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domingo, 17 de novembro de 2013

Um país, dois leilões.

 
 
 
 
 
 
I prefer to deal through you as hats are the most important thing.

Enclosed is a sample of a tailored coat I have ordered from Bem Zuckerman.

I must have these for Inauguration Day so yo'll have to rush - send to Washington

Oh dear it was so pleasant when I didn't have to wear hats!


I do like the crocodile shoes but they are too small.

A rather different beret.








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Marina Prusakova
 



 





 




          No dia do 50º aniversário da morte de John F. Kennedy será leiloado um conjunto de cartas de Jackie para Marita O’Connor, a sua personal shopper da Bergdorf Goodman. Escritas no início dos anos 60, as dezassete cartas mostram o cuidado extremo de Jacqueline Bouvier com a sua aparência, mostrando que ser um modelo de elegância, admirado mundialmente, é algo que dá muito trabalho e que requer grande esforço e enorme minúcia, a máxima atenção aos mínimos pormenores. Não se julgue, porém, que Jackie era, ou era apenas, uma mulher mundana e, menos ainda, uma pessoa fútil e frívola. Para quem tenha dúvidas, veja-se o que lia em jovem, o que escrevia e como pensava nesse tempo. Está tudo referido numa biografia monumental e fascinante, que li há pouco, America’s Queen, de Sarah Bradford. Irão ser leiloadas também algumas peças de vestuário, incluindo um blazer de John Fitzgerald Kennedy.

          Tudo isto é moda, nada mais do que moda, roupas e acessórios. Sem dúvida. Haverá também alguma morbidez neste coleccionismo de memorabilia, algo de maníaco no instinto possessivo dirigido à intimidade das celebridades. Ir-se-ão vender, e a preços astronómicos, as cartas de Jackie Kennedy à sua personal shopper… Mas, atenção, a moda conta. Ganham sempre mais os que fazem as coisas no tempo certo, os que sabem cavalgar a onda efémera. Agora, Kennedy é fashion, porque há precisamente cinquenta anos o seu crânio foi esfacelado em Dallas. Daqui a uns meses o momento será doutra celebridade, e JFK Kennedy perderá valor na bolsa do comércio voyeurista.

De um lado a vítima, do outro o assassino. E duas viúvas, como numa tragédia shakesperiana. A moda Kennedy suscitou um estranho cruzamento leiloeiro, com vista ao mesmo fim: o dinheiro. Há uns dias, alguém pagou 118 mil dólares pelo anel de casamento de Lee Harvey Oswald. O comprador levou para casa, junto com a aliança, uma carta manuscrita de Marina Oswald Porter, que em cinco páginas conta a história do anel que Oswald comprara numa joalharia de Minsk, em 1961, onde se casou com Marina Prusakova, então uma jovem de dezanove anos. Lee casou com Marina dois meses depois de se conhecerem. No interior da aliança, além de uma estrela, a marca da foice e do martelo. Horas antes do assassinato de Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, Lee Harvey Oswald tirou a aliança do dedo. Encontrei versões desencontradas sobre onde terá ficado o anel, mas o que se sabe ao certo é que, por um impedimento legal, só ao fim de cinquenta anos a aliança de casamento foi devolvida à viúva. Até aí, estivera no cofre de uma firma de advogados de Fort-Worth, Texas. Além do anel, foram leiloados cerca de trinta objectos pessoais de Lee Oswald, como a primeira pistola que teve na vida a uma faca do Marine Corps. Tudo certificado com assinaturas do seu irmão, Robert. Os objectos em leilão espelham duas personalidades: os sapatos de Jackie, de um lado, e as armas de Lee, do outro.
Há milhares e milhares de teorias sobre o assassinato de Kennedy, centenas delas falam do anel de casamento. Um dos grandes mistérios do crime tem a ver, imagine-se, com a dentição de Marina Oswald e com as suas idas ao dentista, questão que foi analisada com minúcia no Relatório Warren.  No fundo, a mesma minúcia com que Jacqueline Kennedy, a outra viúva, escolhia as suas roupas e adereços de moda. A intimidade dos Kennedy e dos Oswald é agora exposta e posta a render; mas, durante cinco décadas, à viúva não foi devolvido aquilo que era mais íntimo. Afinal de contas, Marina entrou em toda esta história devido ao facto de ter trocado aquela aliança com Lee Harvey Oswald, na distante Bielorrússia. Aquele anel, guardado durante cinco décadas, era o símbolo da sua união, com o marido e com a História. E agora, aos setenta anos de idade, coloca o anel à venda na melhor saison, com uma carta atestando a veracidade e relatando toda a história do objecto histórico... A celebridade das duas viúvas deve-se ao facto de terem sido casadas com homens célebres. Mas Jacqueline, com a sua obsessão por roupas, contribuiu muitíssimo para o glamour que rodeou a Presidência de JFK. A moda, como vemos, tem a sua importância. Sem ela, talvez Kennedy não tivesse a carreira política que teve, não chegaria à Presidência dos USA, não faria da Casa Branca um lugar de sonhos, não teria um funeral tão comovente e distinto, nem uma memória tão perene e saudosa. Se não fosse a minúcia de Jackie com os adereços, as cartas que agora vão à praça – e que falam com minúcia de adereços… –  não teriam o valor que têm. Todos ganharam, ele e ela, e agora, postumamente, outros irão ganhar por ele ter sido como foi, JFK, e ela  ter sido como foi, America’s Queen Faz sentido a famosa frase, Ich bin ein fashion addict.

