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sexta-feira, 29 de maio de 2015

O legado do último revolucionário

 
 


 
Uma leitura que vive, alerta, que destabiliza e nos acossa meio século depois da sua escrita. Num registo brilhante, de recorte clássico, onde ecoam os grandes moralistas franceses do século XVII, muitas vezes a golpes de dilacerante concisão, outras balançando o abstracto num elevado grau poético, em “A Sociedade do Espectáculo”, Guy Debord traça em tom profético as misérias e as servidões da sociedade, tal como ela se configurou no nosso tempo.
Debord foi um artista de estirpe filosófica, radical, o arqui-rebelde que se orgulhava de merecer totalmente o “ódio universal” da sociedade. Um crítico visionário que compreendeu a rede de fenómenos que compõem esta modernidade. A alienação e o comodismo que marcam a pacífica derrota das sociedades subjugadas à lógica da mercadoria, num tal grau de acumulação que tudo adquire a dimensão abstracta e fantasmagórica da imagem.
“Tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação.” Em 1967, estava ainda longe a encenação da vida que a realidade virtual viria a construir, as redes sociais eram uma mera probabilidade de ordem especulativa ou ficcional, mas nesse ano foi publicada esta obra-prima onde se reconhecia que não só as relações sociais autênticas mas o próprio enquadramento, os tijolos e a argamassa que nos ligam uns aos outros, foram substituídos, passando a ser simulados. Não vivemos senão uma representação da própria vida, da qual, verdadeiramente, fomos expropriados, num modelo de escala 1:1. Um reflexo capturado numa sequência imparável, num presente constante.
         Não se trata de um diagnóstico que tenha como valor capital falar uma linguagem transparente. Pode-se dizer que o estilo desenvolvido por Debord é em si mesmo hostil a uma aproximação imediatista. O próprio sentido de comunicação simplificada em que o jornalismo degenerou nas últimas décadas participa da ilusão que é denunciada. A informação que se verga ao entretenimento, a omnipresença sufocante da cultura do estrelato, as celebridades que fazem dos restantes membros da sociedade os pobres espectadores, experimentando a vida em segunda mão. “O agente do espectáculo posto em cena como vedeta é o contrário do indivíduo, o inimigo do indivíduo, tanto em si próprio como, evidentemente, nos outros.”
Não há nada de inocente no facto de, hoje, a maioria das crianças sonharem com a fama. Não é uma forma de ingenuidade, é uma compreensão clara do que está em causa na escalada social. As celebridades, como esclarece o autor, são os especialistas desta vida aparente, são os sujeitos superficiais de todos os desejos, aqueles que concretizam os sonhos para os quais os restantes vivem. Funcionam como miragens: as personagens com as quais somos levados a identificar-nos numa compensação para a função cada vez mais acessória, ultra-especializada, da vida que vivemos. A produção procura que tudo seja substituível.
 Desapossados, incapazes de verdadeiras escolhas, de uma autonomia que não milite pela lógica do consumo, os indivíduos tornam-se factores de uma ordem quantificadora, meros fragmentos, soldados da disciplina económica que levou a que o “ser” se tenha despedido da sua liberdade em troca da acumulação, do “ter, que por sua vez não passa de um efeito de “imagem”, a capacidade de “parecer” e assim assumir protagonismo nesta peça de um único acto, infinito.
Debord escreve que por trás das máscaras de total liberdade de escolha, apenas se confrontam diferentes formas – subprodutos – da mesma alienação. O espectáculo, os espectáculos estenderam a sua dominação a todos os aspectos da vida social, abarcam tudo, burocratizam tudo, a própria angústia causada pela insatisfação é só outra vertente do comodismo, e a rebelião só sabe promover-se segundo uma dinâmica “puramente espectacular”.
Os conflitos que na nossa sociedade se representam não alcançam qualquer desvio, os opostos concebem uma perfeita simetria que tudo equilibra e anula. O próprio cinismo desta época, a desconfiança e descrença, as sensações que hoje se nos impõem de forma sintomática, foram de algum modo previstas em “A Sociedade do Espectáculo”. O próprio título foi transformado numa expressão de uso corrente, designando uma relação com o mundo saturada pelas imagens segundo uma regra que Debord formula desta maneira: “tudo o que aparece é bom e tudo o que é bom aparece”. É um conceito diluído, uma banalidade se relacionado com o verdadeiro sentido que Debord lhe atribuiu, mas essa mesma banalização não deixa de ser indicativa do alcance do seu pensamento.
O livro, que foi acusado de ser uma compreensão paranóica do progresso engendrado pelo capitalismo, lê-se hoje como a mais deliberada e veemente sucessão de ataques a uma sensibilidade que introduz em cada um dos nossos comportamentos um valor, uma forma de prestígio imediato, condicionado pelo fetichismo da mercadoria. Mas exactamente por o livro se confrontar com uma malha em que os agentes e os sujeitos se confundem – as vítimas mais que amar os carrascos se projectam neles –, não é fácil resumir a tese de Debord. A sua presciência faz com que este seja um livro que chegou hoje ao tempo da sua plena legibilidade. Hoje seria mais complicado acusá-lo de paranóia.
 
