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domingo, 19 de abril de 2026

O Diogo.

 



É difícil falar da morte de uma pessoa como o Diogo Ramada Curto. Mesmo muito. Fala-se da morte, mas apenas se sabe o que essa palavra quer dizer quando morre alguém como o Diogo.

Falar do desaparecimento do Diogo é falar da minha dor. Falar da minha dor é falar do Diogo. Para que ele continue a falar comigo, e eu com ele. Por isso escrevo sobre o Diogo. Escrevo sobre o Diogo através da minha dor e sobre a minha dor através do Diogo. Escrevo para encher bem os olhos e o coração com a sua imagem. E, com ela, mitigar os momentos de penosa saudade que me aguardam longe dele.

Quando morre um amigo como o Diogo, sofre-se muito. Sente-se que uma parte de nós também morreu. Mas, ao mesmo tempo, o Diogo está ainda mais vivo naquilo que penso, sinto, escrevo.

Escrever sobre a dor é escrever contra a morte. A dor é o que dá forma à ausência da pessoa querida e o que impede o seu desaparecimento. Escrever sobre alguém que desapareceu e que se ama tanto é uma forma de continuarmos a levá-lo connosco, fazendo com que a sua presença continue a fazer-se sentir em nós.

Escrever sobre o Diogo não é falar de uma vida apagada para sempre. É fazer com que ele continue a renascer todos os dias, através de quem fica. É mantê-lo connosco, negando a impossibilidade do seu regresso.

Como fazer a dor entrar nas palavras? Como viver com os nossos mortos? Quando se é novo, dizem, o sofrimento ajuda a crescer. E quando deixamos de ser novos? Como descrever a experiência de sobreviver a um Amigo como o Diogo? O que é que nos acontece quando alguém que amamos tanto parte de repente? Alguém que nos marcou de maneira tão instantânea?

Não me atrevo a resumir o extraordinário ser humano que era o Diogo. Nem a dizer que o conheci e o compreendi completamente. Mas posso contar-vos o que ele fez em mim e o que a sua ausência me vai fazer, o resto da vida inteira.

O Diogo era mais do que um Amigo. Era o meu Irmão mais velho. Era o Amigo, o Irmão, o Professor, o Mestre.

Falar do Diogo é falar da minha vida e de como ela se viu radicalmente alterada quando o conheci. Vi-o pela primeira vez aos 20 anos. Foi em Setembro de 1992, no início do terceiro ano da licenciatura em Sociologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, como meu professor da disciplina de História do Pensamento Social.

Recordo-me da emoção intelectual que essas aulas produziam na minha cabeça ainda adolescente. Mesmo se não compreendia quase nada do que havia a compreender naquilo que o Diogo dizia. Mas foi justamente essa incompreensão que me levou a procurar uma maneira de a preencher. Por isso estudei. Estudei muito. Provoquei-o nas aulas. Discuti as ideias dele. Para o impressionar. Para que ele reparasse em mim.

Nas aulas, o Diogo empregava a fundo a sua inteligência e a sua invejável cultura, aquecia os nossos cérebros como uma chama viva. Punha-nos a pensar e a debater as questões nos seus diferentes prismas. Como professor, era equivalente à água que dão as fontes, ou às próprias fontes que dão água.

Às segundas-feiras, entre as 8h e as 11h, com um intervalo de vinte minutos, o Diogo ensinou-me mais do que qualquer biblioteca (dir-me-ão que exagero, talvez, mas pouco importa).

Ensinou-me a importância da crítica e da oposição, a pôr em causa a aparente transparência da realidade social. Ensinou-me a aproximar o discurso sociológico do histórico, a possibilidade de multiplicar as linhas narrativas com que se faz a História e a Sociologia, procurando as ligações entre as estruturas sociais e as estruturas mentais, nomeadamente recorrendo ao método biográfico, mas não só.

