Mostrar mensagens com a etiqueta Cristo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cristo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Scorsese em estado de graça e para quem qualquer rosto humano tem um direito sobre nós.




Tudo terá começado em 3 de março de 2016, em Nova Iorque, um jesuíta e teólogo, Padre Antonio Spadaro, encontrou-se com Martin Scorsese em sua casa para discutir Silêncio, filme que o realizador italo-americano dedicou à perseguição aos jesuítas no Japão, e a relação do cineasta com a fé. Este livro compendia um conjunto de conversas sobre as motivações do cineasta, ele é questionado sobre a fé e a graça que, mais ou menos subtilmente, emergem das suas obras. O mínimo que se pode dizer do todo desta obra é que ficamos com o retrato de uma das principais figuras contemporâneas da sétima arte, Conversas Sobre a Fé, Casa das Letras, 2024.

Nesse primeiro encontro de 2016, Scorsese fala da sua juventude, era acólito e por vezes ao sair para a rua no fim da missa perguntava a si próprio: “Como é possível que a vida continue como se nada tivesse acontecido? Porque é que o mundo não é abalado pelo corpo e pelo sangue de Cristo?” Questão que o realizador tratou no cinema em filmes como O Touro Enraivecido, A Última Tentação de Cristo e o Silêncio. Padre e realizador irão encontrar-se durante o período da pandemia, falarão de pessoas e livros que influenciaram o realizador que continua obcecado em filmar sobre Jesus.

Fala-se inicialmente de Silêncio, dos jesuítas perseguidos no Japão. Scorsese é assumidamente católico, inquieta-o a questão da graça, algo acontece ao longo da vida e comenta: “Não se consegue ver através da experiência de outra pessoa, apenas da nossa. Por isso, pode parecer paradoxal, mas relacionei-me com o romance de Shūsaku Endō.” Contará ao entrevistador o que pensa das fascinantes e intrigantes personagens do romance, padres que perderam a sua fé, padres que descobriram o rosto de Cristo. Questionado se a compaixão é instinto ou humor, responde que a chave é a negação de nós mesmos, ele dá-se como obcecado pelo espiritual. “Estou obcecado com a questão do que somos. E isso significa olhar para nós de perto, para o bom e para o mau. Será que podemos cultivar o bem para que, num momento futuro da evolução da humanidade, a violência possa, possivelmente, deixar de existir? Mas, neste momento, a violência está cá. É importante mostrar isso. Para que não se cometa o erro de pensar que a violência é algo que os outros fazem.” Reflete demoradamente sobre o tempo da pandemia, os livros que releu, os filmes que viu e fala do que ressoou em si a mensagem do Papa Francisco:

“Durante muitos anos, tentei compreender como Jesus vive no mundo que o rodeia e como a sua presença pode viver em mim e ser expressa por mim. Durante muito tempo cometi o erro de pensar que estava a exprimir Jesus quando, na verdade, estava a estragar as coisas – era uma questão de orgulho e de ego, de me deixar levar pelo papel de grande realizador de cinema e pelo poder de fazer arte. Lendo o texto do Papa Francisco, fiquei entusiasmado.” E fala do seu passado e da sua juventude, em Little Italy¸ Nova Iorque, zona de crime organizado, frequentou uma escola católica, conheceu o padre Francisco Príncipe, influenciou-o muito. “Ele representava uma forma de pensar e uma forma de lidar com a vida que era muito, muito diferente do mundo cruel, duro e julgador que me rodeava. Olhava para nós e dizia: ‘Não têm de viver assim’.” Era uma época de movimentos de direitos civis e o padre Príncipe dera-lhe uma abertura para o mundo, teve um efeito poderoso sobre Scorsese. Pensou que estava destinado a seguir a vida sacerdotal, cedo descobriu que estava a tentar esconder-se da vida e do medo, apercebeu-se que queria estar com os outros, e então apareceu a paixão pelo cinema.

