Pronto, terminei a
leitura deste livro esmagador, um tour de força de muitas páginas. Que
trabalho insano, que investigação imenasa, Deus meu!, coisa rara e pouco vista por nossas
bandas laxistas. O livro talvez precisasse de ser um pouco editado, talvez, e o
entusiasmo do biógrafo pela biografada também talvez pudesse ser um pouco
moderado. Mas que são esses pecadilhos comparados com o muito e tanto, imenso e
novo, que este livro nos traz? Há figuras que não saem nada bem da fita: José Jorge
Letria, Mário Castrim, Carlos do Carmo… E como explicar o silêncio, no pós-25
de Abril, do partido e das dezenas e dezenas de pessoas que Amália ajudou em
ditadura? Neste livro está lá tudo, falado, documentado. Está lá que Amália foi enxovalhada,
denegrida, perseguida – e poucos ou nenhuns se levantaram em sua defesa. É
triste, é fado, é o eterno fado do
cavanço, do tempo da Grande Guerra. Agora, por ser centenário, muitos falam
da inteligência da diva. Sem dúvida, está certo, mas Amália era também
emocional, deveras passional, vê-se em cada linha desta obra de Miguel Carvalho
(que, com este e com o seu anterior Quando Portugal Ardeu, se arrisca a ser o maior
repórter-cronista do 25 de Abril: é prosseguir, sem medo!). Mas o que deste
livro ressalta é, acima de tudo, muito por cima de tudo, que Amália Rodrigues uma grandeza de
carácter absolutamente extraordinária. Coração independente? Sim, o dela, só o dela.
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segunda-feira, 27 de julho de 2020
Coração independente.
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sábado, 4 de julho de 2020
Onde é que estavas nos anos 1980?
Há
quem tenha vivido nos anos 1980 mas não tenha vivido os anos 1980. Jovens, não se
apoquentem, não se deixa ninguém para trás. Vão perfeitamente a tempo de apanhá-los
com proveito no século 21. Por exemplo, pela mão de Carlos Bica e a voz de Aldina
Duarte, nesta recriação de Sete Naves
-- a dos GNR, pois claro, ao som da qual se podem sacudir logo a seguir como se
estivessem no Frágil, sei lá.
Manuela
Ivone Cunha
domingo, 6 de outubro de 2019
Lembrando a Amália: os meus primeiros encontros com a Amália.
Foi
em 1970 ou 1971 que eu vi a Amália Rodrigues pessoalmente, pela primeira vez,
tendo sido a ela apresentado pelo Dr. Adriano Seabra Veiga, médico e Cônsul
Honorário de Portugal no estado de Connecticut, Estados Unidos, primo do marido
da Amália, Eng. César Seabra, no final de um espectáculo que ela deu no salão
paroquial da Igreja de Nossa Senhora de Fátima de Waterbury. Para alguém que,
como eu, estava profundamente empenhado em disseminar a língua portuguesa e a
cultura do mundo lusófono através dos Estados Unidos, na minha qualidade de
professor de Português e Espanhol na Universidade de Connecticut, em Storrs, a
actuação da Rainha do Fado revestia-se de tal relevância, que me lembro de
haver convidado três professores e um aluno de pós-graduação da minha
universidade, acompanhados todos eles das respectivas esposas, para tomar parte
no banquete que precedeu o espectáculo e para ouvir cantar a fadista mais
famosa e mais celebrada de Portugal. (Para que conste, aí vão os nomes dos meus
colegas e do meu aluno de pós-graduação e das respectivas esposas: Gabriel e
Tove Rosado; Felix e Lillian Freudmann; George e Jane Reinhardt; e Enrique
Sacerio-Garí e esposa.) Desnecessário é dizer que para todos nós foi um
encontro memorável e um espectáculo inesquecível: uma data albo signanda
lapillo, como vaidosamente diria um humanista que se prezasse dos seus
pergaminhos.
Voltei
a encontrar a Amália em Fevereiro de 1979, por ocasião de uma tournée feita por
ela, a fim de cantar mais uma vez para as comunidades luso-americanas, na costa
leste dos Estados Unidos.
Ciente
da celebridade nacional e internacional de que ela justamente gozava, tendo
cantado e continuando a cantar nas melhores salas de espectáculos do mundo,
desde Paris a Tóquio, desde Roma ao Rio de Janeiro, desde Madrid a Nova Iorque,
desde Londres à Cidade do México, intrigou-me o facto de ela estar a actuar
novamente em modestos auditórios de escolas públicas americanas, sem as mínimas
condições acústicas, como, por exemplo, aquele em que eu a ouvi cantar por essa
ocasião: o auditório da Burns Elementary School da cidade de Hartford, capital
do Estado de Connecticut, escola, por sinal, localizada numa das zonas mais
degradadas da cidade, que era também aquela em que nesse tempo habitava a grande
maioria dos luso-americanos e em que se situava a sua paróquia e o seu clube,
respectivamente Igreja de Nossa Senhora de Fátima e Clube Português de
Hartford, ainda ambos localizados na Babcock Street. E mais me intrigou ainda o
saber que ela e a sua comitiva, constituída por quatro guitarristas e um
secretário e mestre de cerimónias, se bem me recordo um luso-americano de magra
formação académica e musical, estavam alojados num motel de terceira classe,
localizado também ele num bairro delapidado de Hartford, ao lado do Brainard
Airport (um modesto aeroporto regional).