Desconhece-se se Marina, a senhora dos anéis, também contribuiu para a fama, bem menos glamorosa, do seu marido. Para o saber ao certo, escrutinaram até a intimidade da sua boca… Um dia, num leilão qualquer, haverá quem esteja disposto a pagar pelos seus dentes, sobretudo se forem de ouro, mais ainda se neles estiverem inscritos o martelo e a foice.    

Das mais díspares teorias que abundam sobre a morte de JFK até ao leilão das cartas de Jackie ou do anel de casamento de Lee Oswald, tudo faz parte da mesma, grande e estranha realidade, a América. Ou, mais do que apenas a América, do mundo inteiro. Um lugar estranho.
 
 
 
António Araújo
 
 
 
    


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mrs. Silence Dogood.


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Nasceu em Abril de 1722, já viúva e com três filhos. Deixou de existir seis meses depois, de forma abrupta e em estranhas circunstâncias, que envolveram uma grande zanga entre dois irmãos, causada pela muita audácia do mais novo e pela crescente insegurança do mais velho.  
Mrs. Silence Dogood ganhou notoriedade e uma legião de fiéis e entusiasmados leitores pelas suas cartas que, com cadência quinzenal, o The New-England Courant, de Boston, publicou entre 2 de Abril e 8 de Outubro de 1722. Ao todo catorze, todas metidas, durante a noite, debaixo da porta da redacção do jornal, em Queen Street.   
Nelas começou por se apresentar como — são suas, as palavras — “an Enemy to Vice, and a Friend to Vertue, one of extensive Charity and a great forgiver of private injuries, a hearty lover of the Clergy and all good Men and a mortal Enemy to arbitrary Government and unlimited Power”. Declarou-se ainda tão fervorosamente apegada aos “Rights and Liberties of my Country”, que o menor indício de restrição a estes “is apt to make my Blood boil exceedingly”. Last but not the least, assumiu uma “natural Inclination to observe and reprove the Faults of others, at which I have an excellent Faculty” que, avisou, não se coibiria de utilizar. Foi o que fez. E como.  
Nas suas cartas, Mrs. Dogood tratou temas variados e, não raro, controversos como a liberdade de expressão, o papel das mulheres (defendendo mais instrução e mais participação destas na vida pública), a hipocrisia religiosa e a corrupção dos governantes, a importância da poesia e dos elogios fúnebres (indicando mesmo os passos a seguir na construção destes), a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino (sendo particularmente cáustica com Harvard College, que acusava de elitismo e de falta de qualidade e exigência, formando alunos somente arrogantes e preconceituosos) e, em geral, “the vices of the Town” (do excessivo consumo de álcool à vaidade no trajar, que levava muitos a endividarem-se e à adopção de modas ridículas). Sempre com frontalidade e desassombro, sensatez e ironia. Os seus comentários e opiniões sintonizavam plenamente com o tom critico e satírico dos Couranteers (também conhecidos como Hell-Fire Club), o grupo de colaboradores do The New-England Courant, um jornal independente do governo colonial (terá sido o primeiro, na América) que se destacou — não sem alguns contratempos – pelos ferozes e certeiros ataques que dirigia ao establishment político e religioso, dominado pela comunidade puritana.  
Inteligente e arguta, impiedosa observadora dos ways of the world e dotada de um corrosivo sentido de humor, Mrs. Silence Dogood causou quite an impression na Boston de então. Todos — a começar pelos próprios Couranteers — se interrogavam sobre quem seria tão misteriosa e fascinante figura.
Parte desta imensa curiosidade foi satisfeita pela própria Mrs. Silence Dogood que, com notável à vontade, contou ter nascido a bordo de um navio vindo de Inglaterra, ter ficado órfã ainda criança, ter a sua educação sido confiada a um sacerdote de uma pequena comunidade nos arredores da cidade, a “pious good natur’d young Man”. Revelou ainda detalhes do inesperado casamento com este seu tutor (causa de algum espanto e de bastante falatório), com o qual vivera “happily together in the Height of conjugal Love and mutual Endearments, for near Seven Years”.
