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domingo, 11 de maio de 2025

Ensaios Policiais, de João Eloy.

 








aqui falei das Memórias de João Eloy, primorosamente preparadas pelos seus descendentes, Maria Madalena Eloy e Pedro Eloy.

          Este livro é, por assim dizer, a continuação do anterior, mantendo-se o seu óbvio e manifesto interesse histórico.

Diante de nós desfila a criminalidade lisboeta dos tempos da República, histórias de homicidas e curandeiros, de pornografia, de prostituição infantil, da perseguição aos homossexuais, então chamados «invertidos». E um capítulo fabuloso sobre a prática da «empenhoca», ou seja, da cunha, matéria também versada, por exemplo, em Memórias de um Chefe de Gabinete, de Tomás da Fonseca.

          É tempo, é mais do que tempo, de diversos investigadores se juntarem para fazer uma história do crime na Belle Époque portuguesa, prosseguindo depois pelos anos 1920 e pelo Estado Novo adentro. Há muita gente com trabalho feito, Maria João Vaz, Diego Palacios Cerezales, Gonçalo Rocha Gonçalves, Luís Bigotte Chorão, Tiago Pires Marques, Leonor Sá, Paulo Guinote, just to name a few. Só falta uma instituição universitária ou um editor esclarecido para concretizar este projecto, que sem dúvida teria enorme êxito junto do grande público.

          Até lá, fiquemos com estes Ensaios de João Eloy, imprescindíveis para reconstruir as luzes e as sombras das nossas polícias, dos nossos ladrões e, no fundo, do que fomos e, em parte, em boa parte, ainda somos.


                                                                                                António Araújo


 

domingo, 3 de setembro de 2023

E nós, calamo-nos?

 



          "Error 404. Sorry, we can't seem to find the page you're looking for. The link you requested might be broken or no longer exists. Why not start at our home page?".

          Esta é a mensagem que a Taylor & Francis colocou há dias na página digital onde constava, para venda, a obra Sexual Misconduct in Academia. Informing An Ethics of Care in the University, publicada pela Routledge, chancela daquele grupo editorial, e coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          A obra fora suspensa há dois meses, não tendo sido indicados os fundamentos que concorreram para tal decisão. Esta semana, soube-se que a Routledge decidiu eliminar do livro o capítulo 12, intitulado "The walls spoke when no one else would. Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia" (pp. 208-223), assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom.

          Aquilo que começou por ser uma denúncia de abuso sexual e extractivismo académico, tornou-se agora, como facilmente se percebe, um caso gritante e grotesco de censura, um inconcebível ataque às liberdades: à liberdade de expressão e de pensamento, desde logo; e à liberdade científica, pois, não o esqueçamos, o texto censurado não é um artigo de opinião, é um artigo científico, publicado de acordo com os mais exigentes protocolos (v.g., peer-review), por uma das editoras mais prestigiadas na área das ciências sociais.

          Não por acaso, o principal visado no texto das três académicas, Boaventura Sousa Santos (BSS), publicou na Routledge os livros Globalizing Institutions. Case Studies in Regulation and Innovation (2000, com Jane Jenson), Epistemologies of the South. Against Epistemicide (2014), Reinventing Democracy. Grassroots Movements in Portugal (2019, com Arriscado Nunes), Knowledges Born in the Struggle. Constructing the Epistemologies of the Global South (2020, com Maria Paula Meneses), Demodiversity. Toward Post-Abyssal Democracies (2020, com José Mendes), The Pluriverse of Human Rights: The Diversity of Struggles for Dignity (2021, com Bruno Sena Martins), Decolonizing Constitutionalism. Beyond False or Impossible Promises (2023, com Sara Araújo e Orlando Aragón Andrade), From The Pandemic to Utopia. The Future Begins Now (2023).

          Caso para perguntar: a mesma editora de BSS publica artigos com falsidades e difamações?

 

          Recuemos um pouco. No início de Junho, a Routledge recebeu uma carta de cease-and-desist de um obscuro "portuguese lawyer", cuja identidade se desconhece, agindo em nome de alguém cujo nome também nunca foi revelado (porventura um dos alegados assediadores visados no referido capítulo 12). Não se sabe, ninguém dá a cara, ninguém tem a coragem ou a hombridade de assumir que falou com a Routledge – é importante dizer que não foi por iniciativa desta, mas a pedido ou mando de um inquisidor oculto, que a editora actuou.

          O “portuguese lawyer” exigia que a Routledge suspendesse a publicação daquele texto e que adoptasse algumas "formas de mitigação do dano causado à reputação, saúde e trabalho académico" do suposto assediador, bem como da reputação do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra. Caso a Routledge não respeitasse as suas exigências, avançaria para tribunal.