Há um outro momento decisivo na sua vida quando, em 1964, viu o filme Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini, o filme era para ele num planeta diferente, o rosto de Jesus aparecia nada que tinha visto antes. “Os outros filmes sobre Jesus que tinha sido feitos até essa altura eram muito, muito piedosos, e sempre que Jesus aparece é o centro das atenções em todos os sentidos. É destacado do resto da humanidade na sua maneira de falar, na sua maneira de se mover, na sua perfeição física e no enquadramento, na encenação, na encenação, na iluminação. Mantém uma longa tradição de representar Jesus na pintura de forma absolutamente idealizada. Mas o que Pasolini fez foi tornar Jesus um ser humano, uma pessoa, alguém que se pudesse conhecer e com quem se pudesse falar.”

Respondendo a comentários sobre os seus filmes lembra que A Última Tentação de Cristo toca em toda a iconografia da igreja. “Apercebi-me que tinha de ir mais longe na história de Jesus quando fiz este filme. Havia uma parte de mim que se sentia compelida a lidar com a iconografia – tinha de criar a crucificação, tinha de criar a ressurreição de Lázaro, tinha de criar o sermão da montanha, mas acho que essa não é realmente a história de Jesus.” E, mais adiante: “Jesus abraça toda a humanidade, e Jesus é realmente toda a humanidade. Mostra-nos a todos o caminho, a forma de viver, de lidar com a raiva, a vingança e a retribuição, com o amor, o perdão, a redenção e tudo o mais que existe em nós e entre nós.”

E conta-nos o que o acicatou a filmar Assassinos da Lua das Flores. “Por volta do início do século XX, os Osage descobriram petróleo na sua reserva. Rapidamente, tornaram-se o povo mais rico do mundo. Depois, como é óbvio, os brancos especuladores e vigaristas e oportunistas e ladrões e assassinos desceram. Sentiram o cheiro do dinheiro fácil. Houve um esforço concentrado para matar praticamente toda a comunidade Osage em troca do dinheiro do petróleo, por todos os meios imagináveis: tiroteios, atentados à bomba, a bebidas alcoólicas e envenenamento lento.” Confessa que procura compreender e aceitar a violência que existe em nós, procura aprender sobre a vida interior dos outros observando o seu comportamento exterior. Volta a falar sobre a hecatombe que caiu sobre os Osage: “O reinado de terror dos Osage foi uma questão de poder e ganância. Foi muito fácil para Bill Hale e todos os outros assassinos desumanizarem os Osage, mas estes homens e mulheres não foram assassinados por serem Osage, foram assassinados pelo seu dinheiro. No final, os assassinos não escaparam com nada a não ser dinheiro. Os Osage têm a sua cultura extraordinária, agora em processo de renascimento e reconstrução.

E Scorsese despede-se deixando um argumento para um possível filme sobre Jesus, belíssimo texto a coroar esta longa conversa sobre a fé, medos e inspirações, sempre presentes no cinema de um dos maiores realizadores do nosso tempo. 


                                                                        Mário Beja Santos



 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Cristo com carabina ao ombro.

 







Cristo com carabina ao ombro, por Ryszard Kapuściński

 

Mário Beja Santos

 

Reconhecido por vozes autorizadas como um dos grandes mestres do jornalismo moderno, repórter empolgante e dotado de um poder descritivo fractal que agarra o leitor do princípio ao fim, em Cristo com Carabina ao Ombro, Livros do Brasil, 2021, de Ryszard Kapuściński pode ser agora apreciado de um trabalho que teve a sua primeira edição polaca em 1975 e que nos leva a três cenários distintos, marcantes na época e que desgraçadamente continuam atuais: o conflito israelo-palestiniano, as ditaduras da América Latina e a luta de libertação em Moçambique.

