Mostrar mensagens com a etiqueta Hitler. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hitler. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 26 de março de 2026

Carta de Bruxelas







                                                                                        Os relógios do tempo




Margarete Buber-Neumann (1901-1989) foi uma testemunha com o destino do século marcado a ferro na carne, deportada nos campos de Estaline e depois nos de Hitler. Cruelmente, passa directamente de uns para os outros. Depois da execução do marido, o dirigente do Partido Comunista Alemão Heinz Neumann, em 1937, na URSS, Margarete é condenada em 1938 a cinco anos de detenção num campo. Em 1940 é entregue pelas autoridades soviéticas às autoridades nacional-socialistas. Mais cinco anos em Ravensbrück. A dupla experiência concentracionária foi passada a escrito num livro justamente célebre, Als Gefangene bei Stalin und Hitler. Eine Welt im Dunkel (1949).  Sem a ambição histórica dessa obra, Margarete Buber-Neumann conta em Die erloschene Flamme: Schicksale meiner Zeit (1976) alguns episódios em que se cruzou com esses destinos de um século. Não se trata das grandes personagens, embora também lá estejam, por exemplo Panait Istrati ou Milena ( a quem tinha já dedicado um livro, o único traduzido para português).

Um dos casos incluídos nesse texto é o de Karl Brunnengraber. A conversa narrada por Margarete Buber-Neumann é fruto de um acaso. Passageiros do mesmo voo de Berlim para Frankfurt, calharam-lhes lugares contíguos, o que levou à conversa – e ao destino comum. Ambos judeus alemães. Ambos antigos concentraccionários. Ambos a viverem na Alemanha. Brunnengraber, relojoeiro, conta como sobreviveu no campo pai, mãe e irmãos já assassinados.  Um S.S. deu-lhe um relógio de pulso para reparar o mais depressa possível. De imediato, o prisioneiro percebeu que seria poupado aos transportes, enquanto fosse necessário. Explica que não terminava o arranjo antes de receber outro relógio para consertar. E assim «vivi por dois anos de um relógio para outro». Pelo meio narrou outras peripécias. No fim da conversa relatada pela autora, Karl Brunnengraber, reconciliado com a Alemanha, mostra-lhe uma bracelete de relógio que patenteara e explica-lhe longamente de que se trata; explicação, diz Margarete, «de que não comprendi uma só palavra». E, acrescenta o relojoeiro, a última frase do capítulo, «na minha cabeça tenho mais cinco invenções. Talvez ainda tenha tempo de as realizar todas....».

Involuntariamente, o texto de Margarete Buber-Neumann expõe uma ambiguidade, que lhe inverte o título: Die Kraft zu Überleben. O que estraçalha o destino de morte não é a força para sobreviver, é a força para viver. A ambiguidade dos relógios é a ambiguidade do tempo. Os primeiros, avariados, corporizam o tempo da morte iminente, em que cada minuto ganho é uma fuga, que se pode malograr no minuto seguinte. É o tempo do terror. Os segundos encarnam a invenção, a interrupção do novo, são o tempo pleno, o tempo da promessa – da promessa de uma vida livre.

 

                                                                                João Tiago Proença


terça-feira, 15 de abril de 2025

São Cristóvão pela Europa (306).

 

 

 

 

Kappeln é uma cidade portuária do Norte da Alemanha. Talvez devido à importância dos seus marinheiros, o seu brasão é dedicado ao nosso Santo. O Santo é ladeado por três arenques de cada lado.

 



 

 A farmácia Dehnthoftem tem, na sua fachada, um baixo-relevo de São Cristóvão:

 



A principal igreja local é dedicada a São Nicolau e foi reconstruida no estilo barroco no final do Século XVIII. No interior, uma estátua de madeira representa o nosso Santo.

 


 

Curiosamente o catavento da igreja é uma imagem de São Cristóvão. Só o meu amigo Vítor seria capaz de descobrir isto!... E lamento informar, mas não subi ao campanário para tirar as fotos… Excepção à regra.





Na zona pedestre da Cidade uma fonte mostra um mosaico da autoria da ceramista Debora Stock onde São Cristóvão surge em grande plano:

 



Flensburg é uma das cidades portuárias desta zona do Báltico. Teve um papel importante na História da II Guerra Mundial.

Adolf Hitler morre em 30 de Abril de 1945 nos escombros de Berlim. No seu testamento designa inesperadamente como seu sucessor como Presidente do III Reich o Almirante Karl Dönitz (1891-1980), em detrimento de Göring e de Himmler que advogavam uma paz separada a Ocidente.