E, sobretudo, alongou-se sobre a sua inconformada viuvez, já de alguns anos. Que a atingira na força da juventude (“when my Sun was in its meridian Altitude”) e que muito lhe desagradava (it is a State I never much admir’d), pelo que se anunciava desejosa de voltar a casar (“I could be easily persuaded to marry again”) — desde que o pretendente reunisse, claro, a “few good qualities”, a saber, ser “good-humour’d, sober and agreeable”. Esta confissão, aliada à revelação, também pela própria, de que era “courteous and affable, good humour’d (unless I am first provok’d,) and handsome, and sometimes witty”, levou vários arrebatados leitores do Courant a escrever para o jornal, declarando-se dispostos a casar com such lively and charming woman
O fim inesperado e nunca explicado das suas cartas causou tal consternação nos seus inúmeros e dedicados seguidores que o director do Courant publicou um anúncio, a 3 de Dezembro de 1722 (“If any person or persons will give a true account of Mrs. Silence Dogood, whether dead or alive, married or unmarried, in town or countrey, that so, (if living) she may be spoke with, or letters convey’d to her, they shall have thanks for their pains”) o qual jamais obteve resposta. Porque, na realidade, tal não era possível.
Silence Dogood foi o primeiro dos muitos alter-egos que Benjamin Franklin criou e assumiu ao longo da sua vida (Poor Richard ou Richard Saunders, Henry Meanwell, Alice Addertongue, Timothy Turnstone, Martha Careful, Polly Baker, Busy Body, to name a few). O traço que (para além das experiências que levaram à invenção do pára-raios) mais me encantou quando pela primeira vez li a sua biografia, devia ter uns treze anos. Lembro-me de achar absolutamente irresistível a ideia de Franklin se desdobrar em personagens, com biografias próprias, para escrever e exprimir opiniões mais arrojadas ou controversas, lançar a discussão sobre certo tema ou simplesmente porque isso o divertia. E de me parecer, sobretudo, extraordinária a profusão de aliases femininos — mulheres dignas, articuladas e convincentes, num tempo em que raras teriam instrução ou conhecimentos que as habilitassem a exprimir opiniões susceptíveis de serem atendidas e consideradas.
Quando criou Mrs. Silence Dogood, Benjamin Franklin tinha dezasseis anos e ingressara, pouco tempo antes, como aprendz de tipógrafo no The New-England Courant, fundado, dirigido e impresso pelo seu irmão mais velho, James. Desejoso de se estrear na escrita, admirador da prosa crítica dos Couranteers, mas temendo não ser levado a sério, decidiu tentar a sua sorte, sob falsa identidade. Escolheu fazer-se passar por uma mulher e de meia-idade – o próprio o admitiu mais tarde -, para conferir mais credibilidade e mais contundência às observações que se propunha fazer. O apelido Dogood terá sido uma paródia a Cotton Mather, um reputado padre puritano, que expusera as suas ideias nuns muito divulgados Essays to do Good. Já o primeiro nome, Silence, tanto podia ser uma alusão a outro livro de Mather, Silentiarius: A Brief Essay on the Holy Silence and Godly Patience, that Sad Things are to be Entertained withal, como uma fortíssima sugestão de silêncio ao próprio Mather e a tudo aquilo que este representava de intolerância e de incoerência. O estilo das cartas, esse era claramente inspirado no Spectator, de Joseph Addison e Richard Steele, que o jovem Franklin muito admirava.  
A descoberta da autoria das cartas e da identidade de Mrs. Silence Dogood deixou James Franklin muito desagradado. O mais que provável ressentimento perante o êxito do irmão — traduzido nos generalizados apreço e admiração que aquelas haviam suscitado – e o temor de que este lhe fizesse sombra terão sido, porventura, agravados pelo facto de parte das cartas de Mrs. Dogood terem sido publicadas, por indicação do próprio Benjamin, no período de algumas semanas (entre Junho e Julho de 1722) em que James estivera preso (por causa de um editorial que especialmente enfurecera as autoridades) e lhe confiara a direcção do The New-England Courant. A tensão entre os dois irmãos, desencadeada por todos estes eventos e potenciada pela intransigência do mais velho ante a ambição do mais novo, culminou, meses depois, na decisão de Benjamin partir para Filadélfia, para tentar a sua sorte.
Quanto a Mrs. Silence Dogood, sabe-se apenas que terá ficado por Boston. Porque, infelizmente, não voltou a dar ares da sua graça. 

