| Busto de Elon Musk, inagurado em 2024 na autoestrada 4 junto a Starbase em Boca Chica, no Texas |
Tenho sido bombardeado com perguntas sobre as notícias divulgadas pela imprensa sobre as ameaças de cortes de fundos federais à minha alma mater, a Brown University. O primeiro alvo foi a Columbia University, depois Harvard e agora Brown. Como o New York Times é só para assinantes, vai aqui a notícia publicada no jornal diário da Brown, o Brown Daily Herald,
As
razões apresentadas são simplesmente ridículas e seguem as regras do costume:
dar a volta à realidade e noticiar como convém, usando a linguagem que a gente
do MAGA gosta e aplaude.
Em
53 anos de vida na Brown, nunca vi nenhum anti-semintismo. O que sempre
presenciei foi uma notoriamente larga presença de professores e alunos judeus,
bem como de administradores. É assim em todas as Ivy Leagues e na maioria das
grandes universidades americanas. Claro que há um grupo ativo anti-Netanyahu e
pró-palestiniano, mas isso não significa anti-semitismo. De qualquer modo, no
ano passado os 100 alunos (100 apenas entre 10 mil) que acamparam no Brown
Green, a praça central da universidade diante do edifífico da reitoria,
exigindo que a Brown retirasse os investimentos nalgumas firmas israelitas,
acabaram negociando um acordo. Se se recordam, contei aqui como me reuni com
cinco alunos do grupo de liderança (eram meus alunos no University Course) e
como lhes recomendei calma, diálogo e busca de uma situação de compromisso (compromising
em inglês é diferente, significa "ambas as partes chegarem a um acordo").
No
fundo, do que se trata é de um ataque às melhores universidades acusando-as de
elitismo, uma maneira de atacar a investigação científica nas áreas em que
Trump não está interessado, inclusive as áreas da saúde.
Se
quiserem ver a reação da corporação (o órgão que supervisiona o governo
da universidade, formada por gente eleita mas que não trabalha na
universidade), aqui vai:
https://mail.google.com/mail/u/0/#search/Brown+freedom/FMfcgzQZTzXvHcqzrPnfvfTBTHJVScXw
Tal
como disse há tempos, a procissão ainda vai no adro.
Onésimo Teotónio de Almeida
Foram tempos magníficos, foram tempos
tenebrosos, foi a era da sabedoria, foi a era da estultícia, foi a época das
convicções, foi a época da incredulidade, foi a idade da luz, foi a idade das trevas,
foi a Primavera da esperança, foi o Inverno do desespero, tínhamos tudo diante
de nós, nada tínhamos diante de nós, íamos
todos direitos para o Céu, íamos todos direitos em sentido contrário – em suma,
aquela época assemelhava-se tanto à presente que algumas das suas eminências
mais exuberantes insistiam que apenas a poderíamos adjectivar, para o bem ou
para o mal, lançando mão do grau superlativo.
Charles Dickens, História em Duas Cidades,
1859
Em 2002, John le Carré manifestou-se publicamente
contra a invasão do Iraque perpetrada pela Administração Bush e aliados,
escreveu, andou em manifestações, deu entrevistas. E em 2003 publicou (título
em português) Amigos até ao Fim, que Publicações D. Quixote acaba de
reeditar, esta obra-prima literária é de leitura oportuna neste mundo de
mentiras, em que estamos vergados a vendilhões do jornalismo. A arquitetura do
romance é extraordinária, anda à volta da história de dois amigos, Ted Mundy,
filho expatriado de um oficial do Exército britânico, mobilizado para o
Paquistão, e Sacha, um radical alemão, pequenote, claudicante, mas com uma
mente brilhante e um entusiasmo inquebrantável. O destino pô-los juntos em
Berlim nos anos 1960, ambos anarquistas e com vivência comunitária. A narrativa
mistura tempos e lugares, iremos percorrer a carreira de Ted, desde espião
camuflado ao serviço ao British Council até guia turístico num castelo de Luís
da Baviera, Linderhof; depois de Berlim, Sacha desapareceu da cena e
reencontram-se agora, dez anos depois, numa receção num país da Europa de
Leste; Sacha, para estupefação de Ted, é agora funcionário da RDA e propõe a
Ted uma operação de espionagem: passar segredos de Estado para o Ocidente,
apoiando-se nas tarefas que ele exerce no Birtish Council. Andamos numa
corrediça entre o passado e o presente, Ted, depois de tanta vicissitude,
parece ter encontrado o seu ninho de amor com uma turca, fartou-se de aventuras,
a Guerra Fria acabou como o seu casamento com Kate culminou num desastre.