O Almirante distinguira-se por defender consistentemente durante a guerra a importância do submarino como arma letal. Assumiu em 1943 o comando da Marinha de Guerra.

A 2 de Maio de 1945 o governo alemão instalou-se em Flensburg na Base Naval de Mürvik, na Escola de Desporto da Academia Naval Alemã.

Aí funcionou até 23 de Maio quando o último Governo do Reich foi aprisionado pelas tropas britânicas.

O edifício existe e ainda exibe a águia imperial. A suástica foi obviamente retirada.

 


Junto ao porto uma estátua de um São Cristóvão “laico” sem Menino Jesus e suportando um navio no seu ombro.

É em bronze, mede três metros e meio e é da autoria do escultor alemão Carl Lindner.

 


                                            Fotografias de 3 de Fevereiro de 2025.

                                                                             José Liberato




segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Carta de Bruxelas - 25.

 





                            Para assinalar um ano passado sobre o dia 7 de Outubro de 2023

 

                                                                                 Arbeit macht frei anus mundi

 


O trabalho é uma negação da natureza. Os produtos naturais seguem um curso autónomo e determinado de antemão, nascem, crescem reproduzem e morrem cumprindo a lei da espécie ínsita em cada indivíduo. O seu metabolismo no ambiente não ultrapassa nunca o que lhe está prescrito por essa lei; os seus fins são inseparáveis dessa lei. Na natureza, o tempo é apenas o elemento homogéneo onde se desenrola o processo natural. É como que o genuíno sujeito da natureza.  Enquanto specificum humano, o trabalho nega a lei específica da natureza, a autonomia dos produtos naturais impondo-lhe finalidades humanas. O processo de artificialização escapa, desse modo, ao império do tempo.  Uma árvore desenvolve-se como árvore e nunca será nada mais do que uma árvore. Não tem a possibilidade de ser outra coisa. Vista como madeira, pode ser transformada em cadeira, mesa ou até lenha para uma lareira. O trabalho arranca a natureza da sua posição de sujeito e torna-a objecto humano. E fá-lo precisamente por uma inversão do tempo. O produto natural deixa de ser um passivum do tempo e passa a ser, enquanto objecto negado, um activum do tempo. E esse tempo é o tempo humano. No trabalho, o homem torna-se senhor do tempo. Nessa posse, a objetivação da natureza externa está em acção recíproca com a objetivação da natureza interna. A transformação do produto natural exige uma modificação da natureza interna.             Cozinhar os alimentos implica a suspensão da vinculatividade do instinto natural, essa razão alheia no animal, o adiamento da satisfação da necessidade natural. No trabalho, o estímulo da natureza exterior e o estímulo da natureza interna perderam o seu poder, já não conseguem determinar no homem a eterna repetição do ciclo natural. O trabalho libertou o homem do tempo. Os fins são seus, não da natureza. O trabalho liberta.

O nacional-socialismo submeteu esta velha tradição intelectual, vigorosa na Alemanha, maxime em Hegel, a uma reinterpretação. Inscrevê-la como máxima no portão de entrada de Auschwitz dá disso testemunho. O que era vida humana há-se de se tornar morte humana. O trabalho no processo de extermínio é o trabalho da morte, não visa impor fins humanos a um material natural. Pelo contrário, a morte no Lager exigia a redução prévia dos humanos a material, o que significa subtrair ao homem a sua disposição de possibilidades. Reintegrava as suas vítimas no processo do tempo natural e, desse modo, a morte deixava de ser morte de homem a homem. No Lager, o judeu pagava a exorbitância de um Deus criador que desencantou a natureza. E tal como a vítima era reduzida a material também o carrasco pretendia ser a voz oprimida de uma natureza que se vingava, e, nesse passo, reservava para si a atividade insigne da passividade o poder da imanência absoluta, que se revela na excrescência do mal absoluto. As chaminés dos crematórios expelem os excrementos da digestão purificadora do mundo anus mundi. É esse o trabalho sem finalidade exterior que se revolve eternamente sobre si mesmo.