Joana Vasconcelos


(originalmente publicado aqui)





quinta-feira, 8 de março de 2012

Mais do que uma carta.

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Andrew Parker, Norway (2009)
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Tarde de segunda. Em 1921. Franz Kafka escreve pela segunda vez no mesmo dia a Milena Jesenská. À noite, haveria ainda de escrever uma terceira vez. Talvez porque na véspera estivera com Milena em Viena, o tom da correspondência não deixa dúvidas sobre o entusiasmo de Kafka com o que era ainda um conhecimento recente. Kafka descreve como foi o seu penoso e atribulado regresso de comboio a Praga. Não há amargura nesta carta; só medo e esperança. “Todo o tempo querem afastar-me de ti, mas não o conseguirão nunca, Milena, não é verdade?”
O século XX trouxe o homem nervoso, assim como o XIX inventou o romântico. O homem que passou a depender cada vez mais do poder de outros; o homem que precisa de fazer face a férreas burocracias e organizações; o homem que, arrastado para um mundo que não domina, para um mundo que lhe impõe maior sofreguidão e destreza, não sabe literalmente o que fazer.
Com o visto austríaco expirado, Kafka é barrado na fronteira. O revisor apreende-lhe o passaporte. Vem ter com ele um polícia solícito. Kafka imagina que é Milena, benfeitora, querendo libertá-lo, agindo contra as forças contrárias. Sai do comboio. O polícia acompanha-o até aos serviços de fronteira. Encontra uma judia romena, outra infractora. O inspector chefe, mais o seu adjunto, são implacáveis. “Tem de regressar a Viena e fazê-lo visar pela polícia”. Kafka responde: “Isso é um desastre. Mesmo pagando todas as despesas”? “Tem de voltar”.
Conformado em regressar para visar o passaporte, Kafka espera pelo comboio das dez da noite que chegaria às duas e meia a Viena. A essa hora conseguirá alojamento, cogita? Em que estado se encontrará depois desta viagem, visto que terá de voltar para Praga logo a seguir no comboio das dezasseis? Não seria melhor pernoitar na fronteira viajando de manhã no das cinco e meia? E que dirá disto o seu chefe a quem precisa de telegrafar para a prorrogação da sua licença? Mas tem de ir, pensa, pois precisa do visto revalidado na segunda de manhã para voltar a Praga. Ainda assim, pergunta se o obterá de imediato ou se terá de esperar até terça.
Agora o adjunto, antes em silêncio, oferece-se para o ajudar. Se Kafka dormir na estação, ele deixa-o seguir de manhã para Praga, fazendo crer ao inspector que iria para Viena. Combinado com o adjunto, Kafka e a romena saem da estação em busca dum hotel. Mas os desvios não acabam. Ao saírem da estação, os dois avistam um comboio de carga em passagem. A romena quer cruzar a linha antecipando-se ao comboio, Kafka escolhe ficar para trás. Seria novo ataque das forças contrárias? Novamente Milena intercedendo por ele? Por não terem passado antes do comboio, conseguem ouvir o polícia: “Voltem depressa, o inspector deixa-os passar”.
Será possível, espanta-se Kafka, que já não sabe em que mais acreditar? Ainda há tempo para apanhar o comboio. Recolhe a bagagem, corre para a inspecção da fronteira, depois para a alfândega. Os azares não terminam, não podem terminar. O comboio para Praga está de partida. Não há muito tempo. Incapaz de correr com a mala, esbarra num rapaz carregador. Atropelado pela multidão, um polícia abre-lhe o caminho. Apercebendo-se que tinha perdido as chaves, um empregado encontra-as e entrega-lhas. Até entrar finalmente no comboio este Kafka, podia ser qualquer um de nós, o homem nervoso, acomoda-se, sossega, limpa o suor do rosto e fecha a carta com um último pedido: “Não me abandones nunca”.