Ensinou-me o poder transformador do conhecimento, como ele nos pode modificar e como nós o podemos mudar, e que mais importante do que o conhecimento é o que se pode fazer com ele. Ensinou-me que não podemos manter as nossas impressões e opiniões quando os factos e os documentos as contradizem.

Em tudo isso, e muito mais, o Diogo levava à prática o hábito salutar de nos ensinar a duvidar daquilo que ele próprio ensinava. Por mais cortantes que fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que agradar ou ser um professor popular.

O Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem, coisificarem, cristalizarem.

Depois de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode afectar-nos tanto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.

Ainda que não o soubesse, o meu futuro começou ali, nas aulas do Diogo. Depois de ter sido seu aluno, procurei muitas vezes a sua companhia. Tentava encontrá-lo quando sabia que ele poderia andar por perto, queria estar nos sítios que ele frequentava, no Bar Artis (do Mário Pilar e da Paula, onde conheci a muito querida Né Parada Ramos, o Carlos Severo, o Orestes, o Luís Paulo, a Luísa Robot, o Nuno Antunes, e tantos outros) ou no Targus (do Hernâni Miguel), sobretudo estes, mas também no Frágil ou nos Três Pastorinhos. Quando o via no Bairro Alto, seguia-o à distância. Queria fazer parte da sua vida. Ser como ele. Crescer com ele.

Dez anos depois, tinha eu 28 anos, no final do meu mestrado em Economia e Sociologia História, orientado por ele, desafiou-me para o substituir na Faculdade, durante o período em que ele estaria nos Estados Unidos, na Universidade de Brown (em Providence), como professor convidado. Tornei-me seu assistente na mesma disciplina em que o conheci, História do Pensamento Social, continuando sempre a ensinar-me nas minhas primeiras investigações académicas. Os minutos, horas, dias, semanas, meses, anos que se seguiram foram tempos de enriquecimento intelectual e afectivo.

O Diogo era uma enorme massa de vida inteligente. Um agente de transmissão de conhecimentos e erudição ampla e firme. Era o intelectual na plena força do pensamento crítico. Era-o até aos ossos, até à essência do seu ser. Poucos o igualavam em estudo, ironia e sarcasmo (como ele, lembro-me apenas do António Araújo e do José Lima).

Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis.

Com o Diogo era possível salvaguardar a amizade quando as nossas opções e escolhas de trabalho não coincidiam com as dele. Se era capaz de ser um crítico implacável, também de se transformar, rapidamente, num amigo verdadeiro daqueles que criticava.

Dispunha de uma excepcional faculdade para inventar analogias e era um contador de histórias nato. Todos os fragmentos da experiência quotidiana estavam apenas à espera de que ele lhes desse forma e sentido, para depois os costurar numa narrativa significativa e divertida. Cruzando conhecimentos que vinham dos livros com conhecimentos que não tinham vindo dos livros.

Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.

Homem de intuições certas, mas também, por vezes, de acções erradas, o Diogo sofria as suas próprias ambivalências. Apanhado pelas convenções da sua geração, nem sempre conseguia livrar-se delas completamente.

Não escondia os seus defeitos, rugosidades, deficiências. Tão-pouco fugia à autocrítica, enunciando um discurso explícito de questionamento de si próprio.

O Diogo era disciplinado, mas nunca satisfeito. Era comunicativo e carismático. Adulto e infantil. Terno e rude. Duro e afável. Generoso e franco. Tudo isso ao mesmo tempo, conseguindo passar com grande rapidez de um estado a outro.

Da energia que espalhava à minha volta tirei eu a força que muitas vezes não conseguia ter. Passava-me roupa quando já não lhe servia, como um irmão mais velho (que de facto era e sempre foi). Fazia os possíveis e os impossíveis para me ajudar, arranjando-me pequenos trabalhos para conseguir encher o frigorífico e continuar a escrever como exercício de liberdade e de libertação. Junto do seu braço sólido, sentia menos medo.