Hoje regressa esse antigo pesadelo, quando se pretende deduzir o trabalho de identidades naturais, difamando como traição a autonomia das possibilidades, substituindo de maneira tão escandalosamente semelhante o Blut und Boden por aquelas. O trabalho volta a ser o poder imanente fechado em si, sem promessa. Que as identidades se juntem a algum islamismo contra Israel não surpreende. Entre as falsas equivalências, uma há que é das mais perniciosas, a saber, a de que a origem comum das três religiões implica uma compreensão teológica comum. Na tradição judaica e cristã, o milagre é sempre operado em favor do homem, nunca como exibição do poder absoluto de um Deus que se regozija nesse absoluto perante a criatura débil; no Corão verifica-se frequentemente o contrário. Esse poder sem exterior conjuga-se muito bem com renaturalização das identidades como código inescapável. A eliminação de Israel e dos judeus presente hoje nos protestos contra Israel Gas the jews! visa a eliminação do testemunho de que o homem, ele e só ele, responde perante si mesmo pelo que de si fizer, pelo seu tempo. A velha história do rabi que não abandona as suas tarefas quando lhe anunciam a presença do Messias confirma essa responsabilidade indeclinável. 

Politicamente, a democracia não pode deixar de constituir o inimigo por excelência desse funesto consórcio ideológico. Nela, o lugar do poder está vazio por natureza, tal como por natureza o seu tempo é o tempo da decisão humana responsável perante si mesma. É-lhe consubstancial o ónus da decisão, e a felicidade e infelicidade que lhe estão associadas e que põem em marcha o seu trabalho sobre si mesma, trabalho que não elimina o poder-ser humano, mas, pelo contrário, o mantém sempre aberto.  De certa maneira, nela, como no judaísmo, nasce o mundo. 


                                                                            João Tiago Proença





 

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Nazis do círculo privado de Hitler que triunfaram no Pós-Guerra.

 


 

Há obras que têm a felicidade de estampar contracapas que sintetizam brilhantemente o que pode interessar ao leitor. A do livro Nazis Que Triunfaram, por Éric Branca, Casa das Letras, 2022, possui um elevado poder de esclarecimento, como se segue:

“Em 1968, o chanceler alemão Kurt Georg Kiesinger foi esbofeteado em público, perante as câmaras da televisão, por uma jovem e atraente caçadora de nazis chamada Beate Klarsfeld. O momento seria o princípio do fim da carreira de um dos muitos cúmplices de Adolf Hitler que, apesar do seu currículo maldito, triunfaram de forma retumbante no Pós-Guerra. Mas, ao contrário de Kiesinger, denunciado nesse instante de vergonha pelos seus antecedentes sombrios, muitos outros destacados nazis mantiveram-se impunes e não encontraram obstáculos à sua ascensão, fosse na própria Alemanha, fosse em países vencedores do conflito como os Estados Unidos. Reinhard Gehlen, criminoso de guerra e responsável pela inteligência militar na frente Leste, fundou e dirigiu os serviços secretos da República Federal Alemã. Adolf Heusinger, chefe de operações no alto comando das forças armadas de Hitler, alcançou a presidência do comité militar da NATO. Ernest Achenbach, grande angariador de fundos para o Partido Nacional-Socialista e organizador do saque à economia da França sob ocupação, esteve à frente da comissão dos Negócios Estrangeiros do parlamento germânico e chegou até a ser indicado para comissário europeu. Rudolf Diels, primeiro chefe da Gestapo, membro das SS e figura envolvida no incêndio do Reichstag em 1933, acontecimento decisivo para consolidar o poder nazi, foi contratado pela CIA como caçador de comunista. Otto Skorzeny, protagonista de numerosas operações especiais rocambolescas, entre as quais o rapto de Mussolini de uma fortaleza inexpugnável, tornou-se espião ao serviço de Israel, personificando uma das reviravoltas mais insólitas e irónicas deste conjunto de figuras. E há ainda os casos de Albert Speer, Wernher von Braun e Friedrich Paulus, entre outros militares, políticos e espiões que ocultaram o seu currículo manchado de sangue para renascer das cinzas do Terceiro Reich ou que, bem pelo contrário, se serviram precisamente da experiência adquirida no regime nazi para triunfar num tempo que estende os seus tentáculos até aos dias de hoje, de forma frequentemente inesperada…”

