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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Janelas partidas.

 
 




 
A história da fotografia é uma janela partida. Um belo texto do NY Times, que li graças ao António Ramalho – um abraço!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Esplendores e Misérias do Ruído em Lisboa.

 
 

Fig. 1: Rua do Arco do Marquês de Alegrete (Eduardo Portugal, 1949).
 
A Praça de Martim Moniz é, provavelmente, o largo mais desgraçado de Lisboa. O seu fado começou com a destruição da Baixa Mouraria entre sensivelmente 1945 e 1962. As sucessivas vagas de demolições fizeram desaparecer edifícios como o Palácio do Marquês de Alegrete, o seu arco medieval, a Igreja do Socorro e o Teatro Apolo. Desapareceram para dar lugar, décadas mais tarde, a uma praça incaracterística, sem história e sem alma. O discutível arranjo da praça, realizado em 1997-1998, envelheceu mal, por incúria e falta de manutenção. Os centros comerciais, símbolos de modernidade e progresso, converteram-se rapidamente em armazéns de grosso, onde produtos inflamáveis abastecem os mercados e feiras da Grande Lisboa.
 
 
 

Fig. 2: O eléctrico 28 ao lado de um típico camião TIR. Hans Strudel, 16 anos, natural de Francoforte do Meno, nunca tinha visto um no centro histórico de uma cidade.
 
O empreendimento da EPUL, Residências Martim Moniz, comercializado em 2001, só foi concluído em 2014 e não foi capaz de trazer novos moradores a esta zona da cidade, estando em grande parte vazio ou entregue ao chamado alojamento local (curiosamente, quando foi lançado, parte deste empreendimento fazia parte de um programa chamado EPUL-Jovem). Numa hasta pública, no mesmo ano de 2014, 26 apartamentos foram comprados por investidores de origem chinesa, que obviamente não os usam para arrendamento de longa duração, ou para fixar novas famílias nesta zona da cidade. Tudo, do ruído ao raquitismo das árvores, do lixo aos veículos pesados que descem a Avenida Almirante Reis, denuncia o erro, o fracasso e a inacção.
 
 
 

Figs. 3 e 4: Oriundos de regiões assépticas no centro e norte da Europa, os turistas congratulam-se com a autenticidade lisboeta.
 
Incapaz de resolver a situação, a Câmara Municipal de Lisboa desferiu um golpe em cima de um hematoma. Insuficiente nas tarefas que lhe cabem (como recolher o lixo, limpar as ruas e ordenar as cargas e descargas), a Câmara Municipal de Lisboa decidiu assumir, através da empresa NCS Audiovisuais (a quem concessionou em 2012 a exploração da praça por uns leoninos 16 anos), novas responsabilidades no Martim Moniz, nomeadamente o entretenimento de locais e estrangeiros. Sob a designação de «Mercado de Fusão» (ou «Dragon Square»), prometem-se «sabores do Mundo», «street food», cultura e «muita animação». Na verdade, oferece-se cerveja barata, a vulgaridade do karaoke e, para a maioria silenciosa, há vários anos, muito ruído até altas horas da madrugada, que não deixa os moradores dormir, na vizinhança de enfermarias do maior hospital público do centro da cidade. Esta é uma concepção rasteiramente recreativa e mercantil que desmobiliza e expulsa os (poucos) moradores que resistem na zona da praça, não havendo quase interação entre o Mercado de Fusão, o bairro, os seus habitantes e associações. A partir de Julho de 2015, a situação piorou claramente com a instalação do bar Topo (igualmente propriedade da empresa NCS e de um conjunto de sócios não identificados) no sexto andar do Centro Comercial do Martim Moniz. Este espaço, em teoria um bar e restaurante, funciona como discoteca, não estando devidamente insonorizado. Para mais, as portas do terraço são deixadas abertas e com frequência os DJ’s actuam ao ar livre. Nas noites de quinta-feira a sábado, a música prolonga-se até às 2h da manhã e o ruído propaga-se pelas colinas e chega a locais como a Rua da Bombarda, a Travessa da Nazaré e a Calçada de Santo André. Apesar das inúmeras queixas, e de uma queixa do próprio Hospital de São José, até Dezembro de 2016, os serviços da Divisão de Ambiente da Câmara Municipal de Lisboa ainda não tinham realizado as necessárias medições técnicas de ruído. Ou seja, entre Julho de 2015 e Dezembro de 2016, num período de cerca de 17 meses a Câmara Municipal de Lisboa, os seus dirigentes eleitos e os serviços não foram capazes de resolver o assunto, nem de realizar tarefas básicas do processo de controlo do ruído. No caso do Mercado de Fusão, o processo e as queixas são anteriores, sendo recorrente a utilização de colunas e aparelhagens de música no espaço público durante a tarde e até, pelo menos, às 2h da manhã.
 
