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quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Um documento estarrecedor: Churchill publico e privado, 1940, Londres em chamas

  



O título soa um tanto romanesco para um período que oscilou entre o dramatismo e a cavalgada apocalítica da guerra, aquele determinante ano de 1940 em que Winston Churchill se pôs à frente dos destinos da Grã-Bretanha e levantou o moral do seu povo, cumpria-se o seu vaticínio de sangue, suor e lágrimas; mas o que há de completamente inédito nesta poderosa investigação que em certos momentos assume o perfil de um guião de série televisiva, vamos ver o "Velho Leão” no seu círculo político mais privado, irão assomar personalidades desconcertantes, acompanharemos a vida privada do primeiro dos resistentes, as consecutivas manobras de um político habilidosíssimo que vai atraindo o presidente Roosevelt para o combate às tiranias europeias. É um documento de leitura obrigatória: O Esplendor e a Infâmia, por Erik Larson, Publicações Dom Quixote, 2022.

Maio-junho de 1940, a França caminha para a capitulação, as forças alemãs parecem imparáveis, invadiram a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo, utilizando blindados, bombardeiros de mergulho e tropas paraquedistas, com efeitos avassaladores, os contingentes franceses esboroam-se, a força expedicionária britânica corre risco de ficar aprisionado. É neste clima que o rei Jorge VI dá posse a Churchill como primeiro-ministro. E logo ficamos a saber que a vida do primeiro-ministro não é nada fácil, tem um filho que é esbanjador, infiel e truculento, e uma filha rebelde. Entramos ao mesmo tempo no tal círculo privado de Churchill, o seu gabinete pessoal, o secretário particular, Colville, que anda embeiçado por uma menina de alta roda, sempre a esgueirar-se. Os EUA são manifestamente hostis a que se entre na guerra, preferem o isolacionismo, as relações de Churchill com o embaixador Kennedy são péssimas; o chefe do seu gabinete militar é o major-general Hastings Ismay, será outra presença permanente no grupo dos fiéis de Churchill. Churchill envia um telegrama secreto a Roosevelt, dá-lhe a saber que o Reino Unido resistirá com todas as suas forças, mas não é de excluir um Europa completamente subjugada e nazificada, pede-lhe apoio, logo o financeiro, toda a correspondência subsequente alargará o leque de pedidos, inclusivamente no campo militar. O primeiro-ministro dá primeira prioridade à produção aeronáutica, a Luftwaffe é considerada muitíssimo superior à RAF, numa escolha genial nomeia Lorde Beaverbrook ministro da produção aeronáutica, vai iniciar-se uma estranhíssima relação entre dois colossos, é uma delícia acompanhá-la neste livro, será este homem o grande impulsionador da construção de uma frota aérea se revelará temível e capaz de suster as vagas de bombardeamentos até que Hitler decrete a invasão da União Soviética, tudo será alterado, independentemente do Reino Unido sofrer ataques submarinos que provocam perdas catastróficas de alimentos e armamento.

Erik Larson gera uma teia de interligações que nos permite aferir o plano perpetrado por Göring para pôr de joelhos o Reino Unido, na sombra Hess, o considerado vice de Hitler, começa a maquinar uma tentativa de acordo, no seu delírio viajará até à Escócia, será detido até ser julgado em Nuremberga.

A um ritmo que impede o leitor de fazer pausas, iremos assistir à retirada de Dunquerque, ao aparecimento de cientistas que trarão uma enorme mais-valia ao conhecimento das tecnologias da Luftwaffe; a queda da França irá arrostar situações de uma enorme intensidade dramática, como a decisão de bombardear a frota francesa em Mers-el-Kébir, porto argelino; há os fins de semana em Chequers, repousantes para Churchill mas aonde podemos assistir a uma vida familiar heteróclita. É justamente relevado o desempenho de Lorde Beaverbrook, sempre a dizer que se metia e Churchill sempre a acalmá-lo, há os amores infelizes de Colville e os preparativos para um possível invasão alemã, Hitler ainda não decidira desencadear a operação Leão Marinho, preferia um acordo de paz, sempre recusado por Churchill e vai começar a dinâmica dos bombardeamentos, eles acentuam-se a partir de agosto, terão o seu ponto alto em novembro, já se intimidara Londres, Coventry será fustigada brutalmente, torna-se no símbolo da destruição pela barbárie, como Erik Larson escreverá: “As incendiárias salpicaram os telhados e terrenos da famosa Catedral St. Michael, a primeira das quais caiu por volta das oito da noite. Uma caiu no telhado, que era feito de chumbo. O fogo derreteu o metal, fazendo-o pingar no interior da madeira e pegando-lhe fogo. A equipa de bombeiros não pôde fazer mais do que ficar a ver. A conduta de água tinha sido destruída por uma bomba. À medida que o fogo avançava e começava a consumir o coro, as capelas e as pesadas vigas de madeira do telhado, alguns funcionários da igreja correram lá para dentro para resgatar tudo o que conseguiam. O prior da catedral escreveu que todo o interior estava transformado numa massa fervilhante de chamas e de pilhas de vigas e madeiras flamejantes, envoltas e encimadas por um denso fumo cor de bronze.” E o autor faz-nos estremecer com cenas de horror, cães com membros humanos na boca, corpos decapitados, torços carbonizados. Prosseguem as escaramuças entre o primeiro-ministro e o seu ministro hipersensível, Churchill chega a atingir grandes níveis de epistolografia, do género: “Não tem o direito, no auge de uma guerra como esta, de me onerar com os seus fardos. Ninguém sabe melhor do que você quanto dependo de si para conselho e conforto. Não deve esquecer, perante pequenas contrariedades, a vasta escala de acontecimentos e o palco bem iluminado da história em que nos encontramos”.

