Mostrar mensagens com a etiqueta Clarice Lispector. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clarice Lispector. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
Os recursos de um ser primitivo.
Fotografia de João Pina
|
Os
recursos de um ser primitivo
Li
uma vez que os movimentos histéricos tendem a uma libertação por meio de um
desses movimentos. A ignorância do movimento exato, que seria o libertador,
torna o animal histérico, isto é, ele apela para o descontrole. E, durante o
sábio descontrole, um dos movimentos sucede ser o libertador.
Isso
me faz pensar nas vantagens de uma vida apenas primitiva, apenas emocional. A
pessoa primitiva apela, como que histericamente, para tantos sentimentos
contraditórios, que o sentimento libertador termina vindo à tona, apesar da
ignorância da pessoa.
Clarice
Lispector, A Descoberta do Mundo.
Crónicas
domingo, 21 de maio de 2017
Clarice entrevista Vinicius.
Entrevista conduzida por Clarice
Lispector, publicada na revista Manchete e republicada em seu livro: Entrevistas. Rio
de Janeiro: Rocco, 2007.
* * *
- Vinicius, acho que vamos
conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama
de que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos
grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinicius, você
amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres que você casou,
e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a
mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele
inclui as mulheres.
Que eu amo o amor é verdade. Mas por
esse amor eu compreendo a soma de tosos ao amores, ou seja, o amor de homem
para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem
para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo
esse amor, mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive.
Tenho a impressão que, àquela que amei realmente, me dei todo.
- Acredito, Vinicius.
Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se
encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as
brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e
isso pode criar no mesmo par novos amores.
É claro, mas eu ainda acho que o amor
que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais
perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do
infinito.
- Você já amou desse modo?
Eu só tenho amado desse modo.
- Mas você acaba um caso porque
encontra outra mulher, ou porque se cansa da primeira?
Na minha vida tem sido como se uma
mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão
pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que
está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja
imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.
- Você sabe que você é um ídolo para
a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de
ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
Acho que é diferente. A juventude
procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir.
Chico não. É ídolo mesmo, trata-se de idolatria.
- Você suporta ser ídolo? Eu não
suportaria.
Às vezes fico mal humorado. Mas uma
dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos
livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em
nossa casa.
- Qual é a artista de cinema que você
amaria?
Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais
lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos
Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é
difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de
bicho, não tem outro.
- Fale-me de sua música.
Não falo de mim como músico, mas como
poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.
- Vinicius, você já se sentiu sozinho
na vida? Já sentiu algum desamparo?
Acho que sou um homem bastante
sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.
- Isso explicaria o fato de você amar
tanto, Vinícius.
O fato de querer me comunicar tanto.
- Você sabe que admiro muito seus
poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
Não sei, eu nunca escrevo poemas
abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica ao meus próprios
olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profundo e
consequentemente mais bela.
- Reflita um pouco e me diga qual é a
coisa mais importante do mundo, Vinicius.
Para mim é a mulher, certamente.
- Você quer falar sobre sua música?
Estou escutando.
Dizem, na minha família, que eu
cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um
leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam
piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai
também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
Fizemos um pausa. Ele continuou:
Tenho tanta ternura pela sua mão
queimada...
(Emocionei-me e entendi que este
homem envolve uma mulher de carinho). Vinicius disse, tomando um gole de
uísque:
É curioso, a alegria não é um
sentimento nem uma atmosfera de vida nada criativa. Eu só sei criar na dor e na
tristeza, nem mesmo as coisas que resultam sejam alegres. Não me considero uma
pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho
que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando
me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas
realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.
- Como e que você se deu dentro da
vida diplomática, você que é o antiformal por excelência?
Acontece que detesto tudo o que
oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem
que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve
outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem
que não vota ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do
conhecimento de si mesmo.
- Como pessoa, Vinicius, o que é que
desejaria alcançar?
Eu desejaria alcançar outra coisa.
Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de
amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.
- Quero lhe pedir uma favor: faça um
poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser,
Menestrel, fale o seu poema.
Meu poema é em duas linhas: você
escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
Clarice
Lispector
Acho lindo o teu nome, Clarice.
Clarice
Lispector
Acho lindo o teu nome, Clarice.
- Você poderia dizer quais as maiores
emoções que já teve. Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas,
que não ousaria falar delas.
Minhas maiores emoções foram ligadas
ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses.
Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro –
mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções
de que te falei.
- Você se sente feliz? Essa,
Vinicius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
Se a felicidade existe, eu só sou
feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria
felicidade é dolorosa.
Meditamos um pouco, conversamos mais
ainda, Vinícius saiu. Então telefonei para uma das esposas de Vinicius.
- Como é que você se sente casada com
Vinicius?
Ela respondeu com aquela voz que é um
murmúrio de pássaro:
“Muito bem. Ele me dá muito. E mais
importante do que isso, ele ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das
pessoas”.