 

Fig. 5: Lisboa, capital da coolness e da cerveja barata, oferece música ao ar livre, a qualquer hora do dia ou da noite. Neste caso, eram 00h30 (Bar Love Lisbon, 24 de Setembro de 2016).
 
O paradoxo é tal que a Junta de Freguesia de Santa Maior lançou (e bem) no final de 2016 uma petição à Câmara Municipal de Lisboa solicitando «que se estabeleça um horário para a realização de actividades ruidosas na Praça do Martim Moniz e bares circundantes no máximo até às 22h00, de domingo a quinta, podendo nas noites de sexta-feira e sábado admitir-se tais actividades até à meia-noite» e que «no exercício das suas competências, a Câmara Municipal de Lisboa e em especial a Polícia Municipal fiscalizem efectivamente o cumprimento do horário indicado». E, acrescento, meçam os níveis de ruído de estabelecimentos como os bares Topo e Love Lisbon, ambos a dezenas de metros do Hospital de São José quando o Artigo 32.º, do Decreto-Lei n.º 9/2007, de 17 de Janeiro (Regulamento Geral do Ruído), determina que «não é permitido o funcionamento ou o exercício contínuo dos espectáculos ou actividades ruidosas nas vias públicas e demais lugares públicos na proximidade de edifícios hospitalares […] durante o respectivo horário de funcionamento». Na verdade, a vizinhança das enfermarias de Medicina e de Cirurgia, situadas na ala do Hospital de São José voltada ao bar Topo, bem como a proximidade do Serviço de Urgência, não foram tidas em conta pelos serviços da Câmara. Se ainda não tinha ficado claro reiteramos: quer a localização, quer o comportamento destes estabelecimentos violam uma lei que a Câmara Municipal de Lisboa tem como competência fazer cumprir.
 
 

Fig. 6: Perspectiva do lado poente da Praça Martim Moniz. É visível o bar-quiosque Love Lisbon, o bar Topo e por detrás o Hospital de São José. As enfermarias de Medicina e de Cirurgia, bem como o Serviço de Urgência, ficam virados à praça. Não consta que a Câmara Municipal de Lisboa esteja a patrocinar um estudo sobre os efeitos terapêuticos do ruído na população hospitalar.
 

Fig. 7: O terraço do bar Topo visto do parque de estacionamento do Hospital de São José. À direita, a fachada principal do hospital reflectida no Centro Comercial do Martim Moniz ilustra a proximidade dos dois edifícios.
 