Trata-se, pois, de um reportório sinistro. Logo o controverso Albert Speer, ministro da Produção e do Trabalho, bom ator no julgamento de Nuremberga, passou de acusado a testemunha, com tiradas de arrependimento, independentemente de ter satisfeito todos os delírios arquitetónicos de Hitler, esteve à frente de milhões de escravos, trazidos dos países derrotados, grande parte deles morreram de fome, frio, esgotamento e doenças variadas, comprovadamente andou ligado à economia de guerra alemã, às armas secretas e às tecnologias avançadas. Walter Schellenberg, inequivocamente ligado ao trabalho de garantir segurança dos territórios conquistados na URSS, o que se traduziu em operações de liquidação avaliada em meio milhão de mortos, ligado também a um processo de intoxicação junto de Estaline, fazendo constar que o marechal Tukhachevski, um dos principais organizadores do novo Exército Vermelho teria tido contactos com serviços secretos alemães para depor o senhor do Kremlin, falsificou papéis e preparou uma das purgas mais horrendas associadas a Estaline. Por curiosidade, este senhor veio a Lisboa numa missão não concretizada de raptar o duque de Windsor. Concluído o processo de Nuremberga ainda teve outras acusações, foi condenado a seis anos de prisão, beneficiou de um indulto médico. Reinhard Gehlen, antigo chefe do serviço de informações militares para a frente Leste, entregou-se prudentemente aos norte-americanos, tinha muito a contar o que estes precisavam para o início da Guerra Fria, teve todas as facilidades para voltar a montar uma rede de informações, armas secretas da NATO, será posto à frente dos serviços secretos alemães. Rudolf Diels, o inventor da polícia política nazi, foi uma figura fundamental para arquitetar que um comunista holandês lançasse algum fogo no parlamento alemão, graças a esse incêndio tornou-se legal a ditadura de Hitler, o qual lançou todos os seus opositores na prisão e tornou o regime nazi doutrina oficial. Diels esteve ao serviço do governo militar na Alemanha, era ele que vigiava os membros do Partido Comunista da Alemanha e que levou à ilegalização do partido. Otto Skorzeny era tratado pela imprensa de língua inglesa como “o homem mais perigoso da Europa”, distinguido por Hitler com a condecoração de cavaleiro da cruz de ferro com folhas de carvalho, trabalhou a Sul dos israelitas, possuidor de um currículo invejável ao serviço da Alemanha nazi, foi homem de negócios em Madrid, trabalhou para a CIA. Ernest Achenbach especializou-se em pilhagem, foi mandatários dos interesses económicos alemães em tempos de guerra, advogado dos cartéis do Ruhr e de criminosos de guerra, parecia que ia ser colocado em Bruxelas em tempos de CEE, foi desmascarado, levou até ao fim uma próspera carreira de advogado em representação dos cartéis que servia fielmente desde 1933.

O leitor tem aqui os aliciantes para ficar suficientemente desorientado para saber como se escolheu um chanceler com palmarés dedicados ao nazismo, como o ministro das Finanças de Hitler encontrou uma solução para salvar o marco no auge de uma hiperinflação, como foi um leal colaborador de Hitler na chamada recuperação económica, absolvida em Nuremberga, embora o procurador adjunto francês tenha dito qual o seu papel maquiavélico no regime nazi: “Este homem nefasto soube agrupar em sua volta para os conduzir a Hitler todos os poderes financeiros industriais pangermanistas, que ajudou Hitler a apoderar-se do poder, que com os seus artifícios financeiros dotou a Alemanha da máquina de guerra mais poderosa da época…”, pois bem, no Pós-Guerra foi um banqueiro altamente conceituado e quando morreu em 1970, com 94 anos, vieram muitos embaixadores da Ásia, da África, da América Latina ou do Médio Oriente para assistir às suas exéquias. E não menos perturbador é a história de Adolf Heusinger, que chegou ao topo da NATO, foi encarregue de preparar no maior segredo a invasão da união soviética, bem como os aspetos práticos da sua ocupação, acusado pessoalmente de massacres, soube reciclar-se, entregou aos norte-americanos a sua vasta documentação acerca do poder militar soviético. O marechal Friedrich Paulus, derrotado á frente do 6º exército em Estalinegrado, em 30 de janeiro de 1943, serviu depois os interesses da RDA/URSS, parece que se sentiu muito feliz por ter colaborado com os novos senhores da Alemanha de Leste. Mas o leitor encontrará mais histórias, basta pensar em von Braun, o cientista prodígio dos alemães que se notabilizou nos EUA ao serviço da corrida aeroespacial, os seus protetores democráticos jamais referiram que ele era o pai das bombas voadoras V1 e V2 que ainda aterrorizaram os ingleses. Coisas da História…

Uma leitura fascinante, que nos deixa atarantados como as democracias e as ditaduras se serviram sem pejo de grandes colaboradores de Hitler e dos seus crimes. 



                                                                Mário Beja Santos

 


sábado, 21 de outubro de 2023

Um título mal-amanhado para uma eletrizante narrativa histórica.

