Na Cartuxa de Burgos:
a cruel Isabel
de Portugal que fez santa Beatriz da Silva
Última
paragem em Burgos. É suficientemente longe da cidade para podermos dizer que
saímos para uma dimensão distinta, quase para outro tempo. Não fosse algum
excesso de merchandising e poderíamos
jurar que os frades da ordem fundada por São Bruno estariam ali perfeitamente
arredados do século XXI, como a rígida regra de quase eremitismo obrigaria.
A
Cartuxa de Santa María de Miraflores é visita obrigatória, seja pelas extraordinárias
peças de arte, seja pela história dos ínclitos ossos que alberga e que, uma vez
mais, sublinham laços castelhanos com um Portugal que tão depressa era inimigo,
como aliado e parente próximo.
No
meio de um bosque, os frades cartuxos continuam a custodiar com o seu silêncio
e a sua oração a memória do fundador do mosteiro, o Rei Juan II de Castela e
Leão (1405-1454), que doou à ordem um dos seus palácios de caça e escolheu o local
para ser sepultado. Mas a construção do actual edifício e o seu embelezamento
artístico remontam ao reinado da filha do fundador, Isabel, a Católica, que fez deste panteão dos
seus pais um monumento para a sua própria afirmação política num país marcado
pela Guerra da Sucessão que a opôs aos partidários da legítima herdeira do
trono, Juana, a Beltraneja ou A Excelente
Senhora, como ficaria conhecida entre nós.
A
traça foi do arquitecto da vizinha Catedral de Burgos, Juan de Colonia, embora
à semelhança da sé burgalesa a conclusão dos trabalhos tenha cabido ao seu
filho, Simón. A entrada
principal do blogue Viajar con el Arte
sobre a Cartuxa de Miraflores explica em pormenor a distribuição dos
monges cartuxos pelos vários espaços do mosteiro e refere as regras da ordem de
São Bruno e a forma como marcaram o desenho e a construção.
A
altura da nave gótica marca o exterior, elevando-se sobre o sóbrio conjunto
medieval. Na porta exterior, recebem-nos as armas conjuntas de Castela e de
Portugal, que se repetem lá dentro na pedra, na talha e nos vitrais.
Juan
II casou duas vezes, mas apenas a segunda mulher o acompanha na eternidade
terrena. Da primeira mulher, Maria de Aragão, que lhe deu um filho rei, Enrique
IV, o Impotente, nem sinal. Sem
surpresa, é a mãe de Isabel, a Católica,
Isabel de Portugal, que estava ainda viva quando lhe preparavam o perpétuo
descanso, que jaz a seu lado em esplendor figurado, já que a realidade óssea
será bastante menos notável. O túmulo estava pronto em 1493 e Isabel morreu
apenas em 1496, quarenta e dois anos depois do marido e apenas seis anos antes
da filha – contudo, não teve oportunidade de o ver.
Numa
espécie de vestíbulo, um novo pórtico de acesso ao pátio, com as armas de Castela
e Leão e a Banda Real de Castela, o distintivo militar dos Reis de Castela, que
identificava a sua posição em batalha, dois dragonetes sobre uma banda; o mesmo
símbolo que Francisco Franco, Generalíssimo e Caudilho de Espanha, escolheria cinco
séculos depois como seu símbolo pessoal. Os mesmos escudos repetem-se no portal
da igreja, presidido por uma Pietá num pátio modesto e despretensioso, de cuja
arcada se acede igualmente a uma pequena e escura capela com uma belíssima
imagem do fundador da Ordem, São Bruno.