A iniciativa «Licenciamento Zero», aprovada pelo Decreto-Lei n.º 48/2011, de 1 de Maio, meritória no combate à burocracia, significa para a Câmara Municipal de Lisboa, para a Polícia Municipal e para a Divisão de Ambiente uma responsabilidade acrescida de controlo e monitorização. Também se traduz num conjunto de facilidades e garantias para os empreendedores. Infelizmente, para os queixosos, quer sejam os moradores das Residências Martim Moniz, ou de outras ruas do bairro, quer seja a direcção do Hospital de São José, constitui um calvário de reclamações, junto de organismos que alijam responsabilidades e se escondem atrás da esquizofrenia da legislação ou da falta de meios técnicos e humanos. Com sorte, tudo termina dois anos depois, com uma contraordenação e uma multa pecuniária, quando a empresa promotora já se dissolveu ou já fez uma boa maquia à custa do descanso dos outros.
Quando os desmandos do Bairro Alto, do Príncipe Real, da Bica, do Cais do Sodré, de Santos e do Arco do Cego ameaçam a Mouraria, aquilo que me move não é insignificante. Este é um momento decisivo na escolha do futuro da cidade de Lisboa e da defesa do direito ao sossego e ao sono dos seus habitantes. A impunidade de todos aqueles que lucram com o ruído não é um problema exclusivo da Mouraria, ou sequer do centro histórico, mas de toda a cidade. As queixas relativamente ao Arco do Cego estão aí para o demonstrar. A Câmara tem de encontrar respostas rápidas para estas situações de excesso de ruído e incumprimento.
A actual vereação não necessita, portanto, de se esconder atrás de discursos sobre a complexidade dos problemas. Basta-lhe aplicar a lei. Muito menos faz sentido afirmar que é necessário compatibilizar funções na cidade. Essa é uma evidência que todos conhecem. Tal como outra evidência é a incapacidade que a Câmara demonstra em fazer cumprir a Lei do Ruído em tempo útil quando a legislação e os regulamentos em vigor lhe permitem aplicar restrições de horário, temporárias ou definitivas, aos estabelecimentos que não respeitem as regras. Aliás, esta competência foi delegada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, no vereador e vice-presidente Duarte Cordeiro. Se os habitantes do centro da cidade estão cansados do ruído e de manobras dilatórias é a ambos que deverão ser assacadas responsabilidades.
O vereador Duarte Cordeiro, na última reunião descentralizada da Câmara Municipal de Lisboa (1 de Março de 2017), afirmou ter aplicado 66 restrições de horários. Contudo, não especificou qual o período de tempo a que estas se reportam, ou qual o volume de queixas sobre ruído registado na Polícia Municipal e em plataformas como Na Minha Rua durante o ano de 2016, por exemplo. Ou seja, não sabemos se 66 restrições é suficiente ou é muito, muito pouco para a dimensão do problema. O sucesso de Fernando Medina e da sua vereação na questão do ruído é, por isso, semelhante ao do seu Programa de Renda Acessível. Tendo sido anunciado como grande pompa em Abril de 2016, até ao dia 2 de Março de 2017, ou seja 11 meses depois, ainda não tinha conseguido criar um único fogo para habitação, ou sequer iniciado as obras numa das 15 localizações previstas.
Para proceder ao uso mais generalizado das restrições de horário não é necessário aguardar pela plena execução do novo Regulamento dos Horários de Funcionamento dos Estabelecimentos que entrou em vigor em Novembro passado, mas que concede aos estabelecimentos mais 120 dias para estes se adaptarem às novas formas de controlo técnico do ruído. A legislação permite já pressionar os donos de bares, discotecas e restaurantes a cumprir a Lei do Ruído, autorizando, como já referimos, os responsáveis eleitos da Câmara Municipal de Lisboa a aprovar com relativa rapidez restrições de horários, uma medida que tem sido poucas vezes aplicada (ver artigo 12.º do Aviso n.º 13367/2016, de 28 de Outubro).
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, na reunião descentralizada do passado dia 1 de Março, afirmou «que todos os casos concretos que sejam levantados relativamente à questão da Lei do Ruído serão alvo de investigação imediata, de avaliação imediata e das medidas que estão determinadas». Infelizmente, a noção razoável de imediato não se prolonga por um período superior a 17 meses, no caso do bar Topo, nem por anos no caso das queixas relativas ao ruído provocado na Praça do Martim Moniz pelo Mercado de Fusão. Muito menos as queixas dos munícipes em relação ao ruído são decorrentes daquilo a que os ingleses chamam «not in my back yard» (NIMBY), como também afirmou o mesmo presidente da Câmara, que insistiu na necessidade de fazer coexistir o lazer e o descanso, sem acrescentar como vai ser capaz de fazer valer a Lei do Ruído e como vai controlar os casos que são notoriamente ilegais e que se prolongam no tempo. «Os investimentos para a melhoria da qualidade de vida nestas zonas da cidade» não se resumem a mais e melhores infraestruturas, equipamentos, transportes, espaço público e políticas de habitação, como afirmou o mesmo Fernando Medina. Antes de tudo isso, os moradores que ainda resistem têm de conseguir viver quotidianamente nestes locais, sem terem que dormir com tampões nos ouvidos, sem terem que telefonar com frequência para a Polícia Municipal, sem terem que preencher queixas recorrentes no sistema Na Minha Rua e sem terem que ficar acordados até depois das 2h da manhã.
Não se entende, do mesmo modo, como não é discutida, pela Câmara Municipal de Lisboa, a anulação da concessão do espaço da Praça Martim Moniz à empresa privada de entretenimento NCS-Audiovisuais, que manifestamente não tem capacidade ou vocação para gerir o espaço e cumprir a lei, bem como respeitar o direito ao descanso dos moradores e a presença, a menos de 100 metros, de um hospital público com várias enfermarias. Sabemos, portanto, quem são os responsáveis por esta situação e sabemos quem são os responsáveis por executar a lei. Apenas é necessário que esta última seja aplicada. A Câmara Municipal de Lisboa, e as juntas de freguesia da cidade, colocam à disposição dos munícipes reuniões descentralizadas e conselhos de cidadãos que urge usar como forma de participação cívica, exigindo aquilo que é um direito e não um privilégio.
 