E
foi por me sentir tão intrigado que perguntei à Amália, no final da actuação,
em que, como de costume, foi justa e delirantemente ovacionada, por que é que
ela aceitava cantar para as comunidades portuguesas emigradas, em salas de
espectáculos de tão baixo nível e alojar-se em motéis dessa natureza. Sem
qualquer hesitação, a grande diva limitou-se a responder que gostava tanto de
Portugal, que queria que todos os portugueses, sobretudo os emigrantes
dispersos por esse mundo fora, a pudessem ouvir cantar pessoalmente, pouco se
importando com a modéstia das acomodações e com as condições precárias das
salas de espectáculos.
Foi
com esta Amália, Rainha do Fado e sua embaixatriz, portuguesa de alma e
coração, sempre fiel às suas raízes de filha do povo, orgulhosa da sua língua,
da sua cultura e da sua Pátria, e apaixonada pelos portugueses da diáspora, que
tive a dita e a honra de conviver pelos anos fora, sobretudo quando, por
motivos de saúde, ou melhor dito, por falta dela, ela vinha procurar, através
do primo do marido e grande amigo dela, aos Estados Unidos, especialistas que
lhe detectassem e a tratassem das doenças com que os fados a mimoseavam de
longe em longe, no outono da vida.
Manchester, Connecticut, EUA
6 de Outubro de 2019
António Cirurgião
quinta-feira, 2 de maio de 2019
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Uma leoa para Hermínia.
Do
popular actor brasileiro Spina, um leão de postal para a não menos popular
Hermínia Silva, leoa do fado.
domingo, 11 de fevereiro de 2018
domingo, 25 de dezembro de 2016
sábado, 17 de dezembro de 2016
Amália, Camões e Pessoa.
Certo dia, após o almoço em casa do Dr.
Seabra Veiga, médico e Cônsul Honorário de Portugal no Estado de
Connecticut, a Amália, a convalescer de
uma operação, propôs-me um breve passeio pelo jardim, sob o pretexto de ter uma
conversa a sós comigo.
Cruzado o alpendre, com o seu belo
caramanchão, disse-me que tinha visto uns escritos meus na biblioteca da casa
do Adriano e da Rita e que, por curiosidade, se pusera a folheá-los. Que, de
entre eles, lhe prenderam especialmente a atenção umas separatas minhas sobre a
poesia de Camões e o meu livro sobre Pessoa: O “olhar esfíngico” da Mensagem de Pessoa. E, uma vez que eu
conhecia a poesia desses dois grandes poetas portugueses – continuou ela –,
gostava que a esclarecesse sobre uma questão que muito a intrigava. É que ela,
que sempre adorara ler poesia e falar de poesia com os poetas e com as pessoas
especializadas nela, e que lera e relera muitas poesias desses dois poetas,
chegava sempre à mesma conclusão: que, ao passo que ao ler os poemas de Camões
sentia sempre o desejo de ver alguns deles postos em música para os cantar não
só para ela, mas também para os outros, com os poemas de Pessoa isso nunca
acontecia. Que às vezes até ficava envergonhada, pois tinha alguns amigos que punham
Pessoa nos píncaros da lua e que gostariam que ela cantasse as suas poesias.
Porque seria isso? Poderia eu, como professor de literatura e especialista na
poesia desses dois grandes poetas (palavras da Amália), explicar-lhe esse
fenómeno? Que não: que naquele momento não podia, tive de admitir com toda a
humildade e sinceridade. Que havia de debruçar-me sobre esse assunto, indo
reler as artes poéticas desde a mais longínqua antiguidade até à actualidade,
atendo-me na ocasião a opinar, atabalhoadamente, que, ao passo que Camões
escreveu a sua poesia numa época em que havia regras muito precisas sobre
esquemas estróficos, rítmicos e rímicos, e sobre o valor e o uso de vogais
breves e de vogais longas e sobre fenómenos fónicos, indo de mãos dadas, na
poesia dos verdadeiros poetas, o sentido das palavras e a música que o
veiculava, Fernando Pessoa, por sua vez, conhecedor embora como poucos das
artes poéticas de todos os tempos, ao escrever a sua poesia, tomava as
liberdades que muitos dos seus contemporâneos, autores de artes poéticas, de
carácter informal, um pouco por todo o mundo ocidental, advogavam, artes
poéticas normalmente feitas sem o rigor e a precisão matemática das da
antiguidade clássica e do Renascimento, época em que Camões vivera e poetara –
repeti eu.
Dito
o quê, calei-me para não me espalhar mais, reconhecendo que, se continuasse a
divagar, nada mais faria senão atirar para o ar com palavras vãs, palavras sem
lógica e sem sentido para quem as proferia, e, por maioria de razão, para quem
as ouvia.
Mas como notei que a Amália esperava
que eu continuasse a perorar, mesmo sem ordem e sem nexo, respirei fundo e lá
me afoitei a dizer que, entre os gregos, por exemplo, desde Homero a Ésquilo, a
poesia e o canto andavam de mãos dadas. Os chamados rapsodos cantavam nas
praças públicas os versos da Ilíada e
da Odisseia e os corifeus e os coros
das tragédias de Ésquilo e de outros dramaturgos cantavam no teatro os seus
versos. E que os grandes poetas latinos procediam da mesma maneira. E
exemplifiquei a afirmação referente aos poetas latinos com o poeta menor e
autor de uma breve arte poética, o português Miguel Sanches de Lima, o qual, em
fins do século XVI, conta que Virgílio, ao compor a sua Eneida, ia cantando os versos à medida que os ia escrevendo. E
exemplifiquei também com o que tinha acontecido recentemente, no decorrer de um
almoço realizado em Lisboa entre a Ana Hatherly, Perfecto Cuadrado, Fernando
Martinho e esposa, Joana Martinho, e o abaixo-assinado. A determinado momento,
o professor de literatura da Universitat des Illes Balears contou-nos que o seu
professor de Grego obrigava os alunos a ler a poesia grega, como se estivessem
a cantar. E, para nosso gáudio e edificação, recitou cantando magistralmente
várias passagens dos poemas homéricos.
