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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A propósito de Hans Küng, um salto de 30 anos ao passado.

 



Há alguns anos que o padre Anselmo Borges, aposentado professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, publica uma crónica na edição do Diário de Notícias de domingo. Desde que nos conhecemos pessoalmente num encontro de Filosofia, envia-mos de véspera. A desta semana é sobre Hans Küng, o famoso teólogo suíço, antigo professor na Universidade de Tübingen, na Alemanha, e que mexeu comigo nos meus anos de Teologia no Seminário de Angra (sobretudo com o seu Infalibilidade? – uma pergunta – traduzo, porque na altura não o li em português pois não havia ainda tradução portuguesa e li em espanhol) onde tínhamos a sua versão local na pessoa do Dr. Cunha de Oliveira, nosso professor de Sagrada Escritura. Sempre pensei nesse meu professor como parecido com Hans Küng. Não só no estilo emotivo, abrasivo e fulgurante, mas também na sua visão do mundo e até mesmo nos traços fisionómicos. Não que parecessem gémeos, mas o Dr. Cunha, tal como Küng, exibia no rosto os traços de mistura dos temperamentos sanguíneo e apaixonado (termos que hoje já ninguém usa, mas era o que se usava no nosso tempo - Fernando Pessoa, por exemplo, era fleumático).

Nunca me esqueci de um dia passado em Tübingen, em 1989, onde fiz questão de fazer uma paragem precisamente por causa da mítica figura de Küng. Explico-me:


Em 1987, eu tinha publicado um livrinho sobre Pessoa e Mensagem (Mensagem – uma tentativa de reinterpretação, 1987) com uma revisitação“fora da caixa”, e um grupo de lusófilos alemães convidou-me para fazer um circuito de intervenções em universidades no seu país, quase todas acerca desse tema. Fiz um périplo de palestras de Kiel e Hamburgo até Frankfurt. Porque uma das intervenções era em Marburg, onde leccionava o amabilísssimo Dieter Woll (1933-2012), resolvi adicionar uma paragem no percurso em Tübingen, que fica relativamente perto. Tinha uma grande curiosidade acerca do burgo pois estava encantado com as pequenas cidades universitárias alemãs que, juntamente com as britânicas, haviam servido de modelo para as congéneres norte-americanas nos séculos 17, 18 e 19.


Adorei a experiência. Fui mexericar os corredores do edifício onde Melanchthon, o lendário pensador da Reforma, e  mais tarde Hegel leccionaram. Aluguei um barquito a remos para me passear perdidamente abaixo e acima no estreito rio Neckar, deixando-me ficar (contemplativo – podem crer!) por um bom bocado à sombra dos belos chorões, mesmo junto à casa do poeta Hölderlin.


Ainda fui à lista telefónica procurar o número de telefone de Hans Küng e… encontrei-o. Faltou-me, porém, a coragem de o incomodar.


Porque ontem me pus a falar nisto a dois ou três amigos, hoje fui a um caixotão onde tenho milhares de fotos em envelopes (juro que não exagero) à espera de tempo para as colocar em álbuns e deparei com um envelope para cada uma das cidades alemãs visitadas nessa viagem de (agora sei exactamente) 1989. Infelizmente, na bela e fotogénica Heidelberg apanhei um dia enevoado e as fotos ficaram chaladas.


Do conjunto de Tübingen, retirei as que aqui vão.


Porque viajei sempre só, as fotos em que apareço a remar foram tiradas por alguém que estava na margem e a quem pedi o favor. Rarissimamente faço isso, contudo naquele encantador lugar não resisti. A casa de Hölderlin é o belo prédio amarelo. A última foto foi tirada de um dos edifícios da universidade, no alto da colina.


Agora, a 30 anos de distância, dá para ver a diferença entre o que era possível fazer-se com uma maquineta Pentax 1000 dessa altura e o que hoje um simples telemóvel consegue. Mas é o que há e o que resta para ajuda da memória.