Mouraria, 2 de Março de 2017.
 
António J. Ramalho
 
P.S.: - Enquanto escrevia este texto, o bar Topo patrocinou a apresentação de um DJ no terraço, entre – sensivelmente – as 20h30 e as 24h. O ruído chegava à Graça. Houve quem ligasse para a Polícia Municipal. Não foram observados resultados.
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mausoléu de Alfredo da Silva (Barreiro).

 
 




Fotografias de António J. Ramalho




No sarcófago simbólico, no topo da pirâmide truncada, as seguintes palavras:

«Alfredo da Silva repousa junto da obra que criou e vela pela sua continuidade».
 
Mais informação, aqui.
 
 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Aloysius.

 
 
 




Aloysius, o urso de peluche e amigo de Lorde Sebastian Flyte, filho segundo do Marquês de Marchmain, foi visto em Lisboa. Aloysius, com o amor às coisas portuguesas que caracteriza tantos súbitos de Sua Majestade britânica, denotava no momento das fotografias o seu apreço pela calçada portuguesa e pelo vinho de Bucelas.
 
Após a participação na adaptação televisiva do romance Brideshead Revisited (1981), Aloysius desapareceu da praça pública. Correram rumores que teria acompanhado Sebastian Flyte numa vida de excessos em Marrocos e foi avistado no Bois de Boulogne, em Paris, na companhia de um urso não identificado. Todavia, a tese mais excêntrica, colocava-o numa clínica suíça, submetendo-se a uma operação plástica que o transformaria num urso polar.
 
Afinal, quando não em Lisboa, Aloysius goza a reforma na loja Teddy Bears Of Witney, não muito longe da sua alma mater, Oxford.
 
 
António J. Ramalho





sexta-feira, 16 de maio de 2014

De Lamego para o Malomil.




Torre de Ucanha (Tarouca)
 

Mosteiro de Santa Maria de Salzedas (Tarouca)
Fotografias de António J. Ramalho


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Plano Director Municipal.




         No dia 10 de Março de 2014, decorreu na Colectividade Corações de Vale Figueira, São João da Talha, uma sessão de esclarecimento cujo tema era a revisão do Plano Director Municipal do concelho de Loures. O encontro não mereceria atenção se não tivesse sido um confrangedor exemplo de desapego à realidade. Suspeito que esse desprezo pelos dados empíricos não é exclusivo do poder local, mas a contínua referência ao município lourense não é meramente ilustrativa, é o fundamento desta reflexão.
         O artigo 2.º do PDM (Objectivos e estratégia) declara que «o Plano Diretor Municipal de Loures assenta numa visão sistémica com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento sustentável do território municipal, assente em três eixos estratégicos fundamentais». Deixemos a repetição verbal e atentemos na alínea a) do terceiro eixo estratégico fundamental (qualificação socio-económica), que consiste em «ajustar o quadro de desenvolvimento urbanístico às iniciativas de criação de emprego qualificado, adequado às necessidades de qualificação de recursos humanos, designadamente nas áreas da indústria de conteúdos e do terciário avançado, em ligação aos meios académico e de investigação e desenvolvimento». Descontada a eventual anexação do concelho de Oeiras e do Taguspark, ou a hipotética criação da Universidade de Loures, a ligação aos meios académicos far-se-á, talvez, através do Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares do Instituto Superior Técnico, antigo Instituto Tecnológico e Nuclear, o que dispensa o discurso pretensioso.
         A alínea d) consiste em «estabelecer oportunidades de desenvolvimento do sector turístico e das funções de recreio e lazer, ajustadas à diversidade territorial concelhia, que se perspetivem como alavancas de reabilitação ou conservação dos recursos territoriais, designadamente culturais e naturais». Boas intenções que, infelizmente, contrastam com a realidade, pois enquanto espera apostar no turismo, a Câmara Municipal de Loures deixou que a Quinta de Valflores (localizada na freguesia de Santa Iria de Azóia), um precioso exemplo de arquitectura civil do século XVI, classificada como imóvel de interesse público em 1982, e adquirida pela CML em 2006, se tornasse uma ruína. Imagino as explicações para o descaso: a propriedade privada, o regimento jurídico, o Governo… Mas a verdade é que após a destruição da característica estrutura agrícola da quinta (o pomar, o tanque e o sistema de rega), a loggia ruiu e com ela um dos poucos edifícios, juntamente com o Palácio do Correio-Mor (privado) e o Palácio dos Arcebispos (Casa do Gaiato), que poderiam levar uma pessoa a ir propositadamente a Loures em turismo.
 
