Mostrar mensagens com a etiqueta Clarice Lispector. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clarice Lispector. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Os recursos de um ser primitivo.

 

Fotografia de João Pina
 





Os recursos de um ser primitivo


        Li uma vez que os movimentos histéricos tendem a uma libertação por meio de um desses movimentos. A ignorância do movimento exato, que seria o libertador, torna o animal histérico, isto é, ele apela para o descontrole. E, durante o sábio descontrole, um dos movimentos sucede ser o libertador.
Isso me faz pensar nas vantagens de uma vida apenas primitiva, apenas emocional. A pessoa primitiva apela, como que histericamente, para tantos sentimentos contraditórios, que o sentimento libertador termina vindo à tona, apesar da ignorância da pessoa.  
 
Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo. Crónicas
 
 

domingo, 21 de maio de 2017

Clarice entrevista Vinicius.

 
 
 
 
 
Entrevista conduzida por Clarice Lispector, publicada na revista Manchete e republicada em seu livro: Entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
 
* * *
 
Vinicius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinicius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres que você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de tosos ao amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor, mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquela que amei realmente, me dei todo.
Acredito, Vinicius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.
É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.
- Você já amou desse modo?
Eu só tenho amado desse modo.
- Mas você acaba um caso porque encontra outra mulher, ou porque se cansa da primeira?
Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.
- Você sabe que você é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não. É ídolo mesmo, trata-se de idolatria.
- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.
Às vezes fico mal humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.
- Qual é a artista de cinema que você amaria?
Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tem outro.
- Fale-me de sua música.
Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.
- Vinicius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.
- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.
O fato de querer me comunicar tanto.
- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica ao meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profundo e consequentemente mais bela.
- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinicius.
Para mim é a mulher, certamente.
- Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.
Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
Fizemos um pausa. Ele continuou:
Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...
(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho). Vinicius disse, tomando um gole de uísque:
É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criativa. Eu só sei criar na dor e na tristeza, nem mesmo as coisas que resultam sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.
- Como e que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência?
Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não vota ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.
- Como pessoa, Vinicius, o que é que desejaria alcançar?
Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.
- Quero lhe pedir uma favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.
Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
                                             
 Clarice
                                              Lispector 

Acho lindo o teu nome, Clarice.
- Você poderia dizer quais as maiores emoções que já teve. Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.
- Você se sente feliz? Essa, Vinicius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.
Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu. Então telefonei para uma das esposas de Vinicius.
- Como é que você se sente casada com Vinicius?
Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
“Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas”.
Depois conversei com uma mocinha inteligente:
A música de Vinícius", disse ela, “fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela”
- Você teria um “caso” com ele?
Não porque apesar de achar o Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E de “repente”, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Moraes.
 
 
 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Lisboa, 1944.



 
 
 
 
 
Republica-se, nesta série «Estrangeiros sobre Portugal», um apontamento de Clarice Lispector que já havia sido divulgado no Malomil.
 O Instituto Moreira Salles tem uma página sobre Clarice Lispector onde existe de tudo: vida, bibliografia livro a livro, traduções comparadas, uma infinidade de «valências», que é termo não usado por Clarice – e ainda bem. Entre o muito que nos oferece, o Instituto disponibiliza em linha o caderno pessoal de Clarice, «caderno de bordo» de 58 páginas, doado pelo filho e herdeiro da escritora, em 2012.
         Há precisamente setenta anos, Clarice fez escala em Lisboa, rumo a Nápoles. Era Agosto. Antes disso, fizera escala em Fisherman’s Lake, na Libéria, e daí algumas referências a negros e negrinhos, anotações que mais tarde seriam incluídas no conto «A menor mulher do mundo», de Laços de Família. Também anotações esparsas que seriam integradas no romance O Lustre, publicado em 1946.
 