Todos os dias, todas as tardes de todos os anos, partilhámos momentos inesquecíveis, situados numa outra parte do tempo. As festas de final de ano na sua propriedade de Vale da Pinta (Cartaxo), o amor que o Diogo tinha a essa casa, em tempos uma enorme adega, transformada num espaço para todos. As horas de Verão a caiar as paredes da quinta, ele com um lenço na cabeça com nós nas quatro pontas, por causa do sol, mas também para se rir de si próprio. Os momentos de repouso nos sofás do seu apartamento em Lisboa, no Campo de Santa Clara, a folhear livros antigos, depois dos almoços de sábado, com a boa comida que o Diogo sabia cozinhar e proporcionar aos amigos, juntando-os à sua volta. E como eram agradáveis os dias bem passados a deambular juntos pelos alfarrabistas…

O Diogo fazia parte de muitas vidas e, de certo modo, é consolador verificar que tanta gente foi tocada pelo Diogo. Ver tantas pessoas, entre amigos e conhecidos, colegas da Academia, do Colégio Militar, do Rugby, ex-alunos de muitas gerações diferentes, precipitando-se ao encontro uns dos outros, para se apoiarem mutuamente.

Não voltar a ver o Diogo, nunca mais, na Biblioteca Nacional ou na Feira da Ladra, não voltar a ouvir diariamente o toque do telefone e ver o nome dele no ecrã (ele telefonando-me ou eu telefonando-lhe), nunca mais reparar no velho carro dele no parque de estacionamento da Biblioteca Nacional (sinal de que já tinha chegado) e não voltar a esperar por ele na mesa do bar (para deitarmos conversa fora e saber novidades um do outro, antes de começarmos o trabalho de todos os dias). Nada disso, nunca mais, vai repetir-se durante o resto da minha vida.

Na Biblioteca Nacional, depois da nomeação da actual ministra da Cultura, o Diogo dizia-se ignorado e aviltado. As queixas que lhe ouvia na intimidade, a ansiedade que sentia pela forma como era destratado por uma personagem sinistra, que ele próprio escolhera, a quem não se encontram senão intrigas e pequenezes. Anões insuflados de um suposto poder, desprezando um gigante como o Diogo. Mas este é o nosso tempo, esta é a gente que manda no nosso país.

E, no entanto, ninguém corporizou a ideia de uma Biblioteca Nacional, democrática e aberta a todos, como o Diogo. A Biblioteca Nacional será sempre como se o Diogo continuasse ali, naqueles corredores e naquele lugar (o Q9) que era quase sempre o dele.

Custa-me muito. Custa-me muito imaginar a minha vida sem a presença do Diogo, e a vida em geral sem ele. Viver é assistir à morte a fazer círculos concêntricos à nossa volta, cada vez mais estreitos, até chegar a nós. Hoje, com 54 anos, isso tornou-se ainda mais claro.

O Diogo faz parte da minha geografia íntima. O meu mundo era mais feliz e divertido com o Diogo. Mas o Diogo deixou-nos. Desvaneceu-se precipitadamente. A sua morte súbita significa que a minha vida se alterou drasticamente. Que os meses que aí vêm serão tempos de um poderoso e profundo trabalho de reconstrução interior.

Mais realidade que a da morte é impossível. A rotação imperturbável da morte, a indiferença do universo e da natureza pela nossa dor, a insignificância da nossa escala, a miragem da duração para lá da qual se ergue o vazio.

Nunca mais serei o mesmo. Nunca mais me sentirei completo. Perdi o meu amigo e o meu irmão mais velho e nada nem ninguém vai substituí-lo. É preciso repetir isto muitas vezes. Agora, mais do que nunca.

 

João Pedro George




domingo, 12 de abril de 2026

Diogo Ramada Curto, um amigo.

 


 

Durante anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.

Diogo Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo independentes.

Espírito livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima, possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de Brown.

Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos lhe devem muito nas suas carreiras académicas.

Por fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se, neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o seu nome.

Quanto a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades, classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite, recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós todos.       

 

                                                                                    António Araújo


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Pele escura, de Graça Castanheira.

