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quinta-feira, 5 de março de 2020
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Zoos humanos.
Exposições de seres humanos na Europa
dos séculos XIX e XX
Filipa Lowndes Vicente, ICS-ULisboa.
Em 1810, Saartjie Baartman, uma mulher
originária da África do Sul, foi exibida em Londres, para regozijo tanto de um
público popular ávido de novos espectáculos como de uma comunidade científica
interessada na anatomia da diferença humana. Saartjie Baartman, a mulher
“objecto de exposição”, perdeu o direito à identidade do seu nome próprio,
passando a ser conhecida como “a Vénus Hottentote”. Tratava-se de uma das
primeiras “indígenas”, na expressão da época, a dar maior visibilidade a um
fenómeno que marcou a história da Europa e dos Estados Unidos durante o século
XIX e primeiras décadas do século XX, e que foi denominado pela bibliografia
crítica das últimas décadas de “jardins zoológicos humanos” (zoos humains,
em francês, human zoos, em inglês).
Podemos perguntarmo-nos, no entanto, se
faz sentido usar uma expressão que perpetua ela própria a violência intrínseca
ao acto de expor seres humanos perante o olhar de outros seres humanos, em
circunstâncias de grande desigualdade. Desde o século XV que mulheres e homens
– e também animais exóticos – provenientes de lugares fora da Europa eram
“exibidos” nas cortes ibéricas, mas faziam-no perante uma audiência reduzida e
circunscrita, bem distinta das multidões observadoras, em espaços de lazer e
entretenimento, típicos do século XIX. O século XIX consolidou esta alteração
das práticas de exibição de seres humanos de espaços privados para espaços
públicos. Também assistiu ao desenvolvimento de uma nova cultura visual,
bidimensional, que, através das novas técnicas de reprodução de imagens,
multiplicava a difusão do evento – em postais fotográficos ou litografias de
periódicos.
Postais fotográficos. Coleção da autora. Em cima:
Postal com fotografia realizada no Jardin des Plantes de
Paris. Impresso em Paris, França, s.d. Em baixo: Postal oficial da
Exposição de Milão. Impresso em Milão, Itália, 1906. Não circulados.
De Londres para Paris, a “Vénus”
percorreu o circuito dos espaços de espectáculos de massas da época, ao mesmo
tempo que foi reproduzida em gravuras caricaturais. Depois da sua morte, em
1815, o corpo de Saartjie Baartman continuou sujeito não só ao escrutínio do
olhar europeu, como aos instrumentos científicos do conhecido naturalista
Cuvier, que a dissecou no seu gabinete anatómico em Paris. Fragmentado quer em
moldes “científicos”, quer pela autópsia a que foi sujeito, só em 2002 o corpo
musealizado de Saartjie regressou à África do Sul. Durante esse processo,
tornou-se um corpo politizado, símbolo de práticas perpetradas por poderes
coloniais, e reivindicado pelos diversos grupos que lhe quiseram dar um enterro
religioso e erigir-lhe um monumento – espaços de memória muito distintos do
museu europeu onde o seu corpo esteve guardado durante quase dois séculos.
Objectificados enquanto parte integrante de coleções, museus ou centros
científicos europeus, os corpos de sujeitos colonizados são uma ínfima parte da
vastíssima quantidade de “espólios” constituídos no passado colonial. Num
presente pós-colonial em que os lugares e a posse das “coisas” são alvo de
escrutínio crítico e contestação crescente, estes “corpos” tornaram-se
especialmente simbólicos da violência indissociável a tantas apropriações
coloniais.
Na década de 1840, do outro lado do
Atlântico, mais precisamente no centro de Manhattan, em Nova Iorque, Phineas
Barnum começou a organizar espectáculos de pessoas que se denominavam freaks.
Esta exibição de seres humanos considerados monstruosos tanto podia incluir
pessoas condenadas por crimes, pessoas com limitações físicas ou mentais, como
aquelas provenientes do mundo não-ocidental. Ou seja, todos aqueles seres
humanos que, de alguma forma, transgrediam as convenções da “normalidade”
socialmente estabelecida. Ao carácter circense dos concorridíssimos eventos, o
empresário acrescentou uma faceta científica, sob a forma de conferências e
textos escritos. Se este tipo de espectáculo itinerante, de feira ou de
taberna, já existia desde o século XVIII, foi com Barnum que se
profissionalizou, alcançando imensa popularidade. Os paralelos entre este
fenómeno e o da exposição de “nativos” já foi feito numa grande exposição
organizada pelo Musée du Quay Branly em 2011: Human Zoos. The
Invention of the Savage, com catálogo editado por Pascal Blanchard, Gilles
Boetsch e Nanette Jacomijn Snoep (Paris: Musée du Quai Branly e Actes Sud,
2011). A exposição deu continuidade a um projeto de investigação que começara
mais de 10 anos antes e que já envolvera alguns dos mesmos investigadores.