Há magníficas descrições como um jantar Glasgow, Churchill bem adoentado ao lado de Hopkins, o representante que Roosevelt nomeara para apurar a situação da Grã-Bretanha, Churchill pergunta-lhe o que é que ele irá dizer ao presidente e Hopkins recitou uma passagem bíblica do Livro de Rute: “Aonde fores irei; onde ficares ficarei; o teu povo será o meu povo; e o teu Deus será o meu Deus”. Churchill chorou. Empolgante é a descrição da viagem de Averell Harriman, enviado especial de Roosevelt junto de Churchill, haverá mesmo uma passagem por Lisboa em que o político comprará um saco de tangerinas para oferecer a Clementine, esta ficará deslumbrada. E não se pode perder a viagem de Churchill aos Estados Unidos, ficou na Casa Branca, à hora da deita Churchill foi para o seu quarto e conversa animadamente com o seu colaborador Thompson, batem à porta, é Roosevelt na sua cadeira de rodas. Churchill está nu e diz ao presidente, não tenho nada a esconder. “Churchill prosseguiu, atirando uma toalha sobre o ombro, e durante a hora seguinte conversou com Roosevelt, enquanto andava pelo quarto nu, a beber a sua bebida, de vez em quando voltando a encher o copo do presidente. O inspetor Thompson irá escrever que Churchill não teria sequer pestanejado se a Sra. Roosevelt também tivesse entrado no quarto.”

É inspiradora esta obra, neste nosso tempo, ao vermos a resiliência de Churchill, temos aqui a esperança e o exemplo da resistência quando os tiranos nos batem à porta.

De leitura obrigatória, pois.


 Mário Beja Santos





sábado, 11 de abril de 2020

A capa do Expresso.




          A capa da revista E, do Expresso de 4 de Abril de 2020 provocou muitos comentários negativos nas redes sociais por se considerar que compara o presidente da República e o primeiro-ministro portugueses a Winston Churchill, primeiro-ministro britânico durante a II Guerra Mundial.

          O texto inscrito na capa estimula, efectivamente, essa comparação: «Winston Churchill tornou-se um herói devido à II Guerra Mundial. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são líderes à altura desta pandemia?». Embora na forma interrogativa, a comparação existe no facto de a segunda frase estar a seguir à primeira, criando uma falácia consequencial: a frase B é consequência da frase A, caso contrário não estaria a seguir à primeira. Deste modo, o convite à comparação está presente: neste pequeno texto, a revista do Expresso considerou apropriado que o líder britânico (e mundial) na guerra de 1939-45 seja tomado como exemplo (hipotético, dada a interrogativa) para os leitores considerarem Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa como «heróis» «à altura» de Churchill. Ao mesmo tempo, a revista considera legítimo que se considerem no mesmo patamar líderes, quaisquer que sejam, em tempo de guerra real e líderes em tempo de «guerra», com aspas, como tem sido considerada a pandemia e a consequente coronacrisis. A hipótese do jornal é também atrevida por permitir-se imaginar essa comparação entre um líder de uma guerra que já terminou, que pode ser avaliada historicamente, e uma crise que não estará ainda a meio. Quer dizer, permite-se comparar uma avaliação do passado com uma avaliação do futuro, o que em termos científicos é um erro inaceitável e e termos jornalísticos é um erro gritante, se bem que prática comum do jornalismo desde há pelo menos uma década.

          Como acontece na imprensa, o texto remete para o interior, para artigos de Henrique Monteiro e de Ângela Silva (esta uma espécie de porta-voz de Marcelo Rebelo de Sousa na imprensa), textos que não analiso, porque analiso apenas a capa, que revela a ousadia de comparar os dirigentes políticos portugueses a Churchill.

          Essa ousadia é mais forte ainda na ilustração, porque a ilustração não implica a interrogação presente no texto verbal.

          A fotomontagem mostra uma fotografia de Churchill em plano médio aproximado, com o preto e branco acrescentado no fundo negro, a conotar o passado. Embora não seja possível verificar se o negro do fundo faz parte da fotografia original ou se foi acrescentado, pode dizer-se que ele serve os efeitos desejados pela capa, de transmitir um momento difícil («negro»), de concentrar toda a luz, e assim a atenção, na figura de Churchill e de o associar ao passado e a um passado para ser tomado como realista, dada a ligação que, historicamente se veio a atribuir, até hoje, entre o «realismo» e o preto e branco. Se aí temos o passado, o presente é dado aos leitores pela presença e pela cor da máscara acrescentada a Churchill. A máscara é um índice da actual pandemia.

          Churchill está, pois, de máscara antivírus, isto é, o leitor é confrontado com uma imagem do que nunca aconteceu na realidade, com uma falsificação histórica ao serviço de um conjunto de ideias. É uma falsificação porque nunca existiu; e é ao serviço de uma ideia, porque pretende transmitiu ideias através da junção da máscara a Churchill.

          Quais são essas ideias?

          Em primeiro lugar, que a pandemia e a coronacrisis se assemelham à II Guerra Mundial.

          Em segundo lugar, que quem se destaca(r) na coronacrisis é comparável a quem se destacou como líder na II Guerra Mundial.

          Em terceiro lugar, numa consideração multimodal (imagem e texto verbal), que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são comparáveis a Churchill. Se o texto verbal, se fica pela interrogativa (a revista não quis exagerar no texto verbal, que é mais facilmente desmontável criticamente por qualquer um), a junção da imagem e do texto transforma a frase verbal numa afirmação: quem lidera durante a coronacrisis é comparável a Churchill.

          Acrescento dois aspectos contextuais.

          Em primeiro lugar, não só Churchill nunca terá usado uma máscara daquelas (não há fotografias de Churchill com uma), como Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, se a usaram, foi em raríssimas situações pontuais (visitas a empresas ou hospitais). Não a usaram em reuniões com mais ou muito mais de cinco pessoas, como as duas já realizadas no Infarmed. Como sabemos, Portugal não dispõe de máscaras suficientes nem para o pessoal hospitalar na luta contra a pandemia, quanto mais para a população.

          Em segundo lugar, a glorificação do presidente e do primeiro-ministro tem sido uma marca constante dos media do grupo Impresa, com destaque para o Expresso e para a SIC. Esta comparação verbal-visual de ambos com Churchill na capa da E, que considero um vómito, faz parte dessa linha editorial tornada notícias e reportagens.

          Em terceiro lugar, numa nota pessoal, pareceu-me, quando vi a capa pela primeira vez, que a revista censurava Churchill, calava-o com uma mordaça. Sendo ele um defensor acérrimo da liberdade de expressão e de imprensa, o que não acontece com tanta gente em Portugal, incluindo alguns líderes, afligiu-me.