 




O breve documentário de Graça Castanheira conta a história da visita de um pequeno grupo de pele escura que mora na Trafaria, ao Centro Cultural de Belém. Ironicamente e como se se tratasse de um espelho, a visita tinha por fim fazer com que o grupo assistisse ao próprio documentário acerca dessa mesma visita. Esta narrativa coloca um problema principal: o de saber como é que um grupo com origens africanas – que vive na periferia de uma cidade, sofre o estigma da discriminação racial e social e ao qual se pretende dar voz – se relaciona com o centro, sobretudo com as suas instituições culturais.

Trata-se de uma relação ou de um conjunto de relações que se encaixam, em parte, numa ideia bastante essencializada do contacto de culturas. Resta saber qual a margem que o próprio documentário cria para conceber relações que escapem ao previsível, sobretudo, a representações geradoras de tantos estereótipos.

Ao grupo periférico são atribuídas várias características externas, em parte baseadas, em atributos corporais: a pele escura como consta do título, uma linguagem própria, uma forma de andar e de dançar que funcionam também como um estereótipo identitário, o vibrar com a música cuja letra contém em si uma alusão ao giro africano, os inevitáveis cabelos afro, vestuário e calçado de marca e o recurso ao telemóvel e aos phones, enquanto apropriação dos atributos do centro, por parte de um grupo considerado periférico.

Aos marcadores corporais acabados de enunciar somam-se três diferentes tipo de denúncias. A primeira diz respeito à queixa acerca dos meios de transporte. São os horários dos barcos e dos comboios ou a própria precariedade do automóvel que parecem impor-se como uma barreira, difícil de transpor, entre o centro e a periferia, explicando também os atrasos com os quais o próprio grupo brinca no final do documentário. Uma barreira, claro está, que não afecta apenas o grupo de pele escura, mas todos aqueles que vivem na outra banda (o que constitui um modo de atenuar uma perspectiva essencialista, abrindo para outros posicionamentos sociais). As barreiras são tais que melhor seria, como é dito por José a um dos mais jovens actores, bastava vir a nado e atravessar em linha recta o Tejo.

A segunda das denúncias, que divide os protagonistas, diz respeito à necessidade de o grupo periférico ter de se deslocar a Lisboa, para assistir a um espectáculo cultural. Isto é, à projecção de um filme. Não teria sido melhor, pergunta Amara, que tudo se passasse ali, na Trafaria, no centro cultural ou no espaço da biblioteca? Pergunta a que ela própria responde, considerando que os outros – os “pulas”, ou “tugas” – não conseguiriam sequer lá chegar.

Uma terceira denúncia envolve uma queixa mais funda em relação ao modo como os outros, os “tugas”, se continuam a fazer representar pelo chamado Padrão dos Descobrimentos e continuam a ter uma visão celebrativa ou comemorativa do Império. Pior: se foram capazes, como afirma Amara, de mudar o nome da Ponte de Salazar para Sobre o Tejo, por que razão têm tanta dificuldade em apagar os nomes dos locais de celebração imperial? Ou, como sugere o Tio Joaquim, o cota, por que não passar a chamar, ao Padrão dos Descobrimentos, Museu da Kizomba? Nas palavras de uma das protagonistas, este é um “problema que estamos com ele” e, segundo o “cota”, está para durar e não se resolverá tão cedo.

Até aqui, os principais aspectos tendem a alinhar-se em termos de uma série de dicotomias, opondo nós – os periféricos de pele escura, da periferia – aos tugas que estão no centro, com os seus monumentos, memórias celebrativas do império e espectáculos, em centros com vocação para monopolizar as iniciativas culturais. Em face desta oposição entre duas culturas, a qual revela uma clara opressão e exclusão, porque não se revoltam os periféricos e de pele escura? A questão é retórica, porque é evidente não existirem, em nenhum momento do documentário, indícios de comportamentos de ruptura emancipadora. Nem sequer se coloca essa mesma questão.