Desse projeto resultou um livro com a participação de múltiplos autores e com o
objectivo de analisar o fenómeno em diferentes contextos geográficos ocidentais
(Portugal não está incluído): Nicolas Bancel, Pascal Blanchard, Gilles Boetsch,
Éric Deroo, Sandrine Lemaire (dir.), Zoos humains: de la Vénus
Hottentote aux Reality Shows (Paris: Éditions La Découverte, 2002).
Histórias individuais
Postal fotográfico referente ao espectáculo “malabar”
no Jardin Zoologique d’Acclimatation de Paris em 1902. Coleção
da autora. Não circulado.
O que é que acontecia a estas
pessoas-“objectos de exposição” quando deixavam de o ser? Se algumas morriam no
exercício, outras passavam a viver situações de miséria, ou regressavam aos
seus lugares de origem, inexoravelmente marcadas pela sua passagem pela
“civilização”. Um caso conhecido há poucos anos é o dos bisavós do futebolista
francês Christian Karembeu (n. 1970, Nova Caledónia). Ambos foram para Paris em
1931, para serem exibidos ao lado de palhotas montadas na Exposição Colonial
Internacional que nesse ano teve lugar na cidade. A centena de habitantes
proveniente da Nova Caledónia constituiu uma das principais atracções. Mais
tarde, e quando grande parte dos crocodilos que os acompanhavam na encenação
sucumbiram no seu novo habitat, o Jardim Zoológico de Hamburgo
ofereceu-se para repor os crocodilos em falta, a troco da vinda de 60
indivíduos da Nova Caledónia, como nova atracção temporária do jardim
zoológico.
O conhecido futebolista narra a
humilhação sentida pelos seus antepassados regressados a casa. Exposta e
fotografada, a comunidade teve dificuldade em assimilar o trauma da sua
passagem forçada pela Europa. De qualquer forma, as vozes que nos
chegaram dos expostos são raras e pontuais – a sua função era serem vistos
(ao vivo ou em fotografias), não ouvidos. As barreiras que os separavam dos
seus observadores eram dificilmente ultrapassáveis, mesmo depois da exposição.
Por exemplo, quando várias das 260 pessoas originárias de um Congo
recém-colonizado por Leopoldo II morreram no museu-jardim colonial de Tervuren
(Leuven, Bélgica) onde estavam expostas, os habitantes da aldeia vizinha não
aceitaram que os seus corpos fossem enterrados no cemitério local. Debaixo de
terra não havia grades de separação (Jean-Pierre Jacquemin, “Les Congolais dans
la Belgique “impériale”” in Zoos humains, pp. 254-55).
Quando o nativo morria em palco, como
tantas vezes aconteceu devido à brutalidade das mudanças climatéricas, das
doenças europeias e das miseráveis instalações que frequentemente lhe eram
destinadas, era a vez de o médico assumir o seu papel de cientista para vir
observá-lo mais de perto. Subjacente a este olhar da ciência estavam as
hierarquias raciais estabelecidas por nomes como Darwin (1809-82). Os zoos
humanos constituíam a prova que faltava para reconfirmar teorias evolucionistas
que identificavam uns como mais humanos do que outros. Para muitos dos
espectadores de Oitocentos ou de começos de Novecentos, os exibidos não eram
considerados humanos e não mereciam, portanto, a atenção de um certo discurso
defensor dos direitos humanos que começava a proliferar nesta altura e que já
tinha uma longa história quando relacionado com ideias abolicionistas.
Protestos contra os “zoos humanos” também se fizeram sentir, mas foram
surpreendentemente pontuais até meados do século XX.
As exposições de seres humanos e o
colonialismo europeu
Postais fotográficos. Circulados (enviados pelo
correio). Coleção da autora. Em cima: Postal fotográfico com imagem
de Gallas, pessoas oriundas da actual Etiópia expostas no Jardin
Zoologique d’Acclimatation de Paris, em 1908. Em baixo: Postal
fotográfico identificando um “Passeio de Mulheres”, no âmbito da exposição
“África Misteriosa” no Jardin d’Acclimatation em 1910, Paris.