Ao
cruzar o pórtico, deparamo-nos com uma sucessão de obstáculos que enfatiza a
reclusão dos cartuxos: uma segunda porta, depois da qual podiam estar todos os
fiéis; uma grade, depois da qual apenas podiam estar os irmãos leigos; uma porta
com a inscrição “Felix Coeli Porta” entre dois altares, para além da qual só os
monges podiam estar, na proximidade do
céu. Em muitos mosteiros cartuxos,
os visitantes continuam a ficar à porta, longe do céu. Em Burgos, os monges continuam recolhidos, mas o acesso ao
melhor que guardam foi felizmente permitido. Ao cruzarmos a porta deparamo-nos
com um grandioso altar, de um certo barroquismo gótico, do melhor
que o gótico flamejante nos deixou.
Tal
como o retábulo da
Capela da Conceição da Catedral, é obra do mestre Gil de Siloé, que
o realizou entre 1496 e 1499, já depois de concluídos os túmulos. É todo ele um
excesso, um contraste com a sobriedade gótica do edifício, sobretudo na profusão
iconográfica. Cada escultura, cada cena bíblica parece lutar por ter um pouco
de protagonismo em torno da figura central do Crucificado, que rasga o altar do
ponto de vista cromático, com as carnações ensanguentadas a destacarem-se
notoriamente dos outros elementos.
O
que mais espanta é a geometria a que obedece a configuração do retábulo. À
volta do Cristo há um grande círculo de anjos, dentro do qual cabem mais quatro
pequenos círculos com a representação de diferentes passos da Paixão – Cristo
no Horto das Oliveiras, a Flagelação, Cristo a caminho do Calvário e uma Pietá.
Fora do grande círculo de anjos, outros quatro círculos, com os quatro
evangelistas.
Há
um certo caos ordenado, porventura representação do lema da Ordem: “Stat Crux
dum volvitur orbis" – A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua
órbita. Assim é no retábulo, em que o único elemento estável é a cruz, enquanto
o resto parece girar à sua volta. É inequívoco, de resto, que o altar é um hino
ao símbolo da Ordem dos
Cartuxos, uma inspiração directa para o trabalho de Siloé. Tal como
ali, a cruz assenta num globo; aqui os anjos substituem-se às estrelas.
Além
da magnífica expressão do Crucificado sobre o qual figura um belo pelicano eucarístico, há um detalhe surpreendente que merece
destaque, que é a presença de uma rara representação da Trindade. Deus Pai
coroado com um triregnum sustém o
braço direito da Cruz. A surpresa vem no outro braço, uma vez que Gil de Siloé
deu forma humana ao Espírito Santo, habitualmente representado como uma
pomba.
Nos
extremos do terço inferior do retábulo vem a celebração do fundador e da sua
segunda mulher. A um lado está Juan II, coroado, representado a rezar e protegido
por Santiago; sobre ele o escudo de Castela e Leão. No lado oposto, Isabel de
Portugal é representada vestindo ricamente e a rezar, tendo por trás Santa
Isabel, sua padroeira, e um pequeno São João Baptista; por cima, o escudo
composto de Castela e Leão e de Portugal, o mesmo que nos recebeu à porta.
Isabel
era filha do Infante D. João de Portugal, o penúltimo da Ínclita Geração, e de
sua mulher (e sobrinha) D. Isabel, filha do primeiro Duque de Bragança. A
Rainha era, assim, simultaneamente neta e bisneta do Rei D. João I, o Mestre de
Avis.
A
sua chegada à corte de Castela em 1447 está associada a uma história reveladora
do génio da jovem rainha portuguesa. Enciumada por uma das donzelas do séquito
que a acompanhou de Portugal e que a ultrapassava em formosura, a crudelíssima rainha
encerrou-a num baú com o intuito de que ali morresse à fome. A jovem nobre era D.
Beatriz de Meneses da Silva, filha do Alcaide de Campo Maior. Ao terceiro dia,
questionada sobre o paradeiro da jovem e num assomo de arrependimento, a Rainha
reabriu o baú, para descobrir que a jovem tinha sobrevivido.