Como
notei que a Amália continuava interessada em me ouvir disparatar, acrescentei
que, durante a Idade Média, depois de um hiato de vários séculos, se reatou a
tradição da velha Grécia, com o advento dos trovadores e dos jograis que
cantavam nas casas dos nobres e nas praças públicas as poesias escritas pelos
trovadores e outros poetas, entre os quais se contou o maior e mais famoso de
todos, Marie de France, cujos poemas, chamados lais, que significam chansons,
eram cantados pelos trovadores e pelos jograis. E, como oriundo de Portugal e
raiano, não resisti a juntar a Marie de France os nomes célebres do jogral
galego Martin Codax e do Rei Dom Dinis de Portugal, referindo o Códice Martin Codax
e o Pergaminho Sharrer, tendo sido este último descoberto no Arquivo Nacional
da Torre do Tombo, em 1990, pelo meu colega e amigo Harvey Sharrer. E no
Renascimento – prossegui eu, manteve-se a tradição, como claramente se deduz,
por exemplo, do nome que se dava a certas composições poéticas: cantigas,
canções, odes e sonetos, composições cantadas com o acompanhamento da lira e do
alaúde.
E proferidas estas últimas palavras,
calei-me de vez, ciente de que, se eu não me entendia a mim mesmo, muito menos
podia ser entendido da Amália.
Conclusão: firmemente convencido das
minhas limitações neste momentoso campo do conúbio ou divórcio entre a poesia e
a música, essa intrigante e legítima questão levantada pela cantora única e
genial, que era e foi a Amália Rodrigues, deposito-a, mutatis mutandis, respeitosa e humildemente, nas mãos dos “sábios
da escritura” de que fala Camões em Os
Lusíadas (Canto V, 22), a propósito da tromba marítima, a fim de que eles a
deslindem a contento dos interessados.
António
Cirurgião
sábado, 23 de julho de 2016
Amália e Frank Sinatra, entre outras reminiscências.
Como de costume, fui passar as férias
de Natal a Portugal, normalmente com um mês de duração, férias que ocupava
geralmente a fazer pesquisas literárias em bibliotecas e arquivos portugueses,
a ler e a escrever.
Conhecendo já bem a Amália Rodrigues,
em virtude dos nossos frequentes encontros em casa do Dr. Adriano Seabra Veiga,
primo direito do marido da Amália, o Eng. César Seabra, o Dr. Veiga e a esposa dele, a Dona Rita, pediram-me que
levasse um pequeno presente à Amália.
Chegado a Portugal e alojado no meu
condomínio do Estoril, telefonei para casa da Amália a perguntar quando podia
passar por lá para a cumprimentar e para lhe entregar o presente de Natal
mandado pelo primo do marido e pela D. Rita. Como a Amália só se levantava
normalmente cerca da uma ou duas da tarde (as noites eram passadas, com
frequência, em tertúlias intermináveis com os amigos que quisessem aparecer lá
por casa), foi-me dito que podia ir por volta das duas da tarde.
Quando cheguei, fui recebido pelo
César, o qual me disse que a Amália ainda se encontrava no quarto, mas que já
se tinha levantado. Que me sentasse e esperasse um momento, que a Amália já
vinha. Passados uns instantes, apareceu a Amália, ainda vestida de robe caseiro.
Como ela ainda não tinha tomado o pequeno-almoço, pediu-me que me sentasse à
mesa com ela, para irmos conversando enquanto ela comia alguma coisa, por sinal
uma refeição muito leve, que fazia de pequeno-almoço e de almoço. Como o César
já tinha almoçado e eu também, fomos conversando todos enquanto a Amália comia.
Aqui um breve aparte, antes de voltar
ao fio da história. Trocados os cumprimentos, a primeira coisa que a Amália me
disse foi que não reparasse na modéstia da casa: que era uma casa de gente
simples, que de forma alguma se podia comparar com as casas dos nouveaux riches (sic). Ao que o César replicou,
em tom meio jocoso: −Ó Amália, deixa-te lá dessa falsa modéstia, que o Dr.
Cirurgião já pôde observar as belas telhas da parte de fora da casa e os ricos
azulejos das escadas e o teu retrato ao cimo das escadas e alguns dos quadros e
dos tapetes e até algumas peças de mobília, para já não falar do teu famoso
presépio.