        Perante isto, a Taylor & Francis e a Routledge decidiram suspender temporariamente o livro, retirando-o do mercado e limitando-se a dizer, na sua página online, que a obra estava "sob revisão": "This content is temporarily unavailable as it's currently under review" ("O conteúdo deste livro está temporariamente indisponível, por se encontrar sob revisão").

          Três meses depois, a 31 de Agosto, a Routledge tomou a decisão final de censurar o capítulo, revertendo os respectivos direitos de publicação para as autoras. Segundo a mensagem da editora, enviada às três autoras do artigo, as duas coordenadoras do livro teriam “aceitado e compreendido a posição da Routledge” ("We have spoken with Erin and Delyth, who understand this decision").

          Ora, isto é falso, descaradamente falso, como se depreende pelo artigo da jornalista Fernando Câncio, no Diário de Notícias de 31 de Agosto – "Editora britânica retira capítulo que acusa Boaventura [de Sousa Santos] em livro sobre assédio sexual" –, onde as coordenadoras, Erin Pritchard e Delyth Edwards, afirmam estar "muito desapontadas com o facto de a Routledge ter tomado a decisão de retirar permanentemente de publicação o capítulo 12 e possivelmente o próprio livro. Isto corresponde a pôr-se do lado dos que estão a tentar silenciar este livro, sem fazer qualquer tentativa de apoiar o livro contra as ameaças legais e, portanto, não defendendo a liberdade académica nem o direito dos sobreviventes de assédio sexual de falarem das suas experiências. Tomar a decisão de retirar permanentemente o capítulo não é mais que uma forma de apoiar o abuso de poder sistemático na academia". Um entendimento bem diferente, portanto, daquele que a editora dava a entender na mensagem enviada às autoras do capítulo 12.

          Percebe-se a atitude das coordenadoras e das autoras do livro. Desde logo, porque nem umas nem outras conhecem os fundamentos da decisão, já que a Routledge, em nenhum momento, as informou das razões que a levaram a censurar aquele capítulo.

De igual modo, a Routledge ainda não revelou o nome do advogado português que escreveu e enviou para Inglaterra a carta de "cease-and-desist", que levou à censura do capítulo, nem revelou a identidade do queixoso.

          Quem pensa que não é importante conhecer o nome do "portuguese lawyer" e do seu mandante, está inteiramente enganado. Ambos têm de dar a cara. Quem são eles?

          Para se poderem defender da denúncia do advogado, as autoras do capítulo precisam de saber os nomes de quem está por trás disto tudo (não será descabido perguntar, também, porque é que a Routledge mantém o anonimato do "portuguese lawyer" e do cliente que contratou os seus serviços).

          É que a Routledge, ao censurar o capítulo 12 – praticando um epistemicídio, como diria BSS –, parece corroborar assim o sentido das queixas de Boaventura de Sousa Santos (BSS), segundo o qual estaria a ser alvo de uma "difamação vergonhosa e vil".

          Isto depois, não esqueçamos, de o próprio BSS já ter admitido "comportamentos inapropriados", típicos de quem, como ele, nascido em 1940, pertence a uma geração em que tais atitudes eram aceites pela sociedade ("Reconheço que em determinados momentos possa ter sido protagonista de alguns desses comportamentos", Expresso, 4 de Junho de 2023); e de a própria Routledge ter publicado há cerca de um mês (Julho) uma obra coordenada por BSS, Decolonizing Constitutionalism, Beyond False orImpossible Promises.

          Uma decisão também, já agora, enquanto decorre no CES um inquérito (liderado pela Comissão Independente do Centro de Estudos Sociais, "para o esclarecimento de eventuais situações de assédio"), cujas conclusões ainda ninguém sabe quais serão.

          E se o inquérito vier a demonstrar que BSS praticou, realmente, alguns daqueles actos graves, descritos no capítulo 12? Como ficará a reputação e o prestígio da Routledge? Não teria sido mais prudente e avisado ter aguardado pelas conclusões do inquérito? Este timing não é estranho? Ou será que a Routledge já sabe que o inquérito não vai dar em nada e, temendo um futuro processo judicial, resolveu antecipar-se?

          Por outro lado, não é estranho que, dos nomes falados na esfera pública – mas nunca citados no artigo, note-se, e a saber, BSS, Bruno Sena Martins e Maria Paula Meneses –, nenhum tenha a coragem e a frontalidade de assumir que se queixou à editora?

          Bruno Sena Martins negou a autoria da acção ("Não desencadeei qualquer acção legal junto da editora"), BSS começou por não responder – andou às voltas, com rodriguinhos e meias palavras – e depois reconheceu que conversou com a Routledge sobre o capítulo 12, mas não assumiu a paternidade da queixa e da diligência junto da sua própria editora.

          Um processo inaudito: nem o nome do advogado se conhece! Quem e o quê se pretende esconder? A má consciência por ter promovido uma censura académica?