E John le Carré, dentro deste bordado que se irá
transformar numa teia de aranha, afasta-os, estamos agora centrados em Ted
Mundy, dentro da tal narrativa de feedback, faz jornalismo e biscata, e depois
encontra trabalho no British, vem casamento e filho. Quando tudo parece
sedimentar-se e o fogo da juventude ficar para trás, dá-se o assombroso
reencontro com Sasha, passara de anarquista a marxista-leninista, mas estava
agora dececionado, interessa-se em trair, é preciso que a mentira comunista se
desmorone. John le Carré faz sair da cartola um autocarro psicadélico com um
grupo de teatro que serve às mil maravilhas para que, a pretexto do teatro de
Shakespeare, Sasha lhe entregue os tais segredos de Estado, tão importantes que
os Serviços Secretos Britânicos os repartirem com os Primos, ou seja, a CIA.
Esta irá entrar em campo, a seu tempo, e com uma perversidade devastadora.
Dentro desta arquitetura da escrita de altos e baixos,
vemos o desmoronamento do Muro de Berlim, o impensável acontece, vem aí a
reunificação. A vida familiar de Ted estiolou após o divórcio, a Guerra Fria já
não precisa dele. E Sasha surge de novo. Ted tivera um instituto de línguas em
Heidelberg, um sócio especializado em gestão danosa levou o negócio à ruína.
Sasha irá surgir naquele universo ameaçador em que eramos regidos por uma
superpotência unipolar, vem inflamado, é indispensável mudar tudo, encontrou
patrono, o impalpável Dimitri, para financiar uma academia que será um altifalante
de alternativa ao capitalismo. É nesse contexto, que será desencadeada a
invasão do Iraque e montada uma operação que pretende mostrar ao mundo que o
radicalismo satânico de Saddam Hussein tem antenas perigosíssimas no mundo
ocidental.
As derradeiras páginas desta obra-prima oscilam entre
solilóquios premonitórios, Ted apercebe-se que foi atraído para uma cilada,
vagueia à volta da escola, anda confuso, os Serviços Secretos britânicos
deram-lhe passaportes para ele e Sasha, urge que eles desapareçam, fora montada
uma trama ignóbil. E rebentam explosões, os amigos reencontram-se, foram
vítimas de uma operação da CIA, mas são demonstradamente amigos até ao fim.
O cinismo, o maquiavelismo de todo este ardil, fica
para o fim, como o autor relata:
“O círculo de Heidelberg, como se tornou imediatamente
conhecido nos media de todo o mundo, desencadeou ondas de choque através das
cortes da Velha Europa e de Washington e foi um sinal claro para todos os
críticos da política americana de imperialismo democrático-conservador.
Durante cinco dias inteiros a imprensa e a televisão
foram obrigadas a respeitar qualquer coisa de parecido com um silêncio
estupefacto. Havia manchetes sensacionais, mas não havia notícias substanciais,
pela boa razão de que as forças de segurança tinham agido dentro de uma espécie
de estúdio cinematográfico vedado a estranhos.
Um setor inteiro da cidade tinha sido isolado e os
seus habitantes, perplexos, tinham sido evacuados para hotéis equipados com
pessoal especializado e sem poderem comunicar com ninguém durante a operação.
