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quinta-feira, 10 de março de 2022

As últimas décadas do nosso aparelho económico: um ensaio que estimula o debate,

 


 



 

Luciano Amaral vem neste ensaio atualizar outro de sua lavra, datado de 2010, com o mesmo título A Economia Portuguesa, As Últimas Décadas, Fundação Francsico Manuel dos Santos; observou então, sem margem para controvérsias, que na raíz e na complexidade do problema da economia portuguesa pesavam a fraca produtividade, decorrente da proteção do setor não transacionável  (bens e serviços não sujeitos a concorrência externa) e que aparecem associados aos grandes projetos políticos pós-revolução: o Estado-Providência, a União Europeia e o Euro. Lança sérios avisos e uma inquietante chamada de atenção: “Há 15 anos que a economia de Portugal não cresce. Apesar da expansão dos anos de 1950 a 1973 e da segunda metade da década de 1980, assim como de uma evolução razoável após a intervenção da troika e antes da covid-19, o PIB per capita estagnou desde 2005. Dado este comportamento medíocre, a economia portuguesa tem divergido face à média europeia, e os indicadores sociais do país têm melhorado muito lentamente”.

É claro que o ensaio foi escrito durante a pandemia, não inclui (e não podia incluir) nada do que atualmente se está a passar no quadro mitigado da pandemia. Ele bem nos alerta que ainda não conseguimos perceber as consequências totais relacionadas com estes tempos de pandemia, supostamente suaviasados, não esconde que o retrato que faz da economia portuguesa referente à última década prolonga o retrato pessimista da primeira edição. Concluiu o ensaio em setembro de 2021, a imprevisibilidade era e é enorme e não vale a pena estarmos a especular sobre a aplicação da bazuca.

Começando em 2010, procura mostrar no seu trabalho que “a ideia de um grande ciclo uniforme de crescimento entre meados dos anos de 1980 e o final do século XX é uma ilusão estatística decorrente da contiguidade temporal entre dois ciclos diferentes, o primeiro entre 1986 e 1992 e o segundo entre 1995 e 2000”. E avança os seus comentários sobre a evolução económica. O sociólogo António Barreto escreveu em diferentes ocasiões que a década de 1960 foi o periodo dourado da economia portuguesa, não coincide com o que propõe Luciano Amaral que a posiciona entre 1950 e 1973, os tempos que se seguiram foram medíocres. “A diferença de comportamento do PIB per capita e da produtividade de 1974 e dos dias de hoje explica-se por duas razões: a primeira é que foi possível, durante algum tempo, financiar com capitais ou por transferência externas a incapacidade da economia para pagar o seu nível agregado de despesa: quando esse financiamento parou, começou o endividamento. A outra razão é que houve um considerável aumento da taxa de emprego. Este aumento resultou sobretudo da expansão da participação feminina no mercado de trabalho, mas também, durante algum tempo, da absorção do desemprego cirado entre 1974 e 1975. Foi graças a essa reserva de mão-de-obra que se tornou possivel aumentar a relação comparada em termos do PIB per capita, uma vez que a produtividade recuperou muito lentamente. No futuro, nem as disponibilidades de financiamento externo nem a reserva de mão-de-obra, voltarão a estar disponíveis da mesma forma. Torna-se assim claro o grande problema da economia portuguesa: a produtividade no longo prazo”.

A sua atenção também se orienta para a aparente contradição entre a fraca convergência económica e a quase completa convergência em termos político e instituicionais. O nosso modelo de Estado-Providência é muito próximo dos que existem na Europa, só que o caminhoa percorrer na economia é de grande lonjura. E dá-nos conta das razões da nossa baixa produtividade e põe outra questão: “Restaurar a competitividade da economia contradiz, neste momento, outros elementos nucleares da organização da sociedade da comunidade política portuguesa (seja a abertura comercial na UE, seja a participação na UEM, seja a instalação do Estado-Providência)”. Há para ali aspetos inconciliáveis. O ensaio divide-se em duas partes: temos a evolução da economia portuguesa, dos anos de 1950 à atualidade e uma parte temática que vai do Estado-Providência, passando pelo crescimento económico até à última década (2011-2021). No final da primeira parte procede a um balanço e deixa um comentário que, penso, nenhum quadrante político irá refutar: “Não obstante a retórica de muitos governos, a verdade é que todos eles seguiram política conducentes à expansão da despesa pública”.