O repórter viaja acompanhado por três feddayin (combatentes da liberdade), muitos jovens, trajam fardas de cotim e empunham metralhadoras, chegam a Rashidyia, esta cheira a laranjas e a sangue. “Um dos explosivos atingiu um camião que transportava laranjas; assim, líquidos dourados e aromáticos jorram pela rua principal. Perto, ao pé de um casebre, está sentado um velho árabe que parece petrificado no seu silêncio. Daquilo que ainda ontem era a sua casa, não restou mais do que o chão e um pedaço do muro. Da família não sobreviveu ninguém”. Rashidyia é um dos campos palestinos no Líbano. Percorrem-se ruínas e o jornalista interroga a luta destes palestinos, é um conflito com muita história, arredondando números, em 1930, escreve o autor, o governo britânico conclui que a Palestina era demasiado pequena e que, consequentemente, não podia acolher mais judeus porque não havia terras livres. Mas estamos a falar de 200 mil judeus, e nos anos 1970 eram quase 3 milhões. Há naturalmente um problema de espaço e as vitórias militares sobre os Árabes geraram a ambição de um grande império. A opinião pública mundial desconhece que a imigração judaica para a Palestina não se realizou só à custa dos Palestinos, mas também à custa dos judeus da Palestina. “Os judeus locais lembravam-se de que outrora a Palestina era uma terra próspera onde conviviam Árabes, judeus e cristãos e onde não passava pela cabeça de ninguém disparar nas costas do vizinho. Outrora, cada comunidade guardava os seus templos e havia espaço para todos os deuses. Um milhão de palestinos teve de abandonar a sua Pátria”. E descrevem-se os campos de refugiados e a vontade indómita do retorno à sua terra. Viaja-se pela História de um conflito, lembra-se o exército clandestino judaico, o Haganah e a sua organização terrorista Palmach e uma outra mais terrorista, a Irgun, geraram matanças na população árabe e não pouparam os britânicos, era necessário expulsar os Palestinos. E vem uma observação que tem premente atualidade: “Se o mundo não interferir, nenhuma das partes vai terminar esta guerra. Há demasiado ódio, demasiada morte, demasiada desgraça, e a memória está demasiado viva. Trata-se de um pequeno pedaço de terra, difícil de encontrar no mapa-mundo”. E viaja-se pela complexidade das alianças entre árabes, a Jordânia fora cruel com os Palestinos, sonharam incluir a Palestina dentro do seu reino. A reportagem continua por todo este calvário, fala-se da Batalha dos Montes Golã e questiona-se porque é que os árabes perderam a guerra em 1967, procura-se uma explicação: “Em Israel todos participam na guerra, nos países árabes é só o Exército. Em Israel, quando começar a guerra, todos vão para a frente de combate e a guerra civil para. Na Síria, ao contrário, muitos ficaram a saber da guerra de 1967 só quando acabou, ainda que a Síria tenha perdido uma zona tão estrategicamente importante como os Montes Golã. A Síria estava a perder os Montes Golã, e no mesmo dia, à mesma hora, a vinte quilómetros de distância, os cafés em Damasco estavam cheios de clientes, havendo gente a deambular, apenas preocupada em encontrar uma mesa livre”. Um repórter que nos faz compreender a germinação do imperialismo israelita que ninguém parece estar em condições de travar.