Ao desembrulhar o presente de Natal, a
Amália notou que se tratava de umas fitas magnéticas com algumas das gravações
das homenagens feitas nos canais de televisão americana em honra de Frank
Sinatra, para comemorar os seus oitenta anos de vida. Acabaram-se abruptamente
as meias conversas sobre mil e uma coisas, qual delas a mais inconsequente. A
partir desse momento, a Amália só estava interessada numa coisa: saber de mim,
presumível testemunha ocular e auricular dessas homenagens, a maneira como os
americanos tinham celebrado os oitenta anos do lendário e mítico cantor e actor
americano. A Amália queria saber tudo e mais alguma coisa. Eu, na minha
proverbial ingenuidade, não compreendia a razão de ser desse interesse
desmedido e obsessivo, por parte da Amália, nas ditas comemorações. Mas, pouco
a pouco, através dos anos, lá fui compreendendo que a Amália, que em nada tinha
por que se sentir inferior ao “Chairman of the Board” ou o “Blue Eyes”, no
mundo da música, e no do cinema, na realidade estava a imaginar como desejava
ser festejada em Portugal em idênticas efemérides.
E foi nesse momento que me dei conta
pela primeira vez da fome insaciável que a Amália tinha de ser reconhecida como
a maior cantora de Portugal de todos os tempos, que aliás o era, na opinião de
muito boa gente, exigindo do grande público português e do governo esse
reconhecimento. Ela que já tinha sido várias vezes homenageada, ao mais alto
nível, tanto em Portugal como no estrangeiro; ela que já tinha recebido
condecorações tanto do governo português como de vários governos estrangeiros,
entre os quais sobressaía o francês; ela, que já tinha recebido testemunhos
públicos tanto de entidades privadas portuguesas como estrangeiras; ela achava
que tudo isso era pouco para a rainha do fado.
A carência que a Amália tinha de ser
amada e admirada! As repetidas e amargas queixas que ela me fazia da ingratidão
dos homens e do mundo!
Continuando
a digressionar, não posso esquecer o dia em que, por ocasião de um jantar em
casa do Dr. Seabra Veiga, no momento em que estávamos a levantar-nos da mesa
para irmos para a sala de estar, a Amália me depositou nas mãos uma revista
francesa, recém-publicada, pedindo-me que lesse um longo artigo que aí vinha
sobre ela. Com a revista na mão, apressei-me a dizer que oportunamente leria o
artigo com o maior prazer, ao mesmo tempo que me encaminhava para a sala de
estar, onde já nos esperavam o Dr. Veiga e a D. Rita e a D. Lili, secretária
dedicadíssima e fiel companheira da Amália. Qual quê. Que fizesse o favor de
ler o artigo nesse preciso momento. E que lho lesse em voz alta. E eu li o
artigo e li-o em voz alta, naquele “preciso momento”, como me fora pedido. E,
enquanto lia, pude reparar, pelo cantinho maroto do olho direito, no
embevecimento da Amália no decorrer dessa leitura. É que o artigo era cem por
cento elogioso e positivo, pondo a Amália nos píncaros da lua. Lembro-me que
nesse artigo se dizia que a Amália Rodrigues e a Maria Callas eram as duas
maiores cantoras do século XX e que Portugal era o país dos três efes: de
Fátima, do Futebol e do Fado. E foi nessa precisa ocasião que a Amália me disse
pela primeira vez uma coisa que eu lhe ouviria repetir vezes sem conta através
dos anos: que os dois portugueses mais conhecidos no mundo contemporâneo eram o
Eusébio e a Amália. E nesse aspecto tinha a Amália toda a razão, como eu pude
constatar, não só como português da diáspora a viver nos Estados Unidos, mas
como cavaleiro andante por esse mundo fora (viajar foi sempre um dos meus
vícios, tomando à letra o velho dito dos fenícios, evocado por Fernando Pessoa
e celebrado em música por Maria Bethânia: “viver não é preciso: navegar é
preciso”).
Foi
outrossim nessa ocasião que ela me confessou, pela primeira vez (facto que me
viria a repetir também vezes sem conta), da mágoa que sentira – e que
continuava a sentir, e continuaria a sentir, enquanto vivesse – ao ser acusada
de fascista, logo após o 25 de Abril de 1974. Que jamais fora fascista; que era
portuguesa, de alma e coração, e que cantara sempre e continuaria a cantar para
quem quisesse ouvi-la, desde os presidentes da República às pessoas mais
simples do povo, e independentemente das cores políticas de cada um. Que fora
por causa dessas acusações infundadas e injustas que ela recusara e viria a
recusar terminantemente emprestar a sua voz às festas anuais do Avante!, apesar
da insistência com que esse pedido lhe era feito todos os anos, por intermédio
das pessoas mais influentes. Que lhe tinham despudoradamente vestido a casaca
de fascista e que depois a queriam ver a abrilhantar os palcos dessa cambada de
oportunistas sem escrúpulos? Que ela tinha a sua dignidade e que essa dignidade
tinha ela a obrigação de defendê-la durante a vida inteira.
A esmo, vou atirar para o papel, ou
melhor, para o ventre do computador, com mais alguns episódios referentes ao meu
convívio com a Amália, na esperança de que eles possam vir a dar uma pequenina
contribuição para um melhor conhecimento de uma das jóias mais brilhantes do
brasão de Portugal (desconfio que alguns deles já se encontram registados
algures, mas, na incerteza, vou pelo princípio que diz que, em casos destes, é melius abundare quam defficere, adágio
que poderíamos traduzir aproximadamente assim: é melhor pecar por excesso que
por defeito).
No final de um dos almoços que tive com
a Amália em casa do Dr. Veiga, em Waterbury, dirigi-me ao consultório médico
dele. A primeira coisa que fiz foi pedir à Diana, uma das enfermeiras e a
recepcionista, que adivinhasse com quem eu tinha almoçado nesse dia. Sem
qualquer hesitação, ouço dos lábios da Diana estas palavras mais ou menos
textuais: “Professor, não me diga que também é um dos escravos da Amália.”