 
 
Lisboa, 2 de agosto de 1944
 Almoço e jantar com Ribeiro Couto. Tudo bem. E no fim uma sensação de extremo cansaço e aborrecimento, de fim, de fim, de fim. Disse que era difícil me desenhar, tinha alguma coisa que não se pegava e a doçura. Que eu tinha três coisas: ____________: infância, vida profunda e alguma coisa áspera. Disse: animalidade banhada de luar. Queixo saudável. Deus meu me perdoai, me dai real paz.
 
(Clarice. Desenho de Ribeiro Couto, 2-8-44)


 
 
 

 
 
 
Não sei, talvez só em choque com os outros se tenha amor por si mesma.

Lisboa, 3 de agosto de 1944
Ontem – lanche com [Moscoso?], almoço e jantar com Ribeiro Couto, numa quinta e a beira do mar. Depois fomos a um lugar de ouvir fado, depois fomos à feira, bar Sevilha. Voltei 2 da madrugada e dormi até 1 de hoje. Hoje jantei com R.C. e Maria Archer.
 
 
 

 
(Este não é sopa)
Esparadrapo
Naftalina
Um ou dois vestidos
Sola de sapato
 
Sapato preto
Expressões italianas
Fazer as unhas antes de ir
A única coisa firme e boa na vida é estar mais ou menos contra todo o mundo e só ser de e com algumas. O que não exclui amizades, humanidade, piedade etc.
 
 



João Gaspar Simões
Rua da Artilharia, 44 – 4º andar
 
Não, não, eu não perdi minha vida, mas falei demais
 
 
 



Lisboa, 4 de agosto de 1944, sexta-feira

Acordei quase dez horas. Ontem jantei em Cacilhas com Ribeiro Couto e Maria Archer. Fiz compras de manhã, fui à casa de Ribeiro Couto, almocei com ele, li capítulo dos bonecos de barro. Só de tarde ele disse quanto gostou. Disse que a mim não adianta dar conselhos, que sem ter experiência eu sei de tudo. Coisas agradáveis e bem observadas, já ouvidas ou sentidas. Depois do almoço ele me mudou. Hotel mais barato é melhor. “Sem aqueles homens do Hotel Astoria, no hall, admirando você embasbacados”. Mudei-me para o parque Palacio. Li todo o romance de Maria Archer. Saudade de M. Fui jantar em Bucelas – paisagem nítida e cor-de-rosa ovelhas – olivais – Tejo –
 
 


negros dormindo na rua. Negrinhos com ar carioca metidos em togas, em passo ligeiro de malandro. Carnaval, Hollywood, os livros exóticos estragaram um pouco essa primeira impressão que poderia ser extraordinária.
Uma das melhores coisas interiores é sentir que hoje ainda não é amanhã, que amanhã fatalmente virá, mas que hoje é inteiramente hoje.
 





Vilas econômicas – Citael, Citael, sobretudo Citael – Ela sorriu pra mim, quando não sorri para quase ninguém. Diz a madrinha qu’ela achou-me engraçada e sem razão, com meus cabelos assim e tão novinha, acrescentou. Voltei uma hora, vou dormir, ler um pouco. Amanhã, trabalhar no meu livro, fazer o possível para suportar sem excessiva inquietação essa semana que vem até ir a Nápoles – Estado de viagem, de espera, de saudade, de projetos, de inquietação e ignorância e ansiedade. Tania, minha irmãzinha, eu te amo. E minha Elisa também. Marciazinha está dormindo agora. M. já deve estar em Nápoles. Quero que ele sinta tanta falta de mim quanto eu dele. Por culpa dele, porque ele sempre arranja um jeito de ler minhas notas, nada posso dizer a seu respeito. No entanto, há bastante. Boa-noite.
 