Eduardo Cintra Torres
















domingo, 3 de julho de 2016

Lisboa, 1940.

 
A. J. Liebling (1904-1963) 

 
Abbott Joseph «A. J.» Liebling (1904-1963) foi um dos mais conhecidos repórteres da revista New Yorker, onde começou a escrever em 1935, e aí permaneceu até à morte.
         Nesta nota, enviada de Lisboa em 24 de Junho de 1940, e publicada na New Yorker na sua edição de 6 de Julho do mesmo ano, Liebling dá conta da atmosfera vivida na capital portuguesa após a invasão de França pelos exércitos nazis e, bem assim, da tensão existente no país e nas comunidades estrangeiras que aqui residiam ou se encontravam de passagem.
         À semelhança do que ocorreu com textos aqui publicados (de Hugh Trevor-Roper ou Mary McCarthy), a tradução da reportagem de Liebling não pretende ser particularmente rigorosa ou, digamos assim, «profissional».  
 
 

Lisboa, 1940

 
 
Carta de Lisboa
24 de Junho 1940 (por Clipper)
 
         Actualmente, Lisboa é das poucas cidades europeias confortáveis que restam, mas paira no ar alguma inquietação. Os acontecimentos em França refrearam o ímpeto dos preparativos da comemoração dos 800 anos da independência e da «libertação do jugo espanhol» que pôs termo a uma união temporária com o país-vizinho. Pacíficos por natureza, os portugueses não podem deixar de pensar que pouco conseguirão fazer para evitar o regresso do jugo espanhol, caso Franco assim o deseje, e esperam que ele não se sinta muito melindrado pelas festividades em preparação.
         O regime do Senhor Salazar, um professor universitário de economia política que envergou as vestes de ditador absoluto, manteve Portugal um país solvente, mas desarmado. A Espanha fascista, com uma situação financeira em descalabro, como qualquer bom economista poderá explicar-vos em dez minutos, começa a erguer a cabeça com a sua dispendiosa artilharia. É a habitual equação canhões vs. manteiga, aqui aplicada a uma escala reduzida. O condutor português do Wagons-Lits que faz o percurso de Irun até Lisboa já deixou de gracejar com o contraste entre os preços das refeições na carruagem-restaurante e aquilo que os espanhóis têm para comer. O seu apetite e a comida continuam bons, mas anda preocupado. 
         O Senhor Salazar alimenta a esperança de que o General Franco se mostre grato pelos favores que lhe fez durante a Guerra Civil. Está ciente de que, pela primeira vez desde as guerras peninsulares, a tradicional aliança de Inglaterra com Portugal constituiu mais uma ameaça do que um trunfo. Não é, em todo o caso, uma aliança que mesmo um ditador possa romper de um dia para o outro, já que o inglês é a segunda língua falada em Lisboa, os bancos ingleses controlam o sistema financeiro do país, durante séculos os ingleses foram os grandes consumidores de vinho do Porto e Portugal sabe que, caso a Grã-Bretanha seja derrotada, as colónias portuguesas serão confiscadas. Por outro lado, os Portugueses são afectuosos e sentimentais; aqueles que não têm posses – ou seja, a grande maioria da população – reagiram às derrotas de França de uma forma ingénua, entrando em pânico. Os italianos não são populares por aqui, nem mesmo os alemães, ainda que a comunidade germânica de Lisboa seja numerosa. Há umas semanas, a polícia fez uma rusga ao clube e à escola alemã e descobriu uma apreciável quantidade de armas – tantas que quase chegariam para formar um exército em Portugal.
         Para quem viva em Lisboa, é difícil abstrair muito tempo da situação política, mas, na aparência, a vida corre sem sobressaltos, seja na capital, seja na Riviera portuguesa, uma região em forma de crescente que começa ao norte da cidade e se espraia por umas trinta milhas ao longo da costa. Não é necessário tapar as janelas à noite, algumas sessões de cinema chegam a começar à uma da manhã e o Casino Estoril, a zona de veraneio mais em voga no país, só se anima por volta das três da madrugada. Para aqueles que acabam de chegar de França, de Inglaterra ou da Alemanha, tudo isto parece outro mundo. A vida social britânica, que sempre teve a atmosfera típica de uma festa de jardim de um governador colonial, prossegue sem alterações, com os ingleses a jogar às cartas com os seus compatriotas, a fazer representações de teatro amador (Sir John Barrie e Ian Hay são os dramaturgos favoritos), a apostar moderadamente no Casino. Espera-se que o duque de Kent participe na abertura das comemorações centenárias e um comité especial do Royal British Club está a preparar com rigor a sua recepção, apenas se interrogando se os alemães e os italianos não chegarão antes dele.     
         Em caso de emergência, a Marinha inglesa certamente será capaz de resgatar do país os residentes de nacionalidade britânica, mas, até que isso aconteça, os ingleses enfrentam grandes dificuldades em regressar a Londres. Não existe uma linha regular de transporte de passageiros e os navios fretados são pequenos, desconfortáveis e escassos. Os únicos meios para abandonar o país são os Pan American Clippers, com destino a Nova Iorque, e as carreiras que rumam à América do Sul. Como estas últimas não são muito procuradas, os hotéis de Lisboa enchem-se de americanos vindos de França que esperam por um lugar no Clipper. À primeira vista, o número total, cerca de mil pessoas, não parece significativo. Contudo, se compararmos os passageiros que um Clipper pode transportar – no máximo, vinte cinco, na viagem para Oeste – e os quartos decentes que existem nos hotéis de Lisboa e da linha do Estoril, apercebemo-nos de que aquele número é astronómico. 
    ***
         Perante o que se passou, os ingleses continuam a abanar gravemente as suas cabeças, dizendo que é comum Churchill abster-se de recriminações, e que o que restou do exército francês deveria ter sido evacuado para defender as Ilhas Britânicas. O desaparecimento daquele exército alterou de tal forma a correlação de forças entre as diversas nações europeias que ainda ninguém se habitou à ideia; foi como se tivesse morrido subitamente a pessoa que é o ganha-pão de uma família numerosa.
         No mês passado, em Nancy, quase todos os correspondentes ingleses e americanos juntaram esforços em busca da única divisão britânica que supostamente alcançou a frente de batalha. Actualmente, essa divisão esfumou-se. O episódio têm o seu quê de divertido, já que os perigos criados pelo falhanço do governo de Chamberlain em enviar tropas para a frente de combate só se tornaram patentes no mês passado, quando o exército francês, reduzido a menos de um milhão de homens, para não falar das divisões imobilizadas na fronteira italiana, tentou enfrentar em campo aberto três milhões de soldados alemães.
 