Perante essas palavras, não pude deixar de reflectir, mais tarde, que, como em
muitas outras coisas, era preciso o necessário distanciamento, a fim de poder
compreender o verdadeiro sentido de determinados comportamentos. A Diana, na
sua qualidade de recepcionista e enfermeira, e, sobretudo, de americana genuína,
nada e criada na democrática América, a trabalhar há vários anos no consultório
do Dr. Veiga, já tinha observado mais que o suficiente para poder concluir,
muito acertadamente, que, a julgar pela subserviência demonstrada para com a
Amália pelos seus acompanhantes, a começar pela Dona Lili, espécie de
secretária, governanta e companheira, e a acabar pelos pacientes e enfermeiras
de origem portuguesa do Dr. Veiga, todos se comportavam como se fossem escravos
da Amália. E a Amália, por sua vez, nada fazia para desencorajar esse
comportamento. Antes pelo contrário. Mas, diga-se de passagem, essa atitude
tinha a mais lógica das explicações. Ao fim e ao cabo, tratava-se de hábitos
ancestrais, sancionados pelas leis da tribo.
Para comprovar coisas desta natureza
não há como referir casos concretos. Como era meu costume - e continuou sendo
-, normalmente, quando era convidado para almoçar ou jantar em casa dos Veigas,
levava um ramo de flores para a D. Rita. Pois bem: sabendo que a Amália estava
hospedada em casa deles, em vez de um ramo de flores, levava dois. E que
aconteceu das duas primeiras vezes? Eu a entrar a porta com os dois ramos de
flores e a Amália a apoderar-se de ambos, com enorme sofreguidão, como se só
ela tivesse direito a ramos de flores. De maneira que, perante essa experiência, a partir da segunda visita eu
fazia questão de dizer muito claramente que um dos ramos de flores era para a
Amália e o outro era para a D. Rita. Acentuo, a propósito, que a Amália
aproveitava a ocasião para me dizer que sempre adorara flores, e,
particularmente, as flores silvestres. Que algumas das horas mais agradáveis da
sua vida eram aquelas que ela passava no seio dos campos, extasiando-se a
contemplar a beleza das flores e a inalar o seu perfume inebriante.
Não foi preciso deixar passar muito
tempo, logo após os primeiros encontros, para me dar conta de que a Amália
gostava de falar comigo. Entretanto, sabendo do meu estatuto de professor
universitário, começava quase sempre por repetir, no início das nossas
conversas, que ela apenas tinha feito uma simples quarta classe, não era
ninguém para poder dialogar com um professor universitário. Que eu devia
desculpar o seu atrevimento. Mas que ela tinha uma grande curiosidade
intelectual e que sempre gostara de falar com pessoas cultas. E que os assuntos
de que mais gostava de conversar eram a filosofia e a poesia. E como eu lhe
observasse, em abono da verdade, sem a mínima aparência de lisonja, quando ela
tomava essa atitude de inferioridade intelectual, que conhecia muitas pessoas
com títulos universitários que mal acompanhavam uma conversa de carácter mais
elevado, no campo da cultura geral, fenómeno comum nos meios intectuais
americanos, e que não era necessário frequentar academias ou instituições de
ensino superior para ser culto e ter genuína curiosidade intelectual, a Amália
descia ao mundo da realidade e limitava-se a conversar com a maior das
naturalidades. Aliás, eu sabia muito bem que a Amália convivia e conversava,
nos longos serões realizados em sua casa, com toda a espécie de intelectuais,
portugueses e estrangeiros, principalmente com gente das letras e das artes.
Um dia, à mesa de um dos vários
restaurantes portugueses de Waterbury, no estado de Connecticut, aonde por
vezes íamos almoçar, a conversa entre a Amália e o Cirurgião encaminhou-se para
questões de religião e de fé religiosa. Ao perceber que eu era agnóstico,
recorreu a uma série de argumentos para me fazer ver que Deus existia e que era
preciso e era bom acreditar n’Ele. E não posso esquecer-me que o último
argumento a que Amália recorreu, mais de uma vez, para tentar converter-me à
religião católica, consistiu em apontar para as flores que enfeitavam a mesa e
perguntar-me, retoricamente, se a existência de umas flores tão belas e tão bem
cheirosas não pressupunham a mão sábia e omnipotente de um Criador. E isso –
prosseguia ela – para não falar dos alimentos que acabáramos de saborear. E,
saídos do restaurante, estava eu a abrir-lhe a porta do carro quando ela me
pediu desculpa por tentar converter-me ao Catolicismo. Mas que tudo isso o
fazia ela por bem. Que tinha pena que uma pessoa tão boa e tão culta como eu
não tivesse fé (rogo se me releve esta maneira de falar, mas o memorialista
narra os factos: não os inventa). Que, por isso, eu fizesse o favor de lhe não
levar a mal o atrevimento. Claro que eu não levei a mal – nem poderia levar a
mal, antes pelo contrário, – esse santo atrevimento à Santa Rainha do Fado, que
se dignou honrar-me com a sua amizade.
António
Cirurgião
PS. – lembrei-me
de evocar a memória da Amália por ocasião do seu aniversário natalício,
ocorrido no dia 23 de Julho de 1920.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Amália no Clube Português de Hartford.