 

Onésimo Teotónio de Almeida

 









quinta-feira, 30 de abril de 2020

A Santa Parentela




O Museu nacional da Escultura Policromada em Valladolid, que recomendo a todos, quando vierem melhores tempos, tem peças extraordinárias. Já aqui mencionei o São Cristóvão de Alonso Berruguete.

Mas gostaria de aqui mostrar duas peças que se distinguem pela sua curiosidade.

A primeira é uma escultura do Século XVI oriunda da Suábia.



O título é a Santa Parentela. Representa o clássico conjunto de o Menino Jesus, Sua Mãe Nossa Senhora e Sua Avó, Santa Ana, mas também São Joaquim e mais dois outros maridos de Santa Ana!

A figura de Santa Ana não é mencionada nos Evangelhos autenticados pela Igreja. Apenas o é em evangelhos apócrifos, em especial no Proto-Evangelho de Tiago.

Foi Jacobus de Voragine que na sua Lenda Dourada (Legenda Aurea) trouxe para a tradição católica as questões do casamento de Santa Ana com São Joaquim e do parto tardio de Nossa Senhora que conduz à sua representação com idade avançada. Foi nesta Lenda Dourada que foi lançada na Idade Média a história de São Cristóvão.

Aí aparece a referência:

Anna solet dici tres concepisse Marias,
Quas genuere viri Joachim, Cleophas, Salomeque.
Has duxere viri Joseph, Alpheus, Zebedeus.
Prima parit Christum, Jacobum secunda minorem,
Et Joseph justum peperit cum Simone Judam,
Tertia majorem Jacobum volucremque Johannem.

Algo como (tradução nossa a partir do inglês):
Diz-se que Ana terá concebido três Marias,
Dos seus maridos Joaquim, Cleophas, e Salomas.
Estas casaram com José, Alfeu e Zebedeu.
A primeira deu à luz Cristo; a segunda deu à luz Tiago Menor,
José o Justo, com Simão [e] Judas;
A terceira, Tiago Maior e João alado [o Evangelista, as asas são referência à forma como se representam os evangelistas].

A origem, contudo, daquilo que se chamou o Trinubium Annae ou o triplo casamento de Santa Ana estará no Historiae sacrae epitome de Haymo de Halberstadt, um monge beneditino alemão de finais do séc. VIII.

O Padre e teólogo João de Ecke (1486-1543), grande adversário de Lutero, num sermão sobre Santa Ana, referiu que depois da morte de São Joaquim ela teria casado segunda vez com Cleophas e terceira vez com Salomas. De Cleophas teria tido Maria Cleopha mãe dos apóstolos Simão, Tiago Menor e Judas. De Salomas teria tido também uma filha, Maria Salomé, que casando com Zebedeu teria tido os apóstolos João e Tiago Maior. Aquele sermão foi publicado em Paris em 1579 mas nada disto é reconhecido pela Igreja e o Concílio de Trento rejeitou a teoria do Trinubium em 1563.

Contudo, no relato da Paixão do Evangelho segundo São João, aparece uma referência que parece corroborar o facto de Nossa Senhora ter uma irmã:

“Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena.” (Jo 19, 25)

A presença de Maria de Cleophas e de Salomé no Calvário – embora sem especificar a ligação familiar a Nossa Senhora e a Cristo – é referida também nos evangelhos segundo São Mateus (27, 56) e São Marcos (15, 40). Esta presença – comum aos três textos – num momento tão dramático poderia indiciar a proximidade familiar. Outra tradição, proveniente de um texto de Eusébio de Cesareia (séc. III) que cita um texto do cronista Hegésipo (séc. II) sobre a igreja primitiva, diz-nos que Maria, mulher de Cleophas seria cunhada de Nossa Senhora, na medida em que  Cleophas (Alpheu, numa variante do nome) seria irmão de São José o que explicaria de outra forma a referência à “irmã de sua mãe” no evangelho segundo São João.