Na segunda parte o seu olhar debruça-se sobre o funcionamento do Estado-Providência, a lentidão do crescimento da produtividade, questiona a baixa qualificação da mão-de-obra portuguesa, o mercado de trabalho, o sistema educativo e não se furta à controvérsia se a nossa economia é mesmo um caso de sucesso internacional. “Quando pensamos em Portugal, os casos que mais se prestam a comparação são os do Mezzogiorno italiano ou da Alemanha de Leste. As semelhanças são muitas: tal como Portugal, ambas são regiões de uma união monetária; ambas têm graves problemas de competitividade; ambas são economias incapazes de satisfazer com produção própria as suas necessidades de consumo, encontrando-se, portanto, endividadas. A grande diferença entre elas e Portugal é o facto de, para além de serem regiões de uma união monetária, serem também regiões de países soberanos, não se constituindo a suia dívida num problema nacional. O seu problema não é de endividamento, mas de subsídio ou da receção de recursos provenientes das áreas mais produtivas dos respetivos países. Tanto o Mezzogiorno como a Alemanha de Leste só não são economias endividadas como Portugal porque são economias subsidiadas. A dívida externa portuguesa mostra-nos a dimensão que o subsídio à nossa economia atingiria caso a UE fosse também uma união política com responsabilidades na transferência de recursos compensatórios. Mas enquanto continuar a ser um país independente, Portugal não será automaticamente benficiado com aquelas transferências, continua a correr o risco de insolvência”. Faz referência à reorganização dos serviços públicos, ao papel dos reguladores, como à Autoridade da Concorrência, mas recorda que algumas reformas estruturais mais detalhadas ficaram por realizar. E no auge destes problemas a pandemia entrou na economia, a UE adotou medidas de emergência, mas as incógnitas são muitas. “Dez anos após a primeira edição deste livro não estamos numa situação estruturalmente diferentes da de então. Os fundos europeus para a recuperação serão evidentemente fundamentais para ajudar ao equilíbrio externo imediato, mas o seu ponto fundamental seria contribuírem para a manutenção desse equilíbrio de forma sustentada ao longo do tempo, o que implicaria serem aplicados em atividades que permitissem aumentar as exportações. Não é seguro que isso vá acontecer”.

De leitura obrigatória. 


                                                                                               Mário Beja Santos




 

 


sábado, 28 de novembro de 2020

Pornhub.



 

https://sol.sapo.pt/artigo/716544/escritorio-de-arnaut-lidera-processo-de-despedimento-coletivo-na-ana






segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Lisboa, 14 de Novembro.



O Miguel Valle de Figueiredo é um grande enorme fotógrafo e um grande e enorme repórter, como se vê pelas fotografias que tirou na manifestação de 14 de Novembro, em Lisboa (as quais, evidentemente, não exprimem uma adesão, dele ou minha, ao sentido dessa manifestação).

 

Um grande abraço, Miguel, do António (e obrigado pela tua generosidade de sempre)



















 






quinta-feira, 8 de outubro de 2020

On going.

 





Li numa curta do Correio da Manhã, que não merecia ser tão curta como isso. O Tribunal de Comércio de Lisboa determinou a liquidação da Ongoing. No processo de insolvência, a empresa de Nuno Vasconcelos tem 7500 euros para pagar uma dívida de 1,2 mil milhões de euros. Repete-se, 7500 euros, 1,2 mil milhões de euros – e não se acrescenta mais nada porque não é preciso.   


Segundo a biografia da Wikipedia, «Nuno é devoto de Nossa Senhora e Santo António, "padroeiro" de Lisboa e dos negócios. Considera o poeta Fernando Pessoa o seu mestre.»





terça-feira, 31 de março de 2020

A porta do Oriente (35)





Uma conferência económica reunida em Paris  prometeu em 2018, 10 mil milhões de dólares ao Líbano. Mas exigiu reformas. Existe uma ampla compreensão internacional pelas dificuldades do país, tendo em conta que recebeu cerca de um milhão e meio de refugiados. Mas o Líbano tem de lutar contra a corrupção e combater a evasão fiscal.
Com efeito, a situação económica é muito preocupante. O desemprego atinge os 20%, 37% no que se refere aos jovens. A taxa de crescimento foi de apenas 0,2% em 2018 e vai agravar-se certamente. A dívida pública atinge 150% do PIB  e o défice das contas públicas é de 11,5% do PIB.
O Líbano precisa de uma reforma da justiça, uma reestruturação radical do sistema fiscal que hoje se caracteriza por ser regressivo.
Precisa também de uma profunda renovação das infra-estruturas. Em especial a electricidade. O comum libanês paga duas contas de electricidade. A da companhia de electricidade e a do aluguer do gerador. A máfia dos geradores é continuamente referida nas conversas.
A necessidade do fortalecimento da economia produtiva é bem demonstrada pelo facto de as importações libanesas serem de 20 mil Milhões de dólares, enquanto as exportações são de apenas 3.
A economia vive das transferências da comunidade libanesa dispersa pelo Mundo. Essas transferências atingem 1500 dólares per capita.
Tudo isto não deixa de criar um problema político muito difícil: as primeiras medidas a ser tomadas por um governo revolucionário serão provavelmente medidas de sacrifício.









Fotografias de Beirute de 13 de Novembro de 2019

José Liberato






quarta-feira, 11 de março de 2020

sábado, 21 de setembro de 2019

Os Fugger e Augsburg.

