto tanto podiam ser gaseados como fuzilados.” E o
autor conclui, ainda no prefácio: “Este estudo une os regimes nazi e soviético,
une a história judaica e europeia, e uni as histórias nacionais. Descreve as
vítimas e os perpetradores. Aborda as ideologias e os planos, bem como os
sistemas e as sociedades. Esta é uma história das pessoas mortas pelas
políticas dos líderes distantes. As terras natais das vítimas estendem-se entre
Berlim e Moscovo; transformaram-se em terras sangrentas depois da subida ao
poder de Hitler e Estaline.”
A
introdução dá-nos o enquadramento da Europa do pós-Guerra e o sonho alentado
por Hitler e Estaline, as suas visões imperiais, cobiçavam as mesmas terras.
Teremos acesso às fomes soviéticas, a matança dos bodes expiatórios, sobretudo
depois dos desastres da coletivização das terras, a criação do dogma do
“socialismo num só país”, os julgamentos de pseudo-traidores, dos chamados
desviacionistas, a liquidação dos polacos soviéticos; a constituição da Europa
de Molotov-Ribbentrop, a destruição da Polónia e as execuções alemãs e
soviéticas, a Alemanha nazi expandia-se, os soviéticos também não só na Polónia
mas aumentando as repúblicas ucraniana e bielorussa para o Ocidente; é
estarrecedor o quadro destas matanças, desde simples prisioneiros de guerra aos
intelectuais de lealdade duvidosa; e assim chegamos ao apocalipse da invasão
alemã em terras soviéticas, e o esforço deliberado do invasor em matar pela
fome, desde Leninegrado à Ucrânia; é neste território ocupado que Hitler e os
seus sequazes montam a solução final da questão judaica, da Bielorrússia à
Polónia, da Lituânia à Ucrânia, os judeus convergem para guetos e campos de
concentração; e assistimos às fábricas de morte nazis, isto enquanto a partir
de 1943 a URSS contra-ataca e inverte-se o sentido da guerra, haverá uma
sublevação em Varsóvia, sufocada com toda a brutalidade, no ano seguinte o
gueto será rasado; descrevem-se as limpezas étnicas, as alemãs e as soviéticas,
cresce o êxodo das populações, as deportações; seremos confrontados com
antissemitismo estalinista, aliás, antes de morrer, em 1953, Estaline urdira
mais uma conspiração, desta vez envolvendo médicos judeus, tudo isto numa época
em que a URSS implanta estados comunistas na Europa de Leste e Estaline decide
purgas de camaradas que lhe foram fiéis.
Não
querendo privar mais o leitor destas muitas centenas de páginas empolgantes,
escritas com uma mestria inatacável, pretendo só chamar a atenção para
derradeiras observações do autor de tão extraordinária investigação:
“Os
sistemas nazi e estalinista devem ser comparados, não tanto para compreender um
ou o outro, mas para compreender os nossos tempos e nos compreendermos a nós
mesmos”; “A imagem dos campos de concentração alemães como o pior elemento do
nacional-socialismo é uma ilusão, uma miragem escura sob um deserto
desconhecido. O destino dos seus prisioneiros era muito semelhante ao dos
detidos do Gulag, na União Soviética, entre 1941 e 1943”;” Auschwitz foi, de
facto, um importante local do Holocausto: cerca de 1/6 dos judeus assassinados
morreu ali. Mas, ainda que a fábrica de morte de Auschwitz tivesse sido o
último complexo de morte em funcionamento, não corresponde ao expoente máximo
da tecnologia da morte: os pelotões de fuzilamento, mais eficientes, matavam mais
depressa, os locais de privação de alimentos e Treblinka matava mais depressa.”
A
historiografia tem vindo a fugir à investigação de dados tão complexos. E o
autor despede-se com uma advertência: “Não precisamos de leis da memória. Não
precisamos da História para que as pessoas possam retirar dela lições
individuais. Precisamos da História, sim, para nos tornarmos pessoas. Os tabus
criam tribos e a ignorância cria gangues. Só a História individualiza ao
fornecer o tema comum a partir do qual se pode dar início à razão ética
individual.”
De
leitura obrigatória.
Mário Beja Santos
quinta-feira, 21 de setembro de 2023
O mais pungente relato de sobrevivência nos campos da morte nazis.