Já estamos na América Latina e o repórter justifica o título da sua obra: “Pouco depois da morte de Che Guevara, o pintor revolucionário argentino Carlos Alonso pintou um quadro que imediatamente se tornou famoso em toda a América Latina: a figura de um Cristo de carabina ao ombro. O quadro de Alonso converteu-se desde então num símbolo artístico do guerrilheiro, do homem que combate a violência e a arbitrariedade na sua luta por um mundo diferente, justo e bom para todos os seres humanos”. É uma reportagem que pode ser vista como uma parada de horrores, primeiro na Bolívia, com a sua instabilidade, prisões, execuções, golpes de Estado, os militares a derrubarem-se uns aos outros, uma degenerescência que lembra o fim do Império Romano. Passamos para outra atmosfera ditatorial, a ilha de S. Domingos, dois ditadores e dois monstros onde 90% da população vive na mais profunda miséria e ignorância. Depois El Salvador e a seguir os crimes abomináveis da Guatemala onde os EUA sempre tiveram o descaro de perseguir quem contraria o império bananeiro da United Fruit. Se ainda houvesse dúvidas sobre a abjeta interferência norte-americana nos assuntos internos da América Latina é só estudar o que se passa na Guatemala, ainda recentemente o romancista Vargas Llosa lhe dedicou um pungente romance ficcional Tempos Duros. Uma pequena água-forte do autor: “A Guatemala é um país governado por uma camarilha de coronéis, já que durante a revolução anularam o grau de general. No Exército, há um coronel por trinta soldados. A Embaixadas dos Estados Unidos ocupa o lugar supremo do poder, depois vem o Conselho de Coronéis, e o governo ocupa o terceiro lugar. Qualquer coronel gostava de ser presidente, devido ao prestígio e ao salário alto. O ordenado anual do Presidente da Guatemala é de um milhão e 94 mil dólares, sem contar com outras regalias, mais ou menos oficiais, e um enorme subsídio de representação (no mesmo país, os rendimentos de um camponês rondam entre os 50 e 80 dólares anuais”. E observa o que espera um jovem revolucionário neste canto do mundo: “Uma pessoa jovem, na América Latina, cresce rodeada de um mundo corrupto. É o mundo da política exercida pelo dinheiro e para o dinheiro, um mundo de demagogia desenfreada, um mundo de assassínios e de terror policial, um mundo da plutocracia prolixa e despiedada, de uma burguesia ávida de tudo, de exploradores cínicos, novos ricos depravados e vazios. Um jovem revolucionário rejeita tudo isto, pretende destruir esse mundo, mas antes de o conseguir quer contrapor-lhe um mundo diferente, limpo e honesto, e arrisca a sua própria vida”.

Estamos agora em Dar es Salaam, 1962, o repórter encontra-se com Joaquim Chissano e Eduardo Mondlane, fala-se da independência de Moçambique, das diferentes fações ligadas à libertação, faz-se o historial do início da guerra e das batalhas da FRELIMO. E assim se despede, Moçambique já é independente: “Revi as fotografias de Lourenço Marques. Numa delas, dois inimigos de ontem, um soldado português e um guerrilheiro da FRELIMO, patrulham juntos a cidade. Examino os dois rapazes e vejo que o soldado tem botas e o guerrilheiro também já usa botas. E, de repente, pensei que há no mundo coisas grandes, e que é magnífico que, depois de anos de se andar descalço, chega afinal o dia em que se já se pode calçar sapatos e caminhar pela terra sem medo de deixar rasto”.

De leitura obrigatória.

 

 





sexta-feira, 2 de abril de 2021

Sexta-Feira Santa.

 

Antes de o sabermos de saber-ensinado, já o sabemos de saber-sentido, intuído na voz de Dietrich Fischer-Dieskau a cantar “Mache dich, mein Herze, rein", da Paixão Segundo S. Mateus, de J. S. Bach.  

Não é num sepulcro de pedra que Jesus vai dormir para sempre nesta ária do enterro. É no coração de um ser humano. É num coração humano que vai descansar e encontrar repouso. É cantada, por isso, como uma canção de embalar. Não sei se mais alguém a terá cantado assim, com tanta serenidade e doçura.

Aqui numa gravação de 1959 com a Munich Bach Orchestra, dirigida por Karl Richter






Manuela Ivone Cunha




 




domingo, 12 de abril de 2020

O Blood Book (só porque é Páscoa).



















Porque é Páscoa, só porque é Páscoa, lembrei-me de mostrar o Blood Book (notícia aqui). Vi-o pela primeira vez há um par de meses, em Madrid, numa edição castelhana, Libro Victoriano de la Sangre. Fiquei logo deslumbrado, pois o livro, de facto, é uma preciosidade gótica e gore com recortes assombrosos, citações da Bíblia, um universo sem fim, coagulante. Mais pasmado fiquei quando soube que este livro pertenceu a Evelyn Waugh e que só isso o livro da destruição – como sucedeu a tantos e tantos livros de recortes por esse mundo fora, Portugal incluído. Mas quanto a este podemos desfrutá-lo por inteiro, folha a folha, a pingar de sangue, aqui.

























terça-feira, 10 de março de 2020

A cadência da decadência.