 
 
 
 
 
O seu génio não se ficou pelas palavras que bateu na máquina de escrever. A ordem social que viu despontar foi o seu alvo quando, na década de 1960, se assumiu como líder da Internacional Situacionista, uma célula de intelectuais restrita e sempre em convulsão onde confluíam todo o tipo de influências, mas cuja perspectiva sobre o mundo combinava essencialmente dois elementos: a compreensão do fenómeno da alienação bebida nos escritos de Marx e uma ênfase num tipo de pesquisas que nunca foram muito apreciadas pela esquerda tradicional – manifestações mais comuns a movimentos artísticos como o surrealismo e os dadaísmo, aquele tipo de sensibilidade que segue o lado mais irracional do desejo. “A Sociedade do Espectáculo” tem óbvios antecedentes, algumas das suas ideias não são sequer inovadoras. Pode-se-lhe traçar uma genealogia, começando por Hegel e Marx, Engels, Lukacs e a Escola de Frankfurt.
E houve contemporâneos de Debord que também desmontaram esta confluência. No mesmo ano, o seu cúmplice e depois, talvez, o seu maior rival, Raoul Vaneigem, publicou “A Arte de Viver Para as Novas Gerações”, um ensaio escrito num registo mais directo, mais humano e mais propagandista: “Consumir é ser consumido pela inautenticidade, alimentando a aparência em favor do espectáculo e às custas da verdadeira vida. O consumidor morre onde se agarra porque se agarra a coisas mortas: a mercadorias, a papéis...”
As duas obras assinalavam as bandeiras da Internacional Situacionista, e no ano a seguir à sua publicação o movimento viveu o seu momento de glória com o Maio de 1968, a revolta estudantil em França que realmente desafiou a ordem social, com uma série de ocupações que começaram pelas universidades e contagiaram os trabalhadores. Houve uma greve geral que contou com a participação de 10 milhões de trabalhadores. O governo e as uniões sindicais chegaram a um acordo mas nenhum trabalhador voltou ao trabalho. A greve terminou somente quando De Gaulle colocou as forças armadas nas ruas de Paris.
Debord vomitaria na cara dos nossos comentadores que enchem os canais no sinal constante para defender a condição fluente de um discurso que mata toda a crítica de relevo. Eles representam, no mais alto grau, aquilo que Debord analisou, radicalizando alguns aspectos do que é ainda actual na teoria marxista, mas indo para além dela, e que constitui talvez a sua “lição” mais importante: o principal factor de alienação consiste no processo que nos desapropria e aliena da linguagem.
Debord passou os seus últimos anos retirado no centro rural da França, na aldeia de Champot (Auvérnia), e em Novembro de 1994, aos 62 anos, pôs fim à vida com um tiro no coração. A sua guerra contra o espectáculo passou por uma série de manobras tácticas, “a construção de situações”, cujo principal objectivo era expor ao ridículo os seus inimigos. E cultivou-os como ninguém. Há toda uma novela de contornos em que é difícil estabelecer a fronteira entre a realidade e os rumores, o conjunto de mitos que fizeram de Debord um dos personagens mais fascinantes da história moderna. Depois dos eventos do Maio de 1968, há relatos sobre o seu envolvimento em acções terroristas em Itália e até no assassinato de alguns dos seus antigos cúmplices. Durante mais de uma década foi mantido sob vigilância pelos serviços secretos franceses, e, se a sua vida pública nunca se dissociou das suas intenções revolucionárias, o exílio que se impunha era muitas vezes perdido com travessias alcoólicas. Mas se tinha inimigos mortais, não deixou nunca de ser dos homens mais admirados entre a elite artística e os círculos dos negócios e da política franceses.
Após o suicídio, o romancista Philippe Sollers, uma das figuras centrais na cena intelectual parisiense, afirmou no “Libération” que a bala no coração tinha “uma importância revolucionária”. Segundo ele, para Debord o suicídio era a forma mais pura de crítica do “espectáculo”. Outros defenderam que passou os últimos anos deprimido por ter chegado à conclusão de que os seus escritos tinham deixado de ser um alerta, um apelo revolucionário, e se tinham tornado uma descrição precisa da vida moderna.
 