A
bela D. Beatriz, que rezara à Imaculada Conceição e obtivera dela a salvação,
perdoou a Rainha e encerrou-se num convento em Toledo, cobrindo para sempre o
rosto. O seu objectivo era, contudo, o de formar a sua própria Ordem, conforme
lhe pedira a Virgem. Foi a Rainha Isabel, a
Católica, ainda em vida da mãe e certamente em reparação dos pecados desta,
que exerceu a melhor pressão junto do Papa Inocêncio VIII para que este
aprovasse a Ordem da Imaculada Conceição, que sobrevive até aos dias de hoje,
com as suas Irmãs Concepcionistas, que continuam a vestir como D. Beatriz
decidiu: túnica e escapulário brancos e capa azul. O Papa Paulo VI canonizou-a
em 1976 como Santa Beatriz da Silva, acrescentando a lista de santos
portugueses.
Absolvidos
em vida, os restos de Isabel jazem na cripta da Cartuxa de Burgos, sob o
esplendoroso túmulo. Obra prima de Gil de Siloé, um dos maiores mestres
escultores do seu tempo, foi realizado em alabastro entre 1485 e 1493, por
encomenda de Isabel, a Católica. Colocado
no presbitério, surpreendentemente próximo do retábulo, o monumento funerário
tem a forma de uma estrela de oito pontas e de tal forma grandioso que se intui
a mensagem de poder e de força que almejava.
Juan
II e Isabel são representados em magnificência régia, em cima da estelar
estrutura, rodeados pelos evangelistas e guardados por figuras de monges
cartuxos em oração. Nos dezasseis lados do poliedro, sucedem-se – provavelmente
fora dos locais originais – as representações das virtudes, de figuras
bíblicas, de animais mitológicos e das armas do casal real, no meio de
decorações florais executadas com primor no alabastro por Siloé e a sua oficina.
A
Rainha lê um livro de horas, sugerindo uma existência mais plácida e pia do que
a que efectivamente teve. Com efeito, o génio de Isabel de Portugal, apesar do
arrependimento no episódio com Santa Beatriz da Silva, ter-se-á
manifestado noutras ocasiões.
É
apontada como responsável pela queda do poderoso Condestável de Castela e
favorito do seu marido, D. Álvaro de Luna. Viúva muito jovem e mãe do putativo
herdeiro do Trono, o Infante Alfonso, Isabel terá orquestrado a resistência ao
enteado, o Rei Enrique IV, que redundaria numa Guerra de Sucessão com profundas
consequências nos dois lados da raia – na realidade a criação de um novo,
grande e poderoso país, a Espanha. Esta guerra e a questão dinástica subjacente
explicam a monumentalidade
dos túmulos reais da Cartuxa de Burgos, o de Juan II e Isabel e o do
seu filho, o Infante Alfonso.
Juan
II morreu em 1454, deixando três filhos: um do primeiro casamento, Enrique;
dois do segundo, Alfonso e Isabel. No ano anterior, o filho primogénito
obtivera a anulação do primeiro casamento por falta de consumação... ao fim de
13 anos. Já rei, em 1455, Enrique IV casou com D. Joana de Portugal, sua prima,
filha póstuma do Rei D. Duarte e irmã de D. Afonso V, ainda menor e sob a
regência do Duque de Coimbra. Ao fim de 7 anos de casamento, em 1462, nasceu a
primeira e única filha do casal, a quem deram o nome da mãe. Mas as dúvidas
sobre a paternidade da Infanta Juana, Princesa das Astúrias e herdeira do
trono, haviam de a acompanhar toda a vida.
A
suspeita de que o Rei havia obrigado a mulher a engravidar do seu valido, D.