Nenhum fotógrafo, nenhum repórter dos jornais ou das
televisões tinha tido acesso à cena do assalto até que as autoridades tivessem
a certeza de que os mínimos vestígios de potencial de espionagem tivessem sido
todos retirados para análise”.
Amigos até ao Fim é a denúncia de um mundo onde se instalou a não-verdade, onde é possível
estarmos permanentemente a ingurgitar falsidades, ou ficarmos em estado de
dúvida, é a manipulação sórdida dos noticiários onde as centrais de intoxicação
debitam, hora a hora, as “verdades” que interessam. Porque aquilo que foi a
espionagem é hoje um expediente de envenenamento dos espíritos, tornando
derrisório o primado da liberdade de pensamento, que aqueles dois amigos até ao
fim teimavam em defender, a despeito de muita utopia nos amanhãs que cantam.
John le Carré já era universalmente conhecido desde
que escrevera O Espião Que Veio do Frio e um conjunto de obras que
passaram ao cinema e à televisão, valorizadas pela genialidade do ator Alec
Guinness.
Quando a Guerra Fria acabou, le Carré fez mudança de agulha, observou à sua volta aquele mundo que se compunha e decompunha, com exércitos privados, uma indústria farmacêutica ignóbil, milionários inescrupulosos na venda de armas, o acirramento de conflitos regionais. E mostrou, se dúvidas subsistissem, que era um dos magníficos operadores da escrita à escala mundial. Não sei se Amigos até ao Fim, mas, não posso, a pensar nesta infeção das fake news convido o leitor a embrenhar-se nesta obra-prima, é mesmo de leitura obrigatória.
Mário Beja Santos
Raymond Chandler,
provavelmente um dos maiores escritores norte-americanos de sempre
Vida movimentada, nasce em Chicago,
educa-se em Inglaterra, onde não se deu bem, regressa aos Estados Unidos, é
combatente no exército canadiano, fixa-se em Los Angeles, chega a administrador
em empresas petrolíferas. Aos 44 anos, desempregado após a Grande Depressão,
começa a escrever histórias policiais, ganha notoriedade, parece atraído pelo
chamado “romance negro”. O seu primeiro romance intitula-se À beira do
abismo, Chandler passa a ser visto com outros olhos até porque criou um
detetive privado que passará a fazer parte da galeria das grandes lendas da
literatura de crime e mistério, Philip Marlowe, o herói que o acompanhará
noutras histórias de grande sucesso. Este detetive Marlowe é o espelho de
Chandler e o seu oposto: bebe desalmadamente, vive dentro das normas, numa
grande sobriedade, é desafetado e romântico, investiga em todas as direções e
haverá um momento em que pespega a verdade dos acontecimentos na cara dos seus
autores e volta à sua doce rotina, vai para casa, veste as suas roupas velhas e
joga partidas de xadrez sozinho. É provável que o leitor iniciado se surpreenda
com tantas referências a judeus e a certos preconceitos raciais, é fruto da
época.
Que versa este espantoso romance
intitulado A Janela Alta, Livros do Brasil/Porto Editora, 2021? O nosso
detetive é contratado por uma ricaça para resgatar uma moeda rara. De imediato
vamos ser envolvidos na definição de perfis e numa atmosfera de extravagâncias,
bizantinices. Logo o local em que vive a ricaça, esta sempre com uma garrafa de
Vinho do Porto na mão: “A sala era grande, quadrada, sombria e fresca e tinha a
atmosfera sossegada de uma capela funerária. Tapeçarias nas paredes grosseiramente
rebocadas, grades de ferro a imitar varandas por fora das janelas de sacada
laterais, cadeiras pesadamente entalhadas com almofadas de veludo, costas de
brocado e borlas de um dourado baço caído dos lados. Ao fundo, um vitral, quase
do tamanho de um campo de ténis”. Daqui parte para a entrevista após dar
referências à secretária Mrs. Elizabeth Bright Murdock, esta é premiada com a
seguinte água-forte: “Tinha uma cara e um queixo enormes. O cabelo cinzento,
cor de estanho, estava arranjado numa permanente rígida, o nariz duro tinha a
forma de um bico e os olhos grandes e húmidos tinham a expressão compassiva das
pedras molhadas. Tinha rendas à volta do pescoço, mas era um pescoço que
ficaria melhor numa camisola de futebol. Vestia um vestido de seda acinzentada.