 



 

Conspiração Nazi, por Brad Meltzer e Josh Mensch, Casa das Letras, 2023, é um belo exercício pedagógico sobre acontecimentos das Segunda Guerra Mundial com início no ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941 e culminando com o falecimento do presidente Franklin Roosevelt em abril de 1945. Os dois autores têm créditos na ficção e na História e até nos argumentos para televisão. Esta narrativa aparece centrada num caso que ainda hoje não está historicamente comprovado: a existência de uma tentativa dos serviços secretos alemães para liquidarem no decurso da Conferência de Teerão (1943) os principais dirigentes dos EUA, URSS e Reino Unido. O que é verdadeiramente empolgante na obra, e não hesito em recomendá-la ao leitor interessado em conhecer os episódios fundamentais da Segunda Guerra Mundial entre 1941 e 1945 é a cadência dos acontecimentos, como Roosevelt, ciente do isolacionismo norte-americano, pretendia apoiar a Grã-Bretanha, a potência europeia que resistia às conquistas de Hitler; o Japão imperial, que assinara em 1940 o Pacto do Eixo com a Alemanha e com a Itália, pretendia conquistar espaço no continente asiático, os líderes militarias conceberam uma operação que trouxessem o confronto com os EUA e conceberam uma operação de destruição da frota naval norte-americana sediada em Pearl Harbor; em consequência deste triunfo japonês, Roosevelt passou a ter argumentos sólidos para entrar na guerra, o que trouxe enorme contentamento a Churchill, isto num tempo em que Hitler desencadeara, e até ao tempo com sucesso, a invasão da URSS; o mesmo Hitler vai cometer uma medida fatal, em 11 de dezembro declara guerra aos EUA, a guerra passa a ser efetivamente mundial.

E os autores vão estimulando o leitor com a concatenação dos factos: a reunião de Churchill e Roosevelt em Casablanca, em janeiro de 1943, aperta-se o cerco ao Eixo no Mediterrâneo, os dois lideres democráticos já falam em rendição incondicional das potências do Eixo; nesse mesmo mês, o Japão ainda goza de uma posição proeminente, depois de ter provocado o desastre em Pearl Harbor, conquistou Guam, Hong Kong, as Filipinas, as Índias Orientais holandesas, a Malásia, Singapura, a Birmânia e outros países do Pacífico ou antigos territórios europeus, mas nesta altura já têm dificuldades e nesse mesmo mês de janeiro de 1943 as tropas de Hitler sofrem um revés fatal, um exército inteiro sai derrotado em Estalinegrado. A narrativa vai intercalando factos relacionados com a presença da espionagem alemã no Irão, onde desde 1941 estão presentes a Grã-Bretanha e a URSS; é dentro desta intercalação de factos que o leitor vai tomando conhecimento de preparação do Holocausto, de como os serviços secretos norte-americanos liquidaram o almirante Isoroku Yamamoto, isto ao mesmo tempo que o agente alemão Franz Mayr, vivendo na clandestinidade, passa a ter um papel importante para os serviços em Berlim, ao tempo pensava-se em operações de sabotagem no Trans-Iraniano, cujos comboios transportavam ajudas para a URSS; é a vez da Itália baquear, é montada uma operação para libertar Mussolini, é encarregado dessa operação Otto Skorzeny, um êxito, o líder fascista ficará refém dos projetos alemães, que entretanto vão resistindo aos avanços em Itália, depois de terem dominado a Sicília; Roosevelt está empenhado em conhecer pessoalmente Estaline, troca farta correspondência com o ditador soviético, este vai atrasando o encontro justificando-se pela necessidade premente de estar a conduzir a guerra contra os alemães, mas depois de várias propostas para o local de encontro opta-se por Teerão, Churchill comparecerá à conferência, vamos, entretanto, tomando conhecimento da vida aventurosa que a espionagem alemã tem em Teerão até à prisão de Mayr. Restam dúvidas se Skorzeny tenha sido nomeado por Hitler para a Operação Anton, destinada a lançar paraquedistas nas regiões tribais no Norte do Irão, muito mais tarde, Skorzeny negará tal nomeação; vamos igualmente acompanhando os encontros entre Churchill e Roosevelt, Estaline vai pedindo insistentemente que se abra uma segunda frente, ele considera secundária a frente italiana, exige aos seus parceiros a abertura de uma frente esmagadora a partir do Norte da França, Churchill está profundamente reticente; como num bom romance de espionagem vamos assistindo ao desmantelamento do grupo de espionagem alemã em Teerão, Roosevelt viaja para o Egito e depois ruma para Teerão, estamos em novembro de 1943; vamos ter agora as peripécias do encontro, a notícia dada pelos serviços secretos soviéticos de que os três líderes correm perigo de vida e como Roosevelt aceita ficar num espaço da embaixada da URSS em Teerão, iremos assistir aos confrontos verbais, à tomada de decisão da abertura da segunda frente, à festa do aniversário de Churchill em 30 de novembro, Roosevelt está satisfeito com os resultados da conferência, regressa aos EUA, depois a imprensa irá falar na descoberta soviética de uma conspiração, segue-se o desembarque da Normandia, e antes de Hitler se suicidar no bunker em Berlim, em 30 de abril de 1945, Churchill falece a 12 de abril.