 
Diogo Vaz Pinto
 
(publicado originalmente no jornal «i»)
 
 
 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O bluff sem mestre, ou a oclusão de Herberto Helder.

 
 
 
 
Fotografia do espólio de Alberto Lacerda
 
 
 
É de louvar o ímpeto que procura baixar um murro na mesa, puxar-lhe nem que seja um susto para interromper os "vagares de galinhola" com que se joga este pequeno vício de ter os dias apostados entre cartas marcadas, com resultados que não servem nem para adiar a morte. Mas, se for para partir, que se parta a mesa e não a mão.
Herberto Helder lançou há umas semanas um livro de poemas inéditos e escritos no ano passado e logo o galinheiro se agitou de alto a baixo, como tem feito sempre que o velho lobo faz descer as últimas crias. É uma tal comoção e alegria que diz mais da estupidez das galinhas que da fome de que se vêem cercadas. Comecemos por assentar nisto: não faltam a este país grandes poetas. Vivos ou mortos, a um ouvido minimamente apurado soam uivos de tal modo fundos que é difícil dormir descansado neste idioma. Porquê então este nível de espalhafato com Herberto? Não há uma resposta, mas várias, e a maioria são motivo de vergonha num ambiente cultural que tem grande dificuldade em evitar que os seus lances se vejam absorvidos pelo casino manhoso nas mãos desses que mostram mais "jeito para o negócio". O jogo público de reflexão, o debate cultural e o esforço crítico de recepção das obras de relevância artística e social, tem tido muita dificuldade em sobreviver às grandes mesas de azar em que a casa ganha sempre.
Mesmo o papel em que os jornais hoje vão impressos as mais das vezes não passa de mortalha a compor um defunto e tornou-se evidente como o que por aí anda de crítica a nível da livralhada tem carta branca para o exercício da fraude, das pequenas negociatas e dos tráficos de conveniências e esquemas de compadrio. É tudo feito às claras e há anos que já não escandaliza nem choca, aborrece simplesmente.
Muito aborrecido foi uma vez mais o levantar de penas sem qualquer admirável "golpe de asa" que se seguiu à aparição do novo livro de Herberto. Uma alegre tristeza para a qual contribuiu a inépcia da grande agência editorial, que procurou montar um golpe de imagem com o frenesi que já se esperava. Na grande desilusão que este público sempre à caça de fenómenos é, raramente ele desilude. Que falta faz cá o Pacheco, para fazer chegar uns rubores às faces deste tempo. Essa dose de vergonha sem a qual fica tudo meio abandalhado, quando a mediocridade e a patetice se espreguiçam alarvemente. O primeiro editor de Herberto havia de gritar mais alto que o rei, que há anos se ermitou, desta vez saiu à rua em pelota. Ou Cesariny, esse seria também gato suficiente para olhar da varanda este absurdo sem se misturar, lembrando que, numa hora destas, "o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!"
Então sua eminência, o supremo bardo, depois de um magnífico ressurgimento ao fim de oito anos de silêncio com "A Faca não Corta o Fogo" (Assírio & Alvim, 2008) e de um acto de bravura tauromáquica frente à Grande Besta com "Servidões" (Assírio & Alvim, 2013), vem agora fazer a fita de "burro velho" e distribuir pelas moscas uns últimos coices já sem pujança. Num acto impulsivo irrompe para uma vénia grosseira, como diva a quem subiram uns calores senis, não se decidindo a deixar o palco sem uns ajustes de conta finais. Mas com quem? Com "este público", com a vida em geral, ou com a cabra em particular?
Com o livro lido e sacudido umas vezes, o leitor é levado a inclinar-se para esta última hipótese.
O autor diz às tantas: "Filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo." Assim, numa encenação antecipada da pública leitura do seu testamento, "lá está o cabrão do velho no deserto, último piso esquerdo,/que nem o Diabo ousa/ ouvi-lo/quanto mais os anjos do Senhor, os pintainhos!", e adianta: "Eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/vou morrer como um cão deitado à fossa!" Mas se o tom, mais que queixoso, lamuriento, surpreende por se tratar de um registo até aqui arredado de tão magna obra, o pior vem mais à frente, quando o poeta se representa assim: "E aqui jaz, acomodado, oitenta e três [...] uma reforma de pilha-galinhas e poeticamente/enterrado vivo".
 