Pedro Lomba


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Isto, eu vi.

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Imagem da Terra, captada por Scott Carpenter (1962)
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Em Maio de 1962, Malcolm Scott Carpenter, de 37 anos, tornou-se o segundo norte-americano a fazer a órbita da Terra, enquanto pilotava a nave Aurora 7. Na véspera desta missão, o seu pai, Marion, escreveu-lhe a seguinte carta:  


M. Scott Carpenter
Palmer Lake
Colorado
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Meu querido filho,

...Apenas algumas palavras na véspera da tua grande aventura, para a qual te treinaste e que aguardas há tanto tempo – para te dizer que todos a partilhamos contigo, como se estivéssemos no teu lugar.

...Como julgo que te disse no início do programa espacial, és um privilegiado por participar num projecto pioneiro em grande escala – na realidade, a maior escala alguma vez conhecida do Homem. Atrevo-me a predizer que, depois de todas as manifestações de júbilo terminarem e quando o clamor público não passar de uma memória, gozarás com enorme satisfação o conhecimento sereno de quem descobriu uma nova verdade. Poderás dizer a ti próprio: isto, eu vi; isto, eu vivi; isto, sei que é verdade. Esta é uma experiência preciosa, que acontece a todos os investigadores, qualquer que seja o seu domínio de trabalho, que descobriram novas verdades.

...É provável que saibas que não sou propriamente uma pessoa religiosa, pelo menos no sentido de seguir uma das numerosas confissões oficiais. Contudo, não consigo conceber que um homem, dotado de intelecto, ao aperceber-se da ordem do universo que o rodeia, a glória do cume de uma montanha, a plumagem de uma ave tropical, a intrincada complexidade de uma molécula de proteína, a absoluta e imutável perfeição de um cristal de sal, possa negar a existência de um poder superior. Que decida chamar-lhe Deus ou Maomé ou Buda ou Mulher Torquoise ou Lei da Probabilidade, isso pouco importa. Quando escrevo, muitas vezes vejo-me a apelar à Mãe Natureza para explicar certas coisas e a dizer que Ela é a responsável pela ordem do universo. É uma divindade que aprecio. Por isso, peço-lhe que Ela olhe por ti e te guarde e, se o desejar, que partilhe contigo alguns dos segredos que geralmente revela aos que têm um desígnio elevado.

Com todo o meu amor,

  Pai





Tradução: António Araújo

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Harper Lee.





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Em 2006, um jovem chamado Jeremy escreveu a Harper Lee, a autora do maravilhoso e lendário To Kill a Mockingbird, pedindo-lhe uma fotografia autografada. Em resposta, recebeu esta carta:


06/07/06

Caro Jeremy,

Não tenho uma fotografia minha, pelo que te mando estas breves linhas:

À medida que fores crescendo, diz sempre a verdade, não magoes os outros e não julgues ser o mais importante do mundo. Então, sejas rico ou pobre, poderás encarar qualquer pessoa nos olhos  e dizer: “Provavelmente, não sou melhor do que tu, mas certamente sou teu igual”.