Reconheça-se a honestidade dos autores em revelarem que a investigação é inconclusiva quanto aos fundamentos da conspiração nazi. Uma das paranoias do ditador soviético era sentir-se ameaçado por tentativas de assassinato, tanto assim é que quando sai de Moscovo para a Conferência de Potsdam (o presidente dos EUA é então Truman) as medidas de segurança tomadas ultrapassam o delírio, milhares e milhares de militares soviéticos estão de vigilância na linha de caminho de ferro. Porque uma das teses de explicação para a alegada denúncia da conspiração nazi pelos soviéticos era de que Estaline não só preservava a sua máxima segurança como pretenderia escutar secretamente Roosevelt durante o encontro, espalhando escutas pelas instalações ocupadas pelos norte-americanos. Nada fica demonstrado e, francamente, o que mais apraz enaltecer é a admirável capacidade narrativa dos dois autores que permitem a leigos embrenharem-se nos bastidores e no palco iluminado da Segunda Guerra Mundial, particularmente no relacionamento entre Roosevelt, Estaline e Churchill que, por obra do acaso, se encontraram em finais de novembro de 1943 em Teerão e acordaram a decisiva etapa seguinte de criar uma tenaz para esmagar o poderoso exército alemão, conduzindo o nazismo ao colapso, tal como aconteceu. Quanto à conspiração nazi montada em Berlim e desenvolvida em Teerão, não passa de uma conjetura, habilidosamente trabalhada por dois autores exímios em dominar a técnica do best Zeller e de nos oferecer uma leitura absorvente, sem tirar nem pôr.


                                                                                        Mário Beja Santos





sexta-feira, 4 de março de 2022

A escabrosa ciência da treta dos Nazis.

 


 


 

Para quem procura entender as motivações ideológicas dos Nazis à procura de provas de supremacia germânica, da sua origem ariana, do culto do homem em branco de cabelo loiro e olhos azuis como a raça destinada a dirigir a humanidade e desfazer-se a prazo das raças nefastas, como judeus, é de primordial importância ler este trabalho pautado pelo rigor e seriedade, O Delírio Nazi, os académicos de Himmler e o Holocausto, entre a superstição, a ciência e o terror, por Heather Pringle, Casa das Letras, 2022.

Quando tudo parecia dito sobre esta escabrosa mitologia forjada por pseudociência, a poderosa investigação da jornalista canadiana Heather Pringle dá-nos uma grande angular das motivações do número dois do Nazismo, Heinrich Himmler, alguém que desde a juventude se interessava pela mitologia nórdica e que recrutou académicos sérios que, seduzidos pelo dinheiro, pelo poder e pelas suas próprias fantasias se entregaram a estudos completamente delirantes. Para Himmler, as suas tropas de elite, as SS, deviam estar plenamente convencidas de que a raça ariana não era o resultado de uma evolução, vieram diretamente do Céu para se instalar no continente perdido da Atlântida – a este delírio juntavam-se outros.