Em 1877, o jardim zoológico e botânico
tropical de Paris (em francês usava-se a palavra acclimatation,
para nomear os jardins onde se plantavam espécimes provenientes de outras
regiões do mundo) anunciava a sua nova atracção – um grupo de animais exóticos
acompanhado por “indivíduos não menos singulares”. Esta exposição
antropo-zoológica, como foi apelidada pelo seu organizador, Carl Hagenbeck
(1844-1913), atraiu milhares de pessoas e resolveu de vez os problemas
financeiros daquele zoo, que passou a ser um dos principais locais europeus de
exposição de indígenas. Até à Primeira Guerra Mundial, passaram por lá inúmeros
grupos de pessoas provenientes das geografias mais remotas. Os animais que
tinham dado nome a este espaço público oitocentista passaram a ser um simples
adereço das encenações mais atraentes que eram proporcionadas pelos
“malabares”, “aborígenes”, “amazonas” ou simplesmente “selvagens”, que durante
meses faziam do Bois de Bologne parisiense a sua morada.
Para tornar mais real ao visitante esta
viagem metafórica mulheres, homens e crianças, habitavam um espaço artificial
feito de palhotas e lagos, plantas exóticas e artesanato, onde deviam levar a
cabo as suas tarefas diárias sempre sob o olhar do público. Como a monotonia do
quotidiano nem sempre foi considerada suficientemente espectacular,
organizavam-se eventos especiais: desde casamentos entre nativos, até aos mais
comuns, cânticos, danças (sempre ao ritmo intrépido de tambores) ou desfiles. A
admirável destreza física dos homens provenientes da região indiana do Malabar,
que surpreendiam o público com os seus “malabarismos” (precisamente, uma
palavra que ganhou uso corrente), foi uma das atracções específicas. Alheios ao
elemento espiritual e religioso de muitos destes desafios aos limites do corpo
humano, os observadores concentravam-se nas características circenses da
encenação. Uma grade de ferro ou de arame, tal como se pode observar em vários
postais fotográficos, servia de barreira entre dois mundos bem definidos – o
dos observadores e o dos observados, o dos Europeus e os dos não-europeus, dos
“civilizados” e dos “primitivos”, o da normalidade e o da diferença, o dos
colonizadores e o dos colonizados, o daqueles que estavam vestidos e o daqueles
que se exibiam quase nus.
Entre as duas guerras dá-se uma clara
mudança nas formas de exposição de nativos em espaços públicos. De facto, na Exposição
Colonial de Paris de 1931, principal modelo da Exposição Colonial do Porto de
1934 e de muitas outras que, por esses anos, tiveram lugar noutras cidades da
Europa, multiplicaram-se os modos de expor pessoas, por vezes também no sentido
de não “nativizar” os nativos, mas pelo contrário de torná-los mais próximos do
padrão do colonizador.
Viajantes sem narrativas de viagem
A enorme diversidade de casos
específicos coloca problemas gerais e é atravessada por alguns temas
recorrentes. Em primeiro lugar, a viagem: uma das metáforas mais usadas para
descrever a experiência de observar pessoas em exposição, é a da possibilidade
de viajar pelo mundo perto de casa. Por outro lado, os seres humanos expostos
são sempre viajantes, embora mais próximos dos emigrantes, dos exilados ou dos
contemporâneos sans papier ou refugiados, do que dos turistas
europeus do século XIX ou dos viajantes provenientes das elites indianas ou
africanas que também circularam pela Europa no mesmo período. São viajantes que
não escrevem diários e que poucas marcas deixam da sua passagem. E sobretudo
que têm pouco ou nenhum controlo sobre a sua viagem ou sequer sobre o facto de
terem partido. Escrever a sua história não é fácil porque a sua perspectiva,
experiência e subjectividade individuais raramente ficaram registadas em fontes
escritas na primeira pessoa. Implica sempre ir à procura das fontes produzidas
por quem os representou – quem escreveu sobre eles ou os fotografou. No
entanto, e como têm notado recentemente teóricos da fotografia como Elizabeth
Edwards, Christopher Pinney ou Ariella Azoulay, o evento fotográfico pode
também ser um encontro e uma negociação, onde o “representado” não é um mero
“retratado”. Na fotografia, muitos destes viajantes encontram a subjetividade
possível.