Os braços nus eram grossos e eram sardentos. Ao lado dela estava uma mesa baixa
com tampo de vidro e uma garrafa de vinho do Porto”. A ricaça quer saber os
honorários, informa que tem um filho completamente idiota que fez um casamento
estúpido sem o consentimento da mãe. Terá sido ela que levou o “Dobrão
Brasher”. A moeda vale um dinheirão, é um exemplar fora de circulação. A
senhora está inquieta porque um numismata telefonou-lhe para saber se lhe podia
comprar a moeda, à cautela descobriu que a moeda levara sumiço. Tem início a
investigação, encontrar uma amiga da esposa desaparecida, entretanto Marlowe
apercebe-se que anda a ser seguido. Visita ao numismata, multiplicam-se as
andanças. Marlowe descobre que o filho da sua cliente tem dívidas e que não são
pequenas, acontece que o credor tem uma relação íntima com a amiga da esposa
desaparecida, o credor pretende os serviços de Marlowe, são negados. Todos
estes encontros são alvo de retratos poderosos, diálogos sóbrios, há muito
humor cáustico, piadas e cinismo nas respostas. Em dado momento é como se
estivéssemos a ler Steinbeck ou Faulkner, veja-se este primor: “Bunker Hill é
cidade velha, cidade perdida, cidade miserável e cidade criminosa. Outrora, há
muito tempo, era o bairro residencial mais seleto da cidade, e ainda estão de
pé algumas das mansões góticas recortadas com pórticos amplos e paredes
cobertas de telhas de madeira com as extremidades arredondadas e varandas
envidraçadas de canto com torreões em agulha. Agora são todas pensões com os
soalhos de parquê riscados, o brilhante polimento inicial gasto e as largas e
vastas escadarias escurecidas pelo tempo e pelo verniz barato aplicado sobre
gerações de sujidade. Nos quartos altos, as megeras das senhorias implicam com
os inquilinos esquivos. Nos pórticos amplos e frescos, com os sapatos
esburacados estendidos ao sol e a olhar para o nada, sentam-se os velhos com
caras que lembram batalhas perdidas”.
Começam os crimes, irá ser baleado um
jovem com pretensões a detetive que seguira Marlowe e lhe propusera parceria,
na revelação do crime aparece um casal embebedado com a singularidade de a arma
do crime estar debaixo da almofada da cama. É preciso talento a rodos para
estar sempre a desenhar protagonistas, agora o Inspetor da Polícia, Jesse
Breeze: “Era um homem grande, bastante barrigudo, com sapatos castanhos e
brancos, meias descaídas, calças brancas com riscas pretas finas, camisa de
colarinho aberto que deixava ver alguns pelos ruivos no cimo do peito, um
casaco desportivo azul celeste que não tinha mais largura nos ombros do que uma
garagem para dois carros”. O imbróglio ganha volume, vai ser assassinado o
numismata, Marlowe recebe uma encomenda, alguém lhe envia o Dobrão Brasher.
Aparentemente, a ricaça dá por findos os serviços de Marlowe, reaparecera a
moeda, ela mal sabe que Marlowe também recebeu outra. No meio desta densa
neblina, o detetive apercebe-se que há uma história de chantagem, há mesmo quem
lhe proponha dinheiro generoso para estar calado. E Marlowe conhece a nora da ricaça,
conversa esclarecedora, mais um perfil: “Tinha a boca larga e fria, o nariz
pequeno, os grandes olhos frios, o cabelo escuro dividido ao meio por um risco
largo e branco. Trazia um casaco branco por cima do vestido, com gola voltada
para cima. Parecia mais velha, os olhos eram mais duros, os lábios pareciam
ter-se esquecido de como é que se sorria”.