          Como quer que seja, uma evidência se impõe: nunca se viu uma coisa assim. Uma editora de um país democrático como Inglaterra, que se rege pelo princípio da liberdade de expressão, decidiu censurar um artigo académico. E, caso se confirme que a diligência do “portuguese lawyer” se deveu a BSS, tem este agora de responder por duas suspeitas graves: a de assédio sexual e a de censura académica.

          A situação é de uma clareza meridiana: a Routledge submeteu o livro ao sistema de arbitragem científica, ou revisão por pares (peer review ou refereeing), o qual deu luz verde à publicação da obra coordenada por Erin Pritchard e Delyth Edwards.

          Goste-se ou não se goste, os especialistas – e a editora aconselhada por estes – consideraram que todos os capítulos tinham qualidade suficiente para serem publicados na "editora académica líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais" ("Today Routledge is the world's leading academic publisher in the Humanities and Social Sciences. We publish thousands of books and journals each year. Founded in 1836, we have published many of the greatest thinkers and scholars of the last hundred years, including Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse and Sartre", lê-se no respectivo site).

          Agora, confrontada com as ameaças de um "portuguese lawyer", a editora vem desdizer os especialistas por ela escolhidos, reconhecendo (implicitamente) que o seu sistema de avaliação está avariado? Depois do acordo ou consenso entre os especialistas daquela área, decidiu publicar o capítulo 12 e, depois de publicado, vem agora retirá-lo de publicação?

          É que, conforme lembrou uma das autoras, "o livro foi feito com altos padrões de qualidade. Foi sujeito a várias revisões e avaliações antes de ser publicado. É um livro de alta qualidade. Mas alguém demandou as responsáveis ou a editora porque contém um artigo que denuncia um caso de assédio sexual, e essa pessoa não gostou" (afirmações reproduzidas por Fernanda Câncio, "Acção legal na origem de suspensão de livro que denuncia Boaventura. Autora fala em 'silenciamento'", Diário de Notícias, 13 de Agosto de 2023).

          Repare-se, e insista-se, que o texto assinado por Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom não é um mero artigo de opinião, passou pelos mais exigentes processos de revisão científica de uma das mais exigentes editoras europeias.

          Para que não restem dúvidas, Lieselotte Viaene é antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Carlos III, de Madrid, tem um doutoramento em Direito (Ghent University, Bélgica, 2011), artigos publicados em revistas internacionais indexadas, como Journal of Transitional Justice, Critique of Anthropology, International Human Rights Journal, Netherlands Quartely of Human Rights, Antipoda. Revista de Antropologìa y Arquelogìa, teve uma bolsa individual Marie Curie (2016-2018) e trabalhou nas Nações Unidas, no gabinete do Alto Comissário dos Direitos Humanos (2010-2013).

          Por sua vez, Catarina Laranjeiro é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa), é mestre em Antropologia Visual e dos Media, na Freie Universitaet Berlin, doutorada em Pós-Colonialismos e Cidadania Global pelo CES (Universidade de Coimbra), tem artigos na The Internacional History Review e publicou na editora Palgrave Macmillan (Londres).

          Myie Nadia Tom é professora na Universidade do Nebraska (EUA), estudou na Universidade de São Francisco e na Universidade Complutense de Madrid, e publicou artigos na International Review of Education (revista da UNESCO, num número organizado por si), na Comparative Education Review e na University of Wisconsin Press (EUA).

          Erin Pritchard, uma das coordenadoras do livro, é professora na Universidade de Liverpool, doutorada pela Universidade de Newcastle, é editora da revista académica Disability & Society, tem artigos publicados em revistas como The Canadian Journal of Disability Research ou The Scandinavian Journal of Disability Research, e investigação publicada na Bloomsbury Academic ou na Peter Lang.

          Delyth Edwards, a outra coordenadora, foi docente em Sociologia da Infância e da Juventude na Universidade de Liverpool, é actualmente professora na Universidade de Leeds (Inglaterra), na área da Inclusão, Infância e Juventude, fez o doutoramento em Sociologia na Queens University (Belfast), o mestrado em Investigação Sociológica na University of Essex, tem artigos em revistas académicas como Cultural Trends e investigação publicada em editoras como a Sage ou a Springer International Publishing.

          Estes são os currículos das mulheres envolvidas. E o livro, nunca é demais insistir, foi sujeito aos procedimentos de qualidade e rigor científicos da editora do próprio Boaventura de Sousa Santos.

          A exclusão do capítulo significa que a editora não o considera científico? Se é assim, por que razão o publicou? Não o devia ter rejeitado antes?

          E, no meio desta história toda, como ficam os cientistas responsáveis pelo peer-review do livro? A decisão tomada não representará um atropelo à sua dignidade formal e profissional? O mesmo em relação às autoras, cujos indesejáveis danos reputacionais são difíceis de prever. E os processos de publicação e controlo de qualidade científica da Routledge? Não ficam postos em causa? É que, aparentemente, os procedimentos editoriais da líder mundial em Humanidades e Ciências Sociais não primam pelo rigor...