Postais fotográficos impressos com a mesma imagem e
legendas diferentes. Coleção da autora. À esquerda: A legenda indica o
nome do organizador de um espetáculo itinerante com um grupo de indianos. Não
circulado. À direita: Caravanne Indienne no Jardin
d’Acclimatation de Paris em 1906. Circulado em 1906.
Torna-se pertinente colocar esta
visibilidade expositiva ao lado de outras formas de tornar visíveis, na Europa
colonizadora, os seres humanos não-europeus. O que a segunda metade do século
XIX veio trazer foi a suposta proximidade desta diferença através de uma série
de recursos em formato visual bidimensional. As viagens visuais tornam-se
acessíveis a um número muito maior de pessoas e são proporcionadas através de
inúmeros formatos: da hiperrealidade dos corpos presentes em três dimensões em
exposições até à multiplicação de uma cultura visual bidimensional, onde a
fotografia, a litografia e, já depois no fim do século, o postal ilustrado,
transportam “o africano”, “o indiano” ou, simplesmente, “o indígena”, para o
interior das casas ocidentais, o espaço privado e doméstico, ou para o espaço
público urbano. A escrita acompanha esta viagem imaginária com a popularização
de relatos de aventuras na selva e heróis capturados por tribos canibais,
sobretudo na profícua produção editorial infantil e juvenil, em várias línguas.
A estreita ligação entre ciência e
cultura popular é outra das ideias centrais para se compreender os “zoos
humanos”. As fronteiras entre uma e outra cruzam-se constantemente, tornando
difícil uma divisão entre a exibição colonial do indígena por razões de
conhecimento científico, e a sua mera exploração comercial num contexto de
entretenimento. Pessoas de uma mesma “tribo” podiam passar uns meses num jardim
zoológico, para depois ocupar o seu lugar no pavilhão nacional de uma exposição
universal, ou seguir para os teatros de província repletos de um público ávido
de visões exóticas. De igual modo, uma pessoa em exposição ficava sujeita aos
olhares mais diversos – da família popular a viver o seu Domingo de lazer, ao
antropólogo que assim superava as dificuldades de viagens inóspitas que uma
observação directa exigiria. O “nativo” no centro de Amesterdão ou de Paris
também foi medido, fotografado e classificado pelo discurso nascente da
antropologia. Por vezes, o antropólogo também colaborava com o empresário que
transportava os “indígenas” do seu local de origem gerindo as suas tournées europeias
ou americanas, outorgando-lhe um certificado de autenticidade. Com o carimbo
legitimador do especialista, os indígenas “certificados” distinguiam-se dos
seus falsos congéneres que também estavam presentes em diversos espaços de
exposição, em encenações teatralizadas.
A grande maioria dos casos de exposição
de seres humanos é indissociável de relações coloniais, com tudo o
que estas significam em termos de racismo, desigualdade e violência, mas alguns
casos subvertem a norma. Também existem ambiguidades nestas relações que nem
sempre se podem deter na simplicidade do binómio explorador/explorado: dos
agentes que procuravam melhorar as condições de vida dos seus empregados, ao
ex-indígena que se tornava, ele próprio, num próspero organizador de exposições
de outros indígenas.
A fotografia a multiplicar o efeito das
exposições
Postais fotográficos, com estereoscopias (imagens
duplicadas que quando vistas através de lente própria para o efeito, criam
a ilusão de tridimensionalidade) realizadas por Julien Damoy, a mulheres vindas
do Gana em exposição no Jardin d’Acclimatation de Paris em
1903. Impressos em França, Paris. Não circulados. Coleção da autora.
A fotografia, cuja vulgarização
coincidiu com a proliferação deste fenómeno, converteu-se no instrumento de
prova visual aliado destas teorias. Tal como as próprias encenações que
reproduzia, a imagem fotográfica criava a ilusão da autenticidade necessária ao
discurso científico. Assim, além dos inúmeros tratados científicos escritos
acerca destes indivíduos onde o nome próprio era substituído pelo tipo a que
pertenciam, a fotografia surge como a principal responsável pela memória destes
eventos – e muitas vezes era mesmo o souvenir que os visitantes levavam para
casa depois da experiência (v. fig. 6). Em muita da produção fotográfica desta
altura é difícil distinguir a imagem tirada num jardim parisiense ou no habitat de
origem dos retratados. Os fotógrafos procuravam esse efeito. Franz Boas
(1858-1942), por exemplo, antropólogo conhecido pela forma como questionou
pressupostos muito enraizados de superioridade e inferioridade entre os seres
humanos, ao publicar um estudo sobre o cerimonialismo entre os Kwakiutl,
fotografou-os durante a Columbian Exposition de 1893.