No decorrer da longa convalesça, após a
terceira operação feita pela Amália nos Estados Unidos, em 1998, realizou-se no
Clube Português de Hartford, estado de Connecticut, a Noite do Imigrante, na
última semana de Novembro, logo a seguir à festa de Thanksgiving, portanto, com
a participação de alguns dos melhores fadistas e guitarristas da Nova
Inglaterra e dos estados de Nova Iorque e de Nova Jersey, e do conjunto musical
Mil e Quatro de Beto de Oliveira, de Hartford.
Sabendo que a Amália se encontrava
hospedada em casa do Dr. Seabra Veiga, em Waterbury, e sabendo não só da
amizade que me ligava à Amália e da minha influência junto do Dr. Veiga, Cônsul
Honorário de Portugal no Estado de Connecticut, alguns membros da direcção do
Clube pediram-me que usasse dos meus bons ofícios, no sentido de conseguir que
a Amália Rodrigues participasse nessa festa, em companhia, naturalmente, do Dr.
Veiga e da sua esposa, Dona Rita, como era da tradição, e também da Dona Lili,
a dedicadíssima e fidelíssima secretária da Amália, que a acompanhava por toda
a parte.
De que a Amália aceitasse, justamente
lisonjeada, o amável convite, apesar de estar ainda a convalescer de uma
operação grave, não tinha eu a mínima dúvida, sabendo como ela amava os
portugueses da diáspora, era apaixonada por eventos desta natureza e era quase
doentiamente carente de aplausos, de mimos e de banhos de multidão. Porém
igualmente sabia que o mesmo já não podia eu dizer do Dr. Veiga, não só em
virtude da sua qualidade de primo da Amália por afinidade, mas sobretudo em
virtude da sua qualidade de médico dela, directamente responsável pelas suas
melhoras rápidas. Entretanto, lá fui dizendo aos meus amigos da direcção do
Clube que faria oportunamente essas diligências, na esperança de poder vir a
satisfazer os desejos deles (e os da Amália também, disse eu para comigo). Que
se lembrassem, porém, de uma coisa fundamental: que, na eventualidade de isso
vir a realizar-se, por nada deste mundo permitiria que alguém se atrevesse a
pedir à Amália que cantasse durante essa festa. É que ela, na sua louca paixão
pelo fado, não só não recusaria esse convite, mas aceitá-lo-ia de braços
abertos...e de pulmões doentes.
Levado esse pedido ao conhecimento dos
meus amigos Dr. Veiga e D. Rita, logo no próprio dia em que me foi feito, e
devidamente informado das estipulações que eu tinha imposto aos membros da
direcção do Clube Português de Hartford, obtive deles uma resposta afirmativa,
com duas condições: primeiro, que o Presidente do Clube Português de Hartford,
Mário de Sousa, formulasse por escrito o pedido referente à presença da Amália;
segundo, que, se esse pedido viesse a ser aceite, ele, Presidente do Clube, não
diria isso a ninguém, pois achava bem que a presença da Amália fosse uma
surpresa para todos.
E surpresa agradabilíssima, ao som da
“Canção do Mar”, tocada pelo conjunto musical Mil e Quatro, aclamada e
ovacionada pela multidão delirante que enchia totalmente a sala de banquetes e
salão de actos do Clube, ao mesmo tempo, foi a entrada triunfal da Diva do Fado,
com brincos longos cor de vinho e com vestido preto, roçagante, salpicado de
lentejoulas douradas, a fazer lembrar, pelo corte, aqueloutro vestido, vermelho-escuro,
se bem me recordo, que ela usou por ocasião da homenagem nacional que lhe foi
feita no salão de espectáculos da Expo de Lisboa de 1998.
Graças à presença da Amália, tudo foi
memorável nessa inesquecível “Noite do Imigrante”, e noite de fados e
guitarradas, realizada no Clube Português de Hartford. Terminado o jantar, que,
como sempre, constou de uma vasta variedade de aperitivos, desde os bolos de
bacalhau aos rissóis de carne e camarão, de sopa (o tradicional,
portuguesíssimo e saborosíssimo caldo verde, generoso em linguiça e azeite
portugueses), de prato de peixe e prato de carne e de sobremesa, acompanhados
de vinhos de mesa portugueses, e de bebidas generosas, em que não faltou o
Porto, naturalmente, os guitarristas e os fadistas convidados encheram-se de
brio e, como diria o meu saudoso amigo Manuel Gaspar, mestre-de-cerimónias
(esta expressão soa-me melhor que a palavra apresentador), não deixaram os seus
méritos por mãos alheias. E, como não podia deixar de ser, quando menos se
esperava, lá aparecia alguém, à antiga moda portuguesa, numa autêntica casa de
fados, a pedir que lhe concedessem a honra de dedicar um fado à grande Amália.
De posse do microfone, o fadista ou a fadista de ocasião aproximava-se dos
guitarristas, sussurrava-lhes as primeiras notas do fado que se propunha
cantar, a sala mergulhava em silêncio religioso (“silêncio, que se vai cantar o
fado” – pontificava em voz sonora e pomposa o Manuel Gaspar), e o fado
inesperado fazia delirar a Amália, visivelmente transfigurada por mais um gesto
espontâneo de sentida homenagem, e fazia-nos estremecer a todos os presentes de
comovidas saudades da velha Pátria.