          Que BSS se comporte como um senhor feudal, já não nos surpreende. O mesmo não poderemos dizer de uma editora como a Routledge, cujo acto de censura não honra a sua história (uma história, não é despiciendo relembrar, que começou em 1836 e que inclui a publicação de pensadores e académicos como Adorno, Einstein, Russell, Popper, Wittgenstein, Jung, Bohm, Hayek, McLuhan, Marcuse e Sartre).

          O cúmulo da ironia, ou da hipocrisia, é que a Taylor & Francis, proprietária da Routledge, até se permite (e muito bem!) fornecer conselhos aos seusautores/as vítimas de assédio na academia... 

O texto ora censurado, insiste-se, passou o crivo da revisão científica, foi avalizado pelos académicos escolhidos pela editora. E, já agora, censurado porquê? Por ser difamatório? Por falta de qualidade? Não se sabe, porque a Routledge jamais esclarece. E tem a obrigação de fazê-lo, até para que as lesadas, caso queiram, contestem a decisão tomada, em tribunal ou fora dele. Assim, sem explicação alguma, estamos no reino do arbítrio puro, do tirânico “posso, quero e mando”.

Para quem publica obras sobre a democracia e os direitos humanos, sobre os oprimidos deste mundo, sobre as vítimas de violência, sobre racismo e feminismo, tudo isto é, como disse uma das alegadas vítimas de Boaventura, "um escândalo internacional".

 

          A decisão da Routledge supõe uma grande novidade, de efeitos imprevisíveis, que deveria deixar apreensivos os investigadores académicos de todo mundo quanto à sequência dos acontecimentos futuros.

          Colocada entre dois fogos – por um lado, a denúncia das autoras do capítulo 12 (Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Myie Nadia Tom) e, por outro lado, supõe-se, a queixa de Boaventura de Sousa Santos, um académico com enorme poder internacional, com vários livros publicados na Routledge, muitos deles traduzidos noutros idiomas e em vários países da América do Sul, o que representará, decerto, elevados proveitos para a Routledge) –, a editora escolheu o lado do mais forte.

          O mesmo lado – o de Boaventura de Sousa Santos – que há um ano dizia, a propósito da guerra na Ucrânia, da NATO e dos EUA, que se estava a criar "um novo período de caça às bruxas muito semelhante ao que se viveu nos EUA na década de 50 e que ficou conhecido por Macarthismo". 

          Não tenhamos dúvidas: estamos perante um acto insofismável de censura, que viola o espírito de crítica e de liberdade de pensamento, e que deve ser denunciado sem quartel nem tréguas. Casos como estes não podem ser escamoteados ou relativizados, com base em interesses ideológicos, profissionais ou pessoais. Perante este acto de silenciamento, estranha-se o silêncio dos que se proclamam defensores dos mais fracos e oprimidos. 

          O que se passou neste final de Agosto de 2023 é um dos mais bárbaros e iníquos atentados à liberdade de expressão académica, perpetrado por uma das editoras mais prestigiadas do mundo que se arrogou no direito de censurar um texto que havia publicado – e, pior ainda, fazendo-o com base numa denúncia anónima de um “portuguese lawyer” e sem justificar ou fundamentar o seu acto.

          O poder académico perpetuou, durante anos, situações de assédio sexual e moral e de extractivismo intelectual. Agora, amordaça o pensamento e censura a liberdade. E nós, calamo-nos?

 

João Pedro George

 



quinta-feira, 22 de junho de 2023

Abusos sexuais na Igreja em Portugal: o palco e os bastidores.

 




 

 

Clérigos e barregãs é uma história muito antiga, de um modo geral objeto de imensa tolerância, os senhores padres em Cabo Verde chegavam a ter dúzias de filhos e nas nossas paróquias da chamada interioridade eram muito comuns os vigários que vivam paredes meias com uma alegada irmã, e proliferavam os afilhados ou crianças ditas protegidas por não se saber do pai e da mãe, assim constava, a solicitude do senhor padre é que era importante. E já não vem à baila os Papas e os cardeais da Cúria que tinham bastardos, muitos deles bem tratados.

Dos anos 1970 para os anos 1980, esta estabilidade afetiva camuflada explodiu noutra dimensão, a pedofilia e, em menor grau, o padre pai de filhos. O dossiê ganhou volume e intensidade mediática, assentou-se a câmara na Igreja Católica, presume-se por razões do celibato dos padres e o encobrimento das vítimas, uma conspiração de silêncio que, como é hoje bem visível, gerou e continua a gerar uma enorme convulsão na Igreja Católica.