De novo reunido com a ricaça, aparece-lhe o filho que conta uma história da carochinha sobre a dívida, o desvio do Dobrão e como o recuperou. A polícia quer inteirar-se dos movimentos do detetive, este ajuda, vai dando pistas. Nestas movimentações, Marlowe descobre um falsário, ocorre uma nova morte e aproxima-se a hora da dedução final, há um velho segredo do passado, de uma janela alta alguém fotografou um abominável crime que origina chantagem e o uso de uma jovem inocente que leva regularmente dinheiro ao chantagista. Estamos em 1942 quando foi publicada A Janela Alta, ainda não era escandaloso escrever o que Chandler escreve: “O Dr. Carl Moss era um judeu grande e corpulento, com bigode à Hitler, olhos salientes e a calma de um glaciar”. Marlowe descobre a fotografia que é um móbil da chantagem bem como as razões de um suicídio, tudo vai contar à sua cliente e ao inspetor Breeze, há o final romântico de uma menina que volta para casa dos pais, a ricaça continua imperturbável a beber vinho do Porto, cada um parece seguir o seu destino, Marlowe veste as velhas roupas de trazer por casa e joga xadrez sozinho. O uísque nunca falta, ajuda a alta tensão entre os disparos. A Janela Alta é uma perfeição, digno dos aficionados da literatura de crime e mistério e de todos os outros que gostam de livros poderosos, inesquecíveis.
Mário Beja Santos
Pela segunda semana do meu primeiro ano de seminário, fui um dos quatro ou
cinco seleccionados, entre uns oitenta e tal alunos, aproximadamente, todos
primeiranistas, para aprender a tocar piano, a fim de a Congregação Salesiana
poder contar sempre com um número razoável de clérigos, padres e coadjutores
devidamente habilitados para desempenharem o importante e nobre papel de
futuros mestres de canto coral, de mestres de banda, de pianistas, de
organistas e de professores de música nos seminários menores e maiores e nos
colégios.
Como a frequência de qualquer conservatório estava fora de questão, para
evitar, a todo o custo, por princípio e tradição, expor os futuros mestres e
professores aos meios mundanos, supostamente perniciosos à sagrada vocação
religiosa, não é preciso dizer que, salvo raríssimas excepções, a competência
dos mestres e professores de música era de uma mediocridade gritante e
confrangedora.
A referência às “raríssimas excepções” baseia-se no facto de, por um feliz
acaso, aparecer, lá muito de longe em longe, uma rara avis, quer dizer, um
seminarista com dotes tão extraordinários para a música e por ela tão
apaixonado, que, por si só, num golpe de auto-didactismo exemplar e quase
miraculoso, conseguia aprender a tocar plausivelmente bem os instrumentos
musicais, tais como o piano e o órgão, e aprender os princípios fundamentais da
composição, a ponto de vir a ser capaz, não só de fazer arranjos musicais, tais
como transformar um canto a uma voz num canto a duas, três ou quatro vozes, ou
transformar um acompanhamento difícil num acompanhamento fácil, mas até de ser
capaz de compor uma peça de música original.
Perante essa vocação para a mediocridade, por parte da instituição
religiosa, chegou o momento em que dois dos cinco seminaristas, já estudantes
do primeiro ano de Filosofia (1952-53), literalmente envergonhados da triste
figura que faziam quando eram obrigados a acompanhar ao órgão as missas
destinadas a um público em que certamente havia fiéis com elevada formação
musical e habituados a assistir à ópera, a recitais ou a concertos dados por
grandes músicos profissionais, dois dos cinco seminaristas (os outros três
tinham voltado para a ... mais apetitosa vida do século), repito, encheram-se
de coragem e fizeram ver ao padre superior do seminário maior – Instituto
Filosófico Salesiano do Estoril - que, uma vez que não os deixavam frequentar o
conservatório, pelo menos lhes contratassem um competente professor de piano
que lhes desse uma ou duas lições semanais. Advogaram tão vigorosamente a sua
causa, que o padre superior, embora com certa relutância, decidiu contratar um
professor de piano, digno de tal nome.