Harper Lee





 
Tradução: António Araújo
Fonte: Letters of Note 


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Charles Dickens - I

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Aceitando um repto, aqui vai.
Comemora-se no próximo dia 7 de fevereiro o bicentenário do nascimento de um dos maiores vultos da literatura britânica.  Afirma-se até que mais famoso do que ele só mesmo Shakespeare.  Refiro-me a Charles John Huffam Dickens (7 de fevereiro 1812-9 de junho de 1870), popularizado entre nós sobretudo por uma narrativa breve como A Christmas Carol in Prose: a Ghost Story of Christmas  (1843) ou pelo romance Oliver Twist, or, the Parish Boy’s Progress (1837-1839), que o público português pôde ler em muitas versões francesas que entre nós circularam; ou que teve oportunidade de conhecer numa das 25 traduções portuguesas que da primeira obra se publicaram entre nós desde 1863 até 2010; ou que recorda da leitura de uma das 17 traduções diferentes da segunda obra, publicadas entre 1876 e 1993; ou que reconhece ainda como o autor de muitos outros contos e romances, em vários casos profusamente reeditados em Portugal.  Falo de Charles Dickens, que o público português associará, porventura sobretudo, nos dias de hoje, aos filmes que, pela mão de Cukor, Conway, Lean, Hurst, Thomas, Read, Mann, Neame, Hill, e mesmo do português João Botelho,  desde pelo menos 1911 adaptam para o grande ecrã estas duas obras mais famosas entre nós, a que acrescentam: The Personal History (...) of David Copperfield (1849-1850), A Tale of Two Cities (1859), Great Expectations (1860-1861), ou Hard Times, for these Times (1854). Tão famosas, que são para nós: O Cântico de Natal, Oliver Twist, David Copperfield, História de duas cidades, Grandes esperanças ou Tempos difíceis. Somos velhos conhecidos.
Trilhando um caminho menos percorrido pela investigação mais recente em Estudos Literários, pergunto-me quem terá sido o homem que, como autor, que se esconde inicialmente por detrás do pseudónimo “Boz”, alcunha que dedica ao seu irmão mais novo, Augustus, a quem afectuosamente chamava Moses ( ou “Bozez” simulando o nariz entupido do irmão), inspirado na obra The Vicar of Wakefield, de Oliver Goldsmith (1766)?  Criança feliz, aluno excepcional, trabalhador infantil, profundamente infeliz, numa fábrica de graxa, filho de um pai preso por dívidas, aluno premiado, escritor de peças para um teatrinho de brincadeira, escriturário, estenógrafo, repórter parlamentar, actor falhado, apaixonado desiludido, marido, cunhado dedicado, editor de jornais e revistas, potencial candidato liberal, crítico visitante dos Estados Unidos, defensor do reconhecimento internacional dos direitos de autor, expatriado em Itália, apaixonado do mesmerismo, actor amador, viajante pela Suíça e pela França, filantropo, pai de dez filhos, marido infeliz de uma mulher deprimida, apaixonado por uma actriz, homem separado, vítima de um acidente ferroviário, insomne, exausto mas enérgico entusiasta de leituras dramatizadas da sua obra, hemiplégico e fisicamente esgotado, incansável escritor famoso.
Quem terá sido o homem de carne e osso por detrás da escrita, da fama, das querelas públicas, dos ciclos de leituras dramatizadas e das representações teatrais?
Em 14 de Abril de 1851, Dora Dickens, a nona dos seus dez filhos, morre inesperadamente aos  oito meses. Charles Dickens escreve à mulher, Catherine, que se encontra longe, a convalescer.  Com a mais delicada das cautelas, pede-lhe que volte para casa. Ela regressa no dia seguinte.

       Devonshire Terrace
       Manhã de Terça-feira
       Quinze de Abril de 1851
       Minha querida Kate:
      Presta atenção.  Tens de ler esta carta, muito lentamente, muito cautelosamente.  Se te apressaste a chegar até aqui, sem perceber muito bem (pressentindo más notícias), confio em ti para voltares atrás e leres novamente.
     A Dora, sem o menor sofrimento ou dor, ficou subitamente doente.  Acordou de um sono e viu-se que, a dado momento, estava muito doente.  Repara que não te vou enganar.  Ela parece-me muito doente.
       Não há nada na sua aparência que não se assemelhe a um descanso perfeito.  Suporias que estivesse pacificamente a dormir.  Mas tenho a certeza de que está muito doente e não posso encorajar-me, acalentando uma grande esperança de que venha a recuperar.  Não me parece – e porque te diria que me parece, a ti, minha querida! – não me parece que a recuperação dela seja de todo provável.
      Desagrada-me sair de casa. Aqui não há nada que eu possa fazer, mas parece-me correcto ficar aqui.  Vai desagradar-te estar longe, bem sei, e eu não sou capaz de me sentir em paz com a ideia de te manter longe. O Forster, com a afeição que sempre nos dedicou, vai até aí levar-te esta carta e trazer-te para casa. Mas não a posso encerrar sem te fazer o pedido mais veemente de que venhas com uma compostura perfeita – e que te recordes do que tantas vezes te disse, que nunca podemos esperar sermos poupados, com tantos filhos que temos, às aflições dos outros pais  – e que, se – se – ,  quando vieres, eu tiver, porventura, de te dizer “A nossa pequenina morreu”, te cabe desempenhar o teu dever para com os outros e mostrares-te digna da grande confiança que te dedicam.
      Se leres isto, com firmeza, estou perfeitamente confiante de que farás o que é correcto.
      Com a afeição de sempre,
     Charles Dickens


[original aqui]
Alexandra Assis Rosa