Pelo contrário, o documentário parece conter em si uma série de propostas pedagógicas, mais conformistas, que quebram qualquer tipo de apelo à violência, procurando fazer valer uma visão mais eufemística do contacto entre culturas. Sem seguir a sequência da sua aparição no documentário, será possível argumentar que a obrigação da pequena actriz cumprir com os seus deveres escolares, antes de participar na visita, surge como um apelo directo à educação e à escola, enquanto instrumentos principais na criação de melhores condições de vida.

Depois, qual o significado da bandeira portuguesa, na casa de uma das mulheres que surge inicialmente com um vistoso cabelo afro? Mera cortina ou símbolo de uma luta pela inclusão com direitos plenos à cidadania portuguesa? Imagino que a sua utilização seja intencional, logo, o que está em causa é essa luta pelos direitos de cidadania, da qual fazem, constitucionalmente, parte os direitos à educação, saúde, justiça, salário digno, habitação, representação política plena, etc.

Há também que reflectir sobre o significado da primeira cena. Nela, um pescador branco, vindo de barco, entrega a dois jovens de origem africana um saco de peixe fresco. O pescador representa o valor do trabalho, mas também o gesto solidário com os jovens impecavelmente vestidos. Depois, todos os outros protagonistas de pele escura alinham as suas vozes, em relação à visita, com manifestações de lazer e iniciativas culturais, excluindo da sua representação as lutas quotidianas e as práticas laborais. Qual a intenção que se encontra por detrás desta exclusão tão marcada? A pretexto de querer intencionalmente dar voz ao grupo periférico de pele escura, fazendo com que todos se façam ouvir na chamada área da cultura, a sua representação acaba por ser amputada de uma ligação ao quotidiano e ao trabalho. Trata-se, reconheço, de uma crítica fácil, mas não significará esta mesma operação de exclusão um convite a uma visão estetizada de um grupo que é, à partida, considerado subalterno?

Para responder à última pergunta e perceber como pode uma representação pela imagem escapar ou não aos riscos de estetizar bairros pobres e grupos subalternos, vale a pena analisar toda uma série de diálogos que insinuam a ironia resignada, a alegria risonha e a solidariedade sentida na falta de dinheiro, e que não passa pela representação do modelo da família monoparental. Por outras palavras, o documentário reporta a uma economia moral dos subalternos, fundada no riso, na ironia e em sentimentos solidários de colaboração e entreajuda, bem como na representação de lindos corpos e caras. Onde fica, então, o sofrimento, a violência e a resistência em resposta às inúmeras formas de controlo e discriminação sofridas pelos subalternos?

Uma última palavra diz respeito ao tema da viagem, da periferia ou de fora para o centro. Trata-se de um velho tema da cultura ocidental. As Cartas Persas (1721) de Montesquieu são talvez uma das obras mais conhecidas deste tipo de procedimento da razão iluminista europeia. De facto, este documentário parece tributário desta linha crítica do pensamento ocidental que procura encontrar, na visão do outro, um espelho que nos permita ganhar distância e pormo-nos em causa a nós próprios?

Sem pôr em causa esta preocupação pelo espelho, sobretudo, quando este nos ajuda a ganhar distância e a conhecermo-nos melhor, não haverá outras formas – porventura mais eficazes e descentradas de nós próprios – de dar voz àqueles que não têm voz? Sem a pretensão de responder a uma questão que só quem domina a linguagem dos documentários poderá alcançar, não resisto – por saber que Graça Castanheira vem da Huíla – a citar aqui o testemunho exemplar de Pereira do Nascimento, um médico português de finais do século XIX, em Da Huilla às Terras do Humbe (Huíla, 1891). Eis o que pensavam os habitantes do Humbe acerca dos portugueses brancos, segundo o registo que publicou:

 Os brancos, na sua opinião, não passam de uns pobres diabos sem beira, nem eira, que não tendo gado nem plantações nas suas terras emigram para a África, onde passam vida errante (ova-kankala); vêm ao Humbe carregados de bugigangas, que lhes vendem a troco de gado, que enviam para as suas terras afim de sustentar os parentes, que não têm que comer, nem onde cair mortos. Dizem que nós temos habilidade para fazer coisas bonitas e boas, mas não sabemos criar gado nem plantar mantimentos, por isso que as nossas terras são áridas e secas, não têm pasto nem se prestam a ser cultivadas e para não morrermos à fome somos forçados a emigrar, onde, com o engodo nos artefactos que os seduzem, vamos vivendo à sua custa!