Em Nome do Pai, abusos sexuais na Igreja em Portugal, por Sónia Simões, Oficina do Livro, 2023, é uma reportagem em derredor de acontecimentos contemporâneos, mas onde o passado não foi esquecido. A escandaleira soou nos EUA, ao tempo de João Paulo II, e o Papa Francisco recebeu um farto processo onde Bento XVI igualmente tinha agido. A intensidade das denúncias levou a que o Papa Francisco convocasse, em fevereiro de 2019, uma reunião que não tinha precedentes, compareceram os presidentes das conferências episcopais do mundo com um ponto único na ordem de trabalhos: agir resolutamente para que nenhum dos crimes sexuais fosse doravante encoberto. Sónia Simões deixa bem claro que o alto clero português tem agido ao retardador, é uma história um tanto escandalosa, processos sinuosos de encobrimentos, até declarações públicas contrárias ao decidido em Roma.

Está ainda por esclarecer o que levou este alto clero a fingir quje escapava às obrigações da transparência, isto quando já 34 bispos chilenos tinham renunciado, houvera a investigação na Pensilvânia, soubera-se que um cardeal norte-americano era acusado, Irlanda, França, entre outros, as igrejas nacionais agiram celeremente, enquanto aqui se empatava. A autora, jornalista experimentada neste dossiê, desenvolve a sua narrativa a partir da história de Mariana, então uma jovem que cedera às promessas de um padre vinte anos mais velho e de quem teve um filho, fica bem claro quem e como andou neste jogo do empata. E que havia instruções para agir, havia, desde 2009 exisita um documento interno da Santa Sé com indicações expressas do que fazer, no caso de um padre que tenha um filho.

A grande surpresa veio com o relatório da Comissão Independente, os números eram demasiado violentos e indiciavam o encobrimento do alto clero, fazia-se o chamamento às vítimas abusadas, os traumas, os sentimentos de culpa, vergonha, nojo, revolta, perda de fé, até suicídio. É um desbobinar de histórias, avulta a pedofilia, houve pais que se dirigiram aos bispos, a solução adotada era transferir o padre.

Vamos então aos números. “A Comissão Independente cruzou 217 estudos sobre a generalidade dos abusos sexuais de crianças, elaborados entre 1980 e 2008, para perceber a incidência por género, deste tipo de crime na sociedade. E a conclusão é avassaladora. As estimativas feitas a partir de 331 amostras num total de quase 10 milhões de participantes revelam que 18 em cada 100 raparigas foi abusada sexualmente, assim como 8 em cada 100 rapazes foram igualmente vítimas. O abusador é, na maior parte das vezes, alguém que é próximo da vítima e em quem esta confia. Cenário propício a que, em grande parte dos casos, os crimes não acontecem apenas uma vez, mas perdurem no tempo, aproveitando o agressor para ir quebrando barreiras e escalar no tipo de abusos.”

A maior parte destes crimes não chegam às autoridades e, como é evidente, os crimes sexuais contra menores ocorridos no meio eclesiástico é uma fração deste tipo de crime em toda a sociedade. Só que os tempos mudaram, o encobrimento é cada vez menos possível, as vítimas sentem-se impelidas a denunciar os abusos sofridos e os números falam por si. “Em 2021, ano em que foram denunciados 828 crimes de abusos contra menores, a Polícia Judiciária – com competência exclusiva na investigação deste tipo de criminalidade –, deteve 270 suspeitos. Nesse ano, foram concluídos 351 julgamentos de abusadores sexuais e, em 397 arguidos, 293 foram condenados.” Como observa a autora, nos crimes em contexto religioso a incidência recai sobre o sexo masculino, a maioria das vítimas são rapazes. E aqui a autora disserta sobre as prerrogativas de poder que o padre abusador pensa que detém, no meio social e junto da vítima, como igualmente aborda o chamado problema da cura do abusador. A comissão francesa centrou uma boa parte da sua pesquisa no estudo do abusador. “Mais de metade dos padres entrevistados declararam ser homossexuais e alguns assumiram manter relações ativas com adultos da mesma idade. Uma das explicações mais comum para os abusos foi a necessidade de afeto ou intimidade com outras pessoas. Apontam-se culpar à própria Igreja ou mesmo à época que se vivia – uma característica dos abusadores em geral que raramente se sentem responsáveis pelos seus atos.”