 
 
         O artigo 172.º identifica (com volúpia) as UOPG e as SUOPG, pois «o território do município de Loures é abrangido por 5 Unidades Operativas de Planeamento e Gestão (UOPG) e 19 Subunidades Operativas de Planeamento e Gestão (SUOPG)». Um dos objectivos da SUOPG 19 (Plataforma Ribeirinha) é a «promoção da ligação das margens do Rio Trancão, devendo contribuir para a continuidade do espaço verde de recreio e lazer do Parque das Nações». O problema é que apesar de agradável, o despretensioso relvado que bordeja a margem sul da foz do Trancão dificilmente se compara com os espaços verdes do Parque das Nações e a associação de ambos só pode demonstrar uma excessiva liberalidade.
 
 

 
         A alínea f) do primeiro eixo estratégico fundamental (qualificação ambiental e territorial) faz «assentar a qualificação e a expansão da rede urbana num modelo de mobilidade baseado numa rede de transportes públicos estruturada que responda às necessidades de deslocações inter e intra-concelhias». Ora a câmara que pretende «ajustar o quadro de desenvolvimento urbanístico às iniciativas de criação de emprego qualificado», mas que é naturalmente incapaz de impedir as transformações do tecido produtivo, desperdiçou duas oportunidades de agir de forma consequente e de acordo com os objectivos estratégicos que apregoa. Na Estrada Nacional 10, as fábricas construídas junto ao apeadeiro da Bobadela foram substituídas por dois supermercados sem que se tivesse aproveitado a oportunidade para construir parques de estacionamento (tal como junto a algumas estações da Fertagus) que convidassem os habitantes da freguesia a deixarem os automóveis e a seguirem para Lisboa de comboio.
 
 
 
         Suspeito que o mundo do PowerPoint e da planificação cria e alimenta um discurso convencional feito de boas intenções e destinado, em grande medida, ao consumo interno. Talvez para justificarem a sua própria actividade, agentes políticos e funcionários dedicam-se a platitudes frustres sobre a economia do conhecimento e novas centralidades, quando a maioria dos munícipes deseja prosaicamente um abastecimento de água a preços razoáveis, limpeza urbana regular e adequada iluminação pública.
 
 
 
António J. Ramalho
 
 
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Um manuscrito sefardita iluminado (1299-1300).

 
 
 


 
 
Quarta-feira, 12 Março, às 18h00, a Biblioteca Nacional assistiu ao décimo primeiro encontro do ciclo de seminários Um mês, um códice iluminado, uma iniciativa do Instituto de Estudos Medievais (IEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) e da Biblioteca Nacional, com o objectivo de divulgar publicamente investigações académicas recentes sobre obras manuscritas pertencentes ao património da BNP.
A apresentação da Bíblia hebraica da BNP, conhecida como Bíblia de Cervera (Il. 72), esteve a cargo de José Augusto Ramos, Luís Urbano Afonso e Tiago Moita (FL-UL). Conhecida pela riqueza iconográfica e pela qualidade excepcional da sua iluminura, a Bíblia de Cervera é um dos mais belos manuscritos sefarditas medievais e é um dos raros códices hebraicos de que se conhece o nome de todos os seus protagonistas. Do copista (Samuel ben Abraham ibn Nathan), ao iluminador (Joseph ha-Sarfati), passando pelo escriba responsável pela decoração massorética (Josué ben Abraham ibn Gaon).
 