Himmler criou em 1935 a Ahnenerbe (algo herdado dos antepassados, é o seu significado), um alegado instituto nazi de investigação que tinham uma missão oficial dupla: procurar reunir novos indícios e provas dos feitos e triunfos dos antepassados alemães e a responsabilidade de divulgar todas essas descobertas entre o público alemão. Este instituto ficou tristemente célebre por produzir mitos, praticar gravíssimos roubos e desvios culturais e colaborar com o Holocausto, apoiando a todo o momento as ideias raciais de Hitler, cujo conceito de raça ariana comprovadamente não tinhas pés nem cabeça, mas conseguiu hipnotizar o povo alemão até à hecatombe. Por mais que falasse na raça ariana, não havia qualquer prova de uma raça de alemães primordiais altos e de cabelo loiro que tivessem estado entre os criadores da civilização. Para intentar dar resposta ao problema foi criado aquele instituto político de elite. E a autora observa: “Himmler estava convencido, como muitos outros alemães influentes da sua época, de que em tempos correra nas veias das antigas tribos germânicas o puro sangue ariano. Se os investigadores da Ahnenerbe conseguissem recuperar esse conhecimento primordial germânico através da arqueologia e outras ciências, talvez descobrissem formas superiores de cultivas cereais, curar os doentes, inventar armas ou regular a sociedade”. Se tal acontecesse, o Terceiro Reich ficaria na dianteira da civilização e da cultura. No instituto juntou-se um grupo variado de estudiosos e cientistas – arqueólogos, antropólogos, etnólogos, classicistas, orientalistas, estudiosos das runas nórdicas, biólogos, musicólogos, filólogos, geólogos, zoólogos, botânicos, linguistas, folcloristas, geneticistas, astrónomos, médicos e historiadores. Himmler tomava-se como pensador e expoente moral, tinham obsessões, uma delas era de que a homossexualidade era uma doença contagiosa e receava que ela atingisse proporções epidémicas na Alemanha. Himmler não se limitou às expedições alucinantes que este livro descreve ao pormenor, as efetuadas e as planeadas, pediu apoio a estes académicos para a solução do chamado “problema judaico”. Toda aquela ideologia aberrante era por vezes confrontada com quadros paradoxais, foi o que se passou em 1942 na Crimeia e no Cáucaso, os assassinos da SS sentiam-se confusos com aqueles judeus e muçulmanos que viviam lado a lado ao longo de mais de mil anos, casando entre si e transmitindo costumes ancestrais, tradições religiosas e línguas: quem era afinal judeu e quem não era? Como não havia resposta científica, adiantou-se uma impostura, não se podia ofender ou fazer perigar o delírio nazi.

A autora fala-nos da formação de Himmler, das fantasias sobre o arianismo, da ascensão de Himmler na hierarquia nazi, dos primeiros programas da Ahnenerbe, estudos sobre as tribos germânicas, as origens da raça nórdica, procuravam referências em gravuras da Idade do Bronze na Suécia, estudaram a feitiçaria lendária da Carélia, as Sagas nórdicas, o mito da Atlântida, a antiga literatura do Oriente, percorreram o Iraque e todo o Médio Oriente e trouxeram a notícia importante para os nazis de que a generalidade dos árabes detesta os judeus; procuraram a origem dos povos germânicos no homem de Cro-Magnon, percorreram importantes museus de história natural, preparou-se um exposição científica ao reino do Tibete em busca de tribos arianas perdidas, bem curioso é o relato que a autora nos dá desta viagem aos Himalaias.

Nisto, Hitler desencadeia o ataque à Polónia, e o instituto pseudocientífico obteve novas missões, primeiro a roubar os museus e os bens culturais polacos, caso do altar da igreja de Santa Maria em Cracóvia, foram rapinados tesouros, isto enquanto Himmler, para satisfazer uma outra fantasia, restaurou um castelo que seria a sede espiritual das SS. Mas o instituto foi envolvido na questão judaica, era preciso estudar os judeus de forma sistemática, os crânios, a forma das orelhas ou as maçãs do rosto, assim foram solicitados crânios aos assassinos das SS, haverá roubos aquando da invasão da União Soviética, sempre à procura de traços dos povos germânicos primitivos, e enquanto tudo isto se passa pseudocientistas vão até aos campos de concentração à procura de matéria prima para estudos anatómicos dos judeus. As rapinas não paravam, quando a Itália baqueou as SS iam trazendo tesouros e satisfazendo caprichos dos pseudocientistas. Hitler ia confiando cada vez mais missões a Himmler, fez dele Ministro do Interior da Alemanha, deu-lhe o comando pelo Exército de Reserva, nomeou-o Chefe do grupo de Exércitos do Alto Reno, era o segundo homem mais poderoso do Reich, mas a derrota dos alemães estava à vista, em breve o mundo iria ficar surpreso com a notícia barbárie nazi e a ciência da treta dos povos germânicos primitivos ficou totalmente ridicularizada. Heather Pringle irá entrevistar um desses pseudocientistas, veio desfeita, ninguém obrigara estes homens a juntar-se às SS e ao seu braço científico. “Não podemos saber o que estes homens estavam a pensar quando abandonaram de forma consciente a sua humanidade e passaram para lá da linha que os separava da barbárie. E também é impossível dizer exatamente por que razão fizeram o que fizeram, embora a explicação mais provável seja uma combinação fatal de ambição, fraqueza moral, preconceitos inconcebíveis. Embora muitos outros historiadores tenham escrito acerca das consequências desastrosas deste tipo de fraquezas humanas no Terceiro Reich, estou convencida de que o terrível poder da ciência, e a maneira como ela foi manipulada para justificar algumas das piores atrocidades do Holocausto, é uma história mal conhecida. Hoje gostamos de pensar que a ciência é imutável, o padrão-ouro do conhecimento humano, mas, como nos mostrou a história da Ahnenerbe pode ser deformada e enviesada para servir finalidades catastróficas. Não podemos permitirmo-nos esquecer esta lição”.