Sónia Simões analisa detalhadamente o caso do padre José Anastácio Alves, de que houve conhecimento público quando se tentou entregar na Procuradoria-Geral da República, um longo historial abafado ou menorizado. E dá-nos conta da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, realizada em Fátima em 2019, era tempo efervescente e mandaria a lógica que o abuso de menores na Igreja fosse no mínimo objeto de debate. A reunião de Roma exigia um tratamento de choque. Tudo começou com a criação da Comissão de Proteção de Menores do Patriarcado de Lisboa, o alto clero procurou resistir aos propósitos da Comissão, só que o Papa Francisco voltou à carga, exigiu a nível universal, “procedimentos tendentes a prevenir e contrastar estes crimes que atraiçoam a confiança dos fiéis.” Após hesitações, formou-se a Comissão Independente. Descrevem-se ainda os casos que chegaram ao Ministério Público, a autora passa em revista como noutros países se estudam estes abusos, é um levantamento que nos faz pensar, era impossível a partir dos resultados da Comissão Independente não agir. Está em funcionamento o Grupo VITA – grupo de acompanhamento das situações de abuso sexual de crianças. Em abril deste ano a Igreja emite comunicado: “Entrámos agora numa nova fase. Estamos empenhados em prosseguir um caminho de reparação e prevenção para que seja possível garantir o devido apoio às vítimas e implementar uma cultura de cuidado e proteção dos menores e adultos vulneráveis.” E a autora termina o seu trabalho dizendo: “Passaram quatro anos desde o encontro em Roma e ainda estamos aqui.” Obra de inegável interesse para procurar estudar o que são os bastidores da Igreja Católica em Portugal.


                                                                                                Mário Beja Santos




sexta-feira, 2 de junho de 2023

História de um assassinato onde faz presença a silenciada guerra colonial.


 


 

O ensaio O homem que via no escuro, A Lisboa de Bruno Candé, por Catarina Reis, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2023, espelha esse dado incompreensível da sociedade portuguesa contemporânea e que tem a ver com os traumas que a guerra colonial deixou num número incerto de antigos combatentes. O assassinato de Bruno Candé, em julho de 2020, não tinha razão plausível para acontecer. O assassino era um homem de 76 anos que viu acidentalmente a quem roubou a vida, podemos falar de crime motivado por ódio racial, mas é o rótulo mais cómodo para continuarmos a deixar o esqueleto dentro do armário.

O retrato de Bruno Candé é de um homem bom, um ator dotado, que descobriu, serôdio, a vocação para o palco, que ultrapassou as vicissitudes de famílias disfuncionais, tomado pela curiosidade e pelo entusiasmo fugiu de qualquer abismo de que a Zona J podia favorecer, foi resiliente, três anos antes de morrer, depois de um grave acidente que sofreu, voltou a pôr-se de pé e a amar a vida. Contribuiu para que a companhia de teatro Casa Conveniente tenha mudado as instalações do Cais de Sodré para o que se teria pensado ser um lugar improvável para fazer teatro, a Zona J.

Catarina Reis conta-nos admiravelmente a história da sua vida, começamos por Cadi Candé Marques, uma muçulmana guineense que se terá embeiçado por um soldado português Olossato, naquela altura lugar fustigado pela presença do PAIGC no santuário do Morés. Cadi, mãe solteira, e com três filhos nos braços, viajou para Portugal, em 1973, veio só com dois filhos, a Santa Casa da Misericórdia apoiou-a, conheceu o trabalho precário, as limpezas, afeiçoou-se por outro português, dessa relação nasceram três filhos, Bruno foi o primeiro, ocuparam uma casa, veio a filha que ficara na Guiné, Olga, que se revelou uma irmã desvelada com os irmãos mais novos. O pai de Bruno acabou na bebedeira, Bruno e a família fixaram-se na Zona J, em Chelas; ao que consta, tinha o Bruno seis meses e esteve para morrer no Hospital D. Estefânia, houve batismo forçado, na falta de padrinho escolheu-se Santo António, o padroeiro de Lisboa teve direito a altar doméstico, mas a figura do santo seguia sempre no bolso do Bruno.

Adorava representar, tornou-se ator na companhia Casa Conveniente, a companhia transferiu-se para a Zona J em 2014. Entrou numa novela, mas o seu sonho era subir aos palcos, estreou-se no Bairro dos Remolares, no Cais do Sodré, a Casa Conveniente manteve-se aqui durante cerca de 20 anos. Teatro não convencional, pronto a novos desafios, chegou a representar nas prisões. Data de um espetáculo da companhia Rifar o meu coração, no Porto, em 2016, a frase em que Bruno sintetizou toda a sua história, uma consigna: “Eu tinha tudo para dar errado, mas sou o Bruno Candé.”

Um dos pontos mais estimulantes deste ensaio tem a ver com a forma como Catarina Reis põe em cena a Zona J e toda a área de Chelas, com os seus 10 bairros, conta-se a história do plano de urbanização de Chelas, os edifícios da Zona J e quem os habita, fala-se da emigração, das tensões culturais, dos pontos de encontro dos diferentes povos, a natureza das convivências, como a Zona J se reciclou em o Bairro do Condado, onde a cultura esteve ausente até há poucos anos. “A revolução começou há cerca de dez: em 2006, criou-se a Biblioteca de Marvila, seguiu-se o projeto cultural Galeria Underdogs, de Vhils (artista português Alexandre Farto), com o propósito de tornar a arte acessível por via de exibição do trabalho de artistas nacionais e internacionais. Surgiu, então, a Fábrica Braço de Prata, espaço que alberga eventos de todo o tipo. Mais recentemente, ali perto, ouvimos falar da chegada Hub Criativo do Beato, uma incubadora de criatividade situada no antigo complexo fabril do Exército. E, claro, estava presente a Casa Conveniente, a par da companhia de teatro Cepa Torta.”