 
 
Goste-se ou não (e já me abriram os olhos para ele ser um bocadito aldrabão), Michel Onfray produziu um importante livro, este Decadência. Uma certa diatribe anticristã, sem dúvida, ou não fosse ele o autor do Tratado de Ateologia, mas as páginas dedicadas a São Paulo, mesmo com todos todinhos os devidos descontos, obrigaram-me a pensar e repensar a figura do santo de Damasco – e, com ela, os fundamentos da moral sexual católica, cuja origem está mais em São Paulo do que em Cristo, como já sabíamos, mas agora somos relembrados. Já o capítulo sobre a patrística é, digamos, chato como tudo, mas as páginas sobre Cristo e São Paulo merecem leitura crítica, sem dúvida alguma.
 








 
 
 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Colossal.


 
 
 
Há gente que gosta de ler intrigas policiais, histórias muito intrincadinhas que metem fragmentos bíblicos do século I, um museu em Washington financiado por milionários evangélicos, roubos e comércio de obras de arte, a Christie’s, um académico de Oxford, papiros e máscaras mortuárias egípcias, manuscritos medievais, revistas académicas e muito mais. Para essa gente, para essa gente, repito, recomendo muito, muitíssimo, a fabulosa reportagem do The Guardian desta semana. Colossal.  
 
 
 
 
 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Na Cartuxa de Burgos.


 







 




 
Na Cartuxa de Burgos:
 
a cruel Isabel de Portugal que fez santa Beatriz da Silva
 
 
 
 
 
 
 
Última paragem em Burgos. É suficientemente longe da cidade para podermos dizer que saímos para uma dimensão distinta, quase para outro tempo. Não fosse algum excesso de merchandising e poderíamos jurar que os frades da ordem fundada por São Bruno estariam ali perfeitamente arredados do século XXI, como a rígida regra de quase eremitismo obrigaria.
 
A Cartuxa de Santa María de Miraflores é visita obrigatória, seja pelas extraordinárias peças de arte, seja pela história dos ínclitos ossos que alberga e que, uma vez mais, sublinham laços castelhanos com um Portugal que tão depressa era inimigo, como aliado e parente próximo.
 
No meio de um bosque, os frades cartuxos continuam a custodiar com o seu silêncio e a sua oração a memória do fundador do mosteiro, o Rei Juan II de Castela e Leão (1405-1454), que doou à ordem um dos seus palácios de caça e escolheu o local para ser sepultado. Mas a construção do actual edifício e o seu embelezamento artístico remontam ao reinado da filha do fundador, Isabel, a Católica, que fez deste panteão dos seus pais um monumento para a sua própria afirmação política num país marcado pela Guerra da Sucessão que a opôs aos partidários da legítima herdeira do trono, Juana, a Beltraneja ou A Excelente Senhora, como ficaria conhecida entre nós.  
 
A traça foi do arquitecto da vizinha Catedral de Burgos, Juan de Colonia, embora à semelhança da sé burgalesa a conclusão dos trabalhos tenha cabido ao seu filho, Simón. A entrada principal do blogue Viajar con el Arte sobre a Cartuxa de Miraflores explica em pormenor a distribuição dos monges cartuxos pelos vários espaços do mosteiro e refere as regras da ordem de São Bruno e a forma como marcaram o desenho e a construção.
 
A altura da nave gótica marca o exterior, elevando-se sobre o sóbrio conjunto medieval. Na porta exterior, recebem-nos as armas conjuntas de Castela e de Portugal, que se repetem lá dentro na pedra, na talha e nos vitrais.
 











 
Juan II casou duas vezes, mas apenas a segunda mulher o acompanha na eternidade terrena. Da primeira mulher, Maria de Aragão, que lhe deu um filho rei, Enrique IV, o Impotente, nem sinal. Sem surpresa, é a mãe de Isabel, a Católica, Isabel de Portugal, que estava ainda viva quando lhe preparavam o perpétuo descanso, que jaz a seu lado em esplendor figurado, já que a realidade óssea será bastante menos notável. O túmulo estava pronto em 1493 e Isabel morreu apenas em 1496, quarenta e dois anos depois do marido e apenas seis anos antes da filha – contudo, não teve oportunidade de o ver.
 