 

 
 
 
A Bíblia de Cervera é um exemplo da tradição manuscrita e artística entre os judeus peninsulares, observável na importante escola de iluminura hebraica de Lisboa, no final do século XV, e uma das mais antigas e notáveis bíblias que sobreviveram à destruição das comunidades judaicas de Castela e Aragão, a partir de 1391, e da expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1498.
A Bíblia de Cervera influenciou outros manuscritos hebraicos, como a Bíblia Kennicott I (Oxford, Bodleian Library), de 1476, copiada em La Coruña para o judeu português Dom Salomão de Braga.
Raramente exposta ao público desde que foi adquirida em Haia, em 1804, a Bíblia de Cervera foi a peça central em exposição na Galeria da Europa Medieval do Metropolitan Museum of Art (Nova Iorque, 22 de Novembro de 2011 a 16 de Janeiro de 2012), e constitui agora uma das estrelas da exposição Judaica nas Colecções da Biblioteca Nacional de Portugal – séculos XIII a XVIII, coordenada por Lúcia Liba Mucznik (autora do catálogo comentado da mostra) e patente até 28 de Junho no Campo Grande.
 
António J. Ramalho

 
 


 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Scala Regia.

 
 
 
 
 
 

 
As escadas, mesmo as escadas régias, servem para subir e servem para descer. Por elas, subimos ao Palácio Apostólico (com ou sem le privilège du blanc), mas também descemos ao piso térreo onde as almas vulgarmente humanas esperam por nós, tal como os guardas suíços num momento de repouso.
 
 
 
 
Que o diga David Motta, um dos colaboradores da revista Scala Regia, dirigida por Diogo Mayo. David Motta é um dos protagonistas de O Fim das Miragens: Crime no Jet-Set, do jornalista Paulo Moura (Alfragide: Livros d’Hoje, 2008). O Fim das Miragens relata interpoladamente a vida de Maria das Dores, uma história de ambição desmedida, que conduz à autoria moral do assassinato do marido, Paulo Pereira da Cruz.
 
 
 
 
 
Condenada em 2008, em 2010 cometeu novo crime. A partir da cadeia de Tires, telefonou para o caseiro da quinta do sogro, fazendo-se passar pela cunhada, e ordenou que oferecesse mobílias e cortasse todo o pomar plantado pelo falecido marido. Também David Motta foi condenado a quatro anos e oito meses de prisão com pena suspensa pelo crime de burla agravada e falsificação de documentos, na sequência de um processo movido pelo pai. Aparentemente, David Motta transferiu 127 mil euros de uma conta do pai para uma conta pessoal.
 
 

Scala Regia
 
 
 
 
Mas o interesse da revista Scala Regia não se limita à rica história de vida dos seus colaboradores. A reportagem sobre Maria do Carmo Castelo Branco, da responsabilidade de Aurélio Gomes, merece uma leitura atenta. Com a epígrafe «George Bush ruined my life» (a revista é integralmente escrita em língua inglesa), a vida da fidalga Maria do Carmo Camacho Rodrigues de Sousa da Câmara, filha do fundador e primeiro director da Estação Agronómica Nacional e proprietária de pedreiras em Vila Viçosa, cruza-se curiosamente com a história recente do Iraque.
 
Afinal, a sua primeira paixão foi confessadamente Hans Blix, o diplomata sueco e chefe da missão das Nações Unidas que, em 2002, procurou armas de destruição em massa no Iraque. Aurélio Gomes apresenta Maria do Carmo Castelo Branco como uma mulher invulgar «since she never had to enter a kitchen for cooking purposes, as the majority of women do». De facto, é objectivo explícito de Scala Regia, desde o editorial, «reunite the most extraordinary personalities, stories and objects».
 
Maria do Carmo Castelo Branco lamenta o depressivo destino do Iraque, não só porque duvida da recuperação política e económica, «but also because this country was deprived of the beauty of her marble», já que Saddam Hussein era um grande apreciador do mármore alentejano. Mármore que, decerto, cobria as escadas do murado complexo palatino de Saddam Hussein na cidade de Tikrit, que incluía um palácio para o Presidente, outro para a mãe e para os filhos, com vista para um lago artificial. Sendo uma personalidade inusitada, Saddam Hussein incluiu, num gesto extraordinário de devoção familiar, uma sanita de ouro para a mãe e uma câmara de tortura para o filho. Provavelmente, em betão armado.
 


António J. Ramalho