Toda esta construção cruza-se com um debate sobre a virgindade de Santa Ana após o nascimento da Virgem, tese que foi formalmente condenada pela Igreja em 1677. Mas cruza-se sobretudo – e provavelmente tenta resolver – a difícil questão dos irmãos de Jesus mencionados nos Evangelhos segundo São Mateus (13, 55) e São Marcos (6, 3), situando todos os irmãos como primos direitos. Irmão e primo direito eram sinónimos em aramaico.

Em qualquer caso, existe manifestamente uma contradição entre o parto tardio da Virgem Maria e o nascimento posterior de mais duas filhas.

entrada da Wikipedia francesa da Santa Parentela permite uma visão da árvore genealógica que resulta da Lenda Dourada, assim como mostra outras peças que, antes da condenação tridentina, representaram a família alargada de Jesus.

A segunda curiosidade deste Museu de Valladolid diz respeito às chamadas imagens de vestir. Tratava-se de imagens destinadas a ser levadas em procissão. Dado que a sua finalidade era a de serem vestidas com grande riqueza e esplendor geralmente dispunham apenas de cabeça, mãos e pés, sendo a parte do corpo que não era vislumbrada, um mero tronco de árvore ou até uma estrutura metálica. Como não era vista não havia necessidade de se aprimorar a escultura do corpo.



Esta imagem de vestir da segunda metade do Século XVIII é da autoria de Benito Silveira e pertenceu à igreja de São Martinho de Santiago de Compostela. A curiosidade é a de, não obstante se tratar de uma parte da estátua que não era vista, o autor ter entendido por bem guarnecê-la de umas belas ceroulas…


Fotografias de 25 de Fevereiro de 2020

José Liberato, com a ajuda de Ademar Marques





terça-feira, 10 de março de 2020

A cadência da decadência.


 
 
Goste-se ou não (e já me abriram os olhos para ele ser um bocadito aldrabão), Michel Onfray produziu um importante livro, este Decadência. Uma certa diatribe anticristã, sem dúvida, ou não fosse ele o autor do Tratado de Ateologia, mas as páginas dedicadas a São Paulo, mesmo com todos todinhos os devidos descontos, obrigaram-me a pensar e repensar a figura do santo de Damasco – e, com ela, os fundamentos da moral sexual católica, cuja origem está mais em São Paulo do que em Cristo, como já sabíamos, mas agora somos relembrados. Já o capítulo sobre a patrística é, digamos, chato como tudo, mas as páginas sobre Cristo e São Paulo merecem leitura crítica, sem dúvida alguma.
 








 
 
 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Colossal.


 
 
 
Há gente que gosta de ler intrigas policiais, histórias muito intrincadinhas que metem fragmentos bíblicos do século I, um museu em Washington financiado por milionários evangélicos, roubos e comércio de obras de arte, a Christie’s, um académico de Oxford, papiros e máscaras mortuárias egípcias, manuscritos medievais, revistas académicas e muito mais. Para essa gente, para essa gente, repito, recomendo muito, muitíssimo, a fabulosa reportagem do The Guardian desta semana. Colossal.  
 
 
 
 
 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Dura Europo: a Bíblia em quadradinhos.

 
 
 













Como ontem falei do livro do Polífilo, e estamos portanto em domínios de novelas gráficas, lembrei-me de hoje mencionar, em passagem lesta, a sinagoga de Dura Europo, que foi uma cidade de origem greco-macedónica fundada no ano 300 a. C. sob restos de uma localidade semita.

 

Li um livrinho-maravilha sobre esta brincadeira antiga, Cercare la Bellezaz tra Oriente ed Occidente, de Gianni Morelli, o qual, além dos frescos da sinagoga de Dura Europo, ou Eurpos (actual Síria, como estarão as pinturas?), fala do Evangelho de Rossano e dos mosaicos de Ravena. Com calma e vagar, voltaremos a estes dois temas.