 
 
A família Fugger, natural de Augsburg e já rica no início do século XV sobretudo devido à sua actividade no têxtil, tornou-se no decorrer do século um potentado europeu ao investir na Banca.
Grandes financiadores dos Habsburgos, conseguiram em especial garantir de forma bem pouco ortodoxa várias eleições ao Sacro Império Romano-Germânico. Foi o caso das eleições de Maximiliano I e em especial de Carlos V, recebendo em troca grandes favores dos imperadores.
Relacionaram-se com os Reis de Portugal, nomeadamente com D. João II e D. Manuel I, tendo chegado a constituir uma verdadeira PPP para as especiarias a seguir à chegada de Vasco da Gama à Índia.
Tiveram uma representação em Lisboa e relacionaram-se com Portugal através da Feitoria em Antuérpia.
Em 1512, Jakob Fugger von der Lilie (1459-1525) resolveu construir um imenso edifício em Augsburg destinado à sua habitação na cidade mas também a fins comerciais.
O edifício perdurou ao longo dos séculos mas foi destruído na II Guerra Mundial. Foi reconstruído e ainda permanece na propriedade da família.
 


Por esta casa passaram os imperadores Maximiliano I e Carlos V, Dürer, Lutero, Ticiano e Mozart para além de uma infinidade de reis e cardeais. Em especial, muitos dos eleitores do Império Sacro Romano-Germânico pernoitavam no complexo, o que era muito conveniente para os Fugger. 

Mas mais interessante ainda é o Fuggerei um complexo de habitação social criado pelos Fugger em 1519. Oito ruas em condomínio fechado com renda simbólica. Há quem diga que a renda se mantém igual desde 1519. Os moradores têm a obrigação moral de rezar pela família Fugger que ainda hoje continua a gerir o complexo.
Aqui morou o bisavô de Mozart, Franz Mozart.
Durante a II Guerra Mundial foram construídos bunkers para proteger as famílias moradoras.



 
 
José Liberato
Fotografias de 11 de Agosto de 2019
 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Deve construir-se um aeroporto no Montijo?


 
 
 
 
Não. Nas páginas do Expresso, Miguel Sousa Tavares disse o óbvio: não. Como é que um país que está comprometido com uma agenda de descarbonização pensa em construir um novo grande aeroporto? As emissões de gases-estufa na União Europeia aumentaram 87% entre 1990 e 2006, e não dão sinais de parar. Na conferência trienal da ICAO, em 2016, a aviação internacional conseguiu iludir o problema, que se agrava de dia para dia, até ao dia. Para ter uma ideia do impacto ambiental da aviação, basta ler esta entrada da Wikipedia. Como é óbvio, as coisas vão mudar, e mudar drasticamente, provavelmente com a imposição de taxas pesadas, com aumentos de preços e diminuição do número de voos – será económica (e ambientalmente) viável um grande aeroporto em Lisboa, daqui a quarenta ou cinquenta anos? Não, e não venham com projecções enviesadas sobre o aumento do tráfego aéreo, pois essas projecções não têm em conta o que irá acontecer em termos de taxas, preços, custos, diminuição de passageiros. É sustentável um novo grande aeroporto no Montijo? Não. E ninguém pensa nisso?

sábado, 18 de maio de 2019

Hotel Rwanda (23)

 







 
A economia
 
 
Depois de tudo o que aconteceu em 1994, é notável como o Ruanda conseguiu recuperar a sua economia.
Em 2018, a taxa de crescimento do PIB foi de 8,6%. A somar a 6,2% em 2017.
O PIB per capita era de 146 dólares em 1994. Hoje é de 820.
Num modelo em que a economia privada representa um papel muito significativo, o Ruanda tem beneficiado de uma estabilidade política invulgar na Região.
Paul Kagamé, o Presidente que à frente da FPR (Frente Patriótica do Ruanda) conseguiu fazer parar o genocídio, instituiu uma democracia musculada em que colecciona vitórias eleitorais sucessivas, não obstante as críticas crescentes em matéria de direitos humanos.
O objectivo assumido do regime é tornar o Ruanda na Singapura de África.
 
 
José Liberato
Fotografias de 23 de Janeiro de 2019 nos arredores de Kigali.
 

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Hotel Rwanda (19)

 
 








O lago Kivu
 
 
 
O lago Kivu é um dos grandes lagos de África. Mais de 2000 quilómetros quadrados de área, a 1500 metros de altitude e com 2 milhões de habitantes nas suas margens, repartidos entre o Ruanda e o Congo.
De uma extraordinária beleza, encerra um perigo tão mortal como pouco conhecido. No seu fundo repousam 300 quilómetros cúbicos de dióxido de carbono e 60 quilómetros cúbicos de metano. O volume de metano corresponde, pois, a um cubo com quatro quilómetros de aresta!
Há muitas discussões acerca do perigo de explosão. A realidade é que o lago Nyos nos Camarões, com características semelhantes,  explodiu, matando cerca de 2000 pessoas.
Iniciou-se já a exploração desse metano. Admite-se que possa aliviar a pressão. Mas as reservas levarão 400 anos a esgotar!
O lago possui imensas ilhas. As vacas atingem-nas a nado.
 
 
Fotografias de 20 de Janeiro de 2019.
José Liberato