A Casa Conveniente derrubou muros, instituiu uma cultura de proximidade, apareceram artistas no fado, hip-hop, impôs-se a arte urbana, emergiam as gerações já nascidas em Portugal.

E vamos agora aos três tiros mortais que Evaristo Marinho desfechou em Bruno Candé com uma semiautomática Walther PP de calibre 7,65 mm. As gentes espavoridas, desoladas, perplexas, interrogavam-se sobre o móbil do crime, prontamente se aflorou a palavra racismo. Consultando os jornais da época vejo como se passou por cão por vinha vindimada sobre a saúde mental de Evaristo Martinho. Este antigo combatente encontrara uma vez Bruno na dita avenida de Moscavide, houve uma troca azeda de palavras, Evaristo não se escusou a proferir ofensas e a dizer que matara pretos durante a guerra, isto só para sublinhar que o seu crime de ódio vem de longe, está identificado, existem até associações que procuram acolher antigos combatentes com stress de guerra que levam uma vida de inferno e destroem a família, e há mesmo livros que falam de Evaristos identificados, por vezes autênticos farrapos humanos. Tenho para mim que este ator tão esperançoso, que deixou três filhos menores, um punhado de notas magníficas espalhadas pelas gavetas da sua casa, amável, sonhador, teve um dramático encontro com um desses doentes desse ódio recalcado. E é muito tocante o termo desta narrativa em volta de um homem bom destruído por ódio racial:

“Bruno era o tipo de pessoa que jamais esperava gritos de revolta, canções revolucionárias e homenagens em palco. Jamais pensaria que a história colonial da qual a família nasceu e cresceu foi a mesma que o matou. A guerra levou um português até Cadi Candé Marques, encontro que fez nascer Olga, Carla e Fernando; também foi a guerra que conduziu a guineense até Lisboa, à Zona J. A mesma guerra que tornou um homem revoltado e armado que acabaria por trazer a Cadi a pior dor de uma mãe. O que pensara Candé de um homem que ameaça, a plenos pulmões, ter matados ‘pretos’ na guerra, violado mulheres africanas e ter uma arma em casa pronta a matar outros?

Creio saber o suficiente para adivinhar que Bruno viu neste homem uma amargura curável, travada antes do primeiro tiro, com uma cerveja e uma conversa à mesa.”

De leitura obrigatória para todos aqueles que queiram investigar os porquês de uma guerra colonial onde ainda decorre um sofrimento vivo a que a sociedade se alheia, tratando-o como um mal menor, como uma raiva que gradualmente se extinguirá quando o último antigo combatente fechar os olhos.


Mário Beja Santos


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Como é possível?






Gostava de perceber como é que em Portugal 2021 um palácio do Estado, no centro de Lisboa, pode ser roubado e vandalizado. Infelizmente, é verdade: na Junqueira, o Palácio Burnay, antiga sede do ISCSP, tinha quadros na parede. Agora, já não tem. Como é possível isto? Além de todos nós, quem são os responsáveis por este estado de abandono, pelo furto, por esta incrível e bem reveladora miséria? (as imagens e o alerta são do Fórum Cidadania Lx, como sempre).



quinta-feira, 13 de maio de 2021

Um filme pornográfico.

 



Vejam com olhos de ver a atrocidade que está a acontecer na Biscaia, em pleno Parque natural de Sintra Cascais, com a cumplicidade da Câmara Municipal. Não é bem uma casa, uma moradia, parece mais um estúdio de cinema porno disfarçado de Casa da Cascata-Lloyd Wright.

   

          Vejam com olhos de ver:  O edifício tem uma implantação de 492m2 (dos quais 100m2 correspondem à piscina) e uma área total de construção de 682m2 distribuída por 3 pisos - proporções totalmente desenquadradas do pequeno aglomerado urbano de génese rural que é a Biscaia.

 

O imóvel está em comercialização e os anúncios online confirmam as piores expectativas:   https://www.idealista.pt/imovel/29283913/

 

A construção teve início na 2ª feira, à data de hoje já devastou toda a flora numa área de 2 mil metros quadrados (vejam a fotografia, com olhos de ver).

 


Há uma petição em curso. Aqui:


https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT108594 


Não pedimos o seu sangue nem o seu dinheiro, apenas uma assinatura, coisa de 4, 5 segundos. É muito?

 

 

 

         


sábado, 10 de abril de 2021

Para inglês ver.