 


 
Lisboa, dia 8 de agosto de 1944
 
Que coisa desagradável, desagradável, desagradável. Ribeiro Couto jantou comigo na casa dele, já pela segunda ou terceira vez. Não vi nada demais nisso, ele me tratava como camarada, e eu até ficava com medo que ele estivesse saindo comigo de má vontade, só por dever de ser delicado. Fez duas poesias sobre mim, e disse que fez muitas outras por causa de mim. Que há muito tempo isso não sucedia. Que ele ia sentir minha falta. Que eu era estranha e curiosa. Mil vezes, a propósito de tudo, me dizia como ele era discreto, como o principal era a reputação. Que o fato de eu ter ido à casa dele, aos olhos dos outros, era como se eu tivesse dormido com ele. Por isso era melhor não dizer a ninguém. E hoje me fez fazer um papel chatíssimo, obrigando-me a fingir que era uma americana, para um amigo dele, “defendendo minha reputação”. Que nojo, que cansaço. Já há dias notava que ele se
 
 




aproximava um pouco de mim. Hoje andou de braço comigo – tão desagradável meu papel. E depois, enquanto na feira esperávamos a roda, segurou-me em mão, procurou encostar não na fazenda mas no pulso. Retirei-a discretamente. Disse que sou complicada e austera, que é horrível que ele se sinta atraído por pessoas diferentes dele. Que poderia ficar comigo três dias sem parar até eu morrer de cansaço. Eu já previra indistinta [a] isso, mas ele insistiu tanto para dançarmos. No carro, segurou minha mão, beijou-a muitas vezes, encostou-a ao rosto. Eu fiquei fria de aborrecimento. Eu disse: que explosão. Ele disse: só interna e mais coisas. Que ele não tinha dormido por minha causa (ele tinha antes contado apenas a insônia). Depois de outras tentativas, que eu repelia vexada, ele disse que sentia muita ternura por minha vida, uma vida difícil. Depois viu mesmo o meu silêncio, e disse: mais tarde você vai ver, vou me vingar. Eu disse: como?! Ele disse: sem gestos.
 
 




Antes eu vira que ele afastara [Moscoso?]. Disse-lhe que este não aparecera, ele retrucou: ele viu seus cabelos, sua boca, mas pensou que você era leviana, quando viu que não, afastou-se. Deus meu, me muerdo las manos de solitud. Mas não há nenhum desespero, há que é: desagradável. Amanhã há um jantar com convidados na casa dele. Assim não me incomodo. Mas quinta, sexta, sábado e domingo? Esquivar-me sem ofendê-lo. Disse-me que ainda no Rio, ele procurava me ver, em vez de passar por não sei que rua procurava a Silveira Martins. Que a base de vários poemas são agora olhos cinzentos. Me desagrada, horrível esse derrame lírico. Que eu o inspiro. Que dei vida às coisas. Que descubro pequenas coisas que ele sentia mas não sabia definir (mandíbulas das portuguesas)

 
 


 
Chuto, chato. Minha querida, sei que você está sozinha, mas você é você. Quando chegar em Nápoles, arranja um modo de trabalhar e ter horário e nesses intervalos trabalhar para você mesma, com o impulso que o trabalho fora dá. E que os homens façam o que quiserem. Inclusive M., que eu amo. Ribeiro Couto disse que todos sabiam que eu e Lúcio éramos namorados. Quero gostar de várias pessoas para não esperar nada de nenhuma, particularmente. Não quero que minha vida seja uma tortura de desilusões. Noto que de novo tenho que fazer a minha vida, que me defender dos outros. No fundo eles hão de rir de mim. Ou não? Possível não. O fato é que tenho que considerá-los em bloco para que nenhum deles particularmente me fira. É, a solidão anda. Boa-noite, querida. Durma bem!
 
 




Sábado – fazer unhas, me vestir, ir ao cinema, buscar minha pulseira, comprar um livro policial, de noite, ler.
Domingo – trabalhar até meio-dia, escrever carta, ir ao cinema.
Segunda – trabalhar até às doze horas, ler, ir ao cinema Todos os dias – trabalhar, ir ao cinema, ler policial, procurar costureira segunda-feira, indagar cartomante
Segunda-feira: comprar naftalina, comprar chapéu palha de milho, endireitar a unha, trocar o livro, comprar papel-carta, escrever, buscar a pulseira, dar broche prata consertar, telefonar costureira (Frederic-Luisa), ir ao cinema (Tivoli)