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sábado, 9 de junho de 2018
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Os manuais escolares.
Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco
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Uma
família de dois filhos gastou, em Setembro deste ano, 685,68 euros em livros
obrigatórios e material. O do 5.º ano, 473,68 euros. O do 3.º ano, 212,00euros.
Outra
mãe de dois filhos deu-me informação pormenorizada sobre alguns manuais dos 7.º
e 10.º anos. O mais barato custa 23,28 euros e o mais caro 39,79euro. No total,
uma verba acima dos 600,00 euros.
Pensando
no rendimento das famílias portuguesas, na necessidade de desenvolver a
educação e no custo real da produção de livros, estes são preços absurdos.
Ao
fim de trinta ou quarenta anos de leis, umas de direita, favoráveis à
liberdade, outras de esquerda, orientados pela igualdade, temos preços de
manuais obscenos. Mais caros do que livros de autores famosos com direitos de
autor elevados...
Vejamos
o que nos diz a teoria. Com a direita, a liberdade de escolha preside à nossa
vida. A concorrência beneficia o consumidor. A mão invisível faz com que as
distorções do mercado não desempenhem um pérfido papel. Na sua impiedade, o
mercado eliminará a corrupção e a especulação. Com a liberdade, sei quais são
os melhores manuais escolares para os meus filhos.
Com
a esquerda, o Estado protector preside à nossa vida. O Estado regula o mercado
e a minha escolha é informada. A autoridade democrática impõe preços razoáveis,
zela pela igualdade, proíbe a corrupção e fomenta a qualidade técnica. Com o
Estado, sei quais são os melhores manuais escolares para os meus filhos.
O
que temos, num e noutro caso, são os manuais mais caros da Europa, pesados,
luxuosos e efémeros. Não transitam de irmão para irmão, são impressos em papel
muito caro e têm páginas inúteis em papel couché. Abundam em exercícios fúteis
e fotografias ridículas. Muitos são de medíocre qualidade técnica e científica.
A
produção de manuais escolares está nas mãos de um racket com mais poder do que o Estado e as famílias. Com mais força
do que a esquerda e a direita.
António
Barreto
(publicado
no Diário de Notícias, aqui;
reproduzido no Malomil com autorização de António Barreto – um abraço grato, António!)
domingo, 25 de janeiro de 2015
11 de Setembro: as perdas artísticas.
World Trade Center. Tapeçaria de Miró
Fotografia de António Barreto, 1978
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Na
sequência do ontem que escrevi aqui sobre o 11 de Setembro, António Barreto,
grande amigo grande, mandou-me uma mensagem que pediu para ser publicada,
juntamente com uma fotografia que tirara a uma tapeçaria de Miró:
Meu
Caro Malomil!
Caro
AA!
Esta
sua série sobre as Torres comoveu-me muito! Parabéns e obrigado. Já agora, se
me permite, gostaria de contribuir. Depois do atentado, nunca vi publicada uma
fotografia sobre esta formidável tapeçaria, enorme, que decorava o Hall de
entrada de uma das Torres. Feita pelo Miró. Deve ter ardido em segundos. Dava uma
inesperada e luminosa cor àquele universo tão de vidro, aço e alumínio... Um
abraço
AB
PS:
Talvez não pareça, nesta fotografia, mas tem vários metros de largura.
Escultura de Rodin, nos escombros do World Trade Center
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Caro
António,
Não
sei como agradecer as suas generosas palavras.
Talvez
dizendo também umas breves palavras sobre as perdas artísticas registadas no 11
de Setembro.
Segundo
o 9/11 Report, a acção terrorista de
11 de Setembro terá custado, na totalidade das várias operações, incluindo as
do Pentágono e da Pensilvânia, não mais do que 400 ou 500 mil dólares. Os
prejuízos materiais nos edifícios e infra-estruturas, só em Nova Iorque,
tiveram um valor aproximado de 10 mil milhões de dólares. Mas há dados
reconfortantes: nas primeiras seis semanas após os atentados foram recolhidos
934 milhões de dólares em donativos, a maior receita de uma acção de auxílio
financeiro da história dos Estados Unidos.
Do
ponto de vista imaterial, além do incomensurável sofrimento das vítimas e dos
seus familiares, deveremos assinalar as perdas de obras e peças artísticas que
adornavam os escritórios das Torres Gémeas ou os espaços públicos em seu redor,
tendo desaparecido trabalhos de Juan Miró, Roy Lichenstein, Alexander Calder e
tantos outros; de Gustave Rodin desapareceram 300 peças, que integravam a
colecção privada da Cantor Fitzgerald, a empresa que mais funcionários perdeu
nesse dia. Perderam-se, por exemplo, 40.000 negativos de fotografias dos Kennedys, primeiras edições de obras raras, inúmeras preciosidades (ler aqui). Algumas seriam descobertas, mas desapareceriam misteriosamente, como aqui se conta.
Estima-se que o valor das obras de arte destruídas no 11 de Setembro
se situe nos 100 milhões de dólares, referindo-se este número tão-só às peças
da propriedade de particulares.
Um abraço grato e amigo,
António Araújo
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Portugal, um retrato social.
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Unidade de Neonatologia do Hospital de Santo António, Porto |
Vitorino, Cova da Moura, Amadora |
Rio Douro |
Estação Fluvial do Cais do Sodré, Lisboa |
Antigas oficinas da Lisnave, Margueira |
Bairro 6 de Maio, Amadora |
Parque Industrial de Vila do Conde, Mindelo |
Supermercado Continente, Lisboa |
António Cachapuz, antiga fábrica da Cooperativa do Divor, Évora |
A mudança das últimas décadas, profunda e rápida, foi feita na desordem. Pela primeira vez em vários séculos, nesta antiga nação, uma sociedade homogénea torna-se plural, na etnia, na cultura, na religião e nos costumes. Um povo que não conhecia a liberdade vive em democracia. Os antigos sujeitos são hoje cidadãos. Os melhoramentos, no bem-estar, foram notáveis, mas não impediram que a desigualdade aumentasse. Os muito ricos vivem quase paredes meias com muito pobres e desempregados crónicos. Saúde, educação e segurança social exibem o melhor, a universalidade, mas não escondem o pior, a pobreza e a ineficiência. As velhas actividades parecem desaparecer, a agricultura quase se extingue, as pescas estagnam, o artesanato morre, enquanto a indústria cresce e os serviços se expandem. Os socalcos do Douro e o montado alentejano, duas paisagens sublimes, coexistem com os subúrbios de Lisboa e Porto, difíceis e desordenados. O silêncio das aldeias quase despovoadas contrasta com as filas de carros, todas as manhãs, à entrada das cidades. As imagens de Portugal, hoje, parecem pertencer a vários países e a diferentes épocas. O moderno, ora sofisticado, ora brutal, mistura-se com o arcaico. Foi este país de paradoxos que filmámos e tentei fotografar.
António Barreto
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