 





Agora é o Quarteirão Inglês, à Estrela. Esteve lá o British Hospital, nas traseiras é o Cemitério Inglês, houve em tempos uma histórica companhia teatral. Zona consolidada, aprazível. E, por isso, cobiçada. Para quê? Para lá plantarem um mono, um paquiderme amansardado com um impacto visual brutal. E, claro, varandas iguais às que agora se fazem em todos, mas todos, os condomínios. Passem na Rua de O Século, no Largo das Olarias, tudo descaracterizado, uniformizado por uma arquitectura Lego de plástico, sem pinga de rasgo ou criatividade, animada pelo exclusivo propósito de aumentar volumetrias e, com elas, os lucros dos promotores. Com a cumplicidade passiva de uma CML incompetente e inculta, economicista e bárbara, Lisboa anda há décadas a ser esventrada. Vejam o rico estado da Fontes Pereira de Melo, da Avenida da República, convertidas em artérias ao melhor estilo Bogotá. E vejam, agora, a invasão rápida, inexorável, dos bairros antigos, mordidos aqui, mordidos acolá, com o passar do tempo convertidos numa coisa que não se sabe o que é, uma Albufeira trendy, com condomínios fechados – fechados ao bom senso e ao bom gosto, ao pulsar das gentes, aos ritmos que tornaram esta Lisboa uma cidade apetecível para viver ao olhar dos estrangeiros (os quais, na sua sofreguidão, acabarão por sugar o sangue e o coração da cidade, com a Câmara a olhar, sedenta e gulosa, criminosa, na mira das mais-valias).

 


segunda-feira, 15 de março de 2021

Bandidos da TV.





Esta extraordinária série documental da Netflix mostra o que já sabíamos, que o Brasil de hoje é um país de opereta e que, no Brasil de hoje, o Estado de direito é uma gargalhada. Mas o que a série mais mostra, no Brasil e em todo o mundo, é o risco da delação premiada. Ameaçando um desgraçado qualquer com dezenas de anos de prisão, é fácil obter-se o que se quiser. O preso diz tudo, confessa tudo, acusa tudo e todos, quem nós quisermos. Daí à manipulação e ao abuso policiais vai um passo. Seja inocente ou não o protagonista de «Bandidos da TV», o que mais impressiona é a forma como as autoridades de um país – Brasil, Portugal ou outro – podem construir um «caso» com base na delação premiada e no testemunho de cúmplices criminosos, desejosos de salvarem a pele. As testemunhas dizem tudo e o seu contrário e, mesmo na ausência de outras provas (documentais, etc.), um ser humano pode ser condenado à prisão – o que, no Brasil de opereta, equivale muitas vezes a uma morte certa. 


Na Idade Média, a confissão era a «rainha das provas», o que incentivou a tortura, para obrigar os acusados a dizerem o que os algozes queriam ouvir. No nosso tempo, a delação premiada pode levar a resultados idênticos. Em tese, a delação premiada pode ser um bom instrumento de investigação criminal e de obtenção da prova (de prova complementar, corroborada por outros meios). Mas, na prática, o risco de, num sistema descontrolado, ela tornar-se a «rainha das provas» e converter-se no método «normal» (e preguiçoso) de trabalho das polícias é muito, muito grande. 


Risco tremendo, resultados revoltantes. 





   



  




domingo, 28 de fevereiro de 2021

Vergonha na cara, ou falta dela.





 

Perante este massacre, o Sr. Presidente da Fencaça, mudando radicalmente a opinião avançada há dois meses, diz agora que não se tratou de uma «caçada», mas, pasme-se, de uma «correcção de densidade». (aqui)

A explicação é simples: como foram abatidos 600 hectares de floresta para construir um parque fotovoltaico, os animais ficaram sem abrigo. Logo, havia que matá-los ou, melhor dito, «corrigir a sua densidade».

Resta saber como foi possível, numa propriedade de 1200 hectares, autorizar a destruição de 600 hectares do seu arvoredo.

E, já agora, porque foram chamados caçadores espanhóis para «corrigir a densidade».

E, sendo obrigatório apor um selo por cada animal morto numa montaria, como é possível a proprietária do terreno dizer que emitiu apenas 40 selos, as autoridades terem encontrado 270 canhotos de selos na herdade e, no final, terem sido mortos 540 animais. De 40 para 540 há uma diferença, não? Como a explica o senhor Amaro?

Ao vir agora defender esta matança, Jacinto Amaro, presidente da Fencaça, além de se cobrir de ridículo, acaba por confessar o óbvio: foi a delegação de Évora da Fencaça (a organização de que ele é presidente há 29 anos) que emitiu as licenças para os 16 caçadores espanhóis poderem caçar em Portugal.

Não lhe ocorre que, perante este grotesco e pornográfico conflito de interesses, o melhor seria ter estado calado? Não lhe ocorre que, com isso, mancha de forma indelével a imagem da caça e dos caçadores portugueses, que é suposto representar?

Uma falta de vergonha completa.