 

Quanto à sinagoga, é bué antiga. E foi descoberta por soldados do Império Britânico já no século XX (mais rigorosamente, pelo arqueólogo americano Clark Hopkins, corria 1932) e foi declarada Património da Humanidade em 1999, por iniciativa da França. Portanto, se há muito a criticar no colonialismo das potências europeias, também convém dizer, perante exemplos como este, que o Ocidente lá foi fazendo alguma coisinha pela descoberta e pela preservação do património alheio.

 

Coisas superinteressantes: um estudo arqueológico mostrou que os soldados romanos foram mortos com armas químicas por bandas de Dura Europo (aqui). Um ataque traiçoeiro dos sassânidas, com betume e cristais de enxofre mandados para o interior de uma galeria. Por conseguinte, quando virdes falar de armas químicas na actual Síria, é curioso pensar que se trata de arsenal já usado por ali há muito e muito século.


As pinturas da sinagoga estão actualmente em Damasco, rezando nós para que se conservem, e tratam de episódios bíblicos, que seria fastidioso enumerar: sacrifício de Isaac, Génesis, Moisés a receber as Tábiúas da Lei, o êxodo, visões de Ezequiel, tudo a coberto da Mão de Deus, amiúde representada, quer aqui, quer nos mosaicos de Ravena.

 

Há quem diga que os murais serviam de quadros instrutivos e pedagógicos para as aulas de direito e história religiosa, mas sobre a sinagoga de Dura Europo já se disse e escreveu tanta coisa que nesta manhã, com Agosto à porta e no advento da greve dos camionistas, é melhor ficarmo-nos por aqui.

 





 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Dúvida cruciante.

 
 
Tintoretto, Criação dos Animais, 1551-52

 
         Sobre o quadro de Tintoretto «Criação dos Animais» já muito foi escrito. Com Deus Criador suspenso nos céus, alado e em movimento, este óleo de 1551-52 encontra-se actualmente exposto na Galeria da Academia, em Veneza. Inspira-se na tela de Ticiano «Baco e Ariadne», que está na National Gallery, em Londres. Há quem diga que as aves e os peixes se concentram no lado esquerdo da imagem e os mamíferos no lado direito, o que só em parte é verdade (há um par de gansos no canto superior direito). E está lá um unicórnio, todos o vêem.
 
Ticiano, Baco e Ariadne, 1522-23
 

 
 
      Olhando com calma, quer-me parecer que uma cabeça de veado emerge do lado direito da tela, quase imperceptível. Está lá um outro veado, é certo. Mas parece mesmo uma cabeça de veado , ali onde a assinalo. Tentei saber mais, para confirmar ou infirmar esta impressão. Não consegui. Apelo à ajuda de leitores mais bem informados do que eu, ou seja, de quase todos os que acabam de passar os olhos por estas pungentes palavras.
 
 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Bíblia.

 




Passe a publicidade, a publicação, pela Taschen, da Bíblia de Gutenberg, edição de 1454, é um acontecimento que merece registo, nota e louvor.
 
 
 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O Síndrome de Jerusalém.

 
 
 
 
Leio no jornal que o desaparecimento em Israel deste jovem de 29 anos, Oliver MacAffee, pode dever-se ao «síndrome de Jerusalém». Não sabia o que era, e na Wikipedia dizem existir pelo menos três tipos de síndrome de Jerusalém (isto para não falar do síndrome de Estocolmo, do síndrome de Stendhal ou do síndrome da China, só para citar alguns de lembrança). Houve até o trabalho-vídeo de um artista, Nathan Coley, chamado Jerusalem Syndrome, mas não consegui ver no Yotube esse trabalho-vídeo do artista-Nathan, que entrevistou o Dr. Moshe Kalian. No filme abaixo, uma intervenção televisiva do Dr. Moshe Kalian, autoridade psiquiátrica de Jerusalém. Enfim, e portanto, o mundo é um lugar maravilhosamente estranho.   
 