***
         Curiosamente, os fascistas espanhóis continuaram a trocar francos por pesetas, ao passo que os portugueses, francófilos mas prudentes em questões financeiras, recusam-se a aceitar a moeda gaulesa. Até agora, o único movimento ostensivo de Espanha foi a ocupação da zona internacional de Tânger, algo que, segundo a versão oficial, foi feito «com o consentimento dos governos francês e britânico». Os homens de negócios de Lisboa só se aperceberam daquela operação quando começaram a receber correspondência com selos ostentando a cara de Franco em vez dos retratos do rei Jorge e da rainha Isabel.   
         Em Irun, a cidade fronteiriça onde é habitual esperar várias horas pelo Sud-Express para Lisboa, já servem refeições, o que não sucedia há nove meses atrás. Os espanhóis dizem que a alimentação é demasiado cara para os seus níveis salariais, mas o mero facto de ela existir é já um progresso. Os jornais espanhóis são, naturalmente, pró-nazis e pró-italianos, ainda que as pessoas que encontramos nos bares de Irun ou nas tabernas de Fuenterrabia, nas redondezas, façam troça dos italianos. «Os alemães não lhes vão dar nada de nada», dizem. Admiram os alemães e congratulam-se por ver os franceses humilhados. Os espanhóis antifascistas mantêm-calados, e não é certo que ainda nutram grande simpatia pelos ingleses.
         Há umas noites atrás, um alemão que falava inglês virou-se para um casal de americanos num bar de Lisboa e disse-lhes: «Meus caros, Hitler não tem quaisquer pretensões relativamente ao Canadá ou aos Estados Unidos. É um homem recto, que apenas reclama aquilo a que tem direito». Faz lembrar o que alguém disse de uma eleição realizada no Sarre já parece há quase um século, em 1935.
 
A.   J. Liebling
 
 
Tradução de António Araújo 
 
 
 
 
 

 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Roger Casement e Portugal.

 
 
 
 
Roger Casement (1864-1916)
 
 
 
O António Araújo publicou aqui um post sobre dois missionários baptistas que denunciaram as atrocidades cometidas no Congo do Rei Leopoldo sobre os trabalhadores da borracha. Para quem, como eu, ensina Direito Internacional do Trabalho há mais de vinte anos não poderia haver tema mais convidativo.
De imediato recordei a figura de Roger Casement, fascinante e enigmático, herói estigmatizado, Cavaleiro do Império e traidor a Sua Majestade. E, acima de tudo, o diplomata humanitário que deu o maior contributo para destruir a imagem do maior proprietário do mundo: o actual Zaire, com os seus 2,5 milhões de quilómetros quadrados, era propriedade privada do Rei Leopoldo, por obra e graça da Conferência de Berlim de 1885. Foi por causa de Casement que Conan Doyle falou no maior crime registado nos anais da Humanidade e que Mark Twain aludiu ao “Rei com 10 milhões de mortos na consciência”.
Muitos foram os que denunciaram os crimes, desde John Harris e Alice Seeley. Mas Casement era diplomata britânico, cônsul em Boma, capital do Estado Livre do Congo. Uns podiam ter a força das convicções e das fotografias. Roger Casement teve por detrás dele a força do Império Britânico. O seu relatório, que o Foreign Office tornou público em 1904, mudou tudo. Foi constituída uma comissão de inquérito internacional que confirmou o essencial dos factos relatados. Restou a Leopoldo deixar que a Bélgica anexasse o Congo em 1908. No ano seguinte, teve o bom senso de morrer. Seria interessante, se tivesse teimado em viver, constatar se a reacção internacional em 1914 a propósito da invasão da Bélgica seria tão virulenta sendo seu monarca o universalmente detestado Leopoldo.
Roger Casement é um personagem que não tem fim. A literatura não o esqueceu: Mário Vargas Llosa, depois de tantos biógrafos, dedicou-lhe em 2010 um romance, O Sonho do Celta. A produção teórica sobre o nacionalismo irlandês, sobre a influência da comunidade irlandesa na política interna norte-americana, sobre a Grande Guerra, sobre o direito internacional do trabalho, sobre a influência da opinião pública na formação da política externa das potências, sobre estudos coloniais, sobre os estudos de género, sobre política (a propósito dos temas da memória política e do estado de emergência), sobre a jurisprudência inglesa (dele se diz que foi condenado por causa de uma vírgula), sobre a sua influência na literatura (em Joseph Conrad, por exemplo), tem abordado Casement dos mais diversos ângulos.
Vou apenas tocar alguns episódios da sua vida que têm relação com Portugal. Casement perdeu a mãe, primeiro, depois o pai, muito cedo. Lendo livros de aventuras, criou uma imagem romântica sobre África que o levou a um emprego na marinha mercante. Com 20 anos já tinha feito três viagens a África. Fixou-se no Congo até obter a primeira nomeação pública na… Nigéria. Em 1890, no Congo, conheceu Joseph Conrad, que capitaneava o vapor Roi des Belges no rio Congo, transportando borracha e marfim. Conrad simpatizou com Casement que em Inglaterra, anos mais tarde, pediu, com pouco sucesso, que o escritor o auxiliasse na sua campanha.
De seguida, entrou na diplomacia como cônsul em Lourenço Marques (27.6.1895). Aí permaneceu durante três anos. Teve um papel relevante nas relações dos portugueses com, imagine-se, Gungunhana.
Foi nomeado cônsul para as possessões portuguesas na África Ocidental ao sul do golfo da Guiné (Angola e São Tomé) em 29 de Julho de 1898. Durante a guerra dos Boeres foi colocado na Cidade do Cabo em 1899 e 1900. Depois disse que foi aí, constatando a brutalidade dos vencedores, que então criaram o infame conceito de “campo de concentração”, que começou a comparar a situação dos povos colonizados com a dos irlandeses secularmente submetidos.
Em 20 de Agosto de 1900 foi designado cônsul no Congo belga, ou seja, no Estado Livre do Congo, pertença do Rei Leopoldo. Um ano depois foi também designado cônsul no Congo Francês.
Em 1903, o Governo inglês, pressionado por uma campanha na qual as fotografias do casal Harris foram o principal trunfo, pediu-lhe que se dirigisse à região da extracção de borracha para apurar da veracidade dos relatos que chegavam às capitais europeias. Casement subiu o rio Congo e os seus despachos telegrafados não descreviam nada de especialmente relevante.
Até que deparou com um caso de mutilação. A partir de então os seus despachos tornaram-se muito alarmistas.
Após o regresso a Inglaterra, o Foreign Office publicou o seu relatório, por decisão pessoal do Primeiro-Ministro Lord Salisbury, o que produziu um grande escândalo internacional e forçou o governo inglês a agir, exigindo que fossem tomadas medidas. O Rei Leopoldo ainda ameaçou entregar o Congo aos alemães, mas acabou por fazer aquilo que planeava adiar para depois da sua morte, com um legado ao Estado belga, permitindo em 1908 a sua anexação pela Bélgica.
Casement foi, então, designado cônsul em Lisboa. Esteve por cá apenas em Novembro e no início de Dezembro de 1906. A sua saúde ficara comprometida em África. Tendo uma recaída, foi tratar-se a Londres e resignou ao cargo de Lisboa.
De seguida, Casement foi enviado como diplomata para um outro país de língua portuguesa, o Brasil. Cônsul em S. Paulo e no Paraná, em agosto de 1906, cônsul em Belém, em Dezembro de 1907, finalmente cônsul-geral no Rio de Janeiro, em Dezembro de 1908. De 1909 a 1912, de novo a pedido do Foreign Office, desenvolveu um inquérito sobre a indústria da borracha nas longínquas paragens da selva amazónica, junto ao rio Putumayo, na disputada fronteira entre o Perú e a Colômbia. As denúncias tinham começado a ser divulgadas na Europa por um engenheiro norte-americano, Walter Hardenburg, que investigara a Peruvian Amazon Company, de capitais britânicos mas dominada por caucheros locais.
 