Livro
publicado em 1958, é um relato que nos toca desde a primeira página por uma
serenidade que vai evoluindo para o quadro de uma existência onde pontifica,
como único objetivo encontrar uma razão para sobreviver, vendo os familiares e
amigos partirem para fornos crematórios e, todos os outros, levarem a
existência mais degradante que se possa imaginar. Noite, por Elie
Wiesel, Publicações Dom Quixote, 2023, é uma dolorosa viagem desde uma pequena
cidade da Transilvânia até aos campos da morte onde se consumou o Holocausto. É
então o autor um jovem de quase 13 anos, profundamente crente, estudioso do
Talmude, assíduo frequentador de uma sinagoga hassídica (o hassidismo é um dos
movimentos judaicos). Estamos em 1941 e de repente começaram as expulsões dos judeus
estrangeiros levados pela polícia húngara. Alguém volta no final do ano
seguinte e alerta para o extermínio judaico. A comunidade em que ele se insere
recebe notícias maravilhosas da frente russa, estava-se na primavera de 1944.
Nisto surgem os soldados alemães, começam os decretos humilhantes, criam-se
guetos, segue-se a deportação, abandona-se tudo, Eliezer segue com a família,
pais e irmãs, para um novo gueto e depois a estação do caminho de ferro. Até
aqui, temos uma descrição comum a muitos outros relatos. O título desta
narrativa é metafórico, a noite transfigura, a alvorada é longínqua, é o lastro
da vida de cada um que faz resistir, superar o negrume do mais horrendo dos
presentes que a existência pode oferecer.
A
bestialidade manifesta-se na viagem de comboio, viajam esfomeados, surgem casos
de loucura, e assim se chega à estação de Auschwitz, Birkenau. Homens à
esquerda, mulheres à direita, em fila de cinco, Eliezer mente, diz que tem 18
anos, segue no grupo dos homens, por ali perto passeia-se o famoso Dr. Mengele,
já não há ilusões, os fornos crematórios estão a funcionar. E há aqui uma nota
que nos prende por inteiro: “Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no
campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada. Nunca
esquecerei aquele fumo. Nunca esquecerei os pequeninos rostos das crianças
cujos corpos eu vi transformarem-se em espirais sob um céu mudo. Nunca
esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha Fé. Nunca
esquecerei aquele silêncio noturno que me privou, para a eternidade, do desejo
de viver. Nunca esquecerei aqueles momentos que assassinaram o meus Deus e a
minha alma, e que transformaram os meus sonhos em cinzas. Nunca esquecerei,
mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus.
Nunca.”
E
entramos num cenário da crueldade, da desumanidade, vestidos de farrapos, o
cabelo rapado, os amigos e vizinhos encontram-se e choram, parece que
desapareceu o instinto de sobrevivência, o amor próprio. Eliezer procura
amparar-se com o pai, são lhes destinados trabalhos rudes, um oficial das SS
avisa-os: “Auschwitz não é uma casa de repouso. É um campo de concentração.
Aqui, têm de trabalhar senão, vão direitos para a chaminé. Para o crematório.”
São as chamadas incontáveis. Eliezer sai de Birkenau e vai para Auschwitz. Um
responsável do bloco, um jovem polaco, fala-lhes com humanidade: “Um longo
caminho repleto de sofrimento espera-vos. Mas não percam a coragem. Já
escaparam ao perigo mais grave: a seleção. Reúnam as vossas forças e não percam
a esperança. Todos veremos chegar o dia da libertação. Afastem o desespero e
assim de vós afastarão a morte. Somos todos irmãos e sofremos todos o mesmo
destino. Ajudem-se uns aos outros. É a única maneira de sobreviverem.”
Procuram-se familiares e amigos, a quem ali acaba de chegar e pergunta onde
encontrar os seus familiares, o melhor é mentir, dar um pouco de esperança. Os
médicos selecionam quem vai para o crematório ou quem continua no trabalho
desumano, tudo ao som de uma marcha militar.
Os
dentistas retiram coroas de ouro, o Terceiro Reich precisa de ouro. Os
bombardeamentos do exército salvador são insistentes, pressente-se que a guerra
caminha para o colapso nazi. Há enforcamentos exemplares, os alemães estão
implacáveis. A esperança dos judeus ainda não desfaleceu, é o que o autor
descreve na véspera do Roch Hashaná, abençoado seja o Eterno, eleva-se a voz do
celebrante entre as lágrimas, os soluços e os suspiros da assistência, vem
depois o Yom Kippur, o dia do Grande Perdão, Eliezer sente um grande vazio.
Estamos já em janeiro de 1945, no meio de um grande sofrimento, Eliezer é
operado a um pé. O pai de Eliezer está cada vez mais enfraquecido. Com o
Exército Vermelho a aproximar-se, os judeus são forçados a marchar com a neve a
cair em flocos, é uma descrição lancinante, percorrem-se povoações e são
novamente transportados em vagões próprios para animais, procura-se
desesperadamente sobreviver ao frio. “Um dia em que estávamos parados, um
operário alemão tirou da sua sacola um bocado de pão e atirou-o para o vagão.