 

 
 
 
 
 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sugestão de Natal.

 
 
 
 

Este livro é uma festa. Erudito e cultíssimo, mas jamais maçador ou altivo. Admiravelmente bem escrito, com humor e alegria, sem raivas nem ódios. Pelo contrário! Leituras da Bíblia por Frederico Lourenço, um dos maiores e mais sólidos intelectuais portugueses.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O valente soldado Wojtek - 1

 
 
 
 
O urso Wojtek
 
 
 
Ursos, este é o tema que aqui trazemos hoje. Temos falado algumas vezes de leões e de estátuas de leões, pelo que poderiam alguns pensar que lhes atribuímos um lugar especial nos nossos corações. Nada disso. O afecto maior vai para os rinocerontes indianos e os bisontes polacos mas, nesse caso, a devoção é tanta que nem sequer ousamos maçar a paciência dos nossos leitores com o muito, muitíssimo, que haveria a dizer.
         Também não nos move a convicção monárquica de que o leão é o rei dos animais. Nessa matéria, recomendamos vivamente a leitura de um livro de Michel Pastoureau, outro amante de cores e de bichos, intitulado L’ours. Histoire d’un roi déchu (Paris, Seuil, 2007). Laurae ursorum amicae omnium, a frase latina que serve de intróito ao maravilhoso escrito de Pastoureau, onde se demonstra, sem margem para dúvida, que o urso, durante séculos, foi considerado o monarca absoluto do reino animal. Simplesmente, ao colocar no subtítulo «história de um rei destronado», Pastoureau está a entregar os pontos e a reconhecer o final de uma dinastia régia que – pelo contrário – tem mais do que legítimos direitos a reclamar o trono. Sem querer entrar em questões íntimas, do foro privado de cada bicho, importa notar, por exemplo, que ainda recentemente foi cientificamente comprovado o seguinte: a população de ursos dos Pirinéus estava em risco, mas foi salva da extinção devido à abnegada e frenética actividade sexual de um só macho, «Pyros». Gostava de saber – entre os humanos, por exemplo – qual seria o macho capaz de, por si só, resolver o problema demográfico que atinge Portugal. E, já agora, poderíamos ver se um leão, todo ufano de ser o rei da selva, seria capaz de salvar da extinção os ursos pirenaicos. Não seria. Para os que acharem que me aventuro por caminhos ínvios e ímpios, relembro a existência de uma piedosa Bíblia do Urso, publicada em 1569 e recentemente reeditada. La obra maestra escondida, assim lhe chamou Antonio Muñoz Molina.
 
 
 
         Mas do que queria falar era mesmo de Wojtek (ou Voytek), um bravo soldado. Ao longo da História, sempre existiu a tendência para incorporar animais nas forças armadas, acompanhando os exércitos a caminho da matança. Nuns casos ajudam à arte da guerra, noutros vão apenas como adereço, servindo de mascotes. Há situações mais graduadas. Por exemplo, desde 1775 que o 1ª Batalhão do Royal Welsh, do Exército Britânico, tem ao serviço um bode, ou cabra. Ainda recentemente, ocorreu uma situação muito desagradável, uma espécie de affaire Dreyfuss caprino, passada no regimento galês. O cabo William Windsor, familiarmente conhecido por «Billy», que apresentava uma impecável folha de serviços a Sua Majestade, foi alvo de um processo disciplinar. A justiça castrense, sempre severa, ordenou que fosse temporariamente rebaixado ao posto de fuzileiro. Ao que se sabe, o bode Billy não recorreu da pena, mas devia. O que se passou para justificar tão grave punição? E, 16 de Junho de 2006, organizou-se uma aparatosa parada militar numa base militar próxima de chifre, digo, de Chipre. Comemorava-se o 80º aniversário da Rainha Isabel, a ocasião era solene. Perante altos dignitários estrangeiros – entre os quais os embaixadores de Espanha, dos Países Baixos e da Suécia, e o comandante argentino das forças das Nações Unidas em Chipre – o bode não obedeceu à voz de comando. Dir-se-á mesmo até que desobedeceu, e em público. Saiu da fila, como qualquer português na Loja do Cidadão, desrespeitou as ordens superiores do oficial que o comandava (o cabo Dai Davies) e teve até o atrevimento de tentar dar umas marradas num tocador de tambor. Em síntese, estragou a festa.
 