Castigo, em Putumayo

 
 
Casement subiu o Amazonas, investigou, deparou com abusos terríveis. Também daí resultou um relatório devastador sobre os abusos cometidos pelos caucheros. Um deles, tinha sido o célebre Fitzcarrald, cuja vida aventurosa, mas breve (morreu aos 35 anos), já foi retratada no cinema. Bem mais tenebroso, e bem vivo quando Casement visitou a região, era um tal Julio Cesar Arana, responsável por grande parte das perfídias descritas por Casement. Deu conta, por exemplo, do ocorrido no início de 1900, quando aproximadamente quarenta mil indígenas tinham sido massacrados de forma atroz: ensopavam os cabelos de homens, mulheres e crianças em querosene e deitavam-lhes fogo, depois de serem torturados e violados. A própria Rosa Luxemburgo ficaria impressionada e citaria este relatório, numa nota de pé de página sem indicação do autor, no seu “A Acumulação do Capital”. Apesar de todas as denúncias, Arana continuaria a gozar tranquilamente da sua colossal fortuna, sendo um respeitado senador peruano e morrendo em Lima em 1952, com a provecta idade de 85 anos.
 
Julio Cesar Arana
 
Como já se viu, os barcos desempenharam um papel central na vida de Casement. Em Outubro de 1914 tomou a iniciativa fatal de seguir no Oskar II para a Noruega, em trânsito para a Alemanha, onde contava aliciar prisioneiros irlandeses para combater contra o domínio inglês. Em Abril de 1916 tomou lugar num submarino alemão para a Irlanda, a caminho do Easter Rising que, assim o esperava, libertaria a sua pátria. Pouco depois, aprisionado, seguiria de barco para a Inglaterra. Contra todas as regras da common law, o governo inglês decidiu que ele não poderia ser julgado na Irlanda. Nenhum júri, devidamente formado, o condenaria. Foi trancafiado na Torre de Londres, a prisão de todos os traidores à Coroa britânica. Foi aí que recebeu um telegrama de um velho conhecido: Julio Cesar Arana, com singular desfaçatez, dirigia-se-lhe para o aconselhar, como bom amigo, a renunciar à sua causa e, assim, salvar a sua preciosa vida.
Note-se que Casement podia ter-se salvado se tivesse alegado insanidade. Ele sabia que o Home Office tinha divulgado selectivamente os seus diários, onde se tornava evidente a sua homossexualidade. Nesses tempos, bastaria tal facto tornar-se conhecido para provar a existência de uma doença mental. O governo inglês tinha admitido essa saída, para evitar a criação de um mártir. Casement sabia disso e preferiu morrer. Afinal, quando entrou no pequeno bote que o levou a uma praia irlandesa, o oficial alemão perguntou-lhe de que precisava, ao que retorquiu que apenas precisava da sua mortalha.
Também é certo que, apesar da influência governamental numa matéria eminentemente política, o caso judicial seguiria os seus trâmites. Ora, o Attorney-General que, no caso inglês, é membro do Cabinet, é que teria competência para comutar a pena. Sucede que o acusador no processo de Casement tinha sido o próprio Attorney-General. Ou seja, aquele que iria decidir se daria razão aos que pediram clemência era o próprio que tinha pedido a condenação. Tratava-se de um grande causídico, F. E. Smith, mais tarde Lord Birkenhead, um dos mais próximos aliados de, pasme-se, Winston Churchill. 
 