A exposição de grupos de “nativos”, à
volta de 1900, em Paris, foi produzindo várias séries de postais fotográficos:
em primeiro lugar, porque pessoas de cada nova tribo que chegava ao Jardin
d’Acclimation de Paris, por exemplo, eram fotografadas para aparecer
nos postais que depois os visitantes adquiriam. Dessa produção, podemos
estabelecer uma divisão, entre aqueles postais que deixam antever o público
europeu do outro lado das barreiras, e aqueles que convocam um olhar ambíguo,
ignorando todos os sinais do local onde se encontra o objecto de exposição. A
legenda do postal diz que a imagem é em Paris, mas o que é visível reproduz “a
África” ou “a Ásia” que se quer mimetizar. Tiradas de dentro dos recintos por
fotógrafos que saltam as grades, ou do lado de fora, as fotografias, impressas
aos milhares, transformam-se em sinais permanentes de espectáculos que se
caracterizavam pela sua efemeridade. As representações bidimensionais dos
postais fotográficos contribuíram tanto como as próprias exposições para
divulgar a imagem do colonizado no espaço da cultura visual do colonizador.
Se o fotógrafo, que muitas vezes era
também o antropólogo, o geógrafo, o médico, o militar, ou o membro da
administração colonial, anónimos cidadãos de uma nação quase sempre
colonizadora, acediam como observadores – através das exposições ou da
fotografia – aos valores de supremacia colonial, verificando visualmente a sua
existência. O cidadão comum pouco ou nada viajaria até às colónias, mas lia e,
sobretudo, via muitas provas da sua existência: em jornais, livros de viagem
populares ou eruditos, fotografias, gravuras, cartazes, exposições universais e
coloniais e, já no fim do século XIX, em postais fotográficos.
A fotografia sob a forma do postal
fotográfico multiplicou, e banalizou, estas imagens. O que é que estes postais,
de exposições em Paris ou em tantos outros lugares, mostram? A nudez assexuada
do “bom selvagem” rousseauniano ou o erotismo para o coleccionador de postais
europeu? A imagem real dos usos e costumes de terras distantes ou a
possibilidade de ver o corpo sem ter de o despir? Quando o traje da mulher não
ocidental lhe cobria o corpo, então o fotógrafo, que era quase sempre um homem,
podia mesmo despi-lo para melhor satisfazer os olhares e as expectativas
daqueles que iriam adquirir os postais ou ver as exposições (mesmo que as
baixas temperaturas fossem uma crueldade ou a nudez ferisse o seu pudor, como
aconteceu nalguns casos).
A fotografia pode servir aqui de
metáfora para um outro aspecto inseparável deste fenómeno: o modo como, no
contexto das exposições, o homem encontra legitimidade para olhar para o corpo
de mulheres que são quase sempre negras e originárias de territórios
colonizados. Nas exposições, como na fotografia, a legitimidade científica da
antropologia ou dos conhecimentos coloniais serviu para que os corpos de
mulheres negras pudessem estar acessíveis, a homens, mas também a mulheres e
crianças, de um modo que não acontecia com os corpos de mulheres brancas que,
quando erotizados, permaneciam no campo visual restrito e masculino da
pornografia.
Verso de postal fotográfico Caravanne
Indienne no Jardin d’Acclimatation de Paris em 1906.
“Souvenir d’une promenade”. Circulado em 1906. Coleção da autora.
Se as exposições de seres humanos são
indissociáveis do contexto do colonialismo ocidental, os estudos sobre este
fenómeno reflectem muitas vezes sobre a sua ressonância contemporânea,
nomeadamente nos reality shows. Apesar de este tipo de programas
ser muitas vezes apresentado como reflexo de uma cultura contemporânea de
sobreexposição da intimidade, a ponto de se considerar que as fronteiras da
dignidade humana estão a ser ultrapassadas de uma forma antes nunca vista, os
estudos sobre os “zoos humanos” e os circos mostram como a exploração
exibicionista de seres humanos tem uma longa história. De facto, seja em
relação a programas televisivos em que a intimidade dos sentimentos é
devassada, ou a outros tipos de espectáculo que desumanizam e objectificam a
identidade de quem é observado, o desejo do olhar do público serviu, e serve,
muitas vezes para desresponsabilizar eticamente aqueles que detêm o poder sobre
o visível e sobre o “espectáculo”, tal como o teorizou Guy Debord.
