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domingo, 20 de março de 2016

Histórias da carochinha num museu português de Toronto.

 
 


 
 
O Expresso publicou, com o título “Portugueses chegaram à América 19 anos antes de Colombo”, esta notícia divulgada pela Lusa:
 
Um museu em Toronto quer reconhecer a presença lusitana e provar que o navegador João Vaz Corte-Real esteve no Canadá em 1473. “A história é muito complexa, pois há sempre várias versões dos acontecimentos”, sublinhou a presidente do Real Canadian Portuguese Historial Museum.
O Real Canadian Portuguese Historical Museum em Toronto, no Canadá, pretende reconhecer a presença portuguesa na América do Norte dezanove anos antes da chegada de Cristóvão Colombo ao continente, anunciou a instituição.
"Sempre houve vestígios de que o navegador português João Vaz Corte-Real esteve no Canadá em 1473, 19 anos antes da chegada de Cristóvão Colombo à América do Norte", afirmou Suzy Soares, a presidente do Real Canadian Portuguese Historial Museum (RCPHM, sigla em inglês).
Alguns historiadores canadianos continuam, nos dias de hoje, a ter algumas dúvidas de que o antigo capitão-donatário de Angra (Açores) tenha estado onde atualmente se localiza o Canadá, antes de 1492, mas em Portugal, para muitos estudiosos "é um dado adquirido", juntando agora os vários pontos de vista e provar de que João Vaz Corte-Real "passou realmente pelo Canadá antes de Colombo".
"Todos sabem da existência da Pedra de Dighton, localizada em Berkley, Massachusetts (Estados Unidos), e que tem palavras escritas que só podem ser em português. No entanto a história é muito complexa, pois há sempre várias versões dos acontecimentos", sublinhou.
Suzy Soares estabelece como objetivo do museu ir à procura de mais provas e "reconhecer a descoberta da América" pelo navegador português João Vaz Corte-Real.
O Real Canadian Portuguese Historical Museum está a comemorar o 30.º aniversário, e no dia 5 de março, pelas 18h30 (23h30 de Lisboa) vai homenagear 'João Vaz Corte-Real' durante um jantar de gala.
No evento estará em exposição uma réplica de uma caravela com três metros de comprimento, utilizada pelo navegador na viagem até ao Canadá, e será apresentado ainda um busto de Corte-Real.
 […]
A denominação da região e mar do Labrador no Canadá, é em homenagem ao navegador português João Fernandes Lavrador que em 1498, juntamente com Pedro Barcelos, explorou aquela região. [Para a notícia completa: http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-02-27-Portugueses-chegaram-a-America-19-anos-antes-de-Colombo]
 
There we go again! Sempre a mesma obsessão e nada de factos novos, como se pode comprovar lendo a notícia. Pelo menos na notícia do Expresso ficou claro tratar-se de um museu português e não canadiano propriamente dito. Museu português no estrangeiro significa quase sempre história patriótica.
Divisão entre historiadores?  Várias versões? Sobre o assunto, desconheço divisões. O que sei é que há uma divisão entre os historiadores profissionais e os amadores auto-encartados que acham que qualquer um pode emitir opiniões em história. Os estoriadores responsáveis pelo museu demonstram a sua competência com afirmações do teor desta:
Todos sabem da existência da Pedra de Dighton […] e que tem palavras escritas que só podem ser em português.
 
           Não, não conheco nenhum historiador sério que assine uma afirmação dessas.
 
Para não me repetir, deixo aqui uma ligação para dois textos meus cheios de dados e argumentos sobre o assunto:
1. Irmãos Côrte-Real: os mitos e os factos e a sua importância identitária:
2. Pedra de Dighton: um desconhecido registo de leituras não fanáticas das suas inscrições:
 
Quanto ao Canadá, o historiador que mais atenção tem dado à suposta prioridade portuguesa na descoberta é por sinal uma historiadora. Trata-se de Darlene Abreu-Ferreira, de ascendência portuguesa, como o nome indica. Muito respeitada professora na Universidade de Winnipeg, tem uma vasta e sólida bibliografia à sua conta.  Sobre o tema desta nota, leia-se o seu sólido texto publicado em 1998 em The Canadian Historical Review - “Terra Nova through the Iberian Looking Glass: The Portuguese Cod Fishery in the Sixteenth Century”:
 
 
A redacção do Expresso deveria tomar nota destas informações e, da próxima, não se fiar tão candidamente nas bocas da Agência Lusa. Porque o jornal tem outras obrigações. Pelo menos assim nos obrigou a reconhecer há décadas.
 
 
Onésimo Teotónio de Almeida



 

terça-feira, 25 de março de 2014

Histórias que contamos.

 
 
 


 
         Quando ia a caminho do hospital, para fazer um aborto devido a uma gravidez indesejada, aquela mãe decidiu voltar para trás. Dessa inversão de marcha nasceu a criança na piscina, Sarah Polley. A mãe morreria de cancro quando Sarah tinha onze anos. E Sarah Polley, anos depois, fez um documentário sobre a história da sua família, Stories We Tell. O jornal i falou desse documentário em Setembro do ano passado. Está disponível na MEO, vi-o ontem. Não o percam, por nada deste mundo.