E quem pedira clemência? Conan Doyle, Bernard Shaw, Sidney e Beatrice Webb. E dois escritores que muito aprecio: J. K. Jerome e Chesterton. Também o arcebispo de Cantuária. Não, afinal este não. Tinha primeiro pedido clemência, mas deu um passo atrás. Dissuadido por quem? Pelo Reverendo John Hobbis Harris que já conhecemos do Congo, e que fora um dos eleitos pelo Foreign Office para conhecer o conteúdo dos diários. Horrorizado, fez tudo para que o arcebispo não se juntasse aos peticionários. Fazendo jus ao destaque que o António Araújo deu à sua mulher, Alice Seeley, não sabemos se, neste ponto, ela concordou com a posição do marido. Vamos admitir que, em reconhecimento pelo papel que Casement desempenhou na mudança da situação no Congo, terá defendido o patriota irlandês (quanto à possibilidade de as coisas terem efectivamente mudado, estamos provavelmente a ser optimistas: ficou célebre a viagem, em 1926 e 1927, de André Gide pela África francesa, nomeadamente pelo Congo Brazzaville, que levou à denúncia de tantos abusos; não foi ao Congo Belga, é certo, mas é de admitir que a situação aí, embora não tão dramática como no tempo do Rei Leopoldo, estivesse longe de ser ideal).
Neste longo percurso de vida, aventurosa e arriscada, há algo que se destaca: Roger Casement esteve em três colónias portuguesas, em Portugal e num país de língua portuguesa. Nunca deu conta de uma violação dos direitos do homem, como hoje diríamos, em qualquer desses locais. E não se pode dizer que não houvesse uma campanha em Inglaterra contra o nosso governo e os nossos proprietários. O caso das roças de São Tomé, por exemplo, provocou um famoso caso judicial envolvendo a empresa Cadbury.
 


George Cadbury (1839-1922)

 
 
 
 
 
O Evening Standard publicou alguns artigos denunciando as condições em que se produzia cacau em São Tomé, acusando a Cadbury Bros Ltd. de cumplicidade nos terríveis abusos que aí seriam praticados há muitos anos. A família Cadbury era quaker, e apresentava a sua empresa como a empregadora ideal. Até tinha criado para os seus trabalhadores ingleses, junto à cidade de Birmingham, uma aldeia perfeita, Bournville (ainda existe e também deu nome a um chocolate criado há mais de um século). Se se provasse que George Cadbury tinha conhecimento pessoal dos abusos, a sua reputação cairia na lama. Ora, o seu filho, William Cadbury, tinha estado em São Tomé em 1901, tendo constatado as condições de trabalho. E tinham decidido continuar a comprar o cacau são-tomense porque o da Costa do Ouro, o actual Gana, era muito mais caro, porque as regras de trabalho eram fiscalizadas pelo Colonial Office. A propósito, de 1905 a 1908, imaginem quem desempenhou as funções de Under-Secretary of State for the Colonies: um tal Winston Churchill, no seu primeiro cargo governamental…
 
 
 
 
 
Desde 1903, vários membros da família Cadbury deslocaram-se a Lisboa para questionar os plantadores, tendo continuado a importar o cacau de São Tomé. Até que o escândalo desencadeado pelo Evening Standard obrigou a família Cadbury a reagir. No caso judicial que se seguiu, o Evening Standard foi defendido pelo brilhante advogado e político (irlandês ferozmente unionista) Edward Carson que, mais tarde, também teria um papel na tragédia de Casement. Na sequência do escândalo, a família Cadbury resignou-se a comprar cacau noutro sítio. William Cadbury, para se redimir, visitou as colónias portuguesas, tendo escrito a obra Labour in Portuguese West Africa, onde dedica especial atenção aos trabalhadores angolanos que eram enviados para São Tomé, aparentemente com contrato, na prática submetidos a trabalho forçado. Devo aqui dar uma nota pessoal: o meu pai foi juiz em São Tomé na segunda metade dos anos cinquenta do século passado e ainda julgou um caso terrível relacionado com trabalhadores de origem angolana que, tendo sido vítimas de abusos, se revoltaram e foram aprisionados em condições sub-humanas.
A verdade é que, sobre tudo isto e mais que houvesse, Casement disse nada. Permito-me terminar com algo que se passou muitos anos depois: em 1919 foi criada a Organização Internacional do Trabalho. A constituição da OIT contém a possibilidade de um Estado membro apresentar queixa contra outro Estado membro devido, não a questões de direito internacional, mas por causa de matérias que eram, naquela época e, para muitos, ainda hoje de cariz puramente interno: violações de direitos fundamentais dos trabalhadores.
Acontece que, apesar daquela possibilidade, nunca tal mecanismo foi posto em prática durante os primeiros quarenta anos de vida da OIT. Até que, em 1961, alguém apresentou queixa. Quem seria? O recém-independente Gana, pois então. E quem foi denunciado: Portugal, como não poderia deixar de ser. Tinha eclodido a guerra colonial. Antes disso, em 1959, Portugal tinha sido um dos primeiros Estados membros da OIT a ratificar a convenção nº 105, de 1957, sobre a abolição do trabalho forçado. Logo os governantes ganeses aproveitaram para tentar prejudicar a reputação do colonialismo português suave.
A queixa foi recebida, foi criada uma comissão de inquérito que se dirigiu a Angola e Moçambique. As autoridades portuguesas receberam a delegação da OIT. Foi-lhe permitido visitar o que quis e falar com quem quis. Os trabalhadores africanos foram interrogados sem a presença de empregadores e de autoridades locais. É o que consta do relatório da comissão. Nada foi provado contra Portugal, pelo que este caso acabou por redundar numa vitória da propaganda portuguesa.
 
José Luís Moura Jacinto





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A guerra dos poetas mortos.