Faziam-se intervalos e, durante eles,
os que, por casualidade, haviam tido a lembrança de vir munidos de máquinas
fotográficas, aproximavam-se da mesa da Amália e dos convidados especiais, mesa
montada quase em forma de trono, e perguntavam-lhe, em tom extremamente
respeitoso, se se dignava posar com eles para uma fotografia de família. E a
Amália, encantada e sorridente, dizia sempre que sim.
Neste
contexto, nunca me sairá da lembrança o que aconteceu em determinada altura,
quase ao cair do pano, dessa noite inolvidável. Aproxima-se da mesa da Amália o
falecido e saudoso Mário de Sousa, presidente do Clube Português de Hartford,
bem-falante, sempre bem disposto e sorridente, alfacinha de gema, extrai da
carteira uma fotografia velhinha de muitos anos e põe-na diante dos olhos
deslumbrados e emocionados da Amália. Ela não podia acreditar naquilo que
estava a ver: era uma fografia dela, Amália, em maillot, tirada na praia de Santa Cruz, perto de Caldas da Rainha –
fotografia do tempo em que a Amália era “menina e moça.”
Revelado,
candidamente, pela voz altissonante do Manuel Gaspar, esse milagroso achado à
multidão que enchia de lés-a-lés o salão de actos do Clube Português de
Hartford, a ovação foi tão retumbante, que se pode falar, sem exagero, de uma
autêntica apoteose à Santa Rainha do Fado, apoteose que a Amália, que nunca
permitia ser vencida em generosidade, agradeceu, feliz e emocionada, como era
seu costume, com os braços abertos, vénias profundas e uma litania infinda de
“obrigada”, “obrigada”, “obrigada”...
António
Cirurgião
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Amália.
Amália Rodrigues,
na sua casa no Brejão
(fotografia de Octávio Diaz-Bérrio, 1972) |
Após vários anos de consultas médicas
em Portugal e de mil e uma frustrações por ver passar o tempo e não ver
detectada a doença que tanto a apoquentava e tanto a fazia sofrer, a Amália
resolveu vir aos Estados Unidos consultar médicos americanos.
Como o primo do Eng. César Seabra, marido
da Amália, era médico de clínica geral e especialista em cirurgia torácica,
veio para casa dele, localizada em Waterbury, estado de Connecticut. E como o
primo do César, além de exercer, por esse tempo, o cargo de chefe do
Departamento de Cirurgia Torácica no Saint Mary´s Hospital, em Waterbury, tinha
também o seu consultório particular, foi por aí que a Amália começou, tendo-se
submetido a todo o tipo de exames médicos, prescritos pelo Dr. Veiga. Uma vez
detectada a doença – um tumor maligno na
carótida –, a Amália foi operada, com êxito, pelo Dr. Gotay no hospital onde
trabalhava o Dr. Adriano Seabra Veiga.
Após
lhe haver sido dado alta do hospital, a Amália foi fazer a convalescença a casa
do Dr. Seabra Veiga, onde sempre tinha estado hospedada, juntamente com o
marido e com a D. Lili, espécie de governanta, secretária e companheira fiel da
Amália, como já foi referido. Dizer que foi tratada como uma princesa é
desnecessário. Em casa do Dr. Veiga e da D. Rita, todos os hóspedes eram
tratados com todos os requintes de fidalguia. Nesses tempos ainda a família
Seabra Veiga tinha uma ou duas empregadas, motorista e jardineiro. E quando
havia convidados de cerimónia, por ocasião de banquetes, o que acontecia com
bastante frequência, apareciam cozinheiros suplementares, mordomo e serventes
de mesa, trajando os uniformes da praxe.
Completamente restabelecida, a Amália
regressou a Portugal e voltou às luzes da ribalta, continuando a cantar o fado
nas mais célebres salas de espectáculos do mundo inteiro, com realce para a
França. Mas, passados anos, surgem novas doenças. E, sendo assim, aí vem a
Amália tratar-se novamente aos Estados Unidos, hospedando-se, como da primeira
vez, em casa do primo do marido. Só que, em virtude do tipo de operação a que
teve de submeter-se, desta vez foi operada, não no Saint Mary´s Hospital, em
Waterbury, mas no Yale New Haven Hospital, em New Haven, localizado também no
estado de Connecticut. Aliás, viria a ser também nesse mesmo hospital que,
tempos mais tarde, lhe viria a ser extraído um cancro nos pulmões, por meio de
uma pneumatomia.
Foi após esta terceira operação feita
nos Estados Unidos que, embora ainda muito combalida, a precisar de cuidados
permanentes e de passar quase todo o tempo na cama, a Amália começa a sentir-se
tentada a dizer sim aos inúmeros admiradores, de entre os membros da comunidade
luso-americana da Nova Inglaterra, que desejavam visitá-la em casa da família
Seabra Veiga.
E foi assim que um dia – um domingo
frio e chuvoso de inverno, que saudosamente lembro – se combinou autorizar uma
visita à Amália, por parte de uma comitiva de fadistas e guitarristas vindos da
cidade de Newark, estado de Nova Jersey (Newark tem a distinção de ser a cidade
americana com o maior número de murtoseiros e de ser uma das cidades americanas
com o maior contingente de luso-americanos).