Depois conversei com uma mocinha
inteligente:
“A música de Vinícius",
disse ela, “fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela”
- Você teria um “caso” com ele?
Não porque apesar de achar o Vinícius
amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo
aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E de
“repente”, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso
poetinha como o chamamos.
Eis pois alguns segredos de uma
figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de
Moraes.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Lisboa, 1944.
Republica-se, nesta série «Estrangeiros
sobre Portugal», um apontamento de Clarice Lispector que já havia sido
divulgado no Malomil.
O
Instituto Moreira Salles tem uma página sobre
Clarice Lispector onde existe de tudo: vida, bibliografia livro a
livro, traduções comparadas, uma infinidade de «valências», que é termo não
usado por Clarice – e ainda bem. Entre o muito que nos oferece, o Instituto
disponibiliza em linha o caderno pessoal de Clarice,
«caderno de bordo» de 58 páginas, doado pelo filho e herdeiro da escritora, em
2012.
Há precisamente setenta anos,
Clarice fez escala em Lisboa, rumo a Nápoles. Era Agosto. Antes disso, fizera
escala em Fisherman’s Lake, na Libéria, e daí algumas referências a negros e
negrinhos, anotações que mais tarde seriam incluídas no conto «A menor mulher
do mundo», de Laços de Família.
Também anotações esparsas que seriam integradas no romance O Lustre, publicado em 1946.
Lisboa, 2 de agosto de
1944
Almoço e jantar com Ribeiro Couto. Tudo bem. E
no fim uma sensação de extremo cansaço e aborrecimento, de fim, de fim, de fim.
Disse que era difícil me desenhar, tinha alguma coisa que não se pegava e a
doçura. Que eu tinha três coisas: ____________: infância, vida profunda e
alguma coisa áspera. Disse: animalidade banhada de luar. Queixo saudável. Deus
meu me perdoai, me dai real paz.
|
|
Não sei, talvez só em choque com os
outros se tenha amor por si mesma.
Lisboa, 3 de agosto de 1944
Ontem – lanche com [Moscoso?], almoço e
jantar com Ribeiro Couto, numa quinta e a beira do mar. Depois fomos a um lugar
de ouvir fado, depois fomos à feira, bar Sevilha. Voltei 2 da madrugada e dormi
até 1 de hoje. Hoje jantei com R.C. e Maria Archer.
(Este não é sopa)
Esparadrapo
Naftalina
Um ou dois vestidos
Naftalina
Um ou dois vestidos
Sola de sapato
Sapato preto
Expressões italianas
Fazer as unhas antes
de ir
A única coisa firme e
boa na vida é estar mais ou menos contra todo o mundo e só ser de e com
algumas. O que não exclui amizades, humanidade, piedade etc.
João Gaspar Simões
Rua da Artilharia, 44 – 4º andar
Não, não, eu não perdi minha
vida, mas falei demais
Lisboa, 4 de agosto de
1944, sexta-feira
Acordei quase dez horas. Ontem jantei em Cacilhas com Ribeiro Couto e Maria Archer. Fiz compras de manhã, fui à casa de Ribeiro Couto, almocei com ele, li capítulo dos bonecos de barro. Só de tarde ele disse quanto gostou. Disse que a mim não adianta dar conselhos, que sem ter experiência eu sei de tudo. Coisas agradáveis e bem observadas, já ouvidas ou sentidas. Depois do almoço ele me mudou. Hotel mais barato é melhor. “Sem aqueles homens do Hotel Astoria, no hall, admirando você embasbacados”. Mudei-me para o parque Palacio. Li todo o romance de Maria Archer. Saudade de M. Fui jantar em Bucelas – paisagem nítida e cor-de-rosa ovelhas – olivais – Tejo –
negros dormindo na rua. Negrinhos com ar carioca metidos em togas, em passo
ligeiro de malandro. Carnaval, Hollywood, os livros exóticos estragaram um
pouco essa primeira impressão que poderia ser extraordinária.
Uma das melhores coisas interiores é sentir que hoje ainda não é amanhã, que amanhã fatalmente virá, mas que hoje é inteiramente hoje.
Uma das melhores coisas interiores é sentir que hoje ainda não é amanhã, que amanhã fatalmente virá, mas que hoje é inteiramente hoje.
Vilas econômicas –
Citael, Citael, sobretudo Citael – Ela sorriu pra mim, quando não sorri para
quase ninguém. Diz a madrinha qu’ela achou-me engraçada e sem razão, com meus
cabelos assim e tão novinha, acrescentou. Voltei uma hora, vou dormir, ler um
pouco. Amanhã, trabalhar no meu livro, fazer o possível para suportar sem
excessiva inquietação essa semana que vem até ir a Nápoles – Estado de viagem,
de espera, de saudade, de projetos, de inquietação e ignorância e ansiedade.