 
 
 
Emil Nolde, Noite de Outono, 1924
 
 
 
 
Chamaram-lhe a Belle Époque. Na sua autobiografia Die Welt von Gestern, Stefan Zweig deu a esses “gute alte Zeiten” o nome de Idade de Ouro da Segurança. Parecia um tempo sem ameaças, prometedor e auspicioso. As forças extremistas, como os perigosos anarquistas da segunda metade do século XIX, estavam, dizia-se, controlados. O clima das grandes capitais europeias aparentava privilegiar sentimentos internacionalistas e europeístas. Os símbolos dessa época eram a cosmopolita Paris e a multicultural Áustria-Hungria.
Quando a guerra chegou, pondo fim a uma época áurea, emergiu de imediato a necessidade visceral de culpar a outra parte. Que melhor maneira de o fazer do que recorrer à elaboração culta que revisita a antiguidade e demonstra a superioridade moral e cultural sobre aqueles que, subitamente, descobrimos como bárbaros? Era o tempo do amador dotado, do gentleman poet estudioso do grego e do latim, frequentador das páginas dos quotidianos ingleses onde as suas versalhadas eram acolhidas com deleite jingoísta. Para os críticos posteriores, nunca a poesia britânica estivera tão em baixo. Mas os sentimentos eram puros e incentivadores do espírito guerreiro de uma nação em armas. A guerra como salvação espiritual e força regeneradora inspirava os poetas de sofá.
Em Agosto de 1914 assistiu-se a uma inaudita manifestação de sentimentos patrióticos em verso. O The Times calcula que nesse mês recebeu para publicação cerca de cem poemas por dia. Todos os jornais, nacionais e locais, testemunharam o mesmo impulso versejador. A pouco e pouco, começaram a chegar os poemas da frente de batalha. O vate mais famoso, nesta primeira fase, foi Rupert Brooke. Tinha passado vagamente pelo Bloomsbury Group, onde parece ter sido apreciado mais pela beleza física. Integrou outros grupos literários, como os Georgian Poets e os Dymock Poets, mas ficou na memória como poeta da guerra. E como poeta morto.
 
 

Rupert Brooke

 
 
 
 
 
Assinou um poema famoso, “The Soldier”, escrito em 1914, no fulgor do início de uma grande aventura:
 
“If I should die, think only this of me;
 
That there's some corner of a foreign field
 
That is for ever England.”
 
E morreu em 1915, a caminho de Galipoli, doente com blood poisoning, ou seja, septicemia, num navio hospital francês. Winston Churchill celebrou pressurosamente a sua memória, criando o mito. Em 26 de abril de 1915, publicou-lhe o obituário no The Times, num registo épico, que dava a entender que morrera em combate:
He expected to die; he was willing to die for the dear England whose beauty and majesty he knew; and he advanced towards the brink in perfect serenity, with absolute conviction of the rightness of his country´s cause and a heart devoid of hate for fellow-men.”
 
 
Julian Grenfell
 
 
 
Julian Grenfell também ficou famoso por um único poema. E por ter proferido estas palavras eufóricas: “I adore war. It´s like a big picnic. I have never been more well or more happy.”
Quando se ouvem palavras como estas, ditas por um soldado, pensa-se em alguém ingénuo e entusiasta, que ainda não experimentou a verdadeira guerra. Mas Grenfell não era assim. Viveu confrontado com a miséria humana, com o sangue e a lama. E adorou. Grenfell era efectivamente um guerreiro que amava a excitação da batalha e da morte, da alheia e da própria. Adorava ser sniper e sentir a excitação da caçada: a espera, a deteção do alvo, o disparo, a queda de um corpo atingido. E filosofava nos seus cadernos. Para ele, matar significava por em contacto o que os homens têm de mais bárbaro com as forças fundamentais da natureza. Visar um inimigo tinha algo de sensual e visceralmente humano:  One loves one´s fellow man so much more when one is bent on killing him.
Tinha um caderninho onde anotava os seus feitos: “November 16th: 1 Pomeranian; November 17th: 2 Pomeranians”. E assim por diante. Até que foi apanhado por um estilhaço.
No dia a seguir à sua morte, 26 de Maio de 1915, o The Times publicou “Into the Battle” de Julian Grenfell. Este poema é o motivo por que ainda se fala dele:
         And life is Colour and Warmth and Light,
         And a striving evermore for these;
         And he is dead who will not fight;
         And who dies fighting has increase.”
Esta exaltação da vitalidade do combate foi depois rejeitada. Quando John Silkin incluiu este poema no Penguin Book of First World War Poetry sentiu o dever de frisar que abominava aqueles sentimentos. Não obstante, são sentimentos que ainda tocam uma corda que vibra no coração de muitos seres humanos.
Julian Grenfell era um sniper na primeira guerra em que o sniping foi elevado a uma especialidade da maior importância. Outros poetas da guerra foram mortos por snipers. Edward Tennant em 22 de Setembro de 1916. Arthur West em 3 de Abril de 1917. Charles Sorley em 29 de Agosto de 1918. Contudo, a mais eloquente de todas as vítimas dos snipers não foi um poeta, mas um novelista, um mestre da short story macabra. Foi ele H. H. Munro, atingido em 14 de novembro de 1916, depois de se ter abrigado com alguns camaradas na cratera aberta por uma granada e de ter proferido as imortais palavras: “− Apaga a merda do cigarro!”
 
 
 
Wilfred Owen
 
 
 
O melhor de todos eles, o melhor dos poetas da guerra, um dos grandes poetas de língua inglesa do século XX, Wilfred Owen, também foi atingido por um único tiro, em novembro de 1918, sete dias antes do armistício.
A certo ponto, a linguagem divorciou-se dos acontecimentos e dos sentimentos. A linguagem dos políticos e dos jornalistas. E também a linguagem dos poetas. Impunha-se encontrar novas palavras e novas formas. Os jornais ingleses começaram então a dar lugar a alguns novos autores, como Siegfrid Sassoon, que descreviam com realismo o horror da guerra. Apesar de algumas reações negativas, após três anos de guerra o público inglês já estava pronto para os aceitar. O próprio Winston Churchill, então Ministro das Munições, não avaliou os poemas de Sassoon como propaganda pacifista e antipatriótica. Admirou-os, apesar de tudo, porque davam conta aos ingleses do sofrimento das suas tropas na frente. E, como bem o demonstrou na guerra seguinte, Churchill sentia o dever de transmitir aos cidadãos de uma pátria livre em guerra as verdades mais difíceis de aceitar.
Não sabemos o que Churchill pensou da poesia de Wilfred Owen. Na verdade, apenas um dos seus poemas foi publicado durante a guerra, em The Nation, no ano de 1917. Depois, o seu amigo Sassoon, para sempre marcado pelo escrúpulo de não o ter convencido a ficar em Inglaterra quando Owen aí esteve em tratamento até Agosto de 1918, tudo fez para promover a sua poesia.
Um dos mais conhecidos poemas é “Anthem For Doomed Youth”:
         “What passing-bells for these who die as cattle?
         Only the monstrous anger of the guns.
         Only the stuttering rifle´s rapid rattle
Can spatter out their hasty orisons.
No mockeries for them; no prayer´s nor bells,
Nor any voice of mourning save the choirs,
The shrill, demented choirs of wailing shells…”
 
Esta é a verdade da guerra. Um dos seus poemas, “Strange Meeting”, encontrado entre os papéis que deixou, termina de uma forma que estranhamente parece evocar a relação de um sniper com a sua vítima.
 