De leitura obrigatória. 


Mário Beja Santos





domingo, 16 de maio de 2021

segunda-feira, 4 de maio de 2020

BB, Bogey-Beethoven.






São todo um género, os filmes de guerra, mesmo se não equivalente à música militar, de que Clémenceau dizia, decerto com exagero, estar para a música assim como a justiça militar está para a justiça (ou vice-versa).

O género fílmico, quanto a ele, foi parodiado por San Severino nessa delícia mordaz que é a canção Les Films de Guerre, uma música caracteristicamente distinta da castrense por ter de sobra um ingrediente que falta a esta: é muito dançável, além de trauteável.

Em contrapartida, já alguém mostrou ser perfeitamente possível pôr um exército a marchar ao som de música civil, e com uma garra tal que até as medalhas palpitam e saltitam no uniforme. É constatar aqui o élan que parece inspirar nas tropas norte-coreanas a música dos Bee Gees.

E que tem isto a ver com Beethoven, o assunto de hoje? Até agora, nada, a não ser um nome começado por B e talvez o som de uns canhões na sua 3ª sinfonia, a Heróica. A bem dizer, Beethoven nem era para ser assunto nesta rubrica em dia algum, antevendo eu para este ano, como antevia, uma justificadíssima enxurrada beethoviana por tudo quanto é sala e sítio nas comemorações do 250º aniversário do seu nascimento.

Entretanto, tocou a recolher e foi o que (não) se viu. Beethoven, cadê? Sumiu. Para resgatá-lo de semelhante limbo, segue por conseguinte um primeiro contributo para a efeméride, honesto ainda que sui generis. Para sérios já estão os tempos.

A Colonel Bogey March, uma marcha militar composta em 1914 pelo tenente F.J. Ricketts, foi celebrizada pelo histórico filme de guerra A Ponte Sobre o Rio Kwai, de David Lean, numa empolgante cena (sensivelmente a partir do minuto 1) em que soldados britânicos, prisioneiros num campo japonês, a entoam andrajosos, mas de cabeça erguida, numa marcha a cada passo mais ampla, num longo assobio em uníssono, desafiando assim a ordem do comando nipónico que os proibia de cantar com o propósito de lhes minar o moral.

Mas a melodia já se tinha popularizado bem antes, logo no início da segunda guerra mundial, quando lhe foi aposta uma letra cujo tema, um Hitler mono-testículo, se prestaria às mais criativas variações:

Hitler has only got one ball,

Göring has two but very small,
Himmler is somewhat sim'lar,
But poor Goebbels has no balls at all.

Numa outra variação,

Hitler has only got one ball
The other is in the Albert Hall
His mother, the dirty bugger
Cut off the other, when he was only small


She threw it into the apple tree
It fell in to the deep blue sea
The fishes got out their dishes
And had scallops and bollocks for tea


E assim por diante, já se terá percebido a ideia.

Mas a alegria no pagode não ficaria por aqui. E é neste ponto que entra Beethoven. Ou melhor, alguém por ele. Dir-se-ia mesmo alguém em quem Beethoven “baixou”, qual entidade de candomblé, guiando-lhe os dedos na composição da Beethoven Sonata Parody em grande estilo, o seu estilo, em mais uma variação da marcha do coronel.  Esse alguém é Dudley Moore, que também a interpretou um ror de vezes. Fica uma delas (e aqui, mais divertida ainda, de tão séria e primorosa, a interpretação do pianista Piers Lane), seguida em baixo pela versão original composta pelo tenente inglês.




Manuela Ivone Cunha




terça-feira, 10 de março de 2020

Auschwitz e depois.




Nos 75 anos da libertação de Auschwitz, uma conversa na Livraria Tigre de Papel, a partir do livro Auschwitz e Depois, de Charlotte Delbo. Aqui o podcast e, claro, um obrigado a todos, foi um enorme gosto.