 
 
 
 
 
 
         Aberto o competente processo, foi o bode William Windsor (que, pelo apelido, ainda deve ser parente da rainha octogenária) acusado de várias infracções aos códigos disciplinares. O auto era extenso: «comportamento inaceitável», «falta de decoro», «desobediência de uma ordem directa». Levaram-no à presença do oficial-comandante, o tenente-coronel Huw James. Na audiência disciplinar, foi-lhe comunicado que seria rebaixado ao posto de fuzileiro. O bode não tugiu nem mugiu, certamente por estar bem convicto – quiçá, arrependido – do mal que tinha causado ao prestígio do Exército Britânico. A sanção transitou em julgado e teve uma consequência humilhante: doravante, os fuzileiros do regimento não estavam obrigados a prestar continência a William Windsor, sempre que passassem diante da sua imponente cornadura.
         Obviamente, as coisas não poderiam ficar por aqui. Um grupo canadiano de defesa dos direitos dos animais protestou. E com veemência. Afirmou, com inteira razão, de que se tratava de um bode e que se comportara como tal; mas, do mesmo passo, sustentou que deveria ser restituído ao posto de cabo. Quer dizer, os canadianos dos animal rights não contestaram a incorporação nas fileiras de animais de tiro ou de recreação periódica. Solicitaram tão-só a revogação da pena disciplinar. Mas fizeram-no com firmeza e argumentos válidos, de que se destaca o seguinte: um bode é um bode é um bode. O Exército Britânico, geralmente tão garboso e nariz no ar, recuou na decisão tomada – e que, de facto, era uma vergonha terrível para o militar castigado. Nestas coisas da tropa, nunca se recua verdadeiramente. Faz-se uma retirada estratégica, jamais se assumindo que se cometera um erro, neste caso grosseiro. A injustiça, em todo o caso, foi reparada. Três meses depois, Billy Windsor reconquistou o posto antigo, apresentando no desfile castrense que celebrou a vitória na Guerra da Crimeia a sua sedosa aparência (estamos a falar de um bode revestido a caxemira, atençãozinha). Em declarações aos jornalistas, o capitão Simon Clarke teve ensejo de explicitar: «Billy comportou-se extremamente bem, teve todo o Verão para reflectir sobre a sua atitude no Aniversário da Rainha e conquistou indubitavelmente o posto que merece». Por conseguinte, os cabos do 1st Batallion do Royal Welsh passaram de novo a ter de prestar continência sempre que passassem pelo bode de caxemira. Mais importante, este voltou a poder frequentar a messe dos oficiais.
         Não foi o primeiro incidente com gado caprino nas forças armadas britânicas. Uma cabra real foi «prostituída» há muitos anos, sendo disponibilizada pelo oficial que dela cuidava a um criador caprino de Wrexham, no País de Gales. Deu processo na caserna, obviamente. O oficial ainda alegou que actuara «por compaixão» pela cabra solitária, mas o tribunal marcial não foi na conversa e desgraduou a cabra por desrespeito aos seus superiores hierárquicos. Noutra ocasião, de maior gravidade, um bode conquistou a alcunha de «rebelde» por ter marrado nas traseiras de um coronel enquanto este se curvava para vestir as calças do uniforme. O acto foi descrito à época como um «acto vergonhoso de insubordinação».
         Em Maio de 2009, após oito anos ao serviço de Sua Majestade, o cabo William Windsor reformou-se, por razões de idade, sendo-lhe prestadas as honrarias que bem mereceu ao longo de uma distinta carreira militar. Foi levado para merecido repouso no zoo de Berdfordshire e, segundo consta, não sofreu quaisquer cortes na pensão de aposentação. Enquanto isso, Camilla Parker-Bowles mantém-se no activo.
 