Beltrán de la Cueva, fizeram que o mundo a viesse a conhecer como a Beltraneja, nome depreciativo para
quem deveria ter sido Rainha de Castela e Leão. A historiografia é
relativamente unânime na impossibilidade física de Beltrán ser o pai de Juana,
como de resto a Rainha D. Juana e o próprio D. Beltrán juraram solenemente. Porém,
logo após o nascimento de Juana, parte da nobreza castelhana passou a apoiar o jovem
irmão do Rei Enrique, o Infante Alfonso, filho de Juan II e de Isabel de Portugal,
que passou a ser designado como Alfonso XII de Castilla e León e chegou a ter moeda
cunhada em seu nome. Contudo, a morte levou-o logo em 1468, aos 15 anos.
Mais
tarde, a irmã deu-lhe uma sepultura à altura de quem não foi, mas podia ter
sido rei. O túmulo de alabastro de Alfonso, igualmente obra de Gil de Siloé,
complementa o dos seus pais. O jovem pretendente, rei aclamado e falsamente
jurado em Ávila, é representado vestindo ricamente, ainda que sem atributos
reais, e em oração, diante de um genuflexório. Parte dos rendilhados de
alabastro perdeu-se, mas o túmulo é obra profusamente decorada e preenche a
parede lateral ao túmulo de Juan II e Isabel de forma belíssima.
A
confusão da sucessão de Enrique IV instalou-se em Castela. Mesmo que Juana
fosse sua filha, Enrique foi absolutamente impotente
como rei, pelo menos na sua elementar tarefa de assegurar a dinastia e a
sucessão pacífica e ordenada. Pressionado pela nobreza castelhana, tentou
orquestrar vários casamentos quer para Juana, quer para a irmã Isabel, a quem
chegou a reconhecer como Princesa das Astúrias e herdeira do trono. Quando
morreu, em Dezembro de 1474, a guerra civil era praticamente inevitável, com
marcado tom internacional: Isabel tinha casado à revelia do irmão com Fernando,
herdeiro da coroa de Aragão; Juana casaria logo depois com o seu tio, o Rei D. Afonso
V de Portugal, que se proclamou Rei Consorte de Castela e liderou uma invasão
lusa e caótica para afirmar a sua Rainha. Cada uma das pretensões acarretava a
possibilidade de uma união dinástica.
A
Guerra da Sucessão Castelhana, como ficou conhecida, saldou-se na vitória dos
partidários de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, que conquistariam glória
política e a união da Espanha sob o nome de Reis
Católicos. Juana, exilada em Portugal, sem efeito o seu casamento com o
derrotado tio Afonso V, professou no Convento de Santa Clara em Coimbra e por
decreto passou a ser conhecida como A
Excelente Senhora, vivendo uma existência discreta e recusando parte
política activa. Conscientes de que a sombra de ilegitimidade não largaria
Isabel, os seus partidários tentaram erradicar a memória de Juana. O terramoto
de Lisboa ajudou, já que os seus restos estão entre os perdidos para sempre em
1755, destruído que foi o Convento de Santa Clara, que os albergava, cerceando –
como bem refere a
página portuguesa da Wikipedia – a hipótese de uma análise de ADN
que tiraria dúvidas sobre a excelência régia do seu sangue.
Melhor
sorte tiveram os restos de Juan II e de Isabel de Portugal. Com esta encomenda
sublime e politicamente astuta, conquistaram oração pelas suas almas através
dos séculos e a sua filha Isabel afirmou a sua legitimidade como Rainha de
Castela e de Leão. Parte substancial do sucesso é da campanha de
descredibilização de Juana como legítima herdeira do trono, à qual não foi
alheia a vontade de Isabel de Portugal de ver um dos filhos reinar, em vez do
enteado. E esta vontade mudou mais do que a vida da filha: criou um novo reino
e mudou a história da Europa. Pouco proveito tirou disso a cruel rainha
portuguesa, contudo. Profundamente perturbada com a morte do filho, permaneceu
recolhida num convento em Arévalo até à sua morte, demente, recebendo a visita ocasional
da filha e da neta, outra Juana, que lhe herdaria os genes e ficaria conhecida para
a eternidade como a Louca.
Ademar Vala Marques