         “Foreheads of men have bled were no wounds were.
         I am the enemy you killed, my friend.
I knew you in this dark; for you frowned
Yesterday trough me as you jabbed and killed.
I parried; but my hands were loath and cold.
Let us sleep now…”
 
Owen descreve aqui a experiência demencial do soldado que para se abrigar salta para dentro de uma cratera de granada e depara com o inimigo que matara no dia anterior e que ali o espera como para lhe mostrar que, naquele pesadelo sem fim, a sua natureza e o seu destino são os mesmos. Resta tão somente dormir …
Dylan Thomas diria dele que Owen será para sempre o poeta de todas as guerras, porque só há uma guerra, a mesma de sempre, a do homem contra o homem.
Wilfred Owen e outros quinze britânicos, poetas da guerra que os matou, são hoje reverenciados no Poet´s Corner, na Westminster Abbey, no memorial dos poetas da Grande Guerra. Aí, registada na pedra, a frase de Wilfred Owen diz tudo o que há a dizer: “My subject is War, the pity of War. The poetry is in the pity.
Ou talvez o dissesse melhor se Owen tivesse sido bem citado. As palavras que constam do prefácio da sua única obra, que basta para lhe atribuir o título de um dos poetas maiores da Velha Albion, são exatamente estas:  Above all, this book is not concerned with Poetry. The subject of it is War, and the pity of War. The Poetry is in the pity.”
E o prefácio continua: “Yet these elegies are not to this generation. (…) They may be to the next. All the poet can do to-day is warn.”
Pois é, diz-se que nada há de mais forte do que uma ideia cujo tempo chegou. A ideia do horror à guerra foi tão forte que permeou todos os sobreviventes da “Lost Generation”. Muitos não creram que o seu regresso fosse possível. Outros julgaram que se lhe poderiam opor com boas intenções e muito idealismo internacionalista. Quando despertaram, depararam com o mesmo horror, então com ainda mais sinistros tons por se estender aos não combatentes.
 


John Singer Sargent, Gassed, 1918-19

 


 


Como que respondendo ao obituário de Rupert Brooke, da autoria de Churchill, Owen disse aos seus compatriotas que nunca é bom morrer pela pátria:
 
         “If in some smothering dreams you too could pace
Behind the wagon that we flung him in,
(…)   
My friend, you would not tell with such high zest
To children ardent for some desperate glory,
The old Lie: Dulce et decorum est 
Pro patria mori.”
 
As palavras e os sentimentos de Owen marcaram a consciência nacional inglesa por vinte anos. Avisaram, como ele pretendia, a geração seguinte. O poeta Cecil Day-Lewis, hoje mais conhecido como pai do actor Daniel Day-Lewis, mas que foi um importante membro da geração de trinta dos poetas de Oxford e Poet Laureate of United Kingdom em 1968 (trata-se de um cargo honorífico cujo titular é designado pela Rainha por sugestão do Primeiro-Ministro, e de quem se espera que produza alguns versos para ocasiões solenes), escreveu na sua introdução a “The Collected Poems of Wilfred Owen”, editado em 1963:
It is Owen, I believe, whose poetry came home deepest to members of my generation, so that we could never again think of war as anything but a vile, if necessary, evil.”
Aquele “if necessary” certamente não constaria antes de 1939. Pois, por vezes é mesmo necessário. Churchill nunca deixou de acreditar na suprema necessidade do sacrifício, quando justificado. Sempre admirou o poema de Rupert Brooke, cujo primeiro verso, recordemos, é “If we should die”. Curiosamente, ainda hoje deparamos na Internet como um mito urbano sobre Churchill e a eventual recitação durante a Segunda Guerra Mundial de um poema que começa de modo semelhante, da autoria de Claude Mackay:
 
            If we must die—let it not be like hogs
 
            Hunted and penned in an inglorious spot,
 
            While round us bark the mad and hungry dogs,
 
            Making their mock at our accursed lot.
 
            If we must die—oh, let us nobly die,
 
            So that our precious blood may not be shed
 
            In vain; then even the monsters we defy
 
            Shall be constrained to honor us though dead!
 
Uns dizem que o terá citado na Câmara dos Comuns, outros no Congresso dos Estados Unidos, outro perante tropas britânicas prestes a entrar em combate no Pacífico, outros para a resistência na Europa continental, outros que nunca pela cabeça lhe passaria usar palavras de um poeta negro e comunista norte-americano inspirados por um motim racial em 1919, outros que as disse sem citar o autor. Perante tamanha diversidade, o acontecimento é mais do que duvidoso, mas que tais palavras ficariam bem ditas por Churchill, isso ninguém pode negar.
 
Claude Mackay
 
 
A melhor mensagem é, pois, a que concilia o horror da guerra com a necessidade de combater para que um horror maior não vença. Wilfred Owen, afinal, também voltou ao combate, quando não era obrigado a fazê-lo. Voltou porque quis testemunhar até ao fim o horror da guerra. Voltou porque queria ter autoridade para continuar a transmitir aquelas imagens demenciais. Ao voltar porque quis, e apenas porque quis, deu um sentido à sua morte. Foi conduzindo os seus homens que perdeu a vida. Aos vinte e cinco anos de idade. Atingido por um sniper. Não é provável, mas poderá ter sido um poeta alemão, porventura prisioneiro dos mesmos dilemas, mas com pontaria boa demais. Porém, prefiro pensar que a justiça divina não pode ser assim tão estranha.
 
José Luís Moura Jacinto