Numa espécie de vestíbulo, um novo pórtico de acesso ao pátio, com as armas de Castela e Leão e a Banda Real de Castela, o distintivo militar dos Reis de Castela, que identificava a sua posição em batalha, dois dragonetes sobre uma banda; o mesmo símbolo que Francisco Franco, Generalíssimo e Caudilho de Espanha, escolheria cinco séculos depois como seu símbolo pessoal. Os mesmos escudos repetem-se no portal da igreja, presidido por uma Pietá num pátio modesto e despretensioso, de cuja arcada se acede igualmente a uma pequena e escura capela com uma belíssima imagem do fundador da Ordem, São Bruno.
 
Ao cruzar o pórtico, deparamo-nos com uma sucessão de obstáculos que enfatiza a reclusão dos cartuxos: uma segunda porta, depois da qual podiam estar todos os fiéis; uma grade, depois da qual apenas podiam estar os irmãos leigos; uma porta com a inscrição “Felix Coeli Porta” entre dois altares, para além da qual só os monges podiam estar, na proximidade do céu.  Em muitos mosteiros cartuxos, os visitantes continuam a ficar à porta, longe do céu. Em Burgos, os monges continuam recolhidos, mas o acesso ao melhor que guardam foi felizmente permitido. Ao cruzarmos a porta deparamo-nos com um grandioso altar, de um certo barroquismo gótico, do melhor que o gótico flamejante nos deixou.
 
Tal como o retábulo da Capela da Conceição da Catedral, é obra do mestre Gil de Siloé, que o realizou entre 1496 e 1499, já depois de concluídos os túmulos. É todo ele um excesso, um contraste com a sobriedade gótica do edifício, sobretudo na profusão iconográfica. Cada escultura, cada cena bíblica parece lutar por ter um pouco de protagonismo em torno da figura central do Crucificado, que rasga o altar do ponto de vista cromático, com as carnações ensanguentadas a destacarem-se notoriamente dos outros elementos.
 
O que mais espanta é a geometria a que obedece a configuração do retábulo. À volta do Cristo há um grande círculo de anjos, dentro do qual cabem mais quatro pequenos círculos com a representação de diferentes passos da Paixão – Cristo no Horto das Oliveiras, a Flagelação, Cristo a caminho do Calvário e uma Pietá. Fora do grande círculo de anjos, outros quatro círculos, com os quatro evangelistas.
 
Há um certo caos ordenado, porventura representação do lema da Ordem: “Stat Crux dum volvitur orbis" – A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua órbita. Assim é no retábulo, em que o único elemento estável é a cruz, enquanto o resto parece girar à sua volta. É inequívoco, de resto, que o altar é um hino ao símbolo da Ordem dos Cartuxos, uma inspiração directa para o trabalho de Siloé. Tal como ali, a cruz assenta num globo; aqui os anjos substituem-se às estrelas.
 
Além da magnífica expressão do Crucificado sobre o qual figura um belo pelicano eucarístico, há um detalhe surpreendente que merece destaque, que é a presença de uma rara representação da Trindade. Deus Pai coroado com um triregnum sustém o braço direito da Cruz. A surpresa vem no outro braço, uma vez que Gil de Siloé deu forma humana ao Espírito Santo, habitualmente representado como uma pomba. 
 
Nos extremos do terço inferior do retábulo vem a celebração do fundador e da sua segunda mulher. A um lado está Juan II, coroado, representado a rezar e protegido por Santiago; sobre ele o escudo de Castela e Leão. No lado oposto, Isabel de Portugal é representada vestindo ricamente e a rezar, tendo por trás Santa Isabel, sua padroeira, e um pequeno São João Baptista; por cima, o escudo composto de Castela e Leão e de Portugal, o mesmo que nos recebeu à porta.
 
 
 




 
Isabel era filha do Infante D. João de Portugal, o penúltimo da Ínclita Geração, e de sua mulher (e sobrinha) D. Isabel, filha do primeiro Duque de Bragança. A Rainha era, assim, simultaneamente neta e bisneta do Rei D. João I, o Mestre de Avis.
 