Tania, minha irmãzinha, eu te amo. E minha Elisa também. Marciazinha está
dormindo agora. M. já deve estar em Nápoles. Quero que ele sinta tanta falta de
mim quanto eu dele. Por culpa dele, porque ele sempre arranja um jeito de ler
minhas notas, nada posso dizer a seu respeito. No entanto, há bastante.
Boa-noite.
Lisboa, dia 8 de
agosto de 1944
Que coisa desagradável, desagradável, desagradável. Ribeiro Couto jantou comigo na casa dele, já pela segunda ou terceira vez. Não vi nada demais nisso, ele me tratava como camarada, e eu até ficava com medo que ele estivesse saindo comigo de má vontade, só por dever de ser delicado. Fez duas poesias sobre mim, e disse que fez muitas outras por causa de mim. Que há muito tempo isso não sucedia. Que ele ia sentir minha falta. Que eu era estranha e curiosa. Mil vezes, a propósito de tudo, me dizia como ele era discreto, como o principal era a reputação. Que o fato de eu ter ido à casa dele, aos olhos dos outros, era como se eu tivesse dormido com ele. Por isso era melhor não dizer a ninguém. E hoje me fez fazer um papel chatíssimo, obrigando-me a fingir que era uma americana, para um amigo dele, “defendendo minha reputação”. Que nojo, que cansaço. Já há dias notava que ele se
aproximava
um pouco de mim. Hoje andou de braço comigo – tão desagradável meu papel. E
depois, enquanto na feira esperávamos a roda, segurou-me em mão, procurou
encostar não na fazenda mas no pulso. Retirei-a discretamente. Disse que sou
complicada e austera, que é horrível que ele se sinta atraído por pessoas
diferentes dele. Que poderia ficar comigo três dias sem parar até eu morrer de
cansaço. Eu já previra indistinta [a] isso, mas ele insistiu tanto para
dançarmos. No carro, segurou minha mão, beijou-a muitas vezes, encostou-a ao
rosto. Eu fiquei fria de aborrecimento. Eu disse: que explosão. Ele disse: só interna
e mais coisas. Que ele não tinha dormido por minha causa (ele tinha antes
contado apenas a insônia). Depois de outras tentativas, que eu repelia vexada,
ele disse que sentia muita ternura por minha vida, uma vida difícil. Depois viu
mesmo o meu silêncio, e disse: mais tarde você vai ver, vou me vingar. Eu
disse: como?! Ele disse: sem gestos.
Antes eu vira que ele
afastara [Moscoso?]. Disse-lhe que este não aparecera, ele retrucou: ele viu
seus cabelos, sua boca, mas pensou que você era leviana, quando viu que não,
afastou-se. Deus meu, me muerdo las manos de solitud. Mas não há nenhum desespero,
há que é: desagradável. Amanhã há um jantar com convidados na casa dele. Assim
não me incomodo. Mas quinta, sexta, sábado e domingo? Esquivar-me sem
ofendê-lo. Disse-me que ainda no Rio, ele procurava me ver, em vez de passar
por não sei que rua procurava a Silveira Martins. Que a base de vários poemas
são agora olhos cinzentos. Me desagrada, horrível esse derrame lírico. Que eu o
inspiro. Que dei vida às coisas. Que descubro pequenas coisas que ele sentia
mas não sabia definir (mandíbulas das portuguesas)
Chuto, chato. Minha
querida, sei que você está sozinha, mas você é você. Quando chegar em Nápoles,
arranja um modo de trabalhar e ter horário e nesses intervalos trabalhar para
você mesma, com o impulso que o trabalho fora dá. E que os homens façam o que
quiserem. Inclusive M., que eu amo. Ribeiro Couto disse que todos sabiam que eu
e Lúcio éramos namorados. Quero gostar de várias pessoas para não esperar nada
de nenhuma, particularmente. Não quero que minha vida seja uma tortura de
desilusões. Noto que de novo tenho que fazer a minha vida, que me defender dos
outros. No fundo eles hão de rir de mim. Ou não? Possível não. O fato é que
tenho que considerá-los em bloco para que nenhum deles particularmente me fira.
É, a solidão anda. Boa-noite, querida. Durma bem!
Sábado – fazer unhas,
me vestir, ir ao cinema, buscar minha pulseira, comprar um livro policial, de
noite, ler.
Domingo – trabalhar
até meio-dia, escrever carta, ir ao cinema.
Segunda – trabalhar até às doze horas, ler, ir ao cinema Todos os dias – trabalhar, ir ao cinema, ler policial, procurar costureira segunda-feira, indagar cartomante
Segunda – trabalhar até às doze horas, ler, ir ao cinema Todos os dias – trabalhar, ir ao cinema, ler policial, procurar costureira segunda-feira, indagar cartomante
Segunda-feira: comprar
naftalina, comprar chapéu palha de milho, endireitar a unha, trocar o livro,
comprar papel-carta, escrever, buscar a pulseira, dar broche prata consertar,
telefonar costureira (Frederic-Luisa), ir ao cinema (Tivoli)
Subscrever:
Mensagens (Atom)