Hoje, os eventos designados como “zoos
humanos” subsistem impressos na materialidade visual de postais fotográficos
que tendo sido produzidos no passado, ainda existem no presente. Em lojas de
postais, feiras da ladra e velharias, ou reproduzidas no vasto comércio de
postais online, a sua abundância é reveladora da popularidade
destes eventos. As imagens de seres humanos sem nome e sem identidade,
legendadas com a sua origem geográfica e, por vezes, a cidade onde estavam
expostos, multiplicaram, em 1900 como agora, o efeito das exposições muito para
lá do tempo e do espaço onde tiveram lugar. Tornaram-se a prova do encontro
fotográfico. Hoje, estão sujeitas ao escrutínio crítico de textos académicos e
de exposições que as analisam, questionam e contextualizam historicamente, tal
como identificam as hierarquias, desigualdades, racismo e violência imbuídas em
tantos da experiência destes encontros de corpos e olhares num mesmo espaço,
mas também formas de recuperar a sua subjectividade e individualidade.
Publicado no blog-site Grupo de
Investigação Impérios, Colonialismo e Sociedades Pós-Coloniais do
ICS-ULisboa, http://gi-imperios.org/blog/filipa-vicente-exposicoes-seres-humanos-europa-seculo-xix-xx, 2019-09-17.
Uma primeira versão foi publicada,
em 2003, como recensão a Zoos humains: de la Vénus Hottentote aux
Reality Shows (Paris: Éditions La Découverte, 2002), in Estudos
do Século XX, n. 3, 2003, pp. 389-95.
Agradeço à Inês Ponte, ao José Miguel
Ferreira, ambos meus colegas no ICS-ULisboa, e ao Sílvio Marcus de Souza
Correa, da Universidade Federal de Santa Catarina, a leitura, sugestões e
críticas que tanto beneficiaram este texto.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Vidas singulares: Bessie Rayner Parkes (1829-1925).
Bessie Rayner Parkes. Folha. Negativo de desenho fotogénico, 1848, Courtesy of
Hans P. Kraus Jr. Fine Photographs, NY.
|
Bessie
Rayner Parkes Belloc (16 June 1829-
23 March 1925) was one of the most prominent English feminists and campaigners
for women’s rights in Victorian times and also a poet, essayist and journalist.
1. Early Life
A
great-grandchild of the eminent scientist and Unitarian minister Joseph
Priestley, Bessie Rayner Parkes was born
to loving, well-off parents, in a household interested in people and ideas. Her
father was Joseph Parkes, (1796-1865) a prosperous solicitor and a liberal with
Radical sympathies. His support for his daughter’s aspirations were mitigated.
Her mother, Elizabeth Rayner Priestley (1797-1877), usually called Eliza, was a
wife and mother, who always considered herself an American, having been born in
Northumberland, Pennsylvania. She remembered her grandfather with admiration
and love. Although not in great sympathy
with her daughter over her strong wish to make changes in the status of women,
she nevertheless loved her dearly and did not actively oppose her. Unusually
for girls of her background, Bessie was well educated at a progressive
Unitarian boarding school, a period of her life which she enjoyed.
2. Activist
Bessie
became gradually aware of the unjust, contradictory and even absurd situation
of women in Great-Britain, though there were many differences according to the
social class they belonged to. The first endeavour that Bessie and her friend
Barbara Leigh Smith Bodichon took on was to try and change the restrictive
property laws that applied to married women. Bessie was also indignant about
the distinction made between ‘ladies’ and ‘women’. ‘Ladies’, that is to say
middle-class women, lost social status if they earned money, the only
acceptable exceptions being writing, painting or teaching, which for the most
part meant ‘governessing’. Due in part to her efforts, by the close of the
century, it became acceptable for a middle-class woman to acquire a proper
education and train to do paid work. Working-class women had always belonged to
the work-force, whether they wanted to or not. BRP and her friends interacted with women in other countries of
Europe and in the USA, adding a very considerable international dimension to
their efforts. In the 1860’s she was to
belong to the first women’s group which set out to obtain voting rights.