Como
os fadistas e os guitarristas se perderam pelo caminho, chegaram a Waterbury
com quase duas horas de atraso. Na opinião do Dr. Veiga, na sua qualidade de
anfitrião e sobretudo de médico, e também por temperamento e feitio, deveria
reduzir-se o tempo da visita ao mínimo, fazendo recolher a Amália ao quarto de
doente e de repouso, logo após os cumprimentos e uns breves minutos de
convívio. Mas a Amália, toda coração, e mais carente de calor humano do que de
medicamentos, afirmou que estava a sentir-se melhor e que, portanto, a visita
podia ser prolongada, tanto mais tendo em conta a longa viagem, com um tempo
tão mau, ainda por cima, que todos esses seus grandes e bons admiradores,
embora não conhecidos dela, tinham feito para cumprimentá-la e homenageá-la.
Depois de uma opípara e farta merenda,
entremeada de conversa amena, a saber a reminiscências acariciadoras da
compreensível vaidade da Amália, da mais variada procedência, as guitarras
começaram a chorar tristezas e saudades, e as vozes começaram a soluçar fados
dolentes, enquanto a Amália, sentada numa fofa cadeira de braços e
confortavelmente agasalhada, escutava e saboreava de olhos semicerrados e de
rosto ensimesmado, num rictus meio
trágico, os sons das guitarras e as vozes dos fadistas. Pouco a pouco,
melancolicamente embalada pelo som de alguns dos seus fados mais antológicos, a
Amália não resiste e, quase inconsciamente, começa a associar a sua voz tímida
e doente à dos cantadores e cantadeiras desses seus fados. E chega o momento em
que a Amália, como que esquecida do seu precário estado de saúde, se põe a
cantarolar sozinha, em surdina, um dos seus fados favoritos. Efusivamente
aplaudida, pede aos guitarristas que a acompanhem num dos seus outros fados
tristes. E os guitarristas, visivelmente lisonjeados, enchem-se de brio e
paixão e satisfazem o desejo da Amália.
Findo esse fado, o Cirurgião,
estupidamente esquecido das limitações da Amália, sugere que ela cante, mesmo
que seja sotto voce, o Barco Negro. Mostrando, por uma vez, o bom
senso que o Cirurgião não tinha, a Amália, com um sorriso fugaz de doente,
reagiu com estas palavras que o Cirurgião recordará envergonhado pela vida
inteira: “Ó doutor, como sei que me quer bem e deseja que eu continue a viver,
não lhe posso fazer a vontade. O Barco
Negro, que fez de mim a cantora internacional que hoje sou, é superior às
minhas forças.”
Foi
então que o Dr. Veiga, aproveitando esta saída da Amália, achou por bem dar por
terminada a sessão de homenagem com que os briosos fadistas e guitarristas de
Newark tinham deliciado a Rainha do Fado, e os seus amigos e admiradores, numa
mágica e inesquecível tarde chuvosa e fria de inverno da Nova Inglaterra.
António
Cirurgião
quinta-feira, 2 de abril de 2015
De profundis.
«A
Amália esteve proscrita na RTP. E devo dizer, com o maior orgulho, que a
primeira vez que voltou à televisão foi ao Passeio
dos Alegres e fui eu que a convidei»
(Júlio
Isidro, entrevista in Sol/Tabu, de
27/03/2015)
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domingo, 7 de dezembro de 2014
All That Fado.
Penteado por Dusty Fleming, Carlos Bastos em visual ouriço-cacheiro
Nasceu na
Mouraria, Lisboa, no ano de 1947. E tudo o mais que se diga sobre Carlos
Bastos é demasiado bom para ser verdade. Em 1973 lançou um single com duas músicas: no lado A, «Manuel Poliglota», no lado B,
«Hey Jude», do popular grupo britânico The
Beatles. Ao longo de uma vida inteiramente dedicada ao património
imaterial, Carlos Bastos avistou-se com Júlio Isidro, em data não especificada
nos autos, e deslocou-se à República Federal da Alemanha com Camané, aos 10
anos de idade. Esteve a bordo do Paquete Funchal, igualmente em data não
especificada, acompanhado à viola pelo guitarrista Armando Pacheco. Na década
de 1980, em ano que não foi possível determinar, Carlos Bastos exerceu funções
como sócio-gerente do Pierrot Pub Bar, em Lisboa, e, mais recentemente, lançou
um álbum de grandes êxitos internacionais musicados em fado e cantados na
língua inglesa.
Em
entrevista à revista Dona, legitimou esta sua intervenção artística com
argumentos analógicos, de tipo comparativo: «Temos de ver as coisas. Por
exemplo, a Dona Hermínia Silva, aqui há muitos anos, brincava com o fado em
inglês no Marinheiro Americano. Era uma brincadeira gira para aquele tempo. Já
houve uma senhora japonesa que tentou cantar o fado em japonês, que é muito
mais difícil de se ouvir do que em português.»
Prosseguindo,
afirmou: «Se eu gravasse agora fados em português, podia ter uma aceitação
muito boa ou ficar no anonimato. Assim não fico.»
Concluiu dizendo, em jeito de
promessa: «vou ter oportunidade de provar às pessoas que sou capaz de cantar o
fado em português.»
(até à hora
do fecho desta edição, não foi possível conhecer ainda o despacho do
juiz Carlos Alexandre)
Com Júlio Isidro, de pé
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Novamente com Júlio Isidro, mas agora em Matosinhos
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Com Camané na Alemanha, aos 10 anos de idade
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No cais onde se encontrava ancorado o Paquete Funchal (ao fundo)
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Agora no convés do Paquete Funchal, com Armando Pacheco (à guitarra)
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Sócio Gerente do Bar Pierrot, em Lisboa, anos 80
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Idem, ao balcão
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