O livro vai depois acabar com um poema de tal modo convertido às servidões a que a "vida quotidiana" obriga que Herberto diz não se queixar "de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás". O leitor coça a cabeça e sente-a pequena, mas não "do mundo" que tem diante de si, não de uma manifestação da tal "última ciência" ou de qualquer outro gesto majestoso, antes de uma mão que sacode o mau jeito de um gás, deixando a dificuldade de acreditar que seja a mesma com que o poeta, "sensível apenas ao papel e à esferográfica", "administra[va] a alma".
O disparate, no entanto, começa logo na nota que abre esta edição gorda, feia e desavergonhada: "Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional." A sério!? O leitor já embala maravilhado a seguir a isto, cheio de vontade de atender com a máxima acuidade a todos os desafios do livro. E logo, encerrando o primeiro poema, vem o reforço de um apelo: "Peço por isso que um erro de ortografia ou sentido/seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro." Que conversa é esta? Provocação?
Parece um desaire grandiloquente. 
É preciso repetir a única verdadeira lição sobre a poesia que precedeu isto, a de que é preciso lê-la. Di-lo Manuel Gusmão: "Leiam Herberto Helder", o seu "poema contínuo". É um desafio colossal. Um tipo descobre-a e fica torto, zonzo, afasta-se, volta lá de vez em quando, serenado, como quem já sabe ao que vai, mas volta a perder o norte. A vida muda-se para ali, "a verdadeira vida" está ali. Quanto a este, "A Morte sem Mestre", fica a clara sensação de que não tem lugar no grande "ministério lírico" do autor. Não está à altura. É quase uma bofetada na cara do contentamento podre deste tempo com as servidões a que se assujeitou. Uma acusação à alma baixa de um mundo que se deita e rebola na lama da sua existência desprovida de qualidades.
Este livro só resiste como uma denúncia, um "é isso que querem?, então tomem lá!" Sem ânimo, sem a energia apaixonante e comovedora que confirma o acto de criação e nos devolve, através de uma nomeação e música nada austeras - na antítese da "austeridade" -, ao sentido profundo, sagrado da experiência de estar no mundo e ocupar nele um lugar harmonioso, atento. São avisos apagados, epigonais em relação à anterior obra do poeta, aquilo que de melhor resiste a esta "Morte sem Mestre": "Queria ver se chegava por extenso ao contrário:/força e pulsação e graça,/isto é: a luz, de dentro, despedaçando tudo,/e concentrada:/estrela".
Depois do acto final de "Servidões", este livro é já a Morte, o apagamento de uma luz que corre o risco de ser desentendida se a língua em que vive não resistir à banalidade, tocando uma vez por outra o céu da boca, para sentir o ouro da estrela que foi Herberto Helder.
 
Diogo Vaz Pinto
 
(originalmente publicado no jornal «i»)