A sua chegada à corte de Castela em 1447 está associada a uma história reveladora do génio da jovem rainha portuguesa. Enciumada por uma das donzelas do séquito que a acompanhou de Portugal e que a ultrapassava em formosura, a crudelíssima rainha encerrou-a num baú com o intuito de que ali morresse à fome. A jovem nobre era D. Beatriz de Meneses da Silva, filha do Alcaide de Campo Maior. Ao terceiro dia, questionada sobre o paradeiro da jovem e num assomo de arrependimento, a Rainha reabriu o baú, para descobrir que a jovem tinha sobrevivido.
 
A bela D. Beatriz, que rezara à Imaculada Conceição e obtivera dela a salvação, perdoou a Rainha e encerrou-se num convento em Toledo, cobrindo para sempre o rosto. O seu objectivo era, contudo, o de formar a sua própria Ordem, conforme lhe pedira a Virgem. Foi a Rainha Isabel, a Católica, ainda em vida da mãe e certamente em reparação dos pecados desta, que exerceu a melhor pressão junto do Papa Inocêncio VIII para que este aprovasse a Ordem da Imaculada Conceição, que sobrevive até aos dias de hoje, com as suas Irmãs Concepcionistas, que continuam a vestir como D. Beatriz decidiu: túnica e escapulário brancos e capa azul. O Papa Paulo VI canonizou-a em 1976 como Santa Beatriz da Silva, acrescentando a lista de santos portugueses.
 
 















 
Absolvidos em vida, os restos de Isabel jazem na cripta da Cartuxa de Burgos, sob o esplendoroso túmulo. Obra prima de Gil de Siloé, um dos maiores mestres escultores do seu tempo, foi realizado em alabastro entre 1485 e 1493, por encomenda de Isabel, a Católica. Colocado no presbitério, surpreendentemente próximo do retábulo, o monumento funerário tem a forma de uma estrela de oito pontas e de tal forma grandioso que se intui a mensagem de poder e de força que almejava.
 
Juan II e Isabel são representados em magnificência régia, em cima da estelar estrutura, rodeados pelos evangelistas e guardados por figuras de monges cartuxos em oração. Nos dezasseis lados do poliedro, sucedem-se – provavelmente fora dos locais originais – as representações das virtudes, de figuras bíblicas, de animais mitológicos e das armas do casal real, no meio de decorações florais executadas com primor no alabastro por Siloé e a sua oficina.
 
A Rainha lê um livro de horas, sugerindo uma existência mais plácida e pia do que a que efectivamente teve. Com efeito, o génio de Isabel de Portugal, apesar do arrependimento no episódio com Santa Beatriz da Silva, ter-se-á manifestado noutras ocasiões.
 
É apontada como responsável pela queda do poderoso Condestável de Castela e favorito do seu marido, D. Álvaro de Luna. Viúva muito jovem e mãe do putativo herdeiro do Trono, o Infante Alfonso, Isabel terá orquestrado a resistência ao enteado, o Rei Enrique IV, que redundaria numa Guerra de Sucessão com profundas consequências nos dois lados da raia – na realidade a criação de um novo, grande e poderoso país, a Espanha. Esta guerra e a questão dinástica subjacente explicam a monumentalidade dos túmulos reais da Cartuxa de Burgos, o de Juan II e Isabel e o do seu filho, o Infante Alfonso.
 
Juan II morreu em 1454, deixando três filhos: um do primeiro casamento, Enrique; dois do segundo, Alfonso e Isabel. No ano anterior, o filho primogénito obtivera a anulação do primeiro casamento por falta de consumação... ao fim de 13 anos. Já rei, em 1455, Enrique IV casou com D. Joana de Portugal, sua prima, filha póstuma do Rei D. Duarte e irmã de D. Afonso V, ainda menor e sob a regência do Duque de Coimbra. Ao fim de 7 anos de casamento, em 1462, nasceu a primeira e única filha do casal, a quem deram o nome da mãe. Mas as dúvidas sobre a paternidade da Infanta Juana, Princesa das Astúrias e herdeira do trono, haviam de a acompanhar toda a vida.
 