Foi uma correria. Dezenas de homens esfomeados lutaram desesperadamente por
causa de algumas migalhas. No vagão onde o pão tinha caído, uma verdadeira
batalha tinha eclodido. As pessoas lançavam-se umas sobre as outras, pisando-se,
dilacerando-se, mordendo-se. Aves de rapina soltas das amarras, com o ódio
animal nos olhos: uma extraordinária vitalidade tinha-se apoderado delas, tinha
aguçado os seus dentes e as suas unhas.” E assim chegaram ao campo de
Buchenwald, é aqui que o seu pai vai falecer, não resistiu a tanto sofrimento.
A 10 de abril, com os libertadores à porta do campo, há um movimento de
resistência e os SS fugiram. À tarde chegou o primeiro tanque norte-americano.
Eliezer
é transferido para um hospital onde passou duas semanas entre a vida e a morte.
E assim finda este tão dramático e pessoal testemunho de um candidato à morte
que sobreviveu e dedicou a sua vida a tantas causas da faz e que recebeu em
1986 o Prémio Nobel:
“Um
dia, consegui levantar-me, depois de ter reunido todas as minhas forças. Queria
ver-me ao espelho, que estava na parede em frente. Desde o gueto que não me via
a mim mesmo.
Do
fundo do espelho, um cadáver contemplava-me. O seu olhar nos meus olhos nunca
me abandonou.” Alguém comentou que este testemunho dilacerante devia ser de
leitura obrigatória para toda a humanidade. Faço votos para que assim seja.
Mário Beja Santos
domingo, 21 de maio de 2023
Carta de Bruxelas.
O regresso das palavras
O texto com que Charlotte Delbo abre o livro, A Medida
dos Nossos Dias, incluído em Auschwitz e Depois (CFB Editores, 2018,
pp. 315-321), intitula-se significativamente «O regresso». Não se trata de
tornar a uma Ítaca abandonada a contragosto e tomar posse do mundo que nunca se
perdeu: os rostos familiares, os objectos ordenados como lhes compete, as ocupações
próprias de uma condição social e os deuses que zelam pela harmonia do todo.
Através dos perigos arrostados, Ítaca permanece o Norte magnético: corrige os
desvios, anula os erros e, sobretudo, é a memória que vivifica, que tanto mais
estende as suas asas acolhedoras e fiéis quanto mais demorado e acidentado é o
regresso. Quanto mais longe dela, mais brilha a origem. À memória que guia
Ulisses como a varinha do vedor indica a água, fonte da vida, responde a memória
que guia Penélope nas suas astúcias, de olhos postos no que há-de vir. O
reencontro será feliz e rico: uma realidade confirmada e potenciada pelo tempo
vivido.
A experiência concentracionária do regresso é de outra
ordem. A viagem de regresso, conforme
descrita por Delbo, desrealiza gradualmente as sobreviventes, como se o mundo
normal arrebatasse a vida dos regressadas.
Em primeiro lugar e, num aparente paradoxo, depois da fome
concentracionária, no próprio corpo, «[v]ia-as [as companheiras] a
transformarem-se sob os meus olhos, tornarem-se transparentes, tornarem-se
vagas, tornarem-se espectros.» Uma tal desaparição física, corpórea, não é um
dado, um facto bruto. Pelo contrário, deriva da experiência mais originária da
perda de sentido. É a linguagem que dá a medida da realidade. Por isso, Delbo
acrescenta de imediato «[a]inda as ouvia, mas começava a não perceber o que
diziam.» A libertação, o ansiado regresso, não é o reencontro com um mundo
abandonado, o reconhecimento em comunhão com o que lá ficara, paciente,
esperando. À chegada, o mundo desapareceu, os outros desapareceram, o próprio
eu solta as amarras; erra, desliza, flutua, são os verbos que Delbo usa
repetidamente. Fora do mundo, «[n]ão sentia nada, não me sentia existir, não
existia.» Para se reapossar do mundo é
necessário – precisamente o oposto de Ulisses e Penélope – um esforço de
memória, «mas porque dizer: um esforço de memória se já não tinha memória?» A
cabeça esquecida é a cabeça vazia, incapaz de reflectir, «como reflectir,
quando já não se possui uma única palavra, quando se esqueceram as palavras
todas?» E, no entanto, esse momento de suspensão da continuidade do eu é
necessário como uma reacção química que aparentemente isola os elementos de um
composto. É nele que se funda a passagem entre duas condições de vida incomensuráveis.