Chamava-se Doria Meunier; era de origem francesa; e era um estupendo
pianista, de cujo currículo constava que tinha sido, durante vários anos,
pianista do transatlântico português Santa Maria e que muitos dos seus
concertos eram transmitidos pela Emissora Nacional, a que nós, seminaristas,
raramente tínhamos acesso, e, sempre que isso acontecia, era com o beneplácito
expresso dos superiores e sob a sua superior supervisão. Porém, manda a verdade
que se diga que, como professor de piano, Doria Meunier era a incompetência em
pessoa.
A ver se me explico por meio de exemplos. Chega a primeira aula de piano e
que faz o professor Meunier? Senta-se ao piano e diz-nos que reparemos como ele
executa a célebre Marcha Fúnebre de Chopin. Quase transfigurado, como muitos
dos artistas possuídos do daimon de Sócrates, de que fala o divino Platão, toca
essa sublime sonata, totalmente de cor, e no fim, a suar por todos os poros,
enquanto limpa o rosto a um lenço vermelho, pede-nos os aplausos que nós ambos,
como qualquer apreciador normal, não lhe podíamos regatear.
Feito um breve intervalo, para repouso do artista, pede-nos que reparemos
se a peça que ele vai executar não é obra de outro génio da música. E,
proferidas estas palavras, executa, com o mesmo furor daimónico, a Appassionata
de Beethoven, sem sequer abrir a partitura. Entusiasticamente aplaudido por
nós, que fez ele, após uns minutos de descanso? Quando imaginávamos que nos ia
mandar sentar ao piano, um após outro, e nos fazia tocar um ou dois exercícios
de Czerny e um ou dois andamentos das Sonatinas de Clementi ou de Kuhlau, para
verificar a posição dos dedos, por exemplo, e para avaliar o nosso nível
musical, como aprendizes de piano, que é que fez o nosso indigitado mestre de
piano? A propósito da famosa sonata de Beethoven que ele acabara de tocar
magistralmente, falou-nos, em bastante pormenor, com visível entusiasmo, de um
jovem músico português, menino-prodígio, chamado Sequeira Costa, o qual, em
plena adolescência, cometera a proeza de dar um recital de piano em que
executou de cor todas as sonatas de Beethoven, o que lhe valera a recepção de
um prémio muito especial e a fama imediata.
Depois de nos maravilhar e de nos deixar embasbacados e deslumbrados com a
narração dos êxitos fulgurantes e retumbantes desse pianista prodigioso que,
desde criança, demonstrara um talento tão extraordinário para o piano, que, aos
oito anos de idade, deixou Luanda, onde nascera, em 1929, para ir para Lisboa
estudar com o famoso pianista e mestre Vianna da Motta, o nosso novo professor
de piano, executou, com o maior vigor e brilhantismo, a Polonaise Heróica de
Chopin e deu por finda a lição.
Daí a dias, Doria Meunier voltou para nos dar uma segunda lição de piano,
sensivelmente nos moldes em que nos dera a primeira. Tocou ele e nós não
tivemos outro remédio senão ouvi-lo e aplaudi-lo. A partir desse momento, o
nosso famoso e putativo professor de piano passou a mandar-nos um filho dele, o
qual pouco mais sabia que nós e, quanto a competência didáctica, era mais ou
menos o retrato do pai, fazendo jus ao velho adágio: tal pai, tal filho.