A suspeita de que o Rei havia obrigado a mulher a engravidar do seu valido, D. Beltrán de la Cueva, fizeram que o mundo a viesse a conhecer como a Beltraneja, nome depreciativo para quem deveria ter sido Rainha de Castela e Leão. A historiografia é relativamente unânime na impossibilidade física de Beltrán ser o pai de Juana, como de resto a Rainha D. Juana e o próprio D. Beltrán juraram solenemente. Porém, logo após o nascimento de Juana, parte da nobreza castelhana passou a apoiar o jovem irmão do Rei Enrique, o Infante Alfonso, filho de Juan II e de Isabel de Portugal, que passou a ser designado como Alfonso XII de Castilla e León e chegou a ter moeda cunhada em seu nome. Contudo, a morte levou-o logo em 1468, aos 15 anos.  
 
Mais tarde, a irmã deu-lhe uma sepultura à altura de quem não foi, mas podia ter sido rei. O túmulo de alabastro de Alfonso, igualmente obra de Gil de Siloé, complementa o dos seus pais. O jovem pretendente, rei aclamado e falsamente jurado em Ávila, é representado vestindo ricamente, ainda que sem atributos reais, e em oração, diante de um genuflexório. Parte dos rendilhados de alabastro perdeu-se, mas o túmulo é obra profusamente decorada e preenche a parede lateral ao túmulo de Juan II e Isabel de forma belíssima.
 
A confusão da sucessão de Enrique IV instalou-se em Castela. Mesmo que Juana fosse sua filha, Enrique foi absolutamente impotente como rei, pelo menos na sua elementar tarefa de assegurar a dinastia e a sucessão pacífica e ordenada. Pressionado pela nobreza castelhana, tentou orquestrar vários casamentos quer para Juana, quer para a irmã Isabel, a quem chegou a reconhecer como Princesa das Astúrias e herdeira do trono. Quando morreu, em Dezembro de 1474, a guerra civil era praticamente inevitável, com marcado tom internacional: Isabel tinha casado à revelia do irmão com Fernando, herdeiro da coroa de Aragão; Juana casaria logo depois com o seu tio, o Rei D. Afonso V de Portugal, que se proclamou Rei Consorte de Castela e liderou uma invasão lusa e caótica para afirmar a sua Rainha. Cada uma das pretensões acarretava a possibilidade de uma união dinástica.
 
A Guerra da Sucessão Castelhana, como ficou conhecida, saldou-se na vitória dos partidários de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, que conquistariam glória política e a união da Espanha sob o nome de Reis Católicos. Juana, exilada em Portugal, sem efeito o seu casamento com o derrotado tio Afonso V, professou no Convento de Santa Clara em Coimbra e por decreto passou a ser conhecida como A Excelente Senhora, vivendo uma existência discreta e recusando parte política activa. Conscientes de que a sombra de ilegitimidade não largaria Isabel, os seus partidários tentaram erradicar a memória de Juana. O terramoto de Lisboa ajudou, já que os seus restos estão entre os perdidos para sempre em 1755, destruído que foi o Convento de Santa Clara, que os albergava, cerceando – como bem refere a página portuguesa da Wikipedia – a hipótese de uma análise de ADN que tiraria dúvidas sobre a excelência régia do seu sangue.
 
Melhor sorte tiveram os restos de Juan II e de Isabel de Portugal. Com esta encomenda sublime e politicamente astuta, conquistaram oração pelas suas almas através dos séculos e a sua filha Isabel afirmou a sua legitimidade como Rainha de Castela e de Leão. Parte substancial do sucesso é da campanha de descredibilização de Juana como legítima herdeira do trono, à qual não foi alheia a vontade de Isabel de Portugal de ver um dos filhos reinar, em vez do enteado. E esta vontade mudou mais do que a vida da filha: criou um novo reino e mudou a história da Europa. Pouco proveito tirou disso a cruel rainha portuguesa, contudo. Profundamente perturbada com a morte do filho, permaneceu recolhida num convento em Arévalo até à sua morte, demente, recebendo a visita ocasional da filha e da neta, outra Juana, que lhe herdaria os genes e ficaria conhecida para a eternidade como a Louca.


 
 
Ademar Vala Marques