Uma passagem entre uma linguagem concentracionária que Primo Levi por momentos
julgou possível, como se pudesse existir uma experiência verdadeira do Lager,
verdadeira precisamente no sentido de ser dada numa linguagem própria, sem um
denominador comum com a linguagem normal. Uma linguagem que não fosse uma
linguagem do mundo da vida, da experiência humana, mas da morte, da morte em
vida. O tempo da incompreensão a que se refere Delbo não deixa de poder ser
compreendido. Significa isso que também nesse meio tempo houve linguagem, por
mais tacteante que tenha sido. Com ironia, e sempre com espanto, interroga-se:
«Quanto tempo fiquei assim, em suspensão de existência? (Como vêem, depois
voltei a encontrar as palavras).» A resposta à pergunta está dada entre
parêntesis: o tempo durante o qual não encontrou as palavras. Esse é o tempo em
que o seu corpo não tinha peso, a sua cabeça não tinha peso, chegando ao
extremo do que começara com a desrealização das companheiras, também elas sem
peso, também elas sem palavras compreensíveis. Um exemplo claro que evidencia a
ligação umbilical aos outros e ao mundo, por esta ordem e pela linguagem.
O regresso às palavras, ou talvez melhor, o regresso das
palavras faz-se pela recusa da possibilidade de uma linguagem do Lager.
A linguagem dos homens normais retoma o seu lugar quando se nega o privilégio
da verdade ao Lager, como se aquilo fosse a verdade do homem
perante o qual a vida normal fosse falsa. Delbo dá conta da sensação de
estranheza, de inautenticidade, no encontro com os outros e, ratificando o
modelo hermenêutico do texto como um tu, com os livros. «Tal como
baixava os olhos para não ver as caras porque as caras se despiam sob os meus
olhos, porque, a partir do momento em que as fixava, via tudo das pessoas
através das caras delas, e isso incomodava-me ao ponto de ser obrigada a baixar
os olhos, e também me afastava dos livros porque via através das palavras. Via
a banalidade, a convenção, o vazio. [...] Tudo, caras e livros, era falso, tudo
me mostrava a própria falsidade [...].» A falsidade geral só pode ser medida
pela linguagem pseudo-verdadeira do Lager, que é a linguagem adâmica
satanicamente invertida. Em vez da identidade plena e feliz entre coisa e
palavra, é uma identidade degradada, já não a identidade da vida mas sim a da
morte em vida, como se o acto de desumanização fosse a verdade. Por isso, a
descrição de Delbo do regresso das palavras não acompanha um processo de
reconstrução da linguagem a partir de elementos quimicamente isolados. A
palavra vem como palavras, num sistema impreciso, indefinível, enigmático: «Como
é que tudo se passou? Não sei. Um dia, peguei num livro e lio-o.» Ou seja,
deixou de «viver num mundo sem mistério». Não lhe é possível calcular
esse momento em que passa a haver sentido; não por acaso, o logos grego
foi traduzido por ratio mas também por verbum.
Num texto breve (Voltar do campo voltar ao normal,
pp. 371-373), Delbo vê o regresso à vida como a saída da história. Que
história? Não a história com maiúscula, a epopeia cumulativa da Humanidade,
nem, em declinações famosas, a história que lê o passado à luz de uma
ideologia. Trata-se antes da história que diz o que cada qual é, que o esbulha
da sua interioridade; a história que transforma o homem numa superfície, sem
mistério, sem perigo e, por isso, sem banalidade, sem inautenticidade e sem
falsidade. Já não é história, é mitologia, que rouba o tempo e dele faz espaço
exterior. É a palavra – fatum – que vem do exterior, avassaladora, cega
como uma aluvião que soterra as casas e as vidas. Sair da história para entrar
na vida não é um momento de criação que seja acessível aos não
concentracionários. Dá testemunho do nascimento da linguagem e da vida antes da
história. A vida regressada tem de excluir o horror absoluto como factor capaz
de alterar todas as contas. O que não acontece por inércia, por esquecimento;
mas por uma decisão. «Inspirar piedade, não, não queria, mas para admitir que
Auschwitz não entra na balança do deve e do haver, precisamos de nos endurecer
brutalmente.» (p. 412). Se a luta de
Jacob o deixou marcado por um poder superior a quem pede a benção, aos
concentracionários a luta com o mal legou-lhes uma maldição: endurece-te
brutalmente. Talvez Primo Levi ou Jean Améry tenham sucumbido a uma tal
maldição, o que amplia a lista dos agravos. Charlotte Delbo não. Viu o mal e
lutou. Talvez se tenha endurecido brutalmente, a forma de coxear que Auschwitz
lhe impôs, mas venceu o mal regressando à vida, à vida toda, à vida até ao fim.
João Tiago Proença