 
 
 
         Com esta história desviámo-nos do essencial, o urso Wotjek. Fica para amanhã. Antes do nos despedirmos talvez convenha referir que chegámos aqui no âmbito de um estudo mais amplo que vimos realizando, o qual tem por objecto uma realidade pouco estudada pelos historiadores portugueses: o papel higiénico soviético. Importa notar que uma das mais importantes acções de espionagem da Guerra Fria esteve relacionada com o papel higiénico soviético. O cenário desta guerra suja foi a BRIXMIS, acrónimo sobejamente conhecido para a missão militar de ligação entre o Oeste e a URSS na Alemanha de Leste. A BRIXMIS (pronto: The British Commanders’-in-Chief Mission to the Soviet Forces in Germany) esteve em funções durante toda a Guerra Fria. Dezenas de anos, de 1946 a 1990. A dada altura, um oficial mais arguto teve a ideia de lançar a Operação Tamarisk. Explicada em breves linhas, até porque se trata de assunto que não queremos esmiuçar, o plano consistia em acabar com o abastecimento de papel higiénico às forças soviéticas estacionadas na Alemanha, que ali se sentaram anos, de armas e bagagens. À falta de papel higiénico, os russos limpar-se-iam a documentos e relatórios secretos, deitando-os no caixote do lixo. Uma brigada de espiões, numa operação digna de um romance de John Le Carré, todas as noites recolhia e examinava a papelada utilizada. Os espiões destacados, vá-se lá saber porquê, queixaram-se aos seus superiores, com reivindicações absurdas, típicas do mais abusivo sindicalismo. Tiveram o desplante de afirmar que lhes custava andarem a meio da noite a recolher os cestos dos papéis das latrinas russas. Desconheceriam, por certo, o que, anos depois, tiveram de fazer os seus colegas da espionagem francesa para obter a sensacional descoberta de que Brejnev padecia de um cancro no aparelho digestivo. Não vou contar essa história, provavelmente lendária, mas a informação da doença do líder soviético mudou o curso da História. A Operação Tamarisk foi igualmente um êxito. De acordo com alguns historiadores ou protagonistas, tratou-se de uma das mais bem-sucedidas operações de espionagem de toda a Guerra Fria.
 
Moscovo, 1990
 
 
 
         O que é que isto tem a ver com um urso? É simples: visitem o riquíssimo e interessantíssimo Museu Virtual Kresy Siberia, patrocinado pelas mais altas entidades oficiais polacas. Lá encontrarão, em formato PDF, o livro «Na União Soviética sem Papel Higiénico», escrito por Roman V. Skulski. Aos 21 anos, foi incorporado à força no Exército Vermelho, como soldado nos batalhões de exércitos e morteiros que tiveram de percorrer mais de 500 quilómetros até Estalinegrado, durante um dos mais frios e rigorosos invernos de que há memória. Com ele, outros 300.000 jovens polacos foram incorporados à força nas forças armadas russas. Roman V. Skulski conseguiu escapar de um campo de trabalho, percorrendo milhares de quilómetros através do deserto de Kara Kum. Com ele, transportava apenas um mapa rudimentar, um saco com cebolas e outros três companheiros. Entre centenas de outras fontes, é no livro de Skulski que se conta a história do urso Wojtek.
Quer o urso polaco, quer o bode britânico foram muito mais bem tratados do que milhares de jovens polacos. Por muito imoral que seja, esta é a moral da fábula, que amanhã continuaremos.
 
 
António Araújo