 

Diogo Ramada Curto 


(originalmente publicado aqui)

 





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O espólio de Lourenço.







 
Tenho o maior respeito pela figura de Eduardo Lourenço e pelo seu papel como crítico literário, filósofo, ensaísta da identidade portuguesa e dos seus labirintos da saudade. Mas não me parece que o Estado esteja em altura de gastar 100 mil euros para comprar o seu espólio, em vida.
 
Mesmo que o dinheiro ali estivesse, no final do ano, sem ser gasto, à mercê de um tal Fundo do Fomento Cultural da SEC. Mesmo que estivessem criadas as condições jurídicas para o inevitável gasto. Nada o justifica. Esta é uma questão política e uma decisão que reputo de errada. Tenho ainda esperanças que o Tribunal de Contas ou quem de direito não sancione tal processo.
 
A Biblioteca Nacional deixou praticamente de comprar livros, desde 2010. Todos os meses, em leilões e alfarrabistas, surgem impressos e manuscritos raros que não podem ser adquiridos. O estado de conservação dos livros, antigos e modernos, é uma tragédia. Já o disse e repito: só uma geração de bandalhos pode cometer um crime tão grave como o de deixar ao abandono tanto livro, com casulos de bibliófagos.
 
Pessoalmente, tenho vergonha e não me cansarei de denunciar como irresponsáveis os que nada fazem.

 
Mais. A Biblioteca Nacional poupa no aquecimento e, muitas vezes, está frio. Parte das luzes já foram desligadas. Construíram-se novas instalações que não são utilizadas. Os leitores compreendem e vestem mais uma camisola ou encostam-se mais às janelas, para melhorar a visibilidade. Todos os que trabalham na BN e que são merecedores do maior respeito são cada vez menos, a desdobrar-se num cada vez maior número de actividades, por turnos. E há quanto tempo é que os quadros de técnicos e bibliotecários não são renovados? Numa casa onde o testemunho tem de ser passado de geração em geração, a falta de renovação é grave.
 
No meio deste cenário calamitoso, em que leitores, bibliotecários (de uma extrema competência) e funcionários são enxovalhados, súbito a urgência emergiu: a compra do espólio de Eduardo Lourenço.

 
Que a Gulbenkian possa pagar a uma equipa para organizar o espólio em causa e gastar, como bem decidir, na catalogação e publicação das obras completas de um dos seus administradores, é prioridade que o comum dos cidadãos não poderá discutir. Tenho, aliás, esperança que sejam dados a outros espólios à guarda da BN, muitos deles doados ou em vias de tal acontecer (como talvez venha a suceder ao valiosíssimo espólio de David Mourão Ferreira), o mesmo.

 
Mas que o Estado, a SEC ou o Fundo de Fomento Cultural se sintam na obrigação de gastar 100 mil euros num espólio, de valor pecuniário muito duvidoso, que precisamos de saber em que condições foi avaliado e por quem, à luz de que regras de mercado, parece-me mais um sinal de bandalheira. Uma irresponsabilidade que nenhum exercício de canonização em vida pode justificar. Pelo menos Eduardo Lourenço, com a sua obra, não merecia ver-se envolvido em tamanha confusão. E, estou certo, recusaria emprestar o seu nome a uma política de afogadilho, determinada por circunstâncias do gastar à pressa. Tudo isto, num afã celebrativo que, acredito, só pode ser justificado por um propósito de compensar a incultura dos nossos dirigentes. Basta!
 
Diogo Ramada Curto