Quando o Padre Director nos perguntou, passado algum tempo, se gostávamos
do professor de piano, tivemos que lhe confessar, com toda a sinceridade, que
sim e que não. Convidados a explicar-lhe esse aparente paradoxo, não tivemos
outro remédio senão fazê-lo. Perante esse facto, o Padre Director apenas nos
disse que a Ordem era pobre e que não dispunha de dinheiro para gastar com
professores desses: que nos contentássemos com a prata da casa, isto é, com o
professor que tínhamos, o qual não passava de um pobre amador, mas que tinha
competência suficiente para nos ensinar o indispensável, garantia ele a pés
juntos, a fim de podermos acompanhar, atabalhoadamente, ao órgão as missas
cantadas e acompanhar ao piano os cantos e as operetas, por ocasião das muitas
festas em que a Congregação Salesiana era pródiga.
Conclusão. Para nossa frustração e tristeza, a nossa modesta e legítima
aspiração a uma formação pianística elementar não encontrou quem podia e devia
remediá-la.
Voltando ao grande pianista português Sequeira Costa, vou contar brevemente
o que aconteceu em 1981. Ocupando, desde 1976, o prestigioso cargo de Cordelia
Browm Murphy Distinguesd Professor of Piano na Universidade de Kansas, em
Lawrence, tendo renome internacional e tendo dado concertos de piano a solo e
concertos com grandes orquestras através do mundo e nas salas de música mais
célebres, em Fevereiro de 1981 pôde finalmente realizar um dos seus sonhos, que
é o de todos os grandes pianistas do mundo inteiro. Com o patrocínio do
Consulado-Geral de Portugal de Nova Iorque, da Câmara do Comércio
Luso-Americana da mesma cidade e da Fundação Calouste Gulbenkian, Sequeira
Costa deu um concerto de piano a solo na lendária Carnegie Hall de Nova Iorque.
Não
é necessário dizer que, tal como outros carolas de outros estados próximos de
Nova Iorque, com a velha Pátria sempre na mente e no coração, o Cônsul
Honorário de Portugal em Connecticut e o abaixo-assinado fizeram o máximo de
publicidade entre a vasta comunidade luso-americana para levar um bom
contingente de espectadores a esse auspicioso concerto. Além da publicidade feita,
eu, por exemplo, por minha parte, orgulhoso por poder mostrar à América que em
Portugal também havia grandes pianistas e se fazia, embora em tom menor, alta
cultura musical, convidei quatro casais amigos, da minha universidade, sabendo
de antemão, por experiência própria, que todos tinham considerável formação
musical e apreciavam a grande música romântica, especialidade de Sequeira
Costa.
Para
minha desagradável surpresa, eterno optimista, a celebérrima Carnegie Hall
estava muito longe da enchente esperada.
Como
é natural, o pianista esteve à altura do prestígio de que gozava através do
mundo, ou, como diria o meu amigo Manuel Gaspar, não deixou os seus pergaminhos
por mãos alheias. Entretanto, quando, na manhã do dia seguinte, abro o New York
Times para ler a recensão da praxe, venho a encontrá-la, escondida e
envergonhada, no fundo de uma página, na secção das Artes, reduzida a umas
magras linhas em que apenas era posta em destaque a curiosa peça que o célebre
pianista português tocara como brinde, ou “encore”: uma sonata do compositor
português João Domingos Bomtempo (1775-1842), lamentavelmente desconhecido do
público americano e, muito provavelmente, do crítico musical do New York Times.
Ao
chamar a atenção da Jane e George Reinhardt, dois dos meus oito convidados e
ambos competentes musicólogos, para essa modestíssima recensão, apressaram-se a
dizer, em uníssono, que outra coisa não era de esperar, dado o reportório que o
pianista português escolhera, abrindo o concerto com a Appassionata de
Beethoven e prosseguindo com as peças mais frequentemente executadas pelos mais
célebres intérpretes da música romântica para piano. Que essas icónicas peças
as tinham visto os novaiorquinos executar aos maiores pianistas do mundo
inteiro. Que o que esperavam de Sequeira Costa era um reportório diferente, só
dele, e que ele desperdiçara estultamente essa oportunidade única.
António Cirurgião