Barbara Bodichon (grande amiga de Bessie), "The New Generation". Segundo Pam
Hirsh as quatro mulheres representadas são: Barbara Bodichon, Bessie Rayner
Parkes, Jane Benham e
Anna Maria Howitt.
|
3. Friendships
Bessie
Rayner Parkes’ wide circle of literary and political friends included George
Eliot, Harriet Martineau, Anna Jameson, Elizabeth Barrett Browning, Robert
Browning, Barbara Leigh Smith Bodichon, Elizabeth Blackwell, Lord Shaftesbury,
Herbert Spencer, Ralph Waldo Emerson, Elizabeth Gaskell, William Thackeray,
Elizabeth Garret Anderson, John Ruskin, Henry W. Longfellow and Dante Gabriel
Rossetti. Her most fruitful friendship was with Barbara Bodichon for, out of
their efforts, grew the first organized women’s movement in Britain.
4.
The English Woman’s Journal
BRP
became the principal editor of the first feminist British periodical – The English Woman’s Journal - published
monthly in London between 1858 and 1864. Its closure was due both to financial
reasons and to the conflicts that arose among its sponsors and chief
contributors. The offshoots that sprang from it were many and varied, such as
the Society for the Promotion of the Employment of Women, the Victoria Printing
Press (entirely staffed by women), the Law-Copying Office, and the Langham
Place Group, where women gathered informally to discuss their lives or simply
have a rest.
5. Conversion to the Roman Catholic
Church
Another
part of her life story was her slow but determined path to the Roman Catholic
Church (1864). She took in all the debate around the Oxford Movement but what
really impressed her was the immense amount of social work carried out by nuns.
She knew the three famous English Cardinals personally and recalled them in her
writings.
6. Marriage
Aged
38, BRP fell in love with a Frenchman of delicate health, called Louis Belloc,
himself the son of a notable woman, Louise Swanton-Belloc. Their five-year long
marriage, spent in France, she described as Arcadia. The family lived through
the Franco-Prussian war and was deeply hit by it on a material level. She never
got over her husband’s sudden death in 1872.
7. Children
Their
children, Marie Belloc Lowndes (1868-1947) and Hilaire Belloc (1870-1953) went
on to become renowned writers in their different ways.
8. Widowhood and after
BRP herself continued to write until late in
life, and to be a keen observer of politics and society. However, after her
marriage and the death of her husband, her active involvement in the organized
women’s movements abated. Anguish over the stupidity of war and pride in her
country coloured her feelings during the First World War. Almost at its close,
her eldest grandchild, a Second Lieutenant in the Royal Air Force, went
missing. He was shot down and killed near Cambrai, in France.
9. Published work
Bessie
Rayner Parkes published fourteen books: poetry, essays, biography, memoirs,
travel, and literature for children and young people, as well as a very
effective booklet on women’s rights and dozens of articles. A lot of her
literary work was well received during her lifetime and her poetry was admired
by Ruskin and Longfellow.
10. Further reading
Anderson, Bonnie S., Joyous Greetings, The International Women’s
Movement, 1830-1860, (Oxford, New York: Oxford University Press, 2000).
Belloc
Lowndes, Mrs., I, too, have lived in
Arcadia, (London: Macmillan, 1941).
Fulmer, Constance M.,
“Bessie Rayner Parkes”, Dictionary of
Literary Biography, Volume 240: Late
19th Century and Early 20th Century British Women Poets, (Detroit:
Gale Group, 2001).
Herstein, Sheila R., A Mid-Victorian Feminist, Barbara Leigh
Smith Bodichon, (New Haven and London: Yale University Press, 1985).
Hirsch, Pam, Barbara Leigh Smith Bodichon, (London:
Chatto & Windus, 1998).
Lowndes, Susan (ed.), Diaries and Letters of Marie Belloc Lowndes,
1911-1947, (London: Chatto & Windus, 1971).
Rendall, Jane, “‘A Moral
Engine’? Feminism, Liberalism and the English
Woman’s Journal”, in Jane Rendall (ed.), Equal or Different: Women’s Politics 1800-1914, (Oxford: Blackwell,
1987).
-----, Jane, Friendship and Politics: Barbara Leigh Smith
Bodichon (1827-91) and Bessie Rayner Parkes (1829-1925), in Mendus, Susan
& Rendall, Jane (ed.), Sexuality and
Subordination, (London: Routledge, 1989).
Ana Vicente (1943-2015), bisneta